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Fala-se muito em ativismo, mas poucos conseguem vencê-lo. Principalmente numa sociedade injusta e selvagem como a brasileira. A gente madruga, luta o dia inteiro só para não deixar que a vida, como um trator de esteira, nos esmague. Eu tive um professor, quando ainda cursava o colegial, que gostava de repetir um provérbio bem nordestino: “se cochilar o cachimbo cai”. De fato, vivemos uma realidade tão cruel que se cochilar não dá para pagar as contas do fim do mês.

Fora o desespero de continuar boiando na superfície desse mar raivoso, a gente ainda tem que lidar com a maldita competição. Fomos educados, desde cedo, a encarar qualquer segundo lugar como o quinhão para os “menos competentes”; ninguém se sente realizado com a medalha de prata. “Seu destino é pódio; um dia vão pendurar uma medalha de ouro no seu pescoço”, nos ensinaram quando nos matriculamos naquela escolinha de judô, patrocinada pelo centro comunitário do bairro. Assim, corremos, esfolamos as mãos, suamos a camisa até puir, para nunca ser cauda; acreditamos que merecemos encabeçar a tabela do campeonato.

 O ativista sacrifica seus valores, princípios e concepção da verdade para galgar os píncaros do sucesso, da fama, da riqueza, do poder. Confesso que já fui um ativista inveterado. Devido ao meu perfeccionismo, os dias se transformavam em semanas; as semanas, em meses; os meses, em anos; os anos em décadas. De repente, assustei-me com um sujeito que me espiava de dentro de uma fotografia. Aquele senhorzinho com cara de cansado, olheiras arroxeadas e aspecto triste era eu.

“Caramba”, falei em voz alta, “gastei meus melhores anos como um ratinho na roda da gaiola, corri, corri e sem chegar a lugar nenhum”. Mal vi meus filhos crescerem, não consegui aprender a gostar de poesia, por mais de vinte anos não fui a nenhum concerto de música clássica, nunca li Machado de Assis, Thomas Mann, Victor Hugo, José Lins do Rego.

Certa vez, Jesus chamou seus discípulos e os advertiu sobre o valor da vida. Suas palavras foram agudas: “Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se ou destruir a si mesmo?” – Lucas 9.25. Por anos, entendi este texto como uma advertência para que as pessoas não gastem seus dias tentando conquistar o mundo e, no fim, acabarem no inferno. Ultimamente, graças também a Nova Versão Internacional da Bíblia, passei a compreender a afirmação de Jesus, como uma advertência existencial. Para que se esfolar por ideais se, no processo, acabar como uma pessoa sem alma, isto é, sem afetos, solidariedade e humanidade?

O ativismo brota de dois vícios existenciais: onipotência e narcisismo. O ativista acredita que tem saúde de ferro, que é imprescindível, que foi eleito o preferido dos deuses, que faz tudo melhor do que qualquer pessoa. O ativista trabalha porque, geralmente, também se enxerga como o mais bem talhado para as grandes tarefas. Ele Imagina que se algum empreendimento tiver que dar certo, tem que ter a sua contribuição. Assim, se fosse um corredor, só revezaria consigo mesmo; o medo de perder a corrida não permite que confie em qualquer parceiro.

O narcisismo é diferente porque todas as pessoas possuem alguns elementos narcisistas. O problema do narcisismo é quando ele descamba e se torna depreciativo; quando encaramuja. Um belo exemplo desse narcisismo doentio pode vir do futebol. Sabe o jogador que não admite que exista alguém que tão bom quanto ele? Em minha infância era chamado de “fominha”, pois não tem espírito de equipe, não passa a bola, quer resolver tudo sozinho e sempre prejudica o time; no dia em que se aposentar, será visto na arquibancada xingando os novatos que “só apresentam um futebol inferior”.

Somos curados da onipotência quando despertamos para a nossa mortalidade. Somos provisórios, efêmeros. Passamos rapidamente. Há pouco, constrangi-me quando vi um ancião entrando num avião, ajudado por três pessoas e arrastando os pés. Era o pastor de uma mega igreja que em tempos passados arrebatava multidões; agora mal se equilibrava para andar.

Nossos dias se acabam ligeiros. Não adianta se afobar. Você não é dono da palmatória que corrige o mundo. Conta-se que os imperadores romanos colocavam escravos nas bigas dos generais romanos que triunfavam nas batalhas para repetirem uma só frase: “Memento mortale est” – lembra-te que és mortal; era o antídoto da arrogância.

Contemple os grandes ícones da história. Todos morreram e a vida continuou. Paulo, o apóstolo responsável pelo avanço do cristianismo, foi decapitado e depois dele vieram outros que levaram a tocha do evangelho. Martin Luther King foi assassinado e sua causa continuou a ser defendida com o mesmo ardor; a liberdade civil dos negros se concretizou mesmo sem ele.

Somos curados do narcisismo quando aprendemos a valorizar dons e potenciais alheios. Já lhe disse antes: você sempre encontrará pessoas mais bonitas, mais talentosas, mais ricas, mais espiritualizadas e, se for longevo, mais jovens do que você. E como é gostoso não precisar provar nada para ninguém! Busque a excelência, mas livre da necessidade de angariar simpatias, aplausos ou aceitação.

Diego, discipline-se para ler; aprenda a degustar a vida devagarinho. Fuja dos “fast-foods”; na mesa, gaste tempo conversando, ouvindo. Time is not money - o tempo é vida e vida é uma riqueza não renovável. Assim, combata a ansiedade e diga mais vezes: “deixa estar” – let it be. Não se enxergue como uma abelha que vive para a colméia; seja um amigo que sabe curtir os bons momentos.

Lembre-se, desta vida só levaremos boas memórias. Portanto, torne-se um alquimista que transforma cada experiência, evento ou alegria, num sacramento que você carregará no bolso da alma até a eternidade.

 Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

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Extraído do site ricardogondim.com.br

Definitivamente, cansei de ir para a igreja. Estou cônscio de que uma afirmativa dessas partindo de um pastor soa, no mínimo, esquisita. Contudo, peço a você que não me julgue antes de terminar de ler todo o texto. Talvez, após isso você seja mais um a somar o pequeno número daqueles que como eu não aguentam mais ir para a igreja. A bem da verdade, este é o propósito das presentes palavras. Hã!? Você não quer deixar de ir para a igreja? Ok! Então , tchau!!! Não ficarei ofendido por não ler mais estas linhas.

Você continua aí? Obrigado, então, pela paciência! Sinto-me na dívida de honrá-la esclarecendo o assunto a que me propus ecrever. Não quero mais ir para a igreja. Simplesmente porque não quero mais abraçar uma instituição. Recuso-me a ir para a igreja, porque tenho horror de uma fé dogmática e dogmatizada. Não desejo mais ir para a igreja porque não suporto mais aglomeração.

Não há como negar que a igreja que vemos e experimentamos hoje nada tem a ver com aquilo que Deus descreveu nas páginas das Escrituras Sagradas. A disparidade já começa no fato de que hoje se vai para a igreja ao ivés de se estar com a igreja. Assim, não quero mais ir para igreja, porque igreja não é lugar a que se vai, mas, uma realidade da qual se faz parte; algo que se é. Eu estou com a igreja. Eu sou igreja.

Acredito que a distância para o ideal divino é grande. Antes eu pensava se tratar de um rio onde algumas poucas braçadas já seriam o suficiente para se chegar de uma margem a outra. Mas, hoje um pouco mais com os pés no chão e menos deslumbrado com megas-promessas de megas-ferramentas de crescimento para megas-igrejas, percebo que não se trata de um rio, mas, de um oceano divisor de continentes, a ser atravessado. Minha sugestão é a de que tal travessia seja feita de barco a remo e não de jato super sônico. Até porque a pressa com que as pessoas aceitaram certos conceitos num passado não muito diantante, pode ter sido a causa da imperfeição a que a igreja cristã chegou nos dias de hoje. Num barquinho a gente navega mais devagar e reflete um pouco mais.

Apesar do oceano a ser transposto, acredito eu que um retorno possa ser possível. (Até certo ponto, é claro). Desejo ser otimista quando se trata da noiva de Cristo. Afinal, ela é de Cristo. E não sua, nem minha ou de mais alguém. Ela tem dono porque foi adquirida sob alto preço. Assim sendo, algumas “remadas” se fazem necessárias para que a distância continental entre o ideal divino de igreja e o nosso sonho narcisista diminua.

Podemos começar pensando no fato de que a igreja tem que deixar de ser encarada como um lugar que se tem que ir. Logo, se a igreja é um lugar é certo eu dizer que vou para a igreja. Só que os cristãos bíblicos nunca iam par a igreja. Eles iam sim, mas, para estar com a igreja. Para, no estar juntos, ser igreja. A igreja se apresenta como realidade viva e dinâmica nas páginas do Novo Testamento. Mutante na localidade de sua reunião. Hoje ela podia estar reunida na casa do irmão Carlos. Mas amanhã na casa da irmã Jussara; e amanhã na casa do José; e amanhã na casa da Maria; e amanhã…; e amanhã… Entendeu? Era mais ou menos assim. O lugar não importava. O que valia era ser e estar com. O viver em comum(nidade).

Também há uma necessidade gritante de se simplificar o modus operandi do ser igreja hoje . Creio que não precisamos tanto assim de mais templos grandes e suntuosos (ora, o que desejamos ser: um grande transatlântico de vários andares onde as pessoas do de cima não conhecem as do debaixo, ou uma canoa em que precisamos dar as mãos para manter o equilíbrio para não virar?); da mesma forma tenho a impressão de serem desnecessários, igualmente, os grades programas, as grandes cantatas, os grandes planejamentos, as grandes reuniões. Parece-me que a igreja a muito sofre de um complexo de Titã: de Deus e para Deus tudo tem que ser grande. Grandes ministérios; mega-estruturas eclesiásticas. Mas, será tudo isso realmente necessário para se ser igreja? Para se estar com a igreja? Acredito que não. E talvez a vida de Cristo nos conceda algumas pistas acerca do padrão simples com que Deus encara as grandes coisas.

Outra remada urgente a ser dada é a necessidade de se cuidar de pessoas. Quando o foco está no lugar errado, o que realmente é importante acaba sendo deixado de lado. Quando superestimamos o secundário acabamos negligenciando o principal. E infelizmente, percebemos que hoje se gerencia estruturas ao ivés de se cuidar de vidas. A vida humana é grande e grandiosa. Isso pelo menos por dois fatores: primeiro porque foi criada à imagem e semelhança de Deus e em segundo porque foi dignificada pela encarnação do Verbo; o Logus de Deus, Jesus Cristo. Sendo assim, atentar para estruturas em detrimento do bem humano é no mínimo desprezar a glória e mistério da encarnação. É trocar diamante por cristal; ouro puro pelo dos trouxas.

Outra coisa importante é a necessidade de descentralização ministerial. Na igreja bíblica todos são ministros. Cada membro um sacerdote para Deus. Hoje vemos o monopólio da vida eclesiástica por uns poucos que sob um ou outro título se apresentam como aqueles investidos de autoridade espiritual sobre a vida do rebanho. São líderes (apesar de que este vocábulo não aparece nas páginas da Bíblia, nem em português e nem no grego original. O que encontramos é a palavra servo). Desse jeito, temos o clero profissionalizado que goza de privilégios e dispõe de “autoridade” para tomar deliberações, em muitos dos casos, arbitrárias. E o povo, laico, tido por ignorante das coisas mais profundas de Deus, balança a cabeça de forma afirmativa como amistosas vaquinhas de presépio (desculpe-me mas ela tá afiada hoje). Todavia, à parte de tudo isso, nas Escrituras a igreja funcionava à base de dons místicos do Espírito Santo. Um ministério não era conduzido pela autoridade angariada por um título, mas, pela dinâmica da graça presente na concessão de um dom de Deus. Cada um com o seu. Distribuídos como o Espírito queria.

Uma última remada para finalizar, pois já me estendi demasiadamente, é a urgência em se buscar uma verdadeira comunidade na vivência de igreja. Ou melhor dizendo, convivência. Isso porque comunidade é convívio de realidades em comum. É o âmago de onde emerge o “alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram”. Comunidade é algo diferente de aglomeração. Eu constantemente me encontro numa grande aglomeração humana chamada de Centro da cidade do Rio de Janeiro. Mas, nem por isso, me sinto em casa. Pelo contrário. Porém, quando me reúno com os santos em Cristo Jesus; humanos como eu. Indefesos, inseguros, feridos, mas que nem por isso desistem de sonhar, como eu. Onde posso ser eu mesmo e mesmo assim ser acolhido em graça e na graça. Sinto que pertenço a alguém. Aprendo que a travessia do deserto seria muito mais dolorosa se não existissem companheiros de jornada. Aglomeração é solidão no meio de muita gente. Comunidade é estar junto de, não importando a quantidade de pessoas ao seu redor. Podem ser cem, duzentas ou mil. Mas também vinte ou cinquenta. Não importa. O que vale mesmo é o viver comum em comum. O partilhar de sonhos e de frustrações; de vitórias e de derrotas; de alegrias e de tristezas; de sorrisos e de lágrimas; de vida e de luto. Certa vez li esta frase num livro e nunca mais me esqueci, exatamente por concordar com ela: “As igrejas deveriam ser o último lugar para alguém se sentir só”. Assino em baixo!

Definitivamente, repito, não quero mais ir para a igreja. Espero que você tenha compreendido minhas razões. Não desejo mais ir para a igreja porque igreja se soletra vida cristã. E vida cristã é jornada, é peregrinação que não pode ser asfixiada na clausura de dogmas, vaidades e instituições humanas.

***

Igreja é corpo místico de Cristo. É mistério de sua presença neste mundo que se desdobra por veredas iminentemente humanas, de carne e osso. Assim sendo, desculpe-me a prolixidade, não quero ir para igreja. Quero mais comunidade e menos aglomeração (não desejo me sentir só em meio à multidão). Quero mais simplicidade e menos exibição. Quero amar mais, cuidar mais de gente do que gerenciar grandes estrtuturas que acabam por se tornarem verdadeiros elefantes brancos na sua funcionalidade, atrapalhando mais do que ajudando. Quero mais ministério, mais sacerdócio, mais o servir, e menos profissionalismo clerical. Mais distribuição de dons em detrimento de egos super-inflados por títulos e cargos.

***

Desejo sim, anseio por, estar com a igreja. Almejo com todo o ardor do coração ser igreja, ser comunidade, ser Corpo de Cristo, ser família de Deus.

Ir para a igreja!? Perdoe-me a franqueza… Nunca mais!

O grande desafio humano, nestes dias de aridez existencial, é conseguir acessar um nível de experiência de vida que lhe seja satisfatória. A luta contra o tédio e a melancolia, e ao mesmo tempo, a busca por um estilo de vida embuído de significado e propósito constituem-se na luta acirrada do homem e da mulher contemporâneos.

Isso me faz lembrar da história de um grupo de alunos de uma conceituada escola preparatória dos EUA. Ela foi contada no filme “A Sociedade dos Poetas Mortos”. Tudo começa quando o professor John Keating, estrelado pelo ator Robin Willians, substitui outro professor na disciplina de literatura. Na primeira aula Keating, para o espanto dos alunos, chama a todos para fora da sala e os leva a um hall onde se encontravam vários quadros com o retrato de turmas que já tinham passado pela escola. Keating começa a ministrar àquele grupo de rapazes desconfiados o legado que o olhar e a fisionomia daqueles estudantes antigos lhes queria transmitir. E o legado era “Carpe Diem”.

Antes disso o professor já lhes havia introduzido ao significado desta frase “Carpe Diem”. Trata-se de duas palavras em latim que significavam “aproveite o dia”. Keating surpreende aquele grupo de adolescentes, que a princípio não estava entendendo muita coisa, lhes dizendo que os alunos imortalizados naquelas fotos lhes transmitiam seu legado: “Carpe diem! Aproveitem o dia, rapazes! Fçam de suas vidas algo extraordinário”. Bem, não vou contar o restante do filme, pois, se você ainda não o assistiu, encorajo-o a fazê-lo.

Carpe Diem é o próprio grito de guerra daqueles que não se resignam a viver vidas superficiais e diminuídas. É o estandarte que os que buscam agregar valor e propósito à existência carregam. Crape Diem é o lema dos que lutam contra o tédio e a melancolia. Voltando ao filme, Carpe Diem é a grande descoberta que cada um daqueles jovens vai fazendo acerca da própria vida nas suas multiformes dimensões: amizade, amores, personalidade, vocação etc. Carpe Diem é a grande descoberta da vida deles.

Confesso que da minha também foi. O filme me impactou para sempre. Contudo, esta não foi a minha maior surpresa em relação a este conceito de carpe diem. Ó! Quão grande foi meu susto quando descobri que a Bíblia, a milhares de anos atrás, já descobrira que a vida é algo feito para ser o mais extraordinário possível. Que se pode, sim, alçar um vôo acima das densas nuvens tempestuosas da mediocridade. E avistar um céu limpo de possibilidades e esperança.

O livro de Eclesiastes, em especial, nos conduz por esta releitura da vida. Isso não significa que ele a mascare amenizando assim a realidade. Não, pelo contrário. Eclesiastes mostra como a vida realmente é: uma sucessão de acontecimentos repetitivos, cíclicos que parecem nos levar sempre para o mesmo lugar. Esta aparente “mesmice” é de onde se origina o tédio e a melancolia que tanto tem caracterizado a saga humana por estes séculos.

Eclesiastes faz parte na bíblia do bloco dos escritos sapienciais. A sabedoria de viver é o assunto principal destes escritos. No salmo 90, atribuído a Moisés, lemos o seguinte no verso 12:

“Ensina-nos a contar nossos dias para que alcancemos coração sábio”

Para o judeu há basicamente uma grande diferença entre sabedoria e inteligência. Esta trata meramente da intelectualidade, da quantidade de informação comportada no cérebro, enquanto aquela tem a ver com a experiência adquirida com o passar dos dias que acabam por nos ensinar a viver, e a viver bem. Logo, isso é sabedoria: a arte de viver bem. Simplificando, este é o pedido de Moisés a Deus: Senhor, ensina-nos a vivermos com qualidade, com significado e com propósito. Mostra-nos como fazer da vida algo extraordinário”. Carpe Diem!!! É disso que Moisés está tratando. Não é incrível!?

Voltando ao livro de Eclesiastes, é exatamente sobre isso que ele nos instrui. A como vivermos com qualidade e com significado em meio às desventuras desta vida repetitiva. O desafio de encontrar singularidade e profundidade na rotina do cotidiano. Há um capítulo que, de forma especial, nos faz este convite. Este é o capítulo 9, mas especificamente os versos de 7 a 10:

(7)“Vai e come com alegria o teu pão e bebe o teu vinho com coração contente; pois há muito tempo Deus se agradou do que tu fazes.

(8) Sejam as tuas vestes sempre bem cuidadas, e nunca falte o óleo sobre a tua cabeça.

(9) Desfruta a vida com a mulher que amas todos os dias desta vida de ilusão, que Deus te deu debaixo do sol, sim em todos os dias da tua vida de ilusão. Porque essa é a tua recompensa nesta vida pelo trabalho que fazes debaixo do sol.

(10) Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o com todas as tuas forças, porque na sepultura, para onde vais, não há trabalho, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria.”

Nestas breves sentenças destilam princípios que nos ajudam a extrair da vida, a despeito dos entraves, todo seu potencial criador. São atitudes práticas que nos farão conectar com esta sabedoria que desemboca em águas profundas.

Primeiramente, devemos aprender a nos alegrar com as coisas simples desta vida. Isso é descrito nas palavras do verso 7 - “Vai e come com alegria o teu pão e bebe o teu vinho com coração contente”. Alcançar alegria e contentamento nas coisas simples e efêmeras: eis o grande desafio. Isso é substancialmente o contrário do que a sociedade tem feito as pessoas acreditar. Que é necessário ter muito para que se seja feliz. Que a essência da vida está nas grandes coisas, nos grandes momentos, nos grande lugares. Quando necessariamente isso não é verdade. Somos uma geração de pessoas que desaprenderão a saborear os pequenos momentos. Isso fica bem claro quando pensamos em como nos alimentamos. Nos esquecemos que a boca não foi feita apenas para que o alimento entre no nosso corpo, mas, também para que experimentemos o prazer que o sabor dos mesmos nos proporcionam. Porém, a pressa destes dias nos leva a a engolirmos a comida em meio a garfadas de ritmo frenético. Sem ao menos dar espaço para que a alegria e a gratidão surjam entre elas. Definitivamente a vida não é complicada. Nós é que a tornamos com nossa sede doentia por glamour e compexidade. Simplificar os dias celebrando as coisas simples que Deus coloca diante de nós, é o segredo da felicidade perene.

Em segundo, necessitamos aprender também a nos alegrar com as coisas simples da vida, desfrutando-as ao lado das pessoas que amamos. O verso 9 nos exorta a fazer isso - Desfruta a vida com a mulher que amas todos os dias desta vida de ilusão, que Deus te deu debaixo do sol”. A “mulher que amas” simboliza toda a gama de pessoas cuja vida e presença são significativas para nós. Devemos, a cada momento nos fazer a seguinte pergunta: Onde estão as pessoas que eu amo e que me amam também? As coisas ordinárias da vida ganham seu significado pleno quando compartilhadas com alguém, principalmente com pessoas com quem temos laços afetivos profundos. Infelizmente vivemos numa sociedade individualista onde o ser humano se sente cada vez mais solitário em meio à multidão. Esta mesma sociedade nos desencoraja na busca de fomentarmos relacionamentos profundos e duradouros. Sair de dentro desta casca isolante é que é o nosso grande desafio. Tendo isso em mente é que devemos lutar para firmar amizades que já temos e nos abrir para cultivarmos novas. Amizades verdadeiras vão além de encontros esporádicos em meio a festas de conhecidos em comum e conversas cibernéticas diante do monitos de um computador. Amizade é gastar tempo juntos, mesmo que seja o mínimo. É via de mão dupla: dar e receber. Amizade significa compartilhar vida. Quantos amigos você tem? A quanto tempo não os visita? Igualmente, e nem por isso menos importante, devemos também investir em momentos com a família. Família aqui num sentido mais geral do termo. Na sociedade individualista e isolacionista dos dias de hoje, somos, com frequência, convidados a nos enconder por detrás de nossas atividades como trabalho, cursos, afazeres domésticos, robs pessoais etc. E na grande maioria das vezes, inexoravelmente, estas coisas nos afastam, porque lhe tomam o lugar, da família. Contudo, devemos esmurrar e lutar para abrir buracos em nossa agenda criando, assim, tempo para estarmos juntos com nossos queridos. Tlavez amanhã seja tarde demais para dizer “te amo”.

Por último temos uma urgência enorme em aprender a viver com intensidade cada pequeno momento da vida, emprestando-lhes plenitude de significado. O sábio em Eclesiastes assim nos diz no verso 10 -Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o com todas as tuas forças”. Ou seja viva intensamente cada momento. E isso um de cada vez. No entanto, extrair a plenitude de significado dos pequenos e ordinários momentos que a vida nos proporciona, não significa nos deixar afogar ou ser atropledos por eles.
Um bom conselho para isso é viver um dia de cada vez. Estar totalmente presente no momento. Infelizmente vivemos em meio a uma sociedade pré – ocupada. Ou seja, pessoas que são viciadas em sofrer por antecedência. E com isso acabam abrindo suas vidas para a ansiedade, o medo e todo tipo de síndromes fobíticas e patologias auto-causadas. Não é a toa que os níveis de estresse em nossa sociedade estão altíssimos. Enquanto que as doenças cardio respiratórias e cardio vasculares se multiplicam. Contudo, podemos escapar deste quadro. E a grande notícia é que não precisamos esperar os chamados grandes momentos da vida como casamentos, nascimentos, festes de aniversário, para vivermos com intensidade de significado. Basta apenas que aprendamos a estarmos abertos e receptivos áquilo que nos é oferecido por detrás destes milhares de pequenos momentos do cotidiano. Assim, um almoço com amigos, uma visita a um parente querido, o abraço carinhoso de um filho, um passeio em família podem tornar-se verdadeiros sacramentos onde nos é oferecido algo que transcende o meramente humano e natural. Basta que nos entreguemos e vivenciemos com jubilosa alegria estes momentos que são verdadeiros milagres do comum.

É verdade! A vida algumas vezes é difícil, ária, sofrida. Cheia de dores, perdas e obstáculos. Todavia quem disse que ela tem de ser amarga, feia e sem sentido? Ver um sorriso na vida, ou não, só depende nós. Basta que resgatemos o valor das pequenas coisas. Que as desfrutemos na companhia de pessoas a quem amamos e que estes momentos sejam experienciados na sua plenitude de propósito e significado. Somente isso já basta. Assim veremos que Carpe Diem é algo mais do que parte do enredo de um bom filme. Trata-se da própria alegria da descoberta de que a vida foi feita para ser algo extraordinário. Que fomos feitos para algo a mais do que simplesmente virar comida de vermes.

“Eu vim para que tenham vida, e a tenham com PLENITUDE”

(Jesus Cristo – João 10:10b)

Há muito que o cristianismo ocidental perdeu aquele “quê” de assombro, deslumbramento e fascinação diante do mistério divino. Deus se tornou mais comum na mentalidade contemporânea do que podemos imaginar. Temos assistido a completa trivialização do Sagrado e a perda da sensibilidade ao numinoso.

Em dias de capitalismo selvagem, que não apenas tem devorado o recheio de nossos bolsos, mas também engolido nossas almas, a relação homem e Deus sofreu uma dramática reviravolta. O que antes nos fazia ficar estasiados em silêncio, contemplando Aquele que nossa mente não pode compreender, mas nosso coração pode abraçar, hoje é encarado e buscado como mera alavanca para se angariar benefícios pessoais. A fé utilitarista, o discurso triunfalista estão em moda, aliciando a cada dia mais um grande número de admiradores.

Na teologia e no discurso de muitos dos segmentos cristãos da atualidade Deus se vê contra a parede em meio a inúmeras exigências, determinações, constrangido por causa de suas próprias promessas contidas nas Escrituras a atender o homem na hora e do jeito que este o quer. Vemos agora uma drástica troca de soberania: o homem ocupa o trono e a autoridade, enquanto o Deus Triúno, Santo e inescrutável em seu insondável mistério, é colocado como mero lacaio á disposição dos ditames egoístas, e porque não mimados, do mesmo.

Não há necessidade de se dizer que a nossa vida de oração sofreu com tamanha mudança de mentalidade. Nestes dias o paradigma orante são nossas intermináveis listas de pedidos que apresentamos a Deus em nossos momentos devocionais. A meu ver aqui já começa uma grande contradição, pois, devoção não tem nada a ver com pedir, exigir ou determinar algo. Devoção tem mais a ver com dedicação, com o reapaixonar-se, com o redescobrir do assombro que surge na contemplação pura do ser amado. Neste contexto é que devemos redefinir a oração como encontro com Deus.

Um encontro é algo muito importante. Há encontros que marcam indelevelmente a vida das pessoas. Por exemplo os pais que vão ao aeroporto recepcionar o filho a quem não vêem já algum tempo, pois este estuda no exterior. Ou então aquele momento em que separamos para investir um tempo de qualidade junto com ele ou ela. A grande verdade é que os encontros fazem parte da nossa vida. Estão entretecidos na vasta teia que compõe nossa vida de relacionamentos.

Nos encontros não há interesses egoístas. Encontros não permitem exigências ou determinações arbitrárias. Encontro é presença: eu e tu. Encontro é troca. Encontro é dedicação. Encontro é paixão. Paixão que deixa boquiaberto, extasiado , passivo perante o amor que é transmitido através da eloquência de um olhar silencioso. Muita das vezes enconto não requer palavras. Elas são desnecessária. Quando não, acabam por profanar o sagrado do momento. Isso! Encontro é algo sagrado.

Na dinâmica da vida de oração não é diferente. Ou pelo menos não deveria ser. Oração é encontro com o Deus Triúno envolto em mistério, que habita em luz inacessível. Oração é ter a certeza de encontrar a mim mesmo e ao Deus que me conhece e que mesmo assim insiste em continuar me amando, apesar de… Oração como encontro, logo, é comunhão apaixonada entre duas partes amantes e que desejam estar uma na presença da outra.

Desse jeito o silêncio pode, e muito, contribuir para a oração como encontro: com Deus e comigo mesmo. Ao colocar-me na presença de Deus sem palavras posso ficar atento aos pensamentos que brotam em minha mente. E desta forma ser confrontado pelas realidades que muita das vezes ocultam-se por detrás dos mesmos. No âmago dos meus pensamento pode estar a revelação dos “demônios” que afligem a alma. A partir disso posso me colocar na presença do Deus que já me conhece, me acolhe como estou e me ama como sou. Apresento a ele meus anseios e assim a oração passar a ser um encontro comigo nos lugares mais obscuros de minha existência humana e com o Deus que é luz e que a todos ilumina.

Não existe pensamento mais libertador do que este: que posso ser eu mesmo, sem máscaras e desprovido de fobias diante de Deus. Com Deus tenho completo espaço de ser aquilo que sou e não o que as expectativas e exigências dos outros esperam de mim. Quem sou verdadeiramente já não é mais definido por circunstâncias externas, mas, pela imagem original que Deus tem de mim: sou um filho de sua graça, intensamente amado por Ele. E isso me basta.

Assim, sendo a oração uma ponte a se atravessar para um encontro consigo e com o Deus que nos aceita como somos, logo, a oração deve constituir-se para nós numa experiência de aconchego, paz e intimidade. Ao orar nos colocamos, conscientemente, recostados no seio dAquele que é mais do que Senhor. Estamos descansando na presença de quem nos chama de amigos seu.

Consideremos também a meditação como um auxílio para orarmos à moda de um encontro. Quando nos assentamos aquietados para ler sem pressa a Palavra de Deus, abrimos um espaço para que Cristo fale ao nosso coração. Afinal de contas Ele é Logos, Palavra. E nos fala por intermédio de sua palavra. Abrir a Bíblia é ter a boca do Altíssimo aberta para nos falar. O texto em que ouvimos a voz do Eterno é lugar sagrado, onde a sarça arde sem se consumir e nos colocamos descalços ante o mistério do Deus que nos chama pelo nome.

Logo, quando oro em resposta àquilo que Deus falou ao meu coração, esta oração não deixa de ter as dimensões de um encontro. Meu coração se derrete perante o calor de sua voz ecoando das páginas do Livro. Minha vida como um todo age, reage e responde a sua vontade revelada nas páginas da Bíblia. Oração: encontro da Palavra de Deus com meu coração que responde, sedento por Deus.

Oração é mais, muito mais do que aquilo que as pessoas têm feito com ela por aí. Oração não é algo do tipo gênio da lâmpada, nem botão que basta apertar para que recebamos aquilo que queremos, muito menos um memorando destinado ao Chefe do Almoxarifado celestial. Não! Mil vezes não!!! Pelo contrário, oração é comunhão. Orar é travar intimidade e proximidade. Orar é devoção, é entrega de nós mesmos: tudo o que temos e tudo o que somos. Oração é descoberta do eu e revelação do Tu. É lugar secreto de paz, equilíbrio, harmonia e saúde. É experiência pessoal. União perfeita entre duas partes que se amam e se desejam.

Que possamos amar a Deus em oração e através da oração. Que lancemos de nossas vidas, de uma vez por todas, esta concepção mercantilista da fé que encara a oração como mera ferramente para se obter aquilo que se deseja. Que a frieza seja removida de nossos corações novamente, mais uma vez. E que a chama do amor divino volte a arder e nos consumir em emoções sagradas e afetos santificados. Que a oração nos seja mais do que um exercício religioso. Mas um encontro de amor arrebatador com nosso Paizinho Querido que nos convida, como crianças recém-nascidas, a descansarmos em seu colo. Sem pressa. Sem preocupação.

Que assim seja!

Há um pouco mais de dois meses atrás, o mundo inteiro se viu chocado com o desastre envolvendo o Air Bus da companhia francesa Air France, o qual caiu nas águas profundas do oceano Atlântico, ceifando com isso a vida de mais de duzentas pessoas, entre brasileiros e outras etnias. Quantas famílias, carreiras, sonhos e amores interrompidos por uma queda catastrófica que durou apenas alguns minutos.

Talvez você esteja se perguntando porque só agora resolvi escrever algo sobre o assunto. Confesso que em termos cronológicos já é um pouco tarde ou atrazado para fazê-lo. Por outro lado, também devo admitir que situações como essas levam tempo para se digerirem no meus mundos intelectual/ emocional/ espiritual. Principalmente o emocional.

Muito já se foi divulgado nos meios midiáticos acerca da tragédia: cobertura da imprensa; entrevistas com familiares e especialistas; debates em programas de auditório etc. Não menos divulgados têm sido os pareceres dos especialista acerca do que realmente pode ter acontecido com aquele gigante de aço que sepultou nas trevas da trinteza, dezenas de famílias que hoje choram a saudade de seus queridos, que partiram definitivamente.

A despeito de conjecturas e afirmações hipotéticas, acontecimentos trágicos como este sempre novamente reabrem a polêmica discussão acerca do sofrimento humano à luz da pressuposição existencial de Deus. Nesta dimensão as perguntas e suas respostas cheias de achismos, conjecturas e hipóteses igualmente se multiplicam.

Aqui, não pretendo levantar mais perguntas, muito menos conjecturar novas respostas. O meu propósito é que possamos refletir à luz da Palavra de Deus a conjunção provocadora DEUS DE AMOR x SOFRIMENTO HUMANO.

Para isso reporto-me a uma das histórias bíblicas que toca neste ponto nelvrágico da existência humana: o livro de Jó. Jó foi um homem que se deparou com as tragédias da vida. Perdeu seus bens, depois os filhos soterrados enquanto comiam na casa do irmão mais velho. Se não bastasse, Jó se vê acometido de uma enfermidade estranha que lhe cobriu o corpo de feridas desde a sola do pé até o coro cabeludo.

Como em todo os casos de tragédia, à semelhança do Airbus em questão, Jó é visitado por um grupo de especialistas – três amigos que lhe tentam explicar os porquês e os paraquês de tudo o que havia acontecido. Curiosamente a graduação deles em tragediologia não traz qualquer luz de discernimento ao desafortunado Jó, não podendo assim lhe dar alívio algum.

Em determinado momento Jó resolve alçar a voz da dúvida (ou será da raiva?) questionado (ou será desabafando?) a Deus acerca de seus caminhos inescrutáveis. (Quem nunca fez isso? É por isso que gosto tanto de Jó). Bem, voltemos a história. Em seguida Deus responde ao inquieto Jó, bombardeando-o de perguntas retóricas, apenas para que ele se coloque no seu devido lugar. Aqui em meio a esta queda de braços aparentemente injusta, o Senhor misericordiosamente aciona a chave que traz a claridade o que Jó tanto precisava para escapar daquela “noite” tenebrosa em que se encontrava.

A resposta de Jó é uma oração simples em palavras, mas, rica em percepções acerca do sofrimento humano diante da existência de um Deus de amor. Esta oração ficou registrada no capítulo 42 do seu livro, e vai do verso 1 ao verso 6, a qual transcrevo na íntegra:

(1) “Então Jó respondeu ao Senhor:

(2) Bem sei que tudo podes e que nenhum dos teus planos pode ser impedido.

(3) Quem é este que sem conhecimento obscurece o conselho? De fato falei do que não entendia, coisas que me eram maravilhosas demais e eu não compreendia.

(4) Ouve-me, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me responderás.

(5) Com os ouvidos eu tinha ouvido falar a teu respeito; mas agora os meus olhos te vêem.

(6) Por isso me desprezo e me arrependo no pó e na cinza.”

Nesta breve e profunda prece aprendemos verdades importantes a respeito do sofrimento e da presença amorosa de Deus.

1. O SOFRIMENTO É UM MISTÉRIODe fato falei do que não entendia, coisas que me eram maravilhosas demais e eu não compreendia” (V.3b).

Jó demonstra que entendeu isso ao dizer as palavras acima. O que mais me intriga é que Deus simplesmente não se dá o trabalho de responder aos questionamentos de Jó.

Quando a questão é o sofrimento nós temos duas escolhas. E o caminho que optarmos determinará de que maneira iremos encarar os nossos infortúnios. Você e eu podemos encarar nosso sofrimento como um problema ou como um mistério.

Se o encararmos como um problema nós sempre de novo carregaremos o peso de tentarmos encontrar soluções, razões para o mesmo. Arrastaremo-nos com os pesados fardos dos “por quês” e para quês” de isso e aquilo nos ter acontecido. Fardos estes que com o tempo nos roubarão a alegria, o ânimo e a esperança. Nos deixando exauridos e em pedaços.

Contudo, quando enxergamos aquilo que nos acontece de ruim como um mistério da soberania de Deus, isso se traduz como um convite a confiramos mais, a descansarmos mais. Já não necessitaremos de respostas e nem de soluções, pois, o que temos perante nós não é uma situação aleatória de angústia, mas, um mundo envolto pela presença misteriosa do Deus Totalmente Outro que a tudo e a todos controla. Em meio a noite escura da alma podemos ter a certeza de que a luz de Deus brilhará para nós mais uma vez.

Encarar o sofrimento como um problema só nos trará algemas e grilhões emocionais e existenciais. Enquanto que ao ousarmos adentrar na densa nuvem do mistério divino, paradoxalmente acharemos luz, abundância e liberdade.

2. O SOFRIMENTO É UM CONVITE PARA UM CAMINHAR A DOIS -Com os ouvidos eu tinha ouvido falar a teu respeito; mas agora os meus olhos te vêem.” (v.5)

Toda aquela tragédia, segundo o próprio Jó, lhe revelou um Deus que ele ainda não conhecia. De um conhecimento meramente oral e teórico, aquele homem de carne e osso, tem uma experiência pessoal com aquele que é Mysterium et Tremendum.

Jó então percebeu que em meio aquele cenário caótico, naquele deserto de aparente desesperança brotava um renovo: a oportunidade ímpar de se achegar mais próximo de Deus. Toda aquela dor poderia se transformar num convite para uma caminhada a dois: Jó e Deus; Deus e Jó. O eu e aquele que é Tu. Numa amizade e companheirismo que não apenas excedem a dúvida e a dor, mas que abrem espaço para ambas. Você se encontra no quarto escuro do sofrimento? Talvez Alguém esteja lhe chamando pelo nome. Ah! Você precisa ver como o dia está lindo lá fora… Convidativo para uma caminhada.

3. O SOFRIMENTO FAZ PARTE DE UM PLANO MAIOR“Bem sei que tudo podes e que nenhum dos teus planos pode ser impedido” (v.2).

Jó compreendeu finalmente que tudo o que lhe havia acometido tratava-se de um enredo muito mais amplo do que as pequenas cenas que sua mente finita e limitada podia compreender.

Não que isso signifique que foi Deus que orquestrou toda aquela desgraça na vida de Jó. Mas sim que, em meio a seus infortúnios, os planos de Deus não estavam sendo interrompidos. Deus não havia sido pego de surpresa e muito menos precisava por em prática um plano B porque o A havia falhado. Deus estava no controle de tudo e soberanamente levando a cabo seus propósitos de amor.

Escutemos o que o próprio Senhor tem a nos dizer sobre isso em outro trecho das escrituras:

“Pois eu bem sei que planos tenho a vosso respeito, diz o Senhor; planos de prosperidade e não de mal, para vos dar um futuro e uma esperança” (Jr 29:11).

No Novo Testamento o apóstolo S. Paulo nos confirma tão bendita verdade ao declarar:

“Sabemos que Deus faz com que todas as coisas concorram para o bem daqueles que o amam, dos que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8:28).

Esta é a certeza que Ele quer que tenhamos: tudo está sob controle. Não estamos sós neste universo!

Jó nos deixou um grande exemplo de fé, integridade e paciência em meio aos graves problemas que podem recair sobre a vida de qualquer um.

Que possamos meditar nisso e seguir seu exemplo. Sabendo que as tragédias e angústias a que estamos sujeitos neste mundo não são o fim de nada. Pelo contrário, abre-se um novo horizonte de possibilidades e oportunidades, antes, não imaginados por nós.

Nada te perturbe,

Nada te espante,

Tudo passa,

Deus não muda,

A paciência tudo alcança;

Quem a Deus tem Nada lhe falta: Só Deus basta.

Eleva o pensamento,

Ao céu sobe,

Por nada te angusties,

Nada te perturbe.

A Jesus Cristo segue Com peito grande,

E, venha o que vier,

Nada te espante.

Vês a glória do mundo?

É glória vã;

Nada tem de estável, Tudo passa.

Aspira às coisas celestes,

Que sempre duram;

Fiel e rico em promessas, Deus não muda.

Ama-O como merece,

Bondade imensa;

Mas não há amor fino Sem a paciência.

Confiança e fé viva Mantenha a alma,

Que quem crê e espera Tudo alcança.

Do inferno acossado Muito embora se veja,

Burlará os seus furores Quem a Deus tem.

Advenham-lhe desamparos, Cruzes, desgraças;

Sendo Deus o seu tesouro, Nada lhe falta.

Ide, pois, bens do mundo,

Ide, ditas vãs;

Ainda que tudo perca,

Só Deus basta.

_______________

S. Teresa de Ávila

Ao que tudo indica, estas duas palavras tão comuns do nosso vocabulário, por algum motivo, largaram-se as mãos e se divorciaram radicalmente. Necessitamos com urgência reconciliá-las em nossa espiritualidade cristã, se verdadeiramente desejamos mergulhar nas profundezas ainda inexploradas das riquezas divinas.

Desde o momento em que houve a ruptura entre mente e afetos; razão e emoções, ao que tudo indica, as Escrituras começaram a ser encaradas como objeto de investigação acadêmica. Como resultado disso vimos emergir uma teologia intelectualizada, hoje, incapaz de fazer arder em chamas o coração humano. Lê-se a Bíblia com o intuito apenas de se reunir o maior número possível de informações doutrinárias, as quais são expostas nas salas de aula de instituições de ensino cristãs e dos púlpitos de comunidades de adoração com o propósito de unicamente informar as pessoas.

Sendo assim, acabamos por presencia um grande número de cristãos bem instruídos intelectualmente, sem que com isso tenham suas vidas transformadas. Parece-nos que Bíblia e caráter em constante transformação e conversão são duas realidades que hoje em dia tem pouca o quase nenhuma ligação.

A leitura da Palavra de Deus deixou de ser uma experiência do coração que nos atinge mediante uma obra da graça, para deturpar-se numa mera peripécia intelectual de quem a lê. Somos alcançados em nossa mente, contudo, nosso coração permanece intacto. E, consequentemente, nossa vida não transfigurada numa beleza cristificada.

Eis que exércitos inteiros de intelectuais, ébridos em suas próprias jactâncias, exibindo o estandarte de seus títulos acadêmicos avançam rumo às Escrituras para analisá-las, dissecá-las, dominá-las e desvendar seus mistérios que nem homens como João, Pedro e Paulo o fizeram. “Tenho meu Phd; consegui meu Thd”, advogam e se autojustificam os mesmos.

Diante disso, acredito que se desejamos mesmo colocar-nos perante a Bíblia como os primeiros cristãos faziam, faz-se necessários tirarmos as sandálias de nosso orgulho e arrogância intelectuais e nos ajoelhar humildemente sabendo que nos encontramos caminhando em solo sagrado. A sarça ainda arde sem se consumir nas páginas do Livro, o que nos abre a possibilidade de um encontro real e pessoal com o Deus que nos conhece e nos chama pelo nome.

“E, vendo o Senhor que ele se aproximava para ver, chamou-o do meio da sarça: Moisés, Moisés! E ele respondeu: Estou aqui”

Bíblia e encontro. Para que isso nos seja novamente possível; para que haja esta reconciliação, necessitamos primeiramente nos achegar da forma e com uma atitude correta diante das Escrituras. Precisamos, de uma vez por todas, decidir: o que queremos ser? Teólogos, acadêmicos dissecadores ou filhos apaixonados de um Pai amoroso e amigo? Nossa escolha determinará diretamente a forma como lemos e a motivação pela qual nos achegamos à Bíblia. O que queremos ser? De que jeito desejamos ler?

Acredito que uma das formas de reavermos o encontro com Deus através da Palavra, encontro este que atinja o coração e não apenas a mente, com isso gerando transformação de vida, é resgatando uma tradição contemplativa de meditação chamada de Lectio Divina. Esta forma de ler as Escrituras remonta desde os primórdios do judaísmo. Foi sistematizada no século XII por Guigo II, um monge cartuxo. Não obstante, se tem notícias que antes mesmo disso a essência deste método já se configurava como a forma como os primeiros cristãos buscavam seu alimento espiritual nas Escrituras.

Guigo definiu este método de leitura na forma de uma escada de quatro degraus, a saber: leitura; meditação; oração e contemplação. Tendo como meta principal o encontro pessoal com o Cristo vivo que habita o nosso eu interior. O método é tão simples que todos podem praticá-lo.

Primeiramente, antes de tudo, é necessário colocar-nos numa atitude de escuta e numa expectativa de encontro. É muito pertinente nesse sentido colocar-nos em silêncio como preparação que antecede a leitura. E por que o silêncio? Pelo menos por dois motivos: Um deles é para fazer calar as múltiplas vozes interiores que acabam abafando e disputando nossa atenção e com isso impedindo-nos de ouvir a voz de Deus em nós. É um momento não apenas para silenciar palavras, mas , também, para apaziguar o coração.

A segunda razão deste período de silêncio antes da leitura é para nos preparar para escutar. A Escritura diz “O homem seja pronto para ouvir; tardio para falar…”. Escutamos mal porque falamos demais. Nossa tagarelice acaba por nos impedir de ouvir o que Deus tem a nos dizer. O silêncio nos ajuda a corrigir este tipo de desvio. E prepara nosso mundo interior para ser invadido e arrebatado pela Palavra divina.

O degrau seguinte é a leitura do texto em si. Recomenda-se a escolha de um texto curto e não de capítulos inteiros. Devemos sempre nos lembrar que o intuito é o de um encontro com Deus e não o de colher informações. Como deve ser feita esta leitura? Esta leitura deve ser reverente. Numa atitude de temor, deslumbramento e adoração nos achegamos ao texto sabendo que se trata da Palavra de Deus e não dos homens. Esta leitura também deve ser atenta. Sem distrações e sem interrupções. A leitura também precisa ser lenta. Sem pressa, sem passar batido, sem correr. Cada palavra precisa ser saboreada devagar. Leia pelo menos três vezes o texto. Por fim, a leitura precisa ser audível. E isso tem uma razão de ser. Já foi comprovado cientificamente que aquilo que nós lemos vai direto para o nosso cérebro, perpassando por movimentos intelectuais de nossa mente e lá ficando. Enquanto que, por outro lado, tudo quanto ouvimos vai direto para o coração, tocando nossas emoções e despertando nossos afetos.

“Ouve, ó Israel…” (Dt 6:4)

“Quem tem ouvidos para ouvir que ouça…”

Acontecerá num determinado momento que uma simples palavra, ou sentença no texto todo, capture a nossa atenção. Intuitivamente, perceberemos que aquilo é conosco. Então, paramos e nos detemos nesta palavra permitindo, com isso, que a mesma reverbere em nosso coração. Aqui começamos a subir o próximo degrau que é a meditação. É quando o texto ganha vida da parte de Deus para nós. Neste momento devemos personificá-lo, tomá-lo para nós. Pode ser útil também o uso de nossa imaginação ao nos ver sentido o frescor do vento, o cheiro salgado do mar, o murmurar da multidão ao redor de Jesus etc.

Todo mover, de qualquer tipo, gera uma reação. Este mover interior do texto que vai nos invadindo e nos trazendo a Palavra de Deus gera uma reação, impulso espiritual. Entramos no terceiro degrau da escada, a oração. Dependendo do que Deus nos falou através do texto isso vai gerar adoração, louvor, ações de graças, petição, intercessão ou confissão. Trata-se de um movimento conduzido pelo Espírito Santo.

Finalmente, subimos o último degrau da escada, degrau este que nos leva ao topo, ao encontro pessoal em si com Deus. Chamamos esta experiência de contemplação. A união mística da alma com o Totalmente Outro, o Deus Triúno: Pai, Filho e Espírito Santo. É difícil descrevê-la. Nem os grandes mestres devocionais da tradição cristã o conseguiram. Cabe aqui algumas metáforas que podem ajudar a elucidar seu significado:

” Um descanso” em Deus”

“Um olhar amoroso” para Deus

“Um conhecimento além do conhecimento”

Uma atenção extática” para Deus

“Um abraço de amor silencioso

Acerca da dificuldade inerente de se definir esta experiência, Thelma Hall no seu ótimo livro “Lectio Divina, o que é, como se faz”, nos diz o seguinte:

“Todas estas tentativas de verbalizar a experiência necessariamente falham em expressar a realidade, pela simples razão de que a contemplação transcende o pensamento e o raciocínio da meditação, assim como as emoções e ’sentimentos’ das faculdades afetivas. Ela é, basicamente, uma oração e experiência de pura fé.”

Não só de pura fé, mas, de uma obra de inteira dependência da graça divina. Não somos nós que contemplamos. Deus é quem nos concede a contemplação. É Deus removendo o véu de sobre nossos olhos e dizendo: “Veja, eu estou aqui!”

A contemplação é o emudecer diante dAquele cuja presença se faz. É um estar com Deus e em Deus, longe dos labirintos das imagens mentais e livre dos pensamentos humanos vazios. Não trata-se da busca de sensações, visões ou quaisquer tipos de experiências místicas, apesar de que as mesmas podem ou não acontecer. Contemplação é o perceber, num relance, que Deus está, acolher esta presença querida e nela descansar e permanecer. Sem palavras, sem pensamentos. Só sentimentos, silêncio e assombro.

Nos achegarmos assim à Bíblia, nos levando a um encontro com Deus, fará de nós pessoas melhores. Cristãos melhores. Porque aquela promoverá mudança de dentro para fora. Nos estimulando e nos capacitando a vivenciar o mistério da encarnação: “a saber , Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1:27).

Tereza de Ávila escreveu:

“Toda a mística que se batize de cristã tem de cristalizar numa contemplação de Cristo e numa vontade de encarnar sua vida”.

Que os anjos de Deus em coro digam: Amém!!! E nós também.

Que a Bíblia seja para nós boca de Deus. E que, ao abri-la, sejamos levados ao encontro dAquele que habita no mistério e fulgor de luz inaxecível. O Deus revelatus mas que permanece absconditus em sua identidade mais essencial.

“Mas agora, assim diz o Senhor que te criou, ó Jacó, e que te formou, ó Israel: Não temas, porque eu te salvei. Chamei-te pelo teu nome; tu és meu.(…) Visto que és precioso aos meus olhos e digno de honra, e porque eu te amo, darei pessoas por ti e os povos pela tua vida” (Is 43:1,4)

Que palavras maravilhosas essas. Não seria uma grande tragédia elas permanecerem apenas em nossa mente sem que desça para o coração?


O prazer tem se tornado um Deus para o homem ao longo de sua história. Muitos achariam que esta afirmativa cabe á questão do dinheiro. Mas, por que as pessoas correm tanto atrás de dinheiro, se não para satisfazer seus desejos egóicos de consumo materialista? Podemos, rodar e rodar, transitando por inúmeras razões, todavia, todas nos conduzirão a um só mesmo lugar: o desejo frenético pela autosatisfação.

Desde a chamada “liberação sexual” nos anos de 1960, culminando com o pensamento pós-moderno autônomo, as pessoas têm sacrificado suas próprias almas, esquartejando-as e afastando-as do Criador, sobre o altar do hedonismo. Prazer, prazer e mais prazer é o que importa; é o que se tem que buscar veementemente.

Os arautos de tão sórdido cativeiro existencial têm alçado suas vozes e seduzido a muitos com suas ideologias enganosas: “Ouça a voz do seu coração”; “O que importa é ser feliz a qualquer custo”. E por aí vai. E o que temos presenciado por aí é que o preço a ser pago pela tal “felicidade” é deveras dispendioso e dolorido.

O fato é que o homem de hoje, não é capaz de ver um palmo de realidade fora de sua ótica pessoal, tendo seus olhos famintos fitos, inexoravelmente, no próprio umbigo. Amores, amizades, pessoas, famílias, relacionamentos: tudo e todos são passados por cima em nome de se alcançar desejos pessoais egoísticos.

Em verdade, a máxima tem se comprovado verdadeira: coisas têm sido amadas e pessoas usadas. Quando o contrário é que deveria acontecer. Contudo, a busca enlouquecida pela satisfação imediata, tem subtraído a cada dia mais dos seres humanos o senso da dignidade e santidade inerentes ao próximo. Com as lentes desfocadas e opacas do hedonismo, torna-se impossível enxergar o Sagrado no outro. Nada se vê além de si mesmo.

Vivemos numa sociedade egoísta, consequência direta do culto humano ao prazer próprio. E a cristandade que deveria salgar e iluminar as trevas de tão infame estilo de vida, tem perdido seu sabor e sua luz. Sendo, assim, atirada fora e pisoteada pelos homens.

O advento do pensamento positivista que ensina o determinar e o exigir de Deus a bênção e/ou o cumprimento de suas promessas, tem trazido para o meio do arraial de Seu povo a maldição antiga do “bezerro de ouro”. A funesta teologia da prosperidade que com seus versículos extraídos fora de seu contexto no Velho Testamento, tem levado milhares de pessoas ao arrombamento de suas vidas financeiras e, não poucas vezes, familiares também.

Enquanto isso, o “bezerro” agradece o espaço que lhe dão, e faz a farra na vida de muitos que ignoram as leis básicas da hermenêutica e exegese bíblicas, tornando-se assim alvos fáceis para a manipulação sórdida e maligna de homens mal intencionados e inescrupulosos. Lobos em pele de ovelhas. Prontos para devorar…

“E Arão lhes disse: tirai os brincos de ouro das orelhas de vossas mulheres, de vossos filhos e de vossas filhas, e trazei-os aqui (…) Ele os recebeu de suas mãos e deu forma ao ouro com um cinzel, fazendo dele um bezerro” (Gn 32:2,4)

Eu quase que posso ouvir a paráfrase dos atuais sacerdotes hedonistas: “Dê R$ 1.000,00 de oferta e receba de Deus R$ 10.000,00!”; “Dê o dízimo da quantia que deseja receber de Deus”; “Compre água do rio Jordão para…”; “Pedrinha do rio Jordão…”; “Lasca da cruz de Cristo…”; “ore seu copo com água e…”. Tragicamente desonestidade e superstição têm maculado a fé cristã nestes dias.

Talvez você, estimado leitor, esteja se perguntando: “Mas isso não é tendência destes grandes ministérios? Isso não acontece com gente ‘ comum’ como eu”. Será mesmo? A realidade da fé de resultados, utilitarista é algo que se insinua de forma multifacetada na ala ordinária das fileiras cristãs.

Alguns fatos podem elucidar esta tese. Uma primeira coisa a que deveríamos atentar é o tipo de música que é entoada em nossas igrejas. Se observarmos bem, veremos que de umas décadas para cá, uma avalanche de cânticos têm invadido a hinologia cristã. Até aí não haveria problemas. Acredito que os filhos e filhas de Deus devem compor músicas para a glória de Deus. “A glória de Deus!?!?” Será que não está aí exatamente o âmago de toda a problemática? Porque glória para Deus não tem sido a tõnica dominate nestes hinos contemporâneos. A maioria dos mesmos são fundamentados em textos do Velho Testamento removidos do seu contexto. Geralmente promessas que o Senhor fez a Israel e que não se aplicam a igreja. Nestas músicas Deus é apresentado como um pouco mais do que um servo do homem obrigado a cumprir aquilo que prometeu.

Os assuntos são variados, girando desde a vitória sobre os inimigos até prosperidade material e proezas financeiras (para não dizer loucuras). Ao mesmo tempo temos visto praticamente sumir de nossas celebrações músicas que tão somente exaltam a Deus pelo simples fato de quem Ele é e não por aquilo que Ele pode me dar. Se não soubermos louvar a Deus incondicionalmente, nossa adoração não passará de mera barganha dissimulada. Será tão difícil assim louvar, glorificar, adorar ao Senhor, simplesmente porque o amamos?

Uma outra coisa a se considerar é a questão da leitura da Bíblia. Tragicamente para muitos, a Palavra de Deus deixou de ser um meio para um encontro intersubjetivo, e tornou-se um mero compêndio onde posso encontrar orientações sobre diversos assuntos relacionados a vida. A Bíblia transformou-se num livro de autoajuda ao invés de uma carta de amor de um Deus que é apaixonado pela humanidade e desejoso de estabelecer vínculos de intimidade conosco. Não se lê mais as Escrituras movido pelo impulso interior de ouvir a voz do Amado, sussurrando nosso nome nos recônditos secretos de nossa alma. Para muitos ler a Bíblia não significa mais ter um encontro pessoal, real e afetivo com Deus e sim uma busca por orientações de como se viver uma vida melhor. Até mesmo nossa obediência é posta em termos dos benefícios que podemos angariar com isso. Será tão difícil assim ler a Bíblia para se ouvir a voz de Deus, para ser ter um encontro pessoal com Ele, simplesmente porque o amamos e desejamos lhe agradar?

Uma última coisa está relacionada com nossas orações. Você já percebeu que grande parte do que apresentamos a Deus como preces são pedidos e mais pedidos? Não estou com isso querendo dizer que não devemos suplicar ou interceder. Estou apenas chamando a atenção para um fato concreto: que grande parte de nosso tempo de oração é gasto com intermináveis pedidos. Já não sabemos o que significa orar a Deus ao modo de um encontro. Desconhecemos completamente o que significa nos colocar a sós perante a face do totalmente Outro. Estranhamos quando alguém nos diz que podemos orar sem palavras, quando em silêncio nos apercebemos da Presença, e, em atitude receptiva, acolhemo-na e descansamos nela.

Deus é encarado por muitos como uma espécie de gênio da garrafa ou um chefe de almoxarifado pronto a atender a todos os nossos desejos egoístas, mesquinhos e mimados. Poucos são os que realmente conhecem e experimentam o significado de apenas estar e ficar com Deus, saboreando e deleitando-se no Seu amor e amizade. Será tão difícil assim orar para se estar com Deus, para se desfrutar de Sua presença amiga, simplesmente porque estamos enfermos de amor?

“(…)amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração(…)”

Estas são as palavras evangélicas. Que possamos refletir sobre elas e, destituindo o usurpador hedonismo, amar a Deus com profundeza de alma, alegria e simplicidade.

O tema da espiritualidade é algo em voga na vida cristã nestes últimos anos. Temos presenciado um verdadeiro “avivamento” deste assunto em nosso meio evangélico. São vários os motivos que podemos considerar como sendo os causadores desta corrida rumo às práticas espirituais antigas. E um deles, quem sabe um dos principais, é o cansaço que a religião institucional e o cristianismo dogmático têm causado na vida espiritual de inúmeras pessoas.

Algum tempo atrás li um livro cujo subtítulo dizia “Sou Cristão Apesar da Igreja”. Num primeiro momento, palavras como estas podem nos assustar, porém, começamos a entender a veracidade e profundidade desta frase, quando enxergamos os tesouros espirituais que a instituição igreja nos usurpou ao longo dos anos de história. Esta frase bombástica perde muito do seu poder de explosão, quando enxergamos o grande número de pessoas que tiveram suas vidas lançadas na aridez de um deserto de religiosidade, imposto pela igreja.

Dentre muitos dos tesouros usurpados, um dos mais valiosos foi a consciência de que Deus não tem limitações no que tange aos locais e as formas de se revelar a nós. Nos dias de hoje acredita-se que o local de se ter um encontro com Deus é entre as quatro paredes que nós erroneamente chamamos de igreja. Ou seja, para que alguém tenha um encontro com Deus, é imprescindível que se vá a uma “igreja” evangélica, seja qual dia for. Esta concepção rouba qualquer precedência de Deus se revelar fora das fronteiras de um templo. Despreza-se, então, o fato de que Deus é espírito (pneuma = sopro) e espírito, sendo substância energética incorpórea, não pode ser confinado em quaisquer tipo de estruturas humanas.

Dentro desta mesma linha, também perdeu-se de vista que Deus pode usar a quem ele desejar para se comunicar conosco: desde uma mula, até mesmo uma pessoa que não seja do mesmo credo que o nosso. O grande erro é que fomos ensinados que Deus só usa os cristãos evangélicos. E por causa deste paradigma infundado, acabamos por desperdiçar muito do conteúdo e da multiforme comunicação divina.

Existem outros que simplesmente rechaçaram a cultura, como se tudo o que o homem produzisse em termos de arte, fosse maligno. Para estes é como se a escultura, o teatro, a música etc., tivessem a assinatura de Satanás embaixo. Por causa desta posição equivocada, temos muitos cristãos vivendo uma vida bitolada e alienada à sua realidade, como se o fato de ouvir uma música secular, fosse sinal de carnalidade (claro, há músicas e músicas certamente…!).

Assim, a resposta para esta crise de aridez na vida cristã é o retorno a uma espiritualidade que emerge de nosso cotidiano; das coisas ordinárias do nosso dia-a-dia. De uma vez por todas, devemos nos desvencilhar, o mais rápido possível, desta falsa “espiritualidade de templo”, desta “espiritualidade evangélica exclusivista” e da “espiritualidade de alienação”, que há muito têm nos roubado todo o nosso viço espiritual.

Carecemos de uma espiritualidade que nos torne mais humanos. Um jeito de cultivar a vida com Deus que não nos afaste do nosso próximo e nem das coisas do cotidiano.

Precisamos resgatar a espiritualidade que surge dos milhares de pequenos momento de nossa vida. Temos que voltar a desfrutar do amor e da graça de Deus trazidos a nós no ordinário e efêmero. Precisamos reaprender a encontrar a Deus nas coisas simples da vida como uma refeição com amigos queridos, ou num jogo de futebol, para o nosso lazer, com aquela turma que tanto apreciamos.

Jamais poderemos ter uma espiritualidade que considera a Deus seriamente, mas que não leva em consideração, do mesmo modo, o pardal, a árvore, a chuva… A verdadeira espiritualidade é aquela que nos ajuda a resgatarmos a nossa humanidade, levando-nos a integração total do nosso relacionamento com Deus com a nossa vida no cotidiano: trabalho, família, igreja, engarrafamento de trânsito, pneu furado na Avenida Brasil, choro de criança na madrugada, noites mal dormidas . . . etc. e etc.

Também necessitamos de uma espiritualidade que nos faça olhar de uma forma diferente para cada ser humano, com mais reverência, e um pouco mais de respeito. Reconhecendo a dignidade desta criatura chamada homem, que apesar da distorção causada pelo pecado, possui o selo honroso da imagem e semelhança de seu Criador, estampado na alma. E que a apreciação da arte e da poesia que emergem de dentro delas, são oportunidades de um encontro com a semente eterna, a qual está plantada no coração de cada um. A verdadeira espiritualidade nos dará uma nova visão da vida! A verdadeira espiritualidade sacraliza a vida!

Que o caminho para fora da aridez do deserto, conquanto seja árduo, possa ser trilhado por cada um de nós. Tendo a certeza de que logo ali à frente, um oásis nos espera, afim de que possamos aquietar nossas almas e saciar toda a sede que temos de Deus, junto às águas frescas e cristalinas de uma espiritualidade que nos torne a cada dia mais humanos.

Deus sorri. Isso já é uma grande coisa. Todavia, quando consideramos o fato de que Deus sorri para nós, ai já é algo maravilhoso.

“Que é o homem para que te lembres dele; e o filho do homem para que o visites?”, indagou o salmista.

Contudo, nos assombramos diante desta verdade: Deus sorri para nós. O sorriso de Deus é sua própria alegria a invadir nossa alma. É o primeiro raio de sol a rasgar as densas trevas da madrugada. É brisa a refrescar nosso corpo, castigado pelo calor do dia.

É agua fresca que sacia nossa sede. Alimento que aplaca nossa fome. É o amor que renova as esperanças em nossos corações fatigados.

O sorriso de Deus é o seu favor para conosco. É sua bondade inescrutável que se traduz em misericórdia e graça dispensadas a nós.

Muitos ao longo dos tempos experimentaram e têm experimentado o sorriso amoroso e compassivo do nosso Deus: Moisés na travessia do Mar Vermelho; Elias sendo sustentado pelos corvos; Jonas sobrevivendo no ventre de um peixe; Daniel na cova dos leões; Sadraque, Mesaque e Abede-Nego a passear em meio ao fogo da fornalha aquecida sete vezes como quem passeia em meio ás folhagens de um bosque florido; Paulo sobrevivendo á picada de uma cobra venenosa; a multidão alimentada por Jesus á partir de cinco pães e dois pexinhos. E tantos outros. Pessoas, como nós, que foram alvo do sorriso iluminado e iluminador do Totalmente Outro.

Mesmo assim, não são apenas situações como essas que nos descortinam o largo sorriso de Deus. A bem da verdade, pessoas que só esperam coisas assim, acabam por tornar para si mesmas o sorriso amoroso de Deus, algo de extrema raridade em suas vidas.

Não que Deus não sorria nestas proporções para nós. Porém, o que devemos ter em mente é que Deus está sempre sorrindo. Não é raro que ele sorria. É mais usual e mais comum do que imaginamos. O grande problema é a ausência de uma atitude de espera, expectativa e acolhimente, de nossa parte, a este sorriso de nosso amoroso Pai.

Deus sorri no dia-a-dia. Deus sorri para nós nas situações banais, comuns e simples do nosso cotidiano. Começamos, deveras, a enxergar o sorriso divino ao considerarmos que cada acontecimento, cada coisa, cada pessoa, cada vitória, cada realidade por mais efêmera que nos possa parecer, são frutos oriundos da graça, amor e misericórdias divinas. Mesmo aquilo que, num primeiro momento, a nosso ver, não nos pareça agradável.

Portanto, o que necessitamos fazer? Necessitamos limpar nossas lentes de toda sujeira do sensacionalismo, do espetacular, e acolhermos o Deus que misteriosamente nos visita no comum.

Tenho orado, pedido e buscado a Deus para que ele me conceda olhos simples que possam contemplar a simplicidade e discrição de Sua presença que me é oferecida constantemente por meios inesperados.

Portanto, por sua infinita misericórdia e bondade tenho podido ver e receber o sorriso de Deus na minha vida. Deus sorri pra mim…

Tenho visto o sorriso de Deus nos meus momentos de silêncio. Quando apaziguo a alma, cessando com seus ruídos e inquietações, posso ouvir a voz de Deus no meu centro.

Tenho recebido o sorriso de Deus quando me coloco diante de sua Palavra não como um teólogo, pronto para levantar questionamentos filosóficas, mas, com o coração receptivo, como um amante, um apaixonado que deseja ardentemente um encontro íntimo e pessoal com aquele que é o objeto de sua afeição.

Deus sorri pra mim quando estou em comunidade. No “estarmos juntos” com outros irmãos para a adoração, a comunhão, a contemplação. Quando percebo que não apenas creio, mas, que também pertenço, faço parte de uma família que me acolhe, encoraja e se coloca ao meu lado como companheiros de peregrinação.

Recebo o sorriso de Deus quando vejo um ato de caridade, afeto, solidariedade, compaixão e humanidade entre humanos. Constato que, afinal, algo da imagem divina permanece naqueles que são obra prima do Criador.

Deus sorri para mim nos momentos de família. Na companhia amorosa de minha esposa. No abraço apertado e cheio de afeto dos meus filhos. Nos nossos períodos de brincadeira (as partidas de PlayStation têm sido verdadeiros encontros com o Sagrado). Nos almoços suculentos com nossos queridos.

Tenho encontrado o sorriso de Deus em meio às boas gargalhadas com amigos. Onde posso ser eu mesmo sem neuras. Onde sou aceito como sou e estou.

Ainda tenho encontrado o sorriso de Deus: no desabrochar de uma flor em meio á uma manhã primaveril; no tom vermelho alaranjado de um pôr do sol; no sorriso sincero e despretensioso de uma criancinha; no poder furioso de uma tempestade; no ribombar do trovão; no canto matinal de um Bem-te-vi; no nascer do sol de cada manhã que me faz lembrar das misericórdias do Senhor que, uma vez mais, renovaram-se sobre este planeta de humanos pecadores.

Peço a Deus que desvende meus olhos para que aquilo que me é oferecido não passe desapercebido. Para que, estas sementes eternas não encontrando “solo” propício que as receba, acabem por perecer sem liberar toda a vida de Deus que nelas está contida.

Rogo a Deus que me ajude a enxergar a vida mais bonita. Menos ameaçadora. Mas bela na sua essência.

Cheia de vida e de mistério. Mundo embuído e transbordante de Presença. Vida que resplandeça o sorriso de Quem a criou para o louvor da Sua glória.

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