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Archive for dezembro \28\UTC 2013

 shutterstock_688792181Ricardo Gondim*

Eu não saberia explicar as razões da minha fé. Não consigo expressar os porquês da minha devoção. Minha espiritualidade não serve para convencer uma pessoa indiferente. Eu falharia em gerar apetite pelo que transcende. O mistério que tempera o meu viver talvez não sirva em pratos alheios. Minhas convicções não são transferíveis. Minha sede do eterno não é matemática, inamovível. Eu balanço em terremotos. Não sou um Gibraltar. Decididamente, as certezas que comovem  a minha alma são vagas. O pouco que sei sobre o divino é provisório. As réstias de percepção que me chegam do eterno esbarram na mortalidade. Sob o peso da imperfeição, não alcanço o zênite a respeito do perfeito.

Sei tão somente que Deus se mistura dentro de mim como impulso, norte, nostalgia, horizonte, atracadouro. Empenhei o meu futuro em seguir seus passos invisíveis. No dia em que o chamei de Senhor, a extensão do meridiano da minha esperança se alongou. Nele, os fragmentos de meu mapa existencial não precisaram mais se encaixar. Aprendi a conviver com pedaços desconexos. Não me encabulo ao seu lado. Estradas bloqueadas por tapumes ou por neblinas não me intimidam. Deus imanta o ponteiro da minha bússola.

Sei tão somente que Deus se fez residente no campus onde elaboro pensamentos. Presente nos voos da minha imaginação, ele se transforma no mais doce ideal. Minha seta e meta, o entusiasta das interrogações que me levam adiante. Deus me quer curioso. Ele sempre incentiva a perguntar mais. Causa de toda inquietação, Deus se esconde na fonte da minha angústia.

Sei tão somente que Deus se desfraldou como flâmula sobre a minha vida e fez do lugar onde moro, seu palácio. Por me amar tanto e tão formidavelmente, penitência, purgações,  sacrifícios e tudo o que a religião exige para aplacar fúria, foi substituído por serenidade. No porão da tortura religiosa, nos suplícios culposos do moralismo, achei um lugar de descanso: o seu regaço. Ele é agora minha referência de desassombro.

Encontrei paz desde que comecei a me desvencilhar do Deus guardador de livros contábeis. Encaro a existência com a leve sensação de que qualquer sentença formalizada contra mim está suspensa. Já não fujo dele como os antigos evitavam Átila. A fúria de Júpiter e a volubilidade de Zeus, comuns nas descrições de Javé, não me aterrorizam. Agora prefiro chamá-lo de Clemente. No seu bolso estão guardados todos os acertos e erros que me tornaram quem eu sou.

Sei tão somente que Deus fez arder algum filamento em minha alma e meu olhos se acenderam. Ele é mourão – estaca – que demarca o jardim fechado da minha interioridade. Só Deus dobra o sino do meu coração em lutos e dias solenes.

Sei tão somente que Deus me fascina como aurora que se quebra em vários matizes. Deus é sol que tinge a minha face de um vermelho suave, também é lua que prateia a minha existência. Noto traços azuis de sua realeza em meu sangue raro. Seu branco me deixa com a improvável sensação de que alguma pureza me tocou. Um nanquim se projeta desde o céu e me vejo absorvendo tudo o que é peculiar aos humanos. Ele se faz arco-íris em mim.

O que dizer de Deus?
Pouco.
Melhor o silêncio.
Que as poucas palavras, então, sejam esforço  – precário – de expressar reverência.

Soli Deo Gloria

tau

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simplicidade-voluntariaIsabelle Ludovico*

Os Estados Unidos têm 6% da população mundial e consomem 33% dos recursos naturais. O desenvolvimento da China acelera o esgotamento dos recursos. O filme de Al Gore “Uma verdade inconveniente” demonstra com clareza a iminência de uma catástrofe de proporções planetárias. Diante da evidência de que a terra não agüenta nosso estilo de vida, tem surgido um movimento chamado Simplicidade Voluntária. Em 1981, o americano Duane Elgin escreveu o livro Simplicidade Voluntária – Em Busca de um Estilo de Vida Exteriormente Simples, mas Interiormente Rico.

Se o mundo prega uma nova ética humana que fala de fraternidade e comunhão, de solidariedade e compaixão para preservar o nosso futuro, o que dizer de nós, cristãos, que deveríamos estar à frente dessa proposta, como também do movimento ecológico? De fato, deveríamos estar cientes de que Deus nos confiou a terra para cuidarmos dela e não para depredá-la. Deus nos criou para que nos amássemos e não para usar as pessoas em nosso próprio benefício? Devemos começar confessando que nos tornamos coniventes com um sistema que produz injustiça social e consumo desenfreado de supérfluos, enquanto a maioria da população é privada do essencial.

Se estivéssemos mesmo conscientes de nossa identidade de filhos de Deus, não seríamos tão vulneráveis aos apelos de propagandas que nos induzem a pensar que nosso valor depende de bens materiais, sinais exteriores de riqueza e sucesso. Quem precisa investir tanto na aparência revela uma vida interior pobre e uma auto-estima inconsistente. Não podemos esquecer que o dinheiro “Mamon” é uma potestade e que precisamos escolher a quem vamos servir. O Reino de Deus está no coração daqueles que reconhecem Cristo como Rei e vivem segundo os seus valores. É impossível estar em paz com esses dois mundos tão antagônicos. O caminho do discipulado é estreito e na contramão do sistema no qual estamos inseridos.

Viver voluntariamente de maneira mais simples significa escolher uma vida mais despojada exteriormente e mais abundante interiormente. É tirar o excesso de peso da bagagem para tornar a viagem por esse mundo mais leve e prazerosa. Significa priorizar a qualidade de vida que não depende de recursos materiais, mas de paz e de vínculos significativos. Nosso tempo, sim, é muito precioso para ser desperdiçado em shoppings e na frente da TV. É preciso priorizar o essencial em detrimento das exigências de nossa sociedade capitalista.

Simplicidade Voluntária é um caminho, um processo de libertação do sistema materialista, onde tudo tem o seu preço, para viver no Reino, onde tudo é fruto da graça! Precisamos aprender, e ensinar os nossos filhos, a rir das propagandas que querem nos empurrar produtos como se deles dependesse a nossa felicidade.

Desfrutar da presença de Deus no silêncio e na solitude nos abastece emocionalmente e nos capacita a resistir às armadilhas do mundo. Evite comprar por impulso. Resgate a criança que há em você, brincando com seus filhos sem compromisso com desempenho, mas apenas pelo prazer do jogo, de preferência não competitivo. Use seu tempo livre para um trabalho voluntário, promovendo e potencializando as pessoas marginalizadas, sendo voz dos que não são ouvidos e nem mesmo vistos.

Simplicidade rima com utilidade, durabilidade e beleza. Não é um fim em si mesmo, mas um meio coerente com o Evangelho de abrir mão de despesas supérfluas para beneficiar generosamente aqueles que são privados de condições dignas de vida. É um compromisso com a justiça que visa a promoção do ser humano e não apenas uma ajuda assistencialista. Não se trata apenas de economizar e reciclar para garantir a sobrevivência do planeta, mas de construir uma sociedade mais fraterna e inclusiva, onde todos são valorizados e têm suas necessidades básicas supridas.

Quanto mais a gente se doa a partir da experiência íntima do amor de Deus, mais a gente recebe amor, alegria e paz. As pessoas mais generosas são as mais realizadas, enquanto as mais egoístas são geralmente frustradas e infelizes. Quem estende os braços ao próximo integra uma fraternidade que forma uma rede de solidariedade e representa o Corpo de Cristo até que Ele volte. É sal e luz num mundo que jaz no maligno.

tau

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