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Archive for setembro \22\UTC 2012

Começo hoje a compartilhar uma série de textos objetivos acerca da FORMAÇÃO ESPIRITUAL. Busco demonstrar à luz das Escrituras que as múltiplas dimensões da espiritualidade que Jesus viveu formam um convite amplo para a imitação de sua vida. É necessário dizer que tudo o que será compartilhado a partir desse primeiro texto encontra-se debaixo de um contexto cristão. Ou seja, subtende-se que o estilo de vida e as práticas devam acontecer debaixo de uma realidade caracterizada por uma relação filial com Deus que nos é concedida  mediante a experiência salvífica e regenerativa com o Evangelho de Cristo, logo, com o próprio Cristo vivo e pessoal. 

Todos os textos dentro dessa série na verdade surgiram originalmente como uma série de mensagens que preguei em minha comunidade espiritual (igreja) e que recebeu o título de “As Seis Tradições da Espiritualidade Cristã e a Vida de Cristo”. Logo, o que estrei postando é uma adaptação da mesma. 

Espero sinceramente que os simples textos alicerçados no fundamento imutável das Escrituras possam estimular cada leitor a uma séria reflexão e ajustes necessários para que em cada filho e filha de Deus se cumpra o preceito registrado em 1Jo 2:6 – “Aquele que diz estar nele deve ANDAR como Ele ANDOU”. Um convite à vida. E que o Eterno nos abençoe nesse propósito. Amém!

JESUS O HOMEM CONTEMPLATIVO

Existe uma palavra chave que define a tradição contemplativa de espiritualidade. E essa palavra é “intimidade”. E podemos ver que a Bíblia é clara e pródiga em nos convidar ao crescimento e aprofundamento na intimidade com Deus.Quando olhamos com atenção para a vida de nosso Senhor Jesus Cristo nenhum aspecto é mais marcante do que exatamente sua intimidade com o Pai.

Algumas afirmações de Jesus no evangelho de João mostram bem essa intimidade. Por exemplo, em Jo 5:19 Jesus fala acerca de seu ministério – “Eu lhes digo verdadeiramente que o Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer, porque o que o Pai faz o Filho também faz”.Continuando sua explanação no verso 30 o Senhor declara – “Por mim mesmo, nada posso fazer; eu julgo apenas conforme ouço, e o meu julgamento é justo, pois não procuro agradar a mim mesmo, mas àquele que me enviou”.

No capítulo 14:10 encontramos as seguintes palavras do Senhor acerca de sua pregação – “As palavras que eu lhes digo não são apenas minhas. Ao contrário, o Pai, que vive em mim, está realizando sua obra”. E acredito que nenhum outro texto exprime mais a intimidade entre Jesus e o Pai do que o de Mt 11:27 – “e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.

A redescoberta da tradição contemplativa por parte de uma parcela do povo de Deus tem trazido uma grande contribuição para a formação espiritual cristã. E dentre os vários tesouros redescobertos, as disciplinas espirituais ocupam uma posição especial. E dentre elas, a oração tem um grande destaque. A tradição contemplativa também pode ser definida como a vida plena, embriagada, transbordante de oração.

Quando olhamos para Jesus percebemos que oração e vida não era uma realidade dicotômica na vida de Jesus. Orar e viver, viver e orar para Cristo era a mesma coisa. A oração e a vida de Jesus estavam entrelaçadas como os fios se entrelaçam para formar uma peça de vestuário. Nós vemos em Lc 3:21 que quando Jesus foi batizado por João ele “estava orando”. Também vemos que por ocasião da escolha dos doze apóstolos, Jesus foi sozinho para um monte e “passou a noite orando a Deus” (Lc 6:12).

Depois de uma tarde exaustiva em que ele curou a muitos expulsando demônios, Marcos nos relata que Jesus levantou-se “de madrugada, quando ainda estava escuro (…)” e “foi para um lugar deserto, onde ficou orando” (Mc 1:34,35).

E muitas e muitas outras passagens nos mostram a centralidade da oração na vida e ministério de Jesus. Por exemplo, ele estava orando quando perguntou: “Quem vocês dizem que eu sou?” (Lc 9:18-20). No monte onde ele se transfigurou, a Bíblia diz que ele pegou Pedro, Tiago e João e os levou “para orar” (Lc 9:28,29). E quando os discípulos não puderam expulsar o demônio de um menino, Jesus explicou o fracasso deles com as seguintes palavras – “Essa espécie só sai pela oração” (Mc 9:29).

Jesus não apenas orou como também ensinou seus discípulos a orar. A vida de Cristo foi uma escola de oração. Ele ensinou seus discípulos a se achegarem a Deus de um modo mais íntimo dizendo “Aba, Pai” (Mc 14:36). Ele os ensinou a orar no quarto “em secreto” (Mt 6:6).

Ele ensinou através de parábola acerca do dever de orar sempre e nunca desanimar (Lc 18:1). Ensinou também a crer que vai acontecer aquilo que pediram em oração (Mc 11:23).  E muito mais.

Outras duas disciplinas espirituais presentes na vida de Jesus que acompanhavam a oração eram a solitude e o silêncio. Porque uma não existe sem a outra. A figura do deserto ou de lugares desertos nos traz o deslumbre dessa faceta da espiritualidade de nosso Senhor. Por exemplo, em Mt 4:1 as Escrituras nos dizem que –  “Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo”. E lá permaneceu por quarenta dias e quarenta noites.

Depois de saber da morte de João Batista a Bíblia diz que o Senhor “retirou-se (…) em particular, para um lugar deserto” (Mt 14:13).
As Escrituras também relatam que após alimentar aquela grande multidão multiplicando cinco pães e dois peixinhos, Jesus imediatamente “subiu sozinho a um monte para orar” (Mt 14:23).

Quando os discípulos estavam exaustos por causa do ritmo do ministério Jesus fez o convite – “Venham comigo para um lugar deserto e descansem um pouco” (Mc 6:31). E Lucas se referindo a uma prática habitual de Jesus escreve as seguintes palavras – “retirava-se para lugares solitários, e orava” (Lc 5:16).

E muitas outras disciplinas espirituais vemos presentes na vida do Senhor: o jejum por exemplo. Em Mt 4:2 na solidão e silêncio do deserto é-nos dito que – “depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome”.  E diante da negativa de Jesus aos seus discípulos pelo convite para que ele se alimentasse foi dito – “tenho algo para comer que vocês não conhecem (…) a minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra” (Jo 4:32,34).

Muitas outras disciplinas como o segredo, a simplicidade, a comunhão, a celebração, a meditação, a frugalidade estavam presentes na vida e ministério de Jesus. Só que a palavra de hoje não nos dá espaço para olharmos de perto cada uma delas.
No entanto, acredito que o que foi compartilhado hoje já nos dá uma ideia inequívoca de que Jesus era um homem cuja vida era impregnada por hábitos espirituais. Jesus verdadeiramente era um homem que tinha intimidade com o Pai. Jesus era um homem de vida contemplativa. Amém?
 
CONCLUSÃO E APLICAÇÃO

Gostaria de finalizar essa breve exposição aplicando o seu conteúdo às nossas vidas. Se desejamos viver esse aspecto da vida de nosso Senhor devemos refletir em algumas perguntas:

(1) Nesse exato momento de sua vida, qual é o grau de intimidade que você desfruta com Deus?

(2) Você pode afirmar com toda certeza que seu relacionamento com Deus tem sido uma realidade crescente e não estagnada?

(3) Qual o lugar que a oração e as outras disciplinas espirituais ocupam na sua vida?

(4) Você tem conseguido desacelerar seu ritmo de vida para reservar momentos a sós com Deus?

Que Deus nos ajude nessa reflexão e nos ajustes que precisarmos fazer afim de que possamos experimentar essa dimensão da espiritualidade de nosso Senhor. Amém! 

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Caminho da Graça na Conversão de São Francisco de Assis

 
*Irmão Rev. Edson Cortasio Sardinha
 
“A graça do Espírito Santo procura despertar a fé, a conversão do coração e a adesão à vontade do Pai”. [1]
É esta graça que atuou na vida de Francisco. A ação da Graça de Deus em sua história é um claro testemunho do que Deus pode fazer na vida da pessoa que se entrega totalmente a Cristo.
O caminho de conversão de Francisco provoca em nós mudanças e nos leva a um desequilibro. A pessoa que lê o testemunho de Francisco percebe o poder de Cristo que transforma e muda a alma humana. O segredo de São Francisco está em sua conversão. Este conversão também é o caminho que tem transformado a vida de santos e santas de Deus. Somos desafiados a olhar Francisco e Clara como testemunhos vivos da conversão que o Espírito de Deus deseja operar em nossas vidas cotidianamente.
Leio o caminho da conversão de Francisco fazendo caminhos para a minha própria conversão ao projeto de Deus.
 
  1. A conversão é um ato da graça de Deus.
Pela graça de Deus qualquer pessoa pode ter uma experiência total e até mesmo progressiva de conversão espiritual. A conversão é uma ação de Deus na vida da pessoa. Não nasce do esforço humano, mas da graça do Senhor e seu imenso desejo de transformar. Qualquer pessoa pode ser transformada por Deus.
            Tomás de Celano evidencia a graça de Deus na vida de Francisco. Ele escreve: “Desde então esteve sobre ele a mão do Senhor e a destra do Altíssimo o transformou para que, por seu intermédio, fosse concedida aos pecadores a confiança na obtenção da graça e desse modo se tornasse um exemplo de conversão para Deus diante de todos”[2].
            Francisco se transformou em exemplo de conversão por intermédio unicamente da graça de Deus.
            Celano diz que Francisco era um homem simples “não pela natureza, mas pela graça”[3]
            A luta que Francisco travou com sigo mesmo pela sua conversão foi possível pela ação da graça de Deus em sua vida, como diz a Legenda dos Três Cavaleiros: “Desde então começou cada vez mais a desprezar-se, até conseguir, pela graça de Deus, a mais perfeita vitória sobre si mesmo”[4].
            Foi a ação da Graça de Deus que o fez ser um novo homem. Francisco não escolheu Deus. Ele foi escolhido pelo Senhor. O Anônimo Perusiano diz: “Por graça divina sentiu-se de repente mudado, assim lhe parecia, num outro homem”[5].
            Foi a graça de Deus que deu a Francisco os primeiros discípulos na caminhada da conversão radical e evangélica. “Vendo e ouvindo isto, dois homens de Assis, inspirados pela graça divina, aproximaram-se humildemente dele”.[6], conforme o Anônimo Perusiano.
            A experiência de Francisco foi unicamente com a graça de Deus. Zavalloni diz que  “é na conversação com Deus, é na oração, que Francisco compreendeu de que coisa o seu tempo tinha necessidade: não andou a consultar nem doutos nem bibliotecas, mas lançou-se na perspectiva focal do mistério de Deus”[7].
 
  1. A conversão é um ato da graça de Deus que espera uma resposta humana.
Francisco seguia um caminho de pecado. Tomás de Celano fala de sua vida mundana. Um homem que não tinha tempo para Deus e que gastava o dinheiro de seu pai sem responsabilidade. Pensava no imediatismo.
Tomás de Celano inicia sua Biografia dizendo: “Vivia na cidade de Assis, na região do vale de Espoleto, um homem chamado Francisco. Desde os primeiros anos foi criado pelos pais insensatamente, ao sabor das vaidades do mundo. Imitou-lhes por muito tempo o triste procedimento e tornou-se ainda mais frívolo e vaidoso”[8].
Francisco foi educado para ser um jovem “mundano”. Celano diz que: “Nesses tristes princípios foi educado desde a infância… Neles perdeu e consumiu miseravelmente o seu tempo quase até os vinte e cinco anos. Pior ainda: superou os jovens da sua idade nas frivolidades e se apresentava generosamente como um incitador para o mal e um rival em loucuras. Todos o admiravam e ele procurava sobrepujar aos outros no fausto da vanglória, nos jogos, nos passatempos, nas risadas e nas conversas fúteis, nas canções e nas roupas delicadas e luxuosas”.[9]
Deus foi sinalizando sua graça na vida de Francisco. Esta sinalização levou um bom tempo. O período da prisão na Perúsia foi um período de encontro com as sinalizações da Graça na vida de Francisco. Sua longa doença foi um caminho de graça. A voz que ouviu no caminho para a batalha (“Quem te pode ser melhor, o senhor ou o escravo?” Ele responde: “O senhor”. A voz lhe replicou: “E então, por que abandonas o Senhor pelo escravo; o Príncipe pelo empregado?” Francisco responde: “Senhor, que queres que eu faça?” A voz tornou: “Volta para a tua cidade, para fazer o que o Senhor te vai revelar”)[10] foi um grito da graça na vida de Francisco.
Todos estes sinais da graça foram realizados esperando pacientemente a resposta humana de Francisco.
Como responder? Procurando mais na Bíblia, na igreja e na liturgia. Dando as roupas e os tecidos do pai aos pobres. Beijando o mendigo e leproso. Reconstruindo capelas e igrejas. Se submetendo as orientações de seus líderes. Amando a Igreja. Francisco em sua conversão como resposta a graça de Deus foi dando passos e descobrindo caminhos.
Pela graça alcançou sua conversão total. Mas teve que responder a esta graça e trabalhar diariamente sua conversão. Boaventura diz: “Como leal seguidor de Jesus crucificado, Francisco crucificou sua carne com suas paixões e concupiscências, desde o inicio de sua conversão, impondo-se uma disciplina rigorosa…”.[11]
            Francisco insistiu em trabalhar sua experiência de conversão. A conversão é um ato da graça de Deus que exige uma resposta humana. Francisco “como verdadeiro imitador e discípulo do Salvador, entregou-se, no princípio de sua conversão, com todo esforço, com todo desejo, com toda decisão a buscar, encontrar e preservar a santa pobreza, sem duvidar de adversidades, sem temer nada de sinistro, sem fugir a nenhum trabalho, sem escapar de nenhuma angústia do corpo, para que lhe fosse dada finalmente a opção de chegar àquela a quem o Senhor entregou as chaves do reino dos céus”[12].         
  1. A Conversão como ato da graça de Deus é experiência espiritual
Algumas pessoas desejam trilhar os caminhos de Francisco a partir de eixos carnais, sociais e humanos. Isso é possível até certo ponto do caminho, mas também é frustrante no final. Vocação sem encontro com Deus se resume em cansaço.
Tudo foi possível para Francisco por causa de sua experiência espiritual com Deus. A Legenda Perusiana, relatando o sofrimento de Francisco com relação ao tratamento da enfermidade nos olhos nos informa que, mesmo diante da dor, “ele era arrebatado na contemplação de Deus”[13]. Ele suportava a dor e cumpriu sua vida de testemunho por causa de sua experiência espiritual com Deus.
Não conseguimos construir projetos de conversões sem uma experiência espiritual com Deus. Seria um caminho impossível. Todos os santos e santas de Deus nos apontam para Deus. É Nele, o mistério, que reside nossa conversão para o caminho da santidade.
Sabemos que Francisco é um inspirador e provocador.
Vemos Francisco e desejamos ser como Francisco. Então começamos a tentar andar atrás de Francisco. Isso é fascinante. Mas percebemos que é uma utopia baseada no calor da emoção. Quando tentamos dar profundidade a nossa experiência, construímos com as próprias mãos caminhos, estatutos e Regras para fornecer a experiência necessária. Mas isso também não dá certo.
As irmandades, Ordens e Casas Religiosas conseguem celebrar o carisma, mas o carisma não é passado como uma transfusão de sangue na instrumentalidade das instituições humanas.
A conversão como ato da Graça de Deus é uma experiência espiritual com Deus. Francisco conseguiu trilhar este caminho devido seu encontro com Deus.
 
Quantos encontros Francisco teve com Deus? Muitos.
Alguns foram registrados nas Fontes Biográficas e nos primeiros escritos; e outros não. O Encontro de Francisco com Deus não dá para ser colocado num papel. É uma experiência única, intransferível em uma dimensão pessoal/espiritual.
Vemos um homem transformado pela graça e vivendo a realidade de Cristo. O mais parecido com Cristo. O mais apaixonado por Cristo. Desejamos imitar. Criamos legendas. A História é contata e enfeitada a cada dia. O conto se desenvolve tanto que acaba sendo artificial e raso. Fica apenas uma imagem estática de um ser que talvez não existisse ou é venerado pela religiosidade popular como uma imagem muito rápida e apressada de alguém.
Mas todo o caminho de Francisco, por mais provocador da sociedade, por mais palpável para as teologias sociais, por mais que seja ícone dos discursos de políticos parecendo “bons meninos”, foi um caminho da Graça que nasceu de uma experiência espiritual.
Parece que vejo Francisco apontando para o Cristo crucificado e morto, e me dizendo: “Faça sua própria experiência com Ele”!
A experiência de Francisco foi unicamente com Cristo. O Cristo lhe falou e converteu seu coração. Seu interior ficou derretido pela experiência com o Cristo crucificado, como ensinou seu discípulo Tomás de Celano[14].
Aqui está um problema muito sutil e que muitas vezes não conseguimos enxergar. Minha experiência franciscana não pode ser com Francisco, mas com o JESUS que Francisco experimentou em sua conversão e vida.
Se eu conseguir perceber a graça de Deus e sua vocação para minha vida, terei um encontro com JESUS e serei um autêntico Franciscano, caminhando no caminho que Francisco caminhou. Minha experiência será enriquecedora e verdadeira baseada no Encontro com Cristo.
A Experiência da conversão é um caminho espiritual com Cristo.
Francisco não confiava na força de sua vontade ou na carne. Por conhecer a própria fraqueza humana, buscava força na sua constante e progressiva experiência com Cristo através da oração. Boaventura diz que “A oração era também uma defesa ao se entregar à ação, pois persistindo nela, fugia de confiar em suas próprias capacidades, punha toda a sua confiança na bondade divina, lançando no Senhor os seus cuidados”[15].
  1. A Conversão progressiva pela graça
Francisco não teve a totalidade de sua experiência no longo período de enfermidade. Também não conseguiu sua plena conversão construindo igrejas.
Sua conversão foi um caminho. Caminho longo, de aprendizado, experiências e renuncias.
Boaventura fala deste longo caminho de renúncia:
 
 “No inicio de sua conversão, com a coragem e o fervor do Espírito, chegou, em pleno inverno, a se lançar num fosso d’água gelada ou de neve para sufocar inteiramente o inimigo que cada qual traz em si e preservar dos ataques da volúpia a veste branca da inocência. Foi por essas práticas que começou a brilhar nele a bela pureza, o inteiro domínio que ele obteve sobre a carne. Parecia que tinha feito contrato com os olhos (cf. Jó 31,1): não só fugia a qualquer espetáculo que pudesse deleitar a carne, mas se recusava mesmo a olhar tudo o que apresentasse caráter de curiosidade ou de futilidade”[16].
 
Ele amava a igreja, aprendia com a igreja e através da igreja teve suas experiências com Deus. Mas também, de forma solitária, buscou um crescimento em Cristo e teve várias de suas experiências diretas com Deus.  
Sua conversão progressiva é trabalhada no silêncio e nos diversos retiros espirituais que exercia.
Tomás de Celano dá um importante testemunho a este respeito:
 
Passado algum tempo nesse lugar (um lugar calmo, secreto e solitário para poder se entregar a Deus)  e tendo conseguido, por uma oração contínua e uma contemplação freqüente, uma inefável familiaridade com Deus, teve vontade de saber o que o Rei eterno mais queria ou podia querer dele. Buscava com afã e desejava com devoção saber de que modo, por que caminho e com que desejos poderia aderir com maior perfeição ao Senhor Deus segundo a inspiração e o beneplácito de sua vontade[17].
 
Francisco foi um homem com fome de Deus. Entendeu que o céu sustentava a terra. Sentava com a graça de Deus diariamente. A graça de Deus trabalhou em sua vida progressivamente a conversão.
  1. A conversão que provoca
A conversão de Francisco de Assis não foi um encontro religioso que o colocou no padrão dos fiéis da época.
Sua conversão não o colocou na média de sua geração. Não foi uma conversão medíocre. Foi uma conversão abaixo, escandalizadora, anormal, transformadora e provocante.
Foi uma conversão provocadora.
Francisco provocou sua geração acolhendo o leproso com seus abraços e beijos. Sua atitude causou perseguição, exclusão e revolta nos próprios religiosos.
A conversão de Francisco provocou e trouxe reações imediatas sobre várias áreas:
 
a)      Sobre a família:
A Família de Francisco vivia da venda do comércio e do status. A lepra era conhecida como uma desgraça que causava exclusão total do indivíduo com relação até com a família. A conversão que levou Francisco a beijar um leproso trouxe angústia para a própria família. Além de prejudicar as vendas dos tecidos, rebaixar o status da família, também vinha o desconforto em poder ter um filho doente  e excluído da sociedade e dos sonhos dos jovens.
A conversão de Francisco causou prejuízo financeiro na empresa do pai. O fato de pegar os tecidos e dar aos pobres foi uma afronta provocadora aos projetos do mercado.
A família também sofreu com o novo estilo de vida que a conversão causou em Francisco. Passou a andar como mendigo, recolhendo pão para sobreviver. Ele perdeu a menor das vaidades e passou a ser um indigente diante dos olhos dos pais.
O pai poderia ser consolado se Francisco pelo menos aceitasse entrar na estrutura normal da igreja e ser um padre ou um monge agostiniano ou beneditino. Francisco não aceita esta opção. Para ele este não era o caminho exigido pela sua conversão.
Francisco abre mão da herança do pai terreno e ganha as heranças do pai celeste. Tomás de Celano testemunha que Francisco disse “na frente de muitas pessoas que se tinham ajuntado: “Agora poderei dizer livremente: Pai nosso, que estais nos céus. Pedro Bernardone já não é meu pai, e a ele devolvo tanto o dinheiro como a minha roupa toda. Irei nu para o Senhor”[18].
 
b)     Sobre a Igreja
A Igreja tinha caminhos prontos. Francisco teve a oportunidade de viver sua conversão nos caminhos tradicionais e naturais da igreja. Mas sua conversão além de restaurar a igreja que estava com as bases quebradas, também causou um abalo em bases estabelecidas. Todos que viviam na fé de que a riqueza e a glória eram sinais de bênçãos, foram criticados por sua conversão silenciosa. “Enquanto viveu neste vale de lágrimas, o santo pai desprezou as míseras riquezas dos filhos dos homens e, ambicionando a mais alta glória, dedicou-se de todo coração à pobreza”[19].
Os homens da igreja tentaram levar Francisco para o clero ou para o monastério[20]. Francisco resistiu. Deseja apenas ser um arauto de Deus e anunciar livre sua grande descoberta: O Evangelho do Senhor JESUS.
Pela graça de Deus, Francisco teve o apoio do papa Inocêncio III[21].
Se Francisco não tivesse o apoio do Papa, sua relação com a igreja poderia ser desastrosa e sofredora, pois sua conversão não estava na trilha do cristianismo de sua época. Sua conversão provocou a própria igreja, apesar de venerar os valores, doutrinas e a hierarquia da igreja. Não falou contra a igreja, apenas caminhou no caminhou que muitos da igreja não caminhavam.
 
c)      Sobre a sociedade de sua época.
A conversão de Francisco provocou a sociedade. Ele desprezou os que os pobres mais desejavam e fez os ricos se sentirem culpados. Caminhou na contramão de sua época. Desprezou o resultado do esforço egoísta dos homens. Estabeleceu em sua vida um caminho a margem de sua época. Sua conversão influenciou médicos, advogados, professores, príncipes.
Seus discípulos saíram do trilho da sociedade. Cantaram o que ninguém cantava e dançaram a música que ninguém tocava. Francisco viveu os valores do Reino de Deus de forma radical, total e inquietante. Colocou o Evangelho de Cristo como meta em sua vida sem pedir licença. Quis viver a radicalidade do amor e da fé evangélica mesmo contra o bom senso de sua sociedade.
 
d)     Sobre seu futuro
O que Francisco como jovem desejava para seu futuro?
Gostava de gastar o dinheiro do pai, vivia nas festas e no pecado. Seria um comerciante ou um grande cavaleiro. Seu pai desejava muito seu envolvimento na Cruzada para trazer prestígio e poder para a própria família. O futuro do jovem Francisco seria maravilhoso. Mas Francisco joga tudo fora por amor ao Evangelho do Senhor.
Seu futuro fica comprometido. Ele sai da rota. Joga os sonhos juvenis no lixo e caminha radicalmente contrário a todos. A sua conversão faz com que as expectativas dos outros fossem frustradas, principalmente suas próprias expectativas. 
 
e)      Sobre o cristianismo
Escrevo este texto como protestante de uma igreja Histórica do século XVIII. Ouvi a história de Francisco em minha preparação para a Primeira Comunhão. Li o “Cântico do Irmão Sol” quando ainda era aluno do primário, com 8 anos de idade. Li textos, assisti filmes e me apaixonei por sua conversão. Foi o homem mais evangélico de conheci.
Não apenas a Igreja Católica foi provocada pela experiência de Francisco, mas toda a cristandade tem sido impactada pela história de sua conversão. Atualmente existem muitos grupos franciscanos dentro das igrejas protestantes.
A protestante Madre Schlink, da Irmandade Evangélica de Maria, em seu livro “O Mundo de São Francisco” escreve:
 
“Em sua personalidade, seu caráter e sua vida descobri a mensagem do Evangelho: “Se não vos tornardes como crianças… Graças te dou, ó Pai, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos, aos fracos e ignorantes…” O cativante coração infantil e humildade de Francisco de Assis, que se tornaram a fonte de todo poder e autoridade no seu ministério por Jesus, tocaram o meu coração. O ardente amor por Jesus, nascido do arrependimento, a estreita comunhão do coração com Jesus, quem é a fonte de toda a alegria. Tudo isso eu podia ver na vida de S.Francisco. Isso fortaleceu em mim o desejo de amar mais a Jesus. Dos resultados da vida e discipulado de S.Francisco, percebi que somente o amor ardente por Jesus traz a solução para os problemas e dificuldades na Igreja e no mundo,  como foi demonstrado em certo sentido na sua época[22].
 
A conversão de Francisco abalou e abala o cristianismo, provoca a religião de mercado, ridiculariza as conversões artificiais e rasas das muitas igrejas chamadas evangélicas da atualidade. A conversão de Francisco restaura um modelo de conversão que não se encaixa nas estruturas do cristianismo moderno.
  
f)       Sobre o mundo
O mundo rejeita o pobre e trabalha num projeto de exclusão. Os valores do mundo leva-nos a ter bens além do necessário. Somos viciados pelo comércio e pelas novas tecnologias.
O mundo diz que precisamos do seguinte produto para ser feliz. Ser feliz é comprar uma cama nova. Ser feliz é andar na moda. Ser feliz é ter a última tecnologia. O ter exclui e aumenta a desigualdade social.
A conversão de Francisco denuncia e incomoda a sociedade atual. Alguns pais ficam desesperados quando seus filhos desejam uma conversão radical como a que Francisco teve. Ser franciscano incomoda o mundo e traz inquietação.  
 
Conclusão:  Um Chamado a conversão
Sou cristão e sirvo o Senhor como presbítero, mas leio Francisco de Assis como um forte apelo a minha própria conversão cotidiana. Uma conversão que causa estranheza em minha própria rota. Uma conversão que frustra as expectativas que os outros tem sobre mim. Uma conversão que coloca Deus em seu verdadeiro lugar em minha vida. Uma conversão que me dá medo.
Mas, na essência da minha vida, é esta conversão que desejo sempre. Não ganhar a Salvação pelo esforço religioso, mas viver na celebração da Salvação que ganhei pela Graça. Viver rico não tendo nada. Viver dançando sem música, por ter a música da conversão dentro de mim.
Francisco viveu uma conversão radical, transformadora e evangélica.
É esta que busco para a minha curta, pequena e insignificante peregrinação.
Toda a nossa vida e morte são para o “louvor, glória e honra de Nosso Senhor Jesus Cristo, cujo reino e império permanecerá firme e estável por todos os séculos dos séculos. Amém”[23].
 
Irmão Rev. Edson Cortasio Sardinha – Presbítero (pastor) da Igreja Metodista no Brasil, Teólogo, Educador, Especialista em Ciências da Religião e em Liturgia e Artes Sacras.
 

[1] Catecismo da Igreja Católica. C.75.10 Conversão dom do Espírito Santo – §1098
[2] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1. – 2
[3] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.21. – 58
[4] LEGENDA DOS TRÊS COMPANHEIROS : C.5. parágrafo 11
[5] ANÔNIMO PERUSINO : C.2. – Parágrafo 6.
[6] ANÔNIMO PERUSINO : C.2. – Parágrafo 10.
[7] Zavalloni, Roberto. Pedagogia Franciscana. Desenvolvimento e perspectivas. Editora Vozes: Petrópolis RJ, 1999. pg 131.
[8] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1. – 1
[9] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1. – 2
[10] ANÔNIMO PERUSINO : C.2. – parágrafo 6.
[11] S. Boaventura LEGENDA MENOR : C.3. Parágrafo 1
[12] SACRUM COMMERCIUM” ALIANÇA DE SÃO FRANCISCO COM A SENHORA POBREZA: C.1. Parágrafo 4.
[13] LEGENDA DE PERUSA: C.86. “E se deleitava tanto com elas, e seu espírito tinha tamanha compaixão e piedade por elas que se perturbava quando alguém não as tratava bem. E também conversava com elas com alegria interior e exterior, como se sentissem, entendessem e falassem de Deus, de forma que, muitas vezes, quando fazia isso, era arrebatado na contemplação de deus. Pois, uma vez, quando estava sentado perto do fogo, sem que ele percebesse, o fogo invadiu seus panos de linho que cobriam a perna. Quando sentiu o calor do fogo e o seu companheiro viu que o fogo estava queimando seus panos, correu para apagá-lo. Mas ele lhe disse: “Irmão caríssimo, não queira fazer mal ao irmão fogo”. E assim não lhe permitiu de modo algum que o apagasse”.
[14] Tomás de Celano TRATADO DOS MILAGRES DO BEM-AVENTURADO FRANCISCO: C.2. Parágrafo 2. “Francisco, vá reparar minha casa que, como vês, está sendo toda destruída”. Desde então ficou profundamente gravada em seu coração a lembrança da paixão do Senhor e, realizada uma enorme conversão interior, sua alma começou a derreter-se, quando o amado lhe falou.”
[15] S. Boaventura LEGENDA MAIOR : C 10. Zelo na oração e poder de sua prece. – Parágrafo 1
[16] S. BoaventuraLEGENDA MENOR : C .3. AS VIRTUDES COM QUE DEUS O DISTINGUIU – parágrafo 1
[17] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.2,  C 2. O maior desejo de São Francisco. Compreende a vontade de Deus a seu respeito ao abrir o livro.
[18] Tomás de Celano. SEGUNDA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L 1, C 7. A perseguição do pai e de seu irmão de sangue.
[19] Tomás de Celano SEGUNDA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.6, C 25. Louvor à Pobreza.
[20] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.13 : “São Francisco também se apresentou ao senhor bispo de Sabina, João de São Paulo, que se destacava entre os outros príncipes e dignitários da Cúria Romana por “desprezar as coisas terrenas e aspirar às celestiais” Este o recebeu com “bondade e caridade” e elogiou bastante sua resolução e seus projetos. Entretanto, prudente e discreto, interrogou-o sobre muitos pontos e tentou persuadi-lo a passar para a vida monástica ou eremítica. Mas São Francisco recusou com humildade e quanto lhe foi possível esse conselho, sem desprezar os argumentos, mas por estar piedosamente convencido de que era conduzido por um desejo mais elevado. Admirava-se o prelado com seu fervor, e temendo que fraquejasse em tão altos propósitos, mostrava-lhe caminhos mais fáceis. Afinal, vencido por sua constância, anuiu a seus rogos e procurou apoiar sua causa diante do Papa”.
[21] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.13. Tendo-lhes feito muitas exortações e admoestações, abençoou São Francisco e seus irmãos e lhes disse: “Ide com Deus, irmãos, e conforme o Senhor se dignar inspirar-vos, pregai a todos a penitência. Quando o Senhor vos tiver enriquecido em número e graça, vinde referir-me tudo com alegria, e eu vos concederei mais coisas do que agora e, com maior segurança, vos confiarei encargos maiores”.
[22] Madre Basiléia Schlink. Os Irmãos Franciscanos de Canaã. In http://www.canaan.org.br/irmandade_irmaos.htm
[23] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.4, C.7.
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O mundo cristão de hoje clama pelo crescimento de uma teologia que trabalhe na cruel realidade da vida diária. Infelizmente, muitos têm desistido da possibilidade de crescimento em relação à formação espiritual. Um vasto número de pessoas bem intencionadas tem se exaurido no trabalho da igreja e descoberto que isto não influencia substancialmente suas vidas espirituais. Elas descobriram que simplesmente eram impacientes, egocêntricas e medrosas quando começaram a carregar o fardo pesado do trabalho na igreja. Talvez até mais.

Outros têm submergido em múltiplos projetos de trabalhos na área do serviço social. Mas quando o ardor de ajudar aos outros esfria por um tempo, eles percebem que tantos esforços hercúleos deixaram poucas marcas duradouras em sua vida interior. De fato, deixaram-nos mais doloridos pela frustração, raiva e amargura. Há também os que ainda têm uma prática teológica que não permite crescimento espiritual. Havendo sido salvos pela graça, essas pessoas têm ficado paralisadas nisso. A tentativa de qualquer progresso espiritual tem um sabor de “obras de retidão” para eles. Sua liturgia diz que eles pecam em palavras, pensamentos e atitudes diárias; então, pensam ser esse seu destino até morrerem. A perspectiva do Céu é o seu único alívio nesse mundo de pecado e rebelião. Conseqüentemente, essas pessoas bem intencionadas vão sentar em seus bancos na igreja – e, passado algum tempo, vão perceber que nenhum avanço foi feito em suas vidas com Deus.

Há um mal-estar geral que nos toca a todos. Parece que nos acostumamos à normalidade da disfunção. A constante exploração da mídia em relação às torrentes de escândalos, vidas partidas e mazelas de toda sorte nos deixa não muito mais do que simplesmente chateados. Temos que esperar um pouco mais do que isso, ao menos de nossos líderes religiosos – talvez, especialmente de nossos líderes. Esta disfunção em toda parte é tão infiltrante que é quase impossível termos uma visão clara do progresso espiritual. Modelos exuberantes de santidade são raros hoje em dia; entretanto, ecoando através dos séculos até aos dias de hoje, estão inúmeras testemunhas que nos contam sobre uma vida muito mais abundante, profunda e completa. Em qualquer posição social ou em qualquer situação da vida, eles encontraram uma vida de “retidão, paz e alegria no Espírito Santo”, possibilidade descrita em Romanos 14.17.

Eles descobriram que uma transformação real, à imagem de Cristo, é possível. Viram suas paixões egocêntricas darem lugar a um coração abnegado e humilde. Há mais de 2 mil anos, registros das vidas de grandes pessoas – Agostinho, Francis, Teresa, Kempis e muitos outros – provam que seguir arduamente nos caminhos de Jesus torna o caráter ilibado. Os registros estão aí para quem quiser ver. Há trinta anos, desde quando Celebration of Discipline (“Celebração da disciplina”) foi escrita, nós enfrentamos duas grandes incumbências: a primeira é que foi preciso rever a grande discussão sobre a formação da alma; a segunda foi encarnar esta realidade nas experiências diárias na vida individual, congregacional e cultural. Francamente, nós temos tido sucesso na primeira tarefa. Todos os tipos de cristãos agora sabem da necessidade de formação espiritual.

É a segunda tarefa que precisa consumir a parte principal de nossa energia nos próximos 30 anos. Se nós não fizermos um progresso real nessas frentes, todos os nossos esforços vão evaporar e secar. Deus tem dado a cada um de nós a responsabilidade de “crescer em graça” (II Pedro 3.18). Isto não é algo que possamos transferir para os outros. Nós temos que tomar as nossas cruzes individuais e seguir os passos do Cristo crucificado e ressurreto.

Todo trabalho de formação autêntico consiste em “trabalhar o coração”. O coração é a fonte de toda ação humana. Todos os mestres religiosos constantemente nos chamam, quase de forma enfadonha, para que nos voltemos e purifiquemos os nossos corações. Os grandes sacerdotes puritanos, por exemplo, mantiveram a atenção nesse ponto. Em Mantendo o Coração, John Flavel, um puritano inglês do século 17, adverte que “a maior dificuldade na conversão é ganhar o coração para Deus; e a maior dificuldade após a conversão é manter o coração com Deus”. Quando estamos trabalhando o nosso coração, as atitudes externas nunca são o centro da nossa atenção. Atitudes visíveis são o resultado natural de algo profundo, bem mais profundo.

A máxima do patriarca Actio – “As atitudes seguem a essência” – nos lembra que a nossa atitude está sempre em acordo com a realidade interna do nosso coração. Isso, naturalmente, não reduz as boas obras à insignificância, mas as tornam questões secundárias; meros efeitos, e não causas. O significado principal é a nossa união vital com Deus, nossa nova criação em Cristo, nossa imersão no Espírito Santo. É essa vida que purifica o coração. Quando o ramo é perfeitamente unido à videira, que é o Senhor, o fruto espiritual é natural.

Somos todos uma massa de motivos emaranhados: esperança e medo, fé e dúvidas, simplicidade e arrogância, honestidade e desonestidade, sinceridade e falsidade. Deus é o único que pode separar o verdadeiro do falso; o único que pode purificar as motivações do coração. Mas o Senhor não vem sem ser convidado. Se alguns compartimentosdo nosso coração nunca experimentaram o toque de cura de Deus, talvez seja porque não temos recebido bem o minucioso exame divino.O mais importante, mais real e mais duradouro acontece nas profundezas do nosso coração; este é um trabalho solitário e interno, que não pode ser visto por pessoa alguma, a não ser por nós mesmos. É um trabalho que somente Deus conhece. É o trabalho de purificação do coração, de conversão da alma, da transformação interior e da formação da vida.

O primeiro passo é nosso retorno à luz de Jesus. Para alguns, este é uma inescrutável e lenta jornada; para outros, é um momento instantâneo e glorioso. Em ambos os casos, nós estamos começando a confiar em Jesus, para aceitá-lo como sendo a nossa vida. Nascer espiritualmente é um começo – um maravilhoso e glorioso começo –, e não um final.

Mas o trabalho de formação mais intenso é necessário antes de nos colocarmos diante do brilho do Céu. É necessário muito treinamento para sermos o tipo de pessoa segura e reinarmos tranqüilamente com Deus. Então, agora nós estamos dando início a esse novo relacionamento. Como Pedro coloca em sua primeira carta, nós “temos nascido de novo, não de uma semente perecível, mas imperecível, vivendo e permanecendo na Palavra de Deus” (I Pedro 1.23). Deus está vivo! Jesus é real e atuante em nossas pequenas vidas, que são fraturadas e fragmentadas. Como Thomas Keely sustenta, nós estamos vivendo em “uma luta intolerável de agitação”. Nós sentimos a força de atração de muitas obrigações e tentamos cumpri-las todas. E estamos, conforme suas palavras, “infelizes, intranqüilos, extenuados, oprimidos e tememos fracassar”. Mas, através do tempo e da experiência – às vezes, muito tempo e muita experiência –, Deus começa a nos dar um sossego surpreendente. Nas profundezas do nosso ser, a alternância nos dá uma vida coesa intacta, de humilde adoração diante da viva presença de Deus. Não se trata de êxtase, mas de serenidade, sem abalos e firmeza de orientação da vida.

Nas palavras de George Fox, nós nos tornamos homens e mulheres “estáveis”. Então, começamos a desenvolver um hábito de orientação divina. O trabalho interior da oração torna-se muito mais simples agora. Lentamente, descobrimos pequenos reflexos de proteção celeste e os sopros de submissão são tudo o que é preciso para nos atrair para uma orientação habitual de nossos corações voltados para o Senhor.

Por trás do primeiro plano da vida diária, permanece a bagagem da orientação celestial. Esta é a formação de um coração diante de Deus. Para usar as palavras de Kelly, é “uma vida despreocupada de paz e poder. É simples. É sereno. É espantoso. É triunfante. É radiante. Não toma tempo algum, mas ocupa todo o nosso tempo”. Como os novatos em Jesus, estamos aprendendo, sempre aprendendo – a como viver bem, a como amar a Deus bem, e como amar nossa família, nossos amigos – e até mesmo os nossos inimigos – bem. Aprendemos também a como estudar bem; a enfrentar bem as adversidades; a administrar nossos negócios e instituições financeiras bem; a formar uma vida em comunidade bem; a alcançar os marginalizados bem; e a morrer bem. E, enquanto aprendemos como viver bem, compartilhamos com outros o que estamos aprendendo. Esta é a estrutura do amor para edificar o corpo de Cristo.

Todavia, não estamos sozinhos neste trabalho de reforma do coração. É imperativo que nos ajudemos uns aos outros e de todas as maneiras que pudermos. E, em nossos dias, a necessidade desesperada é pela emergência de um exército sólido de guias espirituais treinados, que possam amorosamente estar lado a lado das pessoas, ajudando-as a discernir como andar pela fé nas circunstâncias de suas próprias vidas. Acontece que há uma idéia genuinamente ruim circulando nestes dias – a de que, se nós tivermos um determinado número de cursos e lermos determinada quantidade de livros, estaremos prontos para sermos guias espirituais. Lamentavelmente, a coisa não é tão simples assim. Mas o treinamento de vidas demanda o desenvolvimento da retidão, alegria e paz no Espírito Santo. Isto é a qualidade de vida – habilidade para perdoar quando se está machucado, o desejo de orar – que estamos procurando na vida de guias espirituais treinados.

Neste ponto, temos uma dificuldade real, porque cada um pensa em transformar o mundo – mas onde estão aqueles que pensam em transformar a si mesmos?  As pessoas podem genuinamente querer ser boas, mas raramente estão preparadas para fazer o que é necessário para produzir uma vida de bondade que possa transformar a alma. Sim, a formação pessoal à imagem de Cristo é árdua e longa. A busca pela comunhão que agrega poder naturalmente leva à nossa segunda grande arena de trabalho para os anos vindouros: a renovação congregacional.

Se em nossas igrejas nós não trabalhamos arduamente pela formação espiritual, não conseguiremos pessoas espiritualmente formadas.  O problema é que nós temos em nossas igrejas a “doença da pressa”. Muitos do nosso povo são viciados em adrenalina – e, em toda parte, o espírito de nossos dias é de pular, empurrar, atropelar, produzir ruídos, atrair multidões. Mas o trabalho de formação espiritual simplesmente não acontece com pressa.  Ele nunca é um “assunto rápido”, como se diz. Paciência e cuidado com o tempo consumido são sempre as marcas de qualidade do trabalho de formação espiritual.

Outra situação contextual que enfrentamos é o fato de que nós agora temos uma indústria de entretenimento cristão que é disfarçada como adoração. Ora, como nós compareceremos em reverência e temor diante do Santo de Israel, quando muitos de nossos cultos são focados em diversão? Um terceiro assunto: nós estamos lidando com uma mentalidade consumista em toda parte que, simplesmente, domina o cenário religioso. Essa mentalidade mantém as demandas individuais sempre à frente e no centro de tudo: “Eu quero o que eu quero, quando eu quero e quanto eu quero”. Naturalmente, o trabalho de formação nos ensina a dar as costas às nossas vontades e focar necessidades reais, como a de anular o ego, tomar a nossa cruz e seguir arduamente Jesus.

Todas estas e outras coisas mais tornam o trabalho de formação espiritual em uma congregação realmente complicado. Mas é uma tarefa possível! Primeiro, isto significa que queremos experiências profundas de comunhão através do poder da formação espiritual. A Igreja é reformada e sempre está se reformando. E, se nosso coração, alma, mente e espírito estão sendo reformados – ou seja, se ansiamos por conhecer, seguir e servir a Jesus, sendo formados à semelhança dele –, então seremos poderosamente atraídos na direção de todos aqueles que têm o mesmo anelo. Uma pessoa cheia da beleza de Jesus tem comunhão adicionada ao poder – e os outros serão irresistivelmente atraídos na direção desta pessoa.

Segundo, vamos fazer tudo o que podemos para desenvolver a ecclesiola na eclésia – “a pequena igreja dentro da Igreja”. A ecclesiola na eclésia é um compromisso profundo com a vida do povo de Deus, e não um comportamento sectário. Nenhuma separação. Nenhuma exclusão. Nenhuma formação de nova denominação ou igreja. É preciso que fiquemos dentro das estruturas estabelecidas da igreja e, aí sim, desenvolvamos pequenos centros de luz dentro dessas estruturas. A partir daí, é só deixar a nossa luz brilhar. Isto produz uma unidade de coração, alma e mente, um vínculo que não pode ser quebrado – um milagre, enfim –, abastecido de cuidado, mutualidade e compartilhamento de vida juntos que nos levará a enfrentar as circunstâncias mais difíceis.

A última instância é a do compartilhamento do sofrimento. Não devemos nos enganar – o nosso tempo de sofrimento está chegando. Uma multidão de fatores levará a isso.  Por exemplo, a cultura geral de hostilidade para as coisas concernentes ao Cristianismo está crescendo. Não devemos ficar surpresos ou mesmo tentar mudar isso. O que nós, como Igreja, deveríamos estar fazendo é construir uma vida comunitária sólida para que, quando o sofrimento chegar, não estejamos dispersos. Ao invés disso, devemos ficar juntos, orar juntos e sofrer juntos, independente do que vamos enfrentar. O sofrimento em comunhão pode ser um bom modo que Deus usará para um novo ajuntamento do povo e Deus.

Os mestres religiosos escreveram muito sobre o treinamento do coração em duas direções opostas: contemptus mundi, o rápido desprendimento das ambições; e amor mundi, quando nosso ser é arremessado para uma divina, porém dolorosa, compaixão pelo mundo. No começo, Deus arranca o mundo de nossos corações – comtemptus mundi. Experimentamos um rompimento das correntes que nos atraem para posições proeminentes e de poder; passamos a viver livre e alegremente, sem enganos. E, então, quando nos libertamos de tudo isso, Deus lança o mundo de volta ao nosso coração – é o amor mundi –, quando nós e Deus, juntos, tomamos o mundo em infinita ternura e amor. Nós aprofundamos a nossa compaixão pelos feridos, pelos arruinados, pelos despossuídos. Sofremos, oramos e trabalhamos por outros de uma maneira diferente, de uma forma abnegada, cheia de alegria. Nosso coração fica estendido em direção aos marginalizados. Nosso coração fica voltado para todas as pessoas, para toda a Criação.

Foi o amor mundi que atirou Patrick de volta à Irlanda para responder à sua pobreza espiritual. Foi o amor mundi que impulsionou Francisco de Assis para o seu ministério mundial de compaixão por todas as pessoas, por todos os animais, por toda a Criação. Foi o mesmo sentimento que levou Elizabeth Fry às portas do inferno da prisão de Newgate e induziu William Wilberforce a trabalhar a sua vida inteira pela abolição do comércio escravo; ou que fez Padre Damião viver, sofrer e morrer entre os leprosos de Molokai e impulsionou Madre Teresa de Calcutá a ministrar entre os mais pobres entre os pobres da Índia e do mundo todo. E é esse amor mundi que compele milhões de pessoas comuns, como você e eu, a ministrar vida no nome bom de Cristo a quem nos cerca.

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* Richard Foster – extraído do site  Cristianismo hoje

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