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Archive for the ‘Silêncio’ Category

071214012555Quando falamos da disciplina do silêncio automaticamente somos confrontados com o grande desafio que é encarar nosso cotidiano extremamente barulhento e de ritmo cada vez mais frenético. Surgem-nos perguntas tais como: “Como encontrar tempo para praticar o silêncio?”; “Não seria o silêncio uma prática exclusivamente monástica, ou seja, para pessoas com um chamado específico para viverem em clausura?”; “Estar em silêncio só é possível num ambiente com total ausência de ruídos e distrações?” e etc.

Dúvidas assim que tendem a nos intimidar e às vezes até desanimar, surgem do fato de que encaramos o silêncio apenas na sua dimensão exterior. De modo que praticar o silêncio só é visto como a separação de tempo e lugar em que paramos, nos acalmamos e adentramos num estado meditativo de quietude e interiorização. Não restam dúvidas de que o silêncio tem este lado prático e devocional. No entanto, o que poderíamos dizer daqueles que não têm muito tempo ou não dispõem de oportunidades frequentes para experimentarem períodos (horas, dias, semanas, meses) de prática silenciosa, em solitude e tendo uma Bíblia aberta diante de si?

Apesar de acreditar que devemos lutar firmemente para abrirmos brechas em nossas agendas diárias para encontrarmo-nos com o Senhor em solitude, silêncio, meditação, oração e contemplação (Lectio Divina), jamais devemos nos esquecer de que o silêncio possui outra “face da moeda” que muitos de nós amantes da espiritualidade e mística cristãs acabamos por negligenciar, seja por desconhecimento ou esquecimento da mesma.

A tradição monástica, por mais surpreendente que possa parecer, ajuda-nos nesse sentido quando fala daquilo que poderíamos chamar de vida silenciosa, onde o silêncio, mais do que um momento de se colocar num lugar desprovido de barulhos, é considerado como uma atitude interior de recolhimento constante. Um voltar-se contínuo para o nosso centro divino, nosso “eu” interior, o santuário interno de nossa alma, em outras palavras, uma atitude de contínua atenção à Presença do Deus que nos habita através do Seu Espírito e que sempre está falando com cada um de nós. Os monges em seus escritos sempre tocam no assunto de se permanecer numa “cela” interior em meditação e oração incessantes mesmo durante as atividades do dia-a-dia (“Ora et Labora”).

Acerca dessa atitude de recolhimento interior silencioso, Anselm Grun escreve: “O silêncio é a atitude interior em que eu me abro para esta realidade do Deus que me envolve. Portanto ela é mais do que o não-falar” (As Exigências do Silêncio, págs.69,70). Por esse prisma o silêncio não é visto como uma realidade em conflito com as atividades do cotidiano, mas, como um espaço mais profundo no qual elas acontecem e do qual emergem e lhes empresta significado espiritual. Aqui silêncio é estar em atitude interior de recolhimento e atenção à presença de Deus que nos envolve por todos os lados enquanto cozinhamos, varremos o chão,  pegamos o ônibus para o trabalho, sentamo-nos em frente ao computador no nosso escritório e etc. Silêncio é estar em perpétua atitude de escuta para Deus.

Maria, mãe de nosso Senhor Jesus Cristo, nos é apresentada nas páginas dos evangelhos como mulher de vida silenciosa, em constante atitude meditativa de recolhimento interior em meio aos acontecimentos do cotidiano (cf. Lc 2:19).  Maria é o arquétipo da mulher silenciosa, ativa-contemplativa. E temos muito que aprender ao observar seu exemplo como alguém cuja vida de silêncio interior lhe permitiu acolher o mistério do Verbo de Deus segundo nos revela o evangelho.

O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da encarnação de Cristo . No Evangelho segundo S. Lucas no capítulo 2 verso 19 lemos acerca da atitude de Maria – “Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração”. Que coisas eram essas? O contexto imediato dos versos anteriores nos revelam (cf. vs. 16-18). Maria em atitude de meditação acolheu a revelação trazida pelos pastores acerca da criança que ela acabara de dar à luz. O glorioso mistério de que o infante envolto em panos comuns, nascido pobre, deitado numa manjedoura era o próprio Senhor e Cristo encarnado para a salvação dos pecadores (Lc 2:11). O Filho de Deus vindo em carne era ele mesmo o Evangelho, as boas-novas de grande alegria para todo o povo, inclusive ela, Maria. No silêncio de seu coração Maria pode contemplar a glória de Deus cumprindo as profecias da Antiga aliança, trazendo ao mundo o Messias prometido como Luz para dissipar as trevas do pecado, trazendo paz aos homens (Lc 2:14).

O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da Identidade de Cristo. Num outro texto Lucas menciona novamente a atitude de Maria frente à revelação do mistério divino – “Sua mãe, porém, guardava todas essas coisas em seu coração” (cf. Lc 2:51b). Que mistério foi esse que ela guardou em recolhimento interior e oração? O contexto dos versos anteriores (vs. 41-50) nos mostra que foi a revelação da identidade de Jesus com o Pai Celeste exposta nas suas próprias palavras – “Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?”(v.49). Mesmo não tendo compreendido naquele momento todas as implicações do que fora dito por seu jovem filho (v.50), Maria acolheu aquelas palavras “Jesus se diz filho do próprio Deus”. O acolhimento do mistério contido nas palavras de Jesus possibilitou no futuro Maria compreender que Jesus e o Pai eram um (cf. Jo 10:30; 14:9,10) e que como seu Senhor e Mestre ele não lhe devia mais obediência (Jo 2:3,4) e sim que deveria ser obedecido em tudo (Jo 2:5). No silencio interior do coração Maria intuiu que aquele judeu pré-adolescente não era só o filho do carpinteiro José, seu marido, mas antes de tudo o Unigênito do Pai.

E o silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da paixão de Cristo. Apesar de não encontramos a mesma fórmula dos pontos anteriores que nos falam de Maria guardando palavras e acontecimentos no coração em atitude de meditação, não podemos desprezar a presença dessa mesma atitude perante a crucificação – “Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã dela, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena” (Jo 19:25). Maria diante do corpo pregado na cruz não diz nada. Chora apenas. E contempla a Graça e o amor redentor de Deus sendo levado até as últimas consequências por cada um de nós, inclusive por ela mesma. No silêncio de seu coração contemplativo ela descobre aos pés da cruz que naquela paixão divina havia substituição (cf. Mt 27:46), havia perdão (cf. Lc 23:34) e havia redenção (cf. Jo 19:30).

O silêncio de Maria não era um silêncio alienado, desatento e inútil. Pelo contrário, era atento e profícuo. Não vemos Maria investindo grandes somas de tempo para a realização de retiros silenciosos e meditativos. Pelo menos as Escrituras não nos relatam nada a esse respeito. Ao passo que nos mostra uma mulher comum que vivia as nuances da vida cotidiana numa dimensão espiritual. E isso lhe era possível porque ela guardava todas as coisas meditando-as no seu coração.

Essa atitude interior silenciosa lhe permitiu acolher os grandes mistérios do advento, da encarnação e da paixão, bem como a apreensão do Sagrado que lhe era oferecido por detrás dos eventos ordinários de um dia (inclusive no bronquear com o filho de 12 anos que desaparece do nada!).

Que possamos seguir seu exemplo. Que nos esforcemos para cultivar momentos silenciosos devocionais para meditarmos e orarmos. Que o silêncio desses momentos nos acompanhe no decorrer do dia à medida que em meio às múltiplas atividades de nosso viver nos voltemos para nosso interior silencioso onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo, o Deus Eterno e Triúno, nos aguarda para que continuemos a desfrutar de íntima comunhão.

Se fizermos assim como Maria cada simples atividade será meditação; cada simples acontecimento oração; cada simples pensamento contemplação.

Que Deus nos abençoe!

Vosso servo e irmão menor,

Felipe Maia, OESI/OFSE

Paz e bem.

tau

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simplicidade-voluntariaIsabelle Ludovico*

Os Estados Unidos têm 6% da população mundial e consomem 33% dos recursos naturais. O desenvolvimento da China acelera o esgotamento dos recursos. O filme de Al Gore “Uma verdade inconveniente” demonstra com clareza a iminência de uma catástrofe de proporções planetárias. Diante da evidência de que a terra não agüenta nosso estilo de vida, tem surgido um movimento chamado Simplicidade Voluntária. Em 1981, o americano Duane Elgin escreveu o livro Simplicidade Voluntária – Em Busca de um Estilo de Vida Exteriormente Simples, mas Interiormente Rico.

Se o mundo prega uma nova ética humana que fala de fraternidade e comunhão, de solidariedade e compaixão para preservar o nosso futuro, o que dizer de nós, cristãos, que deveríamos estar à frente dessa proposta, como também do movimento ecológico? De fato, deveríamos estar cientes de que Deus nos confiou a terra para cuidarmos dela e não para depredá-la. Deus nos criou para que nos amássemos e não para usar as pessoas em nosso próprio benefício? Devemos começar confessando que nos tornamos coniventes com um sistema que produz injustiça social e consumo desenfreado de supérfluos, enquanto a maioria da população é privada do essencial.

Se estivéssemos mesmo conscientes de nossa identidade de filhos de Deus, não seríamos tão vulneráveis aos apelos de propagandas que nos induzem a pensar que nosso valor depende de bens materiais, sinais exteriores de riqueza e sucesso. Quem precisa investir tanto na aparência revela uma vida interior pobre e uma auto-estima inconsistente. Não podemos esquecer que o dinheiro “Mamon” é uma potestade e que precisamos escolher a quem vamos servir. O Reino de Deus está no coração daqueles que reconhecem Cristo como Rei e vivem segundo os seus valores. É impossível estar em paz com esses dois mundos tão antagônicos. O caminho do discipulado é estreito e na contramão do sistema no qual estamos inseridos.

Viver voluntariamente de maneira mais simples significa escolher uma vida mais despojada exteriormente e mais abundante interiormente. É tirar o excesso de peso da bagagem para tornar a viagem por esse mundo mais leve e prazerosa. Significa priorizar a qualidade de vida que não depende de recursos materiais, mas de paz e de vínculos significativos. Nosso tempo, sim, é muito precioso para ser desperdiçado em shoppings e na frente da TV. É preciso priorizar o essencial em detrimento das exigências de nossa sociedade capitalista.

Simplicidade Voluntária é um caminho, um processo de libertação do sistema materialista, onde tudo tem o seu preço, para viver no Reino, onde tudo é fruto da graça! Precisamos aprender, e ensinar os nossos filhos, a rir das propagandas que querem nos empurrar produtos como se deles dependesse a nossa felicidade.

Desfrutar da presença de Deus no silêncio e na solitude nos abastece emocionalmente e nos capacita a resistir às armadilhas do mundo. Evite comprar por impulso. Resgate a criança que há em você, brincando com seus filhos sem compromisso com desempenho, mas apenas pelo prazer do jogo, de preferência não competitivo. Use seu tempo livre para um trabalho voluntário, promovendo e potencializando as pessoas marginalizadas, sendo voz dos que não são ouvidos e nem mesmo vistos.

Simplicidade rima com utilidade, durabilidade e beleza. Não é um fim em si mesmo, mas um meio coerente com o Evangelho de abrir mão de despesas supérfluas para beneficiar generosamente aqueles que são privados de condições dignas de vida. É um compromisso com a justiça que visa a promoção do ser humano e não apenas uma ajuda assistencialista. Não se trata apenas de economizar e reciclar para garantir a sobrevivência do planeta, mas de construir uma sociedade mais fraterna e inclusiva, onde todos são valorizados e têm suas necessidades básicas supridas.

Quanto mais a gente se doa a partir da experiência íntima do amor de Deus, mais a gente recebe amor, alegria e paz. As pessoas mais generosas são as mais realizadas, enquanto as mais egoístas são geralmente frustradas e infelizes. Quem estende os braços ao próximo integra uma fraternidade que forma uma rede de solidariedade e representa o Corpo de Cristo até que Ele volte. É sal e luz num mundo que jaz no maligno.

tau

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É TEMPO DE CHORAR *

LUTOPor Israel Belo de Azevedo

Por que falar, se devemos chorar?

Por que propor palavras, se as lágrimas são o melhor que podemos dar?
Por que esboçar explicações, se a compaixão é o sentimento certo a externar?
Por que apresentar acusações, se a misericórdia é a única atitude capaz de confortar?

Diante de uma tragédia, que asfixia amores e sepulta sonhos, deixa dores e transmite temores, só temos uma coisa a fazer: pegar no colo as crianças que perderam os braços que as carregavam, tomar pela mão as mãos (algumas feridas pelas enxadas que sustentavam orgulhosos seus meninos) dos pais órfãos de filhos e enxugar suas lágrimas, beijar os rostos das mães que perderam seus melhores bens e pedir que Deus as conforte, abraçar os irmãos de quem se foram seus companheiros para ser um pouco amigos deles agora, sustentar os avós cujos corpos cambaleiam sem acreditar no horror que os seus olhos veem.

É tempo de silêncio, mas não apenas de um minuto.
É tempo de solidariedade, regada a choro.
É tempo de saudade para aqueles que conviveram com os derrotados pelo fogo e também para cada um de nós, saudade em todos nós.

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O BLOG VIDA CONTEMPLATIVA SOLIDARIZA COM TODAS AS FAMÍLIAS VITIMADAS PELA TRAGÉDIA EM SANTA MARIA – RS. QUE O PAI DAS MISERICÓRDIAS E DEUS DE TODA A CONSOLAÇÃO DERRAME O CONFORTO QUE VOCÊS TANTO PRECISAM NESSE MOMENTO DE DOR EXTREMA E DESESPERANÇA.

PAZ  E  BEM!

tau

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asafe

Rubinho Pirola

“Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente.” Mt 6:6
É grande o nosso apetite pelos ajuntamentos, reuniões, movimentações. Mas a grande, a maior características dos grandes homens, os que marcam outras vidas, é sem dúvida a sua experiência no secreto de Deus – e com Ele.Não que isso aparece fácil, ou é publicitado aos olhos de todos. Enquanto gostamos do barulho, Deus ainda forja os seus vencedores no constrangedor silêncio do Seu secreto.O rei David por exemplo, quando apresentou-se para combater o maior de todos, o amedrontador do exército de Israel, estava escudado nas experiências que vivera com Deus no ermo, quando banda nenhuma executava alguma trilha sonora, quando as claques não estavam para aplaudir, quando não havia sequer uma voz para ajudá-lo a compreender aquilo que o silêncio que encontramos no secreto onde Deus está nos revela ou produz em nós. Nem para atrapalhar também, é verdade.Só há o avançar público e notório, quando estamos respaldados pela vida no secreto. Ali, David enfrentou o leão pela juba, apanhou o urso à unha, sem que essa história tivesse corrido mundo pelas “bocas-de-matilde”. Nem se viu tal façanha, nem também, ninguém ouviu-lhe os joelhos a “tocarem castanhola”, o seu medo, a aflição diante do perigo e o grito rouco, talvez, da sua alma a enfrentar-se a si própria e as suas limitações diante da morte certa. Podem ler, essa história só saiu da sua boca, não estava nos jornais, cressem ou não nela, isso tudo era o testemunho na primeira pessoa e só a ele interessava naquela hora de desafio.Não há registros claros a respeito de tudo o que passou na alma de Abrahão, quando levava o filho Moriá acima, em silêncio, sem conversa, sem muita prosa, para aquilo que, certamente, compartilhado o intento, poderia levá-lo a um tribunal, ou à condenação da geral, da vox-populi…

Ali, Abrahão, antes de desferir o golpe – impedido por Deus no derradeiro ato de fé e obediência – matara a si mesmo. Matara o pai da fé, a sua carne, a sua lucidez, a sua sanidade e a lógica da razão humana, destruidas a prazo, em minutos, horas, de muita luta e talvez perguntas e debates-consigo próprio não correspondidos por Deus. Em horas de silêncio, medo, angústia… E ali também, conseguiu ele o testemunho de Deus sobre a sua fé. A fé de ter andado com Deus e de, contra tudo (e dele próprio!) sem ter as suas respostas todas respondidas, obedeceu e creu. E ganhou o supremo prêmio de ser para sempre o “Pai da Fé”.

Quanto no silêncio temos investido? Quanto do tempo no secreto temos gasto? É precisamente ali que Deus nos fala mais fortemente. Ainda que para todos, para a “galera”, para a massa, seja tudo, somente silêncio. Nada mais do que silêncio.

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* Rubinho Pirola – extraído do site Genizah
tau

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Vinte e três horas e dezesseis minutos da noite de quinta-feira, dia primeiro de novembro do ano de dois mil e doze. Nesse período já começou o que os monges cristão chamam de “o Grande Silêncio”.

Aqui em casa todos, menos eu, já foram dormir. De barulho apenas o ventilador de teto e as teclas do notebook que estou usando para escrever essa impressão.

No condomínio onde moro é muito raro um começo de madrugada silencioso sem o barulho do bingo no clube ao lado ou da festinha particular dos  vizinhos no prédio em frente ao meu.

Eu não sei se isso já são os primeiros indícios da velhice (pasmem, em plenos 36 anos de idade rs), mas, de uns anos para cá tem crescido minha predileção por aspectos da espiritualidade cristã, como o silêncio e a solitude, pouco valorizados nos dias de hoje caracterizados pelo frenesi, pressa e barulheira.

E estar imerso no “Grande Silêncio” monástico nesse meu “monastério” particular (no momento é a minha sala de casa) faz-me perceber que a vida tem uma fundação primal que antecede a matéria, as realizações humanas, os bens e conquistas que angariamos nessa existência efêmera. Quando paro para perceber e intuir o que me envolve, percebo um “não sei o quê” o qual me abraça e me toca por todos os lado e que não pode ser nominado à partir de conceitos humanos, pois está além de todos eles. Mas, que também não pode ser afirmado negativamente do tipo “ele não é isso!”, pois, também transcende toda e qualquer negativa.

Logo, “o Grande Silêncio” começa a ganhar contornos místicos mais definidos de Presença do que de período,ou tempo ou até mesmo experiência. Já não é mais tanto o que eu faço, mas, sim a consciência plena de com Quem estou. Já não importa o ter e o fazer, mas, apenas o estar e aquietar.

No começo de tudo era o Silêncio. O Silêncio que gera todas as coisas. O grande útero do mundo espiritual e material. O Totalmente Outro, o Eterno, o Altíssimo Deus no silêncio da Comunidade Triúna de Amor, gerou a eternidade com suas criaturas: anjos, arcanjos, querubins, serafins e tudo o mais.

As Escrituras nos revelam que no princípio Deus criou os céus e a terra. Mas, não antes de ser precedido por um Grande Silêncio onde o Espírito de Deus, na suavidade de um balé cósmico, pairava sobre as águas do caos. O Grande Silêncio baniu o caos. E o caos deu lugar à organização. Primeiro o Grande Silêncio. Em seguida, o Logos criador: haja luz, haja terra seca, haja mares, haja criaturas, haja o homem e sua descendência a dominar a face da terra. E assim se fez. E viu Deus que tudo era muito bom. Porque todos, de certa forma, eram frutos do Grande Silêncio que traz à existência as coisas que não existem como se já existissem.

Não sei! Talvez seja a intuição de que preciso de cura que me atrai tanto para o Grande Silêncio. Talvez porque nele, após as compulsões de um dia estressante, eu novamente consigo acessar minha real identidade, meu real valor perante meu Pai.
Dessa forma, como no princípio da criação, a Presença novamente bane o caos e traz à existência a organização, a harmonia e a paz interior.

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“De madrugada, ainda bem escuro, Jesus levantou-se, saiu e foi a um lugar deserto; e ali começou a orar” (Mc 1:35)                                                                                 

De umas épocas para cá ( e já faz muito tempo) a espiritualidade cristã tem tido um medidor de temperatura no mínimo estranho ao padrão que encontramos nas Escrituras. Há tempos que a qualidade da vida espiritual, sua profundidade e calor é determinado, segundo o entendimento equivocado de alguns, pelo que os cristão fazem para Deus seja através da igreja ou não. 

Sendo assim a quantidade de culto a que vamos, o número de ministérios e atividades as quais desenvolvemos tornam-se o padrão para se determinar se estamos bem com Deus, se nossa vida espiritual está em dia.
E quando investigamos a espiritualidade de Jesus, se não a olharmos com acurada atenção, acabamos achando que seu estilo de vida corrobora essa espiritualidade ativista, consumista e hedonista que tem engolido a vida e a alegria de grande parte dos filhos de Deus que a tem experienciado. A maioria dos cristão chega ao final de sua carreira cansados, exauridos e não muito raro, frustrados e decepcionados. Por que será?
Não podemos negar que a “agenda” do Senhor era bem utilizada: desde expulsar espíritos imundos até uma conversa com uma mulher samaritana à beira de um poço, faziam parte de seu ministério diário.
No entanto o texto no início dessa reflexão nos mostra claramente que antes de um dia cansativo de atividades ministeriais, o Senhor estabelecia para sua vida aquilo que podemos chamar de “momentos sabáticos” para estar em amizade íntima com o Pai. Jesus diariamente separava tempo para estabelecer pausas na sua agenda e contemplar em silêncio e solitude no ermo, o rosto amável e amoroso de seu Abba. 
Tudo o mais que Jesus fazia, sua vida como um todo, orbitava em torno desses momentos. Ganhava profundidade, significado e uma nova dimensão a partir desse encontros íntimos com Deus em oração e contemplação. Para nosso Senhor estar com o Rei era prioridade diante do que ele tinha que fazer para o Rei. Certa feita, Jesus disse que ele não fazia nada por si mesmo, mas, somente o que ele via o Pai fazendo. Como que Jesus obtia esse discernimento espiritual para poder enxergar o Pai agindo? Na sua intimidade de oração, meditação e contemplação em silêncio e solitude com Deus.
Sendo assim, se desejamos imitar a vida de Cristo, se desejamos ver sua imagem refletida em nós e se queremos verdadeiramente experimentar uma espiritualidade saudável nossos dias precisam ter na sua primazia nosso “momento sabático”. É imprescindível aprendermos a estabelecer pausas, puxar o freio de mão, pisar fundo no breque e diminuir nosso ritmo para encontramos tempo para o silêncio, a solitude, a oração, a meditação e a contemplação apaixonada e fascinada da face daquele que nos amou e nos ama com amor eterno. 
Espiritualidade e atividade. Contemplação e ação. Maria e Marta. Na verdade não são realidades mutuamente excludentes. São complementares. São irmãs e por isso precisam caminhar juntas pela vereda fascinante do Reino. Encontrar o equilíbrio entre elas é o grande desafio de uma espiritualidade bíblica, cristã, madura e saudável.
Que tal apertar o botão de pausa?

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Estava um certo homem deitado no sofá de sua sala assistindo a um filme na televisão. Como o mesmo não estava conseguindo prender sua atenção, ele dormiu profundamente e passou a sonhar sonhos de Deus. E um deles foi assim compartilhado comigo:

Estava eu caminhando por uma estrada deserta, poeirenta  quando deparei-me com um lindo jardim em flor de primavera na beira do caminho. Nele existia uma riqueza de detalhes que enebriava de profunda alegria a quem o observasse. Margaridas, rosas de várias cores, copos de leite, cravos, lírios e muitas outras plantas compunham aquela paisagem de beleza multifacetada. Pensei comigo: “O Jardineiro que cuida desse jardim deve ser alguém muito zeloso e caprichoso”. Ainda podia divisar samambaias e árvores frutíferas de várias espécies e um rio de águas límpidas que atravessava bem no meio daquele local. Pus-me a me perguntar meio que atordoado com tudo aquilo ao meu redor: “O que pode significar um jardim tão bonito como esse num lugar tão inóspito?”

Ainda estava a me questionar quando ouvi uma voz que ao mesmo tempo em que era doce e suave, parecia com o rugir de centenas de trovões. Acho que era a voz do próprio Jardineiro. E a voz me disse: “Esse jardim representa as Sagradas Escrituras que Deus concedeu à humanidade para que lhe seja luz e lâmpada que lhe indique o caminha da salvação”. E é verdade, oh Senhor Bendito de toda glória! Não são elas uma carta de amor de um Deus que simplesmente ama porque decidiu assim fazê-lo? E não são suas as verdades multifacetadas a alegrar o coração dos homens e a edificar os crentes e a revelar a vereda para a redenção da alma? E suas verdades não são semelhantes ao fruto maduro e doce a impregnar de sumo a boca de quem o prova ?

Comecei a caminhar por aquele lindo jardim de belezas e delícias insondáveis. Eu não tinha pressa alguma. Caminhava lentamente, passo à passo olhando e observando tamanhos, formas e cores de tudo o que brotava do solo daquele lugar paradisíaco. Rosas vermelhas e brancas. Violetas. Margaridas amarelas. Copos-de-Leite brancos como a neve. Árvores pequenas, árvores grandes. Frutos pequenos e frutos grandes. Uma riqueza de detalhes que palavras não poderiam expressar satisfatoriamente. Num dado momento, percebi em meio àquela vastidão uma linda rosa que chamou a minha atenção pela sua beleza singela, sua textura aveludada, cor viva e delicioso perfume. Parei diante dela abaixei-me e a colhi com cuidado e reverência. E disse em seguida: “De todas as flores que vi e apreciei, essa rosa verdadeiramente foi feita para minha alegria.” De repente, como que do nada ouvi novamente a voz do Jardineiro à perguntar-me: “Você sabe o que significa esse passeio sem pressa e atento a todas as belezas e riquezas do meu jardim?” Eu lhe respondi: “Não Senhor, Tu o sabes!” E ele complementou: “Esse caminhar sem pressa, silencioso e atento é a meditação sobre as minhas Escrituras. E a rosa que colheste é a Palavra que separei e direcionei para sua vida”. Ah, Amado Senhor! E não é assim mesmo que, ao lermos sem pressa  em em amorosa e silenciosa atenção, num dado momento nossa atenção é chamada a uma frase, expressão ou palavra da Sacratíssima Escritura? O que antes era apenas um texto sagrado passa a ser a nossa Palavra pessoal. A Palavra do nosso Deus para as nossas vidas.

Enquanto ainda olhava atentamente para a minha rosa que havia colhido do jardim, eis que sem o perceber o Jardineiro se aproxima de mim. Olhei nos seus olhos e foi como se me perdesse nas profundezas de um vasto oceano. Oceano de bondade, esperança, misericórdia e amor. Ele sorriu para mim. E o seu sorriso se alastrou pelo meu peito como um incêndio a consumir uma floresta de folhas secas. Naquele momento, sem entender muito bem o que se passava, comecei a chorar e a gradecer ao gracioso jardineiro por ter cultivado e cuidado de tão bela espécime de flor. Exaltei sua criatividade e cuidado para com aquela rosa. E acima de tudo pelo fato de que agora compreendia que a mesma não fora destinada para qualquer outra pessoa a não ser para mim. E ele com muita alegria no rosto me perguntou: ‘Sabe o que você está fazendo?’ ‘Não!’ Eu lhe respondi. ‘Você está orando. E sua oração é uma resposta espontânea à beleza e gratuidade da rosa que você colheu no meu jardim’. É verdade Benigníssimo Senhor! A Palavra que nos dá na meditação de Tuas Sagradas Letras fazem brotar do nosso interior o mover da alma que chamamos de oração. E em  alguns momentos as riquezas de sua graça e compaixão nos levam a louvarmos Seu Santo nome. A rendermos graças e glórias ao Rei de nossas vidas. Mas em outras ocasiões nossos pecados fazem com que os espinhos de nossa rosa nos firam. Feridas de amor que nos convidam à confissão e ao arrependimento. E aí somos curados e restaurados por Ti. Oh, Pai das misericórdias e Deus de toda a compaixão!

Quando terminei de falar, tendo ainda a rosa em minha mão, o Jardineiro virou-se e começou a caminhar para longe de mim. Sem perder tempo corri o mais rápido que pude em sua direção até alcançá-lo.  Ao perceber-me próximo de si, virou-se e disse: ‘ o que você quer meu filho?’  Sem hesitar por um momento lhe direcionei as seguintes palavras: ‘Senhor, e a contemplação, não tens nada a dizer? No seu jardim já descobri as Escrituras, a meditação e a oração, mas, e quanto à obra da contemplação, o que vem a ser ela?’ Ele abriu um largo sorriso e me respondeu o seguinte: ‘Sabe a rosa que tens na mão? Cheire-a. Desfrute do seu perfume. Saboreie sua fragrância, sem pressa, em silêncio. Não precisa fazer nada. Seja apenas você. Esteja plenamente presente, imbuído e arrebatado pela doçura desse perfume. Isso meu querido, isso é contemplação.’ Senhor, pela tua soberana misericórdia ensina-nos a romper com a tirania do ter e do fazer. Ao paço em que nos ensina a graça de simplesmente ser e estar. Ajuda-nos a silenciar as vozes do nosso interior que clamam de dia e de noite por nossa atenção, sufocando assim os Teu doces sussurros em nossa alma. Capacita-nos a adentrar no Grande Silêncio da Presença que envolve a tudo e a todos.

Foi então que despertei e vi que tudo aquilo não tinha passado de um sonho. E que sonho maravilhoso!  De repente ocorreu-me algo que ainda não tinha feito naquele dia. Corri para a estante de livros, peguei minha velha amiga, a Bíblia, e fui para o quarto secreto onde meu Pai que me vê em secreto estava me aguardando. 

Boa noite a todos!

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