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Archive for the ‘Comunidade’ Category

10432967_783541935057309_3455389064538895587_nReli pela segunda vez a biografia de São Francisco de Assis, escrita pelo já falecido frei franciscano Inácio Larrañaga, intitulada de “O Irmão de Assis”.
Que grande bem e que consolações recebi da parte de Deus através dessa leitura. Confesso que na primeira lida não tinha absorvido toda a mensagem da vida desse santo homem de Deus. No entanto, após um hiato de quase um ano em que literalmente passei por uma experiência purificadora de deserto na minha fé, ou utilizando a linguagem mística de São João da Cruz: uma verdadeira noite escura da alma, em que avaliei e reavaliei no que cria e porque cria, pude compreender a profundidade e a urgência que os cristãos dos dias de hoje, independente de sua confissão de fé, sejam católicos, protestantes, ortodoxos etc., tem de ouvir uma vez mais a mensagem de sua vida e obra.
Francisco nasceu e viveu no auge da Idade Média. Filho de um rico mercador Italiano e mãe francesa, era um jovem dissoluto que só queria saber de gandaia e noitadas. Após ficar prisioneiro de guerra e sofrer de uma grave doença, teve uma experiência profunda de conversão, a ponto de pegar o dinheiro de seu pai, dinheiro esse adquirido pela venda de tecidos, e distribuí-lo entre os pobres.
Dá para imaginar que isso enfureceu sobremaneira seu pai que o arrastou até o bispo da cidade, chamado Guido, pedindo que este o julgasse. Diante dessa situação, Francisco, cujo coração já se encontrava enamorado pelo Seu Senhor crucificado, num gesto emocionado de profunda humildade, retirou suas roupas e devolveu todo o dinheiro a seu pai, ficando completamente nu na frente de todos! Agora, ele já não era mais o filho de Pedro Bernardone e sim do Maravilhoso Pai Celestial!
A história é longa, depois Francisco foi viver como ermitão junto a uma humilde capelinha, a qual ele reformou com as próprias mãos. Vivia sem posses, sem dinheiro, sem bens materiais, servindo os desamparados, rejeitados, esquecidos e desprezados de seu tempo: os leprosos e mendigos!
Deus lhe deu companheiros que na época entenderam sua mensagem e passaram a segui-lo, vivendo a vida simples e humilde que o Evangelho de Cristo revela, pregando a paz, a liberdade no Senhor crucificado e amando e servindo o próximo. Foram perseguidos e agredidos de todas as formas por lideranças eclesiásticas e pessoas do povão que não compreendiam ou aceitavam o estilo de vida daqueles pobrezinhos de Deus. E a partir daquele grupinho uma grande multidão surgiu, a qual posteriormente recebeu o nome de “Ordem dos irmãos ou Frades Menores”.
Bem, porque digo que a mensagem e vida de Francisco é de extrema urgência para a Igreja nos dias de hoje? Para que possamos ter uma resposta satisfatória, é necessário ter em mente que a Igreja na época de Francisco não estava nem aí para os pobres. Era uma instituição enamorada do poder e da riqueza. Em outras palavras era uma Igreja que tinha deixado de lado os valores evangélicos da simplicidade, humildade, compaixão e amor.
Sendo assim, Francisco vem como um caniço em chamas com o amor divino. Uma sinalização de que a Igreja de sua época precisava se arrepender dos pecados do orgulha, avareza, indiferença e acepção de pessoas. Francisco amava a todos, cuidava de todos, independente de quem fossem.
Ao reler a vida desse santo, não teve como não me emocionar ao constatar que a Igreja dos dias de hoje precisa igualmente prestar a atenção na vida de Francisco de Assis, uma vez mais.
Isso porque uma grande parcela da igreja encontra-se mancomunada com o poder, com o glamour e a riqueza. A Igreja brasileira está precisando se arrepender igualmente do pecado da idolatria, da indiferença e da falta de compaixão. Isso!!!! É isso o que precisa acontecer nessas terras tupiniquins: que o Espírito de Cristo levante uma igreja arrependida, quebrantada e de coração compassivo! Uma igreja cheia de compaixão: essa é a maior necessidade e expectativa mais ardente do mundo falido e ferido, acerca de nós cristãos. O mundo não quer que briguemos com ele, mas, que o amemos sem restrições!
Mas, enquanto nossas preocupações forem construirmos catedrais abastadas, reuniões públicas hollywoodianas cheias de glamour e requinte, enquanto açoitarmos as pessoas com uma linguagem belicosa e desprovida de carinho e respeito, enquanto sustentarmos o discurso de ódio contra os homossexuais e atitudes de intolerância ao credo alheio, principalmente às religiões de matriz africana, o mundo continuará pisando na Igreja, pois, segundo o próprio Senhor dela, somente para isso é que serve o sal quando este perde o poder de dar sabor!
Como dizem por aí, Francisco não tinha rabo preso com ninguém e por isso era capaz de viver a vida espiritual profunda e de amor sacrificial que nos relatam seus biógrafos.
Acredito que a principal mensagem que Francisco deixou para a Igreja, tanto a da sua época como a de hoje, é a de que continua sendo impossível servir a dois senhores. Pois amaremos a um e odiaremos ao outro. Portanto, é impossível amar a Deus e as riquezas! E quando escolhemos amar a Deus, automaticamente acabamos por amar aqueles que são o alvo do amor divino: pessoas, independente de quem sejam.
Assim o foi no passado, assim o é hoje, e assim o será para sempre.
Paz e bem!

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3937_251012-300x240Por Leonardo Boff

Escrevíamos anteriormente que Deus é mistério em si mesmo e para si mesmo. Para os cristãos trata-se de um mistério de comunhão e não de solidão. É a Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A ortodoxia afirma: há três Pessoas e um só Deus. É possível isso? Não seria um absurdo 3=1? Aqui tocamos naquilo que os cristãos subentendem quando dizem “Deus”. É diferente que o absoluto monoteísmo judeu e muçulmano. Sem abandonarmos o monoteísmo, faz-se mister um esclarecimento desta Trindade.

O três seguramente é um número. Mas não como resultado de 1+1+1=3. Se pensarmos assim matematicamente, então Deus não é três mas um e único. O número três funciona como um símbolo para sinalizar que sob o nome Deus há comunhão e não solidão, distinções que não se excluem mas que se incluem, que não se opõem mas se compõem. O número três seria como a auréola que colocamos simbolicamente ao redor da cabeça das pessoas santas. Não é que elas andem por ai com essa auréola. Para nós é o símbolo a sinalizar que estamos diante de figuras santas. Assim ocorre com o número três.

Com o três dizemos que em Deus há distinções. Se não houvesse distinções, reinaria a solidão do um. A palavra Trindade (número três) está no lugar de amor, comunhão e inter-retro-relações. Trindade significa exatamente isso: distinções em Deus que permitem a troca e a mútua entrega de Pai, Filho e Espírito.

A rigor, como já viu o gênio de Santo Agostinho, não dever-se-ia falar de três Pessoas. Cada Pessoa divina é única. E os únicos não se somam porque o único não é número. Se disser um em termos de número, então não há como parar: seguem o dois, o três, o quatro e assim indefinidamente. Kant erroneamente entendeu assim e por isso rejeitava a idéia de Trindade. Portanto o número três possui valor simbólico e não matemático. O que ele simboliza?

C. G. Jung nos socorre. Ele escreveu longo ensaio sobre o sentido arquetípico-simbólico da Trindade cristã. O três expressa a relação tão íntima e infinita entre as diversas Pessoas que se uni-ficam, quer dizer, ficam um, um só Deus.

Mas se são três Unicos, não resultaria no triteísmo, vale dizer, três Deuses em vez de um: o monoteísmo? Isso seria assim, se funcionasse a lógica matemática dos números. Se somo uma manga+uma manga+uma manga, resultam em três mangas. Mas com a Trindade não é assim, pois estamos diante de outra lógica, a das relações inter-pessoais. Segundo esta lógica, as relações não se somam. Elas se entrelaçam e se incluem, constituindo uma unidade. Assim, pai, mãe e filhosconstituem um único jogo de relações, formando uma única família. A família resulta das relações inclusivas entre os membros. Não há pai e mãe sem filho, não há filho sem pai e mãe. Os três se uni-ficam, ficam um, uma única família. Três distintos mas uma só família, a trindade humana.

Quando falamos de Deus-Trindade entra em ação esta lógica das relações interpessoais e não dos números. Em outras palavras: a natureza íntima de Deus não é solidão mas comunhão.

Se houvesse um só Deus reinaria, de fato, a absoluta solidão. Se houvesse dois, num frente a frente ao outro, vigoraria a distinção e, ao mesmo tempo, a separação e a exclusão (um não é o outro) e uma mútua contemplação. Não seria egoísmo a dois? Com o três, o um e o dois se voltam para o três, superam a separação e se encontram no três. Irrompe a comunhão circular e a inclusão de uns nos outros, pelos outros e com os outros, numa palavra: a Trindade.

O que existe primeiro é a simultaneidade dos três Unicos. Ninguém é antes ou depois. Emergem juntos sempre se comunicando reciprocamente e sem fim. Por isso dizíamos: no princípio está a comunhão. Como consequência desta comunhão infinita resulta a união e a unidade em Deus. Então: três Pessoas e um só Deus-comunhão.

Não nos dizem exatamente isso os modernos cosmólogos? O universo é feito de relações e nada existe fora das relações. O universo é a grande metáfora da Trindade: tudo é relação de tudo com tudo: um uni-verso. E nós dentro dele.

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* Leonardo Boff – Extraído do site “Franciscanos”.

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EMAÚS

Sabe aquele texto que você durante a vida cristã já leu diversas vezes, mas, num determinado momento de sua caminhada ele assume um “novo” significado? Pois é! De uns tempos para cá tenho me debruçado na exaustivamente lida, citada, pregada e ensinada narrativa dos dois discípulos no caminho para a cidade de Emaús. O texto encontra-se no evangelho de Lucas no capítulo 24 do verso 13 ao 32.

Na minha caminhada pessoal pela espiritualidade cristã, não consigo mais enxergar o seguir a Cristo, com tudo o que isso envolve, fora de uma concepção de jornada. E a narrativa do caminho de Emaús assumiu para mim um profundo significado de uma jornada espiritual. Emaús é um paradigma de uma jornada rumo ao mistério de Cristo ressurreto. Até então nunca tinha olhado para esse texto por essa ótica da jornada espiritual rumo a Deus. 

Meditando e escutando o que o Senhor ministrava ao meu coração, pude perceber algumas particularidades nessa narrativa que nos fornecem as diretrizes para que você e eu possamos empreender nossa própria “caminhada” rumo à Emaús. É o que gostaria de compartilhar a partir de agora.

JORNADA COMUNITÁRIA (vs.13,14)

O texto diz que dois discípulos caminhavam na direção da cidade de Emaús que ficava a dez quilômetros da cidade de Jerusalém. E eles estavam conversando a respeito de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias. E o que tinha acontecido? Cristo havia sido preso, humilhado e por fim morto pela mão das autoridades romanas. Era um momento de crise e de profundos questionamentos. O texto grego nos dá a ideia de que eles estavam numa acalorada discussão acerca dos fatos, exatamente por não os estarem compreendendo: Cristo morto? E as promessas que ele havia feito? E as esperanças que plantou no coração dos que o ouviram e seguiram? E se não bastasse tudo isso, agora, umas “desajustadas” estão dizendo por aí que o corpo não se encontra mais no túmulo, que ele ressuscitou!

Como eu me identifico com esse momento que os dois discípulos estavam passando. Você não? É que eu já tive meus próprios momentos de crise e de dúvidas em minha jornada espiritual. Nem sempre todos os dias são  de céu limpo e de sol brilhante! Há as ocasiões em que as nuvens de tempestade descarregam toda a sua fúria sobre nossas pobres cabeças. E aqueles dois irmãos encontravam-se num momento bem difícil da jornada deles. No entanto, o que me chama a atenção é que apesar da aparente escuridão de dúvidas e desesperança as Escrituras afirmam que eles estavam juntos no caminho de Emaús. Caminhavam juntos. Abriam o coração um para outro, expondo suas angústias e temores. A jornada deles não era solitária. Era a dois. Uma jornada comunitária. E como é mais fácil quando temos pares com quem compartilhar! Essa é a grande verdade: fardos quando compartilhados tendem a tornarem-se mais leves (Gl 6:2).

A PRESENÇA MISTERIOSA DO CRISTO VIVO (vs.15,16)

O relato prossegue dizendo que num determinado momento da conversa dos dois, o próprio Jesus se aproxima e começa a acompanhá-los pelo caminho de Emaús. Agora já não é uma jornada apenas comunitária, mas, cheia e impregnada de Presença. Nuca podemos perder isso de vista. Esse é um dos maiores mistérios da jornada para Emaús: quando abrimos o coração um para o outro, o Cristo vivo se faz presente em nosso meio. Isso foi o que ele mesmo prometeu quando dois ou três se reunissem em seu nome (Mt 18:20). 

É muito interessante percebermos que apesar de Jesus se juntar a eles no caminho, num primeiro momento, eles não sabiam que se tratava de Jesus. Com certeza, assim como com eles, em certos momentos de nossa jornada espiritual nossos olhos estão como que fechados para enxergarmos Jesus. “Olhamos” e não o vemos. “Procuramos” e não o encontramos. No entanto, apesar das aparências, ele está. Conosco e em nós. Na minha vida para o outro. E na vida do outro para mim. Essa é a glória e a beleza da jornada para Emaús: corações abertos, compartilhados, Cristo presente no meio do seu povo. Bendito mistério!

O APROFUNDAMENTO NO CONHECIMENTO DE CRISTO (vs.17-27)

As Escrituras relatam que Jesus os questiona acerca do que eles estavam discutindo. E eles, surpresos com a pergunta do desconhecido peregrino, dizem que falavam acerca das últimas notícias que estavam bombando na comunidade judaica. De que Jesus, aquele que se dizia o próprio Messias, tinha sido preso e morto pelos romanos. Após repreendê-los pela falta de discernimento o Senhor passa a explicar o que nas Escrituras se dizia acerca dele mesmo. E o resultado disso é que o corações daqueles dois homens queima dentro do peito como lenha seca no fogo.  Cristo os conduz a um conhecimento renovado e aprofundado de sua pessoa tendo a Palavra revelada como seu norte seguro. 

A Bíblia, e nada mais, é o nosso mapa, a bússola que nos indica o caminho pelo qual seguir em nossa jornada espiritual. Isso porque desde os primórdios da fé cristã e até o fim dos tempos muitos “cristos” aparecerão e muitos “caminhos” serão propostos para se conhecer esses “cristos” falsificados. Contudo, só existe um único Cristo, o qual é Bendito para todo sempre. Amém! E um único caminho que nos conduz a ele: as Sagradas Letras. E quando a temos como nossa única regra de fé, conduta e prática podemos ter a certeza de que trilhamos uma jornada espiritual de aprofundamento no conhecimento de Jesus. Não um conhecimento que é confundido com mera intelectualidade. Mas sim um conhecer como somos por ele conhecidos. O conhecer que parte de uma experiência pessoal com Aquele que vive e reina eternamente. A grande verdade é que toda jornada supostamente espiritual que não nos conduza ao aprofundamento do conhecimento de Jesus segundo o norte das Sagradas Escrituras, é tudo menos uma jornada espiritual genuinamente cristã. 

A EXPERIÊNCIA MÍSTICA COM O CRISTO VIVO (vs. 28-32)

Finalmente os três caminhantes chegam à cidade de Emaús. Jesus pretende seguir o seu caminho. No entanto, aqueles dois homens o convidam a ficar com eles naquela noite, pois, o dia já declinava. E, seguindo o costume judaico, eles partilham de uma ceia. E, num dado momento, Jesus faz as honras de partir o pão. A Bíblia diz que nesse exato momento em que ele partia o pão, os olhos daqueles discípulos são abertos e reconhecem que era o Cristo que estava com eles. E imediatamente, o Senhor desaparece do meio deles. Meu Deus, que experiência a que eles tiveram! Todas as dúvidas se foram. A desesperança converteu-se em ânimo redobrado. Sim! Era tudo verdade: ele era quem dizia ser; as promessas se cumpririam, e ele estava vivo. Ressuscitou. A morte não o pôde reter!

Essa é a grande esperança quando empreendemos nossa jornada espiritual: experimentarmos, nem que por rápidos momentos, a presença sobrenatural do Filho de Deus. Seja no partir do pão, ou no momento de oração, ou no momento de compartilhamento, ou no momento de se pregar o Evangelho, perceber-se e adentrar-se na experiência do Cristo místico.  Não estou referindo-me necessariamente à vozes nem de visões ou coisas desse tipo. Não! Refiro-me a experiência que podemos ter de saboreá-lo no recolhimento do silêncio, da solitude, do compartilhar de corações, no chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram. No ministrar na vida um do outro através de uma palavra, uma abraço, um gesto simples, um sorriso pueril. Nisso tudo, e em muito mais, dos céus nos é dado o pão de Deus, Cristo, que sacia toda a nossa alma da fome de plenitude e transcendência divinas que nela existe. 

É muito emblemática para nós que após aquela breve experiência com Jesus, ele é tomado do meio deles e…o que “sobra” é o outro. O processo se reinicia. A comunidade permanece. A jornada comunitária continua agora com uma nova visão e com esperança inabalável. Por que? Talvez porque a vida do meu irmão seja o principal canal através do qual eu deva enxergar a Cristo. 

Por isso apesar de todos os pesares ( e não têm sido poucos) eu ainda insisto em acreditar e fazer parte da Igreja de Cristo. Ela é o seu Corpo. E nela ele habita como força vivificante e impulsionadora. Oro para que as igrejas locais tornem-se verdadeiras “comunidades de Emaús” onde as verdades que compartilhamos nesse espaço possam estar presentes e ativas em suas jornadas espirituais rumo a Deus. Transformando, curando, restaurando e salvando. Afim de que a igreja, e nenhuma outra força nesse mundo, cumpra o seu papel de ser a esperança da humanidade.  

Paz e bem!

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O mundo cristão de hoje clama pelo crescimento de uma teologia que trabalhe na cruel realidade da vida diária. Infelizmente, muitos têm desistido da possibilidade de crescimento em relação à formação espiritual. Um vasto número de pessoas bem intencionadas tem se exaurido no trabalho da igreja e descoberto que isto não influencia substancialmente suas vidas espirituais. Elas descobriram que simplesmente eram impacientes, egocêntricas e medrosas quando começaram a carregar o fardo pesado do trabalho na igreja. Talvez até mais.

Outros têm submergido em múltiplos projetos de trabalhos na área do serviço social. Mas quando o ardor de ajudar aos outros esfria por um tempo, eles percebem que tantos esforços hercúleos deixaram poucas marcas duradouras em sua vida interior. De fato, deixaram-nos mais doloridos pela frustração, raiva e amargura. Há também os que ainda têm uma prática teológica que não permite crescimento espiritual. Havendo sido salvos pela graça, essas pessoas têm ficado paralisadas nisso. A tentativa de qualquer progresso espiritual tem um sabor de “obras de retidão” para eles. Sua liturgia diz que eles pecam em palavras, pensamentos e atitudes diárias; então, pensam ser esse seu destino até morrerem. A perspectiva do Céu é o seu único alívio nesse mundo de pecado e rebelião. Conseqüentemente, essas pessoas bem intencionadas vão sentar em seus bancos na igreja – e, passado algum tempo, vão perceber que nenhum avanço foi feito em suas vidas com Deus.

Há um mal-estar geral que nos toca a todos. Parece que nos acostumamos à normalidade da disfunção. A constante exploração da mídia em relação às torrentes de escândalos, vidas partidas e mazelas de toda sorte nos deixa não muito mais do que simplesmente chateados. Temos que esperar um pouco mais do que isso, ao menos de nossos líderes religiosos – talvez, especialmente de nossos líderes. Esta disfunção em toda parte é tão infiltrante que é quase impossível termos uma visão clara do progresso espiritual. Modelos exuberantes de santidade são raros hoje em dia; entretanto, ecoando através dos séculos até aos dias de hoje, estão inúmeras testemunhas que nos contam sobre uma vida muito mais abundante, profunda e completa. Em qualquer posição social ou em qualquer situação da vida, eles encontraram uma vida de “retidão, paz e alegria no Espírito Santo”, possibilidade descrita em Romanos 14.17.

Eles descobriram que uma transformação real, à imagem de Cristo, é possível. Viram suas paixões egocêntricas darem lugar a um coração abnegado e humilde. Há mais de 2 mil anos, registros das vidas de grandes pessoas – Agostinho, Francis, Teresa, Kempis e muitos outros – provam que seguir arduamente nos caminhos de Jesus torna o caráter ilibado. Os registros estão aí para quem quiser ver. Há trinta anos, desde quando Celebration of Discipline (“Celebração da disciplina”) foi escrita, nós enfrentamos duas grandes incumbências: a primeira é que foi preciso rever a grande discussão sobre a formação da alma; a segunda foi encarnar esta realidade nas experiências diárias na vida individual, congregacional e cultural. Francamente, nós temos tido sucesso na primeira tarefa. Todos os tipos de cristãos agora sabem da necessidade de formação espiritual.

É a segunda tarefa que precisa consumir a parte principal de nossa energia nos próximos 30 anos. Se nós não fizermos um progresso real nessas frentes, todos os nossos esforços vão evaporar e secar. Deus tem dado a cada um de nós a responsabilidade de “crescer em graça” (II Pedro 3.18). Isto não é algo que possamos transferir para os outros. Nós temos que tomar as nossas cruzes individuais e seguir os passos do Cristo crucificado e ressurreto.

Todo trabalho de formação autêntico consiste em “trabalhar o coração”. O coração é a fonte de toda ação humana. Todos os mestres religiosos constantemente nos chamam, quase de forma enfadonha, para que nos voltemos e purifiquemos os nossos corações. Os grandes sacerdotes puritanos, por exemplo, mantiveram a atenção nesse ponto. Em Mantendo o Coração, John Flavel, um puritano inglês do século 17, adverte que “a maior dificuldade na conversão é ganhar o coração para Deus; e a maior dificuldade após a conversão é manter o coração com Deus”. Quando estamos trabalhando o nosso coração, as atitudes externas nunca são o centro da nossa atenção. Atitudes visíveis são o resultado natural de algo profundo, bem mais profundo.

A máxima do patriarca Actio – “As atitudes seguem a essência” – nos lembra que a nossa atitude está sempre em acordo com a realidade interna do nosso coração. Isso, naturalmente, não reduz as boas obras à insignificância, mas as tornam questões secundárias; meros efeitos, e não causas. O significado principal é a nossa união vital com Deus, nossa nova criação em Cristo, nossa imersão no Espírito Santo. É essa vida que purifica o coração. Quando o ramo é perfeitamente unido à videira, que é o Senhor, o fruto espiritual é natural.

Somos todos uma massa de motivos emaranhados: esperança e medo, fé e dúvidas, simplicidade e arrogância, honestidade e desonestidade, sinceridade e falsidade. Deus é o único que pode separar o verdadeiro do falso; o único que pode purificar as motivações do coração. Mas o Senhor não vem sem ser convidado. Se alguns compartimentosdo nosso coração nunca experimentaram o toque de cura de Deus, talvez seja porque não temos recebido bem o minucioso exame divino.O mais importante, mais real e mais duradouro acontece nas profundezas do nosso coração; este é um trabalho solitário e interno, que não pode ser visto por pessoa alguma, a não ser por nós mesmos. É um trabalho que somente Deus conhece. É o trabalho de purificação do coração, de conversão da alma, da transformação interior e da formação da vida.

O primeiro passo é nosso retorno à luz de Jesus. Para alguns, este é uma inescrutável e lenta jornada; para outros, é um momento instantâneo e glorioso. Em ambos os casos, nós estamos começando a confiar em Jesus, para aceitá-lo como sendo a nossa vida. Nascer espiritualmente é um começo – um maravilhoso e glorioso começo –, e não um final.

Mas o trabalho de formação mais intenso é necessário antes de nos colocarmos diante do brilho do Céu. É necessário muito treinamento para sermos o tipo de pessoa segura e reinarmos tranqüilamente com Deus. Então, agora nós estamos dando início a esse novo relacionamento. Como Pedro coloca em sua primeira carta, nós “temos nascido de novo, não de uma semente perecível, mas imperecível, vivendo e permanecendo na Palavra de Deus” (I Pedro 1.23). Deus está vivo! Jesus é real e atuante em nossas pequenas vidas, que são fraturadas e fragmentadas. Como Thomas Keely sustenta, nós estamos vivendo em “uma luta intolerável de agitação”. Nós sentimos a força de atração de muitas obrigações e tentamos cumpri-las todas. E estamos, conforme suas palavras, “infelizes, intranqüilos, extenuados, oprimidos e tememos fracassar”. Mas, através do tempo e da experiência – às vezes, muito tempo e muita experiência –, Deus começa a nos dar um sossego surpreendente. Nas profundezas do nosso ser, a alternância nos dá uma vida coesa intacta, de humilde adoração diante da viva presença de Deus. Não se trata de êxtase, mas de serenidade, sem abalos e firmeza de orientação da vida.

Nas palavras de George Fox, nós nos tornamos homens e mulheres “estáveis”. Então, começamos a desenvolver um hábito de orientação divina. O trabalho interior da oração torna-se muito mais simples agora. Lentamente, descobrimos pequenos reflexos de proteção celeste e os sopros de submissão são tudo o que é preciso para nos atrair para uma orientação habitual de nossos corações voltados para o Senhor.

Por trás do primeiro plano da vida diária, permanece a bagagem da orientação celestial. Esta é a formação de um coração diante de Deus. Para usar as palavras de Kelly, é “uma vida despreocupada de paz e poder. É simples. É sereno. É espantoso. É triunfante. É radiante. Não toma tempo algum, mas ocupa todo o nosso tempo”. Como os novatos em Jesus, estamos aprendendo, sempre aprendendo – a como viver bem, a como amar a Deus bem, e como amar nossa família, nossos amigos – e até mesmo os nossos inimigos – bem. Aprendemos também a como estudar bem; a enfrentar bem as adversidades; a administrar nossos negócios e instituições financeiras bem; a formar uma vida em comunidade bem; a alcançar os marginalizados bem; e a morrer bem. E, enquanto aprendemos como viver bem, compartilhamos com outros o que estamos aprendendo. Esta é a estrutura do amor para edificar o corpo de Cristo.

Todavia, não estamos sozinhos neste trabalho de reforma do coração. É imperativo que nos ajudemos uns aos outros e de todas as maneiras que pudermos. E, em nossos dias, a necessidade desesperada é pela emergência de um exército sólido de guias espirituais treinados, que possam amorosamente estar lado a lado das pessoas, ajudando-as a discernir como andar pela fé nas circunstâncias de suas próprias vidas. Acontece que há uma idéia genuinamente ruim circulando nestes dias – a de que, se nós tivermos um determinado número de cursos e lermos determinada quantidade de livros, estaremos prontos para sermos guias espirituais. Lamentavelmente, a coisa não é tão simples assim. Mas o treinamento de vidas demanda o desenvolvimento da retidão, alegria e paz no Espírito Santo. Isto é a qualidade de vida – habilidade para perdoar quando se está machucado, o desejo de orar – que estamos procurando na vida de guias espirituais treinados.

Neste ponto, temos uma dificuldade real, porque cada um pensa em transformar o mundo – mas onde estão aqueles que pensam em transformar a si mesmos?  As pessoas podem genuinamente querer ser boas, mas raramente estão preparadas para fazer o que é necessário para produzir uma vida de bondade que possa transformar a alma. Sim, a formação pessoal à imagem de Cristo é árdua e longa. A busca pela comunhão que agrega poder naturalmente leva à nossa segunda grande arena de trabalho para os anos vindouros: a renovação congregacional.

Se em nossas igrejas nós não trabalhamos arduamente pela formação espiritual, não conseguiremos pessoas espiritualmente formadas.  O problema é que nós temos em nossas igrejas a “doença da pressa”. Muitos do nosso povo são viciados em adrenalina – e, em toda parte, o espírito de nossos dias é de pular, empurrar, atropelar, produzir ruídos, atrair multidões. Mas o trabalho de formação espiritual simplesmente não acontece com pressa.  Ele nunca é um “assunto rápido”, como se diz. Paciência e cuidado com o tempo consumido são sempre as marcas de qualidade do trabalho de formação espiritual.

Outra situação contextual que enfrentamos é o fato de que nós agora temos uma indústria de entretenimento cristão que é disfarçada como adoração. Ora, como nós compareceremos em reverência e temor diante do Santo de Israel, quando muitos de nossos cultos são focados em diversão? Um terceiro assunto: nós estamos lidando com uma mentalidade consumista em toda parte que, simplesmente, domina o cenário religioso. Essa mentalidade mantém as demandas individuais sempre à frente e no centro de tudo: “Eu quero o que eu quero, quando eu quero e quanto eu quero”. Naturalmente, o trabalho de formação nos ensina a dar as costas às nossas vontades e focar necessidades reais, como a de anular o ego, tomar a nossa cruz e seguir arduamente Jesus.

Todas estas e outras coisas mais tornam o trabalho de formação espiritual em uma congregação realmente complicado. Mas é uma tarefa possível! Primeiro, isto significa que queremos experiências profundas de comunhão através do poder da formação espiritual. A Igreja é reformada e sempre está se reformando. E, se nosso coração, alma, mente e espírito estão sendo reformados – ou seja, se ansiamos por conhecer, seguir e servir a Jesus, sendo formados à semelhança dele –, então seremos poderosamente atraídos na direção de todos aqueles que têm o mesmo anelo. Uma pessoa cheia da beleza de Jesus tem comunhão adicionada ao poder – e os outros serão irresistivelmente atraídos na direção desta pessoa.

Segundo, vamos fazer tudo o que podemos para desenvolver a ecclesiola na eclésia – “a pequena igreja dentro da Igreja”. A ecclesiola na eclésia é um compromisso profundo com a vida do povo de Deus, e não um comportamento sectário. Nenhuma separação. Nenhuma exclusão. Nenhuma formação de nova denominação ou igreja. É preciso que fiquemos dentro das estruturas estabelecidas da igreja e, aí sim, desenvolvamos pequenos centros de luz dentro dessas estruturas. A partir daí, é só deixar a nossa luz brilhar. Isto produz uma unidade de coração, alma e mente, um vínculo que não pode ser quebrado – um milagre, enfim –, abastecido de cuidado, mutualidade e compartilhamento de vida juntos que nos levará a enfrentar as circunstâncias mais difíceis.

A última instância é a do compartilhamento do sofrimento. Não devemos nos enganar – o nosso tempo de sofrimento está chegando. Uma multidão de fatores levará a isso.  Por exemplo, a cultura geral de hostilidade para as coisas concernentes ao Cristianismo está crescendo. Não devemos ficar surpresos ou mesmo tentar mudar isso. O que nós, como Igreja, deveríamos estar fazendo é construir uma vida comunitária sólida para que, quando o sofrimento chegar, não estejamos dispersos. Ao invés disso, devemos ficar juntos, orar juntos e sofrer juntos, independente do que vamos enfrentar. O sofrimento em comunhão pode ser um bom modo que Deus usará para um novo ajuntamento do povo e Deus.

Os mestres religiosos escreveram muito sobre o treinamento do coração em duas direções opostas: contemptus mundi, o rápido desprendimento das ambições; e amor mundi, quando nosso ser é arremessado para uma divina, porém dolorosa, compaixão pelo mundo. No começo, Deus arranca o mundo de nossos corações – comtemptus mundi. Experimentamos um rompimento das correntes que nos atraem para posições proeminentes e de poder; passamos a viver livre e alegremente, sem enganos. E, então, quando nos libertamos de tudo isso, Deus lança o mundo de volta ao nosso coração – é o amor mundi –, quando nós e Deus, juntos, tomamos o mundo em infinita ternura e amor. Nós aprofundamos a nossa compaixão pelos feridos, pelos arruinados, pelos despossuídos. Sofremos, oramos e trabalhamos por outros de uma maneira diferente, de uma forma abnegada, cheia de alegria. Nosso coração fica estendido em direção aos marginalizados. Nosso coração fica voltado para todas as pessoas, para toda a Criação.

Foi o amor mundi que atirou Patrick de volta à Irlanda para responder à sua pobreza espiritual. Foi o amor mundi que impulsionou Francisco de Assis para o seu ministério mundial de compaixão por todas as pessoas, por todos os animais, por toda a Criação. Foi o mesmo sentimento que levou Elizabeth Fry às portas do inferno da prisão de Newgate e induziu William Wilberforce a trabalhar a sua vida inteira pela abolição do comércio escravo; ou que fez Padre Damião viver, sofrer e morrer entre os leprosos de Molokai e impulsionou Madre Teresa de Calcutá a ministrar entre os mais pobres entre os pobres da Índia e do mundo todo. E é esse amor mundi que compele milhões de pessoas comuns, como você e eu, a ministrar vida no nome bom de Cristo a quem nos cerca.

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* Richard Foster – extraído do site  Cristianismo hoje

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Não podemos negar que a palavra “renovação” nos dias de hoje, inserida no contexto da vida da Igreja, tornou-se numa espécie de cinderela antes da fada madrinha: desgastada, esfarrapada e morando no porão de uma casa. É bom deixar logo de início esclarecido que a prefiro num lindo vestido de festas, calçando um sapatinho de cristal, do que nas condições em que se encontra atualmente. Também faz-se necessário informar que a leitura e a contra-leitura desta triste situação em que a palavra “renovação” se encontra nos nossos dias, faço a partir da ótica de muitas pessoas que se denominam membros da ala mais conservadora do segmento cristão.

Para alguns a simples menção do termo renovação já é o suficiente para causar arrepios na espinha e testas franzidas. Por outro lado, há os que anseiam por renovação; os que buscam por renovação nas suas vidas espirituais; os que desertam de sua igreja e/ou denominação porque ouviram falar que naquela outra o povo é mais “renovado”. Enfim…

Não querendo entrar no mérito da questão, de qual grupo está certo ou errado, uma coisa precisa ser considerada com muita sinceridade: será que ambas as alas compreendem ao certo o que significa renovação no contexto de igreja? Será mesmo que estas pessoas sabem do que estão falando? Será que conhecem, verdadeiramente, o que tanto desejam (ou o que tanto repudiam)? Resumindo, o que é, afinal de contas, renovação no contexto de vida espiritual e de igreja?

EM BUSCA DO SIGNIFICADO

Para início de conversa o substantivo “renovação” aparece na Bíblia em dois textos: Romanos 12:2 e Tito 3:5. Em ambos ela compreende a tradução do termo grego anakainõsis. Nas palavras de Rm 12:2 nossa palavra aparece no seguinte contexto:

“E não vos amoldeis ao esquema deste mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”

Aqui, como nos fica claro, renovação assume o significado de um ajuste da visão, tanto moral quanto espiritual, de uma pessoa segundo o padrão de Deus. E isso tem um efeito designado de transformar a vida daquele que sofre tal processo.

Já em Tito 3:5 lemos o seguinte:

“Não por méritos de atos de justiça que houvéssemos praticado, mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar da regeneração e da renovação realizados pelo Espírito Santo“

Nessa passagem somos informados de que mediante a obra do Espírito Santo, Deus nos conduz a uma renovação espiritual que carcateriza-se pelo novo nascimento em Cristo Jesus, sem que para isso seja necessário a prática de obras.

Diante disso tudo, podemos concluir que biblicamente a renovação tem duas aplicações distintas. Num primeiro momento é obra exclusiva do Espírito Santo que chama o pecador ao arrependimento; o conduz a Cristo, lhe outorgando, assim, vida espiritual.

Por outro lado, renovação depende também de nossa resposta ao mover do Espírito em nossa vida que intenta nos trazer constantemente um avivamento do seu poder, desenvolvendo desta forma a vida cristã.

De um jeito ou de outro a renovação significa vida. Vida em nós. Vida de Deus acontecendo em nós e através de nós. Vida que vem de Deus alcançando outras vidas atavés da nossa vida.

RIOS CAUDALOSOS DO ESPÍRITO

Este mover do Espírito de Deus, concedendo-nos renovo espiritual constante, é caracterizado nas Escrituras com um rio que flui de nosso interior. Um rio de água viva que sacia, de uma vez por todas, a nossa sede pelo Sagrado e pelo transcendente.

Vejamos isso nas palavras de nosso próprio Senhor:

“No último dia da festa, o dia mais importante, Jesus se colocou em pé e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Como diz a Escritura, rios de água viva correrão do interior de quem crê em mim”(Jo 7:37, 38)

Logo em seguida, o escritor sacro esclarece do que se trataria este rio de água viva:

“Ele disse isso referindo-se ao Espírito Santo que os que nele cressem haveriam de receber” (v.39)

Nossa história e a da cristandade pelos séculos de sua existência, confirmam a veracidade desta promessa feita pelo Senhor aos que cressem no Seu Nome. O mover do Santo Espírito; o rio de água viva que tem corrido do interior dos santos em Cristo, permeia a linha histórica como movimentos espirituais de renovação, os quais foram responsáveis pelo avivamento do poder espiritual, antes desgastado, do povo de Deus.

Em determinados momentos Deus visitou seu povo resgatando-o da frieza e do erro espirituais e conduzindo-o a uma dimensão mais profunda da vida no seguimento de Cristo, bem como de seus consequentes desdobramentos no testemunho perante o mundo. Após uma geração de fecundidade interior, seguia-se um período de aridez que era interrompido por um derramamento do Espírito que lhe devolvia novamente o viço. Um retorno ao primeiro amor. Um reacender da chama que havia se reduzido a mera fagulha.

É importante sublinhar aqui que estes movimentos de renovação na histótria da igreja acontecram separados um do outro. Valendo da analogia com nosso texto bíblico tratou-se, numa visão do todo, de um delta de seis braços levando a vida de Deus. Ao cessar um derramamento Deus levantava um novo para lembrar seu povo que a caminhada rumo à sua presença trata-se de uma realidade multifacetada; multidimensional.

Agora, o que aconteceria se ao invés de um grande delta de seis braços, um grande rio, caudaloso, expesso, contendo no seu fluxo a água viva do Espírito Santo atingindo a vida cristã nas suas seis dimensões, fluísse livremente na vida de todo cristão e consequentemente da Igreja? O que aconteceria se numa visão holítica da vida espiritual , estes seis movimentos históricos de Deus estivessem presentes e operantes, ao mesmo tempo, na praxi cotidiana da igreja?

Confeso que quando imagino isso, ao mesmo tempo, sou tomado de uma imensa alegria e de uma profunda tristeza. Por um lado a alegria de saber o que Deus tem reservado e que se encontra disponível para o seu povo. E por outro a tristeza de presenciar a igreja flertando com coisas de valor infinitamente menor do que aquelas. 

“Oh! Espírito Santo de Deus. Flui novamente como rio impetuoso sobre a sua Igreja. Abala com as estruturas do Seu povo. Traz, mais uma vez, a vida dos céus para dentro de nós!”

OS SEIS RIOS DE ÁGUA VIVA

Como disse acima estes movimentos na história aconteceram sequêncialmente, um depois do outro, em diferentes períodos de tempo. No entanto, a proposta é a de uma ação simultânea fazendo com que estes seis rios de água viva venham a convergir num único grande rio que, por fim, trará a renovação da vida espirtual na igreja dos dias de hoje.

Porém, para que possamos ter uma idéia clara do que tratam, cada um destes seis rios, faz-se necessário observá-los separadamente.

O Rio da Vida Contemplativa

Esta tradição espiritual foi marcada  por grandes movimentos e personalidades no decorrer da história de ambos os lados das confissões cristãs.  Movimentos como os pais do deserto, o monasticismo e pessoas como Antônio, Teresa de Ávila e o conde Von Zinzendorf com os morávios, deram a cor, a textura e o sabor deste grande mover da vida do Espírito na Igreja. 

A vida contemplativa nos chama a abrimos espaço para Deus em nossa agenda cotidiana. É um clamor para que busquemos uma vida embuída de oração e outros hábitos sagrados. Intimidade e amor a Deus são termos chave nesta tradição. 

E como se faz necessário acessarmos novamente o poder contido e esquecido desta tradição de nossa espiritualidade cristã. Em dias como os nossos em que a igreja caminha para uma secularização assustadora. Onde já quase não se faz mais a distinção entre sagrado e profano. Onde o ritmo apressado e barulhento de nossas vidas nos distraem ao ponto de não conseguirmos mais viver debaixo de um senso da presença constante de Deus. Sem dúvidas torna-se urgente olharmos para traz e  enxergarmos os tesouros que estão à nossa espera guardados no baú deste grande movimento de Deus na história.

 Tesouros como a prática da lectio divina, do silêncio e da solitude, bem como a experiência de união com Deus pela contemplação que resulta na transformação de nossas vidas como um todo, são realidades que não podem continuar obscuras na prática de vida cristã das igrejas. Carecemos, urgentemente, de  nos banharmos de novo nas águas refrescantes deste rio de Deus. 

 O Rio da Vida de Santidade

Neste movimento do Espírito na história cristã, Deus produziu grandes figuras cuja vida nos servem de profunda inspiração e exemplo nos dias de hoje. A tradição de santidade se engajam aqueles que buscaram e buscam uma vida virtuosa. Santidade é uma vida que funciona da forma correta, como o próprio Deus idealizou que o fosse.

E em dias comos os de hoje, em que as vestes brancas da Noiva do Cordeiro tem sido manchada pelo mau testemunho de seus membros, esta tradição de nossa espiritualidade tem muito o que nos oferecer. Isso é um fato: não há neste mundo nada mais impactante do que o poder de uma vida santificada.

O Rio da Vida Carismática

Esta tradição tem nos grandes avivamentos da história cristã, como por exemplo o da rua Azuza, seus principais marcos. Contudo, o rastro da vida cheia do poder do Espírito de Deus remonta desde os dias da igreja primitiva, no grande derramamento ocorrido no dia de Pentecostes. Desde lá encontramos períodos em que Deus visitou seu povo com poder e dons místicos trazendo de volta aquela atmosfera apostólica dos primeiros dias da Igreja. As páginas da história testemunham-nos que o mundo assistiu e experimentou os efeitos de um povo em brasas, inflamado e incendiado pelo dunamis  de Cristo. 

E num Brasil em que se contabiliza milhões de evangélicos que de domingo a domingo abarrotam os prédios de reunião das igrejas,  sem que contudo a sociedade seja impactada ao ponto da transformação moral e social as quais caracterizaram os grande avivamentos do passado, sermos uma vez mais visitados pelo poder que vem doa alto e libertos da letargia que caracteriza a igreja nestes dias, é algo a que deveríamos nos aferrar.   

O Rio da Vida de Justiça Social

Aqui correm as águas impetuosas da busca pela propagação da shalom  de Deus sobre a face da terra, a qual deve alcançar o homem e a mulher vítmas das injustiças sociais oriundas dos sistemas governamentais injustos e opressivos. Esta tradição tem na fundação de organizações como o Exército da Salvação e em personalidades históricas como Willian Wilbeforce e Martin Luther King Jr grandes exemplos.  A espiritualidade contida neste mover de  Deus, resulta num coração compassivo que desemboca numa vida que se identifica com o sofrimento humano. 

É bem verdade que a igreja de hoje,  tem se destacado em alguns seguimentos sociais  ora fundando, ora ajudando no sustento de missionários e organizações de caráter eminentemente desta área. Não obstante a isso, fica-nos o claro senso de que sempre poderemos fazer algo a mais, pois, como bem disse o Mestre “os pobres sempre os tendes convosco”.    

No entanto, enxergo que a maior contribuição desta faceta de nossa vida espiritual se dá no campo pessoal, subjetivo. Acredito que quando ao passarmos por um mendido a pedir esmolas ou por uma família residente à sobra de um viaduto, e não apenas nos condoermos por sua situação, mas, além disso, formos impelidos a fazer algo que amenize o sofrimento,  a dor e a humilhação destes seres humanos, por menor que seja a iniciativa, aí sim poderemos dizer que este rio tão essencial encontra-se fluindo em nosso interior.

O Rio da Vida Evangelical

Este é o rio da vida centrada na Palavra de Deus. Tem na Reforma Protestante do sec XVI e em vultos como Martinho Lutero e João Calvino grandes representantes deste mover espiritual histórico.  A crença na inspiração plena, na suficiência,  na infalibilidade e na inerrância das Escrituras do Velho e do Novo Testamento, compõem a estrutura doutrinária destra tradição.

Este rio em particular significou um retorno dramático de uma era de trevas espirituais para a luz resplandecente da Palavra de Deus. Abusos e arbitrariedades eram cometidas em nome da tradição e de dogmas feitos por homens. Desta forma não se constitui em exagero de nossa parte afirmarmos tão grande importância deste movimento do Espírito de Deus, o qual libertou toda uma geração das algemas do erro e da superstição humanos.

Acredito que seria de grande valia nestes dias de confusão ideológica, crise de identidade e de ventos de doutrina que varrem a igreja brasileira, retornarmos mais uma vez para os princípios e o espírito que norteou todo este grande evento que conhecemos como Reforma Protestante, o qual teve como seu estandarte o amor pelas Escrituras Sagradas.

O Rio da Vida Sacramental

Finalmente, temos a via da conexão com Deus através das realidades comuns do dia-a-dia. Esta tradição nos afirma que Deus nos visita nos momentos de meditação bíblica, de silêncio e de solitude, assim como nos visita também quando etamos em nosso escritório em meio a relatórios financeiros, ou enfrentando a fila do supermercado  ou trocando a fralda de um filho em plena madrugada. Ao invés do mundo e das situações do cotidiano nos serem empencilhos para a comunhão com Deus, elas tornam-se os meios através dos quais podemos nos conectar com o Totalmente Outro. Resumindo: o grande desafio que esta tradição da espiritualidade cristã nos traz é o de encontrar a Deus por detrás dos milhares de momentos, situações, urgências e vissicitudes que esta vida nos oferece. 

O cristão atual enclausurado numa espiritualidade templária, onde se encontra e experimenta a Deus entre as quatro paredes da “igreja”, carece de atentar para esta dimensão da vida espiritual que nos possibilita enxergar o mundo de Deus mais amplo, cheio de possibilidades que não apenas as que acessamos nas pocas horas de reuniões públicas aos domingos. Deus pode e deseja ser encontrado e experimentado tanto no ambiente aconchegante de ar-condicionado de um prédio de reuniões de uma igreja quanto na ”estufa”, a que chamamos de ônimos, em pleno engarrafamento no centro da cidade sob um sol de 41 graus.  

A VIDA  NA  VIDA

O que a igreja no Brasil precisa, resumindo tudo, é de Vida na vida. Uma nova identificação e encarnação da vida do próprio Jesus, Seu cabeça conforme as Escrituras.  Quando lemos os evangelhos com atenção começamos a identificar estes seis rios de água viva presentes na vida do próprio Senhor. A bem da verdade quando falamos na renovação da igreja através da integralização destas seis tradições de nossa espiritualidade, isso trata de um convite a que nos moldemos a aspectos da vida espiritual de Cristo. Cada uma destas tradições, contemplativa, de santidade, carismática, de justiça social, evangelical e sacramental, estavam presentes, vivas e ativas na espiritualidade de Jesus de Nazaré. E a Vida na vida se dá no esforço de tentar imitá-lo na vivência destas facetas de nossa espiritualidade.

Isso porque:

  • Jesus Foi Um Homem Contemplativo – Ele buscava intimidade com o pai. Oração e vida não era uma realidade dicotômica na vida de Jesus. Orar e viver, viver e orar para Cristo eram a mesma coisa. Jesus buscava impregnar a vida com hábitos sagrados: ele buscava os lugares desertos para estar em silêncio e solitude com o Pai. Jesus jejuava. Ele meditava nas Escrituras. Jesus era um homem de vida de oração plena.
  • Jesus Foi Um Homem Virtuoso – A santidade da vida de Jesus não se dava na asfixia de regras e ritos vazios. Não! Pelo contrário, ser santo para Jesus manifestava-se na beleza e no impacto de uma vida que funcionava da forma correta. Uma vida que fluía no ritmo e no passo que o Pai idealizou. A vida de nosso Senhor funcionava no lugar certo, na hora certa e da maneira certa. Sem dúvidas Cristo era alguém de vida virtuosa.
  • Jesus Foi Um Homem Carismático – Umas das características mais marcantes do ministério de nosso Senhor era a presença do poder do Espírito Santo nas suas palavras e obras. Por causa de seu esvaziamente por ocasião de sua obra redentora, Jesus necessitou frequentemente da intervenção do Espírito de Seu Pai para a realização dos sinais  e prodígios que testificavam sua messianidade. “No poder do Espírito” é uma expressão frequente nas narrativas dos evangelhos. Jesus verdadeiramente era um homem que caminhava no poder do Espírito.
  • Jesus Foi Um Homem Compassivo – As Escrituras dizem que quando o Senhor viu as multidões errantes como ovelhas que não tem pastor, suas entranhas se remexeram, e ele se compadeceu delas. Jesus não conseguia ficar indiferente ante o sofrimento humano. Por isso o vemos chorando diante do túmulo de Lázaro, seu amigo; ressuscitando o filho de uma viúva pobre e alimentando uma grande multidão, mesmo sabendo que no dia seguinte a mesmo o iria procurar não por quem ele era, mas, pelo que ele tinha feito. A compaixão profunda de Jesus pelas vítimas da injustiça social nos desafia nestes dias de indiferença e individualismo pessoais.
  • Jesus Foi Um Homem de Vida Centrada na Palavra de Deus – Jesus venceu a tentação do diabo usando as Escrituras. Ele pregou a verdade de Deus. Ele citou exaustivamente as Escrituras. Ele tinha plena consciência de quem era e do que deveria fazer conforme profetizado nas Escrituras. Repreendeu os fariseus por erarem por não conhecerem as Escrituras. A Palavra eterna de Deus era o âmago do ministério e da vida de Cristo. Suas palavras e atos estavão em clara conformidade com os preceitos de Deus.
  • Jesus Era Um Homem de Vida Sacramental – Ele sabia receber o sacramento do momento presente. Para ele vida com Deus não se restringia aos momentos na sinagoga e no templo. Pelo contrário: para o Senhor Deus podia e devia ser experimentado nas coisas comuns e simples da vida cotidiana. Jesus via a mão de Deus em tudo. por isso ele podia chamar a atenção de seus discípulos e dizer “Olhai para as aves dos céus…”. Assim, um homem semeando no campo virava parábola; e algo tão comum como a queda de cabelo virava ensinamento espiritual. Não resta dúvidas que para Jesus a vida era um grande sacramento: um indício visível da presença invisível de Deus. Cristo sabia muito bem o que os serafins estavam querendo dizer quando clamaram um para o outro “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos. Toda a terra está cheia da sua glória”.

Desta forma experimentar, na íntegra, cada uma destas seis dimensões da espiritualidade cristã é experimentar a vida do próprio Cristo. Trilhar este caminho é ter sobre nós Seu jugo e aprender com ele a sermos aprendizes na vida do reino no “meio de nós”.

No entanto vale dizer que há um quê de morte nisso tudo. Pois, se desejarmos tomar Seu jugo como sendo o nosso, devemos ter em mente que isso significará o decreto da morte de nossa antiga espiritualidade: subjetiva, egóica, narcisista, egoísta, utilitarista e pragmática.  Ao passo que também significará o nascimento de uma nova espiritualidade. Não segundo a mais recete moda da vitrine evangélica, mas, segundo Jesus de Nazaré. Veremos o surgimento de uma espiritualidade marcada por uma vida com Deus profunda; por uma vida vivida da maneira certa, funcionando da maneira certa; por uma vida pontilhada pelas manifestações, capacitações e poder do Espírito Santo; por uma vida que se compadece da dor do semelhante e que repele todo e qualquer posicionamento egoísta e indiferente; por uma vida que se alimente e que se deixa moldare ser guiada pelas Escrituras Sagradas e por uma vida que se conecta com Deus através dos milhares de pequenos momentos que fomentam o nosso dia-a-dia.

Que assim seja! Oxalá o Senhor nos visite mais uma vez, como o fez com seu povo ao longo da história. provando uma vez mais que seu braço continua não encolhido. Não apenas para salvar os povos perdidos no pecado, mas, também para levantar uma Igreja poderosa, adornada, sem máculas nem ruga, para que esta seja uma vez mais instrumento em suas mãos para salgar a terra e iluminar o mundo. 

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Para saber mais sobre as seis tradições da espiritualidade cristã

acesse http://www.renovare.org.br

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Rev. Edson e Ir.Marisa são metodistas comprometidos com a Igreja e com a herança denominacional e, pela graça de Deus, tem um projeto de construir o Mosteiro Evangélico do Senhor Jesus.  
Segundo o Rev. Edson, o Mosteiro Evangélico do Senhor Jesus será um lugar especial voltado para a espiritualidade, liturgia, reflexão, meditação e leitura. Será uma casa evangélica que seguirá os princípios da Reforma Protestante, mas sem vínculo denominacional. Um espaço cristão de espiritualidade, crescimento e discipulado.
Seu objetivo é ser um abrigo gratuito para pastores/as, líderes cristãos e irmãos e irmãs que desejam ter um momento a sós com o Senhor, meditando e refazendo suas forças espirituais através da Palavra de Deus e do Silêncio. Seu espaço existirá para seminários e retiros espirituais. Será uma Casa de Retiro.
Todo o espaço do mosteiro será rico em símbolos que levarão o monge e a monja (como chamaremos os nossos hospedes) a uma contemplação e uma intimidade com Deus, mesmo em poucos dias.
Será um lugar de reconstrução pessoal baseado na Palavra de Deus, na prática da igreja antiga, no testemunho de crentes da Idade Média e nos monges e monjas que viveram no deserto e nos mosteiros.
Será um espaço de deserto, onde o irmão e a irmã poderão passar alguns dias vivenciando um encontro pessoal com Deus. Um espaço liturgicamente preparado para nos conduzir a oração, a contemplação e ao discipulado.
Na realidade, o Mosteiro Evangélico do Senhor JESUS será uma Casa de Retiros protestante.
Se você deseja maiores informações, escreva para o Rev. Edson e Marisa: ordemevangelica@hotmail.com
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PALAVRA DO AUTOR DO BLOG:
Acredito que um dos grandes males da vida ministerial dos dias de hoje é o desgaste a que os ministros estão expostos, em função do ofício pastoral, tanto físico quanto emocional.
Agendas superlotadas, exigências que se multiplicam, estresse e outras coisas mais têm levado ministros e ministérios ao fundo do poço da desesperança e incredulidade. Transtornos psicológicos como a síndrome do pânico têm sido presença comum na vida de homens e mulheres que desempenham o sagrado ofício.
À luz desse quadro que só tende a se agravar com o passar dos anos, comungo profundamente tanto com a paixão e busca pessoal/ministerial do rev. Edson por uma espiritualidade contemplativa que tem na solitude, silêncio e contemplação alicerces seguros para uma vida espiritual profunda e saudável, como a criação desse espaço (mosteiro) para que ministros, juntos no mesmo propósito, possam buscar momentos para diminuir o rítmo e desafogar a alma para ouvir o quanto são amados por Deus.
Acredito que a construção de um lugar assim seja providencial pelo fato de que muitos ministros evangélicos têm deixado de participar de retiros de espiritualidade, em função do preconceito existente, pelos mesmos serem realizados em casas de tradição católica romana. Oremos por esse louvável empreendimento.
Paz e bem!
Felipe Maia

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O título acima é a célebre frase proferida por Cícero ao ver a corrupção e desvios da igreja de sua época. A tradução da frase seria algo do tipo “Que tempos os nossos! E que costumes!” Isso tem tudo a ver com o que vou compartilhar a seguir, pois, tenho para mim, que se Cícero estivesse em nosso tempo, ao contemplar os caminhos da igreja de hoje, não alteraria seu desabafo pessoal: “O tempora, o mores!

Vivemos dias negros da história do evangelicalismo cristão. Poderíamos afirmar que presenciamos uma espécie de segunda “Idade das Trevas” onde se proliferam superstições e  crendices que nada mais são do que a franca deturpação da simplicidade do evangelho de Cristo. O apaixonante e apaixonado evangelho que é “o poder para a salvação de todo aquele que crê” (cf. Rm 1.16).

Não é de se admirar o surgimento e a formatação de algumas espiritualidades estranhas, caricaturadas que advogam para si o nome honroso de cristãs. Nada mais normal e lógico do que isso: evangelhos estranhos, espiritualidades estranhas. Era de se esperar que isso acontecesse em terras tupiniquins, já que a igreja brasileira tornou-se uma cópia barata da igreja norte-americana que tem sido a precursora da diluição do vinho ardente de Cristo. 

O surgimento da espiritualidade pop com suas celebridades e estrelas gospels, e da espiritualidade hedonista que tem a teologia da prosperidade como seu principal ícone representativo, têm conduzido as fileiras de cristãos na igreja como manada entorpecida rumo ao matadouro de uma vida espiritual epidérmica de discipulado inconsistente, vida de oração frívola e de total ou quase total ausência de meditação e contemplação nas Sagradas Escrituras.  

O que nos parece é que uma grande parcela dos cristãos hoje em dia  já não deseja ver cumprindo em sua vida o chamado apóstólico de ser uma voz profética de contracultura em meio à sociedade:

“E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”(Rm 12:2)

A grande problemática velada por detrás do presente estado das coisas, é a falsa esperança da vivência de uma espiritualidade cristã autêntica sem que isso implique em se carregar a cruz todos os dias (cf. Lc 9.23). Discipulado sem cruz, sem negação do falso eu, sem a não conformação com os ventos comportamentais de uma sociedade em franca rebelião ao Homem da Cruz é no mínimo algo inconcebível como se querer que exista vida neste planeta se o oxigênio aqui acabar. Assombra-nos o fato de que bem poucos queiram o martírio de serem taxados como tolos por causa de Cristo (cf. Mt 5.11; Jo 15.19).

A cruz de Cristo é o chamamento da morte para a vida. Não somente dos que ainda estão perdidos no oceano de pecados, mas, sobretudo dos que já encontraram a rota para casa. A Bíblia nos fala não apenas de um Senhor crucificado, mas, de homens e mulheres crucificados também (cf. Gl 2.20; 5.24; 6.14). A cruz é o estandarte do nosso Reino. É o brasão da família real a qual pertencemos. Sem ela não há relacionamento com Deus. Mística sem a cruz de Cristo não passa de mais uma superstição das trevas que cobrem a vida espiritual de muitos filhos e filhas de Deus dentro das igrejas.  

Na cruz de Jesus temos o caminho para o retorno à espiritualidade genuinamente cristã. Na cruz nos vemos face a face com aquele que nos mostra as perfurações de suas mãos e pés, as marcas dos açoites, os hematomas das pancadas que lhe foram desferidas, o cenho rasgado pela coroa de espinhos, e que nos diz no silêncio do encontro: “Tudo isso fiz por você, porque te amo!”

A cruz também nos confere a possibilidade de moldar toda a nossa vida como resposta a tão grande paixão. Na verdade essa é a única resposta relevante que podemos dar: a entrega total e sem restrições a essa amor maravilhoso de Jesus (cf. Jo 14:1). E quando isso acontece vemos emergir uma espiritualidade bíblica porque se alicerça nas páginas sagradas das Escrituras; cristã porque se fundamenta no Cristo vivo, esperança nossa e mística porque proporciona-nos a experiência pessoal, no silêncio, solitude e contemplação, de um encontro com aquele que é Totalmente Outro, Transcendente e ao mesmo tempo imanente.  

Oh! Assim como a cruz de nosso Senhor atraiu a muitos para a salvação quando esta foi levantada do solo, que hoje atraia novamente o coração de homens e mulheres, adultos e crianças,  para um novo e renovador mergulho nas profundezas da intimidade e do seguimento de Jesus Cristo, nosso Senhor. 

“(…) tome a cada dia a sua cruz e siga-me”


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