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Archive for agosto \10\UTC 2009

Há muito que o cristianismo ocidental perdeu aquele “quê” de assombro, deslumbramento e fascinação diante do mistério divino. Deus se tornou mais comum na mentalidade contemporânea do que podemos imaginar. Temos assistido a completa trivialização do Sagrado e a perda da sensibilidade ao numinoso.

Em dias de capitalismo selvagem, que não apenas tem devorado o recheio de nossos bolsos, mas também engolido nossas almas, a relação homem e Deus sofreu uma dramática reviravolta. O que antes nos fazia ficar estasiados em silêncio, contemplando Aquele que nossa mente não pode compreender, mas nosso coração pode abraçar, hoje é encarado e buscado como mera alavanca para se angariar benefícios pessoais. A fé utilitarista, o discurso triunfalista estão em moda, aliciando a cada dia mais um grande número de admiradores.

Na teologia e no discurso de muitos dos segmentos cristãos da atualidade Deus se vê contra a parede em meio a inúmeras exigências, determinações, constrangido por causa de suas próprias promessas contidas nas Escrituras a atender o homem na hora e do jeito que este o quer. Vemos agora uma drástica troca de soberania: o homem ocupa o trono e a autoridade, enquanto o Deus Triúno, Santo e inescrutável em seu insondável mistério, é colocado como mero lacaio á disposição dos ditames egoístas, e porque não mimados, do mesmo.

Não há necessidade de se dizer que a nossa vida de oração sofreu com tamanha mudança de mentalidade. Nestes dias o paradigma orante são nossas intermináveis listas de pedidos que apresentamos a Deus em nossos momentos devocionais. A meu ver aqui já começa uma grande contradição, pois, devoção não tem nada a ver com pedir, exigir ou determinar algo. Devoção tem mais a ver com dedicação, com o reapaixonar-se, com o redescobrir do assombro que surge na contemplação pura do ser amado. Neste contexto é que devemos redefinir a oração como encontro com Deus.

Um encontro é algo muito importante. Há encontros que marcam indelevelmente a vida das pessoas. Por exemplo os pais que vão ao aeroporto recepcionar o filho a quem não vêem já algum tempo, pois este estuda no exterior. Ou então aquele momento em que separamos para investir um tempo de qualidade junto com ele ou ela. A grande verdade é que os encontros fazem parte da nossa vida. Estão entretecidos na vasta teia que compõe nossa vida de relacionamentos.

Nos encontros não há interesses egoístas. Encontros não permitem exigências ou determinações arbitrárias. Encontro é presença: eu e tu. Encontro é troca. Encontro é dedicação. Encontro é paixão. Paixão que deixa boquiaberto, extasiado , passivo perante o amor que é transmitido através da eloquência de um olhar silencioso. Muita das vezes enconto não requer palavras. Elas são desnecessária. Quando não, acabam por profanar o sagrado do momento. Isso! Encontro é algo sagrado.

Na dinâmica da vida de oração não é diferente. Ou pelo menos não deveria ser. Oração é encontro com o Deus Triúno envolto em mistério, que habita em luz inacessível. Oração é ter a certeza de encontrar a mim mesmo e ao Deus que me conhece e que mesmo assim insiste em continuar me amando, apesar de… Oração como encontro, logo, é comunhão apaixonada entre duas partes amantes e que desejam estar uma na presença da outra.

Desse jeito o silêncio pode, e muito, contribuir para a oração como encontro: com Deus e comigo mesmo. Ao colocar-me na presença de Deus sem palavras posso ficar atento aos pensamentos que brotam em minha mente. E desta forma ser confrontado pelas realidades que muita das vezes ocultam-se por detrás dos mesmos. No âmago dos meus pensamento pode estar a revelação dos “demônios” que afligem a alma. A partir disso posso me colocar na presença do Deus que já me conhece, me acolhe como estou e me ama como sou. Apresento a ele meus anseios e assim a oração passar a ser um encontro comigo nos lugares mais obscuros de minha existência humana e com o Deus que é luz e que a todos ilumina.

Não existe pensamento mais libertador do que este: que posso ser eu mesmo, sem máscaras e desprovido de fobias diante de Deus. Com Deus tenho completo espaço de ser aquilo que sou e não o que as expectativas e exigências dos outros esperam de mim. Quem sou verdadeiramente já não é mais definido por circunstâncias externas, mas, pela imagem original que Deus tem de mim: sou um filho de sua graça, intensamente amado por Ele. E isso me basta.

Assim, sendo a oração uma ponte a se atravessar para um encontro consigo e com o Deus que nos aceita como somos, logo, a oração deve constituir-se para nós numa experiência de aconchego, paz e intimidade. Ao orar nos colocamos, conscientemente, recostados no seio dAquele que é mais do que Senhor. Estamos descansando na presença de quem nos chama de amigos seu.

Consideremos também a meditação como um auxílio para orarmos à moda de um encontro. Quando nos assentamos aquietados para ler sem pressa a Palavra de Deus, abrimos um espaço para que Cristo fale ao nosso coração. Afinal de contas Ele é Logos, Palavra. E nos fala por intermédio de sua palavra. Abrir a Bíblia é ter a boca do Altíssimo aberta para nos falar. O texto em que ouvimos a voz do Eterno é lugar sagrado, onde a sarça arde sem se consumir e nos colocamos descalços ante o mistério do Deus que nos chama pelo nome.

Logo, quando oro em resposta àquilo que Deus falou ao meu coração, esta oração não deixa de ter as dimensões de um encontro. Meu coração se derrete perante o calor de sua voz ecoando das páginas do Livro. Minha vida como um todo age, reage e responde a sua vontade revelada nas páginas da Bíblia. Oração: encontro da Palavra de Deus com meu coração que responde, sedento por Deus.

Oração é mais, muito mais do que aquilo que as pessoas têm feito com ela por aí. Oração não é algo do tipo gênio da lâmpada, nem botão que basta apertar para que recebamos aquilo que queremos, muito menos um memorando destinado ao Chefe do Almoxarifado celestial. Não! Mil vezes não!!! Pelo contrário, oração é comunhão. Orar é travar intimidade e proximidade. Orar é devoção, é entrega de nós mesmos: tudo o que temos e tudo o que somos. Oração é descoberta do eu e revelação do Tu. É lugar secreto de paz, equilíbrio, harmonia e saúde. É experiência pessoal. União perfeita entre duas partes que se amam e se desejam.

Que possamos amar a Deus em oração e através da oração. Que lancemos de nossas vidas, de uma vez por todas, esta concepção mercantilista da fé que encara a oração como mera ferramente para se obter aquilo que se deseja. Que a frieza seja removida de nossos corações novamente, mais uma vez. E que a chama do amor divino volte a arder e nos consumir em emoções sagradas e afetos santificados. Que a oração nos seja mais do que um exercício religioso. Mas um encontro de amor arrebatador com nosso Paizinho Querido que nos convida, como crianças recém-nascidas, a descansarmos em seu colo. Sem pressa. Sem preocupação.

Que assim seja!

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Há um pouco mais de dois meses atrás, o mundo inteiro se viu chocado com o desastre envolvendo o Air Bus da companhia francesa Air France, o qual caiu nas águas profundas do oceano Atlântico, ceifando com isso a vida de mais de duzentas pessoas, entre brasileiros e outras etnias. Quantas famílias, carreiras, sonhos e amores interrompidos por uma queda catastrófica que durou apenas alguns minutos.

Talvez você esteja se perguntando porque só agora resolvi escrever algo sobre o assunto. Confesso que em termos cronológicos já é um pouco tarde ou atrazado para fazê-lo. Por outro lado, também devo admitir que situações como essas levam tempo para se digerirem no meus mundos intelectual/ emocional/ espiritual. Principalmente o emocional.

Muito já se foi divulgado nos meios midiáticos acerca da tragédia: cobertura da imprensa; entrevistas com familiares e especialistas; debates em programas de auditório etc. Não menos divulgados têm sido os pareceres dos especialista acerca do que realmente pode ter acontecido com aquele gigante de aço que sepultou nas trevas da trinteza, dezenas de famílias que hoje choram a saudade de seus queridos, que partiram definitivamente.

A despeito de conjecturas e afirmações hipotéticas, acontecimentos trágicos como este sempre novamente reabrem a polêmica discussão acerca do sofrimento humano à luz da pressuposição existencial de Deus. Nesta dimensão as perguntas e suas respostas cheias de achismos, conjecturas e hipóteses igualmente se multiplicam.

Aqui, não pretendo levantar mais perguntas, muito menos conjecturar novas respostas. O meu propósito é que possamos refletir à luz da Palavra de Deus a conjunção provocadora DEUS DE AMOR x SOFRIMENTO HUMANO.

Para isso reporto-me a uma das histórias bíblicas que toca neste ponto nelvrágico da existência humana: o livro de Jó. Jó foi um homem que se deparou com as tragédias da vida. Perdeu seus bens, depois os filhos soterrados enquanto comiam na casa do irmão mais velho. Se não bastasse, Jó se vê acometido de uma enfermidade estranha que lhe cobriu o corpo de feridas desde a sola do pé até o coro cabeludo.

Como em todo os casos de tragédia, à semelhança do Airbus em questão, Jó é visitado por um grupo de especialistas – três amigos que lhe tentam explicar os porquês e os paraquês de tudo o que havia acontecido. Curiosamente a graduação deles em tragediologia não traz qualquer luz de discernimento ao desafortunado Jó, não podendo assim lhe dar alívio algum.

Em determinado momento Jó resolve alçar a voz da dúvida (ou será da raiva?) questionado (ou será desabafando?) a Deus acerca de seus caminhos inescrutáveis. (Quem nunca fez isso? É por isso que gosto tanto de Jó). Bem, voltemos a história. Em seguida Deus responde ao inquieto Jó, bombardeando-o de perguntas retóricas, apenas para que ele se coloque no seu devido lugar. Aqui em meio a esta queda de braços aparentemente injusta, o Senhor misericordiosamente aciona a chave que traz a claridade o que Jó tanto precisava para escapar daquela “noite” tenebrosa em que se encontrava.

A resposta de Jó é uma oração simples em palavras, mas, rica em percepções acerca do sofrimento humano diante da existência de um Deus de amor. Esta oração ficou registrada no capítulo 42 do seu livro, e vai do verso 1 ao verso 6, a qual transcrevo na íntegra:

(1) “Então Jó respondeu ao Senhor:

(2) Bem sei que tudo podes e que nenhum dos teus planos pode ser impedido.

(3) Quem é este que sem conhecimento obscurece o conselho? De fato falei do que não entendia, coisas que me eram maravilhosas demais e eu não compreendia.

(4) Ouve-me, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me responderás.

(5) Com os ouvidos eu tinha ouvido falar a teu respeito; mas agora os meus olhos te vêem.

(6) Por isso me desprezo e me arrependo no pó e na cinza.”

Nesta breve e profunda prece aprendemos verdades importantes a respeito do sofrimento e da presença amorosa de Deus.

1. O SOFRIMENTO É UM MISTÉRIODe fato falei do que não entendia, coisas que me eram maravilhosas demais e eu não compreendia” (V.3b).

Jó demonstra que entendeu isso ao dizer as palavras acima. O que mais me intriga é que Deus simplesmente não se dá o trabalho de responder aos questionamentos de Jó.

Quando a questão é o sofrimento nós temos duas escolhas. E o caminho que optarmos determinará de que maneira iremos encarar os nossos infortúnios. Você e eu podemos encarar nosso sofrimento como um problema ou como um mistério.

Se o encararmos como um problema nós sempre de novo carregaremos o peso de tentarmos encontrar soluções, razões para o mesmo. Arrastaremo-nos com os pesados fardos dos “por quês” e para quês” de isso e aquilo nos ter acontecido. Fardos estes que com o tempo nos roubarão a alegria, o ânimo e a esperança. Nos deixando exauridos e em pedaços.

Contudo, quando enxergamos aquilo que nos acontece de ruim como um mistério da soberania de Deus, isso se traduz como um convite a confiramos mais, a descansarmos mais. Já não necessitaremos de respostas e nem de soluções, pois, o que temos perante nós não é uma situação aleatória de angústia, mas, um mundo envolto pela presença misteriosa do Deus Totalmente Outro que a tudo e a todos controla. Em meio a noite escura da alma podemos ter a certeza de que a luz de Deus brilhará para nós mais uma vez.

Encarar o sofrimento como um problema só nos trará algemas e grilhões emocionais e existenciais. Enquanto que ao ousarmos adentrar na densa nuvem do mistério divino, paradoxalmente acharemos luz, abundância e liberdade.

2. O SOFRIMENTO É UM CONVITE PARA UM CAMINHAR A DOIS Com os ouvidos eu tinha ouvido falar a teu respeito; mas agora os meus olhos te vêem.” (v.5)

Toda aquela tragédia, segundo o próprio Jó, lhe revelou um Deus que ele ainda não conhecia. De um conhecimento meramente oral e teórico, aquele homem de carne e osso, tem uma experiência pessoal com aquele que é Mysterium et Tremendum.

Jó então percebeu que em meio aquele cenário caótico, naquele deserto de aparente desesperança brotava um renovo: a oportunidade ímpar de se achegar mais próximo de Deus. Toda aquela dor poderia se transformar num convite para uma caminhada a dois: Jó e Deus; Deus e Jó. O eu e aquele que é Tu. Numa amizade e companheirismo que não apenas excedem a dúvida e a dor, mas que abrem espaço para ambas. Você se encontra no quarto escuro do sofrimento? Talvez Alguém esteja lhe chamando pelo nome. Ah! Você precisa ver como o dia está lindo lá fora… Convidativo para uma caminhada.

3. O SOFRIMENTO FAZ PARTE DE UM PLANO MAIOR“Bem sei que tudo podes e que nenhum dos teus planos pode ser impedido” (v.2).

Jó compreendeu finalmente que tudo o que lhe havia acometido tratava-se de um enredo muito mais amplo do que as pequenas cenas que sua mente finita e limitada podia compreender.

Não que isso signifique que foi Deus que orquestrou toda aquela desgraça na vida de Jó. Mas sim que, em meio a seus infortúnios, os planos de Deus não estavam sendo interrompidos. Deus não havia sido pego de surpresa e muito menos precisava por em prática um plano B porque o A havia falhado. Deus estava no controle de tudo e soberanamente levando a cabo seus propósitos de amor.

Escutemos o que o próprio Senhor tem a nos dizer sobre isso em outro trecho das escrituras:

“Pois eu bem sei que planos tenho a vosso respeito, diz o Senhor; planos de prosperidade e não de mal, para vos dar um futuro e uma esperança” (Jr 29:11).

No Novo Testamento o apóstolo S. Paulo nos confirma tão bendita verdade ao declarar:

“Sabemos que Deus faz com que todas as coisas concorram para o bem daqueles que o amam, dos que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8:28).

Esta é a certeza que Ele quer que tenhamos: tudo está sob controle. Não estamos sós neste universo!

Jó nos deixou um grande exemplo de fé, integridade e paciência em meio aos graves problemas que podem recair sobre a vida de qualquer um.

Que possamos meditar nisso e seguir seu exemplo. Sabendo que as tragédias e angústias a que estamos sujeitos neste mundo não são o fim de nada. Pelo contrário, abre-se um novo horizonte de possibilidades e oportunidades, antes, não imaginados por nós.

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