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Posts Tagged ‘Contemplação’

071214012555Quando falamos da disciplina do silêncio automaticamente somos confrontados com o grande desafio que é encarar nosso cotidiano extremamente barulhento e de ritmo cada vez mais frenético. Surgem-nos perguntas tais como: “Como encontrar tempo para praticar o silêncio?”; “Não seria o silêncio uma prática exclusivamente monástica, ou seja, para pessoas com um chamado específico para viverem em clausura?”; “Estar em silêncio só é possível num ambiente com total ausência de ruídos e distrações?” e etc.

Dúvidas assim que tendem a nos intimidar e às vezes até desanimar, surgem do fato de que encaramos o silêncio apenas na sua dimensão exterior. De modo que praticar o silêncio só é visto como a separação de tempo e lugar em que paramos, nos acalmamos e adentramos num estado meditativo de quietude e interiorização. Não restam dúvidas de que o silêncio tem este lado prático e devocional. No entanto, o que poderíamos dizer daqueles que não têm muito tempo ou não dispõem de oportunidades frequentes para experimentarem períodos (horas, dias, semanas, meses) de prática silenciosa, em solitude e tendo uma Bíblia aberta diante de si?

Apesar de acreditar que devemos lutar firmemente para abrirmos brechas em nossas agendas diárias para encontrarmo-nos com o Senhor em solitude, silêncio, meditação, oração e contemplação (Lectio Divina), jamais devemos nos esquecer de que o silêncio possui outra “face da moeda” que muitos de nós amantes da espiritualidade e mística cristãs acabamos por negligenciar, seja por desconhecimento ou esquecimento da mesma.

A tradição monástica, por mais surpreendente que possa parecer, ajuda-nos nesse sentido quando fala daquilo que poderíamos chamar de vida silenciosa, onde o silêncio, mais do que um momento de se colocar num lugar desprovido de barulhos, é considerado como uma atitude interior de recolhimento constante. Um voltar-se contínuo para o nosso centro divino, nosso “eu” interior, o santuário interno de nossa alma, em outras palavras, uma atitude de contínua atenção à Presença do Deus que nos habita através do Seu Espírito e que sempre está falando com cada um de nós. Os monges em seus escritos sempre tocam no assunto de se permanecer numa “cela” interior em meditação e oração incessantes mesmo durante as atividades do dia-a-dia (“Ora et Labora”).

Acerca dessa atitude de recolhimento interior silencioso, Anselm Grun escreve: “O silêncio é a atitude interior em que eu me abro para esta realidade do Deus que me envolve. Portanto ela é mais do que o não-falar” (As Exigências do Silêncio, págs.69,70). Por esse prisma o silêncio não é visto como uma realidade em conflito com as atividades do cotidiano, mas, como um espaço mais profundo no qual elas acontecem e do qual emergem e lhes empresta significado espiritual. Aqui silêncio é estar em atitude interior de recolhimento e atenção à presença de Deus que nos envolve por todos os lados enquanto cozinhamos, varremos o chão,  pegamos o ônibus para o trabalho, sentamo-nos em frente ao computador no nosso escritório e etc. Silêncio é estar em perpétua atitude de escuta para Deus.

Maria, mãe de nosso Senhor Jesus Cristo, nos é apresentada nas páginas dos evangelhos como mulher de vida silenciosa, em constante atitude meditativa de recolhimento interior em meio aos acontecimentos do cotidiano (cf. Lc 2:19).  Maria é o arquétipo da mulher silenciosa, ativa-contemplativa. E temos muito que aprender ao observar seu exemplo como alguém cuja vida de silêncio interior lhe permitiu acolher o mistério do Verbo de Deus segundo nos revela o evangelho.

O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da encarnação de Cristo . No Evangelho segundo S. Lucas no capítulo 2 verso 19 lemos acerca da atitude de Maria – “Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração”. Que coisas eram essas? O contexto imediato dos versos anteriores nos revelam (cf. vs. 16-18). Maria em atitude de meditação acolheu a revelação trazida pelos pastores acerca da criança que ela acabara de dar à luz. O glorioso mistério de que o infante envolto em panos comuns, nascido pobre, deitado numa manjedoura era o próprio Senhor e Cristo encarnado para a salvação dos pecadores (Lc 2:11). O Filho de Deus vindo em carne era ele mesmo o Evangelho, as boas-novas de grande alegria para todo o povo, inclusive ela, Maria. No silêncio de seu coração Maria pode contemplar a glória de Deus cumprindo as profecias da Antiga aliança, trazendo ao mundo o Messias prometido como Luz para dissipar as trevas do pecado, trazendo paz aos homens (Lc 2:14).

O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da Identidade de Cristo. Num outro texto Lucas menciona novamente a atitude de Maria frente à revelação do mistério divino – “Sua mãe, porém, guardava todas essas coisas em seu coração” (cf. Lc 2:51b). Que mistério foi esse que ela guardou em recolhimento interior e oração? O contexto dos versos anteriores (vs. 41-50) nos mostra que foi a revelação da identidade de Jesus com o Pai Celeste exposta nas suas próprias palavras – “Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?”(v.49). Mesmo não tendo compreendido naquele momento todas as implicações do que fora dito por seu jovem filho (v.50), Maria acolheu aquelas palavras “Jesus se diz filho do próprio Deus”. O acolhimento do mistério contido nas palavras de Jesus possibilitou no futuro Maria compreender que Jesus e o Pai eram um (cf. Jo 10:30; 14:9,10) e que como seu Senhor e Mestre ele não lhe devia mais obediência (Jo 2:3,4) e sim que deveria ser obedecido em tudo (Jo 2:5). No silencio interior do coração Maria intuiu que aquele judeu pré-adolescente não era só o filho do carpinteiro José, seu marido, mas antes de tudo o Unigênito do Pai.

E o silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da paixão de Cristo. Apesar de não encontramos a mesma fórmula dos pontos anteriores que nos falam de Maria guardando palavras e acontecimentos no coração em atitude de meditação, não podemos desprezar a presença dessa mesma atitude perante a crucificação – “Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã dela, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena” (Jo 19:25). Maria diante do corpo pregado na cruz não diz nada. Chora apenas. E contempla a Graça e o amor redentor de Deus sendo levado até as últimas consequências por cada um de nós, inclusive por ela mesma. No silêncio de seu coração contemplativo ela descobre aos pés da cruz que naquela paixão divina havia substituição (cf. Mt 27:46), havia perdão (cf. Lc 23:34) e havia redenção (cf. Jo 19:30).

O silêncio de Maria não era um silêncio alienado, desatento e inútil. Pelo contrário, era atento e profícuo. Não vemos Maria investindo grandes somas de tempo para a realização de retiros silenciosos e meditativos. Pelo menos as Escrituras não nos relatam nada a esse respeito. Ao passo que nos mostra uma mulher comum que vivia as nuances da vida cotidiana numa dimensão espiritual. E isso lhe era possível porque ela guardava todas as coisas meditando-as no seu coração.

Essa atitude interior silenciosa lhe permitiu acolher os grandes mistérios do advento, da encarnação e da paixão, bem como a apreensão do Sagrado que lhe era oferecido por detrás dos eventos ordinários de um dia (inclusive no bronquear com o filho de 12 anos que desaparece do nada!).

Que possamos seguir seu exemplo. Que nos esforcemos para cultivar momentos silenciosos devocionais para meditarmos e orarmos. Que o silêncio desses momentos nos acompanhe no decorrer do dia à medida que em meio às múltiplas atividades de nosso viver nos voltemos para nosso interior silencioso onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo, o Deus Eterno e Triúno, nos aguarda para que continuemos a desfrutar de íntima comunhão.

Se fizermos assim como Maria cada simples atividade será meditação; cada simples acontecimento oração; cada simples pensamento contemplação.

Que Deus nos abençoe!

Vosso servo e irmão menor,

Felipe Maia, OESI/OFSE

Paz e bem.

tau

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jesus amigo jovemRelendo há pouco tempo o excelente e inspirativo livro de Brennan Manning sobre o discipulado radical, “A Assinatura de Jesus” – Ed. Mundo Cristão, fui impactado de diversas formas através de suas reflexões argutas e sinceridade desconcertante. É interessante como releituras acabam por nos tocar novamente e de maneiras distintas. E uma das coisas que li novamente e que me falou de forma nova foi a questão da experiência pessoal com Cristo. Especialmente quando Manning coloca que na maioria dos casos de vida devocional cristã o Jesus que amamos e adoramos é o Jesus do teólogo, da denominação da qual fazemos parte, menos o Jesus que se descobre, se revela e se doa a nós em meio à intimidade de nossa busca por Ele.

Em suma o que ele argumenta de forma apaixonada, como era de seu estilo, é que o Jesus que cultuamos não deve ser o Jesus de Calvino, Martinho Lutero, Billy Graham ou Francisco de Assis. Mas, o meu Jesus! O Jesus que experimento falando comigo, me amando e cuidando de mim. Não uma relíquia do museu da espiritualidade e/ou da teologia, mas, um presença pessoal viva que interage comigo em meio a um relacionamento de amizade em amor.

Quem de fato é o Jesus que dizemos amar e servir? É o nosso Jesus ou o Jesus da experiência dos outros? Precisamos, mediante acurada e corajosa reflexão, econtrar respostas sinceras para essas perguntas igualmente sinceras.

Jesus está mais próximo de cada um de nós, filhos do Altíssimo Deus, do que imaginamos. E podemos experimentá-lo de forma simples e ao mesmo tempo profunda; podemos experimentá-lo e encontrá-lo em lugares e situações antes nunca imaginadas! Essa é a beleza que o Evangelho, as boas-notícias de Deus, confere a vida de todo aquele que crê: enxergar um mundo imbuído e permeado com a presença do Senhor Jesus Cristo. Isso nos desvencilha do fardo pesado da busca por um glamour em termos de vida espiritual. Não é preciso muita coisa, não! O Evangelho é algo simples de ser vivido. 

Permita-me nas linhas que se seguem compartilhar com você de que forma tenho aprendido (sim, pois não me considero um professor, mas, apenas um aluno do Reino) a experimentar Jesus no meu dia-a-dia.

Bem, experimento Jesus…

quando me coloco em solitude e silêncio. Essas duas disciplinas para a vida no Espírito sempre caminham juntas. Como já bem disse alguém, o silêncio é a solitude em ação. Tenho buscado (e por que não dizer lutado!?) para criar momentos e tempos para colocar-me a sós com Jesus e aquietar meu mundo interior e, na medida do possível, o exterior. Nesses perídos preciosos busco calar-me e fazer cessar as muitas vozes que clamam por minha atenção. Quando com muito esforço consigo isso, acesso uma via intuitiva, mística mesmo, de onde “escuto” uma voz, a voz de Cristo, que fala comigo desde meu Eu mais profundo, o Eu Interior. A voz que diz que sou irrevogavelmente amado e desejado. No silêncio do santuário da alma encontro entronizado Cristo, Rei dos reis e Senhor dos senhores! Ao me colocar deliberadamente sozinho com Jesus redescubro a verdade de que o mundo continua mundo, que a vida permanece funcionando mesmo em meio a minha ausência, mesmo nesses momentos em que não estou “fazendo nada”. Isso tem o poder de libertar-me do peso de carregar o mundo nas costas ao mesmo tempo em que me ajuda a perceber que todo o universo, inclusive a minha própria vida, é sustentada e conduzida pela poderosa Palavra de Jesus.

… quando medito nas Escrituras Sagradas. Isso requer uma atitude de escuta de minha parte. Olhos transfiguram-se em ouvidos. Achego-me ao texto Sagrado, não para ler grandes porções da Bíblia. Não desejo buscar informações para alimentar minha curiosidade intelectual. O que quero é acessar o coração de Abba e nele encontrar Seu Filho Unigênito. Aqui a Bíblia para mim não é um compêndio de teologia, mas, uma carta de amor, escrita em amor, por um Deus de amor, para um filho amado: eu! Seleciono a passagem, leio pausadamente, degustando cada palavra, cada expressão, cada parágrafo, sem pressa. Até que minha atenção seja atraída por uma única palavra ou frase no texto. E na mesma demoro-me, releio, murmuro, rumino. E em atitude de temor e tremor acolho no coração o mistério da Verdade que a mim foi trazida pelo texto escolhido. A meditação conduz-me a um encontro pessoal e real com o Cristo Ressurreto a partir do texto Sagrado. Meditar torna-se experimentar Cristo!

… quando me volto para a oração. Oração esta que brota como água da fonte nascente, vinda diretamente da meditação nas Escrituras. Conforme o que ouço da parte do Senhor surge na alma uma resposta que conduz-me à adoração, ou louvor, ou petição, ou confissão, ou intercessão. Oro ao Pai em nome do Filho. Oro ao Filho em seu próprio nome. Oro ao Espírito em nome de Jesus. Já não me preocupo mais com as intermináveis controvérsias se se deve ou não orar ao Espírito Santo, Jesus ou apenas ao Pai em nome de Jesus. Ah, e ainda tem a questão se a prece será ouvida ou não pelo Pai se no final da mesma não colocarmos a cláusula “em nome de Jesus, amém!” Posso afirmar que em qualquer forma de orar tenho sido contemplado pelo rosto amoroso do Deus Triúno que é perfeitamente equilibrado, em que as Três Pessoas Benditas não vivem em guerra entre si nem em crises eternas de ciúme doentio. Meu Deus não sofre de esquisofrenia! O Pai está no Filho, que está no Espírito e que está no Pai. Três pessoas distintas voltadas uma para a outra num abraço de amor eterno. Por isso, nas minhas orações tenho falado diretamente com Jesus, agradecido emocionado por sua paixão por mim, por sua cruz e por sua presença constante em minha vida.

…quando estou com minha família. Acredito que um dos maiores desafios que tenho encontrado ao longo do Caminho é o de encontrar o rosto de Cristo no seio familiar. Por que digo isso? Pelo simples fato de que quando pensamos na experiência de Jesus, na maioria das vezes, temos em mente a igreja, pois ela é o Corpo de Cristo reunido para adorar e concluir a missão no mundo; e no próprio mundo que carece de redenção e para o qual a igreja precisa pregar as boas-novas de Deus aos homens. Mas, nunca a família. Na verdade às vezes a mesma é considerada como uma força antagônica à experiência da presença de Jesus. Não há maior erro do que pensar dessa forma! Pelo contrário, a família é o campo primordial para se viver a espiritualidade discipular cristã. Buscando a cada dia trazer essa verdade à mente é que tenho conseguido acessar meu lar como um maravilhoso “sacramento” divino. Momentos específicos, e intencionais, em família como nossos almoços à mesa, saídas para o cinema, passeios, ou a simplicidade de uma deliciosa pizza na companhia de um ótimo filme são verdadeiras teofanias. Claro, não poderia deixar de mencionar nossos cultos domésticos onde juntos, como família reunida aos pés do Cristo Vivo e presente, adoramos, lovamos, oramos e compartilhamos a Palavra de Deus. Olhar os olhos amorosos de minha esposa e os de meus filhos, cheios de expectativas, tem sido o mesmo que contemplar a face de Jesus sorrindo para mim!

… quando estou inserido na comunidade dos salvos, a igreja. A igreja é a comunidade de fé que se reune em torno do Cristo vivo e ressurreto. Que o adora em espírito e verdade e que ouve e responde à sua Palavra exposta com fidelidade. A igreja é (ou pelo menos deveria ser) um ajuntamento de discípulos que vive em comunhão aprendendo dia-a-dia o que significa amar uns aos outros assim como fomos amados pelo próprio Senhor Jesus. Desta forma, através dos atos abnegados de altruísmo, de perdão mútuo e de encorajamento na jornada vejo a própria mão de Jesus a conduzir-me pela vereda do crescimento na Sua semelhança. Em tudo isso, numa caminhada comunal, somos tocados, transformados, desafiados enquanto juntos clamamos: “Maranata, vem Senhor Jesus!”

… quando estou no trabalho, exercendo minha profissão. O “ora et labora” (ora e trabalha) beneditino continua mais atual do que nunca. Ao invés do meu ambiente de trabalho ser encarado por mim como um “não lugar”, sem sentido, sem propósito espiritual, antagônico a minha fé e vivência de Jesus, ele torna-se um dos principais terrenos para que eu viva os valores do Reino seguindo o Mestre. De que forma? Primeiramente busco impregnar minha mente com o conceito bíblico de que quem criou o trabalho foi Deus ao colocar o homem para cuidar do jardim do Éden. Também considerar que cada profissão é uma vocação dada por Deus para o bem da humanidade, ajuda muito. Compreender que o serviço que presto tem por objetivo primordial glorificar a Deus é uma verdade de suma importância de se ter diante dos olhos. Também experimento Jesus no meu ambiente de trabalho quando o convido para ser meu parceiro em tudo o que eu for fazer no dia. Experimento Jesus fazendo o que faço consciente de Sua presença comigo. Experimento-o no meu trabalho quando em última instância me conscientizo de que o meu serviço faço primeiramente para Ele do que para os homens. 

Sem sombra de dúvidas essas são as principaos dimensões da minha existência em que tenho experimentado Jesus real e pessoalmente. No entanto, existem realidade mais ordinárias, fugazes em que o Cristo vivo tem me concedido as sementes de sua contemplação. Por isso, posso dizer que também tenho experimentado Jesus…

… na admiração da beleza da criação que está permeada da Sua glória.

… na admiração dos talentos artíticos humanos: literatura, escultura, teatro, música etc.

… no sorriso despretensioso de uma criança.

… na degustação de uma deliciosa refeição.

… ao assistir um bom filme.

… num encontro com amigos queridos.

… em momentos lúdicos com meus filhos, como por exemplo, jogando video-game.

A lista é extensa assim como a graça do crucificado que nos alcança de maneiras inesperadas. O que é necessário é estar atento e com o coração receptivo às suas sementes.

Ó Jesus, amado da minh’alma, quão grande é o Teu amor; quão infinita sua misericórdia; e quão estonteante Tua graça que me alcança no ordinário e no extraordinário dessa vida linda e empolgante. Amém!

Paz e bem!

tau

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download “Retirou-se para uma região perto do deserto, e lá permaneceu com seus discípulos.” (João 11:45-56)

Em um avião, nas instruções pré-decolagem, rotineiramente lhe dizem que em caso de emergência você deve deixar tudo para  trás, até seus sapatos. Imagino quantos tentariam levar sua bolsa ou laptop ou pegar seus documentos na bagagem guardada no compartimento acima da cabeça. Em uma crise dessas, deve ser tão difícil deixar tudo para trás quanto o é na meditação diária. Mas são coisas e pensamentos.

Quando os passageiros do 11 de setembro estavam se preparando para o fim, ao que parece, tinham uma preocupação. Deviam estar terrivelmente impelidos ao total desapego, como uma pessoa condenada aguardando a execução, ou alguém com uma doença terminal. Muitos queriam apenas telefonar para as pessoas que amavam e dizer que as amavam.

Nos momentos críticos em sua vida, Jesus estava em solitude, mas estava solitário com seus discípulos mais próximos. Quando soube que era um homem marcado, esperando pela batida à meia-noite na porta ou, no seu caso, pelo beijo do traidor no jardim, seu instinto era de ir para perto do deserto – um lugar associado com ambos a solitude e o mais profundo de todos os relacionamentos, no chão da existência. E foi para lá com esses seres humanos que melhor compreendeu e que, apesar das deficiências deles, melhor o compreenderam.

A solitude é verdadeira e muitas vezes é deliciosa, mesmo que dolorosa. A solidão é inferno engendrado pela ilusão de separatividade. Na solitude somos capazes de relacionamentos fortes e profundos porque na solitude descobrimos nossa singularidade, mesmo (ou talvez, especialmente) se essa singularidade está associada com a morte. 

Se meditação diz respeito a liberação de apegos e ida ao deserto da solitude, também diz respeito a descoberta da comunhão com outros a quem chamamos comunidade. Saber que somos condiscípulos na presença de nosso mestre é, mesmo quando as coisas estão desmoronando, uma fonte de incomparável contentamento.

Com amor

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Laurence Freeman

tau

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11080983_786561468088689_4321078266248548745_nA vida é um grande sacramento. Tudo é Sagrado. O grande desafio, então, é deixar-nos ser tocados pelo Sagrado em meio às realidades comuns do cotidiano.

Cada animalzinho, cada pessoa, cada aspecto da criação, cada acontecimento, por mais efêmero que seja, traz consigo as sementes do Divino. Cabe-nos recebê-las através de um coração grato e atento para que as mesmas sejam plantadas no solo de nossa alma afim de que colhamos os frutos da Graça que nos chega de forma multifacetada.

É certo que por mais terríveis que tenham sido as consequências do Pecado, as mesmas não foram suficientes para sujar o mundo ao ponto de não conseguirmos enxergar que “toda a terra está cheia da sua Glória”.

A sarça permanece ardendo sem se consumir. Quem vê tira as sandalhas e adora. Quem não vê se assenta no chão para comer amoras.
Paz e bem!

tau

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10432967_783541935057309_3455389064538895587_nReli pela segunda vez a biografia de São Francisco de Assis, escrita pelo já falecido frei franciscano Inácio Larrañaga, intitulada de “O Irmão de Assis”.
Que grande bem e que consolações recebi da parte de Deus através dessa leitura. Confesso que na primeira lida não tinha absorvido toda a mensagem da vida desse santo homem de Deus. No entanto, após um hiato de quase um ano em que literalmente passei por uma experiência purificadora de deserto na minha fé, ou utilizando a linguagem mística de São João da Cruz: uma verdadeira noite escura da alma, em que avaliei e reavaliei no que cria e porque cria, pude compreender a profundidade e a urgência que os cristãos dos dias de hoje, independente de sua confissão de fé, sejam católicos, protestantes, ortodoxos etc., tem de ouvir uma vez mais a mensagem de sua vida e obra.
Francisco nasceu e viveu no auge da Idade Média. Filho de um rico mercador Italiano e mãe francesa, era um jovem dissoluto que só queria saber de gandaia e noitadas. Após ficar prisioneiro de guerra e sofrer de uma grave doença, teve uma experiência profunda de conversão, a ponto de pegar o dinheiro de seu pai, dinheiro esse adquirido pela venda de tecidos, e distribuí-lo entre os pobres.
Dá para imaginar que isso enfureceu sobremaneira seu pai que o arrastou até o bispo da cidade, chamado Guido, pedindo que este o julgasse. Diante dessa situação, Francisco, cujo coração já se encontrava enamorado pelo Seu Senhor crucificado, num gesto emocionado de profunda humildade, retirou suas roupas e devolveu todo o dinheiro a seu pai, ficando completamente nu na frente de todos! Agora, ele já não era mais o filho de Pedro Bernardone e sim do Maravilhoso Pai Celestial!
A história é longa, depois Francisco foi viver como ermitão junto a uma humilde capelinha, a qual ele reformou com as próprias mãos. Vivia sem posses, sem dinheiro, sem bens materiais, servindo os desamparados, rejeitados, esquecidos e desprezados de seu tempo: os leprosos e mendigos!
Deus lhe deu companheiros que na época entenderam sua mensagem e passaram a segui-lo, vivendo a vida simples e humilde que o Evangelho de Cristo revela, pregando a paz, a liberdade no Senhor crucificado e amando e servindo o próximo. Foram perseguidos e agredidos de todas as formas por lideranças eclesiásticas e pessoas do povão que não compreendiam ou aceitavam o estilo de vida daqueles pobrezinhos de Deus. E a partir daquele grupinho uma grande multidão surgiu, a qual posteriormente recebeu o nome de “Ordem dos irmãos ou Frades Menores”.
Bem, porque digo que a mensagem e vida de Francisco é de extrema urgência para a Igreja nos dias de hoje? Para que possamos ter uma resposta satisfatória, é necessário ter em mente que a Igreja na época de Francisco não estava nem aí para os pobres. Era uma instituição enamorada do poder e da riqueza. Em outras palavras era uma Igreja que tinha deixado de lado os valores evangélicos da simplicidade, humildade, compaixão e amor.
Sendo assim, Francisco vem como um caniço em chamas com o amor divino. Uma sinalização de que a Igreja de sua época precisava se arrepender dos pecados do orgulha, avareza, indiferença e acepção de pessoas. Francisco amava a todos, cuidava de todos, independente de quem fossem.
Ao reler a vida desse santo, não teve como não me emocionar ao constatar que a Igreja dos dias de hoje precisa igualmente prestar a atenção na vida de Francisco de Assis, uma vez mais.
Isso porque uma grande parcela da igreja encontra-se mancomunada com o poder, com o glamour e a riqueza. A Igreja brasileira está precisando se arrepender igualmente do pecado da idolatria, da indiferença e da falta de compaixão. Isso!!!! É isso o que precisa acontecer nessas terras tupiniquins: que o Espírito de Cristo levante uma igreja arrependida, quebrantada e de coração compassivo! Uma igreja cheia de compaixão: essa é a maior necessidade e expectativa mais ardente do mundo falido e ferido, acerca de nós cristãos. O mundo não quer que briguemos com ele, mas, que o amemos sem restrições!
Mas, enquanto nossas preocupações forem construirmos catedrais abastadas, reuniões públicas hollywoodianas cheias de glamour e requinte, enquanto açoitarmos as pessoas com uma linguagem belicosa e desprovida de carinho e respeito, enquanto sustentarmos o discurso de ódio contra os homossexuais e atitudes de intolerância ao credo alheio, principalmente às religiões de matriz africana, o mundo continuará pisando na Igreja, pois, segundo o próprio Senhor dela, somente para isso é que serve o sal quando este perde o poder de dar sabor!
Como dizem por aí, Francisco não tinha rabo preso com ninguém e por isso era capaz de viver a vida espiritual profunda e de amor sacrificial que nos relatam seus biógrafos.
Acredito que a principal mensagem que Francisco deixou para a Igreja, tanto a da sua época como a de hoje, é a de que continua sendo impossível servir a dois senhores. Pois amaremos a um e odiaremos ao outro. Portanto, é impossível amar a Deus e as riquezas! E quando escolhemos amar a Deus, automaticamente acabamos por amar aqueles que são o alvo do amor divino: pessoas, independente de quem sejam.
Assim o foi no passado, assim o é hoje, e assim o será para sempre.
Paz e bem!

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tau_franEspiritualidade que contempla a Deus e despreza o próximo é falsa e impostora. Uma espiritualidade contemplativa que não desemboca numa espiritualidade ativa é no mínimo manca e estranha às páginas bíblicas e a história da igreja.

Quando o apóstolo João declarou na sua 1ª carta que não se pode amar a Deus a quem não vemos e ao mesmo tempo odiar o ser humano a quem vemos, não foi um mero eufemismo. Ali estava descrito um dos pilares do pensamento místico contemplativo, o qual é essencialmente um movimento de amor. 

Se contemplamos a Deus, experimentamos a Deus, estamos em união com Deus em Cristo, e nele fomos feitos filhos de Deus, o qual é amor, não nos resta caminho a trilhar a não ser o que o próprio Senhor trilhou e descreveu como sendo o “Grande Mandamento”: amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos. 

Parece-nos que um  depende do outro. Que ter um em detrimento do outro é sofrer de paupérrima vida espiritual. Amar a Deus e amar o homem, feito à imagem de Deus, constitui-se nos dois lados de uma mesma moeda chamada de espiritualidade cristã.  Da mesma forma que uma moeda cujo valor encontra-se na presença de suas duas faces, a espiritualidade genuinamente cristã encontra sua legitimidade e riqueza no amor a Deus que faz surgir, nutre e nos impulsiona o amor na direção de nosso semelhante.

Jesus disse que quando alimentamos o faminto, damos água ao sedento,roupas para o nu, hospitalidade para o estrangeiro e atenção e presença para os enfermos e encarcerados, num primeiro momento, é para ele que estamos fazendo todas essas coisas. Eis o grande mistério: quando encontramos a face sofrida de nosso próximo, contemplamos de forma mística a face do Cristo sofredor que geme em dores através das chagas da injustiça, do descaso, do egoísmo aos quais homens e mulheres pela vida á fora estão sujeitos.

Acolhê-los é acolher o Cristo. Beijar sua face é beijar a face do próprio Senhor. 

Depois do Senhor e seus apóstolos, talvez Francisco de Assis seja o grande modelo de uma espiritualidade genuinamente evangélica.trabalho Evangélica não no sentido da confissão cristã da qual fazia parte, mas, que foi extraída diretamente da leitura e meditação que o pobrezinho de Assis periodicamente realizava nas páginas do Novo Testamento, especificamente nos 4 evangelhos. Ali ele percebeu que a verdadeira imitação de nosso Senhor consistia na busca apaixonada da face de Deus e no acolher, socorrer e ministrar ao próximo.

Francisco iniciava o dia com seus seguidores com momentos de silêncio, solitude e contemplação, para logo depois saírem pelas aldeias conclamando as pessoas a se arrependerem de seus pecados e crerem no evangelho. Após isso eles se dirigiam ao leprosário da cidade para ali pregarem o evangelho de uma outra forma: cuidando das feridas pulorentas e repugnantes dos enfermos. Em outras palavras: simplesmente amando aquelas pessoas que eram desprezadas e abandonadas por toda a sociedade da época. Contam os biógrafos do pobre de Assis que o amor que Deus concedeu em seu coração por aqueles enfermos foi tamanho que ele chegava ao ponto de beijar a face danificada pela  enfermidade daquelas pessoas. Deveras, como nos afirmam as escrituras “o verdadeiro amor lança fora todo o medo”. 

Em meio a uma época em que alguns seguimentos da igreja têm se caracterizado pela espiritualidade manca testificada por sua atitude beligerante de ataques cheios de ódio, difamações, calúnias e coisas desse gênero, faz-nos de extrema urgência retornarmos a fonte límpida e revigorante de uma espiritualidade bíblica que tem no amor abnegado, sacrificial, incondicional e sem explicação pelo próximo uma expressão eloquente e apaixonada do amor que dizemos nutrir por Deus e de Sua maravilhosa graça disponível a todos.

Está na hora da “moeda” recuperar o seu valor pela presença de suas duas faces: contemplação e ação; amor a Deus e amor ao próximo; Maria quedada aos pés do Senhor e Marta que serve, em amor, ao Senhor. 

Pois, por maiores e mais mirabolantes que sejam nossas peripécias espirituais, se nos faltar o amor tudo não passará de barulho que incomoda, discurso vazio que nada mais é do que pura verborragia, e de sal que já não dá mais sabor, servindo apenas para ser pisado e desprezado pelos homens.

Paz e bem!

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tau

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“De madrugada, ainda bem escuro, Jesus levantou-se, saiu e foi a um lugar deserto; e ali começou a orar” (Mc 1:35)                                                                                 

De umas épocas para cá ( e já faz muito tempo) a espiritualidade cristã tem tido um medidor de temperatura no mínimo estranho ao padrão que encontramos nas Escrituras. Há tempos que a qualidade da vida espiritual, sua profundidade e calor é determinado, segundo o entendimento equivocado de alguns, pelo que os cristão fazem para Deus seja através da igreja ou não. 

Sendo assim a quantidade de culto a que vamos, o número de ministérios e atividades as quais desenvolvemos tornam-se o padrão para se determinar se estamos bem com Deus, se nossa vida espiritual está em dia.
E quando investigamos a espiritualidade de Jesus, se não a olharmos com acurada atenção, acabamos achando que seu estilo de vida corrobora essa espiritualidade ativista, consumista e hedonista que tem engolido a vida e a alegria de grande parte dos filhos de Deus que a tem experienciado. A maioria dos cristão chega ao final de sua carreira cansados, exauridos e não muito raro, frustrados e decepcionados. Por que será?
Não podemos negar que a “agenda” do Senhor era bem utilizada: desde expulsar espíritos imundos até uma conversa com uma mulher samaritana à beira de um poço, faziam parte de seu ministério diário.
No entanto o texto no início dessa reflexão nos mostra claramente que antes de um dia cansativo de atividades ministeriais, o Senhor estabelecia para sua vida aquilo que podemos chamar de “momentos sabáticos” para estar em amizade íntima com o Pai. Jesus diariamente separava tempo para estabelecer pausas na sua agenda e contemplar em silêncio e solitude no ermo, o rosto amável e amoroso de seu Abba. 
Tudo o mais que Jesus fazia, sua vida como um todo, orbitava em torno desses momentos. Ganhava profundidade, significado e uma nova dimensão a partir desse encontros íntimos com Deus em oração e contemplação. Para nosso Senhor estar com o Rei era prioridade diante do que ele tinha que fazer para o Rei. Certa feita, Jesus disse que ele não fazia nada por si mesmo, mas, somente o que ele via o Pai fazendo. Como que Jesus obtia esse discernimento espiritual para poder enxergar o Pai agindo? Na sua intimidade de oração, meditação e contemplação em silêncio e solitude com Deus.
Sendo assim, se desejamos imitar a vida de Cristo, se desejamos ver sua imagem refletida em nós e se queremos verdadeiramente experimentar uma espiritualidade saudável nossos dias precisam ter na sua primazia nosso “momento sabático”. É imprescindível aprendermos a estabelecer pausas, puxar o freio de mão, pisar fundo no breque e diminuir nosso ritmo para encontramos tempo para o silêncio, a solitude, a oração, a meditação e a contemplação apaixonada e fascinada da face daquele que nos amou e nos ama com amor eterno. 
Espiritualidade e atividade. Contemplação e ação. Maria e Marta. Na verdade não são realidades mutuamente excludentes. São complementares. São irmãs e por isso precisam caminhar juntas pela vereda fascinante do Reino. Encontrar o equilíbrio entre elas é o grande desafio de uma espiritualidade bíblica, cristã, madura e saudável.
Que tal apertar o botão de pausa?

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