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Archive for fevereiro \28\UTC 2009

A oração hesicástica, que leva ao descanso em que a alma habita com Deus, é a oração do coração. Para nós que damos tanta importância à mente, aprender a orar com o coração e a partir dele tem importância especial. Os monges do deserto nos mostram o caminho. Embora não exponham nenhuma teoria sobre a oração, suas narrativas e seus conselhos concretos apresentam as pedras com as quais os autores espirituais ortodoxos mais tardios construíram uma espiritualidade magnífica. Os autores espirituais do monte Sinai, do monte Atos e os startsi da Rússia oitocentista apóiam-se todos na tradição do deserto. Encontramos a melhor formulação da oração do coração nas palavras do místico russo Teófano, o Recluso: “Orar é descer com a mente ao coração e ali ficar diante da face do Senhor, onipresente, onividente dentro de nós”. No decorrer dos séculos, essa perspectiva da oração tem sido central no hesicasmo. Orar é ficar na presença de Deus com a mente no coração, isto é, naquele ponto de nossa existência em que não há divisões nem distinções e onde somos totalmente um. Ali habita o Espírito de Deus e ali acontece o grande encontro. Ali, coração fala a coração, porque ali ficamos diante da face do Senhor, onividente, dentro de nós. É bom saber que aqui a palavra “coração” é usada em seu sentido bíblico pleno. em nosso meio, ela se tornou lugar-comum. Refere-se à sede da vida sentimental. Expressões como “coração partido” e “sentido no coração” mostram ser comum pensarmos no coração como o lugar quente onde se localizam as emoções, em contraste com o frio intelecto onde têm lugar nossos pensamentos. Mas, na tradição judeu-cristã, a palavra “coração” refere-se à fonte de todas as energias físicas, emocionais, intelectuais, volitivas e morais.
No coração, originam-se impulsos impenetráveis, além de sentimentos, disposições e desejos conscientes. O coração também tem suas razões e é o centro da percepção e do entendimento. Finalmente, ele é a sede da vontade: faz planos e chega a uma boa decisão. Assim, é o órgão central e unificador de nossa vida pessoal. Nosso coração determina nossa personalidade e é, portanto, não só o lugar onde Deus habita mas também o lugar ao qual Satanás dirige seus ataques mais ferozes. Esse coração é o lugar da oração. A oração do coração dirige-se a Deus a partir do centro da pessoa e, assim, afeta toda a nossa compaixão.
Um dos monges do deserto, Macário, o Grande, diz: “A tarefa principal do atleta (isto é, do monge) é entrar em seu coração”. Isso não significa que o monge deva procura encher sua oração de sentimento; significa que deve esforçar-se para deixar que ela remodele toda a sua pessoa. O discernimento mais profundo dos monges do deserto é que entrar no coração é entrar no Reino de Deus. Em outras palavras, o caminho para Deus é pelo coração. Isaac, o Sírio, escreve:
“Procure entrar na câmara do tesouro… que está dentro de você e então descobrirá a câmara do tesouro do céu. Pois ambas são a mesma coisa. Se conseguir entrar em uma, você verá ambas. A escada para este Reino está escondida dentro de você, em sua alma. Se você purificar a alma, ali verá os degraus da escada que deve subir.”
E João de Cárpato diz:
“É preciso grande esforço e luta na oração para alcançar aquele estado da mente que é livre de toda perturbação; é um céu dentro do coração (literalmente ‘intracardíaco’), o lugar onde, como o apóstolo Paulo assegura, “Cristo está em vós” (2Cor13,5).
Em suas falas, os monges do deserto nos indicam uma visão bastante holística de oração. Eles nos afastam de nossas práticas intelectuais, nas quais Deus se transforma em um dos muitos problemas com os quais temos de lidar. Mostram-nos que a verdadeira oração penetra no âmago de nossa alma e não deixa nada sem tocar. A oração do coração não nos permite limitar nosso relacionamento com Deus a palavras interessantes ou emoções piedosas. Por sua própria natureza, essa oração transforma todo o nosso ser em Cristo, precisamente porque abre os olhos de nossa alma à verdade de nós mesmos e também à verdade de Deus. Em nosso coração passamos a nos ver como pecadores abraçados pela misericórdia de Deus. É essa visão que nos faz clamar: “Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, tem misericórdia de mim, pecador”. A oração do coração nos exorta a não esconder absolutamente nada de Deus e a nos entregar incondicionalmente a sua misericórdia.
Assim, a oração do coração é a oração da verdade. Desmascara as muitas ilusões sobre nós mesmos e sobre Deus e nos conduz ao verdadeiro relacionamento do pecador com o Deus misericordioso. Essa verdade é o que nos dá o “descanso” do hesicasta. Quando ela se abriga em nosso coração, somos menos distraídos por pensamentos mundanos e nos voltamos mais sinceramente para o Senhor de nossos corações e do universo. Assim, as palavras de Jesus: “Felizes os corações puros: eles verão a Deus” (Mt 5,8) tornam-se reais em nossa oração. As tentações e as lutas continuam até o fim de nossas vidas, mas com um coração puro ficamos tranqüilos, mesmo em meio a uma existência agitada.
Isso levanta o problema de como praticar a oração do coração em um ministério bastante agitado. É a essa questão de disciplina para a qual precisamos agora voltar a atenção.

Oração e Ministério
Como nós, que não somos monges nem vivemos no deserto, praticamos a oração do coração? Como ela influencia nosso ministério cotidiano?
A resposta a essa pergunta está na formulação de uma disciplina definitiva, uma regra de oração. Há três características da oração do coração que nos ajudam a formular essa disciplina:
A oração do coração alimenta-se de orações breves e simples.
A oração do coração é incessante.
A oração do coração inclui tudo.

No contexto de nossa cultura verbosa, é significativo ouvir os monges do deserto nos aconselhando a não usar palavras em excesso:
“Perguntaram ao aba Macário: ‘Como se deve orar?’ O ancião respondeu: ‘Não há, em absoluto, necessidade de fazer longos discursos; basta estender a mão e dizer: Senhor, como queres e como sabes, tem misericórdia. E se o conflito ficar mais ameaçador, dizer: Senhor, ajuda. Ele sabe muito bem do que precisamos e nos mostra sua misericórdia'”.
João Clímaco é ainda mais explícito:
“Quando orar, não procure se expressar em palavras extravagantes pois, quase sempre, são as frases simples e repetitivas de uma criancinha que nosso Pai do céu acha mais irresistíveis. Não se esforce em muito falar, para que a busca de palavras não lhe distraia a mente da oração. Uma única frase nos lábios do coletor de impostos foi suficiente para lhe alcançar a misericórdia divina; um pedido humilde feito com fé foi suficiente para salvar o bom ladrão. A tagarelice na oração sujeita a mente à fantasia e à dissipação; por sua natureza, as palavras simples tendem a concentrar a atenção. Quando encontrar satisfação ou contrição em determinada palavra de sua oração, pare nesse ponto”.
Essa é uma sugestão muito útil para nós que tanto dependemos da capacidade verbal. A tranqüila repetição de uma única palavra ajuda-nos a descer com a mente ao coração. (Também a base da OC, nota da autora do site). Essa repetição nada tem a ver com mágica. Não tem o propósito de enfeitiçar Deus, nem de forçá-lo a nos ouvir. Pelo contrário, uma palavra ou sentença repetida com freqüência ajuda-nos a nos concentrar, a nos mover para o centro, a criar uma tranqüilidade interior e, assim, a ouvir a voz de Deus. Quando simplesmente tentamos ficar sentados em silêncio e esperar que Deus nos fale, nos vemos bombardeados por intermináveis pensamentos e idéias conflitantes. Mas quando usamos uma sentença bastante simples como: “Ó Deus, vem em meus auxílio”, ou “Jesus, mestre, tem piedade de mim”, ou uma palavra como “Senhor” ou “Jesus”, é mais fácil deixar as muitas distrações passarem sem nos deixarmos iludir por elas. Essa oração simples, repetida com facilidade, esvazia aos poucos nossa vida interior apinhada e cria o espaço sossegado onde habitamos com Deus. É como uma escada pela qual descemos ao coração e subimos a Deus. Nossa escolha de palavras depende de nossas necessidades e das circunstâncias do momento, mas é melhor usar palavras da Escritura.
Quando somos fiéis a essa oração simples e a praticamos com regularidade, ela nos conduz devagar a uma experiência de descanso e nos abre à presença ativa de Deus. Além disso, em um dia muito atarefado, podemos levar essa oração conosco. Quando, por exemplo, passamos, no início da manhã, 20 minutos sentados na presença de Deus com as palavras: “O Senhor é meu pastor”, elas lentamente constróem em nosso coração um pequeno ninho para si mesmas e ali ficam o restante de nosso dia atarefado. Até enquanto falamos, estudamos, cuidamos do jardim ou construímos alguma coisa, a oração continua em nosso coração e nos mantém conscientes da orientação onipresente de Deus. A disciplina não é agora dirigida para um discernimento mais profundo do que significa chamar Deus de nosso Pastor, mas para a íntima experiência da ação pastoral de Deus em tudo que pensamos, dizemos ou fazemos.

Incessante
A segunda característica da oração do coração é ser incessante. A pergunta de como seguir a ordem de Paulo: “Orai incessantemente” foi fundamental no hesicasmo desde a época dos monges do deserto até a Rússia oitocentista. Há muitos exemplos desse interesse nos dois extremos da tradição hesicástica. (Vejamos um dos principais:)
….
Na famosa história do Peregrino Russo lemos:
“Pela graça de Deus sou cristão, mas pelas minhas ações sou um grande pecador… No vigésimo quarto domingo depois de Pentecostes, fui à igreja para ali fazer minhas orações durante a liturgia. Estava sendo lida a primeira Epístola de S. Paulo aos Tessalonicenses e, entre outras palavras, ouvi estas: ‘Orai incessantemente’ (1Ts 5,17). Foi esse texto, mais que qualquer outro, que se inculcou em minha mente, e comecei a pensar como seria possível orar incessantemente, já que um homem tem de se preocupar também com outras coisas a fim de ganhar a vida”.
O camponês foi de igreja em igreja, para ouvir sermões, mas não encontrou a resposta que queria. Finalmente, encontrou um santo staretz que lhe disse:
“A oração interior incessante é um anseio contínuo do espírito humano por Deus. Para sermos bem-sucedidos nesse exercício consolador, precisamos suplicar com mais freqüência a Deus que nos ensine a orar sem cessar. orar mais e orar com mais fervor. É a própria oração que lhe revela como orá-la sem cessar; mas leva algum tempo”.
Então, o santo staretz ensinou ao camponês a Oração de Jesus: “Senhor Jesus Cristo, tem misericórdia de mim”. Enquanto viajava como peregrino pela Rússia, o camponês passou a repetir essa oração com os lábios. Até considerava a oração de Jesus sua companheira verdadeira. E, então, um dia, teve a sensação de que a oração passou sozinha de seus lábios para seu coração. Ele diz:
“… parecia que, pulsando normalmente, meu coração começava a dizer as palavras da oração a cada batida… Desisti de dizer a oração com os lábios. Passei simplesmente a ouvir o que meu coração dizia”.
Aqui aprendemos outro jeito de chegar à oração incessante. A oração continua a acontecer dentro de mim, até enquanto falo com os outros ou me concentro no trabalho manual. Ela se torna a presença ativa do Espírito de Deus que me guia pela vida.
Desse modo vemos como, pela caridade e pela atividade da oração de Jesus em nosso coração, nosso dia todo se transforma em oração contínua. Não sugiro que imitemos o peregrino russo, mas que, também nós, em nosso ministério atarefado, nos preocupemos em orar sem cessar, para que, seja o que for que comamos ou bebamos, seja o que for que façamos o façamos pela glória de Deus. (Veja 1Cor 10,31). Amar e trabalhar pela glória de Deus não pode permanecer uma idéia sobre a qual pensamos de vez em quando. Deve se tornar uma incessante doxologia interior.

Inclui Tudo
Uma última característica da oração do coração é que ela inclui todos os nossos interesses. Quando entramos com a mente no coração e ali ficamos na presença de Deus, então todas as nossa preocupações mentais se transformam em oração. O poder da oração do coração é precisamente que, por meio dela, tudo que está em nossa mente se transforma em oração.
Quando dizemos a alguém: “Vou orar por você”, assumimos um compromisso muito importante. É uma pena que esse comentário muitas vezes não passe de uma expressão de interesse. Mas, quando aprendemos a descer com nossa mente em nosso coração, todos os que fazem parte de nossa vida são guiados à presença curativa de Deus e tocados por ele no centro de nosso ser. Falamos aqui de um mistério para o qual palavras são inadequadas. É o mistério em que o coração, centro de nosso ser, é transformado por Deus em seu coração, um coração grande o bastante para abraçar todo o universo. pela oração, carregamos em nosso coração toda a dor e tristeza humanas, todos os conflitos agonias, toda a tortura e a guerra, toda a fome, solidão e miséria, não por causa de alguma grande capacidade psicológica ou emocional, mas porque o coração de Deus uniu-se ao nosso.
Aqui vislumbramos o sentidos das palavras de Jesus:
“Tomais sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque eu sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas. Sim, o meu jugo é fácil de carregar, e o meu fardo é leve” (Mt 11,29-30).
Jesus nos convida a aceitar seu fardo, que é o do mundo todo, um fardo que inclui o sofrimento humano em todos os tempos e lugares. Mas esse fardo divino é leve e podemos carregá-lo quando nosso coração se transforma no coração manso e humilde de nosso Senhor.
Vemos aqui o íntimo relacionamento entre oração e ministério. A disciplina de conduzir todo o nosso povo com suas lutas ao coração manso e humilde de Deus é a disciplina de oração e também do ministério. Enquanto o ministério significar apenas que nos preocupamos muito com as pessoas e seus problemas; enquanto significar um número interminável de atividades que dificilmente conseguimos coordenar, ainda dependeremos muito de nosso coração tacanho e ansioso. Mas quando nossas preocupações são elevadas ao coração de Deus e ali se transformam em oração, ministério e oração se tornam duas manifestações do mesmo amor universal de Deus.
Vimos como a oração do coração se nutre de orações breves, é incessante e inclui tudo. Essas três características mostram como a oração do coração é o alento da vida espiritual e de todo o ministério. Na verdade, essa oração não é apenas uma atividade importante, mas o próprio centro da nova vida que queremos representar e na qual queremos iniciar nosso povo. As características da oração do coração deixam claro que ela exige uma disciplina pessoal. Para levar uma vida de oração não podemos passar sem orações específicas. Precisamos dizê-las de uma forma que nos ajude a ouvir melhor o Espírito que ora em nós. Precisamos continuar a incluir em nossa oração todas as pessoas com as quais e para as quais vivemos e trabalhamos. Essa disciplina vai nos ajudar a passar de um ministério entontecedor, fragmentário e muitas vezes frustrante para um ministério integrador, holístico e muito gratificante. Ela não vai facilitar o ministério, mas simplificá-lo; não vai torná-lo doce e piedoso, mas sim espiritual; não vai fazê-lo indolor e sem lutas, mas tranqüilo no verdadeiro sentido hesicástico.”
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Por Henri J. Nouwen

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DIAS CORRIDOS

Há de se concordar que nossos dias têm sido marcados por um ritmo apressado de viver. Agendas superlotadas, horários apertados, papeladas entulhando nossas mesas de escritório caracterizam o homem chamado pós-moderno. Ao que nos parece, em algum momento, conseguiram convencer este mesmo homem que “viver” assim é sinônimo de sucesso e auto-realização pessoais. Contudo o que vemos, ao olhar no fundo dos olhos, denuncia uma verdade triste e ao mesmo tempo antagônica a este conceito popular de “vidas apressadas = sucesso”: famílias desestruturadas, casamentos desfeitos, pais que desconhecem à fundo seus filhos, filhos orfãos de pais vivos (pelo menos no que se refere à presença), estresse, doenças cardíacas, almas esquartejadas, humanidade diminuída. Será essa a melhor maneira de viver?

Estas pessoas simplesmente não param, não diminuem seu ritmo para observar que existe muito mais nesta vida do que contas bancárias, clientes, diplomas e ponteiros de relógio. Será que elas esqueceram que existe um pôr do sol a cada crespúsculo e que o céu nestas ocasiões assume um tom vermelho-alaranjado? Será que elas não sabem que ainda existem luas cheias que, com seu tom prateado, continuam inspirando casais apaixonados a recitarem juras de amor mútuo à beira de um lago? Será que elas já se esqueceram da inocência presente no sorriso desenteressado de uma criança? Não! Elas não esqueceram. Muito menos deixaram de saber estas coisas. A grande verdade é que elas não enxergam. Podem até ver, mas, não conseguem enxergar. E não conseguem enxergar porque não param para observar. Observar um mundo mais profundo, muito mais amplo, muito mais Sagrado. Um mundo cheio de possibilidades. Onde nossas almas recebem de volta sua inteireza ao mesmo tempo em que somos tocados e transformados.

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“Ouvirei o que Deus, o Senhor, diz” (Sl 85.8).
Bendita é a alma que ouve o Senhor falando em seu íntimo, e que da boca do Senhor recebe a palavra da consolação. Benditos são os ouvidos que captam os impulsos do sussurro divino (Mt 13.16,17), e não dão atenção aos cochichos deste mundo. Na verdade, benditos são os ouvidos que não escutam a voz que está soando lá fora, mas a verdade que instrui no interior. Benditos são os olhos que estão fechados às coisas externas, mas abertos para coisas internas. Benditos são aqueles que penetram fundo em coisas interiores, e procuram se preparar cada vez mais, com exercícios diários, para receber os segredos celestiais. Benditos são aqueles que ficam contentes em ter tempo de sobra para Deus, e que se livram de todos os impedimentos mundanos.
Considere estas coisas, ó minha alma, e feche a porta de seus desejos sensuais, para que você ouça o que o Senhor seus Deus lhe diz (Sl 85.8). Assim diz seu Amado:” Eu sou sua salvação”, sua Paz, e sua Vida: fique comigo, e você encontrará paz. Largue todas as coisas transitórias e busque as coisas eternas. O que são todos os objetos transitórios senão coisas sedutoras? E que aproveitam as criaturas todas, se você for abandonado pelo Criador? Renuncie, pois, todas as coisas, e trabalhe para agradar a seu Criador, para ser fiel a ele, a fim de que você alcance a verdadeira bem-aventurança.

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Por Thomas de Kempis em A Imitação de Cristo – p.85

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Na sociedade em que vivemos nos dias de hoje, tempo assumiu o significado de benefícios. Depende de como o utilizamos. Portanto, nossas consciências emergem de uma cultura que sente aversão por filas. Daí temos a Internet através da qual podemos fazer movimentações financeiras sem desperdiçarmos momentos preciosos nas agências bancárias. Quando o assunto é comida, temos o Drive-Thru que nos possibilita, de dento de nossos próprios carros, comprarmos o lanche que desejamos.
Porém, para a infelicidade de alguns, não são todos os negócios em que se pode driblar as terríveis filas de espera. Não obstante, a tecnologia tem buscado amenizar os nossos momentos de angustiante espera. E uma das providências que se é utilizada para tanto, é aquilo que conhecemos como “código de barras”. Trata-se de um sistema eletrônico em forma de barras verticais que através de um “scaner” presente nos caixas é feita a leitura do produto e o seu preço. O código de barras do sorvete pode estar na ração de cachorros. E assim a ração de cachorros será sorvete, pelo menos para o scaner. Para ele o produto verdadeiro é o que menos interessa no momento.
Para a nossa surpresa, uma grande maioria de cristãos, têm vivido aquilo que podemos chamar de uma “fé de código de barras”. Neste tipo de fé, no entendimento de alguns, o próprio Deus passa com seu “scaner” sobre algo semelhante a um código de barras na vida do cristão , sem estar muito interessado no produto real. Este “código de barras” na vida do cristão, pode ser várias coisas: ser membro de uma igreja evangélica; dar o seu dízimo mensalmente; vir a igreja todos os domingos; cortar os cabelos a certa altura; usar determinados tipos de roupas etc. Porém, o produto real, ou seja, a vida que o cristão leva no seu dia-a-dia, o seu testemunho diante da sociedade, não é muito, ou quem sabe, nunca levado em consideração. Estes cristãos enganam-se ao imaginarem que estes “códigos de barras” são suficientes para que Deus se impressione, mesmo que isso signifique que no seu jeito de viver, aqueles que se dizem “nascidos de novo” não apresentem nenhuma diferença substancial em relação a vida que as outras pessoas, que não conhecem a Cristo, manifestam. Infelizmente, para muitos, ser verdadeiramente cristão, não tem nada a ver com o tipo de pessoa que você é. As conseqüências deste pensamento leviano e espúrio, têm sido desastrosas para a vida espiritual da igreja. Cientes deste fato, é que começamos a encontrar base para a resposta da pergunta que não quer calar: “Por que a igreja dos dias de hoje está tão fraca? Por que apesar de alardearmos um grande crescimento numérico, o impacto na sociedade tem sido tão pequeno? “
Querido(a) leitor(a), vida com Deus não é trilhada na base de um “código de barras”, mas sim por intermédio de um relacionamento de intimidade e interação com o Senhor Jesus. E, como poderia aquele que nos prepara para vivermos no céu, não nos preparar para vivermos aqui e agora na Sua bendita presença na Terra? Sim, amado(a) Deus está muito interessado no produto real, ou seja, no tipo de pessoa que você está se tornando, na forma como você tem vivido diante dele e dos homens.
A fé de “código de barras”, só serve para marcar um único tipo de produto: “RELIGIOSO”, cujo preço é infame ser mencionado aqui, e que não tem lugar no reino de Cristo e de Deus.
Devemos, o quanto antes, nos lembrar das palavras poderosas e cortantes de João Batista, a um certo grupo de sua época, adepto da “fé de código de barras”: “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que até destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão.”(Lc 3:8). A questão não são os nossos aparatos religiosos (ser filho de Abraão), mas sim o tipo de vida que devemos viver (frutos dignos de arrependimento).
Desta forma, viveremos uma fé íntegra e verdadeira, não apoiada nas muletas religiosas de um “código de barras” qualquer. Mas uma fé que exprime a beleza do produto final que atesta, sem qualquer equívoco, através do viver, que somos filhos de um grandioso Deus.

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“Conta as bênçãos/ conta quantas são/ recebidas da divina mão/ uma a uma, dize-as de uma vez/ hás de ver, surpreso, quanto Deus já fez.”
Com certeza esta letra não te é estranha. Trata-se do estribilho de um dos hinos que nós mais amamos. Ele é um convite para que não percamos de vista aquilo que Deus já fez por nós. Ah, e como isso acontece com freqüência…! Não é verdade? Somos rápidos em deixar escapar de nossa memória as benfeitorias divinas.
Porém, muito disso se dá pelo simples fato de não paramos com freqüência para refletirmos e nos lembrarmos do que Deus já fez a nosso favor. A sentença é simples: ficaremos surpresos se contarmos as bênçãos; e só contaremos as bênçãos a partir do momento em que pararmos e separarmos tempo para refletir, meditar e recordar a benignidade do Senhor. É exatamente o que Ele nos convida a fazer: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus.”(Sl 46:10). Se não aprendermos a silenciar nossa alma, nada feito! O grande problema é que, como somos filhos desta cultura ocidental materialista, consumista e compulsivamente agitada, somos ensinados mais a trabalhar em prol da bênção, do que em separarmos tempo para, a sós, meditarmos naquilo que Deus já fez. Assim, quando somos assaltados pelas tribulações e aflições do cotidiano, acabamos por não ter uma base sólida sobre a qual nos firmarmos. Os grandes homens da fé que desenvolveram lindas espiritualidades têm, no seu mapa biográfico, estes momentos de tranqüilidade onde, sozinhos, só eles e Deus, traziam das profundezas da memória o rastro da graça e da misericórdia divinas. Era isso que lhes dava forças para enfrentarem problemas que, em alguns momentos, eram até maiores e mais fortes do que eles.
Temos um grande exemplo disso na história de Davi e Golias. Golias, este um homem gigantesco de quase três metros de altura, já a quarenta dias desafiava e humilhava o exército de Israel. Duas vezes por dia ele se colocava a disposição para lutar contra qualquer um que fosse. A Bíblia nos conta que ninguém do povo tinha coragem para enfrentar aquele gigante, inclusive o rei Saul. Porém, um grande contraste se estabelece quando Davi chega naquele arraial e não se conforma que um homem incircunciso como aquele ficasse afrontando os exércitos do Deus vivo. E como já sabemos, bastou uma pedra, alguns giros numa funda, e, pronto, tínhamos um gigante estatelado no chão. Agora, reflitamos, como tudo isso aconteceu? De onde Davi tirou tanta coragem? O segredo estava exatamente no que dominava a imaginação (pensamentos) de Davi. Enquanto que a altura, a força e o tom de voz de Golias amedrontava e acovardava o restante do povo, o mesmo não era verdade em relação aquele menino de boa aparência. Davi recorda, traz a memória que Deus já havia lhe dado livramentos de perigos maiores do que ele. Aquele menino pastor já havia enfrentado o urso e o leão, e por causa disso, ele confiava que o mesmo Deus lhe daria vitória sobre o gigantesco filisteu. A imaginação de Davi era dominada pelas demonstrações da graça de Deus, enquanto que a imaginação do povo, pelo medo de Golias. A imaginação de Davi era uma imaginação em oração porque meditava nas obras das mãos de Deus. Por isso, ele podia cantar-orar: “Lembro-me dos dias antigos; considero todos os teus feitos; medito na obra das tuas mãos”(Sl 143:5). E para que isso aconteça é necessário parar e separar tempo para a prática desta disciplina espiritual.
Acredito que o mesmo pode ser uma realidade prática nas nossa vidas espirituais. Podemos ter, como Davi, uma mente dominada pelos feitos benignos do Senhor. Porém, precisamos parar para “contá-los” (refletir, recordar, meditar). E quando virmos o que Deus já nos fez, teremos a certeza de que aquele que permanece fiel, continuará fazendo. “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.”(Lm 3:21). Isso é o que temos que fazer!

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Todos querem ser felizes. Todos, sem excessão, desejam poder um dia dizer: fui muito feliz. A humanidade em meio às suas diferenças ímpares, toca-se em meio á vereda através da qual se desenvolve a saga em busca da felicidade. Você deseja ser feliz, eu desejo ser feliz. Mas, o que significa ser realmente feliz? Do que depende este estado do ser chamado de felicidade? Estado este que poetas comporam seus odes e filósofos seus tratados. Desejo, agora, compartilhar algo que para mim se torna emblemático nesta questão toda de felicidade.
Há algumas semanas atrás tive a oportunidade, por ocasião de meu emprego, de estar entregando documentação a um de nossos clientes em um dos bairros nobres de nossa cidade, o bairro da Lagoa. Para resumir, fui até o seu condomínio (se é que se pode chamar aquilo que vi de simplesmente condomínio). O lugar mais se parecia com um palácio. Algo de muito luxo e requinte. Muito bonito mesmo. O hall de entrada do prédio lembrava um saguão destes hotéis de cinco estrelas. E quanto aos carros que de lá saiam…? Carros que eu nunca vi na minha vida. Mais parecidos com máquinas saídas de algum filme de tema futurista. Diante de toda esta cena, pus-me a refletir. Tal reflexão foi instantânea, simplesmente não tive como evitar: “Meu Deus, quanto luxo. Quantas pessoas de tanta posse. Mas, quantas delas são verdadeiramente felizes?” E no mesmo instante eu pude dizer ao Senhor que estava comigo: “Pai, eu nunca te pedi algo desse tipo e nem nunca corri atrás disso. Na verdade eu sou o homem mais feliz do mundo, pois, sou esposo de uma mulher maravilhosa, sou pai de dois filhos incríveis, e acima de tudo, sou teu filho por que fui lavado e redimido pelo Sangue de meu Senhor Jesus Cristo!” Logo, em seguida brotou em meu lábios uma antiga canção que dizia: “Riquezas não preciso ter, mas sim celeste bem/ nem falsa paz nem vão prazer, porquanto o crente tem/ eterno gozo no Senhor por desfrutar do seu amor”. E o refrão é ainda mais maravilhoso: “Com Cristo estou contente/ ele me satisfaz/ com este amor do Salvador agora estou contente/ agora estou contente!”
Muitos são os que colocam no ter a razão de sua felicidade. Estas pessoas permanecem sob a tirania dos “SE’s” desta vida: SE eu passar para a faculdade…; SE eu conseguir casar com ele(a)….; SE eu conseguir comprar um carro novo…; SE eu receber uma promoção no meu emprego….: então, eu serei uma pessoa feliz. Assim, a felicidade torna-se um estado de espírito condicionado a circunstâncias externas que, na verdade, encontram-se a maioria delas, fora do nosso controle. E isso nos incomoda profundamente. Desejamos sempre estar com as rédeas em nossas mãos. Queremos porque queremos que nossos sonhos, desejos e vontades sejam plenamente realizados. Se não…nos sentimos infelizes. Profundamente infelizes.
A espiritualidade clássica com o padres do deserto, nos apresentam um meio de escaparmos deste turbilhão oscilante no que diz respeito a nos sentirmos felizes ou não. Estes sábios monges que habitaram o deserto do Egito no século IV falavam de um tipo de felicidade que mais tarde denominou-se de “alegria ontológica”.
O termo ontológico diz respeito àquilo que se relaciona ao ser. A tudo que é oriundo do ser. Assim, alegria ontológica é aquele tipo de alegria que independe de ser ter algo ou não.É algo do tipo: eu sou feliz porque eu sou feliz e pronto! É a alegria simplesmente de ser do que de se ter. Oh! E como as pessoas precisam descobrir este tipo de felicidade. Elas perceberiam o quanto é frágil a membrana que separa a felicidade da infelicidade em suas vidas abastadas.
Logo, sou feliz simplesmente por ser…

  • …escolhido por Deus;
  • …amado d’Ele.
  • …amigo de Cristo.
  • …habitado pelo Espírito Santo.
  • …herdeiro de todas as promessas bíblicas.
  • …esposo correspondido.
  • …pai deslumbrado.

Eu sou tudo isso. E agradeço ao meu Senhor Jesus por tão inestimável riqueza. Riqueza esta que é maior do que apartamentos e carros luxuosos. Verdadeira alegria. Profunda e completa felicidade. Liberdade total do ter ou não ter. Pois, simplesmente ser é maior do que simplesmente ter. Porque eu posso ter sem nada ser. Ao passo que eu posso ser tudo sem ter nada. E ainda assim, ser feliz.
Finalizo, com as palavras do profeta da alegria ontológica que corroboram o que foi dito até aqui. Palavras que falam por si:

“Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; (…)
todavia, eu me ALEGRO no Senhor,
exulto no Deus da minha salvação”
(Hc 3:17,18)

Alegria ontológica. Mistério para o mundo perdido. Bênção revelada. É o que Deus tem reservado para os que o amam.

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