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Archive for setembro \25\UTC 2016

13445663_529780280556666_5970598303304328380_nMinha caminhada com Francisco de Assis começou há alguns anos atrás. Fui apresentado ao místico pobrezinho de Assis por um pastor amigo meu. No começo, confesso que a vida deste santo homem de Deus não me surpreendia muito. Admito que, como a maioria das pessoas, para mim Francisco era aquela figura relacionada com a ecologia, que vestia uma roupa engraçada e sempre estava rodeado de bichinhos. Hoje, louvo a Deus por não ter sucumbido à minha primeira impressão imbuída da mais pura ignorância: comecei a ler sobre a vida e obra do chamado Santo de Assis. E o que se descortinou perante mim foi um modelo de vida e espiritualidade cristã que há seis anos têm impactado e transformado profundamente a minha vida.

Francisco nunca quis criar algo como uma “espiritualidade franciscana”. Ele apenas experimentou Deus numa dimensão de grande profundidade mediante uma amizade íntima com o Senhor Jesus Cristo. Ele também não objetava a criação de uma nova ordem na igreja católica romana. No entanto, sua vida, propósitos e paixão eram tão ardentes que começaram a contagiar outras pessoas que o conheciam, tanto homens e mulheres, o que tornou inevitável a fundação não apenas de uma, mas, três ordens chamadas franciscanas: a 1ª Ordem, a Ordem dos Frades Menores (OFM), a 2ª Ordem, a Ordem de Santa Clara (Clarissas) e a 3ª Ordem formada por não religiosos, a Ordem Franciscana Secular (OFS). Cada uma com seu carisma distinto, mas, unidas num objetivo em comum: Seguir o Cristo dos Evangelhos à moda de Francisco, tendo-o como seu fundador, pai espiritual e modelo de inspiração.

Talvez uma das coisas mais intrigantes que envolvem Francisco e seu movimento de renovação espiritual é que mesmo após ter passado oito séculos desde sua morte, sua vida, exemplo e espiritualidade continuam a arrastar multidões atrás de si. E engana-se quem pensa que apenas pessoas das fileiras católicas romanas. Francisco é mais do que um Santo católico da idade média. Ele é um patrimônio da humanidade. Sua vida toca e desafia pessoas tanto do ramo secular quanto religioso (cristão e não cristão). E no ramo religioso cristão, sem sombra de dúvidas, Francisco é o personagem da tradição católica mais amado, reverenciado e respeitado pelo ramo evangélico/protestantes. Já foram muitos os acadêmicos protestantes a escreverem livros e artigos sobre a relevância de sua vida e obra para o aprofundamento de uma autentica espiritualidade centrada no Evangelho de Jesus.

No entanto, talvez o aspecto mais impressionante da importância do pobrezinho de Assis entre os protestante seja a fundação de comunidades franciscanas de confissão protestante no século XIX. Logo após a Revolução Industrial comunidades anglicanas e luteranas que seguiam a orientação franciscana formaram-se próximas aos rincões de pobreza e miséria de suas cidades, tanto na Inglaterra quanto na Alemanha. Algumas delas se extinguiram, outras, no entanto, permanecem até os dias de hoje.

Pensar em comunidades e ordens franciscanas de confissão não católica romana soa um pouco estranho aos ouvidos de cristãos latinos, sobretudo brasileiros como nós. Contudo, sua presença na América do Norte, principalmente nos EUA, é de expressão considerável.

Depois que tive contato com a vida de Francisco, o carisma de renovação e a espiritualidade que surgiram em torno dele, brotou dentro de mim o desejo de fazer parte de uma ordem franciscana formada por cristãos de minha confissão, ou seja, evangélicos/protestantes. Principalmente depois de descobrir, como foi dito acima, que existem ordens desse tipo espalhadas pelo mundo. Foi aí que Deus colocou no meu caminho a OESI (Ordem Evangélica dos Servos Intercessores) que é um grupo interdenominacional de cristãos evangélicos que estudam juntos a espiritualidade clássica e os pais da igreja. Fazemos parte do movimento mundial chamado de Novo Monasticismo. Reunimo-nos todos os sábados num grupo de sete pessoas, e juntos estudamos a história, a espiritualidade cristãs e intercedemos por vários motivos.

Neste ano de 2016 fundamos um braço da OESI, uma outra ordem ligada a ela: a OFSE (Ordem Franciscana Secular Evangélica) que se reúne todo o último sábado de cada mês para o estudo das fontes franciscanas originais.

Sendo assim, nos consideramos cristãos evangélicos/protestantes e também franciscanos porquanto temos descoberto um tesouro espiritual de inestimável beleza e profundidade oculto na vida e obra desse homem de Deus que viveu na idade média, Francisco de Assis. Somos Franciscanos Seculares porque estudamos a espiritualidade franciscana e não fizemos votos religiosos; e evangélicos porque fazemos uma releitura do carisma franciscano adaptando-o para o contexto de cristianismo protestante.

Se eu pudesse resumir para mim o que significa ser um Franciscano Evangélico, eu destacaria os seguintes pontos:

Para mim um franciscano secular evangélico significa…

  • Ser um discípulo renascido na Graça de Deus por intermédio da fé em Jesus Cristo.
  • Ser um discípulo que passou pela experiência do arrependimento de pecados.
  • Ser um discípulo chamado a seguir e imitar a vida do Senhor Jesus Cristo.
  • Ser um discípulo perdidamente apaixonado por Jesus, que busca a cada dia estreitar ainda mais um relacionamento de íntima amizade com Ele.
  • Ser um discípulo que ama o Evangelho e o tem como única Regra de sua vida e prática (sendo que o restante das Escrituras ou são pré-figurações ou desdobramentos do Evangelho da Graça).
  • Ser um discípulo que busca a formação espiritual através da prática das disciplinas espirituais clássicas, sobretudo da Lectio Divina.
  • Ser um discípulo que busca viver as duas dimensões da vida espiritual: ativa e contemplativa.
  • Ser um discípulo que pratica as três virtudes evangélicas: Obediência, Simplicidade (pobreza) e Castidade (fora do casamento).
  • Ser um discípulo que busca ter com a natureza (criação) um relacionamento de respeito e preservação, não de domínio, abuso e exploração da mesma.
  • Ser um discípulo que compreende que a verdadeira espiritualidade é aquela que me coloca em contato com o meu próximo para amá-lo e socorrê-lo em suas necessidades: emocionais, materiais e espirituais.
  • Ser um discípulo que não abre mão do viver inserido numa comunidade de fé com o propósito da adoração a Deus, comunhão e edificação mútua.
  • Ser um discípulo que busca testemunhar o Evangelho, primeiro com o próprio exemplo de vida e depois com palavras.

Acredito que esses pontos acima definem bem o que quero dizer com ser um franciscano secular evangélico.

Se você quiser saber mais sobre nós, convido-o (a) a visitar-nos:

OESI (Ordem Evangélica dos Servos Intercessores)

OFSE (Ordem Franciscana Secular Evangélica)

Deus o(a) abençoe!

Paz e bem!

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071214012555Quando falamos da disciplina do silêncio automaticamente somos confrontados com o grande desafio que é encarar nosso cotidiano extremamente barulhento e de ritmo cada vez mais frenético. Surgem-nos perguntas tais como: “Como encontrar tempo para praticar o silêncio?”; “Não seria o silêncio uma prática exclusivamente monástica, ou seja, para pessoas com um chamado específico para viverem em clausura?”; “Estar em silêncio só é possível num ambiente com total ausência de ruídos e distrações?” e etc.

Dúvidas assim que tendem a nos intimidar e às vezes até desanimar, surgem do fato de que encaramos o silêncio apenas na sua dimensão exterior. De modo que praticar o silêncio só é visto como a separação de tempo e lugar em que paramos, nos acalmamos e adentramos num estado meditativo de quietude e interiorização. Não restam dúvidas de que o silêncio tem este lado prático e devocional. No entanto, o que poderíamos dizer daqueles que não têm muito tempo ou não dispõem de oportunidades frequentes para experimentarem períodos (horas, dias, semanas, meses) de prática silenciosa, em solitude e tendo uma Bíblia aberta diante de si?

Apesar de acreditar que devemos lutar firmemente para abrirmos brechas em nossas agendas diárias para encontrarmo-nos com o Senhor em solitude, silêncio, meditação, oração e contemplação (Lectio Divina), jamais devemos nos esquecer de que o silêncio possui outra “face da moeda” que muitos de nós amantes da espiritualidade e mística cristãs acabamos por negligenciar, seja por desconhecimento ou esquecimento da mesma.

A tradição monástica, por mais surpreendente que possa parecer, ajuda-nos nesse sentido quando fala daquilo que poderíamos chamar de vida silenciosa, onde o silêncio, mais do que um momento de se colocar num lugar desprovido de barulhos, é considerado como uma atitude interior de recolhimento constante. Um voltar-se contínuo para o nosso centro divino, nosso “eu” interior, o santuário interno de nossa alma, em outras palavras, uma atitude de contínua atenção à Presença do Deus que nos habita através do Seu Espírito e que sempre está falando com cada um de nós. Os monges em seus escritos sempre tocam no assunto de se permanecer numa “cela” interior em meditação e oração incessantes mesmo durante as atividades do dia-a-dia (“Ora et Labora”).

Acerca dessa atitude de recolhimento interior silencioso, Anselm Grun escreve: “O silêncio é a atitude interior em que eu me abro para esta realidade do Deus que me envolve. Portanto ela é mais do que o não-falar” (As Exigências do Silêncio, págs.69,70). Por esse prisma o silêncio não é visto como uma realidade em conflito com as atividades do cotidiano, mas, como um espaço mais profundo no qual elas acontecem e do qual emergem e lhes empresta significado espiritual. Aqui silêncio é estar em atitude interior de recolhimento e atenção à presença de Deus que nos envolve por todos os lados enquanto cozinhamos, varremos o chão,  pegamos o ônibus para o trabalho, sentamo-nos em frente ao computador no nosso escritório e etc. Silêncio é estar em perpétua atitude de escuta para Deus.

Maria, mãe de nosso Senhor Jesus Cristo, nos é apresentada nas páginas dos evangelhos como mulher de vida silenciosa, em constante atitude meditativa de recolhimento interior em meio aos acontecimentos do cotidiano (cf. Lc 2:19).  Maria é o arquétipo da mulher silenciosa, ativa-contemplativa. E temos muito que aprender ao observar seu exemplo como alguém cuja vida de silêncio interior lhe permitiu acolher o mistério do Verbo de Deus segundo nos revela o evangelho.

O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da encarnação de Cristo . No Evangelho segundo S. Lucas no capítulo 2 verso 19 lemos acerca da atitude de Maria – “Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração”. Que coisas eram essas? O contexto imediato dos versos anteriores nos revelam (cf. vs. 16-18). Maria em atitude de meditação acolheu a revelação trazida pelos pastores acerca da criança que ela acabara de dar à luz. O glorioso mistério de que o infante envolto em panos comuns, nascido pobre, deitado numa manjedoura era o próprio Senhor e Cristo encarnado para a salvação dos pecadores (Lc 2:11). O Filho de Deus vindo em carne era ele mesmo o Evangelho, as boas-novas de grande alegria para todo o povo, inclusive ela, Maria. No silêncio de seu coração Maria pode contemplar a glória de Deus cumprindo as profecias da Antiga aliança, trazendo ao mundo o Messias prometido como Luz para dissipar as trevas do pecado, trazendo paz aos homens (Lc 2:14).

O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da Identidade de Cristo. Num outro texto Lucas menciona novamente a atitude de Maria frente à revelação do mistério divino – “Sua mãe, porém, guardava todas essas coisas em seu coração” (cf. Lc 2:51b). Que mistério foi esse que ela guardou em recolhimento interior e oração? O contexto dos versos anteriores (vs. 41-50) nos mostra que foi a revelação da identidade de Jesus com o Pai Celeste exposta nas suas próprias palavras – “Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?”(v.49). Mesmo não tendo compreendido naquele momento todas as implicações do que fora dito por seu jovem filho (v.50), Maria acolheu aquelas palavras “Jesus se diz filho do próprio Deus”. O acolhimento do mistério contido nas palavras de Jesus possibilitou no futuro Maria compreender que Jesus e o Pai eram um (cf. Jo 10:30; 14:9,10) e que como seu Senhor e Mestre ele não lhe devia mais obediência (Jo 2:3,4) e sim que deveria ser obedecido em tudo (Jo 2:5). No silencio interior do coração Maria intuiu que aquele judeu pré-adolescente não era só o filho do carpinteiro José, seu marido, mas antes de tudo o Unigênito do Pai.

E o silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da paixão de Cristo. Apesar de não encontramos a mesma fórmula dos pontos anteriores que nos falam de Maria guardando palavras e acontecimentos no coração em atitude de meditação, não podemos desprezar a presença dessa mesma atitude perante a crucificação – “Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã dela, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena” (Jo 19:25). Maria diante do corpo pregado na cruz não diz nada. Chora apenas. E contempla a Graça e o amor redentor de Deus sendo levado até as últimas consequências por cada um de nós, inclusive por ela mesma. No silêncio de seu coração contemplativo ela descobre aos pés da cruz que naquela paixão divina havia substituição (cf. Mt 27:46), havia perdão (cf. Lc 23:34) e havia redenção (cf. Jo 19:30).

O silêncio de Maria não era um silêncio alienado, desatento e inútil. Pelo contrário, era atento e profícuo. Não vemos Maria investindo grandes somas de tempo para a realização de retiros silenciosos e meditativos. Pelo menos as Escrituras não nos relatam nada a esse respeito. Ao passo que nos mostra uma mulher comum que vivia as nuances da vida cotidiana numa dimensão espiritual. E isso lhe era possível porque ela guardava todas as coisas meditando-as no seu coração.

Essa atitude interior silenciosa lhe permitiu acolher os grandes mistérios do advento, da encarnação e da paixão, bem como a apreensão do Sagrado que lhe era oferecido por detrás dos eventos ordinários de um dia (inclusive no bronquear com o filho de 12 anos que desaparece do nada!).

Que possamos seguir seu exemplo. Que nos esforcemos para cultivar momentos silenciosos devocionais para meditarmos e orarmos. Que o silêncio desses momentos nos acompanhe no decorrer do dia à medida que em meio às múltiplas atividades de nosso viver nos voltemos para nosso interior silencioso onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo, o Deus Eterno e Triúno, nos aguarda para que continuemos a desfrutar de íntima comunhão.

Se fizermos assim como Maria cada simples atividade será meditação; cada simples acontecimento oração; cada simples pensamento contemplação.

Que Deus nos abençoe!

Vosso servo e irmão menor,

Felipe Maia, OESI/OFSE

Paz e bem.

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