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Archive for the ‘Escritura’ Category

Ao que tudo indica, estas duas palavras tão comuns do nosso vocabulário, por algum motivo, largaram-se as mãos e se divorciaram radicalmente. Necessitamos com urgência reconciliá-las em nossa espiritualidade cristã, se verdadeiramente desejamos mergulhar nas profundezas ainda inexploradas das riquezas divinas.

Desde o momento em que houve a ruptura entre mente e afetos; razão e emoções, ao que tudo indica, as Escrituras começaram a ser encaradas como objeto de investigação acadêmica. Como resultado disso vimos emergir uma teologia intelectualizada, hoje, incapaz de fazer arder em chamas o coração humano. Lê-se a Bíblia com o intuito apenas de se reunir o maior número possível de informações doutrinárias, as quais são expostas nas salas de aula de instituições de ensino cristãs e dos púlpitos de comunidades de adoração com o propósito de unicamente informar as pessoas.

Sendo assim, acabamos por presencia um grande número de cristãos bem instruídos intelectualmente, sem que com isso tenham suas vidas transformadas. Parece-nos que Bíblia e caráter em constante transformação e conversão são duas realidades que hoje em dia tem pouca o quase nenhuma ligação.

A leitura da Palavra de Deus deixou de ser uma experiência do coração que nos atinge mediante uma obra da graça, para deturpar-se numa mera peripécia intelectual de quem a lê. Somos alcançados em nossa mente, contudo, nosso coração permanece intacto. E, consequentemente, nossa vida não transfigurada numa beleza cristificada.

Eis que exércitos inteiros de intelectuais, ébridos em suas próprias jactâncias, exibindo o estandarte de seus títulos acadêmicos avançam rumo às Escrituras para analisá-las, dissecá-las, dominá-las e desvendar seus mistérios que nem homens como João, Pedro e Paulo o fizeram. “Tenho meu Phd; consegui meu Thd”, advogam e se autojustificam os mesmos.

Diante disso, acredito que se desejamos mesmo colocar-nos perante a Bíblia como os primeiros cristãos faziam, faz-se necessários tirarmos as sandálias de nosso orgulho e arrogância intelectuais e nos ajoelhar humildemente sabendo que nos encontramos caminhando em solo sagrado. A sarça ainda arde sem se consumir nas páginas do Livro, o que nos abre a possibilidade de um encontro real e pessoal com o Deus que nos conhece e nos chama pelo nome.

“E, vendo o Senhor que ele se aproximava para ver, chamou-o do meio da sarça: Moisés, Moisés! E ele respondeu: Estou aqui”

Bíblia e encontro. Para que isso nos seja novamente possível; para que haja esta reconciliação, necessitamos primeiramente nos achegar da forma e com uma atitude correta diante das Escrituras. Precisamos, de uma vez por todas, decidir: o que queremos ser? Teólogos, acadêmicos dissecadores ou filhos apaixonados de um Pai amoroso e amigo? Nossa escolha determinará diretamente a forma como lemos e a motivação pela qual nos achegamos à Bíblia. O que queremos ser? De que jeito desejamos ler?

Acredito que uma das formas de reavermos o encontro com Deus através da Palavra, encontro este que atinja o coração e não apenas a mente, com isso gerando transformação de vida, é resgatando uma tradição contemplativa de meditação chamada de Lectio Divina. Esta forma de ler as Escrituras remonta desde os primórdios do judaísmo. Foi sistematizada no século XII por Guigo II, um monge cartuxo. Não obstante, se tem notícias que antes mesmo disso a essência deste método já se configurava como a forma como os primeiros cristãos buscavam seu alimento espiritual nas Escrituras.

Guigo definiu este método de leitura na forma de uma escada de quatro degraus, a saber: leitura; meditação; oração e contemplação. Tendo como meta principal o encontro pessoal com o Cristo vivo que habita o nosso eu interior. O método é tão simples que todos podem praticá-lo.

Primeiramente, antes de tudo, é necessário colocar-nos numa atitude de escuta e numa expectativa de encontro. É muito pertinente nesse sentido colocar-nos em silêncio como preparação que antecede a leitura. E por que o silêncio? Pelo menos por dois motivos: Um deles é para fazer calar as múltiplas vozes interiores que acabam abafando e disputando nossa atenção e com isso impedindo-nos de ouvir a voz de Deus em nós. É um momento não apenas para silenciar palavras, mas , também, para apaziguar o coração.

A segunda razão deste período de silêncio antes da leitura é para nos preparar para escutar. A Escritura diz “O homem seja pronto para ouvir; tardio para falar…”. Escutamos mal porque falamos demais. Nossa tagarelice acaba por nos impedir de ouvir o que Deus tem a nos dizer. O silêncio nos ajuda a corrigir este tipo de desvio. E prepara nosso mundo interior para ser invadido e arrebatado pela Palavra divina.

O degrau seguinte é a leitura do texto em si. Recomenda-se a escolha de um texto curto e não de capítulos inteiros. Devemos sempre nos lembrar que o intuito é o de um encontro com Deus e não o de colher informações. Como deve ser feita esta leitura? Esta leitura deve ser reverente. Numa atitude de temor, deslumbramento e adoração nos achegamos ao texto sabendo que se trata da Palavra de Deus e não dos homens. Esta leitura também deve ser atenta. Sem distrações e sem interrupções. A leitura também precisa ser lenta. Sem pressa, sem passar batido, sem correr. Cada palavra precisa ser saboreada devagar. Leia pelo menos três vezes o texto. Por fim, a leitura precisa ser audível. E isso tem uma razão de ser. Já foi comprovado cientificamente que aquilo que nós lemos vai direto para o nosso cérebro, perpassando por movimentos intelectuais de nossa mente e lá ficando. Enquanto que, por outro lado, tudo quanto ouvimos vai direto para o coração, tocando nossas emoções e despertando nossos afetos.

“Ouve, ó Israel…” (Dt 6:4)

“Quem tem ouvidos para ouvir que ouça…”

Acontecerá num determinado momento que uma simples palavra, ou sentença no texto todo, capture a nossa atenção. Intuitivamente, perceberemos que aquilo é conosco. Então, paramos e nos detemos nesta palavra permitindo, com isso, que a mesma reverbere em nosso coração. Aqui começamos a subir o próximo degrau que é a meditação. É quando o texto ganha vida da parte de Deus para nós. Neste momento devemos personificá-lo, tomá-lo para nós. Pode ser útil também o uso de nossa imaginação ao nos ver sentido o frescor do vento, o cheiro salgado do mar, o murmurar da multidão ao redor de Jesus etc.

Todo mover, de qualquer tipo, gera uma reação. Este mover interior do texto que vai nos invadindo e nos trazendo a Palavra de Deus gera uma reação, impulso espiritual. Entramos no terceiro degrau da escada, a oração. Dependendo do que Deus nos falou através do texto isso vai gerar adoração, louvor, ações de graças, petição, intercessão ou confissão. Trata-se de um movimento conduzido pelo Espírito Santo.

Finalmente, subimos o último degrau da escada, degrau este que nos leva ao topo, ao encontro pessoal em si com Deus. Chamamos esta experiência de contemplação. A união mística da alma com o Totalmente Outro, o Deus Triúno: Pai, Filho e Espírito Santo. É difícil descrevê-la. Nem os grandes mestres devocionais da tradição cristã o conseguiram. Cabe aqui algumas metáforas que podem ajudar a elucidar seu significado:

” Um descanso” em Deus”

“Um olhar amoroso” para Deus

“Um conhecimento além do conhecimento”

Uma atenção extática” para Deus

“Um abraço de amor silencioso

Acerca da dificuldade inerente de se definir esta experiência, Thelma Hall no seu ótimo livro “Lectio Divina, o que é, como se faz”, nos diz o seguinte:

“Todas estas tentativas de verbalizar a experiência necessariamente falham em expressar a realidade, pela simples razão de que a contemplação transcende o pensamento e o raciocínio da meditação, assim como as emoções e ‘sentimentos’ das faculdades afetivas. Ela é, basicamente, uma oração e experiência de pura fé.”

Não só de pura fé, mas, de uma obra de inteira dependência da graça divina. Não somos nós que contemplamos. Deus é quem nos concede a contemplação. É Deus removendo o véu de sobre nossos olhos e dizendo: “Veja, eu estou aqui!”

A contemplação é o emudecer diante dAquele cuja presença se faz. É um estar com Deus e em Deus, longe dos labirintos das imagens mentais e livre dos pensamentos humanos vazios. Não trata-se da busca de sensações, visões ou quaisquer tipos de experiências místicas, apesar de que as mesmas podem ou não acontecer. Contemplação é o perceber, num relance, que Deus está, acolher esta presença querida e nela descansar e permanecer. Sem palavras, sem pensamentos. Só sentimentos, silêncio e assombro.

Nos achegarmos assim à Bíblia, nos levando a um encontro com Deus, fará de nós pessoas melhores. Cristãos melhores. Porque aquela promoverá mudança de dentro para fora. Nos estimulando e nos capacitando a vivenciar o mistério da encarnação: “a saber , Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1:27).

Tereza de Ávila escreveu:

“Toda a mística que se batize de cristã tem de cristalizar numa contemplação de Cristo e numa vontade de encarnar sua vida”.

Que os anjos de Deus em coro digam: Amém!!! E nós também.

Que a Bíblia seja para nós boca de Deus. E que, ao abri-la, sejamos levados ao encontro dAquele que habita no mistério e fulgor de luz inaxecível. O Deus revelatus mas que permanece absconditus em sua identidade mais essencial.

“Mas agora, assim diz o Senhor que te criou, ó Jacó, e que te formou, ó Israel: Não temas, porque eu te salvei. Chamei-te pelo teu nome; tu és meu.(…) Visto que és precioso aos meus olhos e digno de honra, e porque eu te amo, darei pessoas por ti e os povos pela tua vida” (Is 43:1,4)

Que palavras maravilhosas essas. Não seria uma grande tragédia elas permanecerem apenas em nossa mente sem que desça para o coração?


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A meditação cristã é uma das mais marcantes e significativas páginas da história da Igreja. É uma expressão que vem desde a época dos Pais do Deserto. Foi muito utilizada e praticada pela Monástica e sistematizada na Lectio Divina pelo monge cartuxo Guigo II (1173-1180). Hoje é também conhecida como Meditação Cristã ou Leitura Orante das Escrituras.
Guigo II utiliza a idéia de uma escada para a prática da Lectio Divina, sugerindo uma subida para um encontro no alto, no monte de Deus, e logo uma descida para um encontro nas profundezas, no fundo do coração.
Statio (preparação), Lectio (leitura), Meditatio (meditação), Oratio (oração), Contemplatio (contemplação), Discretio (discernimento), Collatio (compartilhar) e Actio (ação) são os degraus dessa milenar tradição de ler a Bíblia.
Esses passos constituem um movimento integrado em que cada degrau conduz ao outro. Passo a passo, lentamente saboreando cada passo, em direção ao topo, para, em seguida, descer ao vale, voltar ao concreto e ao cotidiano.
Assim diz Guido: “A leitura – Lectio – é o estudo atento da Escritura feito com um espírito totalmente orientado para sua compreensão. A meditação – Meditatio – é uma operação da inteligência, que se concentra com a ajuda da razão, na investigação das verdades escondidas. A oração – Oratio – é voltar com fervor o próprio coração para Deus para evitar o mal e chegar ao bem. A contemplação – Contemplatio – é uma elevação da alma que se levanta acima de si mesma para Deus, saboreando as alegrias da eterna doçura”. E completa: “A leitura leva à boca o alimento sólido, a meditação corta-o e mastiga-o, a oração saboreia-o, a contemplação é a própria doçura que alegra e recria”.
O objetivo não é um estudo bíblico ou uma exegese. É leitura bíblica que nos conduz a uma experiência de encontro com Deus e a uma experiência de oração. Ex 33.11 diz: “Falava o Senhor a Moisés face a face, como qualquer um fala ao seu amigo”.
O propósito da Lectio Divina não é, simplesmente, aumentar o nosso conhecimento intelectual, mas nos levar a um encontro vivo com Jesus Cristo. Tal encontro não nos deixa ilesos, mas faz com que nossa pobreza espiritual aflore, nossos pecados venham à tona, bem como nos indica o caminho da transformação de nossas vidas.
Sem isso, podemos conhecer as Escrituras só racionalmente, sem que elas penetrem nas dimensões mais profundas do nosso ser para tocar nossa consciência, nosso coração, nossa vontade.
Na leitura meditativa, a Palavra não é interpretada, mas recebida. Uma palavra única, exclusiva, que nos ajuda a penetrar no “mistério de Cristo em nós, a esperança da glória” (Cl 1.27). Na Lectio não empregamos a “força de vontade” ou uma disciplina da ordem da razão ou do esforço, mas lemos a Palavra para que ela nos surpreenda, para que ela toque a nossa alma a partir de uma revelação pessoal, dirigida pelo Espírito através de nossa intuição, nossa imaginação, nossos afetos e sentimentos.
Para ler a Bíblia de forma reflexiva, precisamos de um tempo de preparação, de corpo relaxado, de alma apaziguada, de espírito pronto e alerta. Começamos com o nosso corpo, suas dores e tensões, procurando relaxar em uma posição confortável. Faremos, então, contato com nossa alma e seus muitos ruídos internos, procurando trazê-la de volta ao seu sossego (Sl 116.7: “Volta, minha alma, ao teu sossego, pois o Senhor tem sido generoso para contigo”). Oramos ao Senhor, em quietude, com serenidade, aguardando o Senhor (Sl 130.5: “Aguardo o Senhor, a minha alma o aguarda, espero na sua palavra”). Então lemos a Palavra, sem forçar nada, deixando acontecer, nos entregando a ela, iniciando um diálogo com Deus no profundo de nossa alma. Podemos ter um diário onde escrevemos nossas meditações, resgatando uma linguagem mais poética, mais metafórica, uma linguagem da alma, dos sentimentos, dos afetos. Davi tinha um diário que se tornou o livro dos Salmos, onde contava e cantava sua vida com Deus.
A prática da Lectio Divina emerge do silêncio, da solitude e do recolhimento. Conduz a um amadurecimento espiritual e ao autoconhecimento e gera um desejo de maior intimidade com Deus, e de servir ao próximo com santidade e discrição.
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Por Osmar Ludovico

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Quando tratamos de contemplação estamos pisando em terreno misterioso. Que apenas a linguagem análoga é capaz de nos elucidar algo deste outro mundo.

A contemplação á graça pura. Dom do Espírito daquele que é Totalmente Outro. Experiência que começa conosco, contudo, não termina em nossas mãos. É um deixar-se conduzir cada vez mais pelas asas soberanas do Sopro divino.

Não a alcançamos com métodos do tipo: faça isso, depois faça aquilo… Não obstante, podemos criar um “ambiente” que nos coloque numa posição em que Deus tome a primazia de tão sagrada e sublime experiência.

Portanto, apenas como analogia elucidativa podemos falar de uma “Escada para a contemplação”. Devemos ter em mente que quando se trata das coisas do espírito toda comparação é imperfeita. Deste jeito, apesar de usarmos o termo escada, não devemos entender a experiência como isso vem depois disso. Mas, isso sim, como um movimento espiritual de um ato só contendo nele várias dimensões.

Assim, fazendo uso de nossa analogia, esta escada que nos conduz à contemplação, ou mais conhecida por Lectio Divina, é feita de 4 degraus. A saber:

1. Leitura – Este é o primeiro “degrau”. Aqui nos debruçamos sobre a Palavra e a lemos. Não uma leitura rápida nem técnica, visando dissecar exegéticamente o texto. Trata-se de uma leitura mais com o coração do que com a mente. Uma leitura em espírito de oração e de reverente expectativa. Aqui os olhos convertem-se em ouvidos: não apenas se lê, se ouve!

2. Meditação – Aqui, neste segundo “degrau” nos deparamos com algo que tocou a fundo nossos corações. Pode ser uma frase curta ou até mesmo uma única palavra. E assim começamos a interiorizar aquilo que nos foi dado. De que maneira? Ruminando a frase ou palavra que nos tocou: repetindo-a várias vezes, permitindo assim que a mesma lance suas raízes nas profundezas de nossa alma. Este é o momento em que Deus começa a falar conosco.

3. Oração – Neste próximo “degrau” respondemos pessoalmente a palavra que nos foi entregue por Deus. Alguns mestres falam do proveito de neste momento mesclar a oração com a leitura retornando algumas vezes ao texto em questão. Contudo, eles também avisam acerca do cuidado que se deve ter para não se distrair em demasia com a leitura , permitindo assim, que o fogo que antes estava aceso, venha a se apagar.

4. Contemplação – Neste quarto e último “degrau” á medida que aprofundamos a oração a Presença Amante e amada vai tornando-se cada vez mais densa. Tão densa que nossos afetos, emoções e capacidades imaginativas cessam, para que simplesmente estejamos em e na. Neste aprofundar de intimidade as palavras tornam-se desnecessárias. O silêncio se configura em eloquente declaração de amor ao Amado. Coração é arrebatado á presença daquele que é Misterium Tremendum. Não é tão simples de ser descrito como os outros três “degraus”. Nas palavras de Thomas Merton trata-se de um abraço de amor silencioso.

Esta “escada” está aberta, logo, acessível a todos quantos desejam empreender subida. Contudo, como qualquer escada, no início parecerá desgastante, íngrime, dificultosa. Mas, com prática e humilde dependência do Espírito Santo, logo perceberemos que não nos encontramos mais subindo sozinhos.

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