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simplicidade-voluntariaIsabelle Ludovico*

Os Estados Unidos têm 6% da população mundial e consomem 33% dos recursos naturais. O desenvolvimento da China acelera o esgotamento dos recursos. O filme de Al Gore “Uma verdade inconveniente” demonstra com clareza a iminência de uma catástrofe de proporções planetárias. Diante da evidência de que a terra não agüenta nosso estilo de vida, tem surgido um movimento chamado Simplicidade Voluntária. Em 1981, o americano Duane Elgin escreveu o livro Simplicidade Voluntária – Em Busca de um Estilo de Vida Exteriormente Simples, mas Interiormente Rico.

Se o mundo prega uma nova ética humana que fala de fraternidade e comunhão, de solidariedade e compaixão para preservar o nosso futuro, o que dizer de nós, cristãos, que deveríamos estar à frente dessa proposta, como também do movimento ecológico? De fato, deveríamos estar cientes de que Deus nos confiou a terra para cuidarmos dela e não para depredá-la. Deus nos criou para que nos amássemos e não para usar as pessoas em nosso próprio benefício? Devemos começar confessando que nos tornamos coniventes com um sistema que produz injustiça social e consumo desenfreado de supérfluos, enquanto a maioria da população é privada do essencial.

Se estivéssemos mesmo conscientes de nossa identidade de filhos de Deus, não seríamos tão vulneráveis aos apelos de propagandas que nos induzem a pensar que nosso valor depende de bens materiais, sinais exteriores de riqueza e sucesso. Quem precisa investir tanto na aparência revela uma vida interior pobre e uma auto-estima inconsistente. Não podemos esquecer que o dinheiro “Mamon” é uma potestade e que precisamos escolher a quem vamos servir. O Reino de Deus está no coração daqueles que reconhecem Cristo como Rei e vivem segundo os seus valores. É impossível estar em paz com esses dois mundos tão antagônicos. O caminho do discipulado é estreito e na contramão do sistema no qual estamos inseridos.

Viver voluntariamente de maneira mais simples significa escolher uma vida mais despojada exteriormente e mais abundante interiormente. É tirar o excesso de peso da bagagem para tornar a viagem por esse mundo mais leve e prazerosa. Significa priorizar a qualidade de vida que não depende de recursos materiais, mas de paz e de vínculos significativos. Nosso tempo, sim, é muito precioso para ser desperdiçado em shoppings e na frente da TV. É preciso priorizar o essencial em detrimento das exigências de nossa sociedade capitalista.

Simplicidade Voluntária é um caminho, um processo de libertação do sistema materialista, onde tudo tem o seu preço, para viver no Reino, onde tudo é fruto da graça! Precisamos aprender, e ensinar os nossos filhos, a rir das propagandas que querem nos empurrar produtos como se deles dependesse a nossa felicidade.

Desfrutar da presença de Deus no silêncio e na solitude nos abastece emocionalmente e nos capacita a resistir às armadilhas do mundo. Evite comprar por impulso. Resgate a criança que há em você, brincando com seus filhos sem compromisso com desempenho, mas apenas pelo prazer do jogo, de preferência não competitivo. Use seu tempo livre para um trabalho voluntário, promovendo e potencializando as pessoas marginalizadas, sendo voz dos que não são ouvidos e nem mesmo vistos.

Simplicidade rima com utilidade, durabilidade e beleza. Não é um fim em si mesmo, mas um meio coerente com o Evangelho de abrir mão de despesas supérfluas para beneficiar generosamente aqueles que são privados de condições dignas de vida. É um compromisso com a justiça que visa a promoção do ser humano e não apenas uma ajuda assistencialista. Não se trata apenas de economizar e reciclar para garantir a sobrevivência do planeta, mas de construir uma sociedade mais fraterna e inclusiva, onde todos são valorizados e têm suas necessidades básicas supridas.

Quanto mais a gente se doa a partir da experiência íntima do amor de Deus, mais a gente recebe amor, alegria e paz. As pessoas mais generosas são as mais realizadas, enquanto as mais egoístas são geralmente frustradas e infelizes. Quem estende os braços ao próximo integra uma fraternidade que forma uma rede de solidariedade e representa o Corpo de Cristo até que Ele volte. É sal e luz num mundo que jaz no maligno.

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“De madrugada, ainda bem escuro, Jesus levantou-se, saiu e foi a um lugar deserto; e ali começou a orar” (Mc 1:35)                                                                                 

De umas épocas para cá ( e já faz muito tempo) a espiritualidade cristã tem tido um medidor de temperatura no mínimo estranho ao padrão que encontramos nas Escrituras. Há tempos que a qualidade da vida espiritual, sua profundidade e calor é determinado, segundo o entendimento equivocado de alguns, pelo que os cristão fazem para Deus seja através da igreja ou não. 

Sendo assim a quantidade de culto a que vamos, o número de ministérios e atividades as quais desenvolvemos tornam-se o padrão para se determinar se estamos bem com Deus, se nossa vida espiritual está em dia.
E quando investigamos a espiritualidade de Jesus, se não a olharmos com acurada atenção, acabamos achando que seu estilo de vida corrobora essa espiritualidade ativista, consumista e hedonista que tem engolido a vida e a alegria de grande parte dos filhos de Deus que a tem experienciado. A maioria dos cristão chega ao final de sua carreira cansados, exauridos e não muito raro, frustrados e decepcionados. Por que será?
Não podemos negar que a “agenda” do Senhor era bem utilizada: desde expulsar espíritos imundos até uma conversa com uma mulher samaritana à beira de um poço, faziam parte de seu ministério diário.
No entanto o texto no início dessa reflexão nos mostra claramente que antes de um dia cansativo de atividades ministeriais, o Senhor estabelecia para sua vida aquilo que podemos chamar de “momentos sabáticos” para estar em amizade íntima com o Pai. Jesus diariamente separava tempo para estabelecer pausas na sua agenda e contemplar em silêncio e solitude no ermo, o rosto amável e amoroso de seu Abba. 
Tudo o mais que Jesus fazia, sua vida como um todo, orbitava em torno desses momentos. Ganhava profundidade, significado e uma nova dimensão a partir desse encontros íntimos com Deus em oração e contemplação. Para nosso Senhor estar com o Rei era prioridade diante do que ele tinha que fazer para o Rei. Certa feita, Jesus disse que ele não fazia nada por si mesmo, mas, somente o que ele via o Pai fazendo. Como que Jesus obtia esse discernimento espiritual para poder enxergar o Pai agindo? Na sua intimidade de oração, meditação e contemplação em silêncio e solitude com Deus.
Sendo assim, se desejamos imitar a vida de Cristo, se desejamos ver sua imagem refletida em nós e se queremos verdadeiramente experimentar uma espiritualidade saudável nossos dias precisam ter na sua primazia nosso “momento sabático”. É imprescindível aprendermos a estabelecer pausas, puxar o freio de mão, pisar fundo no breque e diminuir nosso ritmo para encontramos tempo para o silêncio, a solitude, a oração, a meditação e a contemplação apaixonada e fascinada da face daquele que nos amou e nos ama com amor eterno. 
Espiritualidade e atividade. Contemplação e ação. Maria e Marta. Na verdade não são realidades mutuamente excludentes. São complementares. São irmãs e por isso precisam caminhar juntas pela vereda fascinante do Reino. Encontrar o equilíbrio entre elas é o grande desafio de uma espiritualidade bíblica, cristã, madura e saudável.
Que tal apertar o botão de pausa?

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Estava um certo homem deitado no sofá de sua sala assistindo a um filme na televisão. Como o mesmo não estava conseguindo prender sua atenção, ele dormiu profundamente e passou a sonhar sonhos de Deus. E um deles foi assim compartilhado comigo:

Estava eu caminhando por uma estrada deserta, poeirenta  quando deparei-me com um lindo jardim em flor de primavera na beira do caminho. Nele existia uma riqueza de detalhes que enebriava de profunda alegria a quem o observasse. Margaridas, rosas de várias cores, copos de leite, cravos, lírios e muitas outras plantas compunham aquela paisagem de beleza multifacetada. Pensei comigo: “O Jardineiro que cuida desse jardim deve ser alguém muito zeloso e caprichoso”. Ainda podia divisar samambaias e árvores frutíferas de várias espécies e um rio de águas límpidas que atravessava bem no meio daquele local. Pus-me a me perguntar meio que atordoado com tudo aquilo ao meu redor: “O que pode significar um jardim tão bonito como esse num lugar tão inóspito?”

Ainda estava a me questionar quando ouvi uma voz que ao mesmo tempo em que era doce e suave, parecia com o rugir de centenas de trovões. Acho que era a voz do próprio Jardineiro. E a voz me disse: “Esse jardim representa as Sagradas Escrituras que Deus concedeu à humanidade para que lhe seja luz e lâmpada que lhe indique o caminha da salvação”. E é verdade, oh Senhor Bendito de toda glória! Não são elas uma carta de amor de um Deus que simplesmente ama porque decidiu assim fazê-lo? E não são suas as verdades multifacetadas a alegrar o coração dos homens e a edificar os crentes e a revelar a vereda para a redenção da alma? E suas verdades não são semelhantes ao fruto maduro e doce a impregnar de sumo a boca de quem o prova ?

Comecei a caminhar por aquele lindo jardim de belezas e delícias insondáveis. Eu não tinha pressa alguma. Caminhava lentamente, passo à passo olhando e observando tamanhos, formas e cores de tudo o que brotava do solo daquele lugar paradisíaco. Rosas vermelhas e brancas. Violetas. Margaridas amarelas. Copos-de-Leite brancos como a neve. Árvores pequenas, árvores grandes. Frutos pequenos e frutos grandes. Uma riqueza de detalhes que palavras não poderiam expressar satisfatoriamente. Num dado momento, percebi em meio àquela vastidão uma linda rosa que chamou a minha atenção pela sua beleza singela, sua textura aveludada, cor viva e delicioso perfume. Parei diante dela abaixei-me e a colhi com cuidado e reverência. E disse em seguida: “De todas as flores que vi e apreciei, essa rosa verdadeiramente foi feita para minha alegria.” De repente, como que do nada ouvi novamente a voz do Jardineiro à perguntar-me: “Você sabe o que significa esse passeio sem pressa e atento a todas as belezas e riquezas do meu jardim?” Eu lhe respondi: “Não Senhor, Tu o sabes!” E ele complementou: “Esse caminhar sem pressa, silencioso e atento é a meditação sobre as minhas Escrituras. E a rosa que colheste é a Palavra que separei e direcionei para sua vida”. Ah, Amado Senhor! E não é assim mesmo que, ao lermos sem pressa  em em amorosa e silenciosa atenção, num dado momento nossa atenção é chamada a uma frase, expressão ou palavra da Sacratíssima Escritura? O que antes era apenas um texto sagrado passa a ser a nossa Palavra pessoal. A Palavra do nosso Deus para as nossas vidas.

Enquanto ainda olhava atentamente para a minha rosa que havia colhido do jardim, eis que sem o perceber o Jardineiro se aproxima de mim. Olhei nos seus olhos e foi como se me perdesse nas profundezas de um vasto oceano. Oceano de bondade, esperança, misericórdia e amor. Ele sorriu para mim. E o seu sorriso se alastrou pelo meu peito como um incêndio a consumir uma floresta de folhas secas. Naquele momento, sem entender muito bem o que se passava, comecei a chorar e a gradecer ao gracioso jardineiro por ter cultivado e cuidado de tão bela espécime de flor. Exaltei sua criatividade e cuidado para com aquela rosa. E acima de tudo pelo fato de que agora compreendia que a mesma não fora destinada para qualquer outra pessoa a não ser para mim. E ele com muita alegria no rosto me perguntou: ‘Sabe o que você está fazendo?’ ‘Não!’ Eu lhe respondi. ‘Você está orando. E sua oração é uma resposta espontânea à beleza e gratuidade da rosa que você colheu no meu jardim’. É verdade Benigníssimo Senhor! A Palavra que nos dá na meditação de Tuas Sagradas Letras fazem brotar do nosso interior o mover da alma que chamamos de oração. E em  alguns momentos as riquezas de sua graça e compaixão nos levam a louvarmos Seu Santo nome. A rendermos graças e glórias ao Rei de nossas vidas. Mas em outras ocasiões nossos pecados fazem com que os espinhos de nossa rosa nos firam. Feridas de amor que nos convidam à confissão e ao arrependimento. E aí somos curados e restaurados por Ti. Oh, Pai das misericórdias e Deus de toda a compaixão!

Quando terminei de falar, tendo ainda a rosa em minha mão, o Jardineiro virou-se e começou a caminhar para longe de mim. Sem perder tempo corri o mais rápido que pude em sua direção até alcançá-lo.  Ao perceber-me próximo de si, virou-se e disse: ‘ o que você quer meu filho?’  Sem hesitar por um momento lhe direcionei as seguintes palavras: ‘Senhor, e a contemplação, não tens nada a dizer? No seu jardim já descobri as Escrituras, a meditação e a oração, mas, e quanto à obra da contemplação, o que vem a ser ela?’ Ele abriu um largo sorriso e me respondeu o seguinte: ‘Sabe a rosa que tens na mão? Cheire-a. Desfrute do seu perfume. Saboreie sua fragrância, sem pressa, em silêncio. Não precisa fazer nada. Seja apenas você. Esteja plenamente presente, imbuído e arrebatado pela doçura desse perfume. Isso meu querido, isso é contemplação.’ Senhor, pela tua soberana misericórdia ensina-nos a romper com a tirania do ter e do fazer. Ao paço em que nos ensina a graça de simplesmente ser e estar. Ajuda-nos a silenciar as vozes do nosso interior que clamam de dia e de noite por nossa atenção, sufocando assim os Teu doces sussurros em nossa alma. Capacita-nos a adentrar no Grande Silêncio da Presença que envolve a tudo e a todos.

Foi então que despertei e vi que tudo aquilo não tinha passado de um sonho. E que sonho maravilhoso!  De repente ocorreu-me algo que ainda não tinha feito naquele dia. Corri para a estante de livros, peguei minha velha amiga, a Bíblia, e fui para o quarto secreto onde meu Pai que me vê em secreto estava me aguardando. 

Boa noite a todos!

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Começo hoje a compartilhar uma série de textos objetivos acerca da FORMAÇÃO ESPIRITUAL. Busco demonstrar à luz das Escrituras que as múltiplas dimensões da espiritualidade que Jesus viveu formam um convite amplo para a imitação de sua vida. É necessário dizer que tudo o que será compartilhado a partir desse primeiro texto encontra-se debaixo de um contexto cristão. Ou seja, subtende-se que o estilo de vida e as práticas devam acontecer debaixo de uma realidade caracterizada por uma relação filial com Deus que nos é concedida  mediante a experiência salvífica e regenerativa com o Evangelho de Cristo, logo, com o próprio Cristo vivo e pessoal. 

Todos os textos dentro dessa série na verdade surgiram originalmente como uma série de mensagens que preguei em minha comunidade espiritual (igreja) e que recebeu o título de “As Seis Tradições da Espiritualidade Cristã e a Vida de Cristo”. Logo, o que estrei postando é uma adaptação da mesma. 

Espero sinceramente que os simples textos alicerçados no fundamento imutável das Escrituras possam estimular cada leitor a uma séria reflexão e ajustes necessários para que em cada filho e filha de Deus se cumpra o preceito registrado em 1Jo 2:6 - “Aquele que diz estar nele deve ANDAR como Ele ANDOU”. Um convite à vida. E que o Eterno nos abençoe nesse propósito. Amém!

JESUS O HOMEM CONTEMPLATIVO

Existe uma palavra chave que define a tradição contemplativa de espiritualidade. E essa palavra é “intimidade”. E podemos ver que a Bíblia é clara e pródiga em nos convidar ao crescimento e aprofundamento na intimidade com Deus.Quando olhamos com atenção para a vida de nosso Senhor Jesus Cristo nenhum aspecto é mais marcante do que exatamente sua intimidade com o Pai.

Algumas afirmações de Jesus no evangelho de João mostram bem essa intimidade. Por exemplo, em Jo 5:19 Jesus fala acerca de seu ministério – “Eu lhes digo verdadeiramente que o Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer, porque o que o Pai faz o Filho também faz”.Continuando sua explanação no verso 30 o Senhor declara – “Por mim mesmo, nada posso fazer; eu julgo apenas conforme ouço, e o meu julgamento é justo, pois não procuro agradar a mim mesmo, mas àquele que me enviou”.

No capítulo 14:10 encontramos as seguintes palavras do Senhor acerca de sua pregação – “As palavras que eu lhes digo não são apenas minhas. Ao contrário, o Pai, que vive em mim, está realizando sua obra”. E acredito que nenhum outro texto exprime mais a intimidade entre Jesus e o Pai do que o de Mt 11:27 – “e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.

A redescoberta da tradição contemplativa por parte de uma parcela do povo de Deus tem trazido uma grande contribuição para a formação espiritual cristã. E dentre os vários tesouros redescobertos, as disciplinas espirituais ocupam uma posição especial. E dentre elas, a oração tem um grande destaque. A tradição contemplativa também pode ser definida como a vida plena, embriagada, transbordante de oração.

Quando olhamos para Jesus percebemos que oração e vida não era uma realidade dicotômica na vida de Jesus. Orar e viver, viver e orar para Cristo era a mesma coisa. A oração e a vida de Jesus estavam entrelaçadas como os fios se entrelaçam para formar uma peça de vestuário. Nós vemos em Lc 3:21 que quando Jesus foi batizado por João ele “estava orando”. Também vemos que por ocasião da escolha dos doze apóstolos, Jesus foi sozinho para um monte e “passou a noite orando a Deus” (Lc 6:12).

Depois de uma tarde exaustiva em que ele curou a muitos expulsando demônios, Marcos nos relata que Jesus levantou-se “de madrugada, quando ainda estava escuro (…)” e “foi para um lugar deserto, onde ficou orando” (Mc 1:34,35).

E muitas e muitas outras passagens nos mostram a centralidade da oração na vida e ministério de Jesus. Por exemplo, ele estava orando quando perguntou: “Quem vocês dizem que eu sou?” (Lc 9:18-20). No monte onde ele se transfigurou, a Bíblia diz que ele pegou Pedro, Tiago e João e os levou “para orar” (Lc 9:28,29). E quando os discípulos não puderam expulsar o demônio de um menino, Jesus explicou o fracasso deles com as seguintes palavras – “Essa espécie só sai pela oração” (Mc 9:29).

Jesus não apenas orou como também ensinou seus discípulos a orar. A vida de Cristo foi uma escola de oração. Ele ensinou seus discípulos a se achegarem a Deus de um modo mais íntimo dizendo “Aba, Pai” (Mc 14:36). Ele os ensinou a orar no quarto “em secreto” (Mt 6:6).

Ele ensinou através de parábola acerca do dever de orar sempre e nunca desanimar (Lc 18:1). Ensinou também a crer que vai acontecer aquilo que pediram em oração (Mc 11:23).  E muito mais.

Outras duas disciplinas espirituais presentes na vida de Jesus que acompanhavam a oração eram a solitude e o silêncio. Porque uma não existe sem a outra. A figura do deserto ou de lugares desertos nos traz o deslumbre dessa faceta da espiritualidade de nosso Senhor. Por exemplo, em Mt 4:1 as Escrituras nos dizem que -  “Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo”. E lá permaneceu por quarenta dias e quarenta noites.

Depois de saber da morte de João Batista a Bíblia diz que o Senhor “retirou-se (…) em particular, para um lugar deserto” (Mt 14:13).
As Escrituras também relatam que após alimentar aquela grande multidão multiplicando cinco pães e dois peixinhos, Jesus imediatamente “subiu sozinho a um monte para orar” (Mt 14:23).

Quando os discípulos estavam exaustos por causa do ritmo do ministério Jesus fez o convite – “Venham comigo para um lugar deserto e descansem um pouco” (Mc 6:31). E Lucas se referindo a uma prática habitual de Jesus escreve as seguintes palavras – “retirava-se para lugares solitários, e orava” (Lc 5:16).

E muitas outras disciplinas espirituais vemos presentes na vida do Senhor: o jejum por exemplo. Em Mt 4:2 na solidão e silêncio do deserto é-nos dito que – “depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome”.  E diante da negativa de Jesus aos seus discípulos pelo convite para que ele se alimentasse foi dito – “tenho algo para comer que vocês não conhecem (…) a minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra” (Jo 4:32,34).

Muitas outras disciplinas como o segredo, a simplicidade, a comunhão, a celebração, a meditação, a frugalidade estavam presentes na vida e ministério de Jesus. Só que a palavra de hoje não nos dá espaço para olharmos de perto cada uma delas.
No entanto, acredito que o que foi compartilhado hoje já nos dá uma ideia inequívoca de que Jesus era um homem cuja vida era impregnada por hábitos espirituais. Jesus verdadeiramente era um homem que tinha intimidade com o Pai. Jesus era um homem de vida contemplativa. Amém?
 
CONCLUSÃO E APLICAÇÃO

Gostaria de finalizar essa breve exposição aplicando o seu conteúdo às nossas vidas. Se desejamos viver esse aspecto da vida de nosso Senhor devemos refletir em algumas perguntas:

(1) Nesse exato momento de sua vida, qual é o grau de intimidade que você desfruta com Deus?

(2) Você pode afirmar com toda certeza que seu relacionamento com Deus tem sido uma realidade crescente e não estagnada?

(3) Qual o lugar que a oração e as outras disciplinas espirituais ocupam na sua vida?

(4) Você tem conseguido desacelerar seu ritmo de vida para reservar momentos a sós com Deus?

Que Deus nos ajude nessa reflexão e nos ajustes que precisarmos fazer afim de que possamos experimentar essa dimensão da espiritualidade de nosso Senhor. Amém! 

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O Senhor Jesus Cristo convida o povo santo e justificado por Seu sangue a adentrar no descanso de Sua presença constante e pessoal. Ele mesmo disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”. Antes de ser um estado emocional, essa paz é uma realidade interior, uma experiência, que pertence a todos quantos encontram-se em relação filial com o Pai. Ao longo dos séculos da história da espiritualidade cristã, essa realidade do Eu mais profundo, espiritual, criado em Cristo Jesus para viver em novidade de vida, foi transmitida na forma de uma disciplina espiritual que conhecemos como silêncio. São diversos os textos nas Escrituras Sagradas que nos chamam para o retorno à serenidade, quietude e silêncio da alma. Passagens como Sl 46:10,  Sl 116:7 e Lm 3:26 são alguns exemplos desse chamado interior.

Já se vão mais de cinco anos que tenho estudado, ensinado e praticado a via mística da vida cristã. Em meio ao corre corre do cotidiano, com suas múltiplas exigências que clamam por minha atenção, a luta para se auto-disciplinar no que diz respeito à fomentação de uma vida espiritual profunda, tem se constituído num grande desafio para mim. Desafio igualmente difícil tem sido explicar para outros cristãos o que é e a importância das disciplinas espirituais. Muitos não as compreendem. Acham que são práticas inúteis que não possuem qualquer relevância para a vida cristã. Esse tipo de opinião tem origem na falta de entendimento de que nosso corpo tem participação fundamental no desenvolvimento da espiritualidade. Esquecem que não somos apenas alma e espírito, mas, corpo também. Contudo, mesmo após a conversão esse corpo, antes escravo do pecado, permanece “viciado” no pecado pelos anos de hábitos e práticas contrárias aos valores do Reino. Logo, faz-se necessário o “treinamento” do corpo como nova habitação do Espírito Santo. Daí vem a importância das disciplinas espirituais.

Quando buscamos descrever a realidade dessas práticas, sua essência e natureza, surge-nos um outro desafio ainda maior. Como descrever em termos concretos algo que eminentemente é uma experiência da dimensão de nossa interioridade? Somente a linguagem mística, ou seja, alegórica, rica em figuras e imagens, pode nos ajudar a ilustrar e elucidar verdades tão profundas. Tendo isso em mente, comecei a pensar em qual figura poderia descrever de forma mais clara possível a experiência interior do silêncio. Já havia usado diversas ilustrações: um santuário; um quarto. No entanto, nenhuma delas me pareceu atingir o objetivo. Até que Deus trouxe a minha mente uma imagem: a de uma gruta interior, dessas que tem formações rochosas interessantes, estalagmites e estalactites esplendorosas. E em algumas até encontramos uma concentração de água que formam uma espécie de lagoa. 

O que me chamou a atenção é que enquanto eu “observava” a lagoa no interior da gruta: silenciosa, serena, tranquila, cujas águas poderiam muito bem ser confundidas com um espelho se alguém decidisse fitá-las, uma grande tempestade acontecia no exterior, na superfície, do lado de fora da gruta. Árvores se chacoalhando, galhos estalando ao quebrar, o vento uivante, folhas esvoaçando em todas as direções, trovões e relâmpagos. Tudo isso se contrastava com a paz  que a lagoa no interior daquela gruta desfrutava. Enquanto por ocasião da tempestade do lado de fora o ambiente caracterizava-se por desordem, agitação e ruído, do lado de dentro a gruta com sua lagoa formava um quadro de profunda harmonia e quietude. Definitivamente a tempestade no exterior não abalava em nada as águas calmas da lagoa interior.

Acredito que essa imagem retrata com perfeição o que queremos transmitir quando nos referimos ao silêncio. Acima de tudo ele se apresenta mais como uma experiência interior do que como uma realidade física: ausência de palavras e sons. Os que verdadeiramente compreendem o silêncio como realidade interior sabem, porque assim tem experimentado, que você pode estar em profundo silêncio mesmo em meio à multidão e ao barulho. A grande verdade é que o silêncio é uma atitude interior de recolhimento  em Deus, que nos traz paz e serenidade. Talvez a palavra silêncio por si só não faça jus à completude da experiência que estamos tratando. Acredito que “quietude” expressa melhor nosso propósito aqui.

Quietude caracterizava o estado da lagoa no interior da gruta, enquanto na superfície tudo o mais estava um caos. Essa também pode ser a nossa experiência: mesmo quando tudo ao nosso redor (o mundo, o exterior, a vida em si) estiver nos convidando à inquietação e ansiedade, à pressa e à compulsão, nós simplesmente podemos retornar ao “local”  silencioso de nossa “lagoa” onde suas águas tranquilas refletem nossa verdadeira imagem: não a que o mundo tenta nos imprimir. Mas, a que o próprio Deus criou à sua própria semelhança em Cristo Jesus.   E isso vai independer se nos encontramos em meio ao conglomerado humano no centro de uma grande metrópole ou num retiro espiritual silencioso. A gruta sempre estará lá e as águas tranquilas de sua lagoa também. Á nossa espera, sussurrando o nosso nome. Basta que nos lembremos disso e nos voltemos para dentro de nós onde Deus habita e nos espera de braços abertos para nos acolher em seu silêncio restaurador. 

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Não podemos negar que a palavra “renovação” nos dias de hoje, inserida no contexto da vida da Igreja, tornou-se numa espécie de cinderela antes da fada madrinha: desgastada, esfarrapada e morando no porão de uma casa. É bom deixar logo de início esclarecido que a prefiro num lindo vestido de festas, calçando um sapatinho de cristal, do que nas condições em que se encontra atualmente. Também faz-se necessário informar que a leitura e a contra-leitura desta triste situação em que a palavra “renovação” se encontra nos nossos dias, faço a partir da ótica de muitas pessoas que se denominam membros da ala mais conservadora do segmento cristão.

Para alguns a simples menção do termo renovação já é o suficiente para causar arrepios na espinha e testas franzidas. Por outro lado, há os que anseiam por renovação; os que buscam por renovação nas suas vidas espirituais; os que desertam de sua igreja e/ou denominação porque ouviram falar que naquela outra o povo é mais “renovado”. Enfim…

Não querendo entrar no mérito da questão, de qual grupo está certo ou errado, uma coisa precisa ser considerada com muita sinceridade: será que ambas as alas compreendem ao certo o que significa renovação no contexto de igreja? Será mesmo que estas pessoas sabem do que estão falando? Será que conhecem, verdadeiramente, o que tanto desejam (ou o que tanto repudiam)? Resumindo, o que é, afinal de contas, renovação no contexto de vida espiritual e de igreja?

EM BUSCA DO SIGNIFICADO

Para início de conversa o substantivo “renovação” aparece na Bíblia em dois textos: Romanos 12:2 e Tito 3:5. Em ambos ela compreende a tradução do termo grego anakainõsis. Nas palavras de Rm 12:2 nossa palavra aparece no seguinte contexto:

“E não vos amoldeis ao esquema deste mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”

Aqui, como nos fica claro, renovação assume o significado de um ajuste da visão, tanto moral quanto espiritual, de uma pessoa segundo o padrão de Deus. E isso tem um efeito designado de transformar a vida daquele que sofre tal processo.

Já em Tito 3:5 lemos o seguinte:

“Não por méritos de atos de justiça que houvéssemos praticado, mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar da regeneração e da renovação realizados pelo Espírito Santo“

Nessa passagem somos informados de que mediante a obra do Espírito Santo, Deus nos conduz a uma renovação espiritual que carcateriza-se pelo novo nascimento em Cristo Jesus, sem que para isso seja necessário a prática de obras.

Diante disso tudo, podemos concluir que biblicamente a renovação tem duas aplicações distintas. Num primeiro momento é obra exclusiva do Espírito Santo que chama o pecador ao arrependimento; o conduz a Cristo, lhe outorgando, assim, vida espiritual.

Por outro lado, renovação depende também de nossa resposta ao mover do Espírito em nossa vida que intenta nos trazer constantemente um avivamento do seu poder, desenvolvendo desta forma a vida cristã.

De um jeito ou de outro a renovação significa vida. Vida em nós. Vida de Deus acontecendo em nós e através de nós. Vida que vem de Deus alcançando outras vidas atavés da nossa vida.

RIOS CAUDALOSOS DO ESPÍRITO

Este mover do Espírito de Deus, concedendo-nos renovo espiritual constante, é caracterizado nas Escrituras com um rio que flui de nosso interior. Um rio de água viva que sacia, de uma vez por todas, a nossa sede pelo Sagrado e pelo transcendente.

Vejamos isso nas palavras de nosso próprio Senhor:

“No último dia da festa, o dia mais importante, Jesus se colocou em pé e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Como diz a Escritura, rios de água viva correrão do interior de quem crê em mim”(Jo 7:37, 38)

Logo em seguida, o escritor sacro esclarece do que se trataria este rio de água viva:

“Ele disse isso referindo-se ao Espírito Santo que os que nele cressem haveriam de receber” (v.39)

Nossa história e a da cristandade pelos séculos de sua existência, confirmam a veracidade desta promessa feita pelo Senhor aos que cressem no Seu Nome. O mover do Santo Espírito; o rio de água viva que tem corrido do interior dos santos em Cristo, permeia a linha histórica como movimentos espirituais de renovação, os quais foram responsáveis pelo avivamento do poder espiritual, antes desgastado, do povo de Deus.

Em determinados momentos Deus visitou seu povo resgatando-o da frieza e do erro espirituais e conduzindo-o a uma dimensão mais profunda da vida no seguimento de Cristo, bem como de seus consequentes desdobramentos no testemunho perante o mundo. Após uma geração de fecundidade interior, seguia-se um período de aridez que era interrompido por um derramamento do Espírito que lhe devolvia novamente o viço. Um retorno ao primeiro amor. Um reacender da chama que havia se reduzido a mera fagulha.

É importante sublinhar aqui que estes movimentos de renovação na histótria da igreja acontecram separados um do outro. Valendo da analogia com nosso texto bíblico tratou-se, numa visão do todo, de um delta de seis braços levando a vida de Deus. Ao cessar um derramamento Deus levantava um novo para lembrar seu povo que a caminhada rumo à sua presença trata-se de uma realidade multifacetada; multidimensional.

Agora, o que aconteceria se ao invés de um grande delta de seis braços, um grande rio, caudaloso, expesso, contendo no seu fluxo a água viva do Espírito Santo atingindo a vida cristã nas suas seis dimensões, fluísse livremente na vida de todo cristão e consequentemente da Igreja? O que aconteceria se numa visão holítica da vida espiritual , estes seis movimentos históricos de Deus estivessem presentes e operantes, ao mesmo tempo, na praxi cotidiana da igreja?

Confeso que quando imagino isso, ao mesmo tempo, sou tomado de uma imensa alegria e de uma profunda tristeza. Por um lado a alegria de saber o que Deus tem reservado e que se encontra disponível para o seu povo. E por outro a tristeza de presenciar a igreja flertando com coisas de valor infinitamente menor do que aquelas. 

“Oh! Espírito Santo de Deus. Flui novamente como rio impetuoso sobre a sua Igreja. Abala com as estruturas do Seu povo. Traz, mais uma vez, a vida dos céus para dentro de nós!”

OS SEIS RIOS DE ÁGUA VIVA

Como disse acima estes movimentos na história aconteceram sequêncialmente, um depois do outro, em diferentes períodos de tempo. No entanto, a proposta é a de uma ação simultânea fazendo com que estes seis rios de água viva venham a convergir num único grande rio que, por fim, trará a renovação da vida espirtual na igreja dos dias de hoje.

Porém, para que possamos ter uma idéia clara do que tratam, cada um destes seis rios, faz-se necessário observá-los separadamente.

O Rio da Vida Contemplativa

Esta tradição espiritual foi marcada  por grandes movimentos e personalidades no decorrer da história de ambos os lados das confissões cristãs.  Movimentos como os pais do deserto, o monasticismo e pessoas como Antônio, Teresa de Ávila e o conde Von Zinzendorf com os morávios, deram a cor, a textura e o sabor deste grande mover da vida do Espírito na Igreja. 

A vida contemplativa nos chama a abrimos espaço para Deus em nossa agenda cotidiana. É um clamor para que busquemos uma vida embuída de oração e outros hábitos sagrados. Intimidade e amor a Deus são termos chave nesta tradição. 

E como se faz necessário acessarmos novamente o poder contido e esquecido desta tradição de nossa espiritualidade cristã. Em dias como os nossos em que a igreja caminha para uma secularização assustadora. Onde já quase não se faz mais a distinção entre sagrado e profano. Onde o ritmo apressado e barulhento de nossas vidas nos distraem ao ponto de não conseguirmos mais viver debaixo de um senso da presença constante de Deus. Sem dúvidas torna-se urgente olharmos para traz e  enxergarmos os tesouros que estão à nossa espera guardados no baú deste grande movimento de Deus na história.

 Tesouros como a prática da lectio divina, do silêncio e da solitude, bem como a experiência de união com Deus pela contemplação que resulta na transformação de nossas vidas como um todo, são realidades que não podem continuar obscuras na prática de vida cristã das igrejas. Carecemos, urgentemente, de  nos banharmos de novo nas águas refrescantes deste rio de Deus. 

 O Rio da Vida de Santidade

Neste movimento do Espírito na história cristã, Deus produziu grandes figuras cuja vida nos servem de profunda inspiração e exemplo nos dias de hoje. A tradição de santidade se engajam aqueles que buscaram e buscam uma vida virtuosa. Santidade é uma vida que funciona da forma correta, como o próprio Deus idealizou que o fosse.

E em dias comos os de hoje, em que as vestes brancas da Noiva do Cordeiro tem sido manchada pelo mau testemunho de seus membros, esta tradição de nossa espiritualidade tem muito o que nos oferecer. Isso é um fato: não há neste mundo nada mais impactante do que o poder de uma vida santificada.

O Rio da Vida Carismática

Esta tradição tem nos grandes avivamentos da história cristã, como por exemplo o da rua Azuza, seus principais marcos. Contudo, o rastro da vida cheia do poder do Espírito de Deus remonta desde os dias da igreja primitiva, no grande derramamento ocorrido no dia de Pentecostes. Desde lá encontramos períodos em que Deus visitou seu povo com poder e dons místicos trazendo de volta aquela atmosfera apostólica dos primeiros dias da Igreja. As páginas da história testemunham-nos que o mundo assistiu e experimentou os efeitos de um povo em brasas, inflamado e incendiado pelo dunamis  de Cristo. 

E num Brasil em que se contabiliza milhões de evangélicos que de domingo a domingo abarrotam os prédios de reunião das igrejas,  sem que contudo a sociedade seja impactada ao ponto da transformação moral e social as quais caracterizaram os grande avivamentos do passado, sermos uma vez mais visitados pelo poder que vem doa alto e libertos da letargia que caracteriza a igreja nestes dias, é algo a que deveríamos nos aferrar.   

O Rio da Vida de Justiça Social

Aqui correm as águas impetuosas da busca pela propagação da shalom  de Deus sobre a face da terra, a qual deve alcançar o homem e a mulher vítmas das injustiças sociais oriundas dos sistemas governamentais injustos e opressivos. Esta tradição tem na fundação de organizações como o Exército da Salvação e em personalidades históricas como Willian Wilbeforce e Martin Luther King Jr grandes exemplos.  A espiritualidade contida neste mover de  Deus, resulta num coração compassivo que desemboca numa vida que se identifica com o sofrimento humano. 

É bem verdade que a igreja de hoje,  tem se destacado em alguns seguimentos sociais  ora fundando, ora ajudando no sustento de missionários e organizações de caráter eminentemente desta área. Não obstante a isso, fica-nos o claro senso de que sempre poderemos fazer algo a mais, pois, como bem disse o Mestre “os pobres sempre os tendes convosco”.    

No entanto, enxergo que a maior contribuição desta faceta de nossa vida espiritual se dá no campo pessoal, subjetivo. Acredito que quando ao passarmos por um mendido a pedir esmolas ou por uma família residente à sobra de um viaduto, e não apenas nos condoermos por sua situação, mas, além disso, formos impelidos a fazer algo que amenize o sofrimento,  a dor e a humilhação destes seres humanos, por menor que seja a iniciativa, aí sim poderemos dizer que este rio tão essencial encontra-se fluindo em nosso interior.

O Rio da Vida Evangelical

Este é o rio da vida centrada na Palavra de Deus. Tem na Reforma Protestante do sec XVI e em vultos como Martinho Lutero e João Calvino grandes representantes deste mover espiritual histórico.  A crença na inspiração plena, na suficiência,  na infalibilidade e na inerrância das Escrituras do Velho e do Novo Testamento, compõem a estrutura doutrinária destra tradição.

Este rio em particular significou um retorno dramático de uma era de trevas espirituais para a luz resplandecente da Palavra de Deus. Abusos e arbitrariedades eram cometidas em nome da tradição e de dogmas feitos por homens. Desta forma não se constitui em exagero de nossa parte afirmarmos tão grande importância deste movimento do Espírito de Deus, o qual libertou toda uma geração das algemas do erro e da superstição humanos.

Acredito que seria de grande valia nestes dias de confusão ideológica, crise de identidade e de ventos de doutrina que varrem a igreja brasileira, retornarmos mais uma vez para os princípios e o espírito que norteou todo este grande evento que conhecemos como Reforma Protestante, o qual teve como seu estandarte o amor pelas Escrituras Sagradas.

O Rio da Vida Sacramental

Finalmente, temos a via da conexão com Deus através das realidades comuns do dia-a-dia. Esta tradição nos afirma que Deus nos visita nos momentos de meditação bíblica, de silêncio e de solitude, assim como nos visita também quando etamos em nosso escritório em meio a relatórios financeiros, ou enfrentando a fila do supermercado  ou trocando a fralda de um filho em plena madrugada. Ao invés do mundo e das situações do cotidiano nos serem empencilhos para a comunhão com Deus, elas tornam-se os meios através dos quais podemos nos conectar com o Totalmente Outro. Resumindo: o grande desafio que esta tradição da espiritualidade cristã nos traz é o de encontrar a Deus por detrás dos milhares de momentos, situações, urgências e vissicitudes que esta vida nos oferece. 

O cristão atual enclausurado numa espiritualidade templária, onde se encontra e experimenta a Deus entre as quatro paredes da “igreja”, carece de atentar para esta dimensão da vida espiritual que nos possibilita enxergar o mundo de Deus mais amplo, cheio de possibilidades que não apenas as que acessamos nas pocas horas de reuniões públicas aos domingos. Deus pode e deseja ser encontrado e experimentado tanto no ambiente aconchegante de ar-condicionado de um prédio de reuniões de uma igreja quanto na ”estufa”, a que chamamos de ônimos, em pleno engarrafamento no centro da cidade sob um sol de 41 graus.  

A VIDA  NA  VIDA

O que a igreja no Brasil precisa, resumindo tudo, é de Vida na vida. Uma nova identificação e encarnação da vida do próprio Jesus, Seu cabeça conforme as Escrituras.  Quando lemos os evangelhos com atenção começamos a identificar estes seis rios de água viva presentes na vida do próprio Senhor. A bem da verdade quando falamos na renovação da igreja através da integralização destas seis tradições de nossa espiritualidade, isso trata de um convite a que nos moldemos a aspectos da vida espiritual de Cristo. Cada uma destas tradições, contemplativa, de santidade, carismática, de justiça social, evangelical e sacramental, estavam presentes, vivas e ativas na espiritualidade de Jesus de Nazaré. E a Vida na vida se dá no esforço de tentar imitá-lo na vivência destas facetas de nossa espiritualidade.

Isso porque:

  • Jesus Foi Um Homem Contemplativo – Ele buscava intimidade com o pai. Oração e vida não era uma realidade dicotômica na vida de Jesus. Orar e viver, viver e orar para Cristo eram a mesma coisa. Jesus buscava impregnar a vida com hábitos sagrados: ele buscava os lugares desertos para estar em silêncio e solitude com o Pai. Jesus jejuava. Ele meditava nas Escrituras. Jesus era um homem de vida de oração plena.
  • Jesus Foi Um Homem Virtuoso – A santidade da vida de Jesus não se dava na asfixia de regras e ritos vazios. Não! Pelo contrário, ser santo para Jesus manifestava-se na beleza e no impacto de uma vida que funcionava da forma correta. Uma vida que fluía no ritmo e no passo que o Pai idealizou. A vida de nosso Senhor funcionava no lugar certo, na hora certa e da maneira certa. Sem dúvidas Cristo era alguém de vida virtuosa.
  • Jesus Foi Um Homem Carismático - Umas das características mais marcantes do ministério de nosso Senhor era a presença do poder do Espírito Santo nas suas palavras e obras. Por causa de seu esvaziamente por ocasião de sua obra redentora, Jesus necessitou frequentemente da intervenção do Espírito de Seu Pai para a realização dos sinais  e prodígios que testificavam sua messianidade. “No poder do Espírito” é uma expressão frequente nas narrativas dos evangelhos. Jesus verdadeiramente era um homem que caminhava no poder do Espírito.
  • Jesus Foi Um Homem Compassivo – As Escrituras dizem que quando o Senhor viu as multidões errantes como ovelhas que não tem pastor, suas entranhas se remexeram, e ele se compadeceu delas. Jesus não conseguia ficar indiferente ante o sofrimento humano. Por isso o vemos chorando diante do túmulo de Lázaro, seu amigo; ressuscitando o filho de uma viúva pobre e alimentando uma grande multidão, mesmo sabendo que no dia seguinte a mesmo o iria procurar não por quem ele era, mas, pelo que ele tinha feito. A compaixão profunda de Jesus pelas vítimas da injustiça social nos desafia nestes dias de indiferença e individualismo pessoais.
  • Jesus Foi Um Homem de Vida Centrada na Palavra de Deus – Jesus venceu a tentação do diabo usando as Escrituras. Ele pregou a verdade de Deus. Ele citou exaustivamente as Escrituras. Ele tinha plena consciência de quem era e do que deveria fazer conforme profetizado nas Escrituras. Repreendeu os fariseus por erarem por não conhecerem as Escrituras. A Palavra eterna de Deus era o âmago do ministério e da vida de Cristo. Suas palavras e atos estavão em clara conformidade com os preceitos de Deus.
  • Jesus Era Um Homem de Vida Sacramental – Ele sabia receber o sacramento do momento presente. Para ele vida com Deus não se restringia aos momentos na sinagoga e no templo. Pelo contrário: para o Senhor Deus podia e devia ser experimentado nas coisas comuns e simples da vida cotidiana. Jesus via a mão de Deus em tudo. por isso ele podia chamar a atenção de seus discípulos e dizer “Olhai para as aves dos céus…”. Assim, um homem semeando no campo virava parábola; e algo tão comum como a queda de cabelo virava ensinamento espiritual. Não resta dúvidas que para Jesus a vida era um grande sacramento: um indício visível da presença invisível de Deus. Cristo sabia muito bem o que os serafins estavam querendo dizer quando clamaram um para o outro “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos. Toda a terra está cheia da sua glória”.

Desta forma experimentar, na íntegra, cada uma destas seis dimensões da espiritualidade cristã é experimentar a vida do próprio Cristo. Trilhar este caminho é ter sobre nós Seu jugo e aprender com ele a sermos aprendizes na vida do reino no “meio de nós”.

No entanto vale dizer que há um quê de morte nisso tudo. Pois, se desejarmos tomar Seu jugo como sendo o nosso, devemos ter em mente que isso significará o decreto da morte de nossa antiga espiritualidade: subjetiva, egóica, narcisista, egoísta, utilitarista e pragmática.  Ao passo que também significará o nascimento de uma nova espiritualidade. Não segundo a mais recete moda da vitrine evangélica, mas, segundo Jesus de Nazaré. Veremos o surgimento de uma espiritualidade marcada por uma vida com Deus profunda; por uma vida vivida da maneira certa, funcionando da maneira certa; por uma vida pontilhada pelas manifestações, capacitações e poder do Espírito Santo; por uma vida que se compadece da dor do semelhante e que repele todo e qualquer posicionamento egoísta e indiferente; por uma vida que se alimente e que se deixa moldare ser guiada pelas Escrituras Sagradas e por uma vida que se conecta com Deus através dos milhares de pequenos momentos que fomentam o nosso dia-a-dia.

Que assim seja! Oxalá o Senhor nos visite mais uma vez, como o fez com seu povo ao longo da história. provando uma vez mais que seu braço continua não encolhido. Não apenas para salvar os povos perdidos no pecado, mas, também para levantar uma Igreja poderosa, adornada, sem máculas nem ruga, para que esta seja uma vez mais instrumento em suas mãos para salgar a terra e iluminar o mundo. 

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Para saber mais sobre as seis tradições da espiritualidade cristã

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Jesus chama-nos da solidão para a solitude. O medo de ficarem sozinhas petrifica as pessoas. Uma criança que muda para uma nova vizinhança diz, em soluços, à sua mãe: “Ninguém brinca comigo.”
Uma caloura na faculdade suspira pelos dias de ginásio quando era o centro de atenção: “Agora sou uma figura apagada.” Um executivo abatido no escritório, poderoso, não obstante, sozinho. Uma senhora idosa reside em um lar de velhos aguardando a hora de ir para o “Lar”.
Nosso medo de ficar sozinhos impulsiona-nos para o barulho e para as multidões. Conservamos uma constante torrente de palavras mesmo que sejam ocas. Compramos rádios que prendemos ao nosso pulso ou ajustamos ao nossos ouvidos de sorte que, se não houver ninguém por perto, pelo menos não estamos condenados ao silêncio.

T. S. Eliot analisou muito bem nossa cultura quando disse: “Onde deve encontrado o mundo em que ressoará a palavra? Aqui não pois não há silêncio suficiente.”
Mas a solidão ou o barulho não são nossas únicas alternativas. Podemos cultivar uma solitude e um silêncio interiores que nos livra da solidão e do medo. Solidão é vazio interior. Solitude é realização interior. Solitude não é, antes de tudo, um lugar, mas um estado da mente e do coração.
Há uma solitude do coração que pode ser mantida em todas as ocasiões. As multidões, ou a sua ausência, têm pouco que ver com este estado atentivo interior. É perfeitamente possível ser um eremita e viver no deserto e nunca experimentar a solitude. Mas se possuirmos solitude interior nunca teremos medo de ficar sozinhos, pois sabemos que não estamos sós.

Nem tememos estar com outros, pois eles não nos controlam. Em meio ao ruído e confusão encontramos calma num profundo silêncio interior.

A solitude interior há de manifestar-se exteriormente. Haverá a liberdade de estar sozinhos, não para nos afastarmos das pessoas, mas para poder ouvi-las melhor. Jesus viveu em “solitude do coração” interior.
Também freqüentemente experimento solitude exterior. Ele começou seu ministério passando quarenta dias sozinho no deserto (Mateus 4:1-11).
Antes de escolher os doze, ele passou a noite inteira sozinho no monte deserto (Lucas 6:12). Quando recebeu a notícia da morte de João Batista, Jesus “retiro-se dali num barco, para um lugar deserto, à parte” (Mateus 14:13).
Após a alimentação miraculosa dos cinco mil, Jesus mandou que os discípulos partissem; então ele despediu as multidões e “subiu ao monte a fim de orar sozinho…”(Mateus 14:23). Após uma longa noite de trabalho, “Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto, e ali orava”(Marcos 1:35).
Quando os doze retornaram de uma missão de pregação e curas, Jesus os instruiu: “Vinde repousar um pouco, à parte…” (Marcos 6:31). Depois da cura de um leproso, Jesus “se retirava para lugares solitários, e orava” (Lucas 5:16). Com três discípulos ele buscou o silêncio de monte solitário como palco para a transfiguração (Mateus 17:1-9).
Enquanto se preparava para sua mais sublime e mais santa obra, Jesus buscou a solitude do jardim do Getsêmani (Mateus 26:36-46). Pode-se prosseguir, mas talvez isto seja suficiente para mostrar que a busca de um lugar solitário era uma prática regular de Jesus. Igualmente deve ser conosco.
Em Life Together (Vida Juntos), Dietrich Bonhoeffer deu a um de seus capítulos o título de “O Dia Juntos”, e com percepção intitulou a capítulo seguinte “O Dia Sozinho”. Ambos são fundamentais para o êxito espiritual. Escreveu ele:
Aquele que não pode estar sozinho, tome cuidado com a comunidade… Aquele que não está em comunidade, cuidado com o estar sozinho…Cada uma dessas situações tem, de si mesma, profundas ciladas e perigos.
Quem desejar a comunhão sem solitude mergulha no vazio de palavras e sentimentos, e quem busca a solitude sem comunhão perece no abismo da vaidade, da auto-enfatuação e do desespero.
Portanto, se desejarmos estar com os outros de modo significativo, devemos buscar o silêncio recriador da solitude. Se desejamos estar sozinhos em segurança, devemos buscar a companhia e a responsabilidade dos outros.Se desejamos viver em obediência, devemos cultivar a ambos.

Solitude e silêncio

Sem silêncio não há solitude. Muito embora o silêncio às vezes envolva a ausência de linguagem, ele sempre envolve o ato de ouvir. O simples refrear-se de conversar, sem um coração atento a voz de Deus, não é silêncio.
Devemos entender a ligação que há entre a solitude interior e silêncio interior. Os dois são inseparáveis. Todos os mestres da vida interior falam dos dois de um só fôlego.

Por exemplo, a Imitação de Cristo, que tem sido obra prima incontestável da literatura devocional durante cinco séculos, tem uma seção intitulada “Do amor da solidão e do silêncio”.

Dietrich Bonhoeffer faz os dois um todo inseparável em Vida Juntos, como o faz Thomas Merton em Thoughts in Solitude ( Pensamentos em Solitude). Com efeito, lutamos por algum tempo tentando resolver se daríamos a este capítulo o título de Disciplina da solitude ou Disciplina do silêncio, tão estritamente ligados são os dois em toda a importante literatura devocional.
Devemos, pois, necessariamente entender e experimentar o poder transformador do silêncio se desejarmos conhecer a solitude.
Diz um antigo provérbio: “O homem que abre a boca, fecha os olhos!” A afinidade do silêncio e da solitude é poder ouvir. O controle, e não a ausência de ruído, é a chave do silêncio. Tiago compreendeu claramente que a pessoa capaz de controlar a língua é perfeita (Tiago 3:1-12).
Sob a Disciplina do silêncio e da solitude aprendemos quando falar e quando refrear-nos de falar. A pessoa que considera as Disciplinas como leis, sempre transformará o silêncio em algo absurdo: “Não falarei durante os próximos quarenta dias!” Esta é sempre uma grave tentação para o verdadeiro discípulo que deseja viver em silêncio e solitude.
Thomas de Kempis escreveu: “É mais fácil estar totalmente em silêncio do que falar com moderação”. O sábio pregador de Eclesiastes disse que há “tempo de estar calado, e tempo de falar”(Eclesiastes 3:7). O controle é a chave.
As analogias que Tiago faz do leme e dos freios, sugerem que a língua tanto guia como controla. Ela guia nosso curso de muitas formas. Se contamos uma mentira, somos levados a contar mais mentiras para encobrir a primeira. Logo somos forçados a comportar-nos de modo a darmos crédito à mentira. Não admira que Tiago tenha dito: “a língua é fogo” (Tiago 3:6).
A pessoa disciplinada é a que pode fazer o que precisa ser feito quando precisas ser feito. O que caracteriza uma equipe de basquetebol num campeonato é ser ela capaz de marcar pontos quando necessários.
Muitos de nós podemos encestar a bola, mas não o fazemos quando necessário. Do mesmo modo, uma pessoa que está sob o Disciplina do silêncio é a que pode dizer o que necessita ser dito.
“Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo”(Provérbios 25:11). Se ficamos calados quando deveríamos falar, não estamos vivendo na Disciplina do silêncio. Se falamos quando deveríamos estar calados, novamente erramos o alvo.

O Sacrifício de Tolos

Lemos em Eclesiastes : “ Chegar-se para ouvir é melhor do que oferecer sacrifícios de tolos” (Eclesiastes 5:1). O sacrifício de tolos é conversa religiosa de iniciativa humana.
O pregador continua: “Não te precipites com tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu na terra; portanto sejam poucas as tuas palavras”(Eclesiastes 5:2).
Quando Jesus tomou a Pedro, Tiago e João e os levou ao monte e foi transfigurado diante deles, Moisés e Elias apareceram e entabularam a conversa com Jesus. O texto grego prossegue: “E respondendo, Pedro disse-lhes… se queres farei aqui três tendas…”(Mateus 7:14). Isto é tão expressivo. Não havia alguém falando com Pedro. Ele estava oferecendo sacrifícios de tolos.
O Diário de John Woolman contém um comovente e terno relato da aprendizagem do controle da língua. Suas palavras tão expressivas que é melhor citá-las aqui:
Eu ia a reunião num terrível estado mental, e me esforçava por estar interiormente familiarizado com a linguagem do verdadeiro Pastor. Um dia, encontrando-me sob forte operação do espírito, levantei-me e disse algumas palavras numa reunião; mas não me mantendo junto à abertura Divina falei mas do que era exigido de mim.
Percebendo logo meu erro, fiquei com a mente aflita algumas semanas, sem nenhuma luz ou consolo, ao ponto mesmo de não encontrar satisfação em nada. Lembrava-me de Deus, e ficava perturbado, e no auge de minha tristeza ele teve piedade de mim e enviou o Consolador.
Então senti o pecado de minha ofensa; minha mente ficou calma e tranqüila, e senti-me verdadeiramente grato ao meu gracioso Redentor por suas misericórdias.
Cerca de seis meses após este incidente, sentindo aberta a fonte de amor Divino, e interesse por falar, proferi umas poucas palavras em uma reunião, nas quais encontrei paz.
Sendo assim humilhado e disciplinado sob a cruz, minha compreensão tornou-se mais fortalecida para distinguir o espírito puro que interiormente se move sobre o coração, que me ensinou a esperar em silêncio, `às vezes durante muitas semanas, até que senti aquele fluxo quer prepara a criatura para [posicionar-se como uma trombeta, através da qual o Senhor fala ao seu rebanho.
Que descrição do processo de aprendizado pelo qual se passa na Disciplina do silêncio! De particular significado foi o aumento de sua capacidade, proveniente desta experiência, de “distinguir o espírito puro que interiormente se move sobre o coração”.
Um motivo de quase não agüentarmos permanecer em silêncio é que ele nos faz sentir tão desamparados. Estamos demais acostumados a depender das palavras para manobrar e controlar os outros. Se estivermos em silêncio, quem assumirá o controle? Deus fará isto; mas nunca deixaremos que ele assuma o controle enquanto não confiarmos nele.
O silêncio está intimamente relacionado com a confiança. A língua é nossa mais poderosa arma de manipulação. Uma frenética torrente de palavras flui de nós porque estamos num constante processo de ajustar nossa imagem pública.
Tememos muito o que pensamos que as outras pessoas vêem em nós, de modo que falamos a fim de corrigir o entendimento delas. Se fiz alguma coisa errada e descubro que você sabe disso, serei muito tentado a ajudá-lo a entender minha situação!
O silêncio é uma das mais profundas Disciplinas do Espírito simplesmente porque ela põe um paradeiro nisso. Um dos frutos do silêncio é a liberdade de deixar que nossa justificação fique inteiramente com Deus.
Não temos necessidade de corrigir os outros. Há uma história de um monge medieval que estava sendo injustamente acusado de certos erros.
Certo dia ele olhava pela janela e viu lá fora um cachorro a morder e rasgar um tapete que havia sido pendurado para secar. Enquanto ele observava, o Senhor falou-lhe, dizendo: “É isso que estou fazendo com sua reputação.
Mas se você confiar em mim, não terá necessidade de preocupar-se com as opiniões dos outros”. Talvez, mais do que qualquer outra coisa, o silêncio leva-nos a crer que Deus pode justificar e endireitar tudo. George Fox falava com freqüência do “espírito de escravidão”(Romanos 8:14), e de como o mundo jaz nesse espírito.
Freqüentemente ele identificava o espírito de escravidão com o espírito de subserviência a outros seres humanos. Em seu Diário ele falava de “ajudar as pessoas a escapar dos homens”, afastá-las do espírito de escravidão à lei mediante outros seres humanos. O silêncio é o principal meio de conduzir-nos a esse livramento.
A língua é um termômetro; ela diz qual é a nossa temperatura espiritual. Ela é, também, um termostato; controla nossa temperatura espiritual. O controle da nossa língua pode significar tudo.
Temos nós sido libertados de modo que podemos controlar nossa língua? Bonhoeffer escreveu: “O silêncio verdadeiro, a verdadeira tranqüilidade, o controle real da língua manifesta-se somente como a sóbria conseqüência da calma espiritual”.
Relata-se que Dominic fez uma visita a Francisco de Assis e durante todo o encontro nenhum deles proferiu uma única palavra. Somente quando tivermos aprendido a estar verdadeiramente calados ‘é que estaremos capacitados para proferir a palavra necessária no momento oportuno.
Catherine de Haeck Doherty escreveu: “Tudo em mim é silente… e estou imersa no silêncio de Deus”. É na solitude que chegamos a experimentar o “silêncio de Deus” e assim receber o silêncio interior que é o anseio de nosso coração.

A Noite Escura da Alma

Levar a sério a Disciplina da solitude significará que em algum ponto ou pontos no curso da peregrinação entraremos no que S. João da Cruz vividamente descreveu como “a noite escura da alma”.
A “noite escura” para a qual ele nos chama não é algo mau ou destrutivo. Pelo contrário, é uma experiência a ser recebida com agrado do mesmo modo que uma pessoa enferma receberia com agrado uma cirurgia que promete saúde e bem-estar. A finalidade da escuridão não é castigar-nos ou afligir-nos. É libertar-nos.
Que significa entrar na noite escura da alma? Pode ser um senso de aridez, de depressão, até mesmo o de sentir-se perdido. Ela nos despoja de dependência excessiva à vida emocional.
A noção, tantas vezes ouvida hoje, de que tais experiências podem ser evitadas e que devíamos viver em paz e conforto, alegria e celebração, só revela o fato de que muito da experiência contemporânea não passa de sentimentalismo superficial.
A noite escura é um dos meios de Deus levar-nos à tranqüilidade, à calma, de modo que ele possa operar a transformação interior da alma.
Como se expressa essa noite na vida diária? Quando se busca seriamente a solitude, geralmente há um fluxo de êxito inicial e então um desânimo inevitável_ e com ele um desejo de abandonar por completo a busca. Os sentimentos vão-se embora e fica o senso de que não alcançamos Deus. S. João da Cruz descreveu-o deste modo:
…a escuridão da alma mencionada aqui… põe os apetites sensórios e espirituais a dormir, amortece-os e os priva da capacidade de encontrar prazer em qualquer coisa. Ata a imaginação e impede-a de fazer qualquer bom trabalho discursivo.
Ela faz cessar a memória, faz o intelecto tornar-se obscuro e incapaz de entender qualquer coisa, e daí levar a vontade também a tornar-se árida e constrita, e todas as faculdades vazias e inúteis. E acima de tudo isto, paira uma densa e cansativa nuvem que aflige a alma e a conserva afastada de Deus.
Em seu poema “Canciones del Alma”, S. João da Cruz usou duas vezes a frase: “Estando minha casa agora totalmente calada”. Nessa expressiva linha ele indicava a importância de silenciar todos os sentidos físicos, emocionais, psicológicos, e mesmo espirituais.
Toda distração do corpo, mente e espírito deve ser posta numa espécie de animação suspensa antes que possa ocorrer esta profunda obra de Deus na alma. O anestésico deve fazer efeito antes que se realize a cirurgia.
Virá o silêncio, a paz, a tranqüilidade interiores. Durante esse tempo de escuridão, a leitura da Bíblia os sermões, o debate intelectual_ tudo falhará em comover ou emocionar.
Quando o amoroso Deus nos atrai para uma escura noite da alma, muitas vezes somos tentados a culpar todo o mundo e todas as coisas por nosso entorpecimento interior e procuramos livrar-nos dela.
O pregador é maçante. O cântico de hinos é tão fraco. Talvez comecemos a andar por aí à procura de uma igreja ou de uma experiência que nos dê “arrepios espirituais”. Esse é um grave engano.
Reconheça a noite escura pelo que ela é. Seja agradecido porque Deus o está amorosamente desviando de toda distração, de modo que você possa vê-lo. Em vez de ridicularizar e brigar, acalme-se e espere.
Não estou aqui a falar de entorpecimento espiritual que vem como resultado de pecado ou desobediência. Falo da pessoa que busca a Deus com afã e não abriga pecado conhecido em seu coração.
Quem há entre vós que tema ao Senhor, e ouça a voz do seu Servo que andou em trevas sem nenhuma luz, e ainda confiou em nome do Senhor e se firmou sobre o seu Deus? (Isaías 50:10)
O ponto da passagem bíblica é que é perfeitamente possível temer, obedecer, confiar e firmar-se no Senhor e ainda “andar em trevas sem nenhuma luz”. A pessoa vive em obediência mas entrou numa noite escura da alma. S. João da Cruz disse que durante esta experiência há uma graciosa proteção contra vícios e um maravilhoso progresso nas coisas do reino de Deus.
Se uma pessoa na hora dessas trevas observar bem de perto, verá com clareza quão pouco os apetites e as faculdades se distraem e como ela está segura de evitar vanglória, orgulho e presunção, alegria vazia e falsa, e muitos outros males. Pelo andar em escuridão a alma não somente evita extraviar-se mas avança rapidamente, porque assim ela adquire virtudes.
Que deveríamos fazer durante essa época de aflição interior? Primeiro, não leve em consideração o conselho dos amigos bem-intencionados de livrar-se da situação. Eles não entendem o que está acontecendo. Nossa época é tão ignorante destas coisas que não lhe recomendo conversar sobre esses assuntos.
Acima de tudo, não tente explicar nem justificar por que você parece estar “aborrecido”. Deus é seu justificador; entregue seu caso a ele. Se você pode, realmente, retirar-se para um “lugar deserto” durante algum tempo, faça-o. Se não, cumpra suas tarefas diárias.
Mas, esteja no “deserto” ou em casa, mantenha no coração um profundo, interior e atencioso silêncio – e haja silêncio até que a obra da solitude se complete.
Talvez S. João da Cruz tenha estado a conduzir-nos a águas mais profundas do que cuidássemos ir. Por certo ele não está falando de um reino que muitos de nós vemos apenas “como em espelho, obscuramente”.
Não obstante, não temos necessidade de censurar-nos por nossa timidez de escalar esses picos nevados da alma. Esses assuntos são mais bem tratados com cautela.
Mas talvez ele tenha provocado dentro de nós uma atração por experiências mais elevadas, mais profundas, não importa quão leve o puxão. É como abrir levemente a porta de nossa vida a este reino. Isto é tudo o que Deus pede, e tudo o que ele necessita. Para concluir nossa viagem na noite escura da alma, ponderemos estas palavras poderosas de nosso mentor espiritual:
Oh, então, alma espiritual. Quando vires teus apetites obscurecidos, tuas inclinações secas e constritas, tuas faculdades incapacitadas para qualquer exercício interior, não te aflijas; pensa nisto como uma graça, visto que Deus te está libertando de ti mesma e tirando de ti tua própria atividade.
Conquanto tuas ações possam ter alcançado bom êxito, não trabalhaste tão completa, perfeita, e seguramente – devendo à impureza e inabilidade de tais ações – como fazes agora que Deus te toma pela mão e te guia na escuridão, como se fosses cega, ao longo de um caminho e para um lugar que não conheces. Nunca terias tido êxito em alcançar este lugar, não importa quão bom sejam teus olhos e teus pés.

Passos Para a Solitude

As Disciplinas Espirituais são coisas que fazemos. Nunca devemos perder de vista esse fato. Podemos falar piedosamente acerca da “solitude do coração”, mas se isto, de certo modo, não abrir caminho para nossa experiência, então erramos o alvo das Disciplinas.
Estamos lidando com ações, e não apenas com estados mentais. Não é suficiente dizer: “Bem, muito certamente estou na posse da solitude e silêncios interiores; não há nada que eu necessite fazer”.
Todos quantos chegaram aos silêncios vivos fizeram determinadas coisas, ordenaram suas vidas de uma forma especial, de modo que recebessem a “paz de Deus, que excede todo o entendimento”. Se desejamos ter êxito, devemos ir além do teorético para as situações da vida.
Quais são alguns passos para a solitude? A primeira coisa que podemos fazer é tirar vantagem das “pequenas solitudes” que enchem nosso dia.
Consideremos a solitude daqueles primeiros momentos matutinos na cama, antes que a família desperte. Pense na solitude de uma xícara de café pela manhã, antes de começar o trabalho do dia.
Existe a solitude de pára-choque de um carro junto ao pára-choque de outro durante a correria do tráfego na hora de mais movimento.
Pode haver poucos momentos de descanso e refrigério quando dobramos um esquina e vemos uma flor ou uma árvore. Em vez da oração audível antes de uma refeição, considere convidar a todos para reunir-se em uns poucos momentos de silêncio.
De quando em quando, dirigindo um carro lotado de crianças e adultos conversadores, eu exclamava: “Vamos brincar de fazer silêncio e ver se ficamos absolutamente calados até chegarmos ao aeroporto” (cerca de cinco minutos adiante). Funcionava. Saia um pouquinho antes de ir deitar-se, e prove a noite silenciosa.
Muitas vezes perdemos esses pequeninos lapsos de tempo. Que pena! Eles podem e deveriam ser redimidos. São momentos para silêncio interior, para reorientar nossas vidas como o ponteiro de uma bússola. São pequenos momentos que nos ajudam a estar genuinamente presentes onde estamos. Que mais podemos fazer? Podemos encontrar ou criar um “lugar tranqüilo” para silêncio e solitude.
Constantemente estão sendo construídas novas casas. Porque não insistir que um pequeno santuário interior seja incluído nas plantas, um pequeno lugar onde um membro da família possa estar a sós em silêncio? Que é que nos impede? Construímos esmeradas salas de estar, e achamos que vale a pena a despesa. Se você já possuiu uma casa, considere murar uma pequena seção da garagem ou do pátio.
Se mora num apartamento, seja criativo e ache outros meios de permitir-se a solitude. Sei de uma família que tem uma cadeira especial; sempre que uma pessoa se assenta nela, é como estar dizendo: “Por favor, não me amole; quero estar a sós”.
Encontre lugares fora de sua casa: um local num parque, o santuário de uma igreja (dessas que mantêm abertas sua portas), mesmo um depósito em algum lugar. Um centro de retiro perto de nós construiu uma bonita cabana para uma pessoa, especificamente para meditação particular e solitude. Chama-se “Lugar Tranqüilo”.
As igrejas investem somas enormes de dinheiro em edifícios. Que tal construir um lugar aonde alguém possa ir para estar a sós durante alguns dias? Catherine de Haeck Doherty foi pioneira no desenvolvimento de Poustinias (palavra russa que significa “deserto”) na América do Norte. São lugares destinados especificamente para solitude e silêncio.
No capítulo sobre estudo, consideramos a importância de observar a nós mesmos para ver com que freqüência nossa conversa é uma tentativa frenética de explicar e justificar nossas ações.
Tendo observado isto em você mesmo, experimente praticar ações sem nenhuma palavra de explicação. Note seu senso de temor de que as pessoas entendam mal por que você fez o que fez. Tente deixar que Deus seja seu justificador.
Discipline-se de modo que a suas palavras sejam poucas mas digam muito. Torne-se conhecido como uma pessoa que, quando fala, sempre tem algo a dizer. Mantenha clara sua linguagem. Faça o que diz que fará. “Melhor é que não votes do que votes e não cumpras” (Eclesiastes 5:5).
Quando a língua se encontra sob a nossa autoridade, as palavras de Bonhoeffer se tornam verdadeiras em relação a nós: “Muita coisa desnecessária fica por dizer. Mas a coisa essencial e útil pode ser dita em poucas palavras”.
Dê outro passo. Tente viver um dia inteiro sem proferir palavra alguma. Faça-o, não como uma lei, mas como um experimento. Note seus sentimentos de desamparo e excessiva dependência das palavras para comunicar-se. Procure encontrar novos meios de relacionar-se com outros, que não dependam de palavras. Aproveite, saboreie o dia.Aprenda com ele.
Quatro vezes por ano retire-se durante três a quatro hora com a finalidade de reorientar os alvos de sua vida. Isto pode ser facilmente feito em uma noite. Fique até tarde no escritório, faça-o em casa, ou procure um canto sossegado em uma biblioteca pública. Revalie suas metas e objetivos.
Que é que você deseja ser ver realizado daqui a um ano? Daqui a dez anos? Nossa tendência é superestimar em alto grau o que podemos realizar em dez. Estabeleça metas realistas, mas esteja disposto a sonhar, a esforçar-se. No sossego dessas breves horas, ouça o trovão da voz de Deus. Mantenha um registro diário do que lhe acontece.
A reorientação e fixação de metas não precisam ser frias e calculadas, como alguns imaginam, feitas com uma mentalidade de análise de mercado. Pode ser que ao entrar num silêncio atento, você receba a deliciosa impressão de que este ano deseja aprender a tecer ou trabalhar com cerâmica.
Essa lhe parece uma meta muito terrestre, antiespiritual? Deus está intencionalmente interessado em tais questões. Está você? Talvez deseje aprender (experimentar) mais acerca dos dons espirituais de milagres, de cura e de línguas. Ou você pode fazer como um amigo que sei que está gastando longos períodos de tempo experimentando o dom de socorros, aprendendo a ser servo.
Talvez no próximo ano você gostaria de ler todas as obras de C. S. Lewis ou de D. Elton Trueblood. A escolha desses alvos soa-lhe como jogo de manipulação de um vereador? Claro que não. Não se trata de meramente estabelecer uma direção para a sua vida. Você está indo para algum lugar, por isso é muito melhor ter uma direção fixada pela comunhão com o Centro divino.
Na Disciplina do estudo examinamos a idéia de retiros de estudos de dois ou três dias. Tais experiências, quando combinadas com uma imersão interior no silêncio de Deus, são enaltecidas. À semelhança de Jesus, devemos afastar-nos das pessoas de modo que possamos estar verdadeiramente presentes quando estivermos com elas. Faça um retiro uma vez por ano, sem outro propósito em mente que não a solitude.
O fruto da solitude é o aumento de sensibilidade e compaixão por outros. Surge uma nova liberdade para estar com as pessoas. Há uma nova atenção para com suas necessidades, nova responsividade para com suas mágoas. Thomas Merton observou.
É na profunda solitude que encontro a afabilidade a qual posso verdadeiramente amar a meus irmãos. Quanto mais solitário estou, tanto mais afeição eu sinto por eles. É pura afeição e cheia de reverência pela solitude dos outros. Solitude e silêncio ensinam-me a amar a meus irmãos pelo que eles são, e não pelo que dizem.
Não sente você um toque, um anseio de aprofundar-se no silêncio e solitude de Deus? Não deseja uma exposição mais profunda, mais completa à Presença de Deus? A Disciplina da solitude é que abrirá a porta. Você está convidado a vir e “ouvir a voz De Deus em seu silêncio todo-abrangente, maravilhoso, terrível, suave e amoroso”.

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* Richard Foster – é ministro Quacre e presidente do Renovare USA.

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Um dos grandes desafios que a espiritualidade cristã clássica nos traz é o resgate da leitura das Sagradas Escrituras com o coração. Numa época em que a devoção tem cedido espaço para a investigação teológico-acadêmica, onde a leitura bíblica assume um caráter estritamente intelectual,  achegar-nos novamente ao Livro para dele degustar cada palavra, cada frase, cada expressão é de grande importância para nossas vidas espirituais.

Esse tipo de leitura a que nos referimos é o que popularmente foi denominado de ler a Bíblia com o coração. O que vem em contrapartida de se ler as Escrituras apenas utilizando as faculdades da mente. É deitar os olhos não para saber apenas, mas sobretudo, para ouvir. É o ler no intuito não de conhecer sobre Deus,mas, a Deus. É mergulhar na imensidão do oceano escriturístico com atenção amorosa para poder perceber e acessar a gloriosa Presença do Totalmente Outro. É o tipo de disciplina espiritual que tem como pano de fundo a compreensão que Deus não é um objeto de investigação a ser dissecado afim de satisfazer nosso narcisismo intelectual, mas, um indivíduo de relacionamento a ser amado e tido como objeto de nossos mais profundos deleites (Sl 37:4; Fp 4:4).

A verdade de que uma proposta como essa cause estranheza na maioria dos cristãos nos dias de hoje, se dá pelo fato de que somos produtos de um cristianismo nascido da ruptura entre razão e emoção. Até a idade média a leitura bíblica bem como o estudo da teologia tinham como propósito principal conduzir o cristão a uma experiência de contemplação divina: um encontro/união com Deus. Celebrava-se o mistério. Via-se na atitude do cristão uma postura de adorador. O fascínio, o silêncio reverente e o senso de transcendência integravam a espiritualidade do servo e da serva de Deus daquela época. O resultado de tudo isso é que não existia a diferença entre ler a  Bíblia e orar. No entendimento clássico não se tratavam de dois movimentos distintos e sequenciais, mas sim, simultâneos.  Oravam-se as Escrituras.

Acredito que o resgate dessa forma de ler a Bíblia é parte da solução para o estado do evangelicalismo pós-moderno dos dias atuais. Se fossemos descrever o cristianismo presente na vida das pessoas poderíamos classifica-lo tão simplesmente como superficial.  A crença e a praxe cristã epidérmicas que têm acometido a igreja em nosso tempo, roubou-lhe a profundidade e a experiência com o Sagrado.  E como consequências dessa perda vemos surgir duas atitudes distintas, falsas espiritualidades.

A primeira é o engessamento da vida espiritual que se caracteriza pela frieza e total desprovimento de emoções e afetos na relação com Deus. Particularmente, esse resultado vem direto da ruptura medieval razão/emoção. No entanto em nenhum momento as Escrituras condenam a presença das emoções na experiência espiritual. Pelo contrário, elas não apenas reconhecem sua existência (Sl 30:5b), mas também revelam que as mesmas são importantes para Deus (Sl 56:8) e que portanto devemos celebrá-las (1Pe 1:7,8).

A segunda atitude decorrente da perda da profundidade na experiência cristã é  a outra ponta da corda, a qual é tão nociva quanto a primeira. Refiro-me ao emocionalismo exacerbado que vem de mãos dadas com a busca por experiências místicas como um fim em si mesmas. Novamente Deus aqui é colocado com um meio a se obter algo e não como um sujeito com o qual nos relacionar amorosamente. Não resta dúvidas que os grandes místicos da tradição cristã, os quais pregaram, ensinaram, escreveram e experimentaram a leitura bíblica com o coração, iriam estranhar profundamente esse tipo de espiritualidade tão difundida atualmente por esse segundo grupo. Esses servos e servas de Deus reconheciam a existência de experiências de êxtase, vozes, visões e coisas desse gênero. No entanto, afirmavam categoricamente ser as mesmas não usuais e não essenciais para a vida cristã autêntica. No entendimento deles a experiência mística acontecia exatamente a partir do contato das Escrituras, no silêncio recolhedor, na solitude recriadora que conduzia o filho de Deus ao encontro pessoal com o Cristo ressurreto. Além disso também asseveravam acerca da necessidade de uma percepção sacramental da vida onde Deus poderia e deveria ser encontrado por detrás das experiências corriqueiras do cotidiano. O extraordinário vindo a nós pelas vias do ordinário. Que ideia arrebatadora!

A luz de tudo que foi dito acima, como podemos de forma concreta e prática efetuarmos esse tipo de leitura que contempla a Bíblia não apenas com a mente e o intelecto, mas também com o coração e as emoções? Eis algumas orientações:

1. Introduza o silêncio no momento de sua leitura bíblica. A sugestão aqui é que, antes de abrir a Bíblia e começar a ler, se separa alguns instantes para simplesmente ficar em silêncio, quem sabe uns 10 minutos. O propósito dessa prática é nos disciplinarmos a estar totalmente presentes no momento para Deus. Aquietando-nos, tomamos consciência da Grande Presença (Sl 46:10;  Hc 2:20).

2. Separe um trecho não muito longo das Escrituras. Quem sabe apenas alguns versículos ou até mesmo apenas um. De uns tempos pra cá inventou-se uma espiritualidade que se preocupa com a quantidade e não a qualidade do momento. Do que nos adiante lermos grandes porções da Bíblia, capítulos ou até mesmo livros de uma vez só, e não ouvirmos o Senhor nos falando ao coração? Devemos ter em mente que a proposta aqui não é angariar informações sobre, mas, experimentar de forma pessoal a Deus.

 3. Leia o texto bíblico devagar. Sim. Por que a pressa? Por que passar os olhos batidos por essa carta de amor que o Pai endereçou a nós? Portanto, leia uma, duas, três e quantas vezes forem necessárias. Permita que cada palavra, cada expressão “caia”  com peso sobre o seu coração. E em atitude de amorosa espera, permaneça na leitura até que sua atenção seja chamada para algo dentro do texto Sagrado. 

4. Saboreie o que Deus lhe entregou no texto. Pode ter sido até mesmo uma única expressão como por exemplo “…Deus amou o mundo…” (Jo 3:16). Faça perguntas diretas ao texto: qual a relação que isso tem comigo?; o que isso se relaciona ao mundo para o qual devo ministrar?; o que Deus está querendo me dizer através disso? etc. Permita que o Espírito Santo impregne seu interior com toda a seiva espiritual contida na Palavra. Mais uma vez reitero: tudo isso sem pressa. Não há porque correr. Você não está perdendo tempo, mas, investindo numa amizade eterna (Jo 15:15).

5. Responda de forma amorosa ao que Deus lhe falou. Agradeça, louve, suplique, interceda ou confesse em resposta ao que o Espírito Santo ministrou ao seu coração. Não fique indiferente à Palavra de Deus para você.

6. Permaneça na Presença  do Pai. Mais uma vez, por alguns minutos, silencie e apenas fique presente no momento junto com o Pai. Permita que tudo quanto você recebeu da parte dele assente no seu coração. Aqui, se assim desejar, pode ser utilizada uma frase de oração contemplativa como “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador” ou então algo mais simples como “Pai, pertenço a Ti”. Busque alinhar sua respiração com a  frase onde parte dela será recitada mentalmente ao inspirar e o restante ao expirar. Faça isso durante alguns breves momentos até que o Espírito de Deus conduza-o ao silêncio e quietude interiores.

Por fim, agradeça ao Senhor pelo encontro com sua Presença, pelo desfrute de paz e serenidade na alma. E com uma alegria vinda dos céus, indizível e cheia de glória, junte-se aos milhares que ao longo da história cristã fizeram coro com os discípulos a caminho de Emaús:

 Acaso o nosso coração não ardia pelo caminho, quando ele nos falava e nos abria as Escrituras?” (Lc 24:32)

 

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As narrativas que temos acerca de Deus determinam, substancialmente, a visão que desenvolvemos acerca de outras pessoas e de nós mesmos. O que são narrativas sobre Deus? Simples: são as idéias e imagens que temos em nossa mente acerca de quem Deus é e de como ele age, as quais nos foram transmitidas como herança por nossos pais, professores, líderes espirituais etc. Daí já se pode perceber o quanto elas são de suma importância para nossa cosmovisão, seja esta saudável ou não.

Na grande maioria dos cristãos espalhados pelas igrejas das diferentes confissões, existe um número esmagador de pessoas que foram expostas àquilo que podemos chamar de “narrativa do merecimento” onde o amor de Deus por nós é apresentado como uma dimensão estritamente condicionada ao nosso comportamento. Em outras palavras, Deus concede-me seu amor quando eu comporto-me bem. No momento em que “saio da linha”, Deus retem seu amor. Com isso, muitas pessoas vivem uma vida cristã aprisionada pela falsa ideia de que o amor de Deus é algo que eu tenho de obter e/ou merecer; que o objetivo da vida é buscar a aprovação de Deus através da observância de regras, mandamento e dogmas religiosos, na maioria das vezes criados pelo próprio homem. E, assim deixamos de experimentar a vida abundante e a liberdade para as quais fomos conquistados por Cristo (Jo 10:10; Gl 5:1).

A narrativa do merecimento não é exclusiva da vida eclesiástica e espiritual. Desde a infância dentro dos nossos lares somos colocados sob a opressão dessa visão distorcida pelos nossos próprios pais. Palavras do tipo “Bom menino. Arrumou o quarto como mandei”; “boa menina. Comeu toda a comida” e etc. fomentam na psique da criança que sua bondade ou valor para seus pais existem na mesma proporção em que atendem suas expectativas. Ao se tornar adulta, esta mesma criança, é lançada num mundo que cultua esse tipo de narrativa, onde a importância de alguém está para sua aparência, vitórias pessoais, sucesso profissional e bens materiais adquiridos. E o mais curioso e irônico é que quando essa pessoa acaba se convertendo a Cristo e passa a frequentar a igreja, ao invés desta lhe fornecer narrativas terapêuticas e libertadoras das antigas narrativas, seus grilhões acabam se tornando ainda mais rígidos e apertados pelo tipo de ensino e discurso a que é exposta no convívio da comunidade de fé.

Os resultados são desastrosos. Sabendo esta pessoa que nunca conseguiu alcançar as expectativas criadas por seus pais na infância e por seus chefes e patrões na vida profissional, acaba desenvolvendo uma baixo auto-estima, um ódio a si mesma que acaba sendo projetada sobre seu relacionamento com Deus. Ela raciocina: “se nunca consegui agradar meus pais e meus chefes, não é a Deus que vou conseguir.” Desta forma essa mesma pessoa se vê numa gangorra de altos e baixos na sua vida espiritual, emocional e psicológica na tentativa patológica de se buscar a todo custo merecer o amor de Deus e conseguir sua aceitação. 

É nesse exato momento que as pessoas desenvolvem uma válvula de escape psico-emocional para seu sentimento de inadequação perante Deus. Aqui começa-se a desenvolver aquilo que chamamos de “falso eu”. Ou seja, são máscaras que criamos para nos esconder por detrás delas, das pessoas e sobretudo de Deus. A enfermidade do “falso eu” é grande visto sua compulsão em buscar a todo e qualquer custo a aprovação dos outros e dos céus. É uma espécie de montanha russa em alta velocidade que está fadada a desprender-se dos trilhos. A destruição é certa!

No entanto quando somos conquistados pela revelação de que o amor de Deus não é algo que eu precise merecer, pois, eu já o tenho em Cristo, e que a aceitação divina já está presente em minha vida, porque eu sou aceito por Deus da mesma forma em que sou amado por ele, isso rompe os grilhões da falsa narrativa que antes me dominava, retirando-me das trevas da inquietação para a luz da confiança que vem da certeza de que meu Aba tem uma única opinião a meu respeito: “Tu és meu filho (mesmo que adotivo) amado. Em quem tenho toda alegria”. 

Esta é a minha identidade primordial: sou o amado de Deus. E a prova de que o merecimento ou o não merecimento pessoal, não tem qualquer influência sobre isso é o fato de que a Bíblia, e a experiência pessoal diária, atestam que dentro de mim ainda existe uma natureza mesquinha, maligna, rebelde, que faz oposição direta ao Espírito de Deus que agora também faz habitação no meu corpo (Gl 5:17). Tal natureza me conduz a cada dia a experimentar um misto de realidades conflitantes e paradoxais (Rm 7:15-19). A grande verdade aqui é o adentrar na dimensão do auto-conhecimento. É o confronto com a realidade do que eu sou: uma miscelânea de bem e de mal; virtudes e defeitos; bondade e malignidade; santidade e pecado. E acima de tudo a aceitação por mim mesmo de quem eu realmente sou, o meu verdadeiro eu. Brennan Manning, escritor norte-americano, diz que o começo de toda vida espiritual profunda acontece a partir da auto-aceitação de quem nós realmente somos. E daí aceitar igualmente que Deus nos aceita e nos ama do jeito que somos e não do jeito que deveríamos ser. Porque, pelo menos deste lado da eternidade, nunca seremos do jeito que deveríamos ser. 

A sociedade agitada e barulhenta na qual estamos inseridos nos convida diariamente a sacrificarmos no altar da “narrativa do merecimento” quando nos estimula a mensurar nossas conquistas pessoais, a nos preocuparmos excessivamente com nossa aparência física e a buscar exaustivamente o último carro do ano ou a última tecnologia em celulares. Dado esse fato, permanecemos de forma alienada celebrando as máscaras auto-criadas da aceitação pública, nosso falso eu.

A imagem bíblica do deserto se apresenta para nós como resposta para a necessidade da busca do auto-conhecimento. É no ermo espiritual que sepultamos o “falso eu” com todas as suas compulsões e patologias e vemos emergir o “verdadeiro eu”, imperfeito, maltrapilho, não obstante, amado furiosamente pelo Pai. Na narrativa da tentação de nosso Senhor relatada no evangelho de Mateus 4:1-11 temos a narrativa do confronto de Jesus face a face com o próprio Satanás. E de como, com aquelas três tentações, o Maligno empreendeu a tentativa de fazer com que o Senhor abraçasse um “falso eu” que não aceitasse a necessidade (v.3), que buscasse a popularidade (vs.5,6) e que almejasse o poder e a riqueza (vs.8,9). 

A verdade por detrás da tríplice recusa do Senhor aos convites do Maligno foi a certeza de quem ele era. Jesus tinha bem esclarecido no seu mundo interior quem ele era e o seu papel a partir disso (Lc 3:22). Sua identidade primordial, seu verdadeiro eu, era que ele era o filho amado de Deus que alegrava demais o coração do Pai. 

Quando Deus nos conduz igualmente ao “deserto” lá somos confrontados com os “demônios” que habitam dentro de nós. Ao criarmos espaços em nossos dias para estarmos a sós com Deus, no silêncio contemplativo, começamos a ouvir as “vozes” que clamam no nosso interior. Vozes essas que na maioria do tempo abafam a voz de Deus que ininterruptamente se dirige a nós enquanto filhos amados de Aba. Enquanto não conseguimos nos aquietar saindo do meio do turbilhão das compulsões diárias, deixamos de acessar nossa verdadeira identidade e continuamos dando ouvidos à voz sedutora da antiga serpente que convida-nos a permanecer abraçados com o “falso eu”. 

Finalizo com a antiga história do discípulo e do mestre ancião. O jovem discípulo num dado dia chega até seu mestre, um homem em idade avançada, e lhe faz uma pergunta:

- Mestre, o que faço para ser alguém iluminado?

O ancião faz um perído de longo silêncio, enquanto o jovem discípulo aguarda. Finalmente o ancião levanta os olhos em sua direção e lhe diz:

Conhece-te a ti mesmo e julgue menos os outros.

Esse sem dúvida é um caminho de libertação! Que assim seja.

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Eu estava de saída para uma viagem a Santiago do Chile, a fim de participar de uma conferência com pastores e líderes locais. Ainda no aeroporto, aguardando o vôo, conversava com Deus sobre o meu momento de vida. Dentre muitas coisas, pedia ao Senhor sabedoria e orientação diante do cenário que me envolvia. Semanalmente, novas oportunidades surgiam diante de mim; novas demandas emergiam em minha agenda e novas conversas aqueciam meu coração para projetos aparentemente fascinantes.

Estava preocupado diante de tudo aquilo que acontecia. Sei que uma das razões que fazem com que homens e mulheres de Deus acabem por se perder, mesmo que bem intencionados em suas motivações iniciais, é a falta de uma clara percepção acerca do mover de Deus em suas vidas. Muitos passam a entender que toda oportunidade que surge é uma porta aberta pelo Senhor, ou que toda demanda que emerge é um desafio lançado pelo Espírito Santo. Há também aqueles para quem qualquer conversa que lhes aqueça o coração é uma visão de Deus que precisa ser assumida.

Para os que enxergam a vida nesta perspectiva, o mover de Deus acaba se confundindo com o empreendedorismo de nossos tempos ou com o anseio insaciável de nossas almas por sermos tidos como pessoas relevantes diante do mundo. Para gente assim, o mover de Deus sempre as convida para um tempo de ir, correr e vencer. Não existe a possibilidade de o Senhor chamá-las a um tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se. Por isso mesmo, querendo conquistar o mundo, acabam, infelizmente, perdendo a própria alma. Em meio às muitas oportunidades, demandas e desafios, confundem a ação do Senhor com as expectativas do meio ou com os anseios de seus próprios corações.

Na vida do rei Davi, os desertos se tornaram o convite de Deus para um tempo de contemplação e reflexão. Ele era um homem movido por desafios e com constante ímpeto para a ação – por isso, parece que somente em meio às adversidades ele encontrava tempo para redimensionar seu próprio coração. Assim, quando lemos as orações de Davi no livro de Salmos, percebemos um homem sondando sua própria alma e procurando perceber a ação de Deus em sua vida. Em situações de adversidades, dores e aflições, Davi se convencia de que seu Deus não o convidava constantemente a ir, correr e vencer; mas, em algumas ocasiões, o impelia a ficar onde estava, aquietar o coração e renovar sua alma.

Maria, irmã da superativa e dinâmica Marta, viveu uma situação diferente. Em sua vida, o tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se não é fruto de uma situação criada por Deus, mas de opções que precisava fazer. Cercada por gente constantemente voltada para a ação, que enxergava cada oportunidade como porta aberta pelo Senhor, cada demanda como um desafio do Espírito e cada conversa como visão de Deus, torna-se normalmente mais difícil encontrar espaço para aquela reflexão espiritual. Mas Maria rompe com seu ambiente, resiste às expectativas que as pessoas à sua volta tinham acerca de si e resolve sentar-se aos pés de Jesus para ouvi-lo. Jesus, por sua vez, encoraja a opção feita por Maria, demonstrando que na caminhada cristã há, sim, tempo de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se.

Mas o maior exemplo de que Deus nos convida a esses momentos encontra-se na própria vida de Jesus. Em seu curto ministério terreno, Cristo tinha um enorme desafio diante de si. As demandas eram inúmeras; as necessidades, infindas, e as frentes de trabalho, imensas. No entanto, vemos nos Evangelhos episódios em que o Filho de Deus sobe montes ou procura lugares desertos a fim de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se na presença do Pai. Apesar da pressão das multidões, ele afastava-se em submissão ao mover de Deus para um tempo de silêncio e descanso. No entanto, este não era um tempo de contraponto à sua missão – mas sim, um espaço integrante e essencial na mesma.

Durante uma manhã livre naquela viagem a Santiago, um querido e antigo amigo me levou para subir as cordilheiras até um lugar chamado Vale Nevado. Fomos e voltamos conversando sobre muitas coisas. Há muito tempo não tinhamos oportunidade de nos falar. No entanto, em meio às muitas palavras e diante de paisagens fantásticas, deparei-me com uma cena que me chamou a atenção. Do local, podiamos contemplar um enorme e fantástico monte coberto de neve. Seu aspecto era imponente e fascinante. Era impossível passar por ali sem admirá-lo. Mas ainda no mesmo foco de visão, bem mais próximo de nós, na margem da estrada, inúmeras árvores com seus galhos completamente secos contrastavam a imponência e fascínio da montanha branca.

Minha atenção ficou dividida entre as duas cenas contrastantes. Foi então que meu amigo, olhando para aquelas árvores, disse: “Interessante, não? Elas parecem mortas. Quem olha pensa que não resistiram ao inverno. No entanto, estão assim porque, percebendo o rigor da estação fria, concentram suas forças e energias no caule. As folhas caíram e os galhos secaram, mas toda a sua vitalidade encontra-se concentrada no caule. Para elas, agora não é o tempo de florescer, mas de resguardar-se para, no tempo certo, voltar a produzir folhas, flores e frutos. Este é o ciclo da vida.”

Ouvindo aquelas palavras e tendo os meus olhos fixos naquelas árvores, ouvi a resposta de Deus para a oração que havia feito antes de partir do Brasil. Nem sempre é hora de ir, correr e vencer. Existem tempos em que o Senhor nos convida a ficar em sua presença, e ali aquietar nossa mente e renovar nossa alma. Em meio a tantas coisas e situações que nos envolvem, precisamos ter a sensibilidade para perceber que o Senhor, por vezes, não deseja que façamos tudo ou aceitemos todos os desafios. Existe também o tempo em que seu mover nos convida a concentrarmos nossas forças e energias no que é essencial e imprescindível: a nossa relação com ele.

Às vezes, como acontecia na vida de Davi, Deus precisa criar desertos em nossa história para nos convencer desta verdade. Noutras situações, assim como o fez Maria, podemos exercitar nosso poder de decisão contra o meio que nos impele a constante atividade, optando por simplesmente quedar-nos aos pés de Cristo. Mas também podemos olhar para Jesus e perceber o convite para vivermos em maturidade, integrando este tempo como parte essencial e imprescindível da missão de Deus para as nossas vidas.

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* Ricardo Agreste – é pastor presbiteriano na igreja Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera

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