Fala-se muito em ativismo, mas poucos conseguem vencê-lo. Principalmente numa sociedade injusta e selvagem como a brasileira. A gente madruga, luta o dia inteiro só para não deixar que a vida, como um trator de esteira, nos esmague. Eu tive um professor, quando ainda cursava o colegial, que gostava de repetir um provérbio bem nordestino: “se cochilar o cachimbo cai”. De fato, vivemos uma realidade tão cruel que se cochilar não dá para pagar as contas do fim do mês.
Fora o desespero de continuar boiando na superfície desse mar raivoso, a gente ainda tem que lidar com a maldita competição. Fomos educados, desde cedo, a encarar qualquer segundo lugar como o quinhão para os “menos competentes”; ninguém se sente realizado com a medalha de prata. “Seu destino é pódio; um dia vão pendurar uma medalha de ouro no seu pescoço”, nos ensinaram quando nos matriculamos naquela escolinha de judô, patrocinada pelo centro comunitário do bairro. Assim, corremos, esfolamos as mãos, suamos a camisa até puir, para nunca ser cauda; acreditamos que merecemos encabeçar a tabela do campeonato.
O ativista sacrifica seus valores, princípios e concepção da verdade para galgar os píncaros do sucesso, da fama, da riqueza, do poder. Confesso que já fui um ativista inveterado. Devido ao meu perfeccionismo, os dias se transformavam em semanas; as semanas, em meses; os meses, em anos; os anos em décadas. De repente, assustei-me com um sujeito que me espiava de dentro de uma fotografia. Aquele senhorzinho com cara de cansado, olheiras arroxeadas e aspecto triste era eu.
“Caramba”, falei em voz alta, “gastei meus melhores anos como um ratinho na roda da gaiola, corri, corri e sem chegar a lugar nenhum”. Mal vi meus filhos crescerem, não consegui aprender a gostar de poesia, por mais de vinte anos não fui a nenhum concerto de música clássica, nunca li Machado de Assis, Thomas Mann, Victor Hugo, José Lins do Rego.
Certa vez, Jesus chamou seus discípulos e os advertiu sobre o valor da vida. Suas palavras foram agudas: “Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se ou destruir a si mesmo?” – Lucas 9.25. Por anos, entendi este texto como uma advertência para que as pessoas não gastem seus dias tentando conquistar o mundo e, no fim, acabarem no inferno. Ultimamente, graças também a Nova Versão Internacional da Bíblia, passei a compreender a afirmação de Jesus, como uma advertência existencial. Para que se esfolar por ideais se, no processo, acabar como uma pessoa sem alma, isto é, sem afetos, solidariedade e humanidade?
O ativismo brota de dois vícios existenciais: onipotência e narcisismo. O ativista acredita que tem saúde de ferro, que é imprescindível, que foi eleito o preferido dos deuses, que faz tudo melhor do que qualquer pessoa. O ativista trabalha porque, geralmente, também se enxerga como o mais bem talhado para as grandes tarefas. Ele Imagina que se algum empreendimento tiver que dar certo, tem que ter a sua contribuição. Assim, se fosse um corredor, só revezaria consigo mesmo; o medo de perder a corrida não permite que confie em qualquer parceiro.
O narcisismo é diferente porque todas as pessoas possuem alguns elementos narcisistas. O problema do narcisismo é quando ele descamba e se torna depreciativo; quando encaramuja. Um belo exemplo desse narcisismo doentio pode vir do futebol. Sabe o jogador que não admite que exista alguém que tão bom quanto ele? Em minha infância era chamado de “fominha”, pois não tem espírito de equipe, não passa a bola, quer resolver tudo sozinho e sempre prejudica o time; no dia em que se aposentar, será visto na arquibancada xingando os novatos que “só apresentam um futebol inferior”.
Somos curados da onipotência quando despertamos para a nossa mortalidade. Somos provisórios, efêmeros. Passamos rapidamente. Há pouco, constrangi-me quando vi um ancião entrando num avião, ajudado por três pessoas e arrastando os pés. Era o pastor de uma mega igreja que em tempos passados arrebatava multidões; agora mal se equilibrava para andar.
Nossos dias se acabam ligeiros. Não adianta se afobar. Você não é dono da palmatória que corrige o mundo. Conta-se que os imperadores romanos colocavam escravos nas bigas dos generais romanos que triunfavam nas batalhas para repetirem uma só frase: “Memento mortale est” – lembra-te que és mortal; era o antídoto da arrogância.
Contemple os grandes ícones da história. Todos morreram e a vida continuou. Paulo, o apóstolo responsável pelo avanço do cristianismo, foi decapitado e depois dele vieram outros que levaram a tocha do evangelho. Martin Luther King foi assassinado e sua causa continuou a ser defendida com o mesmo ardor; a liberdade civil dos negros se concretizou mesmo sem ele.
Somos curados do narcisismo quando aprendemos a valorizar dons e potenciais alheios. Já lhe disse antes: você sempre encontrará pessoas mais bonitas, mais talentosas, mais ricas, mais espiritualizadas e, se for longevo, mais jovens do que você. E como é gostoso não precisar provar nada para ninguém! Busque a excelência, mas livre da necessidade de angariar simpatias, aplausos ou aceitação.
Diego, discipline-se para ler; aprenda a degustar a vida devagarinho. Fuja dos “fast-foods”; na mesa, gaste tempo conversando, ouvindo. Time is not money - o tempo é vida e vida é uma riqueza não renovável. Assim, combata a ansiedade e diga mais vezes: “deixa estar” – let it be. Não se enxergue como uma abelha que vive para a colméia; seja um amigo que sabe curtir os bons momentos.
Lembre-se, desta vida só levaremos boas memórias. Portanto, torne-se um alquimista que transforma cada experiência, evento ou alegria, num sacramento que você carregará no bolso da alma até a eternidade.
Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim
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Extraído do site ricardogondim.com.br

