Feeds:
Posts
Comentários

jejumSão João Crisóstomo ensina:

“A honra do jejum consiste não na abstinência da comida, mas em evitar as ações pecaminosas; quem limita o seu jejum apenas à abstinência de carnes o desonra. Praticas o jejum? Prova-me por tuas obras! Perguntas que tipo de obras?

Se vires um inimigo, reconcilia-te com ele!
Se vires um amigo tendo sucesso, não o inveje!
Se vires uma mulher bonita, passe sem olhar!
Que não apenas a boca jejue, mas também os olhos, e os ouvidos, e os pés, e as mãos, e todos os membros de nossos corpos.
Que as mãos jejuem sendo puras da avareza e da rapina.
Que os pés jejuem, deixando de caminhar para espetáculos imorais.
Que os olhos jejuem, não se detendo sobre feições belas, ou se ocupando de belezas exóticas.

Pois o que é visto é a comida dos olhos, mas se o que for visto for imoral ou proibido, macula-se o jejum e perturba toda a segurança da alma;ma se for moral e seguro, o que é visto adorna o jejum. Pois seria absurdo abster-se da comida permitida por causa do jejum, mas devem os olhos absterem-se até de tocar o que é proibido. Não comes carne? Então não se alimente de luxúria através dos olhos.

Que também os ouvidos jejuem. O jejum dos ouvidos consiste em recusar-se a ouvir assuntos perversos e calúnias. ‘Não receberás notícias falsas’, já foi dito.

Que a boca também jejue de falar coisas vergonhosas e de ficar reclamando. Pois que ganhas se te absténs de pássaros e peixes, e mesmo assim mordes e devoras teu próximo? O que tem fala maligna come a carne de seu irmão, e morde o corpo de seu próximo.”

O que São João Crisóstomo nos diz com esta reflexão?

Que os dias de jejum devem ser especialmente dias para evitarmos o uso desordenado ou inclusive exagerado dos outros sentidos: evitar o que não devo fazer, falar, ouvir, desejar; não buscar satisfazer todas as minhas necessidades emocionais e espirituais; não buscar a todo custo saciar minha solidão; não querer saber tudo; não exigir respostas imediatas a tudo o que vier à minha mente etc.

Nós jejuamos buscando a conversão. Portanto, jejuemos de todas estas atitudes contrárias à virtude. Talvez o seu jejum consista em ser mais serviçal (jejum da sua preguiça e comodidade), pois, assim como precisamos rezar com o coração, também precisamos jejuar com o coração.

Talvez você tenha de jejuar da sua ira, sendo mais amável, mais dócil. Ou jejuar da sua soberba, buscando ativamente viver a humildade em atos concretos.

__________________________________

Extraído do site Aletéia

 

Por Éloi Leclerc *

041012-São-Francisco-de-Assis1As circunstâncias de minha vida, principalmente a prova dos campos nazistas de Buchenwald e de Dachau, durante a última Guerra Mundial, levaram-me à pergunta sobre as possibilidades de uma verdadeira fraternidade entre as pessoas. Será que somos votados a dilacerar-nos sem fim, da maneira mais trágica? Será que é possível uma comunidade humana sem exclusão, sem tirania e sem desprezo? Não seria isto apenas um sonho? Nas minhas dúvidas, voltei-me para Francisco de Assis que me parecia o protótipo do ser humano fraternal, e cujo carisma foi em seu tempo “converter toda hostilidade em tensão fraterna, dentro de uma unidade de criação” (P. Ricoeur).

Mesmo correndo o risco de repetir-me, gostaria de resumir, da maneira mais límpida, o que me pareceu ser o essencial da sabedoria de Francisco de Assis.

Trata-se na verdade de uma sabedoria e de uma grande sabedoria. Francisco não é antes de tudo uma nova Ordem, nem uma nova doutrina, e muito menos um conjunto de regras de conduta. É uma arte de viver, uma certa presença ao mundo, uma nova qualidade de relação com Deus, com os homens e com toda a criação. É também um saber jovial, o segredo de uma alegria de viver sob o Sol de Deus, no meio de todas as criaturas.

Esta sabedoria me impressionou por duas razões: por sua profundidade e por sua extrema simplicidade. Falando de si mesmo, Voltaire dizia, não sem humor, que ele era “como os pequenos regatos, claros porque pouco profundos”. Não é o caso de Francisco de Assis. Ele é ao mesmo tempo simples e profundo. Sua

grande simplicidade não deve enganar-nos. Não vamos acreditar muito depressa que o compreendemos bem. “Não se compreende bem – dizia ele – senão aquilo que se experimenta por si mesmo”. E a experiência aqui envolve todo o ser. Ela é um crisol. Não se pode compreender a sabedoria de Francisco senão seguindo-o naquele caminho de simplicidade que o levou ao mais alto grau de despojamento.

No século XIII, numa Igreja que se tornara feudal e senhorial, na qual os bispos e abades, à frente de grandes domínios, eram verdadeiros soberanos que exerciam um poder temporal, Francisco de Assis encontrou, com o sopro inspirador da pobreza, o caminho da fraternidade. Renunciando a toda propriedade de bens e a todo poder, rejeitando tudo que podia colocá-lo acima das outras pessoas, ele apareceu como o irmão de todos, o amigo de todos, particularmente dos mais humildes. Inaugurou assim uma nova presença da Igreja no mundo.

A pobreza de Cristo que Francisco tanto amava, ele a escolheu e viveu como uma aproximação fraterna dos humanos, como um verdadeiro caminho de fraternidade com todos, sem exceção.


Este vínculo entre a pobreza e a fraternidade está no centro do ideal evangélico de Francisco e é um primeiro ponto essencial da sabedoria do santo de Assis. A experiência o comprova: a propriedade, a riqueza e o poder são fontes inesgotáveis de conflitos entre os homens. “Se tivéssemos posses – dizia Francisco – para protegê-las precisaríamos de armas?”. O mundo é um campo de luta pela riqueza, pelo poder, pela hegemonia. Os discípulos de Cristo devem evitar aparecer como uma nova espécie de competidores na corrida à riqueza, ao poder, às honras … Devem renunciar a toda posição dominante na sociedade e ir ao encalço dos humanos de mãos vazias, oferecendo-lhes apenas sua amizade. Uma amizade desinteressada, sem inveja e sem desprezo, feita de estima e de confiança. Só revelando esta nova qualidade de relação é que os mensageiros do Evangelho poderão anunciar o Reino de Deus. Pois o Reino é precisamente esta nova qualidade de relação entre os humanos: relação de paz, de justiça e de amor fraterno. Só um coração de pobre, isento de qualquer vontade de posse, é capaz de uma tal relação.

Neste caminho de pobreza e de fraternidade não tardaram a surgir as dificuldades. Francisco encontrou-as no próprio seio de sua Ordem, o que o levou a um despojamento cada vez maior de si mesmo. Foi então que experimentou o que é a “santa e pura simplicidade”.

A simplicidade franciscana não é a espontaneidade tão natural da criança. Ela é fruto de uma maturidade espiritual. Não somos originariamente simples, mas antes duplos, ou múltiplos. Quem não representa um personagem ou até vários ao mesmo tempo? Quem não se disfarça ou mascara? Mais profundamente, qual é a pessoa humana que não quer dirigir por si mesma sua própria vida segundo seu modo de ver, seus projetos, segundo o ideal de perfeição que forjou para si mesma? Ora, enquanto nos obstinamos em querer conduzir nossa vida por nós mesmos, não somos simples. Permanecemos sendo pelo menos duplos. Há Deus e nós. O ser humano não se torna verdadeiramente simples senão quando deixa de debater-se na barra de seu destino e se abandona totalmente a Deus.

A “santa e pura simplicidade” é fruto da disponibilidade interior, do despojamento que deixa inteiramente nas mãos de Deus a iniciativa de conduzir-nos a ele por seus caminhos. “Quando eras jovem – diz Jesus a Pedro – tu te cingias e ias onde querias. Quando envelheceres estenderás as mãos e será outro que te cingirá e te levará aonde não queres” (10 21,18).

Francisco fez esta experiência. Deixou-se despojar de toda vontade própria. Incompreendido, frustrado em seu ideal, teve que continuar apesar de tudo com seus irmãos, em vez de tornar-se inflexível e fechar-se na solidão e na amargura. Colocou acima de tudo a comunhão fraterna. Abriu-se assim a uma qualidade excepcional de relação. Nele, a relação fraterna tornou-se transparente, isenta de todo amor-próprio e de todo ensimesmar-se. Ele próprio tornou-se um claro espelho de Cristo. Podia escrever numa de suas Admoestações: “Aquele que prefere aturar perseguições a querer ficar separado de seus irmãos … ‘dá a sua vida pelos seus irmãos”.

tau

 

QUERO ENVELHECER…

casal-de-idosos-brincando-Deus que me livre de, ao envelhecer, tornar-me uma pessoa idosa que vive apenas para afagar o dinheiro que acumulou por toda uma vida! Recuso-me a terminar meu anos sacrificando sobre o altar de Mamom!

Quero envelhecer com propósitos de vida abundante!

Quero envelhecer sabendo que a vida de um ser humano não consiste na quantidade de bens materiais que possui.

Quero envelhecer sabendo que o amor idólatra ao dinheiro é a raiz de todo tipo de desgraça na vida humana.


Quero envelhecer sem me preocupar em ajuntar tesouros na terra os quais são efêmeros e perecíveis.


Quero envelhecer me contentando com menos, simplificando a vida e celebrando o necessário.

Quero envelhecer sabendo que a maior realização humana é dar que receber; servir que ser servido.

Quero envelhecer sem perder o encanto dos olhos que se deixam arrebatar perante um pôr de sol e uma noite estrelada. Quero tornar-me o tipo de gente capaz de ver o infinito num grão de areia.


Quero envelhecer sendo uma pessoa gentil, amistosa e acolhedora: o tipo de pessoa que da bom dia para o porteiro do prédio, para o gari na rua e para os vigilantes no banco.


Quero envelhecer cultivando amizades verdadeiras e relaciomamentos sinceros.


Quero envelhecer ao lado da mulher que amo e receber em casa a visita de meus filhos e netos.


Por fim, quero envelhecer tendo conseguido viver o único tipo de vida que vale apena ser vivida e que resume tudo o que foi dito antes: AMAR – Deus e pessoas.


É isso!

Paz e bem!

tau

Alegria-SempreA alegria anda desaparecida dos lábios e corações humanos. É tão triste e desolador o panorama mundial; tão insana a luta diária pela sobrevivência e o ganho suado do pão de cada dia. É tão decepcionante todo o esforço contínuo e diuturno por relações humanas que se revelarão na próxima esquina traidoras, desonestas, infrutíferas. É tanto e tudo e mais, que a alegria pura, que jorra com frescor e transparência parece distante, longínqua e mesmo inalcançável..

No dia 4 de outubro celebrou-se a festa de um santo que nos ensina que a alegria – esse artigo raro – pode ser encontrada bem perto, mesmo ao lado. Francisco de Assis, burguês filho de rico comerciante, despiu-se um dia em plena praça para declarar seu amor a Jesus Cristo. E desde aí empreendeu um caminho que o levou aos braços da verdadeira alegria. Alegre e maravilhado com a vida, seu testemunho fala alto ainda hoje aos homens e mulheres do novo milênio.

Um dia Francisco deu a um leproso uma esmola e um beijo. Essa doação dos bens e dos afetos introduziu-o como noviço na escola da perfeita alegria que, no entanto, o levaria por caminho bem diferente daquilo que a lógica humana entende.

Seus sentidos e sua corporeidade afinavam-se à beleza do criado de maneira a sentir-se irmão de tudo e de todos. Vivendo uma fraternidade universal, Francisco apaixonava-se por tudo o que existia e respirava: do lobo ao cordeiro, da água à terra, da vida à morte. Seu olhar maravilhado transformava em canto de louvor toda experiência de vida por mais simples que fosse. Tudo se transfigurava e se revelava grávido do Espírito divino diante de seu coração extasiado.

Por outro lado, seu desejo crescia em ardor e intensidade pela pobreza que o despojava paulatina e radicalmente de toda posse e todo bem. Sedutora como uma bela mulher, a Dama Pobreza conduzia suavemente Francisco em seu caminho descendente de despojamento até chegar ao fundo mais profundo da condição humana, onde o esperava o rosto de seu Senhor feito pobre com os pobres em sua Encarnação e Cruz.

Assim é que a vida de Francisco foi marcada por várias rupturas: era rico e rompeu com a riqueza; rompeu com o pai para viver desatado de todos os laços, mesmo os mais legítimos; rompeu com o orgulho e a avareza, para assumir um modo de vida fundamentado na caridade e na humildade. Em um mundo hierárquico, propôs uma solidariedade horizontal na mais absoluta simplicidade.

E foi aí neste “não ter” nem “ser” nada neste mundo que Francisco encontrou a alegria. Seria doente? Masoquista? Louco? Parece que não, pois até hoje não apareceu sobre a terra homem mais alegre do que Francisco de Assis. Todas essas rupturas, Francisco as fez para abraçar um grande amor. Seu grande amor era Jesus, por quem o Pobrezinho de Assis se apaixonou de tal maneira que terminou por assemelhar-se a ele inclusive nas chagas da Paixão.

A Frei Leão, ensinando o que era a perfeita alegria, Francisco mostrou o caminho da caridade humilde que “tudo crê, tudo espera e tudo suporta”. A única tristeza de sua vida era que o Amor não era amado. Para amar esse que é a fonte do Amor, Francisco a tudo deixou e com tudo rompeu. Ao final desse caminho, esperava-o a comunhão maravilhada com toda a criação. E também a perfeita alegria de saber que a pobreza, a humildade e a caridade em meio a todas as tribulações são o que realmente torna o ser humano livre. Desta liberdade feita de renúncia a tudo que não seja Deus jorra a perfeita alegria, que nada nem ninguém pode extirpar.

Que Francisco de Assis, homem do milênio, nos ensine a construir um mundo feito desta alegria livre e apaixonada, fruto de despojamento, sobriedade, simplicidade e capacidade sem fim de maravilhar-se.

tau

____________________________________

Extraído do site Espiritualidade Franciscana

jesus amigo jovemRelendo há pouco tempo o excelente e inspirativo livro de Brennan Manning sobre o discipulado radical, “A Assinatura de Jesus” – Ed. Mundo Cristão, fui impactado de diversas formas através de suas reflexões argutas e sinceridade desconcertante. É interessante como releituras acabam por nos tocar novamente e de maneiras distintas. E uma das coisas que li novamente e que me falou de forma nova foi a questão da experiência pessoal com Cristo. Especialmente quando Manning coloca que na maioria dos casos de vida devocional cristã o Jesus que amamos e adoramos é o Jesus do teólogo, da denominação da qual fazemos parte, menos o Jesus que se descobre, se revela e se doa a nós em meio à intimidade de nossa busca por Ele.

Em suma o que ele argumenta de forma apaixonada, como era de seu estilo, é que o Jesus que cultuamos não deve ser o Jesus de Calvino, Martinho Lutero, Billy Graham ou Francisco de Assis. Mas, o meu Jesus! O Jesus que experimento falando comigo, me amando e cuidando de mim. Não uma relíquia do museu da espiritualidade e/ou da teologia, mas, um presença pessoal viva que interage comigo em meio a um relacionamento de amizade em amor.

Quem de fato é o Jesus que dizemos amar e servir? É o nosso Jesus ou o Jesus da experiência dos outros? Precisamos, mediante acurada e corajosa reflexão, econtrar respostas sinceras para essas perguntas igualmente sinceras.

Jesus está mais próximo de cada um de nós, filhos do Altíssimo Deus, do que imaginamos. E podemos experimentá-lo de forma simples e ao mesmo tempo profunda; podemos experimentá-lo e encontrá-lo em lugares e situações antes nunca imaginadas! Essa é a beleza que o Evangelho, as boas-notícias de Deus, confere a vida de todo aquele que crê: enxergar um mundo imbuído e permeado com a presença do Senhor Jesus Cristo. Isso nos desvencilha do fardo pesado da busca por um glamour em termos de vida espiritual. Não é preciso muita coisa, não! O Evangelho é algo simples de ser vivido. 

Permita-me nas linhas que se seguem compartilhar com você de que forma tenho aprendido (sim, pois não me considero um professor, mas, apenas um aluno do Reino) a experimentar Jesus no meu dia-a-dia.

Bem, experimento Jesus…

quando me coloco em solitude e silêncio. Essas duas disciplinas para a vida no Espírito sempre caminham juntas. Como já bem disse alguém, o silêncio é a solitude em ação. Tenho buscado (e por que não dizer lutado!?) para criar momentos e tempos para colocar-me a sós com Jesus e aquietar meu mundo interior e, na medida do possível, o exterior. Nesses perídos preciosos busco calar-me e fazer cessar as muitas vozes que clamam por minha atenção. Quando com muito esforço consigo isso, acesso uma via intuitiva, mística mesmo, de onde “escuto” uma voz, a voz de Cristo, que fala comigo desde meu Eu mais profundo, o Eu Interior. A voz que diz que sou irrevogavelmente amado e desejado. No silêncio do santuário da alma encontro entronizado Cristo, Rei dos reis e Senhor dos senhores! Ao me colocar deliberadamente sozinho com Jesus redescubro a verdade de que o mundo continua mundo, que a vida permanece funcionando mesmo em meio a minha ausência, mesmo nesses momentos em que não estou “fazendo nada”. Isso tem o poder de libertar-me do peso de carregar o mundo nas costas ao mesmo tempo em que me ajuda a perceber que todo o universo, inclusive a minha própria vida, é sustentada e conduzida pela poderosa Palavra de Jesus.

… quando medito nas Escrituras Sagradas. Isso requer uma atitude de escuta de minha parte. Olhos transfiguram-se em ouvidos. Achego-me ao texto Sagrado, não para ler grandes porções da Bíblia. Não desejo buscar informações para alimentar minha curiosidade intelectual. O que quero é acessar o coração de Abba e nele encontrar Seu Filho Unigênito. Aqui a Bíblia para mim não é um compêndio de teologia, mas, uma carta de amor, escrita em amor, por um Deus de amor, para um filho amado: eu! Seleciono a passagem, leio pausadamente, degustando cada palavra, cada expressão, cada parágrafo, sem pressa. Até que minha atenção seja atraída por uma única palavra ou frase no texto. E na mesma demoro-me, releio, murmuro, rumino. E em atitude de temor e tremor acolho no coração o mistério da Verdade que a mim foi trazida pelo texto escolhido. A meditação conduz-me a um encontro pessoal e real com o Cristo Ressurreto a partir do texto Sagrado. Meditar torna-se experimentar Cristo!

… quando me volto para a oração. Oração esta que brota como água da fonte nascente, vinda diretamente da meditação nas Escrituras. Conforme o que ouço da parte do Senhor surge na alma uma resposta que conduz-me à adoração, ou louvor, ou petição, ou confissão, ou intercessão. Oro ao Pai em nome do Filho. Oro ao Filho em seu próprio nome. Oro ao Espírito em nome de Jesus. Já não me preocupo mais com as intermináveis controvérsias se se deve ou não orar ao Espírito Santo, Jesus ou apenas ao Pai em nome de Jesus. Ah, e ainda tem a questão se a prece será ouvida ou não pelo Pai se no final da mesma não colocarmos a cláusula “em nome de Jesus, amém!” Posso afirmar que em qualquer forma de orar tenho sido contemplado pelo rosto amoroso do Deus Triúno que é perfeitamente equilibrado, em que as Três Pessoas Benditas não vivem em guerra entre si nem em crises eternas de ciúme doentio. Meu Deus não sofre de esquisofrenia! O Pai está no Filho, que está no Espírito e que está no Pai. Três pessoas distintas voltadas uma para a outra num abraço de amor eterno. Por isso, nas minhas orações tenho falado diretamente com Jesus, agradecido emocionado por sua paixão por mim, por sua cruz e por sua presença constante em minha vida.

…quando estou com minha família. Acredito que um dos maiores desafios que tenho encontrado ao longo do Caminho é o de encontrar o rosto de Cristo no seio familiar. Por que digo isso? Pelo simples fato de que quando pensamos na experiência de Jesus, na maioria das vezes, temos em mente a igreja, pois ela é o Corpo de Cristo reunido para adorar e concluir a missão no mundo; e no próprio mundo que carece de redenção e para o qual a igreja precisa pregar as boas-novas de Deus aos homens. Mas, nunca a família. Na verdade às vezes a mesma é considerada como uma força antagônica à experiência da presença de Jesus. Não há maior erro do que pensar dessa forma! Pelo contrário, a família é o campo primordial para se viver a espiritualidade discipular cristã. Buscando a cada dia trazer essa verdade à mente é que tenho conseguido acessar meu lar como um maravilhoso “sacramento” divino. Momentos específicos, e intencionais, em família como nossos almoços à mesa, saídas para o cinema, passeios, ou a simplicidade de uma deliciosa pizza na companhia de um ótimo filme são verdadeiras teofanias. Claro, não poderia deixar de mencionar nossos cultos domésticos onde juntos, como família reunida aos pés do Cristo Vivo e presente, adoramos, lovamos, oramos e compartilhamos a Palavra de Deus. Olhar os olhos amorosos de minha esposa e os de meus filhos, cheios de expectativas, tem sido o mesmo que contemplar a face de Jesus sorrindo para mim!

… quando estou inserido na comunidade dos salvos, a igreja. A igreja é a comunidade de fé que se reune em torno do Cristo vivo e ressurreto. Que o adora em espírito e verdade e que ouve e responde à sua Palavra exposta com fidelidade. A igreja é (ou pelo menos deveria ser) um ajuntamento de discípulos que vive em comunhão aprendendo dia-a-dia o que significa amar uns aos outros assim como fomos amados pelo próprio Senhor Jesus. Desta forma, através dos atos abnegados de altruísmo, de perdão mútuo e de encorajamento na jornada vejo a própria mão de Jesus a conduzir-me pela vereda do crescimento na Sua semelhança. Em tudo isso, numa caminhada comunal, somos tocados, transformados, desafiados enquanto juntos clamamos: “Maranata, vem Senhor Jesus!”

… quando estou no trabalho, exercendo minha profissão. O “ora et labora” (ora e trabalha) beneditino continua mais atual do que nunca. Ao invés do meu ambiente de trabalho ser encarado por mim como um “não lugar”, sem sentido, sem propósito espiritual, antagônico a minha fé e vivência de Jesus, ele torna-se um dos principais terrenos para que eu viva os valores do Reino seguindo o Mestre. De que forma? Primeiramente busco impregnar minha mente com o conceito bíblico de que quem criou o trabalho foi Deus ao colocar o homem para cuidar do jardim do Éden. Também considerar que cada profissão é uma vocação dada por Deus para o bem da humanidade, ajuda muito. Compreender que o serviço que presto tem por objetivo primordial glorificar a Deus é uma verdade de suma importância de se ter diante dos olhos. Também experimento Jesus no meu ambiente de trabalho quando o convido para ser meu parceiro em tudo o que eu for fazer no dia. Experimento Jesus fazendo o que faço consciente de Sua presença comigo. Experimento-o no meu trabalho quando em última instância me conscientizo de que o meu serviço faço primeiramente para Ele do que para os homens. 

Sem sombra de dúvidas essas são as principaos dimensões da minha existência em que tenho experimentado Jesus real e pessoalmente. No entanto, existem realidade mais ordinárias, fugazes em que o Cristo vivo tem me concedido as sementes de sua contemplação. Por isso, posso dizer que também tenho experimentado Jesus…

… na admiração da beleza da criação que está permeada da Sua glória.

… na admiração dos talentos artíticos humanos: literatura, escultura, teatro, música etc.

… no sorriso despretensioso de uma criança.

… na degustação de uma deliciosa refeição.

… ao assistir um bom filme.

… num encontro com amigos queridos.

… em momentos lúdicos com meus filhos, como por exemplo, jogando video-game.

A lista é extensa assim como a graça do crucificado que nos alcança de maneiras inesperadas. O que é necessário é estar atento e com o coração receptivo às suas sementes.

Ó Jesus, amado da minh’alma, quão grande é o Teu amor; quão infinita sua misericórdia; e quão estonteante Tua graça que me alcança no ordinário e no extraordinário dessa vida linda e empolgante. Amém!

Paz e bem!

tau

11217508_838824062862429_4893323067938378274_nDe umas décadas para cá o termo “evangélico” tornou-se numa espécie de clichê, ou seja, uma palavra tão usada e porque não dizer abusada, que com o passar do tempo perdeu muito do seu significado original.

Nos dias atuais o termo evoca uma verdadeira “torre de babel” no que diz respeito a como as pessoas compreendem o que o mesmo quer dizer. Podemos afirmar sem medo de exagerarmos que “evangélico” hoje tem tantos significados quanto o número de pessoas que utilizam essa palavra e as formas como a compreendem. Alguns acertadamente, no entanto outros proporcionando um verdadeiro show de bizarrices. Acredito que a maior tragédia a que o termo “evangélico” poderia ser lançado é o de ser reduzido e renegado a uma das múltiplas opções de religião pessoal que se tem à disposição do freguês.

Hoje todo mundo que supostamente se converte é evangélico. A música que é composta supostamente como louvor bíblico é chamado de evangélica. O livro escrito pelo supostamente escritor evangélico é considerado literatura evangélica e por aí vai. Os casos são ad infinitum. Só que ao nos debruçarmos mais demoradamente sobre essas coisas acabamos vendo o termo “evangélico” sendo diluído em uma substãncia que pouco ou quase nada tem a ver com a essência de seu significado original.

O grande desafio, então, que se nos apresenta é o de garimparmos nas fontes antigas para redescobrirmos o sentido original, tradicional e, principalmente, bíblico do que significa essa palavra alvo de tantas controvérsias. E isso é de grande importância para nós, pois, se conseguirmos definir o que significa “evangélico” automaticamente saberemos também o que é uma literatura, uma múcica e, acima de tudo, uma vida evangélica.

Concebemos que “evangélico” é tudo aquilo que tem como base, inspiração, direção e origem a autoridade das Sagradas Escrituras do Novo Testamento. Logo, ser evangélico não é mais uma opção de religião, mas, a única forma de vida espiritual para aqueles que decidiram pelo seguimento de Jesus Cristo. É o tipo de caminhada em que a visão de mundo, propósitos, objetivos e ministração fundamentam-se nas páginas da Bíblia. É o viver impregnado com a Palavra de Deus no cotidiano o que nos possibilita um estilo de vida evangélico, ou seja, uma vida apostólica porquanto entendemos que por Deus fomos comissionados para sermos sal da terra e luz do mundo.

Sendo assim, Francisco, um cristão que viveu na idade média na cidade de Assis, Itália, se apresenta diante de nós como um paradigma a ser investigado e considerado nos dias de hoje em que poucos exemplos nos sobram do que seja um viver verdadeiramente evangélico. Quando lemos sobre sua vida e obra, algumas nuances saltam-nos aos olhos as quais podem servir de sinalizações do que queremos dizer com viver um estilo de vida evangélico ou vida apostólica. Convido você a meditar e considerar, sem preconceitos, os pontos a seguir.

I – A REGRA DE FRANCISCO – O EVANGELHO DE CRISTO

O processo de conversão de Francisco foi cunhado por detalhes dramáticos de uma alma que tinha anseio por Deus e não sabia como satisfazer tamanha sede. De chefe dos jovens dissolutos da cidade de Assis, tornou-se a figura maltrapilha que andava pelos becos e ruelas cuidando de mendigos e leprosos. Tal conversão dramática se deu por acontecimentos na vida do próprio Francisco os quais envolveram diretamente a cidade de Assis, os quais o levaram às páginas do Novo Testamento.

Ali, meditando nas palavras e vida de Jesus o jovem Francisco teve a certeza do seu chamado e da vontade de Deus para a sua vida. Francisco viveu num primeiro momento o seu caminho de forma solitária. No entanto, não demorou que seu novo estilo de vida despertasse a atenção dos moradores de sua cidade e começasse a seduzir alguns de seus velhos amigos de noitadas enebriantes. Logo, aquele grupo cresceu e cresceu, espalhando-se por várias regiões da Itália e fora dela. Depois de alguns anos já eram centenas as pessoas que formavam aquela ordem de frades pobres que seguim a Francisco.

Chegou o momento em que Francisco se viu confrontado por seus pares que insistiam que se fazia necessário a criação de uma regra para que a vida da ordem fosse organizada para que a mesma não se perdesse, principalmente quando Francisco partisse para eternidade com Deus. Isso causou grande estranheza para Francisco que afirmou num primeiro momento que a ordem não precisava redigir regra nenhuma, pois, ela já a tinha: os 4 evangelhos do Novo Testamento. Para o pobrezinho de Assis neles estavam contidos todos os mandamentos, conselhos, admoestações e o estilo de vida a que os frades eram chamados a obedecer.

Não nos resta dúvidas que esse posicionamento de Franscisco quanto à suficiência dos evangelhos como regra única e definitiva para sua ordem fora extraído da sua leitura pessoal dos mesmos principalmente do Sermão do Monte onde encontramos as seguintes palavras de nosso Senhor:

“Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu a sua casa  sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha” (Mt 7:24,25)

 Sabe-se pela história que Francisco em razão de seu espírito pacifista acabou cedendo aos clamores de seus companheiros, redigindo assim uma regra, sendo que a primeira versão da mesma não passava apenas de alguns versículos dos evangelhos acompanhados de pequenos comentários seus, o que naturalmente não agradou a todos. Já no final de sua vida uma outra versão, mais filosófica e de caráter organizacional da ordem foi feita. No entanto, no coração de seu fundador o Evangelho de Cristo permanecia sua única regra que o inspirava, desafiava e quebrantava a cada dia de sua vida.

Esse apreço pelo Evangelho fez com que Francisco vivesse uma vida verdadeiramente evangélica. Uma vida não de apóstolo, mas, apostólica. Foi uma verdadeira revolução em sua época. Assim frei Hugo define a relação Francisco-Evangelho:

“Se de um lado causa admiração como o Evangelho estava marginalizado pela Igreja, melhor dito, pelos homens da Igreja, do outro lado, causa admiração como Francisco, numa simplicidade comovente, faz com que o Evangelho volte ao centro da vida cristã e faça com que a mensagem de Cristo se transforme em vida”. (Site do Santuário e Paróquia S. Francisco das Chagas)

 E em meio a essa vida tão cheia de sabor emergiu uma espiritualidade robusta, instigante e que não só naquela época, mas, ainda hoje inspira e desafia todos quantos desejam sinceramente uma intimidade maior com o Senhor. A vida espiritual que Francisco de Assis viveu nos traz valores eternos e, portanto, transferíveis os quais podemos e devemos incorporar em nossa própria espiritualidade e dessa forma experienciar um viver genuinamente evangélico.

II – OS TRÊS VOTOS DE FRANCISCO

Francisco fez três votos de consagração ao Senhor seu Deus. Os votos foram de pobreza, castidade e obediência. Os mesmos precisam ser compreendidos corretamente afim de que percebamos sua relevância para um viver evangelical hoje.

1. Voto de Pobreza

 Sabemos que Francisco era filho de um rico mercador de tecidos da cidade de Assis. Acostumado com a riqueza, no ato de sua conversão, inspirado pelas palavras do Senhor, deixa tudo para trás vivendo uma vida sem posses, dependendo única e exclusivamente da provisão divina que lhe vinha dos recursos naturais e da caridade de terceiros. Francisco se dizia casado com uma senhora exigente, a senhora Pobreza.

Até os dias de hoje as 1ª (Franciscanos) e 2ª (Clarissas) ordens franciscanas fazem esse voto, e seus membros abdicam de uma vida de bens materiais e demais posses. Contudo será que todos quantos desejam viver uma vida evangélica e apóstólica hoje necessariamente precisam se desfazer de seus bens e posses?

Temos que compreender que o chamado de Francisco à pobreza foi único e aqueles que desejam fazer parte de sua ordem compreeendem ter recebido da parte de Deus esse mesmo chamamento.

Francisco compreendeu seu chamado ao enlace com a Senhora Pobreza ao ler as palavras do Senhor Jesus nos evangelhos:

“Jesus enviou os doze com as seguintes instruções: […] Vocês receberam de graça; dêem também de graça. Não levem nem ouro, nem prata, nem cobre em seus cintos; não levem nenhum saco de viagem, nem túnica extra, nem sandálias, nem bordão; pois o trabalhador é digno do seu sustento” (Mc 10:5,8,910)

No entanto, para nós que não o recebemos podemos compreender o voto da pobreza como um chamado para a simplicidade de vida. Um tipo de vida que se contenta com menos. Uma vida caracterizada pelo compartilhar desapegado dos recursos pessoais em prol de ajudar, socorrer e abençoar o próximo.

Nas próprias palavras de um site católico sobre o  franciscanismo, assim é entendido o voto da pobreza: 

“O voto de pobreza pode ser entendido como um voto em que o irmão consagrado se contenta humildemente com o necessário e esquece-se do supérfluo. Reparte o que tem e não cobiça aquilo que os outros possuem. É uma maneira sóbria de viver com simplicidade, sem ostentação e consiste em solidariedade com aqueles que têm ainda menos. É viver destituído de posses e praticar o desapego. “Viver na pobreza, é também colocar o tempo, os dons e nossos talentos a serviço da comunidade e da Fraternidade”” (Neo Franciscanos)

Logo, viver o ideal evangélico franciscano da pobreza assume os contornos de uma vida caracterizada por um estado contínuo de satisfação com o que somos e temos. Liberta-nos da inveja do próximo e da compulsão de sempre querermos algo a mais: um novo carro do ano, uma televisão último lançamento, a última moda em roupa lançada pela telenovela  e etc. Esse estado de perene contentamento encontra eco nas palavras do apóstolo Paulo em 1Tm 6:8:

“por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos”

Nestes dias em que a piedade tem se tornado fonte de lucro egoísta e ganancioso, onde o glamour, a abastança e a ostentação são considerados como medidores do favor de Deus sobre a vida do seu povo, o vota de pobreza, o ideal da vida simples a que Francisco nos convida e desafia serve-nos como antídoto contra essas coisas e sinalização para um viver verdadeiramente evangélico.

2. Voto de Castidade

O Voto de castidade feito por Francisco e por seus seguidores ao longo dos tempos até os dias de hoje, consiste não apenas no não casamento, mas, numa completa abstinência de vida sexual de todas as formas, inclusives a masturbação. Todas as energias, afetos, emoções, desejos e amor erótico são redirecionados em forma de devoção Àquele para quem a vida foi consagrada e oferecida como sacrifício vivo e ao cuidado e socorro dos mais necessitados.  É claro que sabemos que o celibato é uma moeda com dois lados: já vimos exemplos do quanto ele pode ser destrutivo na vida daqueles que por mera imposição religiosa se abstêm de uma das forças mais poderosas da vida de um ser humano – o sexo. No entanto, por outro lado, é inquestionável o fato de que a Bíblia dá margem para o entendimento de que, por obra da Graça, algumas pessoas são dotadas da capacitação sobrenatural de mortificar seu corpo a esse ponto.

Não restam dúvidas de que a própria vida celibatário do Senhor Jesus, bem como suas palavras registradas no Evangelho de Mateus serviram de inspiração e norte para a escolha de Francisco por este estilo de vida:

“Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o.” (Mt 19:12)

E ele pôde receber! E muitos outros nas páginas da Bíblia e na história cristã também puderam. Mas, e nós que não podemos receber? Será que o simples fato de não vivermos esse idel celibatário de Francisco e de seus seguidores nos abona completamente no que diz respeito a um viver genuinamente evangélico?

Talvez você e eu não possamos viver o voto da castidade franciscana na busca por uma vida evangélica/apostólica. No entanto podemos, e devemos, viver aquilo que na época dos grandes puritanos chamou-se de “castidade no casamento”. Ou seja, uma decisão de se manter fiel à aliança matrimonial, guardando-se mutuamente para o prazer do sexo unica e exclusivamente dentro dos limites do casamento. Aqui se enaltece tanto a santidade do casamento em si, quanto a dignidade do corpo e da vida humana como um todo.

Como se faz necessário o entendimento disso tudo, principalmente na época em que vivemos, de frouxidão moral entre membros de igreja, líderes e liderados. No presente estado de coisas em que o número de divórcios entre casais cristãos tem se multiplicado, não raro tendo como pano de fundo relacionamentos extra-comjugais, voltarmo-nos ao entendimento da castidade na visão franciscana como consagração do corpo como sacrifício vivo a Deus, tendo a fidelidade conjugal e o prazer a dois dentro do âmbito da aliança do matrimônio, é algo de extrema valia e urgência para redefinirmos um viver genuinamente evangélico.

3. O Voto de Obediência

 Contam-nos os principais biógrafos de Francisco de Assis que o mesmo juntamente com alguns de seus seguidores, num dado momento de crescimento do grupo e controvérsias envolvendo seu estilo de vida, empreenderam uma viagem até Roma para alcançar do Papa Inocêncio III a aprovação para a nova ordem que estava nascendo com eles. Alguns poderiam até pensar o seguinte: se o estilo de vida de Francisco e seus seguidores era nada mais do que a tentativa de viver no dia-a-dia o evangelho segundo o que eles encontravam no Novo Testamento, por que a necessidade de ir buscar a aprovação do papa? Aqui nós encontramos a essência do terceiro voto que Francisco fez de consagração de sua vida a Deus, voto este que seus seguidores de então e futuros também deveriam fazer: a obediência às autoridades espirituais constituídas sobre nós.

Na leitura dos evangelhos Francisco foi confrontado com a atitude de Jesus de estimular as pessoas ao cumprimento de certas obrigações descritas na Lei de Moisés, revelando assim uma atitude de obediência e submissão tanto à Palavra de Deus quanto àqueles que legalmente eram constituídos lideres espirituais do povo judeu. Por exemplo, Mc 1:44 é um desses casos. Após curar um leproso que lhe foi procurar, Jesus disse-lhe as seguintes palavras:

“Olha, não digas nada a ninguém; porém vai, mostra-te ao sacerdote, e oferece pela tua purificação o que Moisés determinou, para lhes servir de testemunho”

Nessas palavras Jesus reconheceu a autoridade tanto das Escrituras quanto do sacerdote naqueles dias. Tal obediência às autoridades espirituais constituídas recebe eco nas palavras do autor anônimo aos Hebreus, quando este asdmoesta os fiéis à submissão aos pastores que Deus coloca sob a vida de seu povo para por este zelar: 

“Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.”(Hb 13:17)

Oh! Como se faz urgentíssimo a observância dessa disciplina do Espírito por parte de alguns membros de igreja! Vivemos numa época de inssurreição e rebeldias contra líderes espirituais. E olha que não estou levando em consideração os maus líderes, aproveitadores do rebanho. Mas, infelizmente o egoísmo, a arrogância que caracterizam pessoas que não aceitam que suas vontades não sejam satisfeitas, tem sido o estopim para a divisão de boas igrejas e ministérios saudáveis. E na raiz disso tudo está a não obediência à orientação dada por seus líderes espirituais. Aquela meia dúzia de pessoas, encabeçada por um pseudo-líder, infiltra na mente de outros tantos o espírito da rebeldia e quando o líder principal vai ver um batalhão de pessoas está saindo pela porta dos fundos para formar uma nova comunidade de fé, metros de distância da original. Meu Pai, obra similar a de Satan que arratou consigo a terça parte dos anjos do céu! Deus nos livre de semelhante pecado!

Por esses motivos que a Igreja de Cristo necessita voltar-se sem demora primeiramente para as Escrituras, mas também para as fontes  clásicas da espiritualidade, principalmente a monástica onde a figura do pai ou diretor espiritual é muito significativo. Há alguns anos atrás um grande amigo meu, pastor evangélico, foi fazer um retiro espiritual num mosteiro beneditino em Ponta Grossa-PR. Ele saiu de lá impactado com a vida espiritual de silêncio, contemplação e busca dos monges. No entanto, não apenas por isso. Ele também observou a forma com que os monges se relacionavam entre si e principalmente com o Abade que é o líder dos monges no mosteiro. Essa observância fez com que ele constatasse algo acerca de nossa realidade evangélica atual. Assim ele escreveu no seu blog pessoal acerca desta experiência:

“O monge segue a orientação do Abade, o “pastor do mosteiro”. Fiquei pensando na autoridade do Abade dentro da comunidade e o carinho que todos têm por ele. Ele é o “pai” de todos e suas orientações são seguidas com reverência. É certo que há pastores que não conquistam tal relação com seu próprio rebanho por deficiências pessoais, mas, em quantos lugares o “pastor” é tratado como mero “funcionário” da igreja e que deve cumprir suas “obrigações porque ganha seu salário para isso”? Quanto sofre o coração do “pastor” por falar, falar e falar ao seu rebanho e ver-se ignorado pela comunidade? Penso no quanto o advento do “individualismo” tem gerado um sem número de homens e mulheres que não conseguem submeter-se a autoridade de um líder espiritual, pois desejam apenas “homens de Deus” que lhe sejam sempre favoráveis, um perfeito puxa-saco. Gente que pastoreia a si própria e faz do pastor o gerente do negócio religioso. Muitos aceitam o cargo. (Blog O Pastor e o Monge)

Esse meu amigo sabe do que está falando! E eu sei que é assim, pois, o fui ministro do evangelho por 12 anos! Que possamos nos voltar para a autoridade da Palavra e para as fontes clássicas da espiritualidade cristã afim de que uma vez mais redescubramos o significado e o lugar da obediência aos líderes espirituais. E Francisco de Assis é uma testemunho eloquente cuja vida e mensagem, nesse sentido, devemos considerar seriamente.

III – VIDA CONTEMPLATIVA E  VIDA ATIVA

A vida e obra de Francisco de Assis, em muitos sentidos, foram uma revolução sem precedentes na sua época. Uma faceta dessa revolução estava exatamente na forma como Francisco experimentava a vida espiritual. Se pudéssemos defini-la, se bem que a utilização de rótulos não lhe fazem juz, poderíamos afirmar que Francisco vivia uma vida de contemplação de Deus e ação apostólica no mundo. A vida contemplativa é aquela caracterizada pelo silêncio, solidão e meditação constante nas Escrituras. Já a vida ativa é aquela de serviço cristão à comunidade de fé e ao mundo perdido. Francisco vivia as duas de forma intensa.

Quando afirmamos que isso foi uma revolução é porque as duas formas de vida espiritual estavam relegadas a dois grupos distintos: a vida contemplativa era restrita aos monges que de forma perpétua buscavam a Deus em oração e jejuns. A vida ativa por sua vez era destinada para o restante dos cristãos: sacerdotes e leigos. A grande revolução de Francisco e seu grupo de irmãos era que as duas formas de vida cristã eram experienciadas, não como realidades mutuamente excludentes, mas, que se complementavam. Francisco gastava hora em profundo silêncio, solidão, meditação e contemplação em diverso lugares como a capelinha de São Damião, berço do franciscanismo, bem como nos montes e cavernas ao redor de Assis. Logo em seguida empreendia viagens missionárias para pregar o Evangelho de Cristo nas cidades, aproveitando para cuidar dos menos favorecidos daquela época: os mendigos e leprosos.

Devmos ter em mente nesse momento que Francisco de Assis foi um dos exemplos mais marcantes na história de alguém que buscou imitar literalmente a vida de Cristo. E quando ele lia os Evangelhos intuia a partir do que lá estava registrado que era assim que o próprio Jesus e seus seguidores viveram: uma vida de intensa busca de Deus e de serviço abnegado ao próximo. Passagens como a de Mc 1:35-38 elucidaram em muito sua mente acerca desse chamado duplo da vida espiritual:

“E, levantando-se de manhã, muito cedo, fazendo ainda escuro, saiu, e foi para um lugar deserto, e ali orava. E seguiram-no Simão e os que com ele estavam.  E, achando-o, lhe disseram: Todos te buscam. E ele lhes disse: Vamos às aldeias vizinhas, para que eu ali também pregue; porque para isso vim.”

Francisco pode perceber, e nós também, que Jesus antes de um dia de atividades e ministrações ao mundo carente de Deus, separava momentos para a solitude, silêncio, oração e contemplação do rosto amoroso de seu Pai. Isso era o que lhe dava o norte e o poder para realizar a obra para a qual tinha vindo a este mundo. Francisco acertadamente concluiu que vida contemplativa e vida ativa, esse vai e vêm, esse bendito fluxo e refluxo da vida no Espírito, se constituía numa das carcaterísticas da imitação de Cristo, ou seja, no próprio padrão do ser e do viver como discípulo de Jesus neste mundo.

Poderíamos afirmar que Francisco de Assis era uma espécie de monge sem mosteiro. Foi dele a célebre frase: “O mundo é a minha clausura”, a qual inspirou séculos mais tarde John Wesley a dizer “O mundo é a minha paróquia”. Duas vertentes da tradição cristã, mas, um único espírito na sua essência: amar Deus e servir pessoas!

Vida contemplativa somada a uma vida ativa, essa era a essência do viver evangélico de Francisco e seus seguidores, pois, o mesmo fora extraído das páginas do evangelho e do exemplo do próprio Cristo. E faríamos bem se observássemos em nossas vidas o mesmo: intensa busca de Deus através de momentos profundos de solitude, silêncio, meditação nas Escrituras e contemplação de Deus os quais nos impulsionem em amor ao serviço do nosso próximo, seja em nossas casas, igrejas, ambientes de trabalho, vizinhança, para com isso experienciarmos o genuíno seguimento de Cristo, a verdadeira vida apóstólica, a redefinição acertada do ser evangélico nos dias atuais.

IV – COMPAIXÃO PELO PRÓXIMO

Uma das marcas mais distintas da conversão de Francisco foi a compaixão com que ele passou a tratar todas as pessoas, em especial o grupo dos leprosos, pelos quais sentia especial repulsa. Contam os biógrafos principais e cronistas em geral que certo dia ao avistar um leproso, o antes filho de burguês, acostumado com a riqueza e a companhia de pessoas de vida abastada, beijou o rosto carcomido daquela figura desprezada por todos. Bem, agora não por todos. Com aquele beijo nascia um ícone do amor e da compaixão pelo próximo que iria revolucionar aquela época.

Nem mesmo aqueles de vida à margem da sociedade ficavam excluídos do carinho e respeito do pobrezinho de Assis. Contam-nos que certa feita ele tratou com extrema compaixão dois bandidos, salteadores de beira de estrada, os quais anos depois se mostraram convertidos, de vida transformada, graças ao gesto gentil de Francisco.

A grande verdade é que sendo pobres ou ricos, honestos ou desonestos, religiosos ou não, não fazia nenhuma diferença: Francisco amava a todos e acolhia com gentileza a todos! E não poderia ser diferente, pois, ao se casar coma senhora pobreza, abrindo mão de riquezas e posses, seus olhos encontravam-se livres e purificados das convenções sociais que ao longo da história vem segregando a humanidade em grupos, rótulos etc. Francisco via a todos como criaturas de Deus, e por isso, seus irmãos e consequentemente dignos de receber ajuda, socorro, respeito, gentileza, compaixão. Resumindo numa palavra: amor!

Com certeza que na leitura do Evanglho Francisco foi confrontado, inspirado e desafiado pelas palavras do Senhor que diziam:

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mt 5:7)

E não restam dúvidas de que a observância da vida de amor, bondade e compaixão do próprio Senhor Jesus, a quem francisco desejava ardentemente imitar, foi sua maior inspiração.

“E Jesus, saindo, viu uma grande multidão, e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor; e começou a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6:34)

 Já disse aqui sobre a relevância da vida e obra de Francisco para o resgate de uma igreja mais amorosa e cheia de compaixão que desprovida de seu tom belicoso e do discurso de ódio, verdadeiramente cumpra seu papel de ser sal e luz neste mundo, revelando assim a Graça do Pai oferecida a todos na pessoa bendita do Seu Filho Unigênito. Sendo assim, não me prolongarei mais nesse tópico.

V – A MINORIDADE ESPIRITUAL

Francisco tornou-se servo de todos por ocasião de sua conversão à Cristo e consolidou esse sentimento de minoridade em relação aos outros pela leitura do Evangelho. O pobrezinho de Deus percebeu que o próprio Senhor Jesus não veio para ser servido, apesar de ser o Mestre, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.

Francisco foi alvo de duras críticas por parte dos burgueses e das autoridades religiosas exatamente por cuidar dos menos favorecidos, ou melhor dizendo, desprezados, de sua época: mendigos e leprosos. As pessoas não conseguiam entender, dado o tamanho do desvio em relação aos valores evangelicais, a ligação que existia entre o amor que Francisco dizia nutrir por Jesus e o carinho que ele dispensava aquela pobre gente. Cuidar da carne carcomida dos leprosos e alimentar os famintos, mesmo com o pouco que tinha, para Francisco de Assis, eram sacramentos da Graça divina. A grande verdade é que Francisco aprendeu a enxergar o rosto de Cristo por detrás do rosto sofrido daquelas pessoas.

“Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me.  Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25:35-40)

Assim como acontece conosco cada vez que o lemos, Francisco ficou sem sombra de dúvidas, espantado e profundamente comovido com o exemplo do Senhor que lavou os pés de seus discípulos. O Senhor se fez servo e fez dos servos os senhores. Diante de um exemplo tão contundente, Francisco se viu sem nenhuma outra alternativa a não ser a de devotar o resto de sua vida a “lavar os pés” de seus irmãos humanos (humanidade). O amor de Cristo o constrangia!

“Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito?  Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros.  Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.  Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou.  Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes”(Jo 13:12-17)

 Numa época em que a grande maioria das pessoas desejam ser servidas do que servir, principalmente no que tange a líderes espirituais que se aproveitam da lã da ovelhas enquanto estas ficam com frio e permanecem famintas dos verdes pastor de Deus, voltarmo-nos para o exemplo de Francisco é trazer oxigênio novo para uma compreensão profundo do que é ser verdadeiramente evangélico.

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2:3-5)

VI – VIDA EM FRATERNIDADE

“O Senhor deu-me irmãos”. Era uma das frases presentes na boca de Francisco quando se referia aos seus companheiros de jornada. E que grande alegria contagiante tomava conta do ser de Francisco e dos demais irmãos quando se encontravam depois de um longo período de separação em decorrência de suas viagens missionárias. As festas de amor ágape eram regadas a júbilo e celebração: da vida, do mistério de Deus no meio deles, da amizade e carinho fraternais.

Francisco não conseguia compreender o chamamento para seguir a Cristo à parte da comunhão fraternal e da participação no corpo místico de Cristo, a Igreja. Para ele ser cristão, ser discípulo, ser servo de Deus significava necessariamente caminhar com pares que compartilhassem dos mesmos valores do Reino.

Ele sabia que o Evangelho nos chama ao envolvimento na vida fraternal em torno da presença do Cristo vivo e resurreto, como era desde o princípio:

“E subiu ao monte, e chamou para si os que ele quis; e vieram a ele. E nomeou doze para que estivessem com ele e os mandasse a pregar, e para que tivessem o poder de curar as enfermidades e expulsar os demônios” (Mc 3:13-15)

Essa comunidade primitiva dos doze caminhando ao lado do Senhor tornou-se o paradigma para a fraternidade franciscana que impactou a pequena Assis nos dias de Francisco. (Não existia um grupo similar a eles naquela época!) Um chamado ao amor que se doa e faz do irmão alguém superior a si mesmo:

“Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis” (Jo 13:34)

Essa é uma confirmação que podemos fazer acerca de Francisco e seus grupo de companheiros: eles realmente se amavam! Um amor que às vezes beirava a total extravagância e em outros assumia um ar quase que pueril. Mas, sem dúvidas eles se amava e se queriam bem. E por isso tinham imensa alegria e prazer em passarem tempo juntos ao ponto de se debulharem em lágrimas quando precisavam se separar por causa da obra evangelística em outras cidades.

Ah, amados amigos e irmãos! Nesses dias tão difíceis em que o número de “desigrejados” tem aumentado assustadoramente, nos quais cristãos perderam a alegria do convívio numa comunidade de fé em decorrência de escandalos e decepções, a espiritualidade fraternal/eclesiástica de Francisco e seus amigos se apresenta a cada um de nós como um paradigma a ser considerado. Eles tinham problemas entre eles? É claro que sim! Volta e meia decepcionavam um ao outro? Não tenham dúvidas quanto a isso. Eram um grupo de cristão, sim, mas, não deixaram de ser pecadores e imperfeitos enquanto humanos que eram. No entanto, para Francisco e seus amigos a Igreja era a família de Deus e eles não queriam deixar de fazer parte dessa família, apesar das imperfeições dela. Assim o Evangelho mostrava para Francisco.

“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18)

“Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia” (Hb 10:25)

CONCLUINDO

Muitos outros aspectos poderiam ser apontados acerca da espiritualidade franciscana como um modelo para os dias de hoje de um viver genuinamente evangélicos, por extrair seu entendimento, valores e práticas das páginas dos Evangelhos. É claro que há aspectos essencialmente da doutrina católica que as demais confissões cristãs sentem-se desconfortáveis. Podemos não concordar plenamente, mas, respeitamos. Contudo, isso não apaga o impacto e a beleza da vida evangelical que Francisco e seus companheiros viveram. Um estilo de vida que lançou renovação na Igreja de seus dias. E que se observada e enetendida pode fazer o mesmo nos dias de hoje em que a igreja encontra-se auto-sufocada em si mesma.

Que Deus nos abençoe na busca de um viver tão evangélico quanto o que Francisco nos deixou como exemplo.

Paz e bem!

tau

SDC14136A espiritualidade cristã constitui o horizonte mais amplo em que se emoldura a espiritualidade franciscana. Pode-se dizer que espiritualidade franciscana é uma maneira original de viver a espiritualidade cristã, um modo específico de pensar, de viver e de colocar em prática o Evangelho de Jesus Cristo. Uma forma de situar-se no mundo, diante de Deus e dos homens, uma forma de relacionar-se com toda a realidade: pessoas, coisas, Deus.

Quando se fala de espiritualidade franciscana, está-se falando da espiritualidade de um grupo que busca partilhar, entre si e com a sociedade em que vive, o seu modo de viver que teve seu início com Francisco de Assis. É praticamente impossível compreender a espiritualidade franciscana, se não soubermos pelo menos um pouco sobre Francisco de Assis. Isso porque ele encarnou tão profundamente a espiritualidade do Evangelho em sua existência que se torna impossível falar da espiritualidade franciscana sem falar da existência de Francisco. Espiritualidade e existência identificam-se em Francisco.

Seguimento de Jesus Cristo: base da espiritualidade de São Francisco

O encontro de Francisco com Cristo na palavra do Evangelho tem algo semelhante ao encontro de cada um dos apóstolos com Jesus. O encontro dos apóstolos com o Mestre resultou em um chamado: “Segue-me”. O de Francisco, igualmente. Francisco toma consciência de que viver o Evangelho só pode ser uma realidade, quando se segue Jesus de perto. Por isso, nos escritos de Francisco, encontramos, freqüentes vezes, a expressão “seguir a Cristo”. Na regra que apresentou ao Papa Inocêncio para a aprovação, em vez de repetir a expressão “viver o Evangelho”, ele fala em seguir a doutrina e as pegadas de Jesus Cristo e cita textos do Evangelho que mostram, com clareza, a idéia e a decisão do seguimento de Cristo: “Se queres ser perfeito, vai e vende tudo que tens e dá aos pobres e terás um tesouro no céu, e vem e segue-me” (Mt 19,21 e Lc 18,22). E, “se alguém quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo e tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24) (RnB 1,2-4). Mais adiante, na mesma regra, ele exorta os irmãos: “Todos os irmãos se esforcem por seguir a pobreza e a humildade de Nosso Senhor Jesus Cristo” (RnB 9,1).

A expressão “seguir a Cristo” ou “seguimento de Jesus Cristo” merece uma reflexão. Na maioria das vezes, quando se fala em seguir Jesus Cristo, pensa-se em termos de imitação ou de repetição daquilo que Jesus fez. Mas não se trata de reproduzir os gestos e palavras de Jesus à maneira de fotocópia. Com a expressão “seguir a Cristo”, a própria tradição oral dos Evangelhos não entendia a reprodução fiel daquilo que Jesus fazia. Compreendia que, a partir daquele momento, estabelecia-se uma relação especial entre Jesus e aquele que fora chamado a segui-lo. “Seguir” quer indicar esse relacionamento de proximidade.

Surge-nos então a pergunta: que tipo de relacionamento se estabelecia entre Jesus e os que o seguiam? O relacionamento vem traduzido no binômio mestre-discípulo. São dois termos tomados do mundo dos artesãos. Desde a Antiguidade, os artesãos que ensinavam seu ofício a outras pessoas, geralmente jovens, eram chamados de mestres; os aprendizes eram denominados discípulos. Os discípulos faziam tudo para assimilar a técnica, o toque, a maneira especial de trabalhar de seu mestre. Bom discípulo era aquele que mais se aproximava de seu mestre na técnica de seu ofício.

Só que, com o Mestre Jesus, os discípulos não aprendiam um ofício, mas a arte de viver, de relacionar-se com os outros, de estar em contínua referência a Deus, de perceber a realidade. Ser discípulo, então, não significava repetir o que o mestre fazia, mas assimilar aquela maneira de ser e de viver.

Seguir a Cristo, portanto, significa estabelecer com Jesus Mestre a relação de discípulo. E o discípulo, nessa relação com o mestre, passa, pouco a pouco, a assimilar os mesmos critérios de ação do mestre, a posicionar-se na mesma ótica de leitura da realidade, a ter os mesmos sentimentos e, inclusive, a mesma vontade. Por exemplo, a vontade de Jesus Cristo é sempre vontade salvífica, isto é, vontade que quer, acima de tudo, a salvação das pessoas. Os discípulos, em seu empenho de aproximar-se do mestre, começam a educar sua vontade a querer também, acima de tudo, a salvação das pessoas. Seguir a Cristo ou ser seu discípulo é, segundo a palavra de São Paulo, ter o mesmo sentimento de Cristo Jesus (cf. Fl 2,5; Cl 3,12-17).

Desse modo, ser discípulo de Jesus não significa aprender a fazer muitas coisas, mas a fazer todas as coisas com uma determinada marca de qualidade. E é essa marca de qualidade que os discípulos aprendem com o Mestre Jesus.

Com o propósito de viver o Evangelho ou de seguir a Cristo, Francisco procurou, de corpo e alma, a relação com o Cristo Mestre. Aceitando o convite do Mestre para ser seu discípulo, colocou-se num processo de aprendizagem: queria aprender do mestre sua maneira de viver, de sentir, de pensar, de perceber a realidade, de agir e de relacionar-se. Buscava essa relação de proximidade com Cristo por meio da oração e da leitura do Evangelho. Quando não sabia, por exemplo, como agir em determinadas circunstâncias, Francisco lia o Evangelho para buscar, segundo sua expressão, o conselho do Mestre (cf. 2Cel 15; AP 10). Não com o intuito de executar à risca o que lia, mas de agir como Jesus agia. Nada mais importante para ele do que se imbuir do espírito do Mestre. E nessa busca, investia tudo: abandonou os bens, a família, os antigos amigos de festas. Colocava em prática o conselho evangélico: “Se alguém considera seus familiares e amigos mais do que a mim, não pode ser meu discípulo” (cf. Lc 14,26).

________________________

Extraído do site Franciscanos

tau

 

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 760 outros seguidores