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Archive for the ‘Contemplação’ Category

071214012555Quando falamos da disciplina do silêncio automaticamente somos confrontados com o grande desafio que é encarar nosso cotidiano extremamente barulhento e de ritmo cada vez mais frenético. Surgem-nos perguntas tais como: “Como encontrar tempo para praticar o silêncio?”; “Não seria o silêncio uma prática exclusivamente monástica, ou seja, para pessoas com um chamado específico para viverem em clausura?”; “Estar em silêncio só é possível num ambiente com total ausência de ruídos e distrações?” e etc.

Dúvidas assim que tendem a nos intimidar e às vezes até desanimar, surgem do fato de que encaramos o silêncio apenas na sua dimensão exterior. De modo que praticar o silêncio só é visto como a separação de tempo e lugar em que paramos, nos acalmamos e adentramos num estado meditativo de quietude e interiorização. Não restam dúvidas de que o silêncio tem este lado prático e devocional. No entanto, o que poderíamos dizer daqueles que não têm muito tempo ou não dispõem de oportunidades frequentes para experimentarem períodos (horas, dias, semanas, meses) de prática silenciosa, em solitude e tendo uma Bíblia aberta diante de si?

Apesar de acreditar que devemos lutar firmemente para abrirmos brechas em nossas agendas diárias para encontrarmo-nos com o Senhor em solitude, silêncio, meditação, oração e contemplação (Lectio Divina), jamais devemos nos esquecer de que o silêncio possui outra “face da moeda” que muitos de nós amantes da espiritualidade e mística cristãs acabamos por negligenciar, seja por desconhecimento ou esquecimento da mesma.

A tradição monástica, por mais surpreendente que possa parecer, ajuda-nos nesse sentido quando fala daquilo que poderíamos chamar de vida silenciosa, onde o silêncio, mais do que um momento de se colocar num lugar desprovido de barulhos, é considerado como uma atitude interior de recolhimento constante. Um voltar-se contínuo para o nosso centro divino, nosso “eu” interior, o santuário interno de nossa alma, em outras palavras, uma atitude de contínua atenção à Presença do Deus que nos habita através do Seu Espírito e que sempre está falando com cada um de nós. Os monges em seus escritos sempre tocam no assunto de se permanecer numa “cela” interior em meditação e oração incessantes mesmo durante as atividades do dia-a-dia (“Ora et Labora”).

Acerca dessa atitude de recolhimento interior silencioso, Anselm Grun escreve: “O silêncio é a atitude interior em que eu me abro para esta realidade do Deus que me envolve. Portanto ela é mais do que o não-falar” (As Exigências do Silêncio, págs.69,70). Por esse prisma o silêncio não é visto como uma realidade em conflito com as atividades do cotidiano, mas, como um espaço mais profundo no qual elas acontecem e do qual emergem e lhes empresta significado espiritual. Aqui silêncio é estar em atitude interior de recolhimento e atenção à presença de Deus que nos envolve por todos os lados enquanto cozinhamos, varremos o chão,  pegamos o ônibus para o trabalho, sentamo-nos em frente ao computador no nosso escritório e etc. Silêncio é estar em perpétua atitude de escuta para Deus.

Maria, mãe de nosso Senhor Jesus Cristo, nos é apresentada nas páginas dos evangelhos como mulher de vida silenciosa, em constante atitude meditativa de recolhimento interior em meio aos acontecimentos do cotidiano (cf. Lc 2:19).  Maria é o arquétipo da mulher silenciosa, ativa-contemplativa. E temos muito que aprender ao observar seu exemplo como alguém cuja vida de silêncio interior lhe permitiu acolher o mistério do Verbo de Deus segundo nos revela o evangelho.

O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da encarnação de Cristo . No Evangelho segundo S. Lucas no capítulo 2 verso 19 lemos acerca da atitude de Maria – “Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração”. Que coisas eram essas? O contexto imediato dos versos anteriores nos revelam (cf. vs. 16-18). Maria em atitude de meditação acolheu a revelação trazida pelos pastores acerca da criança que ela acabara de dar à luz. O glorioso mistério de que o infante envolto em panos comuns, nascido pobre, deitado numa manjedoura era o próprio Senhor e Cristo encarnado para a salvação dos pecadores (Lc 2:11). O Filho de Deus vindo em carne era ele mesmo o Evangelho, as boas-novas de grande alegria para todo o povo, inclusive ela, Maria. No silêncio de seu coração Maria pode contemplar a glória de Deus cumprindo as profecias da Antiga aliança, trazendo ao mundo o Messias prometido como Luz para dissipar as trevas do pecado, trazendo paz aos homens (Lc 2:14).

O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da Identidade de Cristo. Num outro texto Lucas menciona novamente a atitude de Maria frente à revelação do mistério divino – “Sua mãe, porém, guardava todas essas coisas em seu coração” (cf. Lc 2:51b). Que mistério foi esse que ela guardou em recolhimento interior e oração? O contexto dos versos anteriores (vs. 41-50) nos mostra que foi a revelação da identidade de Jesus com o Pai Celeste exposta nas suas próprias palavras – “Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?”(v.49). Mesmo não tendo compreendido naquele momento todas as implicações do que fora dito por seu jovem filho (v.50), Maria acolheu aquelas palavras “Jesus se diz filho do próprio Deus”. O acolhimento do mistério contido nas palavras de Jesus possibilitou no futuro Maria compreender que Jesus e o Pai eram um (cf. Jo 10:30; 14:9,10) e que como seu Senhor e Mestre ele não lhe devia mais obediência (Jo 2:3,4) e sim que deveria ser obedecido em tudo (Jo 2:5). No silencio interior do coração Maria intuiu que aquele judeu pré-adolescente não era só o filho do carpinteiro José, seu marido, mas antes de tudo o Unigênito do Pai.

E o silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da paixão de Cristo. Apesar de não encontramos a mesma fórmula dos pontos anteriores que nos falam de Maria guardando palavras e acontecimentos no coração em atitude de meditação, não podemos desprezar a presença dessa mesma atitude perante a crucificação – “Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã dela, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena” (Jo 19:25). Maria diante do corpo pregado na cruz não diz nada. Chora apenas. E contempla a Graça e o amor redentor de Deus sendo levado até as últimas consequências por cada um de nós, inclusive por ela mesma. No silêncio de seu coração contemplativo ela descobre aos pés da cruz que naquela paixão divina havia substituição (cf. Mt 27:46), havia perdão (cf. Lc 23:34) e havia redenção (cf. Jo 19:30).

O silêncio de Maria não era um silêncio alienado, desatento e inútil. Pelo contrário, era atento e profícuo. Não vemos Maria investindo grandes somas de tempo para a realização de retiros silenciosos e meditativos. Pelo menos as Escrituras não nos relatam nada a esse respeito. Ao passo que nos mostra uma mulher comum que vivia as nuances da vida cotidiana numa dimensão espiritual. E isso lhe era possível porque ela guardava todas as coisas meditando-as no seu coração.

Essa atitude interior silenciosa lhe permitiu acolher os grandes mistérios do advento, da encarnação e da paixão, bem como a apreensão do Sagrado que lhe era oferecido por detrás dos eventos ordinários de um dia (inclusive no bronquear com o filho de 12 anos que desaparece do nada!).

Que possamos seguir seu exemplo. Que nos esforcemos para cultivar momentos silenciosos devocionais para meditarmos e orarmos. Que o silêncio desses momentos nos acompanhe no decorrer do dia à medida que em meio às múltiplas atividades de nosso viver nos voltemos para nosso interior silencioso onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo, o Deus Eterno e Triúno, nos aguarda para que continuemos a desfrutar de íntima comunhão.

Se fizermos assim como Maria cada simples atividade será meditação; cada simples acontecimento oração; cada simples pensamento contemplação.

Que Deus nos abençoe!

Vosso servo e irmão menor,

Felipe Maia, OESI/OFSE

Paz e bem.

tau

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download “Retirou-se para uma região perto do deserto, e lá permaneceu com seus discípulos.” (João 11:45-56)

Em um avião, nas instruções pré-decolagem, rotineiramente lhe dizem que em caso de emergência você deve deixar tudo para  trás, até seus sapatos. Imagino quantos tentariam levar sua bolsa ou laptop ou pegar seus documentos na bagagem guardada no compartimento acima da cabeça. Em uma crise dessas, deve ser tão difícil deixar tudo para trás quanto o é na meditação diária. Mas são coisas e pensamentos.

Quando os passageiros do 11 de setembro estavam se preparando para o fim, ao que parece, tinham uma preocupação. Deviam estar terrivelmente impelidos ao total desapego, como uma pessoa condenada aguardando a execução, ou alguém com uma doença terminal. Muitos queriam apenas telefonar para as pessoas que amavam e dizer que as amavam.

Nos momentos críticos em sua vida, Jesus estava em solitude, mas estava solitário com seus discípulos mais próximos. Quando soube que era um homem marcado, esperando pela batida à meia-noite na porta ou, no seu caso, pelo beijo do traidor no jardim, seu instinto era de ir para perto do deserto – um lugar associado com ambos a solitude e o mais profundo de todos os relacionamentos, no chão da existência. E foi para lá com esses seres humanos que melhor compreendeu e que, apesar das deficiências deles, melhor o compreenderam.

A solitude é verdadeira e muitas vezes é deliciosa, mesmo que dolorosa. A solidão é inferno engendrado pela ilusão de separatividade. Na solitude somos capazes de relacionamentos fortes e profundos porque na solitude descobrimos nossa singularidade, mesmo (ou talvez, especialmente) se essa singularidade está associada com a morte. 

Se meditação diz respeito a liberação de apegos e ida ao deserto da solitude, também diz respeito a descoberta da comunhão com outros a quem chamamos comunidade. Saber que somos condiscípulos na presença de nosso mestre é, mesmo quando as coisas estão desmoronando, uma fonte de incomparável contentamento.

Com amor

_________________

Laurence Freeman

tau

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11080983_786561468088689_4321078266248548745_nA vida é um grande sacramento. Tudo é Sagrado. O grande desafio, então, é deixar-nos ser tocados pelo Sagrado em meio às realidades comuns do cotidiano.

Cada animalzinho, cada pessoa, cada aspecto da criação, cada acontecimento, por mais efêmero que seja, traz consigo as sementes do Divino. Cabe-nos recebê-las através de um coração grato e atento para que as mesmas sejam plantadas no solo de nossa alma afim de que colhamos os frutos da Graça que nos chega de forma multifacetada.

É certo que por mais terríveis que tenham sido as consequências do Pecado, as mesmas não foram suficientes para sujar o mundo ao ponto de não conseguirmos enxergar que “toda a terra está cheia da sua Glória”.

A sarça permanece ardendo sem se consumir. Quem vê tira as sandalhas e adora. Quem não vê se assenta no chão para comer amoras.
Paz e bem!

tau

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10432967_783541935057309_3455389064538895587_nReli pela segunda vez a biografia de São Francisco de Assis, escrita pelo já falecido frei franciscano Inácio Larrañaga, intitulada de “O Irmão de Assis”.
Que grande bem e que consolações recebi da parte de Deus através dessa leitura. Confesso que na primeira lida não tinha absorvido toda a mensagem da vida desse santo homem de Deus. No entanto, após um hiato de quase um ano em que literalmente passei por uma experiência purificadora de deserto na minha fé, ou utilizando a linguagem mística de São João da Cruz: uma verdadeira noite escura da alma, em que avaliei e reavaliei no que cria e porque cria, pude compreender a profundidade e a urgência que os cristãos dos dias de hoje, independente de sua confissão de fé, sejam católicos, protestantes, ortodoxos etc., tem de ouvir uma vez mais a mensagem de sua vida e obra.
Francisco nasceu e viveu no auge da Idade Média. Filho de um rico mercador Italiano e mãe francesa, era um jovem dissoluto que só queria saber de gandaia e noitadas. Após ficar prisioneiro de guerra e sofrer de uma grave doença, teve uma experiência profunda de conversão, a ponto de pegar o dinheiro de seu pai, dinheiro esse adquirido pela venda de tecidos, e distribuí-lo entre os pobres.
Dá para imaginar que isso enfureceu sobremaneira seu pai que o arrastou até o bispo da cidade, chamado Guido, pedindo que este o julgasse. Diante dessa situação, Francisco, cujo coração já se encontrava enamorado pelo Seu Senhor crucificado, num gesto emocionado de profunda humildade, retirou suas roupas e devolveu todo o dinheiro a seu pai, ficando completamente nu na frente de todos! Agora, ele já não era mais o filho de Pedro Bernardone e sim do Maravilhoso Pai Celestial!
A história é longa, depois Francisco foi viver como ermitão junto a uma humilde capelinha, a qual ele reformou com as próprias mãos. Vivia sem posses, sem dinheiro, sem bens materiais, servindo os desamparados, rejeitados, esquecidos e desprezados de seu tempo: os leprosos e mendigos!
Deus lhe deu companheiros que na época entenderam sua mensagem e passaram a segui-lo, vivendo a vida simples e humilde que o Evangelho de Cristo revela, pregando a paz, a liberdade no Senhor crucificado e amando e servindo o próximo. Foram perseguidos e agredidos de todas as formas por lideranças eclesiásticas e pessoas do povão que não compreendiam ou aceitavam o estilo de vida daqueles pobrezinhos de Deus. E a partir daquele grupinho uma grande multidão surgiu, a qual posteriormente recebeu o nome de “Ordem dos irmãos ou Frades Menores”.
Bem, porque digo que a mensagem e vida de Francisco é de extrema urgência para a Igreja nos dias de hoje? Para que possamos ter uma resposta satisfatória, é necessário ter em mente que a Igreja na época de Francisco não estava nem aí para os pobres. Era uma instituição enamorada do poder e da riqueza. Em outras palavras era uma Igreja que tinha deixado de lado os valores evangélicos da simplicidade, humildade, compaixão e amor.
Sendo assim, Francisco vem como um caniço em chamas com o amor divino. Uma sinalização de que a Igreja de sua época precisava se arrepender dos pecados do orgulha, avareza, indiferença e acepção de pessoas. Francisco amava a todos, cuidava de todos, independente de quem fossem.
Ao reler a vida desse santo, não teve como não me emocionar ao constatar que a Igreja dos dias de hoje precisa igualmente prestar a atenção na vida de Francisco de Assis, uma vez mais.
Isso porque uma grande parcela da igreja encontra-se mancomunada com o poder, com o glamour e a riqueza. A Igreja brasileira está precisando se arrepender igualmente do pecado da idolatria, da indiferença e da falta de compaixão. Isso!!!! É isso o que precisa acontecer nessas terras tupiniquins: que o Espírito de Cristo levante uma igreja arrependida, quebrantada e de coração compassivo! Uma igreja cheia de compaixão: essa é a maior necessidade e expectativa mais ardente do mundo falido e ferido, acerca de nós cristãos. O mundo não quer que briguemos com ele, mas, que o amemos sem restrições!
Mas, enquanto nossas preocupações forem construirmos catedrais abastadas, reuniões públicas hollywoodianas cheias de glamour e requinte, enquanto açoitarmos as pessoas com uma linguagem belicosa e desprovida de carinho e respeito, enquanto sustentarmos o discurso de ódio contra os homossexuais e atitudes de intolerância ao credo alheio, principalmente às religiões de matriz africana, o mundo continuará pisando na Igreja, pois, segundo o próprio Senhor dela, somente para isso é que serve o sal quando este perde o poder de dar sabor!
Como dizem por aí, Francisco não tinha rabo preso com ninguém e por isso era capaz de viver a vida espiritual profunda e de amor sacrificial que nos relatam seus biógrafos.
Acredito que a principal mensagem que Francisco deixou para a Igreja, tanto a da sua época como a de hoje, é a de que continua sendo impossível servir a dois senhores. Pois amaremos a um e odiaremos ao outro. Portanto, é impossível amar a Deus e as riquezas! E quando escolhemos amar a Deus, automaticamente acabamos por amar aqueles que são o alvo do amor divino: pessoas, independente de quem sejam.
Assim o foi no passado, assim o é hoje, e assim o será para sempre.
Paz e bem!

tau1

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 shutterstock_688792181Ricardo Gondim*

Eu não saberia explicar as razões da minha fé. Não consigo expressar os porquês da minha devoção. Minha espiritualidade não serve para convencer uma pessoa indiferente. Eu falharia em gerar apetite pelo que transcende. O mistério que tempera o meu viver talvez não sirva em pratos alheios. Minhas convicções não são transferíveis. Minha sede do eterno não é matemática, inamovível. Eu balanço em terremotos. Não sou um Gibraltar. Decididamente, as certezas que comovem  a minha alma são vagas. O pouco que sei sobre o divino é provisório. As réstias de percepção que me chegam do eterno esbarram na mortalidade. Sob o peso da imperfeição, não alcanço o zênite a respeito do perfeito.

Sei tão somente que Deus se mistura dentro de mim como impulso, norte, nostalgia, horizonte, atracadouro. Empenhei o meu futuro em seguir seus passos invisíveis. No dia em que o chamei de Senhor, a extensão do meridiano da minha esperança se alongou. Nele, os fragmentos de meu mapa existencial não precisaram mais se encaixar. Aprendi a conviver com pedaços desconexos. Não me encabulo ao seu lado. Estradas bloqueadas por tapumes ou por neblinas não me intimidam. Deus imanta o ponteiro da minha bússola.

Sei tão somente que Deus se fez residente no campus onde elaboro pensamentos. Presente nos voos da minha imaginação, ele se transforma no mais doce ideal. Minha seta e meta, o entusiasta das interrogações que me levam adiante. Deus me quer curioso. Ele sempre incentiva a perguntar mais. Causa de toda inquietação, Deus se esconde na fonte da minha angústia.

Sei tão somente que Deus se desfraldou como flâmula sobre a minha vida e fez do lugar onde moro, seu palácio. Por me amar tanto e tão formidavelmente, penitência, purgações,  sacrifícios e tudo o que a religião exige para aplacar fúria, foi substituído por serenidade. No porão da tortura religiosa, nos suplícios culposos do moralismo, achei um lugar de descanso: o seu regaço. Ele é agora minha referência de desassombro.

Encontrei paz desde que comecei a me desvencilhar do Deus guardador de livros contábeis. Encaro a existência com a leve sensação de que qualquer sentença formalizada contra mim está suspensa. Já não fujo dele como os antigos evitavam Átila. A fúria de Júpiter e a volubilidade de Zeus, comuns nas descrições de Javé, não me aterrorizam. Agora prefiro chamá-lo de Clemente. No seu bolso estão guardados todos os acertos e erros que me tornaram quem eu sou.

Sei tão somente que Deus fez arder algum filamento em minha alma e meu olhos se acenderam. Ele é mourão – estaca – que demarca o jardim fechado da minha interioridade. Só Deus dobra o sino do meu coração em lutos e dias solenes.

Sei tão somente que Deus me fascina como aurora que se quebra em vários matizes. Deus é sol que tinge a minha face de um vermelho suave, também é lua que prateia a minha existência. Noto traços azuis de sua realeza em meu sangue raro. Seu branco me deixa com a improvável sensação de que alguma pureza me tocou. Um nanquim se projeta desde o céu e me vejo absorvendo tudo o que é peculiar aos humanos. Ele se faz arco-íris em mim.

O que dizer de Deus?
Pouco.
Melhor o silêncio.
Que as poucas palavras, então, sejam esforço  – precário – de expressar reverência.

Soli Deo Gloria

tau

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?????????De uns tempos pra cá tenho me feito essa pergunta. Isso porque, em muitos momentos, vi-me atirado de um lado para o outro em meio ao turbilhão de correria que caracteriza a sociedade de nosso tempo.

Por falar nele, desde que cunharam a “célebre” frase “tempo é dinheiro”, parece-nos que uma verdadeira patologia tomou conta da humanidade. E ela tem um nome bem conhecido: pressa.

Quem nunca se viu apressado nesse mundo? Ela já começa fincando suas garras em nós no momento em que acordamos: o alarme de nossos despertadores com suas “doces melodias” altissonantes nos acordam abruptamente, recordando-nos que o tempo urge.

Tomamos nosso café-da-manhã às pressas. Dirigimos para nossos empregos em muitos momentos de forma temerária. Por que? Porque estamos… com pressa! Se nos encontramos dentro de um transporte público como ônibus, trem ou metrô, como que um simples engarrafamento ou atraso no horário é capaz de nos tirar do sério e roubar nosso equilíbrio emocional. Afinal de contas, estamos com pressa…

Almoçamos de olho nos ponteiros do relógio. Engolimos a comida de supetão sem nem ao menos mastigá-la como devemos. Tudo porque o dever clama por nossa atenção. 

Andamos em ritmo frenético pelas calçadas dos grandes centros urbanos, quase que numa marcha militar robótica, sob os açoites implacáveis dos ponteiros do relógio. É claro! O próximo compromisso da agenda já se encontra às portas…e não podemos nos atrasar. Estamos com pressa. 

E assim caminhamos dia após dia tendo a pressa como sombra em nosso encalço. Junto com ela vêm suas irmãs siamesas agitação, inquietação e ansiedade. 

Como fruto disso ficamos com nossa alma fragmentada. Com aquela sensação ruim de incompletude, insuficiência e acabamos por mergulhar num poço fundo de frustração e apatia. Temos a impressão que mesmo com todo o nosso corre-corre nunca há tempo suficiente para fazermos tudo o que temos de fazer no dia. Pelo menos, não de uma forma bem feita ou do jeito que gostaríamos de tê-lo feito.  

A pressa também nos conduz à superficialidade nos relacionamentos interpessoais. Já que temos tão pouco tempo, em decorrência de nossas agendas lotadas de compromissos, acabamos nos resignando a ter “amizades” virtuais. Relacionamo-nos com monitores de computador e ao invés de um parente ou amigo querido, preferimos visitar redes sociais e frequentar chats de bate-papo on line. 

Outro malefício da correria de nossos dias é o viver distraído. Vivemos em um planeta belo, de riquezas de detalhes abundantes. A natureza é uma verdadeira poesia composta pelo coração amoroso de Deus. Estamos cercados de glória e bondade. No entanto, andamos tão apressados que simplesmente não mais paramos para contemplar as pinceladas da aquarela divina presentes em toda a criação, pequenos milagres do cotidiano.  Ainda vemos, mas, já não mais investimos tempo para observar e, por consequência, não conseguimos enxergar que há mais por baixo da superfície das coisas do que podemos se quer imaginar. A distração anda de mãos dadas com a pressa.

E ainda de quebra como resultado desse quadro que descrevemos acima colhemos os frutos amargos das doenças psico-somáticas como o estresse e a síndrome do pânico que nos apontam que a estrutura humana não foi feita para viver desse modo. Não aguentamos. Não somos máquinas. Somos seres humanos. Não temos apenas ossos e músculos. Temos um alma que precisa de seus cuidados. 

Mas, o que Deus deseja que você eu fiquemos sabendo é que as coisas não precisam ser desse jeito. É possível sim vencer a pressa. Como? Através de disciplina e estabelecendo algumas metas pessoais. Aí vão algumas dicas para diminuirmos um pouco o ritmo:

  • Você não precisa acordar esbaforido em meio a uma taquicardia em função do alarme do relógio e do tempo apertado. Escolha um som ou melodia que seja mais tranquila para o seu despertador (lembre-se que você está no seu quarto e não no quartel de Bombeiros). 
  • Coloque o relógio para despertar 15, 20 ou meia hora antes do horário comum. Isso o ajudará a acordar com menos pressa. Levante-se tranquilo.Faça uma prece agradecendo a Deus por um novo dia. Entregue o dia nas mãos de Deus e peça sua ajuda, cuidado e direção para você e os seus. Isso também te possibilitará a desfrutar de um café da manhã em paz.
  • Saia mais cedo para o trabalho. Dirija mais tranquilamente. Lembre-se que você está adiantado em relação ao horário que deveria chagar no emprego. Vá desfrutando do caminho. Coloque uma música que facilite a calma e serenidade. 
  • Aumente o tempo entre uma garfada e outra durante as refeições. Mastigue sem pressa o alimento. Mastigue-o bem. Os especialistas dizem que são necessárias 31 mastigadas para que o alimento seja corretamente assimilado por nosso organismo (quem sabe aquele seu problema com a má digestão “milagrosamente” será solucionado). Sinta o sabor de cada um deles. Desfrute dos aromas. E seja grato a Deus não apenas pela provisão do alimento em si, mas também pelo prazer que o desfrute dos sabores concede a você. 
  • Faça caminhadas frequentes se você mora em uma região bem arborizada. Se não, tente fazer uma visita a um parque ou floresta. Nesses momentos caminhe com ritmo, mas, sem pressa. Olhe a natureza ao seu redor. Pare em alguns momentos para observar a textura das folhas, a riqueza multicolorida das flores e os hábitos curiosos dos animaizinhos. São ministros da natureza que nos anunciam a grandeza de Seu Criador. 
  • Faça uma varredura estilo “pente-fino” em seus compromissos e obrigações agendados. Talvez você terá a surpresa de perceber que muitos deles são desnecessários e prescindíveis e que nada mais eram do que “encher linguiça”. Insira o que realmente é importante: agende um passeio ou viagem com a família; uma visita a um parente ou amigo que a tanto tempo você não vê. Invista em relacionamentos reais e não apenas virtuais. 
  • Diminua a frequência com que você utiliza mídias (TV, rádio, Facebook etc.). Combine com sua família um “jejum de mídia”, um dia inteiro sem acessar nada. Nesse dia invistam no relacionamento, em momentos lúdicos. Com isso perceberemos que a vida é muito mais do que essa grosseira capa sintética e artificial que a tecnologia tem nos imposto. 

Acredito que muitas outras metas podem ser estabelecidas além dessas para nos ajudar não só a diminuirmos o ritmo da vida mas também a investir no que realmente é necessário. Fique à vontade. A criatividade é o limite!

Que Deus nos abençoe.

Paz e bem!

tau

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tau_franEspiritualidade que contempla a Deus e despreza o próximo é falsa e impostora. Uma espiritualidade contemplativa que não desemboca numa espiritualidade ativa é no mínimo manca e estranha às páginas bíblicas e a história da igreja.

Quando o apóstolo João declarou na sua 1ª carta que não se pode amar a Deus a quem não vemos e ao mesmo tempo odiar o ser humano a quem vemos, não foi um mero eufemismo. Ali estava descrito um dos pilares do pensamento místico contemplativo, o qual é essencialmente um movimento de amor. 

Se contemplamos a Deus, experimentamos a Deus, estamos em união com Deus em Cristo, e nele fomos feitos filhos de Deus, o qual é amor, não nos resta caminho a trilhar a não ser o que o próprio Senhor trilhou e descreveu como sendo o “Grande Mandamento”: amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos. 

Parece-nos que um  depende do outro. Que ter um em detrimento do outro é sofrer de paupérrima vida espiritual. Amar a Deus e amar o homem, feito à imagem de Deus, constitui-se nos dois lados de uma mesma moeda chamada de espiritualidade cristã.  Da mesma forma que uma moeda cujo valor encontra-se na presença de suas duas faces, a espiritualidade genuinamente cristã encontra sua legitimidade e riqueza no amor a Deus que faz surgir, nutre e nos impulsiona o amor na direção de nosso semelhante.

Jesus disse que quando alimentamos o faminto, damos água ao sedento,roupas para o nu, hospitalidade para o estrangeiro e atenção e presença para os enfermos e encarcerados, num primeiro momento, é para ele que estamos fazendo todas essas coisas. Eis o grande mistério: quando encontramos a face sofrida de nosso próximo, contemplamos de forma mística a face do Cristo sofredor que geme em dores através das chagas da injustiça, do descaso, do egoísmo aos quais homens e mulheres pela vida á fora estão sujeitos.

Acolhê-los é acolher o Cristo. Beijar sua face é beijar a face do próprio Senhor. 

Depois do Senhor e seus apóstolos, talvez Francisco de Assis seja o grande modelo de uma espiritualidade genuinamente evangélica.trabalho Evangélica não no sentido da confissão cristã da qual fazia parte, mas, que foi extraída diretamente da leitura e meditação que o pobrezinho de Assis periodicamente realizava nas páginas do Novo Testamento, especificamente nos 4 evangelhos. Ali ele percebeu que a verdadeira imitação de nosso Senhor consistia na busca apaixonada da face de Deus e no acolher, socorrer e ministrar ao próximo.

Francisco iniciava o dia com seus seguidores com momentos de silêncio, solitude e contemplação, para logo depois saírem pelas aldeias conclamando as pessoas a se arrependerem de seus pecados e crerem no evangelho. Após isso eles se dirigiam ao leprosário da cidade para ali pregarem o evangelho de uma outra forma: cuidando das feridas pulorentas e repugnantes dos enfermos. Em outras palavras: simplesmente amando aquelas pessoas que eram desprezadas e abandonadas por toda a sociedade da época. Contam os biógrafos do pobre de Assis que o amor que Deus concedeu em seu coração por aqueles enfermos foi tamanho que ele chegava ao ponto de beijar a face danificada pela  enfermidade daquelas pessoas. Deveras, como nos afirmam as escrituras “o verdadeiro amor lança fora todo o medo”. 

Em meio a uma época em que alguns seguimentos da igreja têm se caracterizado pela espiritualidade manca testificada por sua atitude beligerante de ataques cheios de ódio, difamações, calúnias e coisas desse gênero, faz-nos de extrema urgência retornarmos a fonte límpida e revigorante de uma espiritualidade bíblica que tem no amor abnegado, sacrificial, incondicional e sem explicação pelo próximo uma expressão eloquente e apaixonada do amor que dizemos nutrir por Deus e de Sua maravilhosa graça disponível a todos.

Está na hora da “moeda” recuperar o seu valor pela presença de suas duas faces: contemplação e ação; amor a Deus e amor ao próximo; Maria quedada aos pés do Senhor e Marta que serve, em amor, ao Senhor. 

Pois, por maiores e mais mirabolantes que sejam nossas peripécias espirituais, se nos faltar o amor tudo não passará de barulho que incomoda, discurso vazio que nada mais é do que pura verborragia, e de sal que já não dá mais sabor, servindo apenas para ser pisado e desprezado pelos homens.

Paz e bem!

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tau

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