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Archive for abril \28\UTC 2012

Há alguns anos atrás, conversando com um homem que tinha participado de um congresso sobre casamento, em dado momento de nosso diálogo em meio ao compartilhamento das boas palavras que estavam sendo ministradas, na parte que dizia respeito à vida sexual do casal, ele me contou as palavras que foram ditas pelo palestrante, as quais me assombraram deixando meus cabelos em pé. Ele disse acerca da prédica do congressista: “O sexo, ele não tem nada de espiritual não! É carne pura!”  Pelo menos foi mais ou menos isso de que me lembro ter escutado. Acredito que apesar de bem intencionado em abordar o fator fisiológico do prazer existente no ato sexual, contudo, ele foi infeliz no que colocou, pois, o sexo não tem nada de carnal: ele é algo absolutamente espiritual, cheio de beleza e graça dados pelo próprio Autor do mesmo.

Quando encarado e praticado da forma correta, ou seja, conforme Deus o predestinou, o ato sexual pode ser uma das experiências mais sagradas para o ser humano. A dimensão sacramental do sexo precisa ser urgentemente resgatada nesses dias em que o mesmo tem sido banalizado por uma sociedade cada vez mais sexualizada. A mídia com toda sua ânsia de audiência tem exposto nossas crianças, adolescentes e jovens (até mesmo adultos) a um chamado para a vida sexual cada vez mais cedo, cada vez menos embasado em valores como o compromisso e  a fidelidade, não dando assim um pano de fundo de suporte para o desenvolvimento de uma sexualidade saudável. 

O sexo, definitivamente, não é um brinquedo. Não é algo que existe para ser usado à nosso bel prazer (literalmente!). As Escrituras hebraico/cristãs nos advertem do caráter sacro da copulação humana. É algo tão sério que figura como um dos famosos dez mandamentos: “não adulterarás”.  Na Lei mosaica o homem ou a mulher que violasse essa condição deveria receber a pena capital por apedrejamento.  É claro que nos referimos a uma antiga aliança, a um código de conduta dentro de um contexto todo específico. No entanto, o padrão de santidade a que a vida sexual deve ser elevada permanece o mesmo nas páginas neo testamentárias. Um texto muito claro e específico sobre o assunto, não obstante pouco compreendido, é o que transcrevemos a seguir:

“O casamento deve ser honrado por todos; o leito conjugal, conservado puro; pois Deus julgará os imorais e os adúlteros” (Hb 13:4)

Muitos acreditam e entendem que o texto acima refere-se apenas ao casamento, a honra e a pureza que devem existir nele. Não há dúvidas quanto à necessidade de que o relacionamento entre esposo e esposa deve conter tais virtudes. Contudo, o texto não trata apenas do casamento em si, instituição, mas também do ato conjugal, a vida  de intimidade sexual. O autor aos Hebreus escreve “o leito conjugal, conservado puro”. O grande problema de não se enxergar o que o autor estava querendo dizer se dá por conta da falha na tradução do texto original grego para o português. A palavra grega que foi traduzida como “leito”   significa literalmente coito, ou seja, o ato da copulação, o sexo. Logo, segundo o autor de Hebreus a dimensão honrosa do casamento acontece quando o ato sexual do casal é livre das máculas que tanto caracterizam a prática da sociedade. Isso é confirmado quando ele conclui dizendo que Deus irá julgar os que se entregam à imoralidade e ao adultério, que configuram pecados de ordem sexual. Não vamos entrar aqui no mérito de avaliar a prática sexual em si do casal, o que se fazer, como se fazer etc. O que se faz entre quatro paredes é de caráter íntimo do marido e de sua esposa, de mais ninguém! O que desejamos chamar a atenção e sublinhar é o chamado sacramental que o texto acima referendado nos faz acerca do ato conjugal. 

Dito essas coisas, devemos afirmar a urgente necessidade do resgate da espiritualidade na vida sexual do ser humano. De que forma? Podemos propor algumas percepções que podem nos ajudar nesse retorno.

1. O Sexo Foi Criado Por Deus – Acredito que devamos partir deste ponto. Pois, quando compreendemos que o sexo é uma criação divina, o fato dele ser vivido por nós de uma forma tão inerente e essencial através de nossos corpos não apagará a consciência de que o mesmo não nos pertence originalmente e que um dia, como de todas as outras coisas, dele prestaremos contas a seu verdadeiro dono.

 “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou, e lhes disse: ‘Sejam férteis e multipliquem-se” (Gn 1.27,28)

2. O Sexo é Algo Espiritual – O equívoco do palestrante ao qual me referi no início se deu a meu ver, dentre outras razões, por causa da visão dicotômica que impera na mente da maioria esmagadora das pessoas cristãs: vida espiritual e vida secular. Logo, o sexo é encarado como algo meramente fisiológico, biológico. Em resumo, algo de âmbito secular não tendo nada de espiritual. Tal visão naõ tem qualquer amparo nas Escrituras. Segundo as palavras do apóstolo Paulo, na vida do verdadeiro cristão, tudo deve ser encarado como espiritual – “Assim quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Fazer tudo para a glória de Deus. Inclusive sexo!  O ato sexual apesar de ser feito pelo e no corpo é algo do espírito. Isso porque toda a vida espiritual acontece através do corpo. 

3. Nosso Corpo Não é Apenas Um Aglomerado de Funções e Necessidades Orgânicas – A sacralidade do sexo será resgatada na medida em que também resgatarmos a sacralidade do corpo humano. Além do testemunho do gênio criativo de Deus exposto em toda maravilhosa complexidade dos sistemas e combinações presentes no nosso organismo, existe o fato de que exatamente o corpo, e não outra coisa, foi escolhido pelo próprio Deus para que fosse habitação perpétua do Seu Espírito.  O corpo humano é sagrado e deve ser oferecido a Deus como santuário imaculado. E isso inclui a prática do sexo.

“Acaso não sabem que o corpo de vocês  é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos? Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o seu próprio corpo” (1Co 6.19,20)

4. A União Conjugal é Usada Como Alegoria da União Mística Entre Cristo e Sua Igreja – Nenhuma outra figura é mais poderosa do que a do casamento para descrever o relacionamento entre Jesus, o noivo, e a igreja, sua noiva. Logo, tudo que diz respeito ao relacionamento entre marido e mulher, o sexo se inclui nisso, é uma representação, uma figura da intimidade, fidelidade, alegria, realização e prazer que devem caracterizar a intimidade que todo cristão deve ter com o Senhor. A copulação física simboliza a experiência da contemplação mística, a união pura da alma com Deus. União essa que sobrepuja palavras e que se realiza plenamente no contato pessoal entre dois seres amantes. O sexo feito à moda de Deus diz tudo. A contemplação também. Ambos são plena realização humana, tanto no âmbito físico, psicológico, emocional e, sobretudo, espiritual.

“Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável” (Ef 5.25-27).

Acredito que essas percepções já são suficientes para darmos o ponta-pé inicial no resgate da sacralidade da vida sexual. Que unida ao prazer da vida com Deus e nela, a partir dela, e nunca a parte dela, pode ser uma experiência de ante-sala do prazer incomensurável que experimentaremos na glória dos céus. 

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“O Senhor, porém, está em seu santo templo; diante dele fique em silêncio toda terra” (Hc 2.20)

O texto em referência acima pode ser compreendido de duas maneiras: uma literal e outra em forma de aplicação alegórica. A primeira diz respeito à historicidade de Israel enquanto povo da aliança com Javé. Quando da construção do templo e sua consagração por Salomão Deus havia prometido que ali habitaria. E de fato era o que acontecia, pois, a presença física de Deus, sua nuvem luminosa de glória manifestava-se no local mais restrito do templo, o Santo dos Santos, onde somente o sumo sacerdote uma vez por ano poderia entrar.

Qualquer judeu devoto, para ter um encontro com Deus, teria que se encaminhar até o templo no horário certo, com a oferta e ou sacrifício certo, para ali oferece-lo em adoração. Desta forma, quando em Habacuque lemos essa declaração é exatamente isso que ela queria dizer: que Deus estava literalmente presente numa manifestação física visível e audível naquele lugar feito de tijolos, madeira, ouro e prata. Este é sentido direto e exegético do verso referendado.

Dito isso, também devemos considerar seu sentido aplicativo e alegórico para a vida do cristão. No livro de Atos no Novo Testamento o apóstolo Paulo faz uma declaração bombástica no que concerne a toda a espiritualidade Vetero Testamentária acerca da presença de Deus. O apóstolo afirma no seu discurso aos atenienses no areópago, que Deus não habita em templos feitos por homens. Esta revelação toma corpo de doutrina quando em Coríntios o mesmo Paulo lembra seus leitores de que cada um deles, enquanto indivíduos nascidos de novo em Cristo, são agora santuários do Espírito Santo. Da mesma forma que o Deus que habitou em um templo feito por mãos humanas, agora ele passara a morar em um feito por suas próprias mãos: o corpo de cada crente em Jesus Cristo.

Sendo assim, podemos entender e aplicar o texto de Habacuque como uma alegoria da experiência cristã descrita no Novo Testamento a qual nos referimos acima.

VOLTANDO-NOS PARA O CENTRO

Deus habita no corpo físico de seus servos. Logo, o templo, santificado pela presença do Espírito Santo, onde Deus está é a alma humana. Assim, podemos falar com propriedade de um santuário da alma. Deus agora não habita no exterior, mas, no mundo interior, nosso verdadeiro eu, o novo homem que segundo as Escrituras foi criado em Cristo “em justiça e em santidade provenientes da verdade” (Ef 4.24). Dito isso, podemos inferir a partir daí que, diferentemente da experiência da época de Habacuque, o crente hoje para um encontro com Deus não precisa mais ir a um lugar específico, seja ele qual for. Não precisamos mais buscar Deus do lado de fora. Basta nos voltarmos para dentro de nós, para o nosso interior, o que os místicos denominavam de retornar para o centro, onde Deus habita e nos fala continuamente, ininterruptamente ao coração.  É no santuário da alma, no nosso verdadeiro eu o “lugar” do nosso encontro hoje com Deus. Conforme nosso Senhor, o que nos basta é adentrarmos no nosso quarto, fechar a porta atrás de nós e colocarmo-nos perante a face daquele que nos vê e nos responde em secreto e em segredo: no segredo do santuário invisível de nossa alma.

RECOLHENDO-NOS EM SILÊNCIO

O profeta declara que o fato da presença física de Deus estar no santuário, deveria despertar tamanho assombro e temor, que levasse toda a terra a se silenciar perante essa presença. Podemos ver nesse entendimento literal a aplicação alegórica do caminho místico da oração silenciosa. Precisamos aprender, de uma vez por todas, a silenciar nosso coração se desejamos encontrar a Deus no nosso centro. O simples fato de que Deus está presente em nossa alma nos falando a partir dela continuamente, não significa que o estamos sempre escutando. A grande verdade é que dentro desse santuário inúmeras outras vozes clamam, juntamente com a voz divina, pela nossa atenção. Em muitos momentos o santuário de Deus ao invés de silencioso está ruidoso impedindo-nos  de percebe-lo. Somente quando o barulho do vento, do terremoto e do fogo cessaram é que o profeta Elias pode ter acessa àquele sussurro suave como a brisa da manhã. Necessitamos, com extrema urgência, atender a exortação divina que nos manda aquietarmo-nos  para que possamos saber que somente Ele é Deus.

ORAÇÃO SILENCIOSA

Apesar de parecer algo esquisito para nós por não fazer parte de nossa cultura cristã apressada, a prática da oração silenciosa, de quietude ou simplesmente silêncio tem forte amparo, tanto nas Escrituras quanto na tradição da igreja. É mais simples do que se pode imaginar e ao mesmo tempo muito difícil e complexa. Temendo por minha falta de experiência nesse caminho interior, utilizarei o material que encontrei no site Carmelo da Guarda, o qual passarei a transcrever as partes que achei mais necessárias para elucidar a experiência mística da contemplação através da oração silenciosa ou de quietude.

OS TRÊS SINAIS DO COMEÇO DA EXPERIÊNCIA

“Existem três sinais essenciais, de que a pessoa está a ser chamada à contemplação. A presença destes 3 sinais, assinala , sem equívocos, o início do itinerário contemplativo, místico.

  • PRIMEIRO SINAL – Nada satisfaz a alma e como consequência sente-se atirada para um infinito vazio. As coisas e tudo o que antes lhe “dizia” alguma coisa, já não dizem nada. As formosas realidades de outros tempos são tudo fonte que secou. Deus mesmo se calou: a aridez é a forma atual de sentir o fluxo das coisas e do espírito.
  • SEGUNDO SINAL – Já não se consegue fazer oração meditativa, não se consegue um pensamento, uma reflexão; os afectos que outrora enchiam o coração, são já remota lembrança; agora é a incapacidade que submerge a alma.
  • TERCEIRO SINAL – Este terceiro sinal é o mais importante, porque os outros dois sozinhos podem única e simplesmente indicar tibieza culpável da pessoa. Apesar de tudo quanto sente nos dois sinais anteriores, o orante, com o tempo vai passando neste estado, sente com certa frequência um como que “não sei o que”, uma atração quase imperceptível que o chama ao “fundo” de si mesmo, atração que é como um toque  sumamente delicado. Nesse fundo começa a notar paz, tranquilidade, confiança, ternura; deixou de ter interesse em perceber aspectos parciais e concretos da realidade divina;todo o seu olhar projeta-se inteiro na totalidade da realidade divina.
É necessário que os três sinais coexistam juntos. Neste estado, não aumentam as noções teológicas, mas surge uma nova forma de ver, sentir, conhecer e captar a misericórdia de Deus. Ao aumentar o “sentido de Deus”, a pessoa fica, cada vez mais firmemente orientada para Cristo.
Geralmente o orante entra na oração de quietude depois de um período de persistente aridez com aqueles sinais anteriores indicados, caracterizado pelo desaparecimento das consolações espirituais.
Nesta escuridão e aridez, começa a notar-se  esse “não sei o que” que é a presença amorosa de Deus. À medida que o espírito experimenta a unção desta oração, adquire uma nova experiência de Deus. Aqui exclui-se absolutamente a imposição da meditação. O mais que o orante pode fazer, neste período, é valer-se de uma expressão unitiva, para que o fogo não se apague. porque ao não poder meditar, entra na aridez…caminha cada vez mais para a oração da quietude.
AS TRÊS ETAPAS DA ORAÇÃO DE QUIETUDE
 
Este nível de oração já é união propriamente dita, se bem que imperfeita. Na chamada “Oração de Quietude” podemos distinguir 3 etapas que, percorridas todas elas, podem existir conjuntamente ou isoladamente.
1. ORAÇÃO DE RECOLHIMENTO INFUSO OU PASSIVO – Este nível de oração é a união (incipiente) da inteligência com Deus, o qual, com sua formosura e claridade infinita, atrai, embeleza e interiormente possui, cativa e conforta, enriquecendo-a com os preciosos dons de ciência, conselho e inteligência, mediante os quais a faz penetrar, como de um golpe, nesse mundo superior. Deste modo, unindo-a cada vez mais consigo, mesmo sendo só por uns breves instantes, deixa-a purificada e iluminada.
Diz-nos S. Teresa de Jesus acerca desta oração:
‘A primeira oração que senti, a meu ver, sobrenatural, é um recolhimento interior que se sente na alma”; “Não penseis que isto é adquirido pelo entendimento, procurando pensar que têm dentro de si a Deus, nem pela imaginação, imaginando-o dentro de si’.
 
A este recolhimento infuso ou passivo, costuma preceder – ou às vezes a seguir – uma viva presença de Deus também passiva com a qual a pessoa vem a experimentar em todas as partes uma certa impressão da divina imensidade. 
Ao recolhimento passivo, são associados, como fenômenos parciais ou como simples efeitos, às vezes, uma admiração deleitosa, que dilata a alma e a enche de gozo e de alegria ao descobrir em Deus tanta maravilha de amor, de bondade e de formosura; outras vezes certa suspensão ou um profundo silêncio espiritual, no qual ela fica atônita, absorta, abismada e como que humilhada perante tanta grandeza.
2. ORAÇÃO DE QUIETUDE – Assim chamada pela paz e sossego que dá ao espírito. Diz-nos S. Teresa de Jesus acerca da oração de quietude: 
“A alma está tão satisfeita nesta oração de quietude que a faculdade da vontade deve estar, quase de contínuo, unida Àquele que somente a pode satisfazer.”
Esta oração é a união da vontade com Deus que, como sumo Bem, a atrai energicamente a fim de que somente em Deus encontre o seu repouso. Por momentos – que costumam ser bem curtos – a alma encontra o seu pleno descanso, refrigério e fortaleza, a sua paz e felicidade. Os efeitos deste repouso espiritual, são um grande aumento de saúde espiritual, de paz profunda e alegria serena e grande facilidade para tudo o que é bom, saindo a alma desse repouso muito melhorada e disposta para trabalhar por Deus.

3. SONO DAS POTÊNCIAS (faculdades) –  A este grau de oração, S. teresa chama de ‘sono das potências’, isto é, bloqueamento incipeiente das faculdades da alma: inteligência, memória e vontade, sobre as quais atuam as virtudes teologais da fé, esperança e caridade. É a última rampa que conduz à contemplação perfeita, de união.

No recolhimento infuso e na quietude, deus cativa a vontade, mas deixa a liberdade de pensar o que quisermos. Neste (sono das potências – acréscimo meu) Deus vai pressionando a vontade (que é a sede do verdadeiro amor) cada vez com mais força, produzindo-se efeitos de toda a ordem, no espírito e no corpo. Umas vezes sintoniza-se com o impulso divino e daí nasce uma pura alegria e a oração de louvor, outras vezes produzem-se tensões entre a parte do espírito que Deus cativa e a que fica livre, e daí resultam estados que se parecem menos com a oração do que com uma luta longa e penosa, com aspiração cada vez mais forte à união.

Diz S.Teresa que:

‘a alma está a morrer quase totalmente para todas as coisas do mundo e, em troca, está a gozar apenas de Deus’.

 Os sentidos da alma só têm capacidade para se ocuparem de Deus. Aqui se juntam uns «toques de amor» com os quais Deus a vai atraindo poderosamente, preparando-a para a verdadeira união.

As virtudes ficam mais fortes do que na passada Oração de quietude (…). Aqui, a humildade que fica na alma,  é muito maior e muito mais profunda que no passado, porque vê mais claramente que de si não faz nem pouco nem muito, a não ser consentir que o Senhor lhe fizesse mercês e as abraçasse a vontade.”

Toda essa experiência espiritual, jornada mistica,  não transcorre lá ou acolá, mas, bem aqui, dentro de cada um de nós servos e servas de Cristo. Acontece no nosso mundo interior, no santuário de nossa alma. 

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O caminho místico da contemplação é descrito por S. João da Cruz como uma “noite escura da alma”. Até que a alma atinja a iluminação, ou seja, a união perfeita com Deus é-lhe necessário passar por densas trevas de escuridão sensitiva e espiritual. Tal experiência, segundo o místico espanhol carmelita, recebe o nome de noite escura pelo fato de que a luz divina, que refulge e alumia no fogo da contemplação, é maior e mais perfeita do que toda e qualquer outra luz existente na alma, sejam elas de ordem sensível ou espiritual, de tal forma que as mesmas se convertem em densas trevas como as da noite.

Na “Noite Escura da Alma”  João da Cruz descreve três tipos de noite que precedem a experiência mística da união com Deus. Em primeiro lugar temos a “noite dos sentidos” onde toda satisfação e deleite com realidades desse mundo são eclipsadas na alma que ruma ao cume da contemplação mística. A segunda noite é a “noite do espírito  na qual a alma fica sem qualquer alegria acerca das realidades espirituais afim de que apenas a fé pura e simples lhe seja de guia rumo à união com Deus. A terceira noite é a “alvorada” quando as coisas começam a “iluminar” contudo, ainda não se podem comparar com a iluminação divina que a alma alcança na contemplação.

O que S. João da Cruz na verdade nos propõe são estágios de purificação que alma deve atravessar até que a mesma, livre de todo apego tanto das realidade sensíveis como das do espírito, possa descansar no seio de Abraão em estado de perfeita comunhão. Gostaria de nessa oportunidade focar a atenção na primeira fase descrita pelo místico: a “noite dos sentidos” que aqui denominaremos de o caminho místico do desapego das coisas, pois, é isso o que ela exatamente é: uma experiência de desapego das coisas materiais.

OS APETITES E O AMOR PELAS COISAS

Para S. João da Cruz o grande inimigo a ser vencido se chama “apetites” que nada mais são do que os impulsos e desejos desordenados que existem dentro de nós.  Segundo o mestre da vida espiritual aqueles que se entregam ao vício dos apetitos das coisas deste mundo trilham um caminho de imperfeição, visto que o caminho de Deus é infinitamente perfeito. Toda a imperfeição dos apetites sensitivos está exatamente no amor que se devota às coisas terrenas que são imperfeitas, levando desta forma a alma que nelas coloca todo seu afeto a tornar-se igualmente imperfeita, visto que nos igualamos ao objeto do nosso amor.  Ao passo que o desapego das mesmas faz com que foquemos nosso amor em Deus e assim na união mística, tornamo-nos iguais a Ele, objeto de nossas “ânsias inflamadas”.

Assim, nesse desapego de todas as coisas nossos sentidos naturais ficam em escuridão, em trevas, precisando de uma luz que os guie. Esse constitui no primeiro passo para entrar nessa “noite dos sentidos”.

A GLÓRIA DE CRISTO

João da Cruz também nos instrui que para adentramos ruma a essa primeira noite necessitamos abdicar dos prazeres que os sentidos possam nos proporcionar por amor a glória de Cristo. O que o místico esperava é que seus leitores desenvolvessem um olhar crítico em relação às coisas que eles faziam no dia-a-dia. 

Desta forma segundo ele se você percebe que algum tipo de conversação não vai glorificar a Cristo, não ouça. Se a sua fala vai ser fora de hora, não fale então. E o mesmo se aplica a todos os outros sentidos naturais. Aqui fica evidente que apenas com um grande desapego por parte da alma é que esse tipo de renúncia torna-se possível.

A NOITE DOS SENTIDOS E A ESPIRITUALIDADE DE HOJE

 É impossível precisar a necessidade do ensino e da visão de João da Cruz para a espiritualidade dos dias de hoje. O contato com o conteúdo da doutrina da noite dos sentidos por si só já é mais do que o suficiente para explicar o estado de coisas a que se apresenta a vida dos cristãos contemporâneos.

Percebemos, não com pouca tristeza, o quanto um grande número de cristãos têm se entregue aos apetites das coisas terrenas. Pessoas que dizem servir a Cristo, só que no entanto, suas vidas estão pesadas por conta dos cuidados deste mundo. Diante da fé cristã que foi transformada numa vã filosofia materialista, precisamos recorrer novamente à fonte mística do ensino de João da Cruz  e bebermos de suas águas profundas. Muitos se perguntam porque a vida cristã nestes dias se encontra tão superficial, epidérmica e sem conteúdo relevante. Jesus certa feita declarou que onde estivesse o tesouro do homem, lá estaria também o seu coração. O homem contemporâneo vive uma espiritualidade superficial porquanto as águas onde tem dado de beber a seu próprio coração são igualmente rasas. A  vida espiritual do homem pós-moderno tronou-se sem viço exatamente porque igualou-se ao objeto de seu amor: as coisas desse mundo que não tem vida em si mesmas, porquanto são perecíveis e efêmeras. Falta profundidade porque falta fome e sede de Deus. Conforme o místico, aquelas ditas “ânsias inflamadas” de puro desejo ardente pela união com Cristo.

Assim as pessoas continuam correndo atrás do vento. Seus olhos nunca se saciam de ver e nem os ouvidos de ouvir. Buscam poder, prosperidade, fama e coisas dessa natureza. No entanto a sentença divina permanece: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!”

Sem dúvidas o retorno ao ensino sanjoanino também  auxiliará na quebra da  visão antropocêntrica e egocêntrica que tem permeado a comunidade dos salvos nesses últimos tempos. Viver a vida em, com e para Cristo buscando em tudo – seja no comer, beber, vestir, falar etc. – glorificar Seu bendito nome. Ao invés de satisfazer-nos a nós mesmos, como hoje se vê em peso nas igrejas, o deleite a que se deverá procurar é o prazer do sorriso oculto de Deus na face de Cristo Senhor. O foco já não estará mais no homem nem em suas necessidades e/ou expectativas, mas, sobretudo na celebração dos mistérios de Deus em meio ao Seu povo. Oh! Como precisamos atender ao chamado do humilde frei e retornarmos para a abordagem de um evangelho simples e ao mesmo tempo profundo na sua capacidade de nos transformar mediante nossa união com Deus. 

Como precisamos nos dias de hoje de uma fé cristã espiritual, mística. Uma espiritualidade do seguimento de Jesus que nos torne, verdadeiramente,  discípulos semelhantes a ele. Uma vida espiritual desapegada às coisas do mundo e ao mesmo tempo com seus apetites carnais mortificados e os desejos espirituais plenamente vivificados. 

Precisamos, uma vez mais, adentramos na noite escura onde tudo o mais, em que antes nos apegávamos, perde o seu sentido, perde a sua “luz”, quando diante da luz de Deus que brilha intensamente e perfeitamente, em chamas flamejantes de amorosa união mística.

 

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INTRODUÇÃO

A comunidade apostólica, retomando uma tradição vétero-testamentária, dedicou, desde o início, uma atenção toda particular ao Nome que o Filho de Deus assumiu no momento da Sua encarnação: JESUS, que significa JHWH É SALVAÇÃO. Além disso, três textos colocam em evidência a veneração da Igreja primitiva para com o nome de Jesus (Fl 2. 9-10;  At 4. 10-12;  Jo 16. 23-24).

Todavia, a Oração do Coração, enraizada no Novo Testamento, foi assumida por uma corrente própria da espiritualidade oriental antiga que foi chamada de hesicasmo. O nome provém do grego hesychìa que significa: calma, paz, tranqüilidade, ausência de preocupação.

O hesicasmo pode ser definido como um sistema espiritual de orientação essencialmente contemplativa que busca a perfeição (deificação) do homem na união com Deus através da oração incessante.

Todavia, o que caracteriza tal movimento é, seguramente, a afirmação da excelência ou da necessidade da própria hesychia, da quietude, para chegar à paz com Deus. Num documento do mosteiro de Iviron do Monte Athos, lê-se esta definição:

“O hesicasta é aquele que só fala com Deus somente e ora sem cessar”.

Os hesicastas, inserindo-se na tradição bíblica, exprimirão a experiência da oração contemplativa através da invocação e da atenção do coração ao Nome de Jesus, para caminharem na Sua presença, serem libertados de todo pecado e permanecerem no suave repouso de Deus à escuta da Sua palavra silenciosa.

A história do hesicasmo começa com os monges do deserto do Egito e de Gaza. “A nós, pequenos e fracos, não nos resta outra coisa senão refugiar-nos no Nome de Jesus”, disse um deles. Depois, se firma com o mosteiro do Sinai, com São João Clímaco. Um expoente máximo é, seguramente, Simeão, o novo Teólogo. Renascerá no Monte Athos no século XIV.

A VOCAÇÃO PARA A HESIQUIA

O termo grego hesiquia é traduzido em latim por quies, pax, tranqüillitas, silentium. Em geral, hesiquia significa quietude, mas pode também querer exprimir a paz profunda do coração. A etimologia é incerta: talvez o verbo da qual deriva – hèsthai, significa estar sentado.

Na literatura monástica, hesiquia revela no mínimo dois significados. Antes de tudo, tranqüilidade, quietude e paz, como estado de alma e condição estável do coração necessária para a contemplação. Significa ainda desapego do mundo na dupla acepção de solidão e silêncio.

A hesiquia expressa na paz, quietude, solidão e silêncio interior, que se consegue através da solidão e do silêncio exterior, se apresenta, todavia, como um meio excelente para se conseguir o fim da união com Deus na contemplação, através da oração contínua. Enquanto meio e não fim, a hesiquia distingue-se, quer seja da apàtheià dos Estoicos, entendida como ausência e liberação das 4 paixões fundamentais: a tristeza, o medo, o desejo e o prazer; quer seja da ataraxia dos Epicureus, que consiste na libertação da alma das preocupações da vida. Estes movimentos filosóficos sublinham e buscam a paz e a quietude da alma, somente como fim último e não como meio para uma plenitude de vida que somente Deus pode conceder.

Na literatura monástica, ao contrário, e em particular junto aos Padres do deserto, a hesiquia mantém sempre um colorido de meio e não de fim. Esta é um meio excelente, um caminho de amor autêntico, vivido no silêncio e na solidão com o fim de se chegar à oração verdadeira e autêntica contemplação. A hesiquia, em resumo, é o comportamento de quem, no próprio coração se põe na presença de Deus.

Para compreender os vários aspectos da hesiquia que o monge é chamado a exprimir, podemos nos referir à vida do abade Arsênio, o pai dos anacoretas. Eis como é contada a sua vocação à hesiquia: “Aba Arsênio, quando ainda morava no palácio imperial, orou a Deus com estas palavras : ‘Senhor, mostra-me o caminho que conduz à salvação ‘. E uma voz se dirigiu a ele e lhe disse: ‘Arsênio, foge dos homens e serás salvo ‘. O mesmo, já anacoreta, na sua condição de eremita, de novo dirige a Deus a mesma oração e ouviu uma voz que lhe disse: ‘Arsênio, foge (do mundo), permanece em silêncio e descanse na paz (hesiquia).’ É destas raízes que nasce a possibilidade de não pecar”. (Arsênio, 1.2). Esta última frase está na origem da vocação dos hesicastas: “Foge, cala, repousa!”. A fuga do mundo, o silêncio e a paz interior são os três comportamentos que dão forma ao estado de vida do monge, particularmente, do anacoreta.

FOGE 

Hesiquia como solidão O autêntico monge é chamado a viver, antes de tudo, a solidão. Os Padres do deserto sublinham com muita força a fuga dos homens, isto é, a necessidade de reduzir ao mínimo o contato com eles. Conta-se a propósito: “O beato arcebispo Teófilo dirigiu-se uma vez ao Abade Arsênio em companhia de um magistrado. Pediu ao ancião ouvisse dele uma palavra. Após um instante de silêncio, ele lhes respondeu: ” E se a disser, a observareis?” Prometeram fazê-lo. Disse-lhes o ancião: “Então, saibam que , onde estiver Arsênio, não vos aproximeis dele” (Arsênio, 7).

“O abade Marcos disse ao Abade Arsênio: “Por que fugis de nós?” O ancião lhe disse: “Deus sabe que eu vos amo. Mas, não posso estar ao mesmo tempo com Deus e com os homens. Os anjos do céu, que são milhares, têm uma única vontade, enquanto os homens têm muitas. Por isso, não posso deixar Deus para estar com os homens” (Arsênio, 13).

Alguns contatos discretos com o mundo podem ser também vantajosos. Todavia, somente para aqueles monges que conquistaram uma grande maturidade espiritual e aos quais é ordenado expressamente por Deus. Mas, em geral, o monge é convidado a garantir para si uma zona de calma, de silêncio, de solidão, para receber a formação da parte de Deus e habituar-se à Sua silenciosa presença.

A hesiquia como solidão não quer dizer somente fuga do mundo, mas quer dizer também uma certa estabilidade num determinado lugar solitário. Esta exigência é expressa com uma famosa fórmula que, mais tarde, tornou-se tradicional: “Permanece na tua cela, permanece no teu eremitério, e ela te ensinará tudo” (Moisés, 6). “Ensinará tudo” é a mesma frase que encontramos na boca de Jesus quando preanuncia a vinda do Espírito Santo (Jo 14, 26). Permanecer na solidão da cela é ainda abertura ao Espírito, ao Seu fogo e à Sua luz.

O abade Macário, o Egípcio, conjuga a fuga dos homens e a permanência na cela: “O abade Isaías pediu ao Abade Macário: “Diga-me uma palavra”. E o ancião lhe disse: “Foge dos homens!” E o abade Isaías lhe disse: “O que significa fugir dos homens?” E o ancião lhe diz: “Significa permanecer na tua cela e chorar os teus pecados”(Macário E, 27). E, dirigindo-se ao abade Aio, lhe dirá: “Foge dos homens, permanece na tua cela a chorar os teus pecados, e não ames a conversação com os homens e te salvarás” (Macário E, 41).

De fato, a cela é o ambiente para a hesyquia, dirá o próprio Antão, o Grande: “Como os peixes morrem se permanecem sobre a terra seca, assim os monges que se demoram fora da cela ou se entretém com o povo perdem a força necessária à hesyquia. Portanto, como o peixe para o mar, assim nós devemos correr para a cela para que não aconteça que, tardando-se fora, esqueçamo-nos de guardar o interior” (Antão, 10).

A solidão pode exprimir-se também num comportamento de contínua peregrinação de um lugar para o outro. De fato, todo lugar deve ser estranho ao monge. Uma tal estranheza – xenitèia – indica uma espécie de exílio voluntário longe das coisas mundanas. Afirma São Nilo: “O primeiro dos grandes combates consiste na xenitèia, isto é, no emigrar sozinho, despojando-se como um atleta, da própria pátria, da própria raça, dos próprios bens”.

O passar de um lugar ao outro é imitar o caminho de Jesus, como demonstra a seguinte historinha: “Do abade Agatão, contavam que empregou muito tempo junto aos seus discípulos. Para construir uma cela. Quando a terminou, começaram a morar nela, mas, já na primeira semana, viu alguma coisa que não o agradou e disse aos seus discípulos: “Levantai-vos, vamo-nos daqui!” (Jo 1, 31) . Eles ficaram muito perturbados e disseram: “Se tinhas a intenção de ir embora, por que nos cansamos tanto para construir a cela? As pessoas se escandalizarão de novo e dirão: “Estes instáveis partem novamente!” Vendo-os assim abatidos, ele lhes disse: “Mesmo que alguns se escandalizem, outros, por sua vez, serão edificados e dirão: Bem-aventurados aqueles que, por amor a Deus, se foram, desprezando tudo. Portanto, quem quiser vir, venha! Eu agora me vou”. Então, jogaram-se por terra, rogando que lhes permitisse partir com ele”(Agatão, 6; cf. também Amoés, 5).

Estes últimos apoftegmas nos permitem sublinhar o aspecto itinerante da hesiquia. Certamente, a cela é importante; mas, não se pode permanecer nela com o espírito de proprietário. O monge sabe ser estrangeiro sobre esta terra e, assim, abandona tudo o que possa desviá-lo do serviço de Deus, vivendo no escondimento e na espera, aguardando ardentemente o retorno do Senhor glorioso. A solidão exterior é certamente importante, mas, mais necessária, é a solidão do coração. Aqui se encontra a autêntica hesequia, ou o verdadeiro eremitismo, ou a anacorese interior, o monaquismo do coração, o único que pode conduzir à Oração de Jesus.

CALA

Hesyquia como silêncio.  Na solidão, o monge é chamado a viver o silêncio. A voz que Arsênio ouviu era, de fato, expressa nos termos que sabemos: foge, cala, repousa. O silêncio que vivem os Padres do deserto, como justamente foi dito, “é um silêncio dos mil nomes e dos mil rostos onde tudo está no seu lugar. É um silêncio precioso para a alma, um silêncio que faz parte da transcendência.

Dos vários apoftegmas decorre que o silêncio dos Padres do deserto é o silêncio da humildade, do calar-se sobre si mesmo, é o silêncio que tira as palavras ao egoísmo, à soberba, ao amor próprio; é o silêncio de quem se faz peregrino e estrangeiro, mas é também o silêncio do amor, o silêncio de quem não julga o próximo, de quem não fala ou murmura dos outros, enfim, é o silêncio da fé, de quem se confia no Totalmente Outro, de quem se colocou completamente nas Suas mãos”.

Consideremos algumas particularidades deste grande silêncio. A oração incessante é o problema prático fundamental que foi muito debatido nos primeiros séculos cristãos. Os monges tinham o dever de praticar esta ordem da Escritura, mais do que todos os outros cristãos. O seu amor pelo silêncio é, sem dúvida, a forma, o clima e a dialética mesma da oração ininterrupta. O silêncio é como uma cela e uma espécie de eremitério portátil do qual o homem de oração não sairá nunca, mesmo quando, por motivos de caridade, deverá sair da sua cela visível. Afirma o grande Poemén: “Se estiveres em silêncio, obterás o repouso em qualquer lugar que habitares” (Poemén, 84).

Guardar o silêncio quando se apresenta a ocasião de falar, é a verdadeira fuga dos homens: “Dominar a própria língua: eis a verdadeira xenitèia “, afirma o abade Titoes (ve D 84). “O aba João era fervoroso no Espírito. Alguém veio visitá-lo e louvou o seu trabalho. Estava trabalhando com corda e permaneceuem silêncio. Tentouuma segunda vez fazê-lo falar, mas ele continuava calado. Pela terceira vez, disse ao visitante: ‘Desde quando veio, você afastou Deus de mim” (João , 32).

“Em Cétia o grande abade Macário, quando se dissolvia a assembléia, dizia: “Fugi, irmãos!” Um dos anciãos lhe perguntou: “Para onde podemos fugir além deste deserto?” Ele punha o dedo sobre a boca dizendo: “Fugi disto!’ e entrava na sua cela, fechava a porta e se sentava (punha-se em hesiquia)” (Macário, E 16).

O silêncio ao qual convidam os Padres do deserto é também testemunho. Segundo a sua experiência, é necessário falar com as obras e não com a língua. É o próprio caminho de fé que opera; as palavras são muitas vezes inúteis. “Um irmão pediu ao aba Sisoes: “Diga-me uma palavra!” Ele lhe disse: “Por que me constranges a falar inutilmente? Faze aquilo que vês!”(Sisoés, 45). “Um irmão pediu ao abade Poemén: “Irmãos vivem comigo. Queres que lhes dê ordens?” “Não”- lhe disse o ancião – “faça o seu trabalho, antes de tudo. E se quiserem viver isso pensarão por si mesmos”. O irmão lhe disse: “Mas, são eles mesmos, pai, que querem que lhes dê ordens”. Disse-lhe o ancião: “Não! Torne-se para eles um modelo, não um legislador” (Poemén, 174).

O abade Isaías disse ainda: “Não deve ser a tua língua a falar, mas as tuas obras, e as tuas palavras sejam mais humildes que as tuas obras. Não penses sem inteligência, não ensines sem humildade, a fim de que a terra possa receber a tua semente.” Os frutos do silêncio, segundo os Padres do deserto, são múltiplos. O silêncio dá a quietude (Poemén, 84); gera a castidade (Ditos V, 25); é ajuda contra os ímpios (Ditos XI, 7); conserva a alma na paz (Matoés, 11). O silêncio é humildade (Ditos, XV, 76). O silêncio ajuda a não julgar o próximo, a não condenar ninguém, é remédio contra a maledicência. É escola de tolerância para com todos (Ammon, 8). Todavia, um tal silêncio exige muita coragem. Poemén afirma: “Na primeira vez, foge! Na segunda, foge! Na terceira, torna uma espada” (Poemén, 40).

REPOUSA

Permanece na paz interior Solidão e silêncio praticados concretamente representam, para os Padres do deserto, o momento fundamental da hesiquia do corpo, da hesiquia exterior. Uma quietude que, ainda que externa, é fundamental. De fato, como afirma Macário: “Ninguém pode ter a hesiquia da alma, se não se assegurou, antes, a do corpo”. Certamente, porém, é a hesiquia interior o eixo essencial da espiritualidade monástica oriental. Da solidão e da ausência de palavras, o monge é chamado a passar ao silêncio profundo ativo e criativo. E isto nada tem a ver com o quietismo. Pelo contrário: “é busca da única quietude possível, que é a paz de Cristo, a paz exultante de Deus o fundo do coração”.

O monge se consagra por vocação a perseguir unicamente a união com Deus através da oração que, por sua vez, pressupõe o total desapego, a perfeita purificação, a renúncia a tudo o que poderia atrasar a sua caminhada espiritual. Os Padres do deserto “recordaram, muitas vezes, que Jesus, mesmo depois do primeiro retiro no deserto, muitas vezes buscou a solidão. A solidão põe, portanto, o monge no centro mesmo do mistério da redenção, numa configuração a Cristo que toca o ápice mais doloroso, mas também o mais fecundo da Sua obra de salvação “.

Deste modo, a ligação entre a solidão e a oração prolongada, êxtase e sofrimento, vem solidamente afirmado. A busca cristã da solidão, do silêncio e da paz interior poderia parecer uma ponta sofisticada de egoísmo. Mas, não é assim. “Consagrar inteiramente a própria vida terrena para que Deus seja tudo em todas as coisas é precisamente o oposto do egoísmo. É participar do modo mais generoso possível, depois do martírio, à grande obra de Deus-Caridade”.

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Extraído de: M. Brunini: “La preghiera del cuore nella spiritualità orientale, ed. Messaggero – Padova

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Meditar é exercitar o espírito em séria reflexão. É esse o sentido mais largo que se possa dar à palavra “meditação”. O termo, então, não está confiando ao âmbito de reflexões religiosas, mas implica atividades mentais e certa absorção ou concentração que não permitem às nossas faculdades vaguearem ao léu ou permanecerem preguiçosas e sem orientação.

 Desde o princípio, deve ficar bem claro, porém, que o termo “meditação”, aqui, não se refere a uma atividade puramente intelectual, e ainda menos a mero raciocínio. A reflexão tem a ver não só com o espírito mas também com o coração, e, em realidade, com todo o ser.

 Alguém que realmente medita não pensa apenas, ama também, e por seu amor – ou pelo menos pela intuição compreensiva para com a realidade sobre a qual reflete – entra nessa realidade e a conhece, por assim dizer, por dentro, por uma espécie de identificação.

Santo Tomás e São Bernardo de Claraval descreve a meditação (consideratio) como uma “procura da verdade”. Todavia, a “meditação”, para eles, é algo de inteiramente distinto do estudo que é, igualmente, uma “procura da verdade”. A meditação e o estudo podem, é claro, estar inteiramente relacionados. Na verdade, o estudo só é espiritualmente fecundo se conduz a uma qualquer meditação. Pelo estudo, procuramos a verdade nos livros ou em alguma outra parte fora de nossas mentes. Na meditação, esforçamo-nos por assimilar o que já temos. Consideramos os princípios que já aprendemos e os aplicamos à própria vida. Em lugar de simplesmente armazenar fatos e idéias em nossa memória, esforçamo-nos por pensar de maneira pessoal e íntima.

No estudo, podemos nos contentar com uma idéia ou um conceito que seja verídico. Podemos nos contentar em ter um conhecimento a respeito da verdade. A meditação é para os que não se satisfazem com um conhecimento meramente objetivo e conceitual em relação à vida, em relação a Deus – em relação a realidades de primeira importância. Querem entrar em contato íntimo com a própria verdade, com Deus. Querem experimentar as mais profundas realidades da vida, vivendo-as. A meditação é um meio para chegar a um fim.

Assim sendo, embora a definição da meditação inquisitio veritatis) como uma busca da verdade realce o fato de que ela é, acima de tudo, função da inteligência, significa, contudo, algo de mais. Santo Tomás e São Bernardo falavam de uma meditação fundamentalmente religiosa, ou, pelo menos, filosófica, e que tem como alvo fazer desabrochar nosso ser todo, pondo-o em comunicação com uma realidade suprema acima de nós. Esse conhecimento unitivo e amoroso começa na meditação, mas só atinge seu pleno desenvolvimento na oração contemplativa.

Essa idéia é muito importante. Rigorosamente falando, até a meditação religiosa é primariamente uma questão de pensar. Mas não termina no pensamento ou reflexão. O pensar meditativo é simplesmente o início de um processo que leva à oração interior e que, normalmente, se supõe culminar na contemplação e na comunhão afetiva com Deus. Podemos chamar todo esse processo (em que a meditação leva à contemplação), oração mental. Na prática, a palavra “meditação” é, muitas vezes, utilizada como se designasse exatamente a mesma coisa que “oração mental”. Todavia, se considerarmos o sentido exato da palavra, veremos que meditação é apenas uma pequena parte de todo o conjunto de atividades interiores que constituem a oração mental.

Meditação é o nome com que é designada a primeira parte do exercício, a parte em que nosso coração e nosso espírito se adestram numa série de atividades interiores que nos preparam à união com Deus.

Quando o pensamento está vazio de atenção afetuosa, quando começa e termina na inteligência, não leva a oração ao amor, à comunhão. Não entra, portanto, no quadro próprio da oração mental. Isso não pode ser considerado, em realidade, meditação. Está fora do âmbito da religião e da oração. Está, portanto, excluído da nossa consideração nestas páginas. Nada tem a ver com nosso assunto. Apenas devemos fazer notar que estaria alguém perdendo tempo se acreditasse que o simples raciocínio pode satisfazer as necessidades de sua alma em relação à meditação religiosa. A meditação não é só questão de “refletir sobre um assunto”, mesmo se isso leva a uma boa resolução do ponto de vista da ética. A meditação é mais do que pensar.

A característica que distingue a meditação religiosa é ser ela uma busca da verdade que brota do amor e a procura da posse da verdade, não só pelo conhecimento, mas também pelo amor. É, portanto, uma atividade intelectual inseparável de uma intensa consagração do espírito e aplicação da vontade. A presença do amor em nossa meditação intensifica e torna mais claro o pensamento, dando-lhe qualidade profundamente afetiva. Nossa meditação se vê repleta de uma amorosa apreciação do valor oculto na verdade suprema que a inteligência procura.

Esse impulso afetivo da vontade, em procura da verdade como o bem mais elevado da alma, ergue-a acima do nível da especulação e faz de nossa busca da verdade uma oração cheia de amor reverencial e adoração, que se esforça por penetrar a escura nuvem que se mantém entre nós e o trono de Deus.

Batemos de encontro a essa nuvem pela súplica, lamentamos nossa pobreza, nossa incapacidade, adoramos a misericórdia de Deus e suas sublimes perfeições, dedicamo-nos inteiramente ao seu culto  A oração mental é, portanto, como um foguete sideral. Movida por uma centelha do amor divino, a alma se lança em direção ao céu, num ato de inteligência claro e direto como a trajetória luminosa do foguete. A graça libertou as mais profundas energias do nosso espírito e nos assiste na ascensão de novas e insuspeitadas alturas. Contudo, nossas faculdades atingem em breve seus limites. A inteligência não consegue subir mais alto. Existe um ponto onde a mente se vê obrigada a baixar essa trajetória de fogo, como que para reconhecer seus próprios limites e proclamar a infinita transcendência do Deus inatingível.

É aqui, porém, que a “meditação” atinge o clímax. O amor toma novamente a iniciativa e o foguete “explode” numa expansão de louvor sacrificial. O amor, então, projeta centenas de estrelas incandescentes – atos de toda espécie – que expressam tudo que há de melhor no espírito do homem, e a alma se consome em fogos que jorram glorificando o Nome de Deus, enquanto caem em direção à Terra desaparecendo, espalhados pelo vento noturno!

É essa a razão por que Santo Alberto Magno, o mestre do qual Santo Tomás de Aquino recebeu a formação teológica em Paris e Colônia, nos dá o contraste entre a contemplação do filósofo e a dos santos:

“A contemplação dos filósofos nada mais procura do que a perfeição de quem contempla, e não vai além do intelecto. Mas a contemplação dos santos se inflama em amor do objeto contemplado, isto é, Deus. Não termina, portanto, num ato da inteligência, mas passa à vontade por um efeito do amor”.

Santo Tomás de Aquino comenta sucintamente que é essa a razão por que o conhecimento contemplativo de Deus é atingido, neste mundo, pela luz de um amor inflamado: per ardorem caritatis datur cognitio veritatis (comentário do Evangelho de S. João, Cap. 5).

A contemplação dos “filósofos”, que é mera especulação intelectual sobre a natureza divina tal como se reflete nas criaturas, seria, portanto, como um foguete que se projetasse nos céus mas jamais explodisse. A beleza do foguete está na sua “morte”, e a beleza da oração mental e da contemplação mística está no abandono da alma e na total entrega de si mesma, numa explosão de louvor em que se consome inteiramente, para dar testemunho à transcendente bondade do Deus infinito. Quanto ao mais, é silêncio.

Não nos esqueçamos jamais de que o fecundo silêncio em que as palavras perdem seu poder de expansão, e os conceitos nos escapam, é, talvez, a mais perfeita meditação. Não devemos ter medo nem nos inquietarmos quando não conseguimos mais “fazer atos”. Antes, devemos regozijar-nos e repousar na noite luminosa da fé. Esse repouso é um degrau mais alto de oração.

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Thomas Merton

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Monte Athos

Meditar como uma montanha

Assim começava para o jovem filósofo uma verdadeira iniciação à oração hesicasta.  A primeira indicação que lhe fora dada dizia respeito à estabilidade.  O enraizamento de uma boa postura.
De fato, o primeiro conselho que podemos dar a alguém que quer meditar não é de ordem espiritual, mas física: sente-se.
Sentar-se como uma montanha, isso quer dizer sentar-se com peso: estar pesado da presença.  Nos primeiros dias, o jovem teve muita dificuldade em permanecer assim imóvel, as pernas cruzadas, o quadril ligeiramente mais alto que os joelhos (foi nessa postura que ele encontrara a estabilidade).  Uma manhã, ele realmente sentiu o significado de “meditar como  uma montanha”.  Ele estava ali, com todo seu peso, imóvel.  Ele e a montanha formavam um só, silenciosos sob o sol.  Sua noção do tempo mudara completamente.  As montanhas possuem um outro tempo, um outro ritmo.  Estar sentado como uma montanha é ter a eternidade diante de si, é a atitude justa para aquele que quer entrar na meditação: saber que ele tem a eternidade detrás, dentro e diante de si.  Antes de erguer uma igreja, era preciso ser pedra e sobre essa pedra (essa solidez imperturbável do rochedo), Deus pôde erguer sua Igreja e fazer do corpo do homem o seu templo.  Era dessa forma que ele compreendia o sentido das palavras evangélicas: “És pedra e sobre essa pedra edificarei minha igreja.”
Assim ele permaneceu durante várias semanas.  O mais difícil para ele era passar horas “sem fazer nada”.  Era preciso reaprender a ser, simplesmente ser – sem objetivo nem motivo.  Meditar como uma montanha era a própria meditação do Ser, “do simples fato de Ser”, antes de todo pensamento, todo prazer e toda dor.  O padre Serafim o visitava todos os dias, compartilhando com ele seus tomates e suas azeitonas.  Apesar dessa dieta frugal, o jovem parecia ter ganhado peso.  Seu caminhar estava mais tranqüilo.  A montanha parecia ter entrado na sua pele.  Ele sabia respeitar o tempo, acolher as estações, permanecer em silêncio e ficar tranqüilo como uma terra por vezes dura e árida, mas por vezes também como o flanco de uma colina à espera da época da colheita.
Meditar como uma montanha também modificara o ritmo dos seus pensamentos.  Ele aprendera a “ver” sem julgar, como se ele desse a tudo aquilo que brota sobre a montanha o “direito de existir”.
Certo dia, alguns peregrinos o tomaram por um monge; impressionados pela qualidade da presença, eles pediram-lhe uma bênção.  Ele nada respondeu, imperturbável como a pedra.  Tendo sabido disso, naquela mesma noite o Padre Serafim começou a lhe dar bastonadas…  O jovem homem se pôs então a gemer.
“Ah bom, eu achei que você tivesse se tornado tão estúpido quanto as pedras do caminho…  A meditação hesicasta tem um enraizamento, a estabilidade das montanhas, mas seu objetivo não é fazer de você um cepo morto, mas um homem vivo.”
Ele tomou o jovem pelo braço e o conduziu até o fundo do jardim onde, entre as ervas selvagens, eles conseguiam divisar algumas flores.  “Agora não se trata mais de meditar como uma montanha estéril.  Aprenda a meditar como uma papoula, mas não esqueça da montanha…”

Meditar como uma papoula

Foi assim que o jovem aprendeu a florescer…  A meditação é antes de tudo uma postura e foi isso o que a montanha lhe havia ensinado.  A meditação também é uma “orientação” e era isso o que a papoula estava ensinando-lhe agora: voltar-se em direção ao sol, voltar-se do mais profundo de si mesmo em direção à luz.  Aspirar em todo seu sangue, toda a seiva.
Essa orientação voltada ao belo, à luz, fazia com que ele às vezes ficasse vermelho como uma papoula.  Era como se a “bela luz” fosse a luz de um olhar que lhe sorria, esperando dele um perfume qualquer…  Junto à papoula, ele aprendeu igualmente que, para permanecer na sua orientação, a flor deveria ter “a haste ereta” e ele começou a endireitar a coluna vertebral.
Isso lhe colocou alguns problemas, pois ele tinha lido em alguns textos da Filocalia que o monge deveria estar ligeiramente curvado.  Algumas vezes, até mesmo sentindo dor.  O olhar voltado para o coração e as entranhas.
Ele pediu ao padre Serafim algumas explicações.  Os olhos do staretz o olharam com malícia: “Isso era para os fortões d’outrora.  Eles eram cheios de energia, e era preciso lembrar-lhes a humildade da sua condição humana, que eles se curvem um pouco durante a meditação – isso não lhes fará nenhum mal…  Mas você, você tem necessidade de energia, então, no momento da meditação, endireite-se, esteja vigilante, mantenha-se ereto e voltado para a luz, mas sem orgulho… aliás, se você observar bem a papoula, ela lhe ensinará não apenas a retidão da haste, mas também uma certa maleabilidade sob as inspirações do vento e também uma grande humildade…”
     De fato, o ensinamento da papoula também estava presente na sua fugacidade, na sua fragilidade.  Era preciso aprender a florescer, mas também a fanar.  O jovem compreendeu melhor as palavras do profeta:
“Toda carne é como a grama e sua delicadeza é como a das flores dos campos.  A grama seca, a flor murcha…  As nações são como uma gota de orvalho na beira de um balde…  Os juízes da terra acabarão de ser plantados, sua haste acabou de deitar raízes na terra… e então eles secarão e a tempestade os levará como uma palha.” (Isaías 40).
A montanha tinha lhe dado o sentido da Eternidade, a papoula lhe ensinava a fragilidade do tempo: meditar é conhecer o Eterno na fugacidade do instante, um instante reto, bem orientado.  É florescer o tempo que nos é dado a florescer, amar o tempo que nos é dado a amar, gratuitamente, sem porquê, pois para quem?  Por que florescem as papoulas?
Assim, ele aprendeu a meditar “sem objetivo nem ganho”, apenas pelo prazer de ser e de amar a luz.  “O amor é a sua própria recompensa”, dizia ainda Ângelus Silesius.  “É a montanha que floresce na papoula, pensou o jovem.  É todo o universo que medita em mim.  Que ele possa ficar vermelho de alegria enquanto durar minha vida.”  Esse pensamento certamente era demais.  O padre Serafim começou a sacudir o nosso filósofo e mais uma vez o tomou pelo braço.  Ele o conduziu por um caminho escarpado que levava até a beira do mar, a uma pequena praia deserta.  “Pare de ruminar como uma vaca o bom senso das papoulas…  Tenha também o coração marinho.  Aprenda a meditar como o oceano.”

Meditar como o oceano

O jovem aproximou-se do mar.  Ele tinha adquirido uma boa base e uma orientação reta.  Ele estava na boa postura.  O que lhe faltava?  O que o marulhar do oceano poderia lhe ensinar?  O vento se ergueu.  O fluxo e o refluxo do mar tornaram-se mais profundos e isso despertou nele a lembrança do oceano.  O velho monge tinha aconselhado-o, de fato, a meditar “como o oceano” e não como o mar.  Como ele tinha adivinhado que o jovem tinha passado longas horas às margens do Atlântico, sobretudo à noite e que ele já conhecia a arte de acordar seu sopro com a grande respiração das ondas.  Eu inspiro, eu expiro…, depois, eu sou inspirado, eu sou expirado.  Eu me deixo levar pelo sopro, assim como nos deixamos levar pelas ondas…  Assim ele se deixava ser carregado pelo ritmo das respirações oceânicas.  Mas a gota de oceano que outrora “dissipava-se no mar”, guardava hoje sua forma, sua consciência.  Será que isso era o efeito da sua postura?  Do seu enraizamento na terra?  Ele não era mais levado pelo ritmo aprofundado da sua respiração.  A gota d’água guardava sua identidade e, no entanto, ela sabia “ser uma” com o oceano.  Foi assim que o jovem aprendeu que meditar é respirar profundamente, deixar ser o fluxo e o refluxo do sopro.
Ele aprendeu igualmente que, mesmo havendo ondas na superfície, o fundo do oceano permanecia tranqüilo.  Os pensamentos vão e vêm, nos fazem espumar, mas o fundo continua imóvel.  Meditar a partir das ondas que somos para perdermos o pé e deitarmos raízes no fundo do oceano.  Tudo isso tornava-se a cada dia um pouco mais vivo para ele e ele se lembrava das palavras de um poeta que o marcara nos tempos da sua adolescência: “A Existência é um mar incessantemente cheio de ondas.  Desse mar as pessoas normais só percebem as ondas.  Veja como, das profundezas do mar, inumeráveis ondas aparecem na superfície, enquanto o mar permanece oculto nas ondas”.  Hoje o mar lhe aparecia menos “oculto nas ondas”, a unicidade de todas as coisas lhe parecia mais evidente, e isso não abolia o múltiplo.  Ele tinha menos necessidade de opor o fundo e a forma, o visível e o invisível.  Tudo isso constituía o oceano único da vida.
No fundo do seu sopro não se encontrava o Ruah?  O pneuma?  O grande sopro de Deus?
“Aquele que escuta com atenção sua respiração, lhe disse então o velho monge Serafim, não está longe de Deus.”
“Escute quem está no final do teu expirar.  Quem está na fonte do teu inspirar.”  Realmente, existia ali alguns segundos de silêncio mais profundos do que o fluxo e o refluxo das ondas, e havia ali algo que parecia carregar o oceano…

Meditar como um pássaro

Estar em uma boa postura, estar orientado em direção à luz, respirar como um oceano… isso ainda não é a oração hesicasta, lhe disse o Padre Serafim.  “Agora você deve aprender a meditar como um pássaro”, e ele o levou até uma pequena célula próxima à sua ermida onde viviam duas rolas.  De início, o arrulhar desses dois pequenos animais lhe pareceu charmoso, mas não demorou para que esse som irritasse o jovem filósofo.  De fato, elas escolhiam o momento onde ele estava caindo de sono para arrulhar as mais ternas palavras.  Ele perguntou ao velho monge o que tudo isso significava e se essa comédia iria durar muito tempo.  A montanha, o oceano, a papoula ainda passavam (mesmo que possamos nos perguntar o que existe de cristão nisso tudo), mas, agora, propor-lhe essa ave langorosa como mestre de meditação, era demais!  O padre Serafim explicou-lhe que no Antigo Testamento, a meditação é expressa pelos termos da raiz “haga”, frequentemente  traduzido para o grego por mélété – meletan – e para o latim pormeditaria – meditatio.  Em seu sentido primitivo, essa raiz queria dizer “murmurar em voz baixa”.  Ela é igualmente utilizada para designar os gritos dos animais, por exemplo, o rugir do leão (Isaías 31, 4), o piar das andorinhas e o canto da pomba (Isaías 38, 14), mas também o grunhido dos ursos.
“Não temos ursos no Monte Athos.  É por esta razão que o trouxe até as rolas, mas o ensinamento é o mesmo.  É preciso meditar com a sua garganta, não apenas para acolher o sopro, mas também para murmurar o nome de Deus noite e dia…”
Quando você está feliz, quase sem se dar conta, você cantarola, você às vezes murmura palavras sem sentido e esse murmúrio faz todo o seu corpo vibrar de alegria simples e serena.
Meditar é murmurar como a rola, deixar subir em si esse canto que vem do coração, assim como você aprendeu a deixar subir em você o perfume que vem da flor… meditar é respirar cantando.  Sem nos demorarmos muito no significado agora, eu proponho que você repita, murmure, cantarole as palavras que estão no coração de todos os monges do Athos: “Kyrie eleison, kyrie eleison…”  Isso não agradou muito ao jovem filósofo.  Ele já tinha ouvido essas palavras em algumas celebrações de casamento ou enterro; em francês elas eram traduzidas por: “Senhor, tenha piedade”.
O monge Serafim começou a sorrir: “Sim, esse é um dos significados dessa invocação, mas há muitos outros.  Essas palavras também querem dizer: “Senhor, envie teu Espírito…!  Que a tua  ternura esteja sobre mim e sobre todos, que teu Nome seja abençoado, etc…”, mas não procure compreender o sentido dessa invocação, ele se revelará sozinho a você.  Por enquanto, esteja sensível e atento à vibração que ela desperta em seu corpo e em seu coração.  Tente harmonizar pacificamente essa invocação com o ritmo da sua respiração.  Quando os pensamentos o atormentarem, volte suavemente a essa invocação, respire mais profundamente, mantenha-se ereto e imóvel e você conhecerá um início dehesychia, a paz que Deus dá, incomensuravelmente, àqueles que o amam.  Passados alguns dias, o “Kyrie eleison” tornou-se um pouco mais familiar.  Ele o acompanhava assim como o zumbir acompanha a abelha quando ela faz o seu mel.  Ele nem sempre o repetia com os lábios.  O zumbido tornara-se mais interior e sua vibração mais profunda.
O “Kyrie eleison” que ele renunciara a “pensar” acerca do seu significado, o conduzia por vezes a um silêncio desconhecido e ele se encontrava na atitude do apóstolo Tomé quando este descobriu o Cristo ressuscitado: “Kyrie eleison”, Meu Senhor é meu Deus.
A invocação o mergulhou pouco a pouco em um clima de intenso respeito por tudo aquilo que existe.  Mas também de adoração por aquilo que mantém-se oculto na raiz de todas as existências.  O padre Serafim disse-lhe então: “Agora você não está longe de meditar como um homem.  Eu devo ensinar-lhe a meditação de Abraão.”

Meditar como Abraão

Até aqui o ensinamento do stárets fora de ordem natural e terapêutica.  Os antigos monges, segundo o testemunho de Philon de Alexandria, eram, de fato, “terapeutas”.  Seu papel, antes de conduzirem à iluminação, era o de curar a natureza, colocá-la em melhores condições para que ela pudesse receber a graça, a graça que não contradizia a natureza, mas a restaurava e a realizava.  Era isso que o homem idoso estava fazendo com o jovem filósofo, ensinando-lhe um método de meditação que alguns poderiam chamar de “puramente natural”.  A montanha, a papoula, o oceano, o pássaro – tantos elementos da natureza que lembram ao homem que ele deve, antes de ir mais longe, recapitular os diferentes níveis do ser, ou ainda os diferentes reinos que compõem o macrocosmo.  O reino mineral, o reino vegetal, o reino animal…  Frequentemente o homem perde o contato com o cosmos, com o rochedo, com os animais e isso acaba provocando nele todo tipo de doenças, de mal-estares, de insegurança, de ansiedade.  Ele se sente “demais”, estranho e estrangeiro no mundo.  Meditar era primeiro entrar na meditação e no louvor do universo, pois “todas as coisas sabem orar antes de nós”, dizem os padres.  O homem é o lugar onde a oração do mundo toma consciência dela mesma.  O homem está aqui para nomear aquilo que todas as criaturas balbuciam.  Com a meditação de Abraão, nós entramos em uma nova e mais elevada consciência que chamamos de fé, ou seja, a adesão da inteligência e do coração a esse “Tu” ou a esse “Você” que é, que transparece quando chamamos todas os seres pelos seus primeiros nomes.  Essa é a experiência e a meditação de Abraão: atrás do estremecer das estrelas, existem mais do que estrelas, uma presença difícil de nomear, que nada pode nomear e que no entanto possui todos os nomes…
É algo maior do que o universo e que, no entanto, não pode ser compreendido fora do universo.  A diferença que existe entre Deus e a natureza é a diferença que existe entre o azul do céu e o azul de um olhar…  Abraão estava em busca desse olhar além de todos os azuis…  Após ter aprendido a sentar, após ter aprendido o enraizamento, a orientação positiva em direção à luz, a respiração apaziguada dos oceanos, o canto interior, o jovem era convidado ao despertar do coração.  “De repente, você é alguém”.  Aquilo que é próprio ao coração, de fato, é personalizar todas as coisas e, nesse caso, personalizar o Absoluto, a Fonte de tudo aquilo que é e respira, nomeá-la, chamá-la de “Meu Deus”, “Meu Criador” e caminhar em Sua presença.  Meditar, para Abraão, é manter, sob as mais variadas formas, o contato com essa Presença.  Essa forma de meditação entra nos detalhes concretos da vida quotidiana.  O episódio do carvalho de Mambré nos mostra Abraão “sentado à entrada da tenda, na hora mais quente do dia” e ali ele vai acolher três estrangeiros que vão se revelar como enviados de Deus.  Meditar como Abraão, dizia o Padre Serafim, “é praticar a hospitalidade, o copo d’água que damos àquele que tem sede, não se afaste do silêncio, ele o aproxima da fonte.”  Meditar como Abraão, você compreende, desperta não apenas em você a paz e a luz, mas também o Amor por todos os homens.”  E o padre Serafim leu para o jovem a famosa passagem do livro do Gênesis onde se fala da intercessão de Abraão:
“Abraão estava diante de YHWH, Aquele que é – que era – que será.”  Ele aproximou-se e disse: “Vais realmente suprimir o justo junto com o pecador?  Talvez haja cinqüenta justos na cidade, vais realmente suprimi-los e não perdoarás a cidade devido aos cinqüenta justos que estão no seu seio…?”
Abraão, pouco a pouco, teve que reduzir o número de justos para que Sodoma não fosse destruída.  “Que o meu Senhor não se irrite e falarei uma última vez: talvez encontremos dez justos…” (cf. Gênesis 18, 16)  Meditar como Abraão é interceder pela vida dos homens, nada ignorar da sua podridão e, no entanto, “jamais desesperar da misericórdia de Deus”.  Esse tipo de meditação liberta o coração de todo julgamento e de toda condenação, em qualquer tempo ou lugar; quaisquer que sejam os horrores que você venha a contemplar, ele chama o perdão e a bênção.  Meditar como Abraão nos leva ainda mais longe.  A palavra tinha dificuldade em sair da garganta do padre Serafim, como se ele tivesse querido poupar o jovem de uma experiência pela qual ele próprio tivera que passar e que despertava na sua lembrança um sutil tremor: isso pode nos levar até ao Sacrifício…  e ele citou a passagem do Gênesis onde Abraão se mostra pronto a sacrificar seu próprio filho Isaac.  “Tudo pertence a Deus, continuou o padre Serafim, murmurando.  Tudo é dele, por ele e para ele”; meditar como Abraão o conduz a essa total falta de posse de si mesmo e daquilo que você tem de mais caro… procure aquilo que lhe é mais caro, aquilo com o qual você identifica o seu eu: para Abraão era o seu filho, seu único filho.  Se você é capaz desse dom, desse abandono total, dessa infinita confiança naquele que transcende toda razão e todo bom senso, tudo lhe será dado cem vezes mais: “Deus proverá”.  Meditar como Abraão é não ter nada no coração e na consciência “além d’Ele”.  Quando ele subiu até o topo da montanha, Abraão só pensava em seu filho.  Quando ele desceu, ele só pensava em Deus.
Passar pelo cimo do sacrifício é descobrir que nada pertence ao “eu”.  Meditar como Abraão é unir-se pela fé àquele que transcende o Universo, é praticar a hospitalidade, interceder pela salvação de todos os homens.  É esquecer-se a si mesmo e romper os apegos mais legítimos para descobrir-se a si mesmo, nossos próximos e todo o Universo, habitado pela infinita presença “d’Aquele Único que É”.

Meditar como Jesus

O padre Serafim mostrou-se cada vez mais discreto.  Ele sentia os progressos feitos pelo jovem na sua meditação e na sua oração.  Ele o surpreendera diversas vezes com o rosto banhado de lágrimas, meditando como Abraão e intercedendo por todos os homens.  “Meu Deus, misericórdia, o que vai ser dos pecadores…?”  Um dia o jovem veio até ele e perguntou: “Pai, por que o senhor nunca me fala de Jesus?  Qual era a sua oração, sua maneira de meditar?  Não falamos de outra coisa durante a liturgia e os sermões.  Na oração do coração, como nos fala a Filocalia, é o seu nome que devemos invocar.  Por que o senhor não me fala  nada a respeito?”
O padre Serafim tinha o ar perturbado.  Era como se o jovem lhe pedisse algo indecente, como se fosse preciso revelar seu próprio segredo.  Quanto maior é a revelação que recebemos, tanto maior deve ser a humildade daquele que a transmite.  Sem dúvida, ele não se sentia humilde o suficiente: “Isso, apenas o Espírito Santo pode ensinar-lhe.  Ninguém sabe quem é o Filho, senão o Pai; nem quem é o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.” (Lucas 10, 22).  É preciso que você se torne filho para orar como o filho e manter com Aquele que ele chama de seu Pai e nosso Pai as mesmas relações de intimidade que Ele e isso é obra do Espírito Santo, ele o lembrará de tudo aquilo que Jesus disse.  O Evangelho se tornará vivo em você e ele lhe ensinará a orar como é preciso.”  O jovem insistiu.  “Diga-me alguma coisa a mais.”  O velho sorriu.  “Agora, o melhor que eu tenho a fazer é começar a latir.  Mas você também tomaria isso por um sinal de santidade.  Então, é melhor simplesmente dizer-lhe as coisas.”
Meditar como Jesus recapitula todas as formas de meditação que eu ensinei até agora.  Jesus é o homem cósmico.  Ele sabia meditar como a montanha,  como a papoula, como o oceano, como a pomba.  Ele também sabia meditar como Abraão.  O coração não tinha limites, ele amava até seus inimigos, seus carrascos: “Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem”.  Ao praticar a hospitalidade para com aqueles que chamamos de doentes e de pecadores, paralíticos, prostitutas, colaboradores…  À noite ele se retirava para orar em segredo e aí, ele murmurava como uma criança: “abba”, o que quer dizer “papai”…  Isso pode lhe parecer irrisório, chamar de “papai” o Deus transcendente, infinito, incomparável, que está além de tudo!  É quase ridículo e, no entanto, essa é a oração de Jesus e nessa simples palavra, tudo era dito.  O céu e a terra tornam-se terrivelmente próximos.  Deus e o homem fazem apenas um.  Talvez seja necessário dizer “papai” à  noite para compreender isso…  Mas hoje em dias essas relações íntimas de um pai e de uma mãe com seus filhos não querem dizer mais nada.  Talvez essa seja uma imagem ruim…?
É por essa razão que eu prefiro nada dizer, não utilizar nenhuma imagem e esperar que o Espírito Santo coloque em você os sentimentos e o conhecimento que estavam em Jesus Cristo e que esse “abba” não venha da ponta dos seus lábios mas do fundo do seu coração.  Nesse dia, você começará a compreender o que é a oração e a meditação hesicastas.”  Agora, vá!

O jovem ficou ainda alguns meses no Monte Athos.  A oração de Jesus o conduziu aos abismos, por vezes aos limites de uma certa “loucura”: Não sou mais eu que vivo, é o Cristo que vive em mim” – a exemplo de São Paulo, ele podia dizer essas palavras.  Delírio de humildade, de intercessão, de desejo “que todos os homens sejam salvos e alcancem o pleno conhecimento da verdade.”  Ele tornou-se Amor, ele tornou-se fogo.  A sarça ardente não era mais uma metáfora, mas uma realidade: “Ele queimava e, no entanto, ele não era consumido.”  Estranhos fenômenos de luz visitavam o seu corpo.  Alguns diziam tê-lo visto caminhar sobre a água ou manter-se sentado, imóvel, a trinta centímetros do chão…
Dessa vez, o padre Serafim começou a latir: “Chega!  Agora, vá!” e ele pediu que ele deixasse o Monte Athos, que ele voltasse para casa e ali ele veria o que sobrava das suas belas meditações hesicastas!… O jovem partiu.  Ele voltou para a França.  Acharam que ele tinha emagrecido e não acharam nada de espiritual na sua barba de aspecto sujo e seu ar negligente…  Mas a vida da cidade não fez com que ele esquecesse o ensinamento do seu stárets!
Quando ele se sentia muito agitado, sempre sem tempo, ele ia se sentar como uma montanha na varanda de um café.  Quando ele sentia em si o orgulho, a vaidade, ele lembrava-se da papoula, “toda flor murcha”, e novamente seu coração voltava-se para a luz que não passa.  Quando a tristeza, a raiva, o desgosto invadiam sua alma, ele respirava ao largo, como um oceano, ele tomava fôlego no sopro de Deus, ele invocava seu Nome e murmurava: “Kyrie eleison…”  Quando ele via o sofrimento dos homens, sua maldade e sua impotência em mudar alguma coisa, ele se lembrava da meditação de Abraão.  Quando ele era caluniado, quando diziam coisas infames a seu respeito, ela ficava feliz por meditar com o Cristo…  Externamente, ele era um homem como os outros.  Ele não procurava ter “ares de santo”…  Ele até esquecera que praticava o método da oração hesicasta, ele simplesmente tentava amar Deus instante após instante e caminhar na Sua Presença…

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Jean-Yves Leloup (extraído do site do autor)

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Quando tratamos da espiritualidade cristã não estamos pisando em terreno pequeno. Trata-se de algo extenso, amplo e ao mesmo tempo de exuberante profundidade. O caminho místico, na pena de alguns autores, foi retratado como uma subida a um monte, onde o objetivo é alcançar o cume. Em outros como uma edificação, um castelo onde um Rei Glorioso habita e aguarda ansiosamente pela chegada de seus súditos amados. S. João da Cruz e S. Teresa de Ávila, respectivamente, brindaram-nos com essas percepções do avanço na vida interior em suas obras “Subida ao Monte Carmelo” e “Castelo Interior”

Pegando emprestado a alegoria da mística espanhola podemos pensar na espiritualidade humana como uma edificação, se você preferir, um prédio. Nesse prédio encontramos apartamentos, escadas, janelas, ou seja, tudo o que existe em um prédio comum. Contudo, nossa atenção deve se voltar para os fundamentos da obra. De nada nos vale um prédio bonito e funcional, cujos alicerces não ofereçam firmeza nem sustentação a toda a estrutura acima edificada. O próprio Senhor nos advertiu a esse respeito quando no final de seu sermão exortou seus ouvintes a não edificarem suas casas na areia, mas, na rocha. O fundamento é tudo!

Pensando na vida mística cristã, podemos falar de dois alicerces que sustentam e põe de pé a espiritualidade. Se temos um, mas, nos falta o outro, corremos grande perigo de que nossa vida com Deus, nossa busca unitiva com Aquele que é Totalmente Outro, literalmente desmorone. Sendo assim, podemos falar da Vida Contemplativa e da Vida Ativa como os dois alicerces da caminhada mística na espiritualidade cristã.

A verdadeira mística nos impele na direção de Deus e do mundo imerso em Deus. Na verdade, não pode existir vida contemplativa verdadeira se a mesma não desemboca numa vida ativa, de serviço, como resposta à primeira. A vida contemplativa se ocupa com o não ocupar-se de nada que seja ativo. Seu alvo é a busca da união com Deus através do caminho interior do silêncio, da solitude e da meditação bíblica. Ela exatamente rompe com as compulsões da vida pós-moderna com seu ritmo apressado e nos insere num mundo de quietude onde a Palavra sussurrada converge e recria tudo e todos no Cristo envolto em mistério.

Por outro lado a vida ativa compele-nos à ação. O seu  chamado é de que nos tornemos sal da terra e luz do mundo. Conclama a todo servo e serva de Deus a trabalhar para fazer do mundo presente um lugar de justiça, retidão e santidade. Os místicos da vida ativa compreendem que a atividade e o trabalho ao invés de significarem a interrupção da contemplação divina, pelo contrário lhe empresta peso e significado. Assim, a vida ativa seria o viver em Cristo, o viver Deus na realidade mais essencial e mais imediata de cada ser humano: a vida, o cotidiano.

Até mesmo as ordens monásticas testemunham da conexão inexorável de vida contemplativa e vida ativa que deve existir na vida do verdadeiro discípulo de Cristo. A  Lectio Divina ou leitura orante das Escrituras se apresenta como um ponto de convergência dos dois alicerces espirituais. Na escada mística da Lectio Divina, leitura, meditação, oração e contemplação devem conduzir-nos a uma resposta dupla: Quem sou eu? e “Qual o meu papel nesse drama da salvação divina que se chama mundo?”. Resumindo, o místico ao final de seu encontro unitivo com o Cristo vivo deve-se perguntar “O que devo fazer em resposta ao que ouvi?” A verdadeira contemplação deve afluir da graça divina e fluir na direção do mundo como um rio de amor e graça salvadoras. Encontro com Deus que não nos levar a amar nossos inimigos, a servir o próximo em amor e a ministrar pelo bem dos pecadores, é menos do que o proposto. O verdadeiro místico abraça o mundo pela ação, ao passo  em que se desapega do mesmo pela contemplação.

União com Deus e união com o mundo. Contemplação e ação. Desta forma “Ora et labora, permanece o lema daqueles que compreenderam ao longo dos séculos, que aquele que procura a Deus pelas noites escuras da alma, na subida do Carmelo e em meio ao palácio de cristal, acha também no decorrer da jornada, o mundo todo.

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