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Archive for abril \14\UTC 2009

Acredito que este será um dos meus textos mais pessoais. Digo isso por causa do seu conteúdo e por causa do lugar de onde ele vem: das profundezas ocultas, contraditórias e inescrutáveis de um coração humano.

Cheguei a um ponto de minha caminhada em que tomei o medo de amar. Pelo menos no que diz respeito a outras pessoas. Tenho medo de amar porque este verbo é conjugado em parceria com outro: relacionar-se. Amor e relacionamento são irmãos siamezes, os quais não podemos separar, sob pena de matar a ambos.

Neste sentido, posso também afirmar que tenho medo de relacionamentos. Relacionar-me com outras pessoas evoca inseguranças e incertezas que acabam por paralizar-me na busca do aprofundamento interpessoal. E isso, de certo modo, me fere , pois sei que tal fobia acaba por lançar-me na contradição de tudo quanto tenho pregado e ensinado acerca do caminho místico cristão. Mas…o que posso dizer? Tenho medo!

Tenho medo porque o amor de relacionamentos, ou melhor, os relacionamentos de amor, são realidades que muitas das vezes nos escapam das mãos. Escorrendo entre os dedos sem que possamos fazer nada, assim como não conseguimos reter a água que pegamos com as mãos: ela se esvai, e quando abrimos as mãos, já não a temos.

Todavia, esta mesma água que se foi deixa suas marcas em nossas mãos. Fica uma certa humidade em nossa pele em decorrência de sua passagem. Relembrando-nos algo que num momento tivemos e que agora encontra-se no pretérito de nossa história.

Relacionamentos de amor que se foram também deixam marcas profundas em nossas vidas. Saudades, frustrações, ódio, raiva, indignação, carinho, bondade, plenitude, vazio. Cabe a nós buscarmos reconciliar estas realidades interiores afim de que, as mesmas, não acabem por nos fragmentar a alma.

A questão é esta. Temos sequelas no âmago de nossa interioridade. E não podemos e nem devemos negar isso. A fuga não é, de maneira alguma, solução para nós.

Em alguns momentos estas sequelas incomodam e ponho a me questionar: porque as coisas não podem ser como sempre foram? Por que quando mudam é, aparentemente, para pior? Por que amigos se separam pela distância ao ponto do relacionamento resumir-se numa tela de computador? Por que pessoas que antes eram amigas, “unha e carne”, para usar a terminologia popular, transformam-se em meras colegas com pouca ou quase nenhuma daquela afinidade antiga restando?

Todos estes questionamentos e todas estas sequelas têm sua resposta e cura quando unificamos a todas no silêncio e na solidão nossa, delas e de Deus. Pois, é no silêncio da solidão que todas as realidades assumem seu real significado.

Isso se dá pelo fato de que no silêncio nossa pobreza fica-nos patente. E como homens e mulhres pobres em espíritos nada temos que não nos tenha sido dado por Deus e que, por esse motivo, o desapegar-se é a resposta mais coerente diante do que temos recebido. E que, portanto, já que nada temos e a nada nos apegamos, devemos aceitar e nos sujeitar á Sabedoria divina em decidir até quando nos é conveniente termos aquilo que na verdade não temos, porque no fundo nunca nos pertenceu.

“Do Senhor é a terra e a sua plenitude; o mundo e aqueles que nele habitam” (Sl 24.1)

Este texto nos dá o foco correto da realidade. Nos mostra que tudo pertence a Deus, e que ao chamarmos algo de “nosso” não tratamos de um caso de “possessão”, mas sim, de uma mordomia em amor. Porque o que tem-nos sido dado é dom. E todo dom só merece e aceita uma única resposta: amor. Amor este que faz com que a gratidão brote como renovo no solo árido do nosso silêncio/solidão. Pois, é lá, onde verdadeiramente todas as coisas, inclusive nós mesmos, recebem o seu real valor.

O verdadeiro amor concede passagem. Liberta. Não embarreira. Mas, permite a partida. Mesmo que lhe doa. Este amor verdadeiro, que é e vem de Deus, toma vulto e consistência no silêncio e na pobreza espiritual de nossa solidão.

Na solidão e silêncio, onde tudo e todos assumem sua verdadeira forma, tomamos consciência de que as pessoas com quem convivemos são indivíduos no seu próprio silêncio, com uma história sendo escrita, com um rumo a ser tomado e uma jornada a ser percorrida. E cabe-nos apenas o respeito e a reverência diante desta individualidade de cada um. Quando conseguimos adentrar neste mundo sagrado da individualidade humana, isso nos é silêncio: nosso, deles e de Deus. Não mais fragmentado, mas, unificado e integrado em todas as coisas.

Assim, quando penetramos e permanecemos na solidão e no silêncio da unidade e da individualidade humanas, já não encaramos nada como perda. Pois, a ninguém possuímos. Mas, sim, como uma saga de amor em que Deus é o próprio autor desta história.

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Depois que escrevi o “Quarto Secreto”, Deus pela sua imensa graça e misericórdia levou-me ao site da “Oração Centrante” onde pus-me a ler acerca desta antiga prática cristã contemplativa.

No final do artigo, encontrei um pequeno texto atribuído a Thomas Merton, grande mestre da contemplação e do silêncio. Nele Merton descreve a oração como uma realidade que transcende ao mero falar ou pensar. Mas, trata-se no seu âmago, de uma total incorporação de todas as coisas de nossa vida numa perspectiva de Deus. Como assim? No considerar que tudo quanto recebemos e desfrutamos, num primeiro momento , sãos dons do Altíssimo os quais devemos receber em e com ações de graças.

Desse jeito, coisas simples como beber água num dia quente de verão ou o observar a beleza multicolorida das flores de um jardim podem tornar-se em momentos de encontro com Deus. Experiências de oração.

Para Merton, na verdade, a oração é algo que integra e entrega todo nosso ser, todas as dimensões de nossa existência, como uma oferta de ações de graças ao Senhor de toda a vida.

Merton ainda afirma que tais momentos muitas das vezes nos passam desapercebidos exatamente porque buscamos sua essência e significados de fora para dentro, ao invés de dentro para fora. A partir de dentro, onde o Ser habita o nosso ser, nos lançando para fora, na direção das realidade criadas, afim de que consideremos e encaremos as mesmas não como objetos de consumo e de possessão nossas, mas verdades sacramentais que nos revelam e nos conectam com Deus.

Bem, deixemos que os amados mesmos tirem suas próprias conclusões. Eis na íntegra o texto que encontrei:

“A oração é algo natural do homem, como falar ou suspirar, ou olhar, ou como latejar do coração enamorado. Na realidade é também uma queixa. Nossa oração não é mais do que estabelecer contato com Deus. É uma comunicação com Deus e não necessita ser com palavras e nem mesmo com a mente. A gente pode se comunicar com o olhar, com o sorriso ou com os suspiros, ou contemplar o céu, ou beber a água.

De fato todos os nossos atos corporais são oração. Nosso corpo formula uma profunda ação de graças em suas entranhas, quando sedento, recebe um copo d’água. Quando, num dia de calor, mergulhamos num rio fresco, toda nossa pele canta o hino de ação de graças ao Criador, ainda que esta seja uma oração irracional, que se faz sem nosso consentimento e às vezes mesmo apesar de nós. O trabalho é uma oração existencial. Deus nos envolve por todas as partes como a atmosfera.

A razão pela qual a gente não costuma experimentar a presença de Deus é porque estamos acostumados a que toda experiência nos venha de fora, e essa experiência é de dentro. Estamos voltados para o exterior, pendentes da sensação de fora e então nos passam inadvertidos os toques e as vozes de dentro”. (Thomas Merton)

Que o Senhor se compraza em abençoar-nos assim: concedendo-nos viver continuamente em sua Presença. Amém!

Paz e bem!

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O segredo do viver silencioso não se encontra tanto no fato de se estar ou não em um ambiente desprovido de sons, barulhos e ruídos.

A grande verdade é que podemos nos encontrar em lugares assim como por exemplo num bosque florido, arvorado, numa manhã em que as folhas das plantas ainda se encontram banhadas pelo orvalho da madrugada anterior, e ainda sim nosso coração estar ruidoso, agitado e oprimido pelas diversas vozes interiores da preocupação, ansiedade e exigências desta vida secular e material.

Oh! Como somos agitados e jogados de um lado para o outro por forças desumanas e desumanizantes que buscam roubar nossa paz. E como nossa alma necessita de uma âncora que nos permita ficarmos estáveis mesmo em meio as águas tumultuadas de nossa existência.

Por outro lado, é verdade inexorável que mesmo em meio ao aglomerado das multidões num centro metropolitano, que caminham no ritmo tirânico dos ponteiros de relógio, flageladas pelos verdugos de suas agendas superlotadas, que desferem seus golpes impiedosos sobre suas almas ao som estridente e altissonante das buzinas dos carros e sirenes de ambulâncias, podemos permanecer numa atitude e experiência de total silêncio interior e quietude de espírito. Voltando-nos para o nosso centro, o nosso EU verdadeiro, criado à imagem de Deus em Cristo, onde Seu Santo Espírito habita e fala conosco.

Talvez não consigamos sempre que desejamos calar e fazer cessar as vozes e ruídos exteriores. Pois, nas maioria das vezes os mesmos não dependem necessariamente de nós. Vivemos num mundo secularizado e barulhento. E desta realidade não podemos fugir. Pelo menos no que diz respeito a uma dimensão física.

Podemos sim, diante do barulho lá fora encontrar o silêncio cá dentro. Em nosso coração. É lá que deve habitar o grande silêncio e a profunda quietude. Mais reais do que quaisquer cessar de ruídos e distrações que este mundo pode nos proporcionar. Deveras um lugar secreto onde nos refugiamos e ficamos a sós com Deus.

Jesus em seu sermão do monte nos ensinou sobre a oração dizendo o seguinte:

“Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.6).

Podemos aplicar este texto numa conotação alegórica, não literal, e compreendermos esta experiência, esta sensação de quietude perene, como um aposento, um quarto secreto dentro de nós, que mesmo em meio ao corre-corre ruidoso de nosso cotidiano, podemos adentrar e permanecer secretamente na presença de Deus.

Pela graça de Cristo tenho podido em alguns momentos repousar neste quarto. Vou tentar descrevê-lo para você. Nele não há mobília: não tem mesas, nem poltronas, nem estantes. E porque seria necessário, visto não ter nada para se expor, nenhum mérito, nenhuma sabedoria prórpria, nenhuma ciência humana? Também não há nada para se guardar, nenhuma coisa que se deva reter. Já que neste aposento silencioso o que prevalece é o desprender-se e o desapegar-se de todas as coisas.

Ah! Lembrei-me. Para não dizer que não tem nada para enfeitar, existe presa na parede uma cruz. Rústica. Talhada em madeira. Não sei… mas, tenho a impressão que ela tem exatamente o meu tamanho.

Neste quarto também não há televisão, nem rádio. É que lá dentro não é permitido quaisquer tipos de distrações. Vozes, barulhos, imagens. Nada disso pode entrrar neste recinto. Janelas também não avisto. Com certeza é para que não entre nenhum Intruso que possa pertubar o que acontece lá dentro. Mas… espere um momento… pareceu-me ouvir uma Voz!

Além da cruz que mencionei, presa na parede, neste lugar secreto existem ainda duas cadeiras. Uma de frente para outra. Numa delas estou sentado. Na outra Aquele que se encontra comigo no secreto deste aposento. Eu não digo uma só palavra. Ele também não.

Apenas nos olhamos. Apenas ficamos sabendo que estamos ambos ali: um na presença do outro. Um saboreando em amor o outro. Um sendo arrebatado em desejos pelo outro. No silêncio desta mútua presença já se diz tudo e já se ouve tudo.

Fixado e atraído por seus olhos penetrantes, me pareceu ver, num relance, que no reflexo dos mesmos se encontrava escrito o porquê de todo o seu desejo de nos encontramos a sós naquele aposento. Tal desejo se soletra numa única palavra: A – M – O – R…

No silêncio deste quarto é que nosso Abba nos convida diariamente, constantemente e ininterruptamente para nos encontramos com ele no meio deste mundo turbulento. E é na perene habitação daquele e na secreta companhia deste que podemos desfrutar de paz, alegria e quietude, jamais imaginadas, em nossos corações.

PS: Ah! Esse quarto tem porta sim. Uma única porta. Com uma única massaneta. E esta fica pelo lado de dentro…

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Vivemos numa época marcada por grandes mudanças de alcance global que impactam não só culturas e economias, mas também à família e à própria Igreja. Uma crise colossal de sentido, desprovida de valores, tem relativizado tudo e todos. Esta sociedade em constante ebulição e mudança se define como pós-moderna, pós-cristã e até pós-humana. Dinheiro e prazer, diversão e ócio são os maiores anseios de muitos. A palavra “compromisso” se fez rara e deu lugar a outras formas de ser e conviver.

Num mundo tão diverso e egocêntrico a liberdade de uns não consegue conviver facilmente com a dos outros. O viver juntos se fez com o passar do tempo numa desventura. Cansamos pronto das coisas e das pessoas e buscamos, sem pudor, escolhas diferentes e pontualmente mais significantes. Essas mudanças radicais acabam com os nossos sonhos melhores. Tudo dura pouco. A busca frenética pelo prazeroso e passageiro deixa de lado responsabilidades assumidas valendo apenas os caprichos do próprio eu.

Qual o valor das palavras e dos gestos? Se tudo é relativo nada é importante e significativo. Contudo, o que fazemos ou não fazemos têm conseqüências psico-sociais, pois não só há leis que regem os relacionamentos humanos, mas também os próprios sentimentos não nos enganam. Sem um cuidado e carinho especiais, nos machucamos e ferimos bastante. A convivência humana é complicada e não são poucos os que precisam de drogas ou fármacos para sobreviver. O resultado é uma imensa dor e solidão.

Ser positivo ou negativo, comunitário ou isolado numa sociedade mutante é opção radical de vida. Sentir-se vencedor ou vencido, fraterno ou inimigo é uma tarefa pessoal intransferível. O crescemos comunitariamente com as nossas dificuldades ou diminuímos egoisticamente. Nada é tão determinante quando as decisões tomadas.

Fazer opções positivas é bom, mas não suficiente. É preciso ter uma atitude existencial diferente e passar do ser servido para o ser servidor. É enxergar mais do que vemos, o belo no feio, por exemplo, e afinar o próprio ouvido para coisas melhores. Quem descobre graça na desgraça e vida além da morte superou a insensatez do experimentados. Luz e treva, crença e descrença não andam muito separados nem distantes de nós, no entanto fixar-nos mais em um ou em outro faz a diferença.

1. Uma descoberta extraordinária. Alguns acham que só podem ser felizes quando não existirem mais problemas na sua vida. Estão redondamente equivocados! É preciso ser felizes no mundo que temos e assim como somos. Por que perder o gosto do conviver por esperar o que nunca virá? Por que não sair ao encontro do outro e fraternalmente ampará-lo?

Conheço um casal de médicos que quiseram adotar uma menina de raça negra e com síndrome de down. Posso assegurar que esse casal e os seus filhos amam imensamente essa criaturinha e se sentem profundamente agraciados por ela. Ser diferente na bondade da um sentido melhor à vida.

Diante do relativismo que nos envolve é preciso uma dose de otimismo e esperança para não perder a perspectiva. As primeiras atrações, encontros e desencontros nos preparam certamente para outros mais fascinantes e encantadores. Só chegaremos ao “mais distante” e espiritual no mais próximo e material. É paradoxal? O Verbo se fez carne e é aqui que o podemos encontrar.

Num piscar de olhos somos selvagens e racionais, coerentes e incoerentes. O progresso milenar dos seres humanos não apagou os instintos mais primitivos, Freud chamou essa realidade de “id” ( Parte inconsciente e sede das pulsões humanas; vive o princípio do prazer), mas a evolução acrescentou outras formas mais evoluídas de ser e conviver baseadas nas decisões melhores tomadas.

Somos capazes do melhor e do pior, amar e odiar, perdoar e gelar… Essas possibilidades fazem parte da própria vida e percebê-las já é uma grande descoberta. Pena que modelos culturais desumanos de inspiração no “super-ego”, legalistas e extremamente radicais, podem abafar o encanto de ser cada um ele mesmo.

Neste “mundo plano” das telas do computador abrem-se possibilidades infinitas para o crescimento dos indivíduos. Se um dia, o nosso ponto de partida foi a superfície da terra, hoje caminhamos para o coração dela. A evolução, com seus saltos qualitativos e diferenciados, nos leva para o Amor.

Resumindo, o infinito e o finito, o mais sublime e o mais limitado cabem misteriosamente no nosso ser. Fixar-se mais em um do que em outro é o mistério dos sábios. Nem o passado ferido, nem o futuro irrealizado devem condicionar o nosso presente. Só o eu remido e cristificado determina experiências melhores.

2. A fuga da realidade. Sentir e saborear plenamente o presente é um mistério que poucos conseguem, por isso alguns preferem ignorá-lo. É mais fácil se refugiar no passado conhecido do que tecer continua e criativamente o presente. Se há uma sedução dos sentidos também há outra, bem maior e melhor, do espírito. Se as propostas dos Epicúreos ( propunha o prazer e a felicidade como ausência da dor ou de outro tipo de aflição) e dos gnósticos antigos foram atraentes, muito mais será a experiência dos místicos que nada rejeitam e tudo aprofundam. O problema não está em valorizar os sentidos ou o conhecimento, mas em perder-se absoltamente neles.

Se há uma mística também pode haver uma “pseudo-mística” alienada e alienante (por suas i déias dualistas e elementos gnósticoc) na história da Igreja : Bogomilos (Bulgária, s. X), Cátaros (França s. XII), Albigenses, Valdenses (s. XII), Beguinas (Bélgica, s. XII) e, hoje, a cabala, o xamanismo, a magia, a teosofia, o espiritismo, a cientologia, etc.. Eis o grande objetivo: encontrar “sentido e significado” no uso dos sentidos e da mente como se fossem sacramentais. O infinito e o mais sublime são percebidos e experimentáveis no finito e no desprezível só quando há amor.

A “experiência espiritual ou mística” (Entendo por mística a experiência direta e pessoal com a divindade, sem a necessidade de manipulações ou intermediários ) feita por pura graça em qualquer situação o ambiente é sempre gratuita e integradora. Podemos nos preparar para a experiência espiritual, mas nunca manipulá-la. A gratuidade é fundamental na vida interpessoal humana e divina: tanto aproveitará em todas as coisas espirituais, quanto sair do seu próprio amor, querer e interesse (EE 189).

3. Místicos e engajados. Nesse imenso e misterioso mundo dos sentidos e da imaginação, das sensações e das intuições podem ocorrer como graça pensamentos e atitudes totalmente abertos e gratuitos, dando um sentido de unidade e significância à existência, abrindo-a em todas as direções: para cima, para baixo, para dentro e para fora.

As experiências espirituais e místicas mostram que não são apenas internas ou “mentais”, mas se concretizam num estilo de vida emocional engajado. Mais ainda, a percepção da realidade tida nos “estados expandidos da consciência” é mais acurada do que a normal e habitual. Por isso, as palavras e atitudes expressadas pelos místicos são sempre profundamente calorosas e comprometidas.

A mística não é, pois, fuga da realidade, mas um adentrar-se nela com maior sensibilidade. Se a irrupção do divino nos sentidos ou na mente é sempre iniciativa divina, é ação humana responder generosamente a ela.

Há uma mística tradicional a “dos olhos fechados”, apofática ( apóphasis= via negativa, pois nada pode definr Deus ), da ausência, Teocêntrica, irmã católica da Gnose, que brota na mente e a ilumina. Mas também há outra, a “dos olhos abertos”, katafática ( katháphasis = via positive, pois as perfeições das criaturasfalam do Criador ), da presença, Cristocêntrica, que ilumina a mente, toca o afeto e chega até as mãos traduzindo-se em gesto de serviço e ajuda. Na primeira, a “dos olhos fechados”, a pessoa se afasta do barulho mundano, esvazia a própria mente e encontra o Tudo no nada. Desaparecem as partes, o espaço e o tempo, e por instantes a pessoa é arrebatada, iluminada e engrandecida. É uma experiência intra-subjetiva, acontecida no próprio sujeito. Mente iluminada, corpo pacificado, espírito extasiado. É a mística mais clássica e tradicional acontecida quando a pessoa, superando os seus limites, se encanta com o divino encontrado. É uma experiência subjetiva da transcendência do Infinito.

A mística “dos olhos abertos” não é menor do que a primeira, pois também é iluminação do coração que se coloca a serviço daqueles que mais precisam. É uma mística de serviço; encontra o invisível no visível e Deus no meio do barulho do mundo. Experimenta-se, pois, um relacionamento íntimo com Deus e com tudo o criado: pessoas e coisas. Inácio de Loyola é um expoente típico desta mística engajada. Nos Exercícios Espirituais leva o exercitante a fazer a experiência do amor verdadeiro que é, ao mesmo tempo, entrega e compromisso. “O amor consiste mais em obras do que em palavras” (EE 230). O amor abre o coração e os olhos, os ouvidos e as mãos para servir o diferente. Neste agir fraterno há uma comunhão misteriosa entre o exterior e mundano visto e o interior e divino percebido.

“Ajudar”, “servir”,“partilhar”, verbos pouco usados, podem se transformar em espaços de uma experiência mística incrível. Fazer filantropia é dar do que sobra; ser justo é dar a cada um a parte que lhe corresponde, mas ser místico é dar-se e partilhar o que se é e tem com os mais necessitados. Quando a mente entende, se ilumina; quando o coração ama, se apaixona e serve. É na clareza da mente e na paixão do coração que encontramos sentido e significado. Realmente quem ama não cansa nem descansa!

No estado normal de consciência nos identificamos apenas com uma pequena parte do que somos e fazemos, mas quando compartimos e nos damos, os limites da mente e do coração se expandem até entrar em comunhão com o Criador e o criado. Satisfazendo as nossas necessidades experimentamos a nossa humanidade, mas quando satisfazemos gratuitamente as necessidades dos outros participamos da própria divindade! Recusamos, pois, um espiritualismo desencarnado como um ativismo secularizado.

Oxalá sejamos místicos e engajados e não uma coisa ou outra, pois só a mística nos tira do nosso autismo primitivo e nos aproxima dos outros e do Outro. Parafraseando Adélia Prado: “Tudo o que sinto, vejo, escuto e toco esbarra quase sempre em Deus…

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J. Ramón F. de la Cigoña

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“Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim (…) Portanto está alegre o                           meu coração”                                                             (Sl 16:8, 9)

O estilo de vida que adotamos fala muito em relação à realidade de quem somos. Ele revela nossos anseios e desejos; nossas espectativas e frustrações. No nosso estilo de vida repousa uma gama muito extensa de experiências que vivemos, palavras que nos foram direcionadas, sonhos os quais não conseguimos trazer à existência. Devemos ainda levar em consideração a carga genética e as predisposições congênitas de comportamento as quais herdamos diretamente de nossos avós e pais.

De uma forma ou de outra todos são formados interiormente à imagem de toda esta bagagem emocional, social e hereditária. E tudo se traduz numa forma de comportamento a qual chamamos de estilo de vida.

Assim, quando consideramos toda a formação que recebemos como fruto destas experiências pessoais, como cristãos, percebemos a necessidade de transformação que nos capacite a nos enquadrar num novo estilo de vida.

A experiência com Cristo conduz-nos a uma nova dimensão comportamental caracterizada por um abandonar das coisas antigas e um abrir-se para o novo de Deus (cf. 2Co 5:17).

Desse jeito é necessário que encaremos a comunhão com Deus como parte integrante, integradora e determinante de um novo estilo de vida a que temos acesso por intermédio de Seu Santo Espírito: um estilo de vida contemplativo.

Este estilo de vida quebra de vez com o estereótipo reducionista de que a vida com Deus, o andar no Espírito, a experiência da presença do Totalmente Outro, é algo a que se tem acesso apenas entre as quatro paredes de uma igreja ou em meio à clausura de um monastério.

Um estilo de vida caracterizado pela contemplação resulta numa nova percepção e experimentação das possibilidades do Sagrado e da beleza inata das coisas efêmeras. Liberta-nos da distração e desatenção. Isso é bem retratado nas palavras de Elizabeth B. Browning:

“A terra está repleta do céu.

E cada sarça comum ardente por causa de Deus.

Mas somente quem percebe tira as sandálias.

O restante se assenta ao redor colhendo amoras”

Um estilo de vida contemplativo é aquele que aguça a nossa percepção de que céu e terra se conectam de forma misteriosa. Que há uma beleza a mais numa ávore comum além do simples prazer de colher uma fruta madurada. Que este mundo está embuído e permeado pela glória dAquele que emana e transcende todas as coisas.

Esta forma de viver nos permite usufruir uma espiritualidade holística que inclui todas as coisas, poupando-nos, desta forma, de uma vida espiritual fragmentada, aprisionada em meio ao pensamento dicotômico de sagrado e profano; espiritual e secular. Como diz Ed Renê Kivitz não podemos considerar a Deus sem também levar em consideração o pardal, a palmeira, a montanha etc.

Este estilo de vida é o estilo de vida dos grandes místicos que aprenderam a perceber e a praticar a presença de Deus. Que descobriram o segredo de orar incessantemente e o duçor da comunhão constante e ininterrupta com Cristo.

Agora, de que forma podemos nos engajar neste estilo de vida ébrio de mistério e de Deus? A seguir compartilho algumas das principais práticas que têm acompanhado o viver contemplativo no decorrer da história cristã:

1. A Prática da Oração do Coração – Conhecida também como a oração de Jesus. Consiste na invocação do nome bendito do Senhor numa fórmula orante “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim, pecador!” O propósito desta oração é entrar no descando e quietude interiores.

Esta fórmula tem tudo o que uma oração exige: Reconhece-se o Senhorio e divindade de Cristo (Senhor Jesus Cristo) ao mesmo tempo em que se reconhece nossa pecaminosidade e consequênte dependência da misericórdia divina (tem piedade de mim, pecador).

Podemos, praticá-la caminhado na rua, dentro do ônibus indo para o trabalho ou quem sabe enquanto realizamos nossas tarefas domésticas.

2. A Meditação Ruminatória – A princípio este nome pode-nos parecer estranho. Creio que isso acontece porque não estamos familiarizados com o que significa meditar. Acreditamos que ler cinco ou seis capítulos da Bíblia por dia, passando batido por eles significa que meditamos nas Escrituras. è verdade que o meditar passa pela leitura. Contudo, nem toda leitura bíblica que fazemos necessariamente significa que também meditamos.

A palavra hebraica “haga” significa murmurar a meia voz mexendo os lábios; repetir. Deste significado vem a idéia de “ruminar” ou “mastigar” a Palavra. Como se dá isso? No momento de sua leitura bìblica – e aqui sugerimos não uma leitura longa de capítulos, mas, de proções pequenas, quem sabe apenas um versículo – escolha uma palavra, uma frase ou um verso inteiro que tenha tocado seu coração. Repita-o em voz baixa em atitude de oração. Quem sabe, se você preferir, você pode escrever este verso num pedaço de papel e levá-lo consigo. Assim quando desejar repetir não correrá o risco de esquecer o texto.

Este exercício nos ajuda a continuamente mantermos nossa atenção naquilo que Deus falou-nos ao coração enquanto o Espírito Santo faz com que a verdade da Palavra de Deus crie raizes em nossa alma. Deste jeito teremos o Senhor continuamente diante de nós. Pela lembrança contínua de sua Palavra.

3. O Convite a Jesus – Uma outra forma de vivermos um estilo de vida contemplativo é aquilo que denominei de convite a Jesus. Seria a prática de tornar o Senhor participativo de tudo quanto nos fizermos durante nosso dia. Devemos ter em mente que Cristo nos ama, e por causa disso, deseja fazer parte de tudo que se relaciona conosco.

Não existe nada trivial relacionado a nós que ele não se importe. Em Pv 3: 5, 6 nos diz – “Confia no Senhor de todo o teu coração (…). Reconhece-o em todos os teus caminhos (…)”. A grande verdade é que quando amamos alguém, confiamos nesse alguém. E por confiarmos convidamos este alguém para ser parte integrante de nosso viver.

Para que possamos ter uma idéia do que seja isso, Frank Laubach nos descreve sua experiência de convidar a Cristo para participar das coisas comuns do seu dia-a-dia. na carta para seu pai em Janeiro de 1930 assim ele diz:

“Nos últimos dias, minha experiência de entrega tem sido mais completa do que nunca. Estou reservando, por vontade própria, um tempo suficiente a cada hora para refletir sobre Deus. Ontem e hoje, realizei uma nova aventura, que não é fácil de ser relatada. Estou sentindo Deus em cada movimento, por um ato de vontade – ansioso para que Ele dirija estes dedos que agora batem nesta máquina de escrever – ansioso para que ele flua por meio de meus passos enquanto caminho – ansioso para que ele controle minhas palavras enquanto falo, minha boca enquanto me alimento”.

A exemplo de Laubach podemos fazer o mesmo. Não é nada de extraordinário no seu sentido restrito. Por exemplo enquanto você estiver tomando seu café você pode dizer para Deus: “Que delícia de café, Senhor! Obrigado pela oportunidade de saborear um café tão delicioso”. Quando você estiver caminhando na rua você pode dizer para Cristo: “Senhor Jesus, guia agora as minhas pernas enquanto caminho”. Em relação ao perigo das tentações vizuais você poderá orar: “Senhor, toma estes olhos em tuas mãos. Guia-os para que eles não se desviem para o mal”. No seu trabalho a coisa pode acontecer assim: “Jesus, ajuda-me a montar esta planilha eletrônica” ou ” Senhor, dá-me atenção para que eu não erre nestes cálculos”. Se for serviço de rua: “Deus, em meio aos perigos desta cidade, guarda-me enquanto caminho por esta rua; avenida” etc. Se você lida com o público pode ser assim: “Senhor, dá-me paciência afim de que eu possa conceder um atendimento com qualidade”. Se for em casa, nas tarefas domésticas: “Jesus, sê com meus braços enquanto varro esta sala; enquanto lavo estas roupas; enquanto tiro este pó”.

As possibilidades são inesgotáveis desde o momento em que nos convencemos de que Jesus tem prazer em participar das nuances do nosso cotidiano.

4. A Prática das Disciplinas Espirituais – Na história dos grandes místicos e contemplativos do passado, a presença da ascese era algo comum nas suas vidas.

Ascese é um termo grego comum que significa simplesmente “treinamento”. Logo, o que seriam as disciplinas espirituais? São atividades que treinam o nosso corpo e alma para que a vida de Deus possa acontecer em nós. Elas nos colocam numa posição tal em que o Espírito Santo possa nos transformar, formando a imagem de Jesus no nosso eu interior.

São muitas e diversas estas disciplinas espirituais: jejum, oração, clebração, serviço, confissão, silêncio, solitude, meditação etc.

Gostaria de me ater a duas delas, pois, o espaço não me permite prolongar. Consideremos o silêncio e a solitude. Estas duas disciplinas caminham de mãos dadas, geralmente. No silêncio eu busco calar as vozes exteriores e interiores para retornar ao meu centro, onde o Espírito de Deus habita para, assim, poder ouvir a sua voz. Na solitude procuro me esquivar das aglomerações humana para poder estar a sós comigo mesmo e com Deus.

Quando estudamos acerca destas duas disciplinas descobrimos que as mesmas, juntamente com a lectio divina, ou leitura orante das Escrituras, ocupavam um lugar central nas atividades ascéticas da vida monástica.

Logo, quando temos acesso a estas informações, questionamos: “mas, não somos monges e nem vivemos na época que eles viviam. Então, não podemos praticar estas disciplinas espirituais?” A resposta é simples: É claro que podemos.

Nosso grande desafio, então, constitui em conseguirmos incorporar na nossa rotina corrida de vida pós-moderna estas atividades espirituais. De que maneira:

4.1. Estabelecendo momentos e períodos de silêncio. Podemos falar de momentos de silncio como por exemplo no seu período devocional separando parte dele para colocar-se em silêncio diante de Deus. Quem sabe pode-se começar com dez minutos e ir aumentando gradativamente.

Podemos ainda considerar dias de silêncio. Como por exemplo num feriado prolongado que começa numa quinta.

Podemos também considerar uma semana de silêncio, ou um mês de silêncio. Isso acontece no período de férias onde você pode viajar para um lugar reservado comoa casa de praia de um amigo ou uma aconchegante pousada serrana.

4.2. Estabelecendo momentos e períodos de solitude. Seu momento devocional onde você praticará o silêncio deve, se possível, ser num lugar reservado onde ninguém lhe pertube. Um quarto de porta fechada, ou num jardim debaixo de uma ávore. O importante é que você possa ficar a sós com Deus.

Também você pode reservar na sua casa um “cantinho da solidão” e combinar com a família que sempre que você estiver lá significa que deseja ficar sozinho. Pode ser um cadeira, ou uma poltrona ou até mesmo um local da casa. Vale aqui a criatividade.

A questão de dias, semanas e meses de solitude se aplicam as mesmas idéias que tratamos acima para o silêncio.

Quem sabe você também possa empreender uma caminhada num local com bastante árvores e flores e lá estar a sós e em silêncio saboreando a presença Deus e observando com mais atenção a natureza que nos revela, como sacramento, a majestade e a glória do Criador.

Existem muitos outras práticas contemplativas. A medida que colocarmos estas em prática o próprio Deus irá nos mostrar outras maneiras de andarmos continuamente em sua presença.

Por fim desejo dizer que apesar destas práticas terem caracterizado a peregrinação espiritual de homens e mulheres de tradição contemplativa ao longo dos séculos, estas, contudo, não são o ponto central de sua espiritualidade.

O que essencialmente define um estilo de vida contemplativo é um viver encharcado por amor: amor de Deus; amor a Deus e amor ao próximos.

Amor este cuja base é o amor do Pai revelado no Filho o qual deu a própria vida para nos resgatar. Por isso o amor de Jesus não apenas nos introduziu na vida contemplativa como também a sustenta e alimenta.

Não há vida contemplativa fora do amor de Cristo. Thomas Merton escreve com grande discernimento acerca disso:

“Não há verdadeira vida espiritual fora do amor de Cristo. Temos uma vida espiritual unicamente porque ele nos ama”.

E vivendo na dinâmica deste amor sublime podemos, como canais, espalhar sua glória estando em sua presença com o coração cheio da alegria dos céus.


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