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Archive for junho \30\UTC 2012

O deserto é possivelmente uma das mais claras representações da ausência de vida e esperança. Beduínos e Tuaregues – povos do deserto – desenvolveram milenares técnicas de sobrevivência para resistirem à angustiante mistura de sol, calor e areia. Anos atrás, atravessei a parte ocidental do Saara e, apesar de estar acostumado com as temperaturas tropicais, nada me preparou para os 54 graus à sombra durante aquelas tardes. Lembro-me que o pensamento mais obsessivo e recorrente era simplesmente água, o elemento mais desejado em terras áridas.

Davi escreveu o Salmo 63 no deserto de Judá, enquanto fugia de Saul. Encontrava-se em um dos momentos mais constrangedores de sua vida. Além de estar no deserto, tomado pelo desconforto e temores natos ao ambiente, seu povo e rei o perseguiam.
Contrariando a natural tendência do descontentamento de coração perante as caminhadas desérticas, Davi revela, ali mesmo na areia, que a sua alma tinha “sede de Deus”. Este parece ter sido o pensamento mais paradoxal que passou pela mente do salmista: a sede de Deus era maior que a sede de água. A busca pela presença de Deus era mais forte que qualquer outra carência humana.
Quando em caminhadas solitárias e perseguidos pelos que antes eram mais chegados que irmãos, devemos nos conscientizar desta verdade transformadora: precisamos mais de Deus em nossas vidas do que água no deserto. C.S. Lewis nos diz que “o amor é o princípio da existência, e seu único fim”. Com isto nos incita a pensar que o amor não é apenas o meio, mas também o propósito final. Somos convidados, em toda a caminhada cristã, a andar de forma paradoxal em expressões de amor: perder a vida para ganhá-la; oferecer a outra face a quem nos fere; esperar contra a esperança; amar, e não odiar, os inimigos; perdoar, mesmo perante óbvias razões para a amargura; desejar mais a Deus do que a água, mesmo quando se vagueia, foragido, por entre terras mais secas.
É nessa caminhada que encontramos descanso verdadeiro. Davi não apenas fala da possibilidade de descanso em Deus, mas o experimenta. Os principais verbos nos versos 6 a 8 estão no presente. Davi se lembra, pensa e canta o descanso em Deus enquanto caminha – não apenas o planeja fazê-lo amanhã. Reconhecer que a presença de Deus é melhor que a vida parece ser o exercício mais transformador – de mente, coração e visão de mundo – que qualquer pessoa possa experimentar.
Somos amados por Deus e esse fato deveria definir a forma pela qual vemos a vida e o mundo ao nosso redor. Ser amado por Deus é entender que somos convidados a um relacionamento eterno, é perceber que estamos em lugar seguro e saber que não há nada melhor.
A construção desta canção do deserto revela a alma de Davi. No verso 1, ele expressa que tinha sede de Deus. Nos versos 2 a 5, ele louva a Deus pelo Seu amor que é melhor que sua própria existência. Nos versos 6 a 8, Davi descansa no Senhor e, finalmente, nos versos 9 a 11, ele declara sua confiança na vitória sobre os inimigos.
Encontro-me rotineiramente com pessoas as quais, à semelhança de Davi, experimentam a solidão do deserto, o constrangimento da fuga e a incerteza dos que não sabem para onde vão. A vida, nesses momentos, torna-se mais lenta, opaca e pesada. Porém, justamente em ocasiões assim, a presença de Deus nos convida a crer um pouco mais e nos encoraja a continuar caminhando. Em um relance olhamos para trás e percebemos que no passado o Senhor foi fiel, mesmo no dia mais escuro. Amanhã não será diferente. A presença de Deus sempre traz à memória o que pode nos dar esperança.
Lutero, citado por Mahaney em seu livro “Glory do Glory”, diz-nos que: “esta vida, portanto, não é justiça, mas crescimento em justiça. Não é saúde, mas cura. Não é ser, mas se tornar. Não é descansar, mas exercitar. Ainda não somos o que seremos, mas estamos crescendo nesta direção. O processo ainda não está terminado, mas vai prosseguindo. Não é o final, mas é a estrada. Todas as coisas ainda não brilham em glória, mas todas as coisas vão sendo purificadas”.
 
Que o Senhor se mostre presente em nossas vidas. Nestes dias o deserto se tornará lugar de alegria e descanso.
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* Ronaldo Lindório é pastor e missionário presbiteriano – extraído do site Genizah

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Um dos grandes desafios que a espiritualidade cristã clássica nos traz é o resgate da leitura das Sagradas Escrituras com o coração. Numa época em que a devoção tem cedido espaço para a investigação teológico-acadêmica, onde a leitura bíblica assume um caráter estritamente intelectual,  achegar-nos novamente ao Livro para dele degustar cada palavra, cada frase, cada expressão é de grande importância para nossas vidas espirituais.

Esse tipo de leitura a que nos referimos é o que popularmente foi denominado de ler a Bíblia com o coração. O que vem em contrapartida de se ler as Escrituras apenas utilizando as faculdades da mente. É deitar os olhos não para saber apenas, mas sobretudo, para ouvir. É o ler no intuito não de conhecer sobre Deus,mas, a Deus. É mergulhar na imensidão do oceano escriturístico com atenção amorosa para poder perceber e acessar a gloriosa Presença do Totalmente Outro. É o tipo de disciplina espiritual que tem como pano de fundo a compreensão que Deus não é um objeto de investigação a ser dissecado afim de satisfazer nosso narcisismo intelectual, mas, um indivíduo de relacionamento a ser amado e tido como objeto de nossos mais profundos deleites (Sl 37:4; Fp 4:4).

A verdade de que uma proposta como essa cause estranheza na maioria dos cristãos nos dias de hoje, se dá pelo fato de que somos produtos de um cristianismo nascido da ruptura entre razão e emoção. Até a idade média a leitura bíblica bem como o estudo da teologia tinham como propósito principal conduzir o cristão a uma experiência de contemplação divina: um encontro/união com Deus. Celebrava-se o mistério. Via-se na atitude do cristão uma postura de adorador. O fascínio, o silêncio reverente e o senso de transcendência integravam a espiritualidade do servo e da serva de Deus daquela época. O resultado de tudo isso é que não existia a diferença entre ler a  Bíblia e orar. No entendimento clássico não se tratavam de dois movimentos distintos e sequenciais, mas sim, simultâneos.  Oravam-se as Escrituras.

Acredito que o resgate dessa forma de ler a Bíblia é parte da solução para o estado do evangelicalismo pós-moderno dos dias atuais. Se fossemos descrever o cristianismo presente na vida das pessoas poderíamos classifica-lo tão simplesmente como superficial.  A crença e a praxe cristã epidérmicas que têm acometido a igreja em nosso tempo, roubou-lhe a profundidade e a experiência com o Sagrado.  E como consequências dessa perda vemos surgir duas atitudes distintas, falsas espiritualidades.

A primeira é o engessamento da vida espiritual que se caracteriza pela frieza e total desprovimento de emoções e afetos na relação com Deus. Particularmente, esse resultado vem direto da ruptura medieval razão/emoção. No entanto em nenhum momento as Escrituras condenam a presença das emoções na experiência espiritual. Pelo contrário, elas não apenas reconhecem sua existência (Sl 30:5b), mas também revelam que as mesmas são importantes para Deus (Sl 56:8) e que portanto devemos celebrá-las (1Pe 1:7,8).

A segunda atitude decorrente da perda da profundidade na experiência cristã é  a outra ponta da corda, a qual é tão nociva quanto a primeira. Refiro-me ao emocionalismo exacerbado que vem de mãos dadas com a busca por experiências místicas como um fim em si mesmas. Novamente Deus aqui é colocado com um meio a se obter algo e não como um sujeito com o qual nos relacionar amorosamente. Não resta dúvidas que os grandes místicos da tradição cristã, os quais pregaram, ensinaram, escreveram e experimentaram a leitura bíblica com o coração, iriam estranhar profundamente esse tipo de espiritualidade tão difundida atualmente por esse segundo grupo. Esses servos e servas de Deus reconheciam a existência de experiências de êxtase, vozes, visões e coisas desse gênero. No entanto, afirmavam categoricamente ser as mesmas não usuais e não essenciais para a vida cristã autêntica. No entendimento deles a experiência mística acontecia exatamente a partir do contato das Escrituras, no silêncio recolhedor, na solitude recriadora que conduzia o filho de Deus ao encontro pessoal com o Cristo ressurreto. Além disso também asseveravam acerca da necessidade de uma percepção sacramental da vida onde Deus poderia e deveria ser encontrado por detrás das experiências corriqueiras do cotidiano. O extraordinário vindo a nós pelas vias do ordinário. Que ideia arrebatadora!

A luz de tudo que foi dito acima, como podemos de forma concreta e prática efetuarmos esse tipo de leitura que contempla a Bíblia não apenas com a mente e o intelecto, mas também com o coração e as emoções? Eis algumas orientações:

1. Introduza o silêncio no momento de sua leitura bíblica. A sugestão aqui é que, antes de abrir a Bíblia e começar a ler, se separa alguns instantes para simplesmente ficar em silêncio, quem sabe uns 10 minutos. O propósito dessa prática é nos disciplinarmos a estar totalmente presentes no momento para Deus. Aquietando-nos, tomamos consciência da Grande Presença (Sl 46:10;  Hc 2:20).

2. Separe um trecho não muito longo das Escrituras. Quem sabe apenas alguns versículos ou até mesmo apenas um. De uns tempos pra cá inventou-se uma espiritualidade que se preocupa com a quantidade e não a qualidade do momento. Do que nos adiante lermos grandes porções da Bíblia, capítulos ou até mesmo livros de uma vez só, e não ouvirmos o Senhor nos falando ao coração? Devemos ter em mente que a proposta aqui não é angariar informações sobre, mas, experimentar de forma pessoal a Deus.

 3. Leia o texto bíblico devagar. Sim. Por que a pressa? Por que passar os olhos batidos por essa carta de amor que o Pai endereçou a nós? Portanto, leia uma, duas, três e quantas vezes forem necessárias. Permita que cada palavra, cada expressão “caia”  com peso sobre o seu coração. E em atitude de amorosa espera, permaneça na leitura até que sua atenção seja chamada para algo dentro do texto Sagrado. 

4. Saboreie o que Deus lhe entregou no texto. Pode ter sido até mesmo uma única expressão como por exemplo “…Deus amou o mundo…” (Jo 3:16). Faça perguntas diretas ao texto: qual a relação que isso tem comigo?; o que isso se relaciona ao mundo para o qual devo ministrar?; o que Deus está querendo me dizer através disso? etc. Permita que o Espírito Santo impregne seu interior com toda a seiva espiritual contida na Palavra. Mais uma vez reitero: tudo isso sem pressa. Não há porque correr. Você não está perdendo tempo, mas, investindo numa amizade eterna (Jo 15:15).

5. Responda de forma amorosa ao que Deus lhe falou. Agradeça, louve, suplique, interceda ou confesse em resposta ao que o Espírito Santo ministrou ao seu coração. Não fique indiferente à Palavra de Deus para você.

6. Permaneça na Presença  do Pai. Mais uma vez, por alguns minutos, silencie e apenas fique presente no momento junto com o Pai. Permita que tudo quanto você recebeu da parte dele assente no seu coração. Aqui, se assim desejar, pode ser utilizada uma frase de oração contemplativa como “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador” ou então algo mais simples como “Pai, pertenço a Ti”. Busque alinhar sua respiração com a  frase onde parte dela será recitada mentalmente ao inspirar e o restante ao expirar. Faça isso durante alguns breves momentos até que o Espírito de Deus conduza-o ao silêncio e quietude interiores.

Por fim, agradeça ao Senhor pelo encontro com sua Presença, pelo desfrute de paz e serenidade na alma. E com uma alegria vinda dos céus, indizível e cheia de glória, junte-se aos milhares que ao longo da história cristã fizeram coro com os discípulos a caminho de Emaús:

 Acaso o nosso coração não ardia pelo caminho, quando ele nos falava e nos abria as Escrituras?” (Lc 24:32)

 

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As narrativas que temos acerca de Deus determinam, substancialmente, a visão que desenvolvemos acerca de outras pessoas e de nós mesmos. O que são narrativas sobre Deus? Simples: são as idéias e imagens que temos em nossa mente acerca de quem Deus é e de como ele age, as quais nos foram transmitidas como herança por nossos pais, professores, líderes espirituais etc. Daí já se pode perceber o quanto elas são de suma importância para nossa cosmovisão, seja esta saudável ou não.

Na grande maioria dos cristãos espalhados pelas igrejas das diferentes confissões, existe um número esmagador de pessoas que foram expostas àquilo que podemos chamar de “narrativa do merecimento” onde o amor de Deus por nós é apresentado como uma dimensão estritamente condicionada ao nosso comportamento. Em outras palavras, Deus concede-me seu amor quando eu comporto-me bem. No momento em que “saio da linha”, Deus retem seu amor. Com isso, muitas pessoas vivem uma vida cristã aprisionada pela falsa ideia de que o amor de Deus é algo que eu tenho de obter e/ou merecer; que o objetivo da vida é buscar a aprovação de Deus através da observância de regras, mandamento e dogmas religiosos, na maioria das vezes criados pelo próprio homem. E, assim deixamos de experimentar a vida abundante e a liberdade para as quais fomos conquistados por Cristo (Jo 10:10; Gl 5:1).

A narrativa do merecimento não é exclusiva da vida eclesiástica e espiritual. Desde a infância dentro dos nossos lares somos colocados sob a opressão dessa visão distorcida pelos nossos próprios pais. Palavras do tipo “Bom menino. Arrumou o quarto como mandei”; “boa menina. Comeu toda a comida” e etc. fomentam na psique da criança que sua bondade ou valor para seus pais existem na mesma proporção em que atendem suas expectativas. Ao se tornar adulta, esta mesma criança, é lançada num mundo que cultua esse tipo de narrativa, onde a importância de alguém está para sua aparência, vitórias pessoais, sucesso profissional e bens materiais adquiridos. E o mais curioso e irônico é que quando essa pessoa acaba se convertendo a Cristo e passa a frequentar a igreja, ao invés desta lhe fornecer narrativas terapêuticas e libertadoras das antigas narrativas, seus grilhões acabam se tornando ainda mais rígidos e apertados pelo tipo de ensino e discurso a que é exposta no convívio da comunidade de fé.

Os resultados são desastrosos. Sabendo esta pessoa que nunca conseguiu alcançar as expectativas criadas por seus pais na infância e por seus chefes e patrões na vida profissional, acaba desenvolvendo uma baixo auto-estima, um ódio a si mesma que acaba sendo projetada sobre seu relacionamento com Deus. Ela raciocina: “se nunca consegui agradar meus pais e meus chefes, não é a Deus que vou conseguir.” Desta forma essa mesma pessoa se vê numa gangorra de altos e baixos na sua vida espiritual, emocional e psicológica na tentativa patológica de se buscar a todo custo merecer o amor de Deus e conseguir sua aceitação. 

É nesse exato momento que as pessoas desenvolvem uma válvula de escape psico-emocional para seu sentimento de inadequação perante Deus. Aqui começa-se a desenvolver aquilo que chamamos de “falso eu”. Ou seja, são máscaras que criamos para nos esconder por detrás delas, das pessoas e sobretudo de Deus. A enfermidade do “falso eu” é grande visto sua compulsão em buscar a todo e qualquer custo a aprovação dos outros e dos céus. É uma espécie de montanha russa em alta velocidade que está fadada a desprender-se dos trilhos. A destruição é certa!

No entanto quando somos conquistados pela revelação de que o amor de Deus não é algo que eu precise merecer, pois, eu já o tenho em Cristo, e que a aceitação divina já está presente em minha vida, porque eu sou aceito por Deus da mesma forma em que sou amado por ele, isso rompe os grilhões da falsa narrativa que antes me dominava, retirando-me das trevas da inquietação para a luz da confiança que vem da certeza de que meu Aba tem uma única opinião a meu respeito: “Tu és meu filho (mesmo que adotivo) amado. Em quem tenho toda alegria”. 

Esta é a minha identidade primordial: sou o amado de Deus. E a prova de que o merecimento ou o não merecimento pessoal, não tem qualquer influência sobre isso é o fato de que a Bíblia, e a experiência pessoal diária, atestam que dentro de mim ainda existe uma natureza mesquinha, maligna, rebelde, que faz oposição direta ao Espírito de Deus que agora também faz habitação no meu corpo (Gl 5:17). Tal natureza me conduz a cada dia a experimentar um misto de realidades conflitantes e paradoxais (Rm 7:15-19). A grande verdade aqui é o adentrar na dimensão do auto-conhecimento. É o confronto com a realidade do que eu sou: uma miscelânea de bem e de mal; virtudes e defeitos; bondade e malignidade; santidade e pecado. E acima de tudo a aceitação por mim mesmo de quem eu realmente sou, o meu verdadeiro eu. Brennan Manning, escritor norte-americano, diz que o começo de toda vida espiritual profunda acontece a partir da auto-aceitação de quem nós realmente somos. E daí aceitar igualmente que Deus nos aceita e nos ama do jeito que somos e não do jeito que deveríamos ser. Porque, pelo menos deste lado da eternidade, nunca seremos do jeito que deveríamos ser. 

A sociedade agitada e barulhenta na qual estamos inseridos nos convida diariamente a sacrificarmos no altar da “narrativa do merecimento” quando nos estimula a mensurar nossas conquistas pessoais, a nos preocuparmos excessivamente com nossa aparência física e a buscar exaustivamente o último carro do ano ou a última tecnologia em celulares. Dado esse fato, permanecemos de forma alienada celebrando as máscaras auto-criadas da aceitação pública, nosso falso eu.

A imagem bíblica do deserto se apresenta para nós como resposta para a necessidade da busca do auto-conhecimento. É no ermo espiritual que sepultamos o “falso eu” com todas as suas compulsões e patologias e vemos emergir o “verdadeiro eu”, imperfeito, maltrapilho, não obstante, amado furiosamente pelo Pai. Na narrativa da tentação de nosso Senhor relatada no evangelho de Mateus 4:1-11 temos a narrativa do confronto de Jesus face a face com o próprio Satanás. E de como, com aquelas três tentações, o Maligno empreendeu a tentativa de fazer com que o Senhor abraçasse um “falso eu” que não aceitasse a necessidade (v.3), que buscasse a popularidade (vs.5,6) e que almejasse o poder e a riqueza (vs.8,9). 

A verdade por detrás da tríplice recusa do Senhor aos convites do Maligno foi a certeza de quem ele era. Jesus tinha bem esclarecido no seu mundo interior quem ele era e o seu papel a partir disso (Lc 3:22). Sua identidade primordial, seu verdadeiro eu, era que ele era o filho amado de Deus que alegrava demais o coração do Pai. 

Quando Deus nos conduz igualmente ao “deserto” lá somos confrontados com os “demônios” que habitam dentro de nós. Ao criarmos espaços em nossos dias para estarmos a sós com Deus, no silêncio contemplativo, começamos a ouvir as “vozes” que clamam no nosso interior. Vozes essas que na maioria do tempo abafam a voz de Deus que ininterruptamente se dirige a nós enquanto filhos amados de Aba. Enquanto não conseguimos nos aquietar saindo do meio do turbilhão das compulsões diárias, deixamos de acessar nossa verdadeira identidade e continuamos dando ouvidos à voz sedutora da antiga serpente que convida-nos a permanecer abraçados com o “falso eu”. 

Finalizo com a antiga história do discípulo e do mestre ancião. O jovem discípulo num dado dia chega até seu mestre, um homem em idade avançada, e lhe faz uma pergunta:

Mestre, o que faço para ser alguém iluminado?

O ancião faz um perído de longo silêncio, enquanto o jovem discípulo aguarda. Finalmente o ancião levanta os olhos em sua direção e lhe diz:

– Conhece-te a ti mesmo e julgue menos os outros.

Esse sem dúvida é um caminho de libertação! Que assim seja.

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Eu estava de saída para uma viagem a Santiago do Chile, a fim de participar de uma conferência com pastores e líderes locais. Ainda no aeroporto, aguardando o vôo, conversava com Deus sobre o meu momento de vida. Dentre muitas coisas, pedia ao Senhor sabedoria e orientação diante do cenário que me envolvia. Semanalmente, novas oportunidades surgiam diante de mim; novas demandas emergiam em minha agenda e novas conversas aqueciam meu coração para projetos aparentemente fascinantes.

Estava preocupado diante de tudo aquilo que acontecia. Sei que uma das razões que fazem com que homens e mulheres de Deus acabem por se perder, mesmo que bem intencionados em suas motivações iniciais, é a falta de uma clara percepção acerca do mover de Deus em suas vidas. Muitos passam a entender que toda oportunidade que surge é uma porta aberta pelo Senhor, ou que toda demanda que emerge é um desafio lançado pelo Espírito Santo. Há também aqueles para quem qualquer conversa que lhes aqueça o coração é uma visão de Deus que precisa ser assumida.

Para os que enxergam a vida nesta perspectiva, o mover de Deus acaba se confundindo com o empreendedorismo de nossos tempos ou com o anseio insaciável de nossas almas por sermos tidos como pessoas relevantes diante do mundo. Para gente assim, o mover de Deus sempre as convida para um tempo de ir, correr e vencer. Não existe a possibilidade de o Senhor chamá-las a um tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se. Por isso mesmo, querendo conquistar o mundo, acabam, infelizmente, perdendo a própria alma. Em meio às muitas oportunidades, demandas e desafios, confundem a ação do Senhor com as expectativas do meio ou com os anseios de seus próprios corações.

Na vida do rei Davi, os desertos se tornaram o convite de Deus para um tempo de contemplação e reflexão. Ele era um homem movido por desafios e com constante ímpeto para a ação – por isso, parece que somente em meio às adversidades ele encontrava tempo para redimensionar seu próprio coração. Assim, quando lemos as orações de Davi no livro de Salmos, percebemos um homem sondando sua própria alma e procurando perceber a ação de Deus em sua vida. Em situações de adversidades, dores e aflições, Davi se convencia de que seu Deus não o convidava constantemente a ir, correr e vencer; mas, em algumas ocasiões, o impelia a ficar onde estava, aquietar o coração e renovar sua alma.

Maria, irmã da superativa e dinâmica Marta, viveu uma situação diferente. Em sua vida, o tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se não é fruto de uma situação criada por Deus, mas de opções que precisava fazer. Cercada por gente constantemente voltada para a ação, que enxergava cada oportunidade como porta aberta pelo Senhor, cada demanda como um desafio do Espírito e cada conversa como visão de Deus, torna-se normalmente mais difícil encontrar espaço para aquela reflexão espiritual. Mas Maria rompe com seu ambiente, resiste às expectativas que as pessoas à sua volta tinham acerca de si e resolve sentar-se aos pés de Jesus para ouvi-lo. Jesus, por sua vez, encoraja a opção feita por Maria, demonstrando que na caminhada cristã há, sim, tempo de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se.

Mas o maior exemplo de que Deus nos convida a esses momentos encontra-se na própria vida de Jesus. Em seu curto ministério terreno, Cristo tinha um enorme desafio diante de si. As demandas eram inúmeras; as necessidades, infindas, e as frentes de trabalho, imensas. No entanto, vemos nos Evangelhos episódios em que o Filho de Deus sobe montes ou procura lugares desertos a fim de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se na presença do Pai. Apesar da pressão das multidões, ele afastava-se em submissão ao mover de Deus para um tempo de silêncio e descanso. No entanto, este não era um tempo de contraponto à sua missão – mas sim, um espaço integrante e essencial na mesma.

Durante uma manhã livre naquela viagem a Santiago, um querido e antigo amigo me levou para subir as cordilheiras até um lugar chamado Vale Nevado. Fomos e voltamos conversando sobre muitas coisas. Há muito tempo não tinhamos oportunidade de nos falar. No entanto, em meio às muitas palavras e diante de paisagens fantásticas, deparei-me com uma cena que me chamou a atenção. Do local, podiamos contemplar um enorme e fantástico monte coberto de neve. Seu aspecto era imponente e fascinante. Era impossível passar por ali sem admirá-lo. Mas ainda no mesmo foco de visão, bem mais próximo de nós, na margem da estrada, inúmeras árvores com seus galhos completamente secos contrastavam a imponência e fascínio da montanha branca.

Minha atenção ficou dividida entre as duas cenas contrastantes. Foi então que meu amigo, olhando para aquelas árvores, disse: “Interessante, não? Elas parecem mortas. Quem olha pensa que não resistiram ao inverno. No entanto, estão assim porque, percebendo o rigor da estação fria, concentram suas forças e energias no caule. As folhas caíram e os galhos secaram, mas toda a sua vitalidade encontra-se concentrada no caule. Para elas, agora não é o tempo de florescer, mas de resguardar-se para, no tempo certo, voltar a produzir folhas, flores e frutos. Este é o ciclo da vida.”

Ouvindo aquelas palavras e tendo os meus olhos fixos naquelas árvores, ouvi a resposta de Deus para a oração que havia feito antes de partir do Brasil. Nem sempre é hora de ir, correr e vencer. Existem tempos em que o Senhor nos convida a ficar em sua presença, e ali aquietar nossa mente e renovar nossa alma. Em meio a tantas coisas e situações que nos envolvem, precisamos ter a sensibilidade para perceber que o Senhor, por vezes, não deseja que façamos tudo ou aceitemos todos os desafios. Existe também o tempo em que seu mover nos convida a concentrarmos nossas forças e energias no que é essencial e imprescindível: a nossa relação com ele.

Às vezes, como acontecia na vida de Davi, Deus precisa criar desertos em nossa história para nos convencer desta verdade. Noutras situações, assim como o fez Maria, podemos exercitar nosso poder de decisão contra o meio que nos impele a constante atividade, optando por simplesmente quedar-nos aos pés de Cristo. Mas também podemos olhar para Jesus e perceber o convite para vivermos em maturidade, integrando este tempo como parte essencial e imprescindível da missão de Deus para as nossas vidas.

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* Ricardo Agreste – é pastor presbiteriano na igreja Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera

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“Precisamos encontrar Deus, mas ele não pode ser encontrado no ruído e na agitação.

Deus é amigo do silêncio. Veja como a natureza – as árvores, as flores, a relva – viceja no silêncio. Veja as estrelas, a Lua, o Sol, como se movem no silêncio.

Nossa missão não é levar Deus aos pobres? Não um deus morto, mas um Deus vivo, cheio de amor.

Quanto mais recebemos, em oração silenciosa, mais podemos dar em nossa vida atarefada. Precisamos de silêncio para tocar outras almas.

O essencial não é o que dizemos, mas o que Deus diz a nós e por meio de nós.

Todas as palavras serão inúteis se não brotarem do interior. As palavras que impedem o brilho da Luz de Cristo só fazem aprofundar as trevas.”

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* Madre Teresa de Calcutá – extraído do livro “Convite à Solitude” – Brennan Manning – Ed. Mundo Cristão.

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Anacorese é uma palavra grega, que em tradução simples, significa, retirada, e em certo sentido, fuga. O contexto dentro do qual ela nasceu é muito interessante.

O quarto século da era cristã foi um dos pontos de mutação da espiritualidade cristã. Naquele momento a conversão do Imperador Constantino ao Cristianismo mudou radicalmente a vida de toda população do império, especialmente os cristãos que, dentro daquele contexto, eram perseguidos a ponto de pagarem com sua própria vida e bens. Através do famoso Edito de Milão, eles têm seus direitos básicos restaurados, sua religião tolerada, permitida e oficializada como a do Imperador. Das catacumbas para o palácio; das margens sociais para a evidência urbana; da pobreza para a riqueza; assim, a chamada igreja de Cristo viu sua posição ser transformada. Todas essas benesses trouxeram efeitos coletarias, os mais evidente deles: a superficialidade e o descompromisso. Outrora, enquanto seguir a Cristo era uma atitude de radical compromisso, posto que,isso poderia custar a própria vida de quem o confessasse Senhor dentro de um estado ditatorial, no qual o soberano imperador era quem ocupava este lugar, agora ser cristão passou simplesmente um ato de frequentar os novos templos. Eram belos e ricos, alguns deles de deuses “pagãos” que foram tomados a força pelos cristãos que – mutatis mutandis – assumem o papel de perseguidores, violando os mesmos diretos que foram violados quando estavam na condição de perseguidos.

Neste momento aconteceu uma das mais drásticas e prejudiciais mudanças para o cristianismo que perdura até hoje e certamente vai estar presente ainda por muito tempo. A igreja deixou de crescer de maneira orgânica e relacional, como fruto do discipulado acontecido nas sombras do império, para se preocupar em atrair pessoas para os seus templos. O foco deixou de estar sobre a formação que produz um crescimento transformador da massa, para a atração dos que estão fora. Percebam a mudança: antes o cristão ia até onde as pessoas estavam e ali, pela força do seu testemunho, as convidavam para uma jornada perigosa de seguir a Cristo. Agora, bastava trazê-las para o conforto dos bancos nos templos para ouvir a retórica dos líderes preparados na arte de esculpir um discurso persuasivo. Têm-se notícias de que as liturgias sofreram dramáticas mudanças de contextualização a fim de atender as necessidades da elite, especialmente a ligada ao palácio. Não é difícil supor como, neste cenário, os líderes religiosos deixaram de lado a piedade e retidão, para mergulhar num estilo de vida marcado pela politicagem, pela busca de prestígio, poder, dinheiro, fama… essas coisas com as quais todos já estamos familiarizados.

A anacorese tem suas raízes neste momento quando tudo passava por tremendas transformações. Com o desaparecimento dos mártires, uma vez que, não se precisava pagar com a vida a fé professada – agora assimilada pelo império. Assim, para salvar o cristianismo da derrocada pela qual passava, necessário era se forjar um novo tipo de cristão buscando os antigos ideias perdidos. Surge então o anacoreta, aquele que vive a anacorese, ou em bom português, aquele que se retira e faz deste retiro o seu estilo de vida. Os anacoretas viram o caos espiritual, político e social do mundo de então vendo que ele estava condenado nas suas bases. Viver dentro dele era ser fatalmente assimilado, pois os únicos capazes de transformá-lo, já haviam sido cooptados pela sua lógica. Assim vão para os desertos e buscam ali construir uma nova ordem social, recuperar o paraíso perdido, criar uma novo modo de existir. Mais que isso: refugiaram-se ali na solidão desértica para serem melhores intercessores do mundo!Entendiam que a melhor maneira de ajudar a parar a degradação era, na distância da mesma, dedicarem-se tão severamente a Deus, que o maligno iria recuar pelo poder de suas orações. Por mais incrível que possa parecer, a anacorese, como modelo de vida, fez gerar um dos movimentos espirituais mais importantes da história, que iria influenciar toda a igreja nos nove séculos seguintes e tornar-se-ia uma das mais proeminentes forças a moldar o civilização ocidental.

Que ideia poderosa: retirar-se para estar com Deus! Como podemos vivê-la hoje? Será que no nosso atarefado dia não haverá espaços anacoréticos, momentos de retirada, de quebra com a agitação somente para estar com o Senhor de toda paz? Por que não fazer pequenos retiros de uma ou duas horas nos finais de semana? Não seria a própria sala, as vezes tão apertada dos nossos apartamentos, um lugar que poderia sertransformado no nosso deserto momentâneo, num sábado de manhã, por exemplo, com um espaço de atenta dedicação a Deus, sem interrupções? O que dizer da hora do nosso almoço de trabalho? Há algum lugar de relativa quietude para onde possamos fazer nossa anacorese, nossa retirada para estar com Deus? E se…

Não nos esqueçamos, o poder da anacorese.

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* Eduardo Rosa Pedreira é doutor em teologia, pastor presbiteriano  na Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca/RJ e presidente do Renovare Brasil.

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A maiêutica é um método de aprendizado inventado pelo filósofo grego Sócrates (469-399 a.C.). Ele cria que a verdade estava dentro dos seus discípulos, cabendo-lhe, como mestre, apenas a tarefa de promover o chamado “parto intelectual”. Em outras palavras, o processo ajuda a nascer aquilo que o discípulo intuitivamente já sabia, mas por si só não era capaz de gerar. Usando desta metodologia, que consistia em fazer perguntas e não trazer informações prontas, o sábio ensinava seguidores a dar luz a novas ideias e a todo um conceito de viver. Foram as perguntas, e não as respostas, o ponto de partida de um dos momentos mais férteis do pensamento humano.

Fazer perguntas sem a preocupação de fornecer-lhes respostas pode nos levar a trilhar novos caminhos ou reencontrar rumos que já perdemos. Por exemplo – a nossa experiência com Deus tem várias dimensões ou somente uma? Se tem várias, quais são? Podemos dizer que há uma dimensão exterior desta experiência, perceptível ao olhar daqueles que conosco convivem e a nós mesmos? Mas também é possível afirmar que existe uma outra dimensão, que é interior e não percebida aos outros e a nós? O que acontece em nosso interior quando realmente estabelecemos uma relação de profunda intimidade com Deus? O que se mexe e remexe dentro de nós? Que transformações se dão? É esta dimensão interior da experiência com o Senhor a base para todas as outras?

O viver com Deus segue a ordem do “de dentro para fora”? Tem esta dimensão interior uma primazia sobre a exterior?  Ou não tem? Se não, então podemos buscar a Deus fora de nós sem, primeiro, tentar vivê-lo em nosso interior? Ou estas duas dimensões – a exterior e a interior – acontecem sempre unidas uma à outra? Ao encontrar Deus fora de mim, automaticamente passo a vivê-lo dentro de mim? Por outro lado, será que esta divisão do interno e do externo não é meramente algo da reflexão teórica de um artigo como este, e na prática tais realidades são indivisíveis? Mas, se por um momento acharmos que sim, a dimensão interior da experiência com Deus vem em primeiro, se entendermos que é exatamente ali, no coração, “onde nascem as fontes da vida” – para usar a linguagem do poeta – é que tudo começa?

Não seria isso que o sábio autor de Provérbios quis dizer quando afirmou que, sobre tudo que se deve guardar, guarde-se o coração? Não terá sido esta a lição que Jesus quis ensinar-nos quando disse algo como: “Do coração procedem os maus pensamentos: mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias”?  Se é assim, então os místicos estavam certos todo o tempo? Vale a pena então mergulhar profundamente na dimensão interior da experiência com Deus para de lá organizar toda a vida externa? Então, Thomas Kelly, devotado pastor quaker, estava na direção certa quando, em seu belíssimo livro Um testamento de devoção, afirma que há um centro divino em nós, a partir do qual todo o resto deve orbitar? Sim, a prevalecer esta lógica, outro Thomas, o Merton, monge trapista, estava correto quando optou por uma vida contemplativa, na qual tudo começa no interior para desabrochar exteriormente, como reflete em seu impactante livroExperiência Interior?

Se esta dimensão interior deveria ser melhor cuidada por nós todos, então quão pobre existencialmente tem sido a complexa vida dos cristão em nossas igualmente complexas cidades? Mas como cultivar algum nível de experiência interior com Deus se o despertador toca e com ele o ritmo alucinadamente externo se impõe na nossa vida? Como viver tal dimensão interior quando se está preso num baita engarrafamento? Seria possível cultivar o senso de presença de Deus dentro de nós se nosso interior está dominado pela tirania do urgente e do resultado que exigem de nós? Como dedicar tempo para esta dimensão interior quando, externamente, multiplicam-se os desafios para pagar contas, manter o emprego e guardar alguma coisa para a aposentadoria?

E quanto aos pastores? Como dar conta desta dimensão interior se cada vez menos eles são valorizados como homens de Deus e mais como oradores, que fazem da pregação ora uma plataforma de manipulação psicológica, ora um palco para exibição de intelectualidade? Como conseguir se interessar por Deus se existe uma enorme pressão para o crescimento das igrejas? Não estariam os ministros do Senhor, assim como a Igreja e a sociedade que a cerca, absoluta e irremediavelmente condenados à superficialidade? A trindade do nosso tempo – o deus-resultado, o filho-entretenimento e o espírito-distração – não estaria matando a dimensão interior da nossa experiência com Deus, mesmo quando estamos no culto?

Perguntas, simplesmente perguntas! Que sejam elas sementes a germinar uma reflexão capaz de nos levar às decisões e transformações necessárias para uma vida mais cheia de Deus.

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* Eduardo Rosa Pedreira é doutor em teologia e pastor presbiteriano na Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca/RJ

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