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Archive for the ‘Série Espiritualidade’ Category

As nossas atitudes, ações e reações, dependem diretamente do estilo de vida que adotamos no cotidiano. Os hábitos que iremos desenvolver, servirão como base para a excelência ou futilidade de nossas palavras e gestos.
Por exemplo, um jogador de futebol que tem como recursos sua agilidade, dom natural de jogar bola, reflexos rápidos e etc, somente os poderá utilizar com destreza se houver um preparo prévio para isso. Não é à toa as horas incontáveis de exercícios físicos, treinos em dia de sol, como em dia chuvoso, dieta rigorosa e muitas outras coisas. Qualquer atleta que se preze jamais acharia que na hora importante do jogo, ele poderia ter um bom desempenho sem antes ter todo este preparo. Assim, a vida rigorosa e controlada do jogador é que o possibilita a gozar de grande performance nas horas curtas e importantes dos jogos.
O grande problema que a sociedade enfrenta nos dias de hoje é exatamente a ruptura do caráter com o carisma. Ou seja, as pessoas se enganam ao achar que podem experimentar níveis de vida mais elevados, seja na esfera material ou espiritual, sem antes terem que modificar a maneira como vivem. Muitos querem conseguir pagar suas dívidas e terem uma vida financeira estável. Nada errado nisso. Porém, estas mesmas pessoas, não desejam abrir mão de suas vidas extravagantes que as levam a consumir mais do que deveriam e poderiam. Políticos e líderes mundiais discursam sobre o desejo do fim das guerras e desigualdades mundiais. Mas não estão dispostos a deixar de lado a imposição de uma política econômica que favorece uns poucos países ricos, enquanto uma grande maioria de nações com poucos recursos, sobrevivem em uma situação que beira a fronteira da total miséria. O fato é este: não dá para se ter carisma sem antes ter caráter; não é possível se desejar atos excelentes sem antes cultivar um estilo de vida excelente.
Na vida espiritual não é diferente. As nossas atitudes como cristãos dependerão, essencialmente, do tipo de vida cristã que cultivamos no corre-corre do nosso dia a dia. Se desejamos seguir a Jesus, sermos como ele foi, e realizarmos obras maiores do que as Suas, devemos adotar o estilo geral do tipo de vida que ele viveu. Neste momento corremos um grande perigo, de acharmos que a vida de Jesus só se resumiu naquilo que ele fez publicamente: curando enfermos, ressuscitando mortos, ensinando a verdade, perdoando os pecadores, libertando os oprimidos de Satanás. Contudo, nos esquecemos que esta vida de Cristo “sob os holofotes” era apenas o resultado natural da vida que ele cultivava no seu particular, quando não estava “sob os holofotes”. A vida que Jesus vivia, os hábitos espirituais que ele aprendeu a cultivar, era o que o permitia fazer o que fez e da maneira que fez. Uma vida de “disciplinas espirituais” como solitude, silêncio, jejum, oração, contemplação, serviço e outras mais, é que eram o Seu segredo da vida em plenitude que ele revelou para nós. As boas novas do evangelho é que esta vida, bem como os meios para experimentá-la, estão a nossa disposição, como esteve para o Senhor Jesus, e para todos aqueles que decidiram imitá-lo ao longo dos tempos.
Exercitemo-nos na piedade, cultivemos hábitos espirituais e devocionais diariamente, busquemos um estilo de vida excelente, para que, deste modo, as comportas do Espírito sejam abertas e as torrentes da virtude de Deus sejam derramadas sobre nós, nos enchendo da Sua vida, e nos livrando de uma existência frustante e trivial.

“Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” (1Jo 2:6)

 

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Há alguns sábados atrás, minha amada esposa me aplicou um belo susto: fomos correndo para o hospital com ela sentindo crescentes dores fortes no estômago. Após um logo atendimento, que me possibilitou desfrutar e concluir a leitura da obra magistral de S. João da Cruz, “A Subida do Monte Carmelo”, o diagnóstico já era de se imaginar: Vanessa deveria procurar um gastro o mais rápido possível, pois, estava no início de um quadro de gastrite nervosa.

Conversando em casa, após o retorno do hospital, chegamos à conclusão de que sua enfermidade era resultado direto de toda a tensão que ela vem enfrentando já alguns meses. O nervosismo advindo das responsabilidades de ser mãe, esposa, funcionária, somado ainda com o prazo apertado para a entrega de uma monografia de conclusão de curso, não era de se estranhar que seu corpo lhe devolvesse o rebote de toda essa agressão psico-emocional que ela tem represado sobre si. 

No dia seguinte um acontecimento curioso chamou a minha atenção. Após voltar da casa de sua mãe, minha esposa trazia consigo um opúsculo, presenteado por sua irmã,  o qual tratava  exatamente da questão do estresse e de como, supostamente, controlá-lo. Eu achei o título muito interessante, dizia: “Você Sabe Controlar o Estresse?”. O subtítulo é ainda mais chamativo: “Volte a Controlar Sua Vida”. Confesso que não o li ainda e nem sei se irei fazê-lo. Dei apenas uma rápida folheada e pelo que pude perceber o texto é composto de dicas práticas acerca de atitudes que as pessoas devem tomar nas diferentes áreas de sua vida para que o problema do estresse seja resolvido. Um livro daqueles do tipo auto-ajuda. 

O conteúdo do livro apresenta várias definições para estresse. Uma que chamou minha atenção é a que dizia “estresse é o que você sente quando não está no controle” (p.15). Ou seja, para o autor estresse é sinônimo de você não estar no controle de sua própria vida.

De forma alguma quero desmerecer a obra muito menos as boas intenções do autor. No entanto, acredito que aquilo que é sugerido como resposta, solução, para o estresse que é considerado um dos grandes males da vida pós-moderna, na verdade se constitui numa de suas principais causas: o desejo das pessoas de estarem no controle de suas vidas e a frustração contínua que sentem ao perceberem que isso é uma triste ilusão

A ilusão se dá pelo fato de que nada na nossa vida depende exclusivamente de nós. Somos seres que interagimos com outros seres semelhantes a nós que possuem seus próprios interesses. Estes outros humanos, com suas atitudes e decisões, interferem diretamente no andamento e curso das nossas vidas. Na teia de acontecimentos e circunstâncias que compõem a existência é totalmente impossível estarmos no controle em todo momento, em todas as coisas. Esse fato causa medo, insegurança, frustração, ansiedade e inquietação.  Em outras palavras, estresse! 

Dito tudo isso, considerando os fatos, estou convencido que a resolução do mal chamado estresse encontra-se numa proposta completamente contrária à exposta acima. Acredito que o estresse antes de ser um problema físico, psicológico e emocional, é existencial. A grande verdade é que a sensação de abandono interior acaba conosco. Não gostamos de nos sentir órfãos.

Logo, a atitude mais sensata e eficaz para fugirmos dos níveis altíssimos de estresse que têm caracterizado a sociedade de hoje é o de “retornarmos para casa”. Isso significa colocarmo-nos debaixo de uma amizade redentora com o Cristo. E dessa forma, desfrutarmos de uma relação filial com o Deus que se permite chamar de Abba, Pai. 

“Mas a todos que o receberam (a Cristo), aos que crêem no seu nome, deu-lhes a prerrogativa  de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1.12)

Na relação com o Bendito Crucificado todo e qualquer sensação de abandono é extirpada de nossa alma, porquanto agora temos a certeza de que voltamos, como pródigos, para os braços do amoroso Pai.

“Assim não sois mais estrangeiros, nem imigrantes; pelo contrário, sois concidadãos dos santos  e membros da família de Deus” (Ef 2.19)

Não estamos mais sós!

O coração do nosso relacionamento com Deus é a confiança. Não uma qualquer. Brennan Manning a chama de cega. No sentido de ser uma confiança sem quaisquer restrições de nossa parte ao amor, misericórdia e graça de Deus. É o tipo de atitude que uma criança pequena tem em relação a seu pai ou sua mãe. Uma entrega que descansa, se aquieta e silencia na certeza do amor, cuidado e provisão por parte deles. 

Deus, na história da redenção que vem sendo escrita desde as páginas do Velho Testamento, sempre requereu daqueles que estavam debaixo do seu governo, essa atitude de confiança irrestrita (cf. Sl 37.5). Nas páginas do Novo Testamento, as quais nos relatam a plenitude dos tempos no que diz respeito à obra redentora na pessoa de Cristo, o padrão divino não arrefeceu. 

Não se trata apenas do “retorno ao lar” através de Jesus que será a solução definitiva para os males do estresse. Ir a Jesus continuamente, e em sua gloriosa pessoa, experimentar da comunhão eterna é o grande segredo no controle dos níveis de estresse. Recebemos o seu convite, registrado no evangelho de São Mateus 11.28-30 como se segue:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviareis. Tomais sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve”

Percebamos as promessas do Senhor nesses versos: “eu vos aliviarei”; “e achareis descanso para a vossa alma”. Alívio e descanso são pérolas de grande valor a que o homem pós-moderno procura desesperadamente encontrar em  meio ao mar agitado do cotidiano. Contudo, sem sucesso!

Esse fracasso, sem sombra de dúvidas, se dá pelo fato de que o dito homem tem procurado o rico tesouro de uma alma não fragmentada em lugares mil, menos no lugar certo: “Vinde a mim” é o convite que o Filho de Deus faz a todos quantos estão “cansados e sobrecarregados”. Em outras palavras esmagados pelas situações estressantes da vida diária. Que não cessam de suspirar pelo paraíso perdido, pelo lar deixado para trás.

Os que já foram conduzidos à cruz de Cristo, que já foram postos  em relação filial com seu Pai, a única alternativa que lhes resta é a de confiar cegamente nas palavras de Jesus transcritas acima. Significa  não apenas saber, mas, sentir e experimentar o fato de que, verdadeiramente, não nos encontramos ao léu, à deriva das situações que chicoteiam o “barco” de nossa história pessoal. 

É conhecimento que transcende palavras e a razão humana e que coloca-nos em contato com a altura, largura, comprimento e profundidade do amor de Jesus, que excede a todo o entendimento. Amor este que nos faz perceber que o anseio e subsequente desespero de querer estar no controle da vida, causa principal do estresse, pode e deve ser substituído pela doce experiência contínua de sermos cuidados pelo Pai de Jesus, hoje, nosso Pai também. Agora, não somos mais nós, mas, Deus no controle de nossas vidas. 

E assim, as diversas situações que envolvem nossa existência: necessidades pessoais, urgências a serem atendidas encontram-se debaixo da atenção amorosa e provedora do Deus e Pai, nosso Deus e nosso Pai, que sabe de tudo o que precisamos antes mesmo de o pedirmos (cf. Mt 6.31,32).

Portanto, a única coisa que devemos fazer é apresentar a ele nossas necessidades e…ficar esperando (cf. Sl 5.3). E claro, continuando a tocar  nossa vida para frente. 

São Paulo nos exorta a essa mesma atitude de confiança cega que apresenta a Deus suas necessidades. Em Fl 4.6 ele escreve: 

 Não andeis ansiosos por coisa alguma; pelo contrário, sejam os vossos pedidos plenamente conhecidos diante de Deus por meio de oração e súplica com ações de graças”

É incrível a ligação dessas palavras do apóstolo com aquilo que nosso Senhor disse a seus discípulos no texto já citado de Mateus 6. No entanto, Paulo não para por aí. Ele nos garante um estado emocional e mental de paz e descanso que resulta dessa entrega confiante em oração, bem diferente do que encontramos em pessoas estressadas:

“e a paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento, guardará o vosso coração e os vossos pensamentos em Cristo Jesus” (v.7) 

Deus nos ama. Deus está no controle da nossa vida. Deus sabe do que necessitamos e tem prazer em suprir nossas necessidades. É incrível como ele se preocupa em contar até mesmo os cabelos de nossa cabeça! Portanto, o segredo para o controle dos níveis de estresse é a visitação diária no “quarto secreto” de oração onde, no silêncio e solitude, somos contemplados e contemplamos a face amorosa e secreta de nosso Pai Celestial.

“Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que o vê em secreto, te recompensará” (Mt 6:6)

Há alguns anos atrás diante do nervosismo (estresse) dos passageiros em decorrências dos problemas que estavam acontecendo com os embarques nos aeroportos na cidade de São Paulo, a então prefeita Marta Suplicy deu a seguinte declaração aos estressados passageiros que exigiam uma solução: “Relaxa e goza!”.

Não vou entrar no mérito da questão se o que ela disse teve boas intenções ou se apenas se tratou do descaso de uma autoridade pública ganhando voz perante a mídia. Independente disso, suas palavras traduziram com perfeição o convite de Deus para todos os seus filhos diante dos espinhos da vida: “relaxa e goza! Pois, estou no controle da sua vida. Eu te amo e sei do que você precisa. Não se preocupe, apenas confie em mim sem restrições!”

Por isso, meu querido, NO STRESS!

Paz e bem!

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Se pudéssemos definir espiritualidade, poderíamos dizer que a mesma trata dos movimentos da alma rumo a Deus. Por isso, espiritualidade não é algo iminentemente cristã. Temos espiritualidade budista, kardecista, Islâmica etc. Não vamos entrar aqui no mérito da questão de qual é a verdadeira, qual é a falsa, se todas são verdadeiras e coisas desse gênero. Apesar de crer que a espiritualidade cristã, fundamentada num relacionamento com o Cristo vivo – único caminho que nos conduz ao Pai – seja a única genuína, o propósito do texto não nos abre espaço para tais considerações.

Quando refletimos acerca do que a espiritualidade cristã é, isso faz-nos deslumbrar o grande milagre da salvação da alma humana através de nosso Santo e Bendito Senhor Jesus Cristo. As Escrituras nos afirmam a deplorável situação de toda a humanidade, no que diz respeito à sua condição espiritual, sem Cristo. Em Rm 6:17 o apóstolo São Paulo nos fala da realidade que caracterizava a vida daqueles cristãos, e também de todo ser humano, ates da experiência de conversão:

“Mas graças a Deus porque, embora tendo sidos ESCRAVOS do pecado, obedecestes de coração à forma de ensino a que fostes entregues”

Aqui somos informados de que a condição do homem antes de sua união ao Cristo de Deus é o de escravo do pecado. O que se traduz uma natureza, uma inclinação moral e espiritual na direção de uma experiência de vida em franca rebelião à Lei do Criador. O apóstolo fala de “pecado” e não “pecados”, mostrando o mesmo se tratar de uma condição inerente da natureza humana.

Continuando, o mesmo apóstolo nos dá novas informações da condição humana sem Cristo. Em Ef 2:1 ele escreve as seguintes palavras:

“Eles vos deu vida, estando vós MORTOS nas vossas transgressões e pecados”

Neste trecho das Escrituras a notícia que recebemos é que a condição humana é a de morte espiritual que se traduz numa separação no relacionamento com Deus. Nas Bíblia morte tem o significado de separação. Que é a morte física senão a separação da parte material da espiritual que nos compõem? Logo, a morte espiritual, por causa do pecado inerente a toda a raça humana (cf. Rm3:23;  5:12) faz parte da realidade de todos independente de cor, etnia, condição social etc.

Dito isso acerca da deplorável condição espiritual do homem perante o Santo Deus, fica-nos ainda mais evidenciado a glória de Cristo como propiciação pelos pecados e a dramática transformação a que o homem se vê perante Deus quando o mesmo é colocado debaixo de um relacionamento redentor com o Unigênito Filho de Deus.   

As Sagradas Escrituras dizem-nos que ao homem em Cristo é concedido o privilégio de ser tornado filho de Deus por adoção (Jo 1:12). O Santo Espírito da parte do Pai vem habitar no corpo do ser humano preenchendo-o com o amor do Pai (Rm 5:5) e testificando no nosso coração  a respeito dessa neo relação filial com o Eterno (Rm 8:16).

Uma nova vida, fruto de um novo coração, que é a própria vida de Jesus acontecendo, tem início na vida dos que entregaram-se em fé a Cristo. No entanto, mesmo à luz de toda esta glória nem tudo são rosas. Existem sombras em meio ao sol do meio-dia. As Escrituras são igualmente realistas e pródigas em nos informar acerca da luta diária que todo cristão tem que travar afim de que essa nova vida (a vida do próprio Jesus) possa se desdobrar em todos os seguimentos da existência humana.

É-nos revelado, da parte do Pai que, apesar de hoje sermos seus filhos em Cristo, livres de toda e qualquer condenação do pecado, ainda carregamos dentro de nós um impostor: a natureza humana corrompida, maculada pelo pecado a que a Bíblia chama de carne. A qual segundo São Paulo luta diariamente contra o Espírito Santo tentando nos levar a desvirtuar-nos do novo Caminho (Gl 5:17).

Diante disso entra a doutrina da cruz diária, a cruz de nosso bendito Senhor e Salvador Jesus, e a mortificação dessa carne afim de que o falso eu (velho homem) nascido em pecado,  progressivamente seja vencido, dando lugar ao verdadeiro eu (novo homem) criado por Deus à semelhança do Seu Filho.

Acerca disso o apóstolo das gentes nos escreve em Gl 5:24 –  

“Os que são de Cristo Jesus CRUCIFICARAM A CARNE juntamente com suas paixões e desejos” 

A crucificação da carne aparece como obra pretérita porquanto na morte de Jesus, na sua cruz, todo o poder do pecado que antes escravizava o homem foi vencido, tornando-lhe possível a vitória diária sobre os desejos carnais. Em razão disso que nosso bendito Senhor nos fez o convite da cruz diária como parte integrante do seu seguimento. Em Mt 16:24 o apóstolo registrou as sagradas palavras de tão glorioso chamamento:

“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”

O convite é o de tomarmos a nossa cruz porquanto ele levou a dele. O chamado é o de morremos diariamente para o nosso falso eu, ressurgindo na glória do novo eu que faz do verdadeiro discípulo do crucificado sal da terra e luz do mundo. Contudo, nesse momento surge-nos uma pergunta: De que forma esse crucificar, carregar diário da cruz, se dá na prática? A essa pergunta o grande apóstolo nos responde em Gl 5:16 –

“Mas eu afirmo: ANDAI PELO ESPÍRITO  e nunca satisfareis os desejos da carne.”

A  notícia a que somos expostos no texto acima referendado é de que se andarmos pelo Espírito, ou seja se vivermos guiados, influenciados e em franca obediência aos comando da gloriosa Terceira Pessoa da Bendita e misteriosa Trindade, o Consolador, mortificaremos a carne com seus desejos e apetites pecaminosos.

Conquanto isso seja verdadeiro, devemos agora arguir de que maneira em nosso viver diário podemos abrir-nos à obra imprescindível do Espírito de Deus na mortificação da carne. Como se dá essa entrega diária ao controle do Espírito Santo. É nesta gloriosa empresa que a espiritualidade vem nos fornecer os meios para alcançarmos tão desejável objetivo. No tocante à mortificação da carne, o efeito da cruz diária, podemos, à guisa de uma maior compreensão, considerar a mortificação em duas áreas principais da vida humana: a mortificação da mente carnal e a mortificação do corpo. Não se faz necessário o mencionar de alma e espírito porquanto os mesmos fazem parte do nosso homem interior o qual está firmado em Deus, sem que o demônio possa causar dano aos mesmos (cf. 1Jo 5:18).

A ASCESE

Já vimos acima que apesar da nova natureza em Cristo ainda carregamos uma velha natureza em nós contrária aos mandamento de Deus. A grande verdade é que a cruz diária (mortificação) do nosso falso eu se faz necessária porquanto antes de conhecer Jesus vivemos uma vida inteira no hábito da prática do pecado. Nossa mente e corpo estão “viciados” na prática do pecado. A inclinação deles é para pecar, ainda. Assim, a necessidade que temos de treinar (ascese) mente e corpo para a nova vida espirital que está acontecendo dentro deles é de gritante urgência.

A espiritualidade com suas disciplinas ascéticas podem nos ajudar nesse sentido. Não me aterei no detalhamento das mesmas visto existirem outros textos que tratam de sua descrição em caráter detalhado:

A MORTIFICAÇÃO DA MENTE

A Bíblia diz que o homem é aquilo que ele pensa (cf. Pv 23:7). Sabedor disso o apóstolo São Paulo nos instrui acerca da necessidade de renovação da mente (Rm 12:2). Para esse propósito temos a meditação nas escrituras e o estudo acadêmico das mesmas como disciplinas fundamentais para a obra da mortificação dos padrões malignos de pensamentos que ainda existem em nós herdados de nossa vida espiritual pregressa.

A primeira disciplina (meditação) visa atingir o coração, os afetos e emoções. Temos na prática da Lectio Divina um caminho profícuo e comprovadamente eficaz nesse sentido.

Na segunda disciplina (estudo) visamos atingir a razão, o intelecto, o entendimento. Nesta área existe uma gama de métodos como estudo indutivo, estudo analítico que são formas de se estudar a Bíblia numa dimensão estritamente intelectual.

O contato com a Palavra de Deus, viva e eficaz,  através das disciplinas da meditação e do estudo visam nos colocar perante aquela que é lampada para os pés e luz para o caminho (Sl 119:105). Aquela que é a Verdade que santifica (cf. Jo 17:17)  e que nos liberta de toda a mentira espiritual (2Tm 3:16).

A MORTIFICAÇÃO DO CORPO

São Paulo nos fala de uma lei do pecado que opera nos membros de nosso corpo (cf. Rm 7:22,23) que guerreia contra o homem interior que tem prazer na Lei de Deus. Portanto, necessário nos é mortificarmos nosso corpo humano, habitação do Espírito, e sujeitá-lo ao Senhor para que o mesmo não apenas more nele, mas, acima de tudo, faça acontecer em nós a gloriosa simbiose espiritual de que as Escrituras nos informam (Gl 2:20; Gl 5:22,23).

Aqui nos é imperiosa a incorporação das chamadas disciplinas de abstenção para a proposta obra de mortificação de nossos corpos. Temos no jejum, no silêncio e na solitude três disciplinas que podem nos auxiliar nisso.

No jejum abstemo-nos de alimentos e às vezes, por período bem pequeno, de líquidos também visando ensinar nosso corpo a não tornar-se escravo das necessidades fisiológicas. Com essa prática estamos dizendo ao corpo: “Corpo sou eu (em Cristo) que te domino; e não você a mim”. Através do jejum percebemos e acessamos a realidade de que existe uma substância fundamental, maior do que comida e bebida, que sustenta a nossa vida e existência (Mt 4:4; Jo 4:31,32).

No silêncio temos a busca pela ausência de sons, ruídos e vozes, tanto externas quanto internas, para que dessa forma possamos nos colocar em amorosa atenção à presença e voz de Deus. E na solitude nos colocamos a parte da presença de pessoas para estarmos sozinhos com Deus. Silêncio e solitude andam de mãos dadas. Uma não existe sem a outra. E ambas visam privar nosso corpo de sons, imagens e interações humanas afim de que sejamos libertos das compulsões que caracterizam a sociedade apressada dos dias de hoje. No silêncio/solitude vencemos o vício do desejo de  ter e fazer e acessamos o tesouro da simplicidade do apenas ser. Simplesmente ser quem somos perante a face amorosa do Pai. E assim estarmos totalmente presentes no momento, não mais fragmentados.

Oh! Esta é a verdadeira glória da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, através da qual estamos crucificados para o mundo e o mundo para nós: através da experiência fundamental da cruz do calvário que salva e vivifica o homem morto em delitos e pecados, ser-nos possível a obra diária da crucificação, mortificação do nosso falso eu (carne), repugnante e impostor aos olhos do Deus Santo. Deveras somente debaixo da obra regenerativa da Graça de Cristo é que podemos fazer uso das disciplinas acima comentadas com o proveito santo de caminharmos em direção a genuína metanóia/metamorfose em imagem de Jesus. Se não for assim meditar não vai passar de um emocionalismo piegas; o estudo, atividade intelectual árida e o jejum, silêncio e solitude o tolo privar-se pelo privar-se.

“Mas longe de mim orgulhar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus  Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gl 6:14)

Finalizo a presente exposição lembrando-me da conversa que um pastor amigo teve com um monge ancião beneditino por ocasião de sua visita ao mosteiro. Em dado momento do diálogo o pastor impressionado com a lucidez do ancião lhe questionou o porque do mesmo não voltar a estudar teologia e filosofia. O ancião fez um período de silêncio, olhou para seu interlocutor e lhe deu uma resposta que impactou sua vida profundamente: “Há mais de trinta anos estudo e contemplo a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. Se ela  não puder me ensinar nada, nada mais o poderá”.  

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Há alguns anos atrás, conversando com um homem que tinha participado de um congresso sobre casamento, em dado momento de nosso diálogo em meio ao compartilhamento das boas palavras que estavam sendo ministradas, na parte que dizia respeito à vida sexual do casal, ele me contou as palavras que foram ditas pelo palestrante, as quais me assombraram deixando meus cabelos em pé. Ele disse acerca da prédica do congressista: “O sexo, ele não tem nada de espiritual não! É carne pura!”  Pelo menos foi mais ou menos isso de que me lembro ter escutado. Acredito que apesar de bem intencionado em abordar o fator fisiológico do prazer existente no ato sexual, contudo, ele foi infeliz no que colocou, pois, o sexo não tem nada de carnal: ele é algo absolutamente espiritual, cheio de beleza e graça dados pelo próprio Autor do mesmo.

Quando encarado e praticado da forma correta, ou seja, conforme Deus o predestinou, o ato sexual pode ser uma das experiências mais sagradas para o ser humano. A dimensão sacramental do sexo precisa ser urgentemente resgatada nesses dias em que o mesmo tem sido banalizado por uma sociedade cada vez mais sexualizada. A mídia com toda sua ânsia de audiência tem exposto nossas crianças, adolescentes e jovens (até mesmo adultos) a um chamado para a vida sexual cada vez mais cedo, cada vez menos embasado em valores como o compromisso e  a fidelidade, não dando assim um pano de fundo de suporte para o desenvolvimento de uma sexualidade saudável. 

O sexo, definitivamente, não é um brinquedo. Não é algo que existe para ser usado à nosso bel prazer (literalmente!). As Escrituras hebraico/cristãs nos advertem do caráter sacro da copulação humana. É algo tão sério que figura como um dos famosos dez mandamentos: “não adulterarás”.  Na Lei mosaica o homem ou a mulher que violasse essa condição deveria receber a pena capital por apedrejamento.  É claro que nos referimos a uma antiga aliança, a um código de conduta dentro de um contexto todo específico. No entanto, o padrão de santidade a que a vida sexual deve ser elevada permanece o mesmo nas páginas neo testamentárias. Um texto muito claro e específico sobre o assunto, não obstante pouco compreendido, é o que transcrevemos a seguir:

“O casamento deve ser honrado por todos; o leito conjugal, conservado puro; pois Deus julgará os imorais e os adúlteros” (Hb 13:4)

Muitos acreditam e entendem que o texto acima refere-se apenas ao casamento, a honra e a pureza que devem existir nele. Não há dúvidas quanto à necessidade de que o relacionamento entre esposo e esposa deve conter tais virtudes. Contudo, o texto não trata apenas do casamento em si, instituição, mas também do ato conjugal, a vida  de intimidade sexual. O autor aos Hebreus escreve “o leito conjugal, conservado puro”. O grande problema de não se enxergar o que o autor estava querendo dizer se dá por conta da falha na tradução do texto original grego para o português. A palavra grega que foi traduzida como “leito”   significa literalmente coito, ou seja, o ato da copulação, o sexo. Logo, segundo o autor de Hebreus a dimensão honrosa do casamento acontece quando o ato sexual do casal é livre das máculas que tanto caracterizam a prática da sociedade. Isso é confirmado quando ele conclui dizendo que Deus irá julgar os que se entregam à imoralidade e ao adultério, que configuram pecados de ordem sexual. Não vamos entrar aqui no mérito de avaliar a prática sexual em si do casal, o que se fazer, como se fazer etc. O que se faz entre quatro paredes é de caráter íntimo do marido e de sua esposa, de mais ninguém! O que desejamos chamar a atenção e sublinhar é o chamado sacramental que o texto acima referendado nos faz acerca do ato conjugal. 

Dito essas coisas, devemos afirmar a urgente necessidade do resgate da espiritualidade na vida sexual do ser humano. De que forma? Podemos propor algumas percepções que podem nos ajudar nesse retorno.

1. O Sexo Foi Criado Por Deus – Acredito que devamos partir deste ponto. Pois, quando compreendemos que o sexo é uma criação divina, o fato dele ser vivido por nós de uma forma tão inerente e essencial através de nossos corpos não apagará a consciência de que o mesmo não nos pertence originalmente e que um dia, como de todas as outras coisas, dele prestaremos contas a seu verdadeiro dono.

 “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou, e lhes disse: ‘Sejam férteis e multipliquem-se” (Gn 1.27,28)

2. O Sexo é Algo Espiritual – O equívoco do palestrante ao qual me referi no início se deu a meu ver, dentre outras razões, por causa da visão dicotômica que impera na mente da maioria esmagadora das pessoas cristãs: vida espiritual e vida secular. Logo, o sexo é encarado como algo meramente fisiológico, biológico. Em resumo, algo de âmbito secular não tendo nada de espiritual. Tal visão naõ tem qualquer amparo nas Escrituras. Segundo as palavras do apóstolo Paulo, na vida do verdadeiro cristão, tudo deve ser encarado como espiritual – “Assim quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Fazer tudo para a glória de Deus. Inclusive sexo!  O ato sexual apesar de ser feito pelo e no corpo é algo do espírito. Isso porque toda a vida espiritual acontece através do corpo. 

3. Nosso Corpo Não é Apenas Um Aglomerado de Funções e Necessidades Orgânicas – A sacralidade do sexo será resgatada na medida em que também resgatarmos a sacralidade do corpo humano. Além do testemunho do gênio criativo de Deus exposto em toda maravilhosa complexidade dos sistemas e combinações presentes no nosso organismo, existe o fato de que exatamente o corpo, e não outra coisa, foi escolhido pelo próprio Deus para que fosse habitação perpétua do Seu Espírito.  O corpo humano é sagrado e deve ser oferecido a Deus como santuário imaculado. E isso inclui a prática do sexo.

“Acaso não sabem que o corpo de vocês  é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos? Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o seu próprio corpo” (1Co 6.19,20)

4. A União Conjugal é Usada Como Alegoria da União Mística Entre Cristo e Sua Igreja – Nenhuma outra figura é mais poderosa do que a do casamento para descrever o relacionamento entre Jesus, o noivo, e a igreja, sua noiva. Logo, tudo que diz respeito ao relacionamento entre marido e mulher, o sexo se inclui nisso, é uma representação, uma figura da intimidade, fidelidade, alegria, realização e prazer que devem caracterizar a intimidade que todo cristão deve ter com o Senhor. A copulação física simboliza a experiência da contemplação mística, a união pura da alma com Deus. União essa que sobrepuja palavras e que se realiza plenamente no contato pessoal entre dois seres amantes. O sexo feito à moda de Deus diz tudo. A contemplação também. Ambos são plena realização humana, tanto no âmbito físico, psicológico, emocional e, sobretudo, espiritual.

“Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável” (Ef 5.25-27).

Acredito que essas percepções já são suficientes para darmos o ponta-pé inicial no resgate da sacralidade da vida sexual. Que unida ao prazer da vida com Deus e nela, a partir dela, e nunca a parte dela, pode ser uma experiência de ante-sala do prazer incomensurável que experimentaremos na glória dos céus. 

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Acredito que algumas pessoas ao lerem meus textos e investigar minhas fontes de leitura e consulta, ficam com uma grande dúvida em suas mentes. Por saberem que sou um cristão de tradição evangélica, ou se quiser melhor protestante, acabam por não entender meu apreço por autores espirituais de outras tradições cristãs.

É comum em meus escritos nomes como os de Thomas Merton, Anselm Grun, Inácio Larrañaga, Jean-Yves-Leloup, João da Cruz, Teresa de Ávila e outros.  Pergunto-me se passa pela cabeça dessas pessoas pensamentos do tipo: “será que ele está apostatando da fé” ou pior ainda “será que ele está se tornando um herege?”.

Afortunadamente, nenhumas das opções traduzem meu estado de vida espiritual. Pela graça divina estou mais firme do que nunca em minhas convicções bíblicas; mais apaixonado por Jesus e por sua Igreja. Em vista de toda essa paixão tenho sede de aprender cada vez mais a tornar-me íntimo de Cristo. Desejo a cada momento trilhar a vereda da verdadeira espiritualidade que conduz o homem ao abraço amoroso de Deus. Sendo assim, busco investigar o rastro da graça de Deus que foi percebido, compreendido e transmitido por homens e mulheres que durante a vida amaram profundamente a Deus. E usaram sua pena como forma de compartilhar suas impressões e experiências no caminho da união pura com Jesus.

Sou profundamente grato ao que a Reforma Protestante fez pela cristandade. Num período de trevas da igreja, a luz do Evangelho da graça brilhou mais uma vez em meio à escuridão das superstições humanas. Contudo, eu sinto muita dificuldade, na verdade acredito que é impossível, em acreditar que tudo que a Igreja fez e ensinou antes de Martinho Lutero foi errado, não prestou ao passo que tudo o que a Igreja fez e ensinou após Martinho Lutero foi certo. Em ambos os blocos encontramos coisas boas e coisas ruins. Coisas corrompidas pelo espírito humano e coisas dadas pelo Espírito de Deus. Cabe a nós seguir o preceito paulino investigando de tudo e retendo aquilo que é bom (1Te 5.19-21). Devemos nos desvencilhar de todo o preconceito incutido em nossa mente pelos mestres de nossas tradições confessionárias.

Tenho aprendido muito com santos homens e santas mulheres de Deus de outros arraiais da fé cristã. Que grande bem os místicos católicos romanos como Teresa de Ávila, João da Cruz tem-me feito. Com eles tenho aprendido que existe um nível de oração pura que nos une a Deus chamada de contemplação. Oração esta que não atingimos por esforços humanos, mas, pela graça divina quando aquietamos e silenciamos o coração.

Minha dívida com os pais do deserto é inominável. A descoberta da prática das disciplinas espirituais tem-me esclarecido que toda e qualquer mudança começa pelo nosso mundo interior. E que não basta apenas o desejo de mudar. A verdadeira transformação é fruto do treinamento (ascese) de nossa alma e do nosso corpo no Caminho de Cristo.

Na tradição ortodoxa grega o hesicasmo foi-me apresentado como o caminho silencioso que conduz a alma à união com Cristo. A oração de Jesus “Senhor Jesus, tem piedade de mim, pecador” , tem-me acompanhado em vários momentos do dia como uma prece incessante que em certo momento passa a fazer parte do âmago do próprio ser. Em momentos de ansiedade e medo oro-a conscientemente e assim retorno para o meu centro, o verdadeiro eu, onde a hesequia (silêncio) se torna em paz e harmonia interiores.

Na tradição cisterciense trapista a oração centrante tem-me ajudado a lidar com as distrações da mente que vagueia teimosamente nos momentos em que busco o silêncio. A utilização repetitiva de  uma palavra sagrada como Jesus, Deus, Pai, ou amor servem como âncora afim de que a mente volte a se concentrar em Deus.

A grande verdade é que a tradição da espiritualidade cristã é vasta e rica. Contudo, a atitude pobre e mesquinha de algumas pessoas as impedem de ter acesso a esse precioso tesouro. “Ah, se não é evangélico eu não leio!”; “se não for católico romano nem quero saber!” Infelizmente, muitos se portam assim e com isso privam-se a si mesmos de receber dos céus graça que o Senhor deseja distribuir sobre seus filhos de maneira pródiga.

É tempo de rompermos com todo e qualquer preconceito e buscarmos um diálogo aberto entre as tradições cristãs e recebermos o que de Deus há nelas. Aprender com um igual a nós não revela qualquer tipo de virtude. É até muito fácil, afinal ele ou ela pensam exatamente como eu. No entanto, baixar nossas defesas pessoais numa atitude de humilde reconhecimento de que nem de longe somos donos de toda a verdade de Deus, é o que nos permitirá beber do manancial divino que tem jorrado pelos séculos de história e tradição cristãs.

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Há uma urgente e gritante necessidade, nos dias de hoje, de efetuarmos a redenção do nosso corpo como parte integrante de nossa espiritualidade cristã. Infelizmente, no que concerne ao entendimento da grande maioria, tudo o que está relacionado à matéria, o mundo físico, e nosso corpo está incluído, tem sido considerado algo essencialmente mau.

 Essa concepção remonta a períodos medievais da fé em que somente a parte tida como “espiritual”  era considerada boa. Toda e qualquer sensação, prazer que o corpo pudesse oferecer era tido como pecaminoso, diabólico, algo que estava de encontro diretamente à santidade e os propósitos de Deus. O sexo, até mesmo entre casais unidos no matrimônio, era visto com algo sujo quando a copulação objetivava apenas o prazer e as alegria da união entre duas pessoas que se amavam.

As duras penitências e flagelamentos a que as pessoas se submetiam, tinham como fim a ser alcançado a mortificação da carne com todas as suas concupiscências e malignidades. Este tipo de visão em relação a matéria e especificamente o corpo humano rendeu séculos de mal tratos autoinfligidos como fruto de uma espiritualidade que só contemplava parte do que é o ser humano.

Contudo, as Escrituras revelam que somos seres compostos: um composto de matéria e espírito. A ideia tão difundida, e equivocada, hoje de que  somos um espírito que tem um corpo nada mais é do que a remanescência da visão medieval em que a parte boa (alma, espírito) se encontra aprisionada pela parte má (corpo, matéria) aguardando o dia em que poderá manifestar toda a sua plenitude em Deus (céu, eternidade).

Na verdade nós somos serem que temos um corpo, uma parte material, e uma alma/espírito, uma parte espiritual. E ambas se complementam. Fazem parte de um todo que se chama ser humano, você e eu. O grande desafio a uma espiritualidade cristã bíblica e saudável, é a busca por uma visão holística da vida espiritual em oposição a concepção fragmentada e dicotômica que temos hoje de secular e espiritual.

Isso começa a acontecer quando compreendemos que toda a vida espiritual acontece no corpo. Não há espiritualidade verdadeira sem a utilização de cabeça, tronco e membros. Por isso que o apóstolo Paulo exortou cristãos de sua época a glorificarem a Deus através do corpo (1Co 6:20).  O que fazemos com nosso corpo deve visar a glória daquele que o criou (1Co 10:31).

A grande prova de que Deus dignificou o corpo humano, incutindo-lhe o mais alto grau de honra é o fato de que na história da salvação seu Divino Espírito vem fazer habitação em nós (1Co 6:19). Como poderia a morada do glorioso Espírito  de Jesus ser algo eminentemente mau? Não! Definitivamente. Nosso corpo é parte  participante e ativa no drama da redenção.

E de que maneira isso acontece? Precisamos de uma metodologia que faça com nosso corpo seja preparado para a ação do Espírito Santo. Necessitamos de algo que abra espaço para que Deus possa operar e transformar nossas tendencias corporais e, por que não, comportamentais? Devemos “treinar” nosso corpo para que ele responda aos movimentos do Espírito de Deus.

Por isso, incorporar na nossa experiência cristã diária disciplinas espirituais como silêncio, solitude, jejum e muitas outras nos capacitarão a fazer com que nosso corpo seja parte integrante da boa obra que o Senhor começou em nós no dia em que entregamos a vida a Cristo. É impossível existir o viver santo sem que nossos membros sejam treinados para a santidade.

Infelizmente, ainda existe muito de um preconceito velado acerca da importância do corpo na busca pela espiritualidade. Talvez alguns casos de pessoas de vida sedentária, obesidade mórbida traduzam exatamente a ignorância de que a única coisa que importa para Deus, e consequentemente para nós também, é a parte espiritual.

Não resta dúvidas de que o alto número de casos de pessoas perecendo por problemas cardio-vasculares e outras doenças relacionadas, nos serve como voz profética de que Deus está interessado que toda a nossa vida expresse a Sua glória e santidade, corpo e espírito.

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Diferentemente do que muitos acreditam, a verdadeira espiritualidade nos insere na chama do sagrado que se esconde por detrás das realidades ordinárias do cotidiano. Viver o dia-a-dia ao invés de impedir-nos de conectar com Deus, nos fornece o pano de fundo mais essencial para a experiência com o mundo espiritual. Não podemos perder de vista a revelação bíblica de que vivemos em um mundo imbuído, mergulhado em Deus (Atos 17:28). Assim, as realidades visíveis tornam-se sacramentos da presença invisível, e  nem por isso menos concreta, do Deus que criou os céus e a terra.

O trabalho, dentro desse entendimento, apresenta-se a cada servo de Cristo em teor sacramental. Trabalhar e orar acabam por se tornar a mesma coisa ao invés de realidades que se excluem mutuamente. Quando trabalhamos oramos, quando oramos trabalhamos. Quando realizo minhas tarefas seja dentro de casa ou no escritório posso e devo fazê-las consciente de que estou perante os olhos amorosos e atentos de meu Senhor. Trabalhar debaixo de uma consciência permanente da presença de Deus encerra as palavras paulinas: “Orai sem cessar”. Para Deus trabalho é tão espiritual e sagrado quanto nossos momentos de meditação e contemplação. Isso porque o entendimento dicotômico de secular e espiritual é algo a que não devemos nos apegar. Tudo é espiritual quando feito alicerçado por valores espirituais. Tudo é sagrado quando realizado para a glória de Deus.

As escrituras hebraicas nos dizem que Deus é o autor do trabalho. Ele mesmo trabalhou durante seis dias para que o mundo fosse criado. Após a feitura do homem este foi colocado por Deus no jardim para que cuidasse dele e o cultivasse. O que mais nos surpreende no relato da gênesis do trabalho é que ao final da tarde, no local onde o homem desenvolvia suas tarefas designadas por Deus, o Senhor Criador passeava como que não inspecionando, mas, deleitando-se naquilo que tinha sido feito. A jabuticabeira podada, os cravos bem tratados e a macieira adubada eram verdadeiros salmos de louvor e adoração.

A espiritualidade do trabalho reside no fato de que   quando trabalhamos estamos sendo coparticipantes da obra criadora de Deus. Ao fazermos sua manutenção, através de nossas múltiplas tarefas e atividades no dia-a-dia com temor e tremor, perpetuamos aquilo que nos foi dado como expressão de sua graça. Outro fato é que quando trabalhamos vivenciamos parte do que significa termos sido feitos à imagem e semelhança de Deus. Como foi dito acima Deus trabalhou para criar o universo e continua trabalhando até agora. Desta forma o trabalho expressa a nossa pessoalidade herdada de um Deus que é persona.

Trabalhar é uma ordenança de Deus ao homem desde o princípio. A preguiça, ou seja, a recusa em trabalhar constitui-se em pecado contra o Deus que trabalha até agora. Trabalho e oração, a experimentação do numinoso, não precisam ser realidades distintas muito menos conflitantes. Assim, quando desenvolvemos nossas atividades conscientes da Grande Presença e o fazemos em nome de Cristo, estabelece-se a escada de onde os anjos sobem e descem, uma dimensão em que terra e céu, tempo e eternidade, finito e infinito se tocam num abraço de glorioso mistério.

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