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Archive for agosto \24\UTC 2012

Metáforas. Particularmente, eu as amo. Elas estão presentes nos livros, nos relacionamentos, no cotidiano e na vida como um todo. Elas nos instigam, nos desafiam e nos fascinam com a riqueza de significados e percepções múltiplas que nelas se encerram. 

Ela é a linguagem dos poetas que, com a força da alma transcrita em versos e proza, contribui para que a vida se torne mais bonita. Ela inspira namorados ao romance. Faz-nos verter rios de lágrimas diante de sua sensibilidade ao mesmo tempo em que nos fascina com sua simplicidade quase pueril.

Deus é poeta e o mundo criado sua mais linda obra. E como não poderia deixar de ser, valeu-se da metáfora como linguagem favorita para comunicar-nos seu amor, poder e divindade. A ordem criada é uma grande metáfora quando convida-nos a uma visão sacramental que enxerga no que se vê  um “não sei o quê” a mais que transcende o que os sentidos podem captar e traduzir. Não é a toa que o apóstolo  Paulo celebrou a criação como a grande metáfora que revela as qualidades de seu Criador ao escrever – “Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifestado entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois o seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas…” (Rm 1:19,20). Essa é a riqueza da criação como metáfora divina: sempre tem algo a mais para se enxergar por detrás do doce perfume de uma flor ou do trotar de uma manada de corcéis selvagens. A sarça ainda arde diante de nossos olhos…. basta que paremos para observar.

Sempre ouvi dizer e li que a metáfora é a linguagem dos místicos (cristãos). E não poderia deixar de ser, pois, as metáfora contemplam o mistério. Na verdade elas nos convidam a adentrar no mistério de Deus. A revelação divina sempre se deu por intermédio de símbolos, figuras e metáforas. O começo de todas as coisas se utiliza da metáfora. Por exemplo quando lemos em Gênesis o relato da criação encontramos as seguintes palavras – No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia, e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas” (1:1,2). O termo no hebraico traduzido por “pairava” literalmente significa “chocava”. Eis a riqueza da metáfora: o Espírito de Deus estava tal qual uma ave-mãe trabalhando para que a vida fosse trazida à existência. Meu Deus! Que coisa linda! Só um bloco de granito não conseguiria se surpreender e se emocionar diante de um mistério como esse. E não menos significativo temos o relato de Deus passeando pelo jardim no entardecer do dia (3:8) como uma metáfora radiante. Ora, bem sabemos que Deus é espírito e não tem corpo. Seres humanos sim, que possuem um corpo físico, é que passeiam: nos shoppings, nos bosques e nas calçadas das ruas. Aqui somos tocados pelo mistério que a metáfora nos traz ao revelar um Deus que não está distante do que criou. Um Deus que interage com o mundo, que está interessado pelo mundo.  Metáforas e símbolos abarrotam a história da revelação e da salvação divina: tabernáculo, arca da aliança, tábuas da Lei, vestes sacerdotais, festas, templo etc, etc e etc.

E em se falando de salvação, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo que é sua personificação, foi um grande utilizador de metáforas. Para se referir ao reino de Deus: um semeador; o dono de uma vinha; um grão de mostarda e o fermento que leveda a massa.

Também foi rico seu uso para descrever Sua própria natureza e ministério: pão da vida;  luz do mundo; a porta das ovelhas; verdade; caminho; vida; videira verdadeira. Logo Jesus e seu evangelho são um convite a você e a mim para que leiamos, observemos, contemplemos e saboreemos a riqueza de metáforas que tem por objetivo revelar-nos a beleza e o poder do Reino de Deus. E o que dizer da utilização de nosso Senhor das figuras de um rio que flui de nosso interior e de um vento para descrever a presença e ação do Espírito Santo na vida dos que cressem? Simplesmente fascinante…!

O que nos parece ao lermos as Escrituras do Novo Testamento é que as metáforas dominam a mente de seus escritores sagrados. Não é apenas nosso Senhor que as utiliza. Por exemplo o apóstolo Paulo, também se vale delas ao descrever a igreja como um corpo, como uma família; e os dons concedidos pelo Espírito como presentes que nos foram dados por Deus, assim como um pai judeu de sua época presenteava seus filhos. O apóstolo Pedro usando a figura metafórica de pedras e de uma casa para descrever a natureza do sacerdócio de todos os verdadeiros cristãos. E o apóstolo João, que com sua experiência mística de visões e vozes nos brindou com o livro do Apocalipse encharcado de símbolos e metáforas para descrever as últimas coisas. 

Não nos restam dúvidas de que a história da revelação, o evangelho e a pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, bem como a revelação das Escrituras em especial a do Novo Testamento, são um convite à experiência mística da contemplação na medida em que nos insere no mistério de Deus a partir da meditação e percepção intuitiva que suas metáforas nos proporcionam. 

Claro, também não nos esqueçamos do que de Deus também podemos apreender através da pena de escritores, poetas e filósofos renomados que através da linguagem nos desbravam as riquezas de Deus que suas almas sensíveis conseguiram apreender. O próprio apóstolo Paulo parece ter reconhecido que algo de Deus podia ser recebido por vias, se assim podemos dizer, seculares (cf. At 17:28).  A grande verdade é que escritores, filósofos e sobretudo poetas são o que poderíamos chamar de “místicos” da vida secular. E muitos de seus escritos estão encharcados de Deus na exposição dos dramas vividos, esperanças alcançadas e alegrias extasiantes de seus personagens. Vale apenas lê-los.  

Por estas e outras razões é que de uns anos para cá tenho estudado e apreciado a teologia mística e a espiritualidade cristãs as quais celebram o mistério e o Sagrado através de metáforas e símbolos.  Elas não fazem da razão um deus, diferentemente da teologia meramente acadêmica,  quando se recusam a considerar aquele que é Totalmente Outro, que está acima e além de todo conceito ou ideia humanas, objeto de investigação e arrogante curiosidade intelectual. A teologia mística e a espiritualidade cristãs preservam o mistério que deve caracterizar uma vida de relacionamento com Deus pela fé e pelo amor. Elas fazem com que o servo ou a serva de Deus se prostrem perante aquele que é um Tu completamente diferente do eu e balbucie, tal qual criança, uma nota de reverente fascinação: “Oh…! Meu Deus, meu tudo!”  

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