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Archive for the ‘Mística Cristã’ Category

071214012555Quando falamos da disciplina do silêncio automaticamente somos confrontados com o grande desafio que é encarar nosso cotidiano extremamente barulhento e de ritmo cada vez mais frenético. Surgem-nos perguntas tais como: “Como encontrar tempo para praticar o silêncio?”; “Não seria o silêncio uma prática exclusivamente monástica, ou seja, para pessoas com um chamado específico para viverem em clausura?”; “Estar em silêncio só é possível num ambiente com total ausência de ruídos e distrações?” e etc.

Dúvidas assim que tendem a nos intimidar e às vezes até desanimar, surgem do fato de que encaramos o silêncio apenas na sua dimensão exterior. De modo que praticar o silêncio só é visto como a separação de tempo e lugar em que paramos, nos acalmamos e adentramos num estado meditativo de quietude e interiorização. Não restam dúvidas de que o silêncio tem este lado prático e devocional. No entanto, o que poderíamos dizer daqueles que não têm muito tempo ou não dispõem de oportunidades frequentes para experimentarem períodos (horas, dias, semanas, meses) de prática silenciosa, em solitude e tendo uma Bíblia aberta diante de si?

Apesar de acreditar que devemos lutar firmemente para abrirmos brechas em nossas agendas diárias para encontrarmo-nos com o Senhor em solitude, silêncio, meditação, oração e contemplação (Lectio Divina), jamais devemos nos esquecer de que o silêncio possui outra “face da moeda” que muitos de nós amantes da espiritualidade e mística cristãs acabamos por negligenciar, seja por desconhecimento ou esquecimento da mesma.

A tradição monástica, por mais surpreendente que possa parecer, ajuda-nos nesse sentido quando fala daquilo que poderíamos chamar de vida silenciosa, onde o silêncio, mais do que um momento de se colocar num lugar desprovido de barulhos, é considerado como uma atitude interior de recolhimento constante. Um voltar-se contínuo para o nosso centro divino, nosso “eu” interior, o santuário interno de nossa alma, em outras palavras, uma atitude de contínua atenção à Presença do Deus que nos habita através do Seu Espírito e que sempre está falando com cada um de nós. Os monges em seus escritos sempre tocam no assunto de se permanecer numa “cela” interior em meditação e oração incessantes mesmo durante as atividades do dia-a-dia (“Ora et Labora”).

Acerca dessa atitude de recolhimento interior silencioso, Anselm Grun escreve: “O silêncio é a atitude interior em que eu me abro para esta realidade do Deus que me envolve. Portanto ela é mais do que o não-falar” (As Exigências do Silêncio, págs.69,70). Por esse prisma o silêncio não é visto como uma realidade em conflito com as atividades do cotidiano, mas, como um espaço mais profundo no qual elas acontecem e do qual emergem e lhes empresta significado espiritual. Aqui silêncio é estar em atitude interior de recolhimento e atenção à presença de Deus que nos envolve por todos os lados enquanto cozinhamos, varremos o chão,  pegamos o ônibus para o trabalho, sentamo-nos em frente ao computador no nosso escritório e etc. Silêncio é estar em perpétua atitude de escuta para Deus.

Maria, mãe de nosso Senhor Jesus Cristo, nos é apresentada nas páginas dos evangelhos como mulher de vida silenciosa, em constante atitude meditativa de recolhimento interior em meio aos acontecimentos do cotidiano (cf. Lc 2:19).  Maria é o arquétipo da mulher silenciosa, ativa-contemplativa. E temos muito que aprender ao observar seu exemplo como alguém cuja vida de silêncio interior lhe permitiu acolher o mistério do Verbo de Deus segundo nos revela o evangelho.

O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da encarnação de Cristo . No Evangelho segundo S. Lucas no capítulo 2 verso 19 lemos acerca da atitude de Maria – “Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração”. Que coisas eram essas? O contexto imediato dos versos anteriores nos revelam (cf. vs. 16-18). Maria em atitude de meditação acolheu a revelação trazida pelos pastores acerca da criança que ela acabara de dar à luz. O glorioso mistério de que o infante envolto em panos comuns, nascido pobre, deitado numa manjedoura era o próprio Senhor e Cristo encarnado para a salvação dos pecadores (Lc 2:11). O Filho de Deus vindo em carne era ele mesmo o Evangelho, as boas-novas de grande alegria para todo o povo, inclusive ela, Maria. No silêncio de seu coração Maria pode contemplar a glória de Deus cumprindo as profecias da Antiga aliança, trazendo ao mundo o Messias prometido como Luz para dissipar as trevas do pecado, trazendo paz aos homens (Lc 2:14).

O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da Identidade de Cristo. Num outro texto Lucas menciona novamente a atitude de Maria frente à revelação do mistério divino – “Sua mãe, porém, guardava todas essas coisas em seu coração” (cf. Lc 2:51b). Que mistério foi esse que ela guardou em recolhimento interior e oração? O contexto dos versos anteriores (vs. 41-50) nos mostra que foi a revelação da identidade de Jesus com o Pai Celeste exposta nas suas próprias palavras – “Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?”(v.49). Mesmo não tendo compreendido naquele momento todas as implicações do que fora dito por seu jovem filho (v.50), Maria acolheu aquelas palavras “Jesus se diz filho do próprio Deus”. O acolhimento do mistério contido nas palavras de Jesus possibilitou no futuro Maria compreender que Jesus e o Pai eram um (cf. Jo 10:30; 14:9,10) e que como seu Senhor e Mestre ele não lhe devia mais obediência (Jo 2:3,4) e sim que deveria ser obedecido em tudo (Jo 2:5). No silencio interior do coração Maria intuiu que aquele judeu pré-adolescente não era só o filho do carpinteiro José, seu marido, mas antes de tudo o Unigênito do Pai.

E o silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da paixão de Cristo. Apesar de não encontramos a mesma fórmula dos pontos anteriores que nos falam de Maria guardando palavras e acontecimentos no coração em atitude de meditação, não podemos desprezar a presença dessa mesma atitude perante a crucificação – “Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã dela, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena” (Jo 19:25). Maria diante do corpo pregado na cruz não diz nada. Chora apenas. E contempla a Graça e o amor redentor de Deus sendo levado até as últimas consequências por cada um de nós, inclusive por ela mesma. No silêncio de seu coração contemplativo ela descobre aos pés da cruz que naquela paixão divina havia substituição (cf. Mt 27:46), havia perdão (cf. Lc 23:34) e havia redenção (cf. Jo 19:30).

O silêncio de Maria não era um silêncio alienado, desatento e inútil. Pelo contrário, era atento e profícuo. Não vemos Maria investindo grandes somas de tempo para a realização de retiros silenciosos e meditativos. Pelo menos as Escrituras não nos relatam nada a esse respeito. Ao passo que nos mostra uma mulher comum que vivia as nuances da vida cotidiana numa dimensão espiritual. E isso lhe era possível porque ela guardava todas as coisas meditando-as no seu coração.

Essa atitude interior silenciosa lhe permitiu acolher os grandes mistérios do advento, da encarnação e da paixão, bem como a apreensão do Sagrado que lhe era oferecido por detrás dos eventos ordinários de um dia (inclusive no bronquear com o filho de 12 anos que desaparece do nada!).

Que possamos seguir seu exemplo. Que nos esforcemos para cultivar momentos silenciosos devocionais para meditarmos e orarmos. Que o silêncio desses momentos nos acompanhe no decorrer do dia à medida que em meio às múltiplas atividades de nosso viver nos voltemos para nosso interior silencioso onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo, o Deus Eterno e Triúno, nos aguarda para que continuemos a desfrutar de íntima comunhão.

Se fizermos assim como Maria cada simples atividade será meditação; cada simples acontecimento oração; cada simples pensamento contemplação.

Que Deus nos abençoe!

Vosso servo e irmão menor,

Felipe Maia, OESI/OFSE

Paz e bem.

tau

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jesus amigo jovemRelendo há pouco tempo o excelente e inspirativo livro de Brennan Manning sobre o discipulado radical, “A Assinatura de Jesus” – Ed. Mundo Cristão, fui impactado de diversas formas através de suas reflexões argutas e sinceridade desconcertante. É interessante como releituras acabam por nos tocar novamente e de maneiras distintas. E uma das coisas que li novamente e que me falou de forma nova foi a questão da experiência pessoal com Cristo. Especialmente quando Manning coloca que na maioria dos casos de vida devocional cristã o Jesus que amamos e adoramos é o Jesus do teólogo, da denominação da qual fazemos parte, menos o Jesus que se descobre, se revela e se doa a nós em meio à intimidade de nossa busca por Ele.

Em suma o que ele argumenta de forma apaixonada, como era de seu estilo, é que o Jesus que cultuamos não deve ser o Jesus de Calvino, Martinho Lutero, Billy Graham ou Francisco de Assis. Mas, o meu Jesus! O Jesus que experimento falando comigo, me amando e cuidando de mim. Não uma relíquia do museu da espiritualidade e/ou da teologia, mas, um presença pessoal viva que interage comigo em meio a um relacionamento de amizade em amor.

Quem de fato é o Jesus que dizemos amar e servir? É o nosso Jesus ou o Jesus da experiência dos outros? Precisamos, mediante acurada e corajosa reflexão, econtrar respostas sinceras para essas perguntas igualmente sinceras.

Jesus está mais próximo de cada um de nós, filhos do Altíssimo Deus, do que imaginamos. E podemos experimentá-lo de forma simples e ao mesmo tempo profunda; podemos experimentá-lo e encontrá-lo em lugares e situações antes nunca imaginadas! Essa é a beleza que o Evangelho, as boas-notícias de Deus, confere a vida de todo aquele que crê: enxergar um mundo imbuído e permeado com a presença do Senhor Jesus Cristo. Isso nos desvencilha do fardo pesado da busca por um glamour em termos de vida espiritual. Não é preciso muita coisa, não! O Evangelho é algo simples de ser vivido. 

Permita-me nas linhas que se seguem compartilhar com você de que forma tenho aprendido (sim, pois não me considero um professor, mas, apenas um aluno do Reino) a experimentar Jesus no meu dia-a-dia.

Bem, experimento Jesus…

quando me coloco em solitude e silêncio. Essas duas disciplinas para a vida no Espírito sempre caminham juntas. Como já bem disse alguém, o silêncio é a solitude em ação. Tenho buscado (e por que não dizer lutado!?) para criar momentos e tempos para colocar-me a sós com Jesus e aquietar meu mundo interior e, na medida do possível, o exterior. Nesses perídos preciosos busco calar-me e fazer cessar as muitas vozes que clamam por minha atenção. Quando com muito esforço consigo isso, acesso uma via intuitiva, mística mesmo, de onde “escuto” uma voz, a voz de Cristo, que fala comigo desde meu Eu mais profundo, o Eu Interior. A voz que diz que sou irrevogavelmente amado e desejado. No silêncio do santuário da alma encontro entronizado Cristo, Rei dos reis e Senhor dos senhores! Ao me colocar deliberadamente sozinho com Jesus redescubro a verdade de que o mundo continua mundo, que a vida permanece funcionando mesmo em meio a minha ausência, mesmo nesses momentos em que não estou “fazendo nada”. Isso tem o poder de libertar-me do peso de carregar o mundo nas costas ao mesmo tempo em que me ajuda a perceber que todo o universo, inclusive a minha própria vida, é sustentada e conduzida pela poderosa Palavra de Jesus.

… quando medito nas Escrituras Sagradas. Isso requer uma atitude de escuta de minha parte. Olhos transfiguram-se em ouvidos. Achego-me ao texto Sagrado, não para ler grandes porções da Bíblia. Não desejo buscar informações para alimentar minha curiosidade intelectual. O que quero é acessar o coração de Abba e nele encontrar Seu Filho Unigênito. Aqui a Bíblia para mim não é um compêndio de teologia, mas, uma carta de amor, escrita em amor, por um Deus de amor, para um filho amado: eu! Seleciono a passagem, leio pausadamente, degustando cada palavra, cada expressão, cada parágrafo, sem pressa. Até que minha atenção seja atraída por uma única palavra ou frase no texto. E na mesma demoro-me, releio, murmuro, rumino. E em atitude de temor e tremor acolho no coração o mistério da Verdade que a mim foi trazida pelo texto escolhido. A meditação conduz-me a um encontro pessoal e real com o Cristo Ressurreto a partir do texto Sagrado. Meditar torna-se experimentar Cristo!

… quando me volto para a oração. Oração esta que brota como água da fonte nascente, vinda diretamente da meditação nas Escrituras. Conforme o que ouço da parte do Senhor surge na alma uma resposta que conduz-me à adoração, ou louvor, ou petição, ou confissão, ou intercessão. Oro ao Pai em nome do Filho. Oro ao Filho em seu próprio nome. Oro ao Espírito em nome de Jesus. Já não me preocupo mais com as intermináveis controvérsias se se deve ou não orar ao Espírito Santo, Jesus ou apenas ao Pai em nome de Jesus. Ah, e ainda tem a questão se a prece será ouvida ou não pelo Pai se no final da mesma não colocarmos a cláusula “em nome de Jesus, amém!” Posso afirmar que em qualquer forma de orar tenho sido contemplado pelo rosto amoroso do Deus Triúno que é perfeitamente equilibrado, em que as Três Pessoas Benditas não vivem em guerra entre si nem em crises eternas de ciúme doentio. Meu Deus não sofre de esquisofrenia! O Pai está no Filho, que está no Espírito e que está no Pai. Três pessoas distintas voltadas uma para a outra num abraço de amor eterno. Por isso, nas minhas orações tenho falado diretamente com Jesus, agradecido emocionado por sua paixão por mim, por sua cruz e por sua presença constante em minha vida.

…quando estou com minha família. Acredito que um dos maiores desafios que tenho encontrado ao longo do Caminho é o de encontrar o rosto de Cristo no seio familiar. Por que digo isso? Pelo simples fato de que quando pensamos na experiência de Jesus, na maioria das vezes, temos em mente a igreja, pois ela é o Corpo de Cristo reunido para adorar e concluir a missão no mundo; e no próprio mundo que carece de redenção e para o qual a igreja precisa pregar as boas-novas de Deus aos homens. Mas, nunca a família. Na verdade às vezes a mesma é considerada como uma força antagônica à experiência da presença de Jesus. Não há maior erro do que pensar dessa forma! Pelo contrário, a família é o campo primordial para se viver a espiritualidade discipular cristã. Buscando a cada dia trazer essa verdade à mente é que tenho conseguido acessar meu lar como um maravilhoso “sacramento” divino. Momentos específicos, e intencionais, em família como nossos almoços à mesa, saídas para o cinema, passeios, ou a simplicidade de uma deliciosa pizza na companhia de um ótimo filme são verdadeiras teofanias. Claro, não poderia deixar de mencionar nossos cultos domésticos onde juntos, como família reunida aos pés do Cristo Vivo e presente, adoramos, lovamos, oramos e compartilhamos a Palavra de Deus. Olhar os olhos amorosos de minha esposa e os de meus filhos, cheios de expectativas, tem sido o mesmo que contemplar a face de Jesus sorrindo para mim!

… quando estou inserido na comunidade dos salvos, a igreja. A igreja é a comunidade de fé que se reune em torno do Cristo vivo e ressurreto. Que o adora em espírito e verdade e que ouve e responde à sua Palavra exposta com fidelidade. A igreja é (ou pelo menos deveria ser) um ajuntamento de discípulos que vive em comunhão aprendendo dia-a-dia o que significa amar uns aos outros assim como fomos amados pelo próprio Senhor Jesus. Desta forma, através dos atos abnegados de altruísmo, de perdão mútuo e de encorajamento na jornada vejo a própria mão de Jesus a conduzir-me pela vereda do crescimento na Sua semelhança. Em tudo isso, numa caminhada comunal, somos tocados, transformados, desafiados enquanto juntos clamamos: “Maranata, vem Senhor Jesus!”

… quando estou no trabalho, exercendo minha profissão. O “ora et labora” (ora e trabalha) beneditino continua mais atual do que nunca. Ao invés do meu ambiente de trabalho ser encarado por mim como um “não lugar”, sem sentido, sem propósito espiritual, antagônico a minha fé e vivência de Jesus, ele torna-se um dos principais terrenos para que eu viva os valores do Reino seguindo o Mestre. De que forma? Primeiramente busco impregnar minha mente com o conceito bíblico de que quem criou o trabalho foi Deus ao colocar o homem para cuidar do jardim do Éden. Também considerar que cada profissão é uma vocação dada por Deus para o bem da humanidade, ajuda muito. Compreender que o serviço que presto tem por objetivo primordial glorificar a Deus é uma verdade de suma importância de se ter diante dos olhos. Também experimento Jesus no meu ambiente de trabalho quando o convido para ser meu parceiro em tudo o que eu for fazer no dia. Experimento Jesus fazendo o que faço consciente de Sua presença comigo. Experimento-o no meu trabalho quando em última instância me conscientizo de que o meu serviço faço primeiramente para Ele do que para os homens. 

Sem sombra de dúvidas essas são as principaos dimensões da minha existência em que tenho experimentado Jesus real e pessoalmente. No entanto, existem realidade mais ordinárias, fugazes em que o Cristo vivo tem me concedido as sementes de sua contemplação. Por isso, posso dizer que também tenho experimentado Jesus…

… na admiração da beleza da criação que está permeada da Sua glória.

… na admiração dos talentos artíticos humanos: literatura, escultura, teatro, música etc.

… no sorriso despretensioso de uma criança.

… na degustação de uma deliciosa refeição.

… ao assistir um bom filme.

… num encontro com amigos queridos.

… em momentos lúdicos com meus filhos, como por exemplo, jogando video-game.

A lista é extensa assim como a graça do crucificado que nos alcança de maneiras inesperadas. O que é necessário é estar atento e com o coração receptivo às suas sementes.

Ó Jesus, amado da minh’alma, quão grande é o Teu amor; quão infinita sua misericórdia; e quão estonteante Tua graça que me alcança no ordinário e no extraordinário dessa vida linda e empolgante. Amém!

Paz e bem!

tau

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SDC14136A espiritualidade cristã constitui o horizonte mais amplo em que se emoldura a espiritualidade franciscana. Pode-se dizer que espiritualidade franciscana é uma maneira original de viver a espiritualidade cristã, um modo específico de pensar, de viver e de colocar em prática o Evangelho de Jesus Cristo. Uma forma de situar-se no mundo, diante de Deus e dos homens, uma forma de relacionar-se com toda a realidade: pessoas, coisas, Deus.

Quando se fala de espiritualidade franciscana, está-se falando da espiritualidade de um grupo que busca partilhar, entre si e com a sociedade em que vive, o seu modo de viver que teve seu início com Francisco de Assis. É praticamente impossível compreender a espiritualidade franciscana, se não soubermos pelo menos um pouco sobre Francisco de Assis. Isso porque ele encarnou tão profundamente a espiritualidade do Evangelho em sua existência que se torna impossível falar da espiritualidade franciscana sem falar da existência de Francisco. Espiritualidade e existência identificam-se em Francisco.

Seguimento de Jesus Cristo: base da espiritualidade de São Francisco

O encontro de Francisco com Cristo na palavra do Evangelho tem algo semelhante ao encontro de cada um dos apóstolos com Jesus. O encontro dos apóstolos com o Mestre resultou em um chamado: “Segue-me”. O de Francisco, igualmente. Francisco toma consciência de que viver o Evangelho só pode ser uma realidade, quando se segue Jesus de perto. Por isso, nos escritos de Francisco, encontramos, freqüentes vezes, a expressão “seguir a Cristo”. Na regra que apresentou ao Papa Inocêncio para a aprovação, em vez de repetir a expressão “viver o Evangelho”, ele fala em seguir a doutrina e as pegadas de Jesus Cristo e cita textos do Evangelho que mostram, com clareza, a idéia e a decisão do seguimento de Cristo: “Se queres ser perfeito, vai e vende tudo que tens e dá aos pobres e terás um tesouro no céu, e vem e segue-me” (Mt 19,21 e Lc 18,22). E, “se alguém quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo e tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24) (RnB 1,2-4). Mais adiante, na mesma regra, ele exorta os irmãos: “Todos os irmãos se esforcem por seguir a pobreza e a humildade de Nosso Senhor Jesus Cristo” (RnB 9,1).

A expressão “seguir a Cristo” ou “seguimento de Jesus Cristo” merece uma reflexão. Na maioria das vezes, quando se fala em seguir Jesus Cristo, pensa-se em termos de imitação ou de repetição daquilo que Jesus fez. Mas não se trata de reproduzir os gestos e palavras de Jesus à maneira de fotocópia. Com a expressão “seguir a Cristo”, a própria tradição oral dos Evangelhos não entendia a reprodução fiel daquilo que Jesus fazia. Compreendia que, a partir daquele momento, estabelecia-se uma relação especial entre Jesus e aquele que fora chamado a segui-lo. “Seguir” quer indicar esse relacionamento de proximidade.

Surge-nos então a pergunta: que tipo de relacionamento se estabelecia entre Jesus e os que o seguiam? O relacionamento vem traduzido no binômio mestre-discípulo. São dois termos tomados do mundo dos artesãos. Desde a Antiguidade, os artesãos que ensinavam seu ofício a outras pessoas, geralmente jovens, eram chamados de mestres; os aprendizes eram denominados discípulos. Os discípulos faziam tudo para assimilar a técnica, o toque, a maneira especial de trabalhar de seu mestre. Bom discípulo era aquele que mais se aproximava de seu mestre na técnica de seu ofício.

Só que, com o Mestre Jesus, os discípulos não aprendiam um ofício, mas a arte de viver, de relacionar-se com os outros, de estar em contínua referência a Deus, de perceber a realidade. Ser discípulo, então, não significava repetir o que o mestre fazia, mas assimilar aquela maneira de ser e de viver.

Seguir a Cristo, portanto, significa estabelecer com Jesus Mestre a relação de discípulo. E o discípulo, nessa relação com o mestre, passa, pouco a pouco, a assimilar os mesmos critérios de ação do mestre, a posicionar-se na mesma ótica de leitura da realidade, a ter os mesmos sentimentos e, inclusive, a mesma vontade. Por exemplo, a vontade de Jesus Cristo é sempre vontade salvífica, isto é, vontade que quer, acima de tudo, a salvação das pessoas. Os discípulos, em seu empenho de aproximar-se do mestre, começam a educar sua vontade a querer também, acima de tudo, a salvação das pessoas. Seguir a Cristo ou ser seu discípulo é, segundo a palavra de São Paulo, ter o mesmo sentimento de Cristo Jesus (cf. Fl 2,5; Cl 3,12-17).

Desse modo, ser discípulo de Jesus não significa aprender a fazer muitas coisas, mas a fazer todas as coisas com uma determinada marca de qualidade. E é essa marca de qualidade que os discípulos aprendem com o Mestre Jesus.

Com o propósito de viver o Evangelho ou de seguir a Cristo, Francisco procurou, de corpo e alma, a relação com o Cristo Mestre. Aceitando o convite do Mestre para ser seu discípulo, colocou-se num processo de aprendizagem: queria aprender do mestre sua maneira de viver, de sentir, de pensar, de perceber a realidade, de agir e de relacionar-se. Buscava essa relação de proximidade com Cristo por meio da oração e da leitura do Evangelho. Quando não sabia, por exemplo, como agir em determinadas circunstâncias, Francisco lia o Evangelho para buscar, segundo sua expressão, o conselho do Mestre (cf. 2Cel 15; AP 10). Não com o intuito de executar à risca o que lia, mas de agir como Jesus agia. Nada mais importante para ele do que se imbuir do espírito do Mestre. E nessa busca, investia tudo: abandonou os bens, a família, os antigos amigos de festas. Colocava em prática o conselho evangélico: “Se alguém considera seus familiares e amigos mais do que a mim, não pode ser meu discípulo” (cf. Lc 14,26).

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Extraído do site Franciscanos

tau

 

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 shutterstock_688792181Ricardo Gondim*

Eu não saberia explicar as razões da minha fé. Não consigo expressar os porquês da minha devoção. Minha espiritualidade não serve para convencer uma pessoa indiferente. Eu falharia em gerar apetite pelo que transcende. O mistério que tempera o meu viver talvez não sirva em pratos alheios. Minhas convicções não são transferíveis. Minha sede do eterno não é matemática, inamovível. Eu balanço em terremotos. Não sou um Gibraltar. Decididamente, as certezas que comovem  a minha alma são vagas. O pouco que sei sobre o divino é provisório. As réstias de percepção que me chegam do eterno esbarram na mortalidade. Sob o peso da imperfeição, não alcanço o zênite a respeito do perfeito.

Sei tão somente que Deus se mistura dentro de mim como impulso, norte, nostalgia, horizonte, atracadouro. Empenhei o meu futuro em seguir seus passos invisíveis. No dia em que o chamei de Senhor, a extensão do meridiano da minha esperança se alongou. Nele, os fragmentos de meu mapa existencial não precisaram mais se encaixar. Aprendi a conviver com pedaços desconexos. Não me encabulo ao seu lado. Estradas bloqueadas por tapumes ou por neblinas não me intimidam. Deus imanta o ponteiro da minha bússola.

Sei tão somente que Deus se fez residente no campus onde elaboro pensamentos. Presente nos voos da minha imaginação, ele se transforma no mais doce ideal. Minha seta e meta, o entusiasta das interrogações que me levam adiante. Deus me quer curioso. Ele sempre incentiva a perguntar mais. Causa de toda inquietação, Deus se esconde na fonte da minha angústia.

Sei tão somente que Deus se desfraldou como flâmula sobre a minha vida e fez do lugar onde moro, seu palácio. Por me amar tanto e tão formidavelmente, penitência, purgações,  sacrifícios e tudo o que a religião exige para aplacar fúria, foi substituído por serenidade. No porão da tortura religiosa, nos suplícios culposos do moralismo, achei um lugar de descanso: o seu regaço. Ele é agora minha referência de desassombro.

Encontrei paz desde que comecei a me desvencilhar do Deus guardador de livros contábeis. Encaro a existência com a leve sensação de que qualquer sentença formalizada contra mim está suspensa. Já não fujo dele como os antigos evitavam Átila. A fúria de Júpiter e a volubilidade de Zeus, comuns nas descrições de Javé, não me aterrorizam. Agora prefiro chamá-lo de Clemente. No seu bolso estão guardados todos os acertos e erros que me tornaram quem eu sou.

Sei tão somente que Deus fez arder algum filamento em minha alma e meu olhos se acenderam. Ele é mourão – estaca – que demarca o jardim fechado da minha interioridade. Só Deus dobra o sino do meu coração em lutos e dias solenes.

Sei tão somente que Deus me fascina como aurora que se quebra em vários matizes. Deus é sol que tinge a minha face de um vermelho suave, também é lua que prateia a minha existência. Noto traços azuis de sua realeza em meu sangue raro. Seu branco me deixa com a improvável sensação de que alguma pureza me tocou. Um nanquim se projeta desde o céu e me vejo absorvendo tudo o que é peculiar aos humanos. Ele se faz arco-íris em mim.

O que dizer de Deus?
Pouco.
Melhor o silêncio.
Que as poucas palavras, então, sejam esforço  – precário – de expressar reverência.

Soli Deo Gloria

tau

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simplicidade-voluntariaIsabelle Ludovico*

Os Estados Unidos têm 6% da população mundial e consomem 33% dos recursos naturais. O desenvolvimento da China acelera o esgotamento dos recursos. O filme de Al Gore “Uma verdade inconveniente” demonstra com clareza a iminência de uma catástrofe de proporções planetárias. Diante da evidência de que a terra não agüenta nosso estilo de vida, tem surgido um movimento chamado Simplicidade Voluntária. Em 1981, o americano Duane Elgin escreveu o livro Simplicidade Voluntária – Em Busca de um Estilo de Vida Exteriormente Simples, mas Interiormente Rico.

Se o mundo prega uma nova ética humana que fala de fraternidade e comunhão, de solidariedade e compaixão para preservar o nosso futuro, o que dizer de nós, cristãos, que deveríamos estar à frente dessa proposta, como também do movimento ecológico? De fato, deveríamos estar cientes de que Deus nos confiou a terra para cuidarmos dela e não para depredá-la. Deus nos criou para que nos amássemos e não para usar as pessoas em nosso próprio benefício? Devemos começar confessando que nos tornamos coniventes com um sistema que produz injustiça social e consumo desenfreado de supérfluos, enquanto a maioria da população é privada do essencial.

Se estivéssemos mesmo conscientes de nossa identidade de filhos de Deus, não seríamos tão vulneráveis aos apelos de propagandas que nos induzem a pensar que nosso valor depende de bens materiais, sinais exteriores de riqueza e sucesso. Quem precisa investir tanto na aparência revela uma vida interior pobre e uma auto-estima inconsistente. Não podemos esquecer que o dinheiro “Mamon” é uma potestade e que precisamos escolher a quem vamos servir. O Reino de Deus está no coração daqueles que reconhecem Cristo como Rei e vivem segundo os seus valores. É impossível estar em paz com esses dois mundos tão antagônicos. O caminho do discipulado é estreito e na contramão do sistema no qual estamos inseridos.

Viver voluntariamente de maneira mais simples significa escolher uma vida mais despojada exteriormente e mais abundante interiormente. É tirar o excesso de peso da bagagem para tornar a viagem por esse mundo mais leve e prazerosa. Significa priorizar a qualidade de vida que não depende de recursos materiais, mas de paz e de vínculos significativos. Nosso tempo, sim, é muito precioso para ser desperdiçado em shoppings e na frente da TV. É preciso priorizar o essencial em detrimento das exigências de nossa sociedade capitalista.

Simplicidade Voluntária é um caminho, um processo de libertação do sistema materialista, onde tudo tem o seu preço, para viver no Reino, onde tudo é fruto da graça! Precisamos aprender, e ensinar os nossos filhos, a rir das propagandas que querem nos empurrar produtos como se deles dependesse a nossa felicidade.

Desfrutar da presença de Deus no silêncio e na solitude nos abastece emocionalmente e nos capacita a resistir às armadilhas do mundo. Evite comprar por impulso. Resgate a criança que há em você, brincando com seus filhos sem compromisso com desempenho, mas apenas pelo prazer do jogo, de preferência não competitivo. Use seu tempo livre para um trabalho voluntário, promovendo e potencializando as pessoas marginalizadas, sendo voz dos que não são ouvidos e nem mesmo vistos.

Simplicidade rima com utilidade, durabilidade e beleza. Não é um fim em si mesmo, mas um meio coerente com o Evangelho de abrir mão de despesas supérfluas para beneficiar generosamente aqueles que são privados de condições dignas de vida. É um compromisso com a justiça que visa a promoção do ser humano e não apenas uma ajuda assistencialista. Não se trata apenas de economizar e reciclar para garantir a sobrevivência do planeta, mas de construir uma sociedade mais fraterna e inclusiva, onde todos são valorizados e têm suas necessidades básicas supridas.

Quanto mais a gente se doa a partir da experiência íntima do amor de Deus, mais a gente recebe amor, alegria e paz. As pessoas mais generosas são as mais realizadas, enquanto as mais egoístas são geralmente frustradas e infelizes. Quem estende os braços ao próximo integra uma fraternidade que forma uma rede de solidariedade e representa o Corpo de Cristo até que Ele volte. É sal e luz num mundo que jaz no maligno.

tau

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tau_franEspiritualidade que contempla a Deus e despreza o próximo é falsa e impostora. Uma espiritualidade contemplativa que não desemboca numa espiritualidade ativa é no mínimo manca e estranha às páginas bíblicas e a história da igreja.

Quando o apóstolo João declarou na sua 1ª carta que não se pode amar a Deus a quem não vemos e ao mesmo tempo odiar o ser humano a quem vemos, não foi um mero eufemismo. Ali estava descrito um dos pilares do pensamento místico contemplativo, o qual é essencialmente um movimento de amor. 

Se contemplamos a Deus, experimentamos a Deus, estamos em união com Deus em Cristo, e nele fomos feitos filhos de Deus, o qual é amor, não nos resta caminho a trilhar a não ser o que o próprio Senhor trilhou e descreveu como sendo o “Grande Mandamento”: amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos. 

Parece-nos que um  depende do outro. Que ter um em detrimento do outro é sofrer de paupérrima vida espiritual. Amar a Deus e amar o homem, feito à imagem de Deus, constitui-se nos dois lados de uma mesma moeda chamada de espiritualidade cristã.  Da mesma forma que uma moeda cujo valor encontra-se na presença de suas duas faces, a espiritualidade genuinamente cristã encontra sua legitimidade e riqueza no amor a Deus que faz surgir, nutre e nos impulsiona o amor na direção de nosso semelhante.

Jesus disse que quando alimentamos o faminto, damos água ao sedento,roupas para o nu, hospitalidade para o estrangeiro e atenção e presença para os enfermos e encarcerados, num primeiro momento, é para ele que estamos fazendo todas essas coisas. Eis o grande mistério: quando encontramos a face sofrida de nosso próximo, contemplamos de forma mística a face do Cristo sofredor que geme em dores através das chagas da injustiça, do descaso, do egoísmo aos quais homens e mulheres pela vida á fora estão sujeitos.

Acolhê-los é acolher o Cristo. Beijar sua face é beijar a face do próprio Senhor. 

Depois do Senhor e seus apóstolos, talvez Francisco de Assis seja o grande modelo de uma espiritualidade genuinamente evangélica.trabalho Evangélica não no sentido da confissão cristã da qual fazia parte, mas, que foi extraída diretamente da leitura e meditação que o pobrezinho de Assis periodicamente realizava nas páginas do Novo Testamento, especificamente nos 4 evangelhos. Ali ele percebeu que a verdadeira imitação de nosso Senhor consistia na busca apaixonada da face de Deus e no acolher, socorrer e ministrar ao próximo.

Francisco iniciava o dia com seus seguidores com momentos de silêncio, solitude e contemplação, para logo depois saírem pelas aldeias conclamando as pessoas a se arrependerem de seus pecados e crerem no evangelho. Após isso eles se dirigiam ao leprosário da cidade para ali pregarem o evangelho de uma outra forma: cuidando das feridas pulorentas e repugnantes dos enfermos. Em outras palavras: simplesmente amando aquelas pessoas que eram desprezadas e abandonadas por toda a sociedade da época. Contam os biógrafos do pobre de Assis que o amor que Deus concedeu em seu coração por aqueles enfermos foi tamanho que ele chegava ao ponto de beijar a face danificada pela  enfermidade daquelas pessoas. Deveras, como nos afirmam as escrituras “o verdadeiro amor lança fora todo o medo”. 

Em meio a uma época em que alguns seguimentos da igreja têm se caracterizado pela espiritualidade manca testificada por sua atitude beligerante de ataques cheios de ódio, difamações, calúnias e coisas desse gênero, faz-nos de extrema urgência retornarmos a fonte límpida e revigorante de uma espiritualidade bíblica que tem no amor abnegado, sacrificial, incondicional e sem explicação pelo próximo uma expressão eloquente e apaixonada do amor que dizemos nutrir por Deus e de Sua maravilhosa graça disponível a todos.

Está na hora da “moeda” recuperar o seu valor pela presença de suas duas faces: contemplação e ação; amor a Deus e amor ao próximo; Maria quedada aos pés do Senhor e Marta que serve, em amor, ao Senhor. 

Pois, por maiores e mais mirabolantes que sejam nossas peripécias espirituais, se nos faltar o amor tudo não passará de barulho que incomoda, discurso vazio que nada mais é do que pura verborragia, e de sal que já não dá mais sabor, servindo apenas para ser pisado e desprezado pelos homens.

Paz e bem!

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tau

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jesussorrindoDiante da possibilidade que um texto como esse tem de gerar polêmica, começando pelo seu título, são necessárias algumas palavras iniciais à guisa de esclarecimento. 

Quando refiro-me a essas duas classes de cristãos não estou de forma alguma normatizando nenhum dos dois lados. No entanto, mediante convivência, observação e experimentação pessoal ao longo dos anos de vida cristã, acredito que os aspectos que irei expor a seguir traduzam o que se vê com mais frequência.

Por místico estou querendo destacar aqueles cristãos que experimentaram Deus de forma pessoal e imediata. Que aprenderam a apaziguar o coração através de disciplinas como o silêncio, a solitude e com isso tiveram acesso àquela voz que vem ao nosso encontro como brisa suave aos ouvidos. Místico é aquele cristão que não faz de Deus um sapo que se possa dissecar para a análise, estudo e curiosidade intelectual, mas, que o enxerga como um sujeito de relacionamento. 

Teólogo é aquele que sucumbiu à tentação de querer domesticar, através de esforços dogmáticos, o Deus que é selvagem no seu anseio furioso em nos amar por pura graça. É aquele que acredita que o Deus que é mysterium tremendum pode ser reduzido e trancafiado  dentro de  caixinhas teológicas hermeticamente fechadas de nossos arraiais denominacionais.teologia_deus_pt

Teólogo é todo aquele que se infla por saber coisas sobre Deus. Místico é todo aquele que é tomado de imediato por um santo assombro, fascínio, deslumbramento, paixão porque conhece a Deus e sabe que se encontra absorto na Presença.

Sinto-me à vontade e ao mesmo tempo com temor no coração em escrever o que vou escrever porque um dia estive do lado dos teólogos, batendo no peito diante do meu conhecimento intelectual acerca das principais verdade da fé cristã. Hoje, continuo batendo no peito só que com uma diferença: nem se quer conseguindo levantar os olhos, mas, sussurrando hesitante aos céus –  “Sê propício a mim, um pecador!”

Agora, se isso faz de mim um místico, eu já não sei. Não faço a mínima ideia do que falam de mim, muito menos do meu relacionamento com Jesus Cristo. E isso pouco me interessa.

Logo, porque prefiro a companhia dos místicos à dos teólogos?

1. Porque os místicos não dizem que são místicos. Eles simplesmente não se auto-rotulam. Não procuram por títulos. Já os teólogos adoram trombetear pelos quatro cantos: “Ah! Eu sou calvinista!”; “Ah! Eu sou arminiano!”; “Ah! Eu sou pelagiano!” ou “Eu sou semi-pelagiano!” etc. Diferentemente, um místico nunca se disse “Eu sou um místico!” Pelo contrário, a rotulação sempre veio de fora para dentro e não de dentro para fora. 

2. Porque os místicos jamais se fecham dentro de um ostracismo absoluto e exclusivista. Ou seja, eles não se acham os donos da verdade. Até porque eles sabem que a Verdade não é um sistema teológico compostos de máximas que se apreende de forma intelectual, mas, uma pessoa viva com quem nos relacionamos em amizade. Já os teólogos que batem no peito expondo seus orgulhosos rótulos e títulos só conseguem enxergar seu sistema teológico como o único certo, o único verdadeiro. Eles não estão abertos para aprender com o que lhes é diferente. Para os teólogos seu sistema teológico é exaustivo, ou seja, nele está encerrada toda a Verdade. E com isso acabam se fechando para os múltiplos veículos através dos quais Deus pode lhes conceder discernir Sua Presença e amor. 

3. Porque os místicos buscam preservar o mistério da vida, enxergando a criação com beleza e fascínio. Os teólogos, com seus tomos teológicos debaixo do braço, acabam passando desapercebidos e distraídos diante de uma margarida que cresce despretensiosa á beira do caminho. Não param para observar, contemplar, agradecer. E quando param é para analisar, dissecar, taxar e rotular. Tudo precisa ter uma explicação e fundamentação teológica: terremotos, tsunamis, doenças incuráveis, uma rosa que no dia anterior era em botão e na manhã seguinte desabrocha em pétalas salpicada pelas gotas de orvalho. O sagrado não permeia sua olhada ao redor do mundo lhes fazendo  silenciar e intuir que “entre o céu e a terra, existem mais mistérios do que nossa vã teologia pode explicar”. 

4. Porque os místico se achegam à Bíblia e ao abri-la têm o entendimento de que a própria boca de Deus abriu-se  para lhes falar ao coração. Não a lêem e meditam para investigar mas para ouvir. A Bíblia não é material para a vaidade intelectual, mas, terra sagrada onde tiramos as sandálias para ter um encontro com o totalmente Outro. Teólogos, por sua vez, debruçam-se nas páginas sagradas para angariar informações acerca da verdade, para preparar estudos bíblicos, sermões exegeticamente impecáveis ao passo que a voz divina, advinda das mesmas páginas dissecadas e investigadas, não passa de uma doce e longínqua lembrança. Místicos buscam na Bíblia formação espiritual ao passa que teólogos estão em busca de informações intelectuais espiritualizadas.

5. Porque os místicos entendem que a oração vai muito mais além do mero utilitarismo de se pedir,  interceder ou suplicar. Oração é encontro com Deus e em muitos momentos, assim como acontece com um casal de apaixonados, palavras são dispensáveis. Basta se estar com e isso é suficiente. Descansar imerso e consciente dessa imersão na substância da Presença divina. Deixar-se abrasar e ser consumido pelas chamas do Sagrado assim como um galho em silêncio é tomado aos poucos pelo fogo. Teólogos só conhecem oração como verborragia. Não saem da dimensão vocal. Oração é sinônimo de se falar, falar e falar para Deus. Desconhecem que oração também é falar com Deus, estar com Deus e ouvir a Deus. Isso porque oração é relacionamento. 

6. Porque os místicos aceitam a via intuitiva como meio para se apreender as realidades espirituais. Eles sabem que algo tão profundo, inigualável e extravagante como o amor de Jesus Cristo, excede o entendimento humano, ou seja, o exercício reflexivo acerca das coisas do espírito encontra um ponto de limite, de onde não se pode continuar avançando. Daí entra a intuição, a imaginação e a percepção extra-noia (além das, que transcende as faculdades mentais). Os teólogos encerram tudo no ato intelectual da reflexão. Tudo que é verdadeiro necessariamente tem que passar pelo crivo da razão humana. Nada que possa ultrapassar a capacidade humana de analisar, estudar e definir é digna de ser levada a sério. Teólogos leem a Bíblia apenas com a mente. Místicos aprenderam a ler as Escrituras com o coração.  Em relação á verdade divina, para os místicos, a expressão “descer da mente para o coração”, é especialmente familiar. 

7. Porque os místicos caminham pela via negativa (apofática) no que diz respeito ao conhecimento de Deus. Eles não se atrevem a definir Deus dizendo: “Ele é isso” ou “Ele é aquilo”. Preserva-se o mistério do Deus absconditus, não obstante, auto-revelado. Entende-se que o caminho mais seguro para se saber quem Deus é, se dá na afirmação de quem ele não é. Místicos não tem medo das “noites escuras da alma”. Sabem que esses momentos de aridez espiritual em que se experimenta a “ausência” de Deus são imprescindíveis para a purificação e preparo de nossos corações para uma experiência mais íntima com Aba. Místicos não temes tais desertos porque sabem que a experiência da “ausência” não se traduz em ausência da experiência. Teólogos só caminham pela via positiva (catafática) definindo quem ou o que é Deus. No entanto surge uma dificuldade nesse momento: como definir o indefinível? Como limitar o ilimitável? Como dizer o que é Aquele que habita em luz inacessível? É por essa razão que os místicos silenciam perante a Presença, pois, como encontrar palavras para mensurar o imensurável? 

8. Porque os místicos aprenderam a desacelerar o ritmo. Não aceitam a tirania das agendas superlotadas. Sabem da importância  de ser ter tempo para parar e observar. Para cultivar amizades profundas em detrimento de efêmeras. Sabem que o seu real valor não se encontra no que fazem, nem muito menos na opinião que as pessoas têm a seu respeito. Mas, unicamente na sua identidade originada em Deus. Sabem que são amados. E isso lhes basta. Místicos são, literalmente, pessoas livres em Cristo da necessidade da auto-afirmação perante outros. Teólogos precisam de agendas lotadas: quanto mais compromissos melhor. Quanto mais oportunidades de pregar e ensinar melhor. Pois, que outra maneira poderia existir para que continuassem a se auto-afirmar acerca de suas convicções teológicas perante as pessoas?

9. Porque os místicos nunca pensam já ter chegado lá. Mas, encaram a vida como uma jornada em que caminhamos e avançamos. Em alguns momentos paramos para reavaliar o caminho para logo em seguida prosseguir viagem. Teólogos, pelo contrário, acreditam que já sabem o suficiente. E que esse suficiente é tudo o que precisam saber. 

10. Porque os místicos nunca jamais se escandalizariam com a imagem que ilustra esse texto. Eles conseguem enxergar um Cristo sorridente, de bom humor. Que amava a vida e a celebrava com intensidade. Teólogos são extremamente formais até na informalidade de uma conversa com um amigo. Não sabem relaxar. Contar uma boa piada. Rir de seus próprios erros e idiotices. Pior ainda, não conseguem aceitar um Jesus rindo a ponto de lhe doer a  barriga diante de nossas hesitações e burradas. Para o místico a vida é algo leve e despretensioso  Ao passo que o teólogo vive em perpétua tensão. 

Como disse no início, não generalizo nem normatizo os grupos. Contudo, a observação pessoal e o acesso a seus pensamentos tem me levado a concluir que os pontos acima destacados acabam por traduzir aquilo que encontramos nos dois grupos em caráter usual. 

Não recrimino quem prefere a companhia de teólogos. De forma alguma! Cada um tem o direito de escolher para si o par com quem deseja compartilhar sua  jornada rumo a Deus. Bem, eu já fiz a minha escolha e…  não me arrependo!

Pax et bene!

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