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Posts Tagged ‘ascese’

“Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim (…) Portanto está alegre o                           meu coração”                                                             (Sl 16:8, 9)

O estilo de vida que adotamos fala muito em relação à realidade de quem somos. Ele revela nossos anseios e desejos; nossas espectativas e frustrações. No nosso estilo de vida repousa uma gama muito extensa de experiências que vivemos, palavras que nos foram direcionadas, sonhos os quais não conseguimos trazer à existência. Devemos ainda levar em consideração a carga genética e as predisposições congênitas de comportamento as quais herdamos diretamente de nossos avós e pais.

De uma forma ou de outra todos são formados interiormente à imagem de toda esta bagagem emocional, social e hereditária. E tudo se traduz numa forma de comportamento a qual chamamos de estilo de vida.

Assim, quando consideramos toda a formação que recebemos como fruto destas experiências pessoais, como cristãos, percebemos a necessidade de transformação que nos capacite a nos enquadrar num novo estilo de vida.

A experiência com Cristo conduz-nos a uma nova dimensão comportamental caracterizada por um abandonar das coisas antigas e um abrir-se para o novo de Deus (cf. 2Co 5:17).

Desse jeito é necessário que encaremos a comunhão com Deus como parte integrante, integradora e determinante de um novo estilo de vida a que temos acesso por intermédio de Seu Santo Espírito: um estilo de vida contemplativo.

Este estilo de vida quebra de vez com o estereótipo reducionista de que a vida com Deus, o andar no Espírito, a experiência da presença do Totalmente Outro, é algo a que se tem acesso apenas entre as quatro paredes de uma igreja ou em meio à clausura de um monastério.

Um estilo de vida caracterizado pela contemplação resulta numa nova percepção e experimentação das possibilidades do Sagrado e da beleza inata das coisas efêmeras. Liberta-nos da distração e desatenção. Isso é bem retratado nas palavras de Elizabeth B. Browning:

“A terra está repleta do céu.

E cada sarça comum ardente por causa de Deus.

Mas somente quem percebe tira as sandálias.

O restante se assenta ao redor colhendo amoras”

Um estilo de vida contemplativo é aquele que aguça a nossa percepção de que céu e terra se conectam de forma misteriosa. Que há uma beleza a mais numa ávore comum além do simples prazer de colher uma fruta madurada. Que este mundo está embuído e permeado pela glória dAquele que emana e transcende todas as coisas.

Esta forma de viver nos permite usufruir uma espiritualidade holística que inclui todas as coisas, poupando-nos, desta forma, de uma vida espiritual fragmentada, aprisionada em meio ao pensamento dicotômico de sagrado e profano; espiritual e secular. Como diz Ed Renê Kivitz não podemos considerar a Deus sem também levar em consideração o pardal, a palmeira, a montanha etc.

Este estilo de vida é o estilo de vida dos grandes místicos que aprenderam a perceber e a praticar a presença de Deus. Que descobriram o segredo de orar incessantemente e o duçor da comunhão constante e ininterrupta com Cristo.

Agora, de que forma podemos nos engajar neste estilo de vida ébrio de mistério e de Deus? A seguir compartilho algumas das principais práticas que têm acompanhado o viver contemplativo no decorrer da história cristã:

1. A Prática da Oração do Coração – Conhecida também como a oração de Jesus. Consiste na invocação do nome bendito do Senhor numa fórmula orante “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim, pecador!” O propósito desta oração é entrar no descando e quietude interiores.

Esta fórmula tem tudo o que uma oração exige: Reconhece-se o Senhorio e divindade de Cristo (Senhor Jesus Cristo) ao mesmo tempo em que se reconhece nossa pecaminosidade e consequênte dependência da misericórdia divina (tem piedade de mim, pecador).

Podemos, praticá-la caminhado na rua, dentro do ônibus indo para o trabalho ou quem sabe enquanto realizamos nossas tarefas domésticas.

2. A Meditação Ruminatória – A princípio este nome pode-nos parecer estranho. Creio que isso acontece porque não estamos familiarizados com o que significa meditar. Acreditamos que ler cinco ou seis capítulos da Bíblia por dia, passando batido por eles significa que meditamos nas Escrituras. è verdade que o meditar passa pela leitura. Contudo, nem toda leitura bíblica que fazemos necessariamente significa que também meditamos.

A palavra hebraica “haga” significa murmurar a meia voz mexendo os lábios; repetir. Deste significado vem a idéia de “ruminar” ou “mastigar” a Palavra. Como se dá isso? No momento de sua leitura bìblica – e aqui sugerimos não uma leitura longa de capítulos, mas, de proções pequenas, quem sabe apenas um versículo – escolha uma palavra, uma frase ou um verso inteiro que tenha tocado seu coração. Repita-o em voz baixa em atitude de oração. Quem sabe, se você preferir, você pode escrever este verso num pedaço de papel e levá-lo consigo. Assim quando desejar repetir não correrá o risco de esquecer o texto.

Este exercício nos ajuda a continuamente mantermos nossa atenção naquilo que Deus falou-nos ao coração enquanto o Espírito Santo faz com que a verdade da Palavra de Deus crie raizes em nossa alma. Deste jeito teremos o Senhor continuamente diante de nós. Pela lembrança contínua de sua Palavra.

3. O Convite a Jesus – Uma outra forma de vivermos um estilo de vida contemplativo é aquilo que denominei de convite a Jesus. Seria a prática de tornar o Senhor participativo de tudo quanto nos fizermos durante nosso dia. Devemos ter em mente que Cristo nos ama, e por causa disso, deseja fazer parte de tudo que se relaciona conosco.

Não existe nada trivial relacionado a nós que ele não se importe. Em Pv 3: 5, 6 nos diz – “Confia no Senhor de todo o teu coração (…). Reconhece-o em todos os teus caminhos (…)”. A grande verdade é que quando amamos alguém, confiamos nesse alguém. E por confiarmos convidamos este alguém para ser parte integrante de nosso viver.

Para que possamos ter uma idéia do que seja isso, Frank Laubach nos descreve sua experiência de convidar a Cristo para participar das coisas comuns do seu dia-a-dia. na carta para seu pai em Janeiro de 1930 assim ele diz:

“Nos últimos dias, minha experiência de entrega tem sido mais completa do que nunca. Estou reservando, por vontade própria, um tempo suficiente a cada hora para refletir sobre Deus. Ontem e hoje, realizei uma nova aventura, que não é fácil de ser relatada. Estou sentindo Deus em cada movimento, por um ato de vontade – ansioso para que Ele dirija estes dedos que agora batem nesta máquina de escrever – ansioso para que ele flua por meio de meus passos enquanto caminho – ansioso para que ele controle minhas palavras enquanto falo, minha boca enquanto me alimento”.

A exemplo de Laubach podemos fazer o mesmo. Não é nada de extraordinário no seu sentido restrito. Por exemplo enquanto você estiver tomando seu café você pode dizer para Deus: “Que delícia de café, Senhor! Obrigado pela oportunidade de saborear um café tão delicioso”. Quando você estiver caminhando na rua você pode dizer para Cristo: “Senhor Jesus, guia agora as minhas pernas enquanto caminho”. Em relação ao perigo das tentações vizuais você poderá orar: “Senhor, toma estes olhos em tuas mãos. Guia-os para que eles não se desviem para o mal”. No seu trabalho a coisa pode acontecer assim: “Jesus, ajuda-me a montar esta planilha eletrônica” ou ” Senhor, dá-me atenção para que eu não erre nestes cálculos”. Se for serviço de rua: “Deus, em meio aos perigos desta cidade, guarda-me enquanto caminho por esta rua; avenida” etc. Se você lida com o público pode ser assim: “Senhor, dá-me paciência afim de que eu possa conceder um atendimento com qualidade”. Se for em casa, nas tarefas domésticas: “Jesus, sê com meus braços enquanto varro esta sala; enquanto lavo estas roupas; enquanto tiro este pó”.

As possibilidades são inesgotáveis desde o momento em que nos convencemos de que Jesus tem prazer em participar das nuances do nosso cotidiano.

4. A Prática das Disciplinas Espirituais – Na história dos grandes místicos e contemplativos do passado, a presença da ascese era algo comum nas suas vidas.

Ascese é um termo grego comum que significa simplesmente “treinamento”. Logo, o que seriam as disciplinas espirituais? São atividades que treinam o nosso corpo e alma para que a vida de Deus possa acontecer em nós. Elas nos colocam numa posição tal em que o Espírito Santo possa nos transformar, formando a imagem de Jesus no nosso eu interior.

São muitas e diversas estas disciplinas espirituais: jejum, oração, clebração, serviço, confissão, silêncio, solitude, meditação etc.

Gostaria de me ater a duas delas, pois, o espaço não me permite prolongar. Consideremos o silêncio e a solitude. Estas duas disciplinas caminham de mãos dadas, geralmente. No silêncio eu busco calar as vozes exteriores e interiores para retornar ao meu centro, onde o Espírito de Deus habita para, assim, poder ouvir a sua voz. Na solitude procuro me esquivar das aglomerações humana para poder estar a sós comigo mesmo e com Deus.

Quando estudamos acerca destas duas disciplinas descobrimos que as mesmas, juntamente com a lectio divina, ou leitura orante das Escrituras, ocupavam um lugar central nas atividades ascéticas da vida monástica.

Logo, quando temos acesso a estas informações, questionamos: “mas, não somos monges e nem vivemos na época que eles viviam. Então, não podemos praticar estas disciplinas espirituais?” A resposta é simples: É claro que podemos.

Nosso grande desafio, então, constitui em conseguirmos incorporar na nossa rotina corrida de vida pós-moderna estas atividades espirituais. De que maneira:

4.1. Estabelecendo momentos e períodos de silêncio. Podemos falar de momentos de silncio como por exemplo no seu período devocional separando parte dele para colocar-se em silêncio diante de Deus. Quem sabe pode-se começar com dez minutos e ir aumentando gradativamente.

Podemos ainda considerar dias de silêncio. Como por exemplo num feriado prolongado que começa numa quinta.

Podemos também considerar uma semana de silêncio, ou um mês de silêncio. Isso acontece no período de férias onde você pode viajar para um lugar reservado comoa casa de praia de um amigo ou uma aconchegante pousada serrana.

4.2. Estabelecendo momentos e períodos de solitude. Seu momento devocional onde você praticará o silêncio deve, se possível, ser num lugar reservado onde ninguém lhe pertube. Um quarto de porta fechada, ou num jardim debaixo de uma ávore. O importante é que você possa ficar a sós com Deus.

Também você pode reservar na sua casa um “cantinho da solidão” e combinar com a família que sempre que você estiver lá significa que deseja ficar sozinho. Pode ser um cadeira, ou uma poltrona ou até mesmo um local da casa. Vale aqui a criatividade.

A questão de dias, semanas e meses de solitude se aplicam as mesmas idéias que tratamos acima para o silêncio.

Quem sabe você também possa empreender uma caminhada num local com bastante árvores e flores e lá estar a sós e em silêncio saboreando a presença Deus e observando com mais atenção a natureza que nos revela, como sacramento, a majestade e a glória do Criador.

Existem muitos outras práticas contemplativas. A medida que colocarmos estas em prática o próprio Deus irá nos mostrar outras maneiras de andarmos continuamente em sua presença.

Por fim desejo dizer que apesar destas práticas terem caracterizado a peregrinação espiritual de homens e mulheres de tradição contemplativa ao longo dos séculos, estas, contudo, não são o ponto central de sua espiritualidade.

O que essencialmente define um estilo de vida contemplativo é um viver encharcado por amor: amor de Deus; amor a Deus e amor ao próximos.

Amor este cuja base é o amor do Pai revelado no Filho o qual deu a própria vida para nos resgatar. Por isso o amor de Jesus não apenas nos introduziu na vida contemplativa como também a sustenta e alimenta.

Não há vida contemplativa fora do amor de Cristo. Thomas Merton escreve com grande discernimento acerca disso:

“Não há verdadeira vida espiritual fora do amor de Cristo. Temos uma vida espiritual unicamente porque ele nos ama”.

E vivendo na dinâmica deste amor sublime podemos, como canais, espalhar sua glória estando em sua presença com o coração cheio da alegria dos céus.


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