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Posts Tagged ‘auto-conhecimento’

As narrativas que temos acerca de Deus determinam, substancialmente, a visão que desenvolvemos acerca de outras pessoas e de nós mesmos. O que são narrativas sobre Deus? Simples: são as idéias e imagens que temos em nossa mente acerca de quem Deus é e de como ele age, as quais nos foram transmitidas como herança por nossos pais, professores, líderes espirituais etc. Daí já se pode perceber o quanto elas são de suma importância para nossa cosmovisão, seja esta saudável ou não.

Na grande maioria dos cristãos espalhados pelas igrejas das diferentes confissões, existe um número esmagador de pessoas que foram expostas àquilo que podemos chamar de “narrativa do merecimento” onde o amor de Deus por nós é apresentado como uma dimensão estritamente condicionada ao nosso comportamento. Em outras palavras, Deus concede-me seu amor quando eu comporto-me bem. No momento em que “saio da linha”, Deus retem seu amor. Com isso, muitas pessoas vivem uma vida cristã aprisionada pela falsa ideia de que o amor de Deus é algo que eu tenho de obter e/ou merecer; que o objetivo da vida é buscar a aprovação de Deus através da observância de regras, mandamento e dogmas religiosos, na maioria das vezes criados pelo próprio homem. E, assim deixamos de experimentar a vida abundante e a liberdade para as quais fomos conquistados por Cristo (Jo 10:10; Gl 5:1).

A narrativa do merecimento não é exclusiva da vida eclesiástica e espiritual. Desde a infância dentro dos nossos lares somos colocados sob a opressão dessa visão distorcida pelos nossos próprios pais. Palavras do tipo “Bom menino. Arrumou o quarto como mandei”; “boa menina. Comeu toda a comida” e etc. fomentam na psique da criança que sua bondade ou valor para seus pais existem na mesma proporção em que atendem suas expectativas. Ao se tornar adulta, esta mesma criança, é lançada num mundo que cultua esse tipo de narrativa, onde a importância de alguém está para sua aparência, vitórias pessoais, sucesso profissional e bens materiais adquiridos. E o mais curioso e irônico é que quando essa pessoa acaba se convertendo a Cristo e passa a frequentar a igreja, ao invés desta lhe fornecer narrativas terapêuticas e libertadoras das antigas narrativas, seus grilhões acabam se tornando ainda mais rígidos e apertados pelo tipo de ensino e discurso a que é exposta no convívio da comunidade de fé.

Os resultados são desastrosos. Sabendo esta pessoa que nunca conseguiu alcançar as expectativas criadas por seus pais na infância e por seus chefes e patrões na vida profissional, acaba desenvolvendo uma baixo auto-estima, um ódio a si mesma que acaba sendo projetada sobre seu relacionamento com Deus. Ela raciocina: “se nunca consegui agradar meus pais e meus chefes, não é a Deus que vou conseguir.” Desta forma essa mesma pessoa se vê numa gangorra de altos e baixos na sua vida espiritual, emocional e psicológica na tentativa patológica de se buscar a todo custo merecer o amor de Deus e conseguir sua aceitação. 

É nesse exato momento que as pessoas desenvolvem uma válvula de escape psico-emocional para seu sentimento de inadequação perante Deus. Aqui começa-se a desenvolver aquilo que chamamos de “falso eu”. Ou seja, são máscaras que criamos para nos esconder por detrás delas, das pessoas e sobretudo de Deus. A enfermidade do “falso eu” é grande visto sua compulsão em buscar a todo e qualquer custo a aprovação dos outros e dos céus. É uma espécie de montanha russa em alta velocidade que está fadada a desprender-se dos trilhos. A destruição é certa!

No entanto quando somos conquistados pela revelação de que o amor de Deus não é algo que eu precise merecer, pois, eu já o tenho em Cristo, e que a aceitação divina já está presente em minha vida, porque eu sou aceito por Deus da mesma forma em que sou amado por ele, isso rompe os grilhões da falsa narrativa que antes me dominava, retirando-me das trevas da inquietação para a luz da confiança que vem da certeza de que meu Aba tem uma única opinião a meu respeito: “Tu és meu filho (mesmo que adotivo) amado. Em quem tenho toda alegria”. 

Esta é a minha identidade primordial: sou o amado de Deus. E a prova de que o merecimento ou o não merecimento pessoal, não tem qualquer influência sobre isso é o fato de que a Bíblia, e a experiência pessoal diária, atestam que dentro de mim ainda existe uma natureza mesquinha, maligna, rebelde, que faz oposição direta ao Espírito de Deus que agora também faz habitação no meu corpo (Gl 5:17). Tal natureza me conduz a cada dia a experimentar um misto de realidades conflitantes e paradoxais (Rm 7:15-19). A grande verdade aqui é o adentrar na dimensão do auto-conhecimento. É o confronto com a realidade do que eu sou: uma miscelânea de bem e de mal; virtudes e defeitos; bondade e malignidade; santidade e pecado. E acima de tudo a aceitação por mim mesmo de quem eu realmente sou, o meu verdadeiro eu. Brennan Manning, escritor norte-americano, diz que o começo de toda vida espiritual profunda acontece a partir da auto-aceitação de quem nós realmente somos. E daí aceitar igualmente que Deus nos aceita e nos ama do jeito que somos e não do jeito que deveríamos ser. Porque, pelo menos deste lado da eternidade, nunca seremos do jeito que deveríamos ser. 

A sociedade agitada e barulhenta na qual estamos inseridos nos convida diariamente a sacrificarmos no altar da “narrativa do merecimento” quando nos estimula a mensurar nossas conquistas pessoais, a nos preocuparmos excessivamente com nossa aparência física e a buscar exaustivamente o último carro do ano ou a última tecnologia em celulares. Dado esse fato, permanecemos de forma alienada celebrando as máscaras auto-criadas da aceitação pública, nosso falso eu.

A imagem bíblica do deserto se apresenta para nós como resposta para a necessidade da busca do auto-conhecimento. É no ermo espiritual que sepultamos o “falso eu” com todas as suas compulsões e patologias e vemos emergir o “verdadeiro eu”, imperfeito, maltrapilho, não obstante, amado furiosamente pelo Pai. Na narrativa da tentação de nosso Senhor relatada no evangelho de Mateus 4:1-11 temos a narrativa do confronto de Jesus face a face com o próprio Satanás. E de como, com aquelas três tentações, o Maligno empreendeu a tentativa de fazer com que o Senhor abraçasse um “falso eu” que não aceitasse a necessidade (v.3), que buscasse a popularidade (vs.5,6) e que almejasse o poder e a riqueza (vs.8,9). 

A verdade por detrás da tríplice recusa do Senhor aos convites do Maligno foi a certeza de quem ele era. Jesus tinha bem esclarecido no seu mundo interior quem ele era e o seu papel a partir disso (Lc 3:22). Sua identidade primordial, seu verdadeiro eu, era que ele era o filho amado de Deus que alegrava demais o coração do Pai. 

Quando Deus nos conduz igualmente ao “deserto” lá somos confrontados com os “demônios” que habitam dentro de nós. Ao criarmos espaços em nossos dias para estarmos a sós com Deus, no silêncio contemplativo, começamos a ouvir as “vozes” que clamam no nosso interior. Vozes essas que na maioria do tempo abafam a voz de Deus que ininterruptamente se dirige a nós enquanto filhos amados de Aba. Enquanto não conseguimos nos aquietar saindo do meio do turbilhão das compulsões diárias, deixamos de acessar nossa verdadeira identidade e continuamos dando ouvidos à voz sedutora da antiga serpente que convida-nos a permanecer abraçados com o “falso eu”. 

Finalizo com a antiga história do discípulo e do mestre ancião. O jovem discípulo num dado dia chega até seu mestre, um homem em idade avançada, e lhe faz uma pergunta:

Mestre, o que faço para ser alguém iluminado?

O ancião faz um perído de longo silêncio, enquanto o jovem discípulo aguarda. Finalmente o ancião levanta os olhos em sua direção e lhe diz:

– Conhece-te a ti mesmo e julgue menos os outros.

Esse sem dúvida é um caminho de libertação! Que assim seja.

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Os monges do deserto, cristãos que buscaram na solidão do ermo uma experiência autêntica com Deus, falavam da importância da espiritualidade “de baixo”. Desejosos de fugirem da vida religiosa meramente de aparências e palavras bonitas, eles insistiam em que o caminho para Deus começava por baixo, pelo reconhecimento de nossas paixões e pela percepção das regiões sombrias de nossa alma.
Eles rechaçavam os “altos ideais”, as conversações sobre assuntos meramente de cima, questões celestiais e por demais abstratas que só servem para levar o homem para longe de si mesmo e sua própria realidade, devastada e aprisionada pelas paixões.
Esses mestres espirituais, dos quais o ensino não brotava da teoria, mas do andar com Deus diário, prático, que encara as situações do cotidiano não como um empecilho para a vida com Deus, mas como o único caminho para nos levar a uma relação autêntica com o Pai, diziam que antes de querermos “enfeitar o telhado de nossa casa”, deveríamos descer ao “sótão”, àquele lugar úmido em nossa alma, pouco visitado ou mesmo quase nunca, de tão assustador e desprezível.
Espiritualidade de baixo tem a ver com enxergar-se, olhar-se sem a maquiagem da piedade fingida que se mostra aos outros como “bom”. Tem a ver com o desnudar-se diante de Deus e do próximo, não desejando nunca que pensem de nós além daquilo que somos.
Por vezes, nossa intolerância com os pecados alheios, nosso desejo e tendência constante para o criticismo, caracterizado por achar defeitos nos outros e na igreja o tempo todo, trata-se do não reconhecimento dos próprios pecados, reprimidos e não tratados na presença de Deus.
Acostumados ao silêncio e à solidão, a viver na quietude onde as ilusões se desfazem e assim o auto-engano não encontra mais lugar, os eremitas do deserto se tornaram os psicólogos da antiguidade. Treinados em ouvir os sussurros da própria alma, eles não se deixavam impressionar pela espiritualidade desmedida (“de cima”), que insiste em discutir e querer ter a razão nas questões “estratosféricas” da teologia cristã, mas insistiam em prescrever a humildade como caminho para Deus. “Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, e Ele, a Seu tempo vos exaltará” (I Pe.5:6), era o lema de vida destes homens.
A verdadeira humildade que conduz a Deus e não aos ídolos do próprio coração, precisa passar pelo reconhecimento de quem sou, minhas mazelas, imaturidades, paixões e idiossincrasias. Neste sentido, o reconhecimento honesto de quem sou contribuirá para tornar-me aquilo que nasci para ser. Paulo, possuía um espinho na carne que era o próprio diabo a esbofetear-lhe o rosto. Mas o poder de Deus, manifestava-se em sua fraqueza.
O caminhar cristão saudável está baseado no auto-conhecimento desprovido de ilusões onde reconheço quem sou, e da noite escura de minha alma parto em direção da luz do evangelho da glória de Cristo, buscando no auxílio de irmãos e da Palavra, nunca isolado, a cura de minhas feridas, a fim de um dia poder tornar-me aquele que aos outros consola, mas com as mesmas consolações que tenho sido consolado.

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* Filipe Barbosa Macedo – Extraído do blog  O Pastor e o Monge 

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