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Archive for maio \23\UTC 2009

Ao que tudo indica, estas duas palavras tão comuns do nosso vocabulário, por algum motivo, largaram-se as mãos e se divorciaram radicalmente. Necessitamos com urgência reconciliá-las em nossa espiritualidade cristã, se verdadeiramente desejamos mergulhar nas profundezas ainda inexploradas das riquezas divinas.

Desde o momento em que houve a ruptura entre mente e afetos; razão e emoções, ao que tudo indica, as Escrituras começaram a ser encaradas como objeto de investigação acadêmica. Como resultado disso vimos emergir uma teologia intelectualizada, hoje, incapaz de fazer arder em chamas o coração humano. Lê-se a Bíblia com o intuito apenas de se reunir o maior número possível de informações doutrinárias, as quais são expostas nas salas de aula de instituições de ensino cristãs e dos púlpitos de comunidades de adoração com o propósito de unicamente informar as pessoas.

Sendo assim, acabamos por presencia um grande número de cristãos bem instruídos intelectualmente, sem que com isso tenham suas vidas transformadas. Parece-nos que Bíblia e caráter em constante transformação e conversão são duas realidades que hoje em dia tem pouca o quase nenhuma ligação.

A leitura da Palavra de Deus deixou de ser uma experiência do coração que nos atinge mediante uma obra da graça, para deturpar-se numa mera peripécia intelectual de quem a lê. Somos alcançados em nossa mente, contudo, nosso coração permanece intacto. E, consequentemente, nossa vida não transfigurada numa beleza cristificada.

Eis que exércitos inteiros de intelectuais, ébridos em suas próprias jactâncias, exibindo o estandarte de seus títulos acadêmicos avançam rumo às Escrituras para analisá-las, dissecá-las, dominá-las e desvendar seus mistérios que nem homens como João, Pedro e Paulo o fizeram. “Tenho meu Phd; consegui meu Thd”, advogam e se autojustificam os mesmos.

Diante disso, acredito que se desejamos mesmo colocar-nos perante a Bíblia como os primeiros cristãos faziam, faz-se necessários tirarmos as sandálias de nosso orgulho e arrogância intelectuais e nos ajoelhar humildemente sabendo que nos encontramos caminhando em solo sagrado. A sarça ainda arde sem se consumir nas páginas do Livro, o que nos abre a possibilidade de um encontro real e pessoal com o Deus que nos conhece e nos chama pelo nome.

“E, vendo o Senhor que ele se aproximava para ver, chamou-o do meio da sarça: Moisés, Moisés! E ele respondeu: Estou aqui”

Bíblia e encontro. Para que isso nos seja novamente possível; para que haja esta reconciliação, necessitamos primeiramente nos achegar da forma e com uma atitude correta diante das Escrituras. Precisamos, de uma vez por todas, decidir: o que queremos ser? Teólogos, acadêmicos dissecadores ou filhos apaixonados de um Pai amoroso e amigo? Nossa escolha determinará diretamente a forma como lemos e a motivação pela qual nos achegamos à Bíblia. O que queremos ser? De que jeito desejamos ler?

Acredito que uma das formas de reavermos o encontro com Deus através da Palavra, encontro este que atinja o coração e não apenas a mente, com isso gerando transformação de vida, é resgatando uma tradição contemplativa de meditação chamada de Lectio Divina. Esta forma de ler as Escrituras remonta desde os primórdios do judaísmo. Foi sistematizada no século XII por Guigo II, um monge cartuxo. Não obstante, se tem notícias que antes mesmo disso a essência deste método já se configurava como a forma como os primeiros cristãos buscavam seu alimento espiritual nas Escrituras.

Guigo definiu este método de leitura na forma de uma escada de quatro degraus, a saber: leitura; meditação; oração e contemplação. Tendo como meta principal o encontro pessoal com o Cristo vivo que habita o nosso eu interior. O método é tão simples que todos podem praticá-lo.

Primeiramente, antes de tudo, é necessário colocar-nos numa atitude de escuta e numa expectativa de encontro. É muito pertinente nesse sentido colocar-nos em silêncio como preparação que antecede a leitura. E por que o silêncio? Pelo menos por dois motivos: Um deles é para fazer calar as múltiplas vozes interiores que acabam abafando e disputando nossa atenção e com isso impedindo-nos de ouvir a voz de Deus em nós. É um momento não apenas para silenciar palavras, mas , também, para apaziguar o coração.

A segunda razão deste período de silêncio antes da leitura é para nos preparar para escutar. A Escritura diz “O homem seja pronto para ouvir; tardio para falar…”. Escutamos mal porque falamos demais. Nossa tagarelice acaba por nos impedir de ouvir o que Deus tem a nos dizer. O silêncio nos ajuda a corrigir este tipo de desvio. E prepara nosso mundo interior para ser invadido e arrebatado pela Palavra divina.

O degrau seguinte é a leitura do texto em si. Recomenda-se a escolha de um texto curto e não de capítulos inteiros. Devemos sempre nos lembrar que o intuito é o de um encontro com Deus e não o de colher informações. Como deve ser feita esta leitura? Esta leitura deve ser reverente. Numa atitude de temor, deslumbramento e adoração nos achegamos ao texto sabendo que se trata da Palavra de Deus e não dos homens. Esta leitura também deve ser atenta. Sem distrações e sem interrupções. A leitura também precisa ser lenta. Sem pressa, sem passar batido, sem correr. Cada palavra precisa ser saboreada devagar. Leia pelo menos três vezes o texto. Por fim, a leitura precisa ser audível. E isso tem uma razão de ser. Já foi comprovado cientificamente que aquilo que nós lemos vai direto para o nosso cérebro, perpassando por movimentos intelectuais de nossa mente e lá ficando. Enquanto que, por outro lado, tudo quanto ouvimos vai direto para o coração, tocando nossas emoções e despertando nossos afetos.

“Ouve, ó Israel…” (Dt 6:4)

“Quem tem ouvidos para ouvir que ouça…”

Acontecerá num determinado momento que uma simples palavra, ou sentença no texto todo, capture a nossa atenção. Intuitivamente, perceberemos que aquilo é conosco. Então, paramos e nos detemos nesta palavra permitindo, com isso, que a mesma reverbere em nosso coração. Aqui começamos a subir o próximo degrau que é a meditação. É quando o texto ganha vida da parte de Deus para nós. Neste momento devemos personificá-lo, tomá-lo para nós. Pode ser útil também o uso de nossa imaginação ao nos ver sentido o frescor do vento, o cheiro salgado do mar, o murmurar da multidão ao redor de Jesus etc.

Todo mover, de qualquer tipo, gera uma reação. Este mover interior do texto que vai nos invadindo e nos trazendo a Palavra de Deus gera uma reação, impulso espiritual. Entramos no terceiro degrau da escada, a oração. Dependendo do que Deus nos falou através do texto isso vai gerar adoração, louvor, ações de graças, petição, intercessão ou confissão. Trata-se de um movimento conduzido pelo Espírito Santo.

Finalmente, subimos o último degrau da escada, degrau este que nos leva ao topo, ao encontro pessoal em si com Deus. Chamamos esta experiência de contemplação. A união mística da alma com o Totalmente Outro, o Deus Triúno: Pai, Filho e Espírito Santo. É difícil descrevê-la. Nem os grandes mestres devocionais da tradição cristã o conseguiram. Cabe aqui algumas metáforas que podem ajudar a elucidar seu significado:

” Um descanso” em Deus”

“Um olhar amoroso” para Deus

“Um conhecimento além do conhecimento”

Uma atenção extática” para Deus

“Um abraço de amor silencioso

Acerca da dificuldade inerente de se definir esta experiência, Thelma Hall no seu ótimo livro “Lectio Divina, o que é, como se faz”, nos diz o seguinte:

“Todas estas tentativas de verbalizar a experiência necessariamente falham em expressar a realidade, pela simples razão de que a contemplação transcende o pensamento e o raciocínio da meditação, assim como as emoções e ‘sentimentos’ das faculdades afetivas. Ela é, basicamente, uma oração e experiência de pura fé.”

Não só de pura fé, mas, de uma obra de inteira dependência da graça divina. Não somos nós que contemplamos. Deus é quem nos concede a contemplação. É Deus removendo o véu de sobre nossos olhos e dizendo: “Veja, eu estou aqui!”

A contemplação é o emudecer diante dAquele cuja presença se faz. É um estar com Deus e em Deus, longe dos labirintos das imagens mentais e livre dos pensamentos humanos vazios. Não trata-se da busca de sensações, visões ou quaisquer tipos de experiências místicas, apesar de que as mesmas podem ou não acontecer. Contemplação é o perceber, num relance, que Deus está, acolher esta presença querida e nela descansar e permanecer. Sem palavras, sem pensamentos. Só sentimentos, silêncio e assombro.

Nos achegarmos assim à Bíblia, nos levando a um encontro com Deus, fará de nós pessoas melhores. Cristãos melhores. Porque aquela promoverá mudança de dentro para fora. Nos estimulando e nos capacitando a vivenciar o mistério da encarnação: “a saber , Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1:27).

Tereza de Ávila escreveu:

“Toda a mística que se batize de cristã tem de cristalizar numa contemplação de Cristo e numa vontade de encarnar sua vida”.

Que os anjos de Deus em coro digam: Amém!!! E nós também.

Que a Bíblia seja para nós boca de Deus. E que, ao abri-la, sejamos levados ao encontro dAquele que habita no mistério e fulgor de luz inaxecível. O Deus revelatus mas que permanece absconditus em sua identidade mais essencial.

“Mas agora, assim diz o Senhor que te criou, ó Jacó, e que te formou, ó Israel: Não temas, porque eu te salvei. Chamei-te pelo teu nome; tu és meu.(…) Visto que és precioso aos meus olhos e digno de honra, e porque eu te amo, darei pessoas por ti e os povos pela tua vida” (Is 43:1,4)

Que palavras maravilhosas essas. Não seria uma grande tragédia elas permanecerem apenas em nossa mente sem que desça para o coração?


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AMAR A DEUS

O prazer tem se tornado um Deus para o homem ao longo de sua história. Muitos achariam que esta afirmativa cabe á questão do dinheiro. Mas, por que as pessoas correm tanto atrás de dinheiro, se não para satisfazer seus desejos egóicos de consumo materialista? Podemos, rodar e rodar, transitando por inúmeras razões, todavia, todas nos conduzirão a um só mesmo lugar: o desejo frenético pela autosatisfação.

Desde a chamada “liberação sexual” nos anos de 1960, culminando com o pensamento pós-moderno autônomo, as pessoas têm sacrificado suas próprias almas, esquartejando-as e afastando-as do Criador, sobre o altar do hedonismo. Prazer, prazer e mais prazer é o que importa; é o que se tem que buscar veementemente.

Os arautos de tão sórdido cativeiro existencial têm alçado suas vozes e seduzido a muitos com suas ideologias enganosas: “Ouça a voz do seu coração”; “O que importa é ser feliz a qualquer custo”. E por aí vai. E o que temos presenciado por aí é que o preço a ser pago pela tal “felicidade” é deveras dispendioso e dolorido.

O fato é que o homem de hoje, não é capaz de ver um palmo de realidade fora de sua ótica pessoal, tendo seus olhos famintos fitos, inexoravelmente, no próprio umbigo. Amores, amizades, pessoas, famílias, relacionamentos: tudo e todos são passados por cima em nome de se alcançar desejos pessoais egoísticos.

Em verdade, a máxima tem se comprovado verdadeira: coisas têm sido amadas e pessoas usadas. Quando o contrário é que deveria acontecer. Contudo, a busca enlouquecida pela satisfação imediata, tem subtraído a cada dia mais dos seres humanos o senso da dignidade e santidade inerentes ao próximo. Com as lentes desfocadas e opacas do hedonismo, torna-se impossível enxergar o Sagrado no outro. Nada se vê além de si mesmo.

Vivemos numa sociedade egoísta, consequência direta do culto humano ao prazer próprio. E a cristandade que deveria salgar e iluminar as trevas de tão infame estilo de vida, tem perdido seu sabor e sua luz. Sendo, assim, atirada fora e pisoteada pelos homens.

O advento do pensamento positivista que ensina o determinar e o exigir de Deus a bênção e/ou o cumprimento de suas promessas, tem trazido para o meio do arraial de Seu povo a maldição antiga do “bezerro de ouro”. A funesta teologia da prosperidade que com seus versículos extraídos fora de seu contexto no Velho Testamento, tem levado milhares de pessoas ao arrombamento de suas vidas financeiras e, não poucas vezes, familiares também.

Enquanto isso, o “bezerro” agradece o espaço que lhe dão, e faz a farra na vida de muitos que ignoram as leis básicas da hermenêutica e exegese bíblicas, tornando-se assim alvos fáceis para a manipulação sórdida e maligna de homens mal intencionados e inescrupulosos. Lobos em pele de ovelhas. Prontos para devorar…

“E Arão lhes disse: tirai os brincos de ouro das orelhas de vossas mulheres, de vossos filhos e de vossas filhas, e trazei-os aqui (…) Ele os recebeu de suas mãos e deu forma ao ouro com um cinzel, fazendo dele um bezerro” (Gn 32:2,4)

Eu quase que posso ouvir a paráfrase dos atuais sacerdotes hedonistas: “Dê R$ 1.000,00 de oferta e receba de Deus R$ 10.000,00!”; “Dê o dízimo da quantia que deseja receber de Deus”; “Compre água do rio Jordão para…”; “Pedrinha do rio Jordão…”; “Lasca da cruz de Cristo…”; “ore seu copo com água e…”. Tragicamente desonestidade e superstição têm maculado a fé cristã nestes dias.

Talvez você, estimado leitor, esteja se perguntando: “Mas isso não é tendência destes grandes ministérios? Isso não acontece com gente ‘ comum’ como eu”. Será mesmo? A realidade da fé de resultados, utilitarista é algo que se insinua de forma multifacetada na ala ordinária das fileiras cristãs.

Alguns fatos podem elucidar esta tese. Uma primeira coisa a que deveríamos atentar é o tipo de música que é entoada em nossas igrejas. Se observarmos bem, veremos que de umas décadas para cá, uma avalanche de cânticos têm invadido a hinologia cristã. Até aí não haveria problemas. Acredito que os filhos e filhas de Deus devem compor músicas para a glória de Deus. “A glória de Deus!?!?” Será que não está aí exatamente o âmago de toda a problemática? Porque glória para Deus não tem sido a tõnica dominate nestes hinos contemporâneos. A maioria dos mesmos são fundamentados em textos do Velho Testamento removidos do seu contexto. Geralmente promessas que o Senhor fez a Israel e que não se aplicam a igreja. Nestas músicas Deus é apresentado como um pouco mais do que um servo do homem obrigado a cumprir aquilo que prometeu.

Os assuntos são variados, girando desde a vitória sobre os inimigos até prosperidade material e proezas financeiras (para não dizer loucuras). Ao mesmo tempo temos visto praticamente sumir de nossas celebrações músicas que tão somente exaltam a Deus pelo simples fato de quem Ele é e não por aquilo que Ele pode me dar. Se não soubermos louvar a Deus incondicionalmente, nossa adoração não passará de mera barganha dissimulada. Será tão difícil assim louvar, glorificar, adorar ao Senhor, simplesmente porque o amamos?

Uma outra coisa a se considerar é a questão da leitura da Bíblia. Tragicamente para muitos, a Palavra de Deus deixou de ser um meio para um encontro intersubjetivo, e tornou-se um mero compêndio onde posso encontrar orientações sobre diversos assuntos relacionados a vida. A Bíblia transformou-se num livro de autoajuda ao invés de uma carta de amor de um Deus que é apaixonado pela humanidade e desejoso de estabelecer vínculos de intimidade conosco. Não se lê mais as Escrituras movido pelo impulso interior de ouvir a voz do Amado, sussurrando nosso nome nos recônditos secretos de nossa alma. Para muitos ler a Bíblia não significa mais ter um encontro pessoal, real e afetivo com Deus e sim uma busca por orientações de como se viver uma vida melhor. Até mesmo nossa obediência é posta em termos dos benefícios que podemos angariar com isso. Será tão difícil assim ler a Bíblia para se ouvir a voz de Deus, para ser ter um encontro pessoal com Ele, simplesmente porque o amamos e desejamos lhe agradar?

Uma última coisa está relacionada com nossas orações. Você já percebeu que grande parte do que apresentamos a Deus como preces são pedidos e mais pedidos? Não estou com isso querendo dizer que não devemos suplicar ou interceder. Estou apenas chamando a atenção para um fato concreto: que grande parte de nosso tempo de oração é gasto com intermináveis pedidos. Já não sabemos o que significa orar a Deus ao modo de um encontro. Desconhecemos completamente o que significa nos colocar a sós perante a face do totalmente Outro. Estranhamos quando alguém nos diz que podemos orar sem palavras, quando em silêncio nos apercebemos da Presença, e, em atitude receptiva, acolhemo-na e descansamos nela.

Deus é encarado por muitos como uma espécie de gênio da garrafa ou um chefe de almoxarifado pronto a atender a todos os nossos desejos egoístas, mesquinhos e mimados. Poucos são os que realmente conhecem e experimentam o significado de apenas estar e ficar com Deus, saboreando e deleitando-se no Seu amor e amizade. Será tão difícil assim orar para se estar com Deus, para se desfrutar de Sua presença amiga, simplesmente porque estamos enfermos de amor?

“(…)amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração(…)”

Estas são as palavras evangélicas. Que possamos refletir sobre elas e, destituindo o usurpador hedonismo, amar a Deus com profundeza de alma, alegria e simplicidade.

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O tema da espiritualidade é algo em voga na vida cristã nestes últimos anos. Temos presenciado um verdadeiro “avivamento” deste assunto em nosso meio evangélico. São vários os motivos que podemos considerar como sendo os causadores desta corrida rumo às práticas espirituais antigas. E um deles, quem sabe um dos principais, é o cansaço que a religião institucional e o cristianismo dogmático têm causado na vida espiritual de inúmeras pessoas.

Algum tempo atrás li um livro cujo subtítulo dizia “Sou Cristão Apesar da Igreja”. Num primeiro momento, palavras como estas podem nos assustar, porém, começamos a entender a veracidade e profundidade desta frase, quando enxergamos os tesouros espirituais que a instituição igreja nos usurpou ao longo dos anos de história. Esta frase bombástica perde muito do seu poder de explosão, quando enxergamos o grande número de pessoas que tiveram suas vidas lançadas na aridez de um deserto de religiosidade, imposto pela igreja.

Dentre muitos dos tesouros usurpados, um dos mais valiosos foi a consciência de que Deus não tem limitações no que tange aos locais e as formas de se revelar a nós. Nos dias de hoje acredita-se que o local de se ter um encontro com Deus é entre as quatro paredes que nós erroneamente chamamos de igreja. Ou seja, para que alguém tenha um encontro com Deus, é imprescindível que se vá a uma “igreja” evangélica, seja qual dia for. Esta concepção rouba qualquer precedência de Deus se revelar fora das fronteiras de um templo. Despreza-se, então, o fato de que Deus é espírito (pneuma = sopro) e espírito, sendo substância energética incorpórea, não pode ser confinado em quaisquer tipo de estruturas humanas.

Dentro desta mesma linha, também perdeu-se de vista que Deus pode usar a quem ele desejar para se comunicar conosco: desde uma mula, até mesmo uma pessoa que não seja do mesmo credo que o nosso. O grande erro é que fomos ensinados que Deus só usa os cristãos evangélicos. E por causa deste paradigma infundado, acabamos por desperdiçar muito do conteúdo e da multiforme comunicação divina.

Existem outros que simplesmente rechaçaram a cultura, como se tudo o que o homem produzisse em termos de arte, fosse maligno. Para estes é como se a escultura, o teatro, a música etc., tivessem a assinatura de Satanás embaixo. Por causa desta posição equivocada, temos muitos cristãos vivendo uma vida bitolada e alienada à sua realidade, como se o fato de ouvir uma música secular, fosse sinal de carnalidade (claro, há músicas e músicas certamente…!).

Assim, a resposta para esta crise de aridez na vida cristã é o retorno a uma espiritualidade que emerge de nosso cotidiano; das coisas ordinárias do nosso dia-a-dia. De uma vez por todas, devemos nos desvencilhar, o mais rápido possível, desta falsa “espiritualidade de templo”, desta “espiritualidade evangélica exclusivista” e da “espiritualidade de alienação”, que há muito têm nos roubado todo o nosso viço espiritual.

Carecemos de uma espiritualidade que nos torne mais humanos. Um jeito de cultivar a vida com Deus que não nos afaste do nosso próximo e nem das coisas do cotidiano.

Precisamos resgatar a espiritualidade que surge dos milhares de pequenos momento de nossa vida. Temos que voltar a desfrutar do amor e da graça de Deus trazidos a nós no ordinário e efêmero. Precisamos reaprender a encontrar a Deus nas coisas simples da vida como uma refeição com amigos queridos, ou num jogo de futebol, para o nosso lazer, com aquela turma que tanto apreciamos.

Jamais poderemos ter uma espiritualidade que considera a Deus seriamente, mas que não leva em consideração, do mesmo modo, o pardal, a árvore, a chuva… A verdadeira espiritualidade é aquela que nos ajuda a resgatarmos a nossa humanidade, levando-nos a integração total do nosso relacionamento com Deus com a nossa vida no cotidiano: trabalho, família, igreja, engarrafamento de trânsito, pneu furado na Avenida Brasil, choro de criança na madrugada, noites mal dormidas . . . etc. e etc.

Também necessitamos de uma espiritualidade que nos faça olhar de uma forma diferente para cada ser humano, com mais reverência, e um pouco mais de respeito. Reconhecendo a dignidade desta criatura chamada homem, que apesar da distorção causada pelo pecado, possui o selo honroso da imagem e semelhança de seu Criador, estampado na alma. E que a apreciação da arte e da poesia que emergem de dentro delas, são oportunidades de um encontro com a semente eterna, a qual está plantada no coração de cada um. A verdadeira espiritualidade nos dará uma nova visão da vida! A verdadeira espiritualidade sacraliza a vida!

Que o caminho para fora da aridez do deserto, conquanto seja árduo, possa ser trilhado por cada um de nós. Tendo a certeza de que logo ali à frente, um oásis nos espera, afim de que possamos aquietar nossas almas e saciar toda a sede que temos de Deus, junto às águas frescas e cristalinas de uma espiritualidade que nos torne a cada dia mais humanos.

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SORRISO DE DEUS

Deus sorri. Isso já é uma grande coisa. Todavia, quando consideramos o fato de que Deus sorri para nós, ai já é algo maravilhoso.

“Que é o homem para que te lembres dele; e o filho do homem para que o visites?”, indagou o salmista.

Contudo, nos assombramos diante desta verdade: Deus sorri para nós. O sorriso de Deus é sua própria alegria a invadir nossa alma. É o primeiro raio de sol a rasgar as densas trevas da madrugada. É brisa a refrescar nosso corpo, castigado pelo calor do dia.

É agua fresca que sacia nossa sede. Alimento que aplaca nossa fome. É o amor que renova as esperanças em nossos corações fatigados.

O sorriso de Deus é o seu favor para conosco. É sua bondade inescrutável que se traduz em misericórdia e graça dispensadas a nós.

Muitos ao longo dos tempos experimentaram e têm experimentado o sorriso amoroso e compassivo do nosso Deus: Moisés na travessia do Mar Vermelho; Elias sendo sustentado pelos corvos; Jonas sobrevivendo no ventre de um peixe; Daniel na cova dos leões; Sadraque, Mesaque e Abede-Nego a passear em meio ao fogo da fornalha aquecida sete vezes como quem passeia em meio ás folhagens de um bosque florido; Paulo sobrevivendo á picada de uma cobra venenosa; a multidão alimentada por Jesus á partir de cinco pães e dois pexinhos. E tantos outros. Pessoas, como nós, que foram alvo do sorriso iluminado e iluminador do Totalmente Outro.

Mesmo assim, não são apenas situações como essas que nos descortinam o largo sorriso de Deus. A bem da verdade, pessoas que só esperam coisas assim, acabam por tornar para si mesmas o sorriso amoroso de Deus, algo de extrema raridade em suas vidas.

Não que Deus não sorria nestas proporções para nós. Porém, o que devemos ter em mente é que Deus está sempre sorrindo. Não é raro que ele sorria. É mais usual e mais comum do que imaginamos. O grande problema é a ausência de uma atitude de espera, expectativa e acolhimente, de nossa parte, a este sorriso de nosso amoroso Pai.

Deus sorri no dia-a-dia. Deus sorri para nós nas situações banais, comuns e simples do nosso cotidiano. Começamos, deveras, a enxergar o sorriso divino ao considerarmos que cada acontecimento, cada coisa, cada pessoa, cada vitória, cada realidade por mais efêmera que nos possa parecer, são frutos oriundos da graça, amor e misericórdias divinas. Mesmo aquilo que, num primeiro momento, a nosso ver, não nos pareça agradável.

Portanto, o que necessitamos fazer? Necessitamos limpar nossas lentes de toda sujeira do sensacionalismo, do espetacular, e acolhermos o Deus que misteriosamente nos visita no comum.

Tenho orado, pedido e buscado a Deus para que ele me conceda olhos simples que possam contemplar a simplicidade e discrição de Sua presença que me é oferecida constantemente por meios inesperados.

Portanto, por sua infinita misericórdia e bondade tenho podido ver e receber o sorriso de Deus na minha vida. Deus sorri pra mim…

Tenho visto o sorriso de Deus nos meus momentos de silêncio. Quando apaziguo a alma, cessando com seus ruídos e inquietações, posso ouvir a voz de Deus no meu centro.

Tenho recebido o sorriso de Deus quando me coloco diante de sua Palavra não como um teólogo, pronto para levantar questionamentos filosóficas, mas, com o coração receptivo, como um amante, um apaixonado que deseja ardentemente um encontro íntimo e pessoal com aquele que é o objeto de sua afeição.

Deus sorri pra mim quando estou em comunidade. No “estarmos juntos” com outros irmãos para a adoração, a comunhão, a contemplação. Quando percebo que não apenas creio, mas, que também pertenço, faço parte de uma família que me acolhe, encoraja e se coloca ao meu lado como companheiros de peregrinação.

Recebo o sorriso de Deus quando vejo um ato de caridade, afeto, solidariedade, compaixão e humanidade entre humanos. Constato que, afinal, algo da imagem divina permanece naqueles que são obra prima do Criador.

Deus sorri para mim nos momentos de família. Na companhia amorosa de minha esposa. No abraço apertado e cheio de afeto dos meus filhos. Nos nossos períodos de brincadeira (as partidas de PlayStation têm sido verdadeiros encontros com o Sagrado). Nos almoços suculentos com nossos queridos.

Tenho encontrado o sorriso de Deus em meio às boas gargalhadas com amigos. Onde posso ser eu mesmo sem neuras. Onde sou aceito como sou e estou.

Ainda tenho encontrado o sorriso de Deus: no desabrochar de uma flor em meio á uma manhã primaveril; no tom vermelho alaranjado de um pôr do sol; no sorriso sincero e despretensioso de uma criancinha; no poder furioso de uma tempestade; no ribombar do trovão; no canto matinal de um Bem-te-vi; no nascer do sol de cada manhã que me faz lembrar das misericórdias do Senhor que, uma vez mais, renovaram-se sobre este planeta de humanos pecadores.

Peço a Deus que desvende meus olhos para que aquilo que me é oferecido não passe desapercebido. Para que, estas sementes eternas não encontrando “solo” propício que as receba, acabem por perecer sem liberar toda a vida de Deus que nelas está contida.

Rogo a Deus que me ajude a enxergar a vida mais bonita. Menos ameaçadora. Mas bela na sua essência.

Cheia de vida e de mistério. Mundo embuído e transbordante de Presença. Vida que resplandeça o sorriso de Quem a criou para o louvor da Sua glória.

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