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Posts Tagged ‘deserto’

Quando nós abordamos a tradição de espiritualidade cristã de santidade, nós aprendemos que o conceito de “vida santa” é o de uma vida que funciona corretamente, ou seja, da forma que Deus planejou que funcionasse.
E quando nós investigamos o tipo de vida que Jesus viveu, sem sombra de dúvidas, podemos afirmar que “santidade” era o que a caracterizava. Por isso afirmamos que Jesus era um homem santo.
De que forma isso acontecia? Quando lemos os Evangelhos encontramos Jesus no meio de crianças, entre mulheres e na companhia de homens sempre na hora certa, sempre do jeito certo, com as palavras certas, com a atitude e o gesto certos, fazendo a coisa certa.
A vida de nosso Senhor era uma vida caracterizada pela virtude. Ou seja, uma vida que funcionava, e funcionava da forma correta. Como o Pai queria. Não é a toa que o Pai declarou – “Tu és o meu Filho amado. Em ti está toda a minha alegria” (cf. Lc 3:22).
Um passeio por todos os evangelhos nos dá uma visão ampla da vida de Jesus que funcionava de forma correta o tempo todo, até mesmo nos momentos derradeiros como em sua atitude serena na ocasião de sua prisão e de sua oração na cruz pelos que o estavam matando e escarnecendo.
No entanto existem dois textos nos evangelhos, sem os quais não poderemos compreender a amplitude da vida e do ensino do Senhor Jesus acerca do que é uma vida santa.
Primeiramente, não podemos entender a santidade e a virtude presentes em Jesus sem examinar os seus quarenta dias de tentação no deserto.
Nesse episódio único, no início do ministério público de nosso Senhor, nós podemos presenciar, vindo à tona, uma virtude que foi praticada por ele durante toda sua vida.
Nós já conhecemos essa passagem. O Senhor jejua durante quarenta dias e após isso Deus permite que o próprio Maligno venha tentá-lo pessoalmente.
Foram três tentações. E o mais chamativo é que não foram meramente tentações pessoais. Jesus foi tentado naquele episódio a ter à sua disposição as três instituições sociais de seu tempo: economia, religião e política. 
A tentação econômica estava no convite de transformar as pedras em pães. Encontramos isso em Mt 4:3. Jesus rejeitou essa tentação declarando que o homem não viveria só de pão, mas, de toda a palavra que procede da boca de Deus (v.4).
O que estava por detrás dessa tentação era de que Jesus ganhasse sua aprovação e popularidade tornando-se um mero provedor de necessidades humanas. O que ele não aceitou.
A segunda tentação, a religiosa, foi a sugestão de que Jesus saltasse do pináculo do templo na presença de todo o povo. Isso está no v.6 de Mateus 4.
Por detrás estava a tentação de que Jesus se tornasse um milagreiro, um mero operador de milagres. E ele, definitivamente, rejeitou isso conforme vemos no v.7.
E por fim, veio a terceira e última tentação: a política. Onde Satanás ofereceu ao Filho de Deus “todos os reinos do mundo e seu esplendor” em troca, vejam que ousadia, da alma do próprio Jesus (v.9)
Nessa tentação Jesus foi convidado a permitir que a religião se tornasse ponte para a obtenção de poder político. E como vemos, ele também rejeitou isso (v.10).
O que nós podemos tirar dessa experiência de Jesus? Podemos aprender que Jesus rejeitou a visão de Deus que está em voga nos dias de hoje: muitos usando as coisas de Deus para alcançar suprimento de necessidades pessoais, para obter milagres e para angaria fama, poder e status. 
Não é o que temos visto e ouvido por aí? No entanto, essas pessoas não são nossos modelos. Amém? Jesus é o nosso Modelo. Por isso devemos observar com atenção de que forma ele agiu e reagiu a essas três tentações.
Nesses quarenta dias de deserto nós vemos alguém que entendeu muito bem a forma de agir de Deus e buscou viver desse modo. As ações de Jesus no deserto personificam a tradição de santidade.
Contudo, só a ação por si só não é suficiente. Ela precisa ser acompanhada pelo ensino correto acerca de uma vida santa ou virtuosa.
E Jesus sabia disso. E por isso, ele nos proveu as diretrizes de como se viver uma vida virtuosa através do maior sermão jamais pregado na história humana: aquele que conhecemos como “o sermão do monte”.
Esse sermão se encontra registrado de forma detalhada nos capítulos de 5 à 7 do evangelho de Mateus. O centro do ensino de Cristo sobre a vida santa está nas palavras desse sermão.
E o centro desse sermão é aquilo que podemos chamar de “a lei do amor”, que Tiago na sua carta chama de “lei perfeita”. E nada, além do amor, define com mais beleza e plenitude a vida de santidade.
Quando estudamos esse sermão percebemos que no miolo dos seus ensinos está a maturidade do amor em contraposição à imaturidade do legalismo cego que só se preocupa com o exterior.
Era a forma de vida que deveria ultrapassar a “justiça dos escribas e fariseus” (cf. Mt 5:20). Pois eles, escribas e fariseus, só estavam preocupados com elementos externos da religião com o intuito de dominar e manipular as pessoas.
Jesus, pelo contrário, em seu sermão propõe um tipo de justiça que caracteriza uma vida interior com Deus que transforma o coração e constrói no homem hábitos virtuosos. Ou seja, a proposta do Senhor é de uma transformação de dentro para fora; no interior que reflita no exterior.
Se você e eu desejamos uma vida de santidade devemos fazer “amizade” com o sermão do monte. Futuramente, se assim o Senhor permitir, pretendo fazer uma exposição de todo esse sermão.
Verdadeiramente, Jesus era alguém que constantemente fazia o que precisava ser feito, no momento em que era preciso ser feito. E fazia de forma correta.
Enxergamos nele hábitos santos que o capacitavam a responder a vida de uma forma virtuosa. Isso é pureza de coração. Isso é santidade.
E quando olhamos para a santidade de Jesus ela nos atrai: nos atrai e nos desperta para uma vida mais coerente, obediente, fiel e frutífera

CONCLUSÃO E APLICAÇÃO

Vamos aplicar o texto de hoje às nossas vidas de forma prática. Gostaria de propor algumas perguntas para a nossa reflexão:

(1) Existe algum aspecto de sua vida hoje que precisa funcionar da forma correta? Em outras palavras: existe alguma área de sua vida que precisa de santidade?
(2) Qual tem sido o resultado dos desertos e tentações em sua vida espiritual? Você pode afirmar que eles têm ajudado no seu crescimento na santidade pessoal?
(3) No que você tem dado maior ênfase, no aspecto interior (coração) ou nas formas exteriores de religião?
Que Deus nos abençoe.

Numa próxima oportunidade vamos ver Jesus como um homem carismático, ou seja, alguém que vivia debaixo do mover do Espírito Santo.

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O deserto é possivelmente uma das mais claras representações da ausência de vida e esperança. Beduínos e Tuaregues – povos do deserto – desenvolveram milenares técnicas de sobrevivência para resistirem à angustiante mistura de sol, calor e areia. Anos atrás, atravessei a parte ocidental do Saara e, apesar de estar acostumado com as temperaturas tropicais, nada me preparou para os 54 graus à sombra durante aquelas tardes. Lembro-me que o pensamento mais obsessivo e recorrente era simplesmente água, o elemento mais desejado em terras áridas.

Davi escreveu o Salmo 63 no deserto de Judá, enquanto fugia de Saul. Encontrava-se em um dos momentos mais constrangedores de sua vida. Além de estar no deserto, tomado pelo desconforto e temores natos ao ambiente, seu povo e rei o perseguiam.
Contrariando a natural tendência do descontentamento de coração perante as caminhadas desérticas, Davi revela, ali mesmo na areia, que a sua alma tinha “sede de Deus”. Este parece ter sido o pensamento mais paradoxal que passou pela mente do salmista: a sede de Deus era maior que a sede de água. A busca pela presença de Deus era mais forte que qualquer outra carência humana.
Quando em caminhadas solitárias e perseguidos pelos que antes eram mais chegados que irmãos, devemos nos conscientizar desta verdade transformadora: precisamos mais de Deus em nossas vidas do que água no deserto. C.S. Lewis nos diz que “o amor é o princípio da existência, e seu único fim”. Com isto nos incita a pensar que o amor não é apenas o meio, mas também o propósito final. Somos convidados, em toda a caminhada cristã, a andar de forma paradoxal em expressões de amor: perder a vida para ganhá-la; oferecer a outra face a quem nos fere; esperar contra a esperança; amar, e não odiar, os inimigos; perdoar, mesmo perante óbvias razões para a amargura; desejar mais a Deus do que a água, mesmo quando se vagueia, foragido, por entre terras mais secas.
É nessa caminhada que encontramos descanso verdadeiro. Davi não apenas fala da possibilidade de descanso em Deus, mas o experimenta. Os principais verbos nos versos 6 a 8 estão no presente. Davi se lembra, pensa e canta o descanso em Deus enquanto caminha – não apenas o planeja fazê-lo amanhã. Reconhecer que a presença de Deus é melhor que a vida parece ser o exercício mais transformador – de mente, coração e visão de mundo – que qualquer pessoa possa experimentar.
Somos amados por Deus e esse fato deveria definir a forma pela qual vemos a vida e o mundo ao nosso redor. Ser amado por Deus é entender que somos convidados a um relacionamento eterno, é perceber que estamos em lugar seguro e saber que não há nada melhor.
A construção desta canção do deserto revela a alma de Davi. No verso 1, ele expressa que tinha sede de Deus. Nos versos 2 a 5, ele louva a Deus pelo Seu amor que é melhor que sua própria existência. Nos versos 6 a 8, Davi descansa no Senhor e, finalmente, nos versos 9 a 11, ele declara sua confiança na vitória sobre os inimigos.
Encontro-me rotineiramente com pessoas as quais, à semelhança de Davi, experimentam a solidão do deserto, o constrangimento da fuga e a incerteza dos que não sabem para onde vão. A vida, nesses momentos, torna-se mais lenta, opaca e pesada. Porém, justamente em ocasiões assim, a presença de Deus nos convida a crer um pouco mais e nos encoraja a continuar caminhando. Em um relance olhamos para trás e percebemos que no passado o Senhor foi fiel, mesmo no dia mais escuro. Amanhã não será diferente. A presença de Deus sempre traz à memória o que pode nos dar esperança.
Lutero, citado por Mahaney em seu livro “Glory do Glory”, diz-nos que: “esta vida, portanto, não é justiça, mas crescimento em justiça. Não é saúde, mas cura. Não é ser, mas se tornar. Não é descansar, mas exercitar. Ainda não somos o que seremos, mas estamos crescendo nesta direção. O processo ainda não está terminado, mas vai prosseguindo. Não é o final, mas é a estrada. Todas as coisas ainda não brilham em glória, mas todas as coisas vão sendo purificadas”.
 
Que o Senhor se mostre presente em nossas vidas. Nestes dias o deserto se tornará lugar de alegria e descanso.
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* Ronaldo Lindório é pastor e missionário presbiteriano – extraído do site Genizah

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“de madrugada, ainda bem escuro, levantou-se, saiu e foi a um lugar deserto, e ali orava” (Mc 1:35)

Quem gosta de estar em um deserto? Acredito que ninguém goste. Mas, o que é um deserto? Como o próprio nome sugere, trata-se de um lugar onde não há vida, onde não há nada que, em sã consciência, nos atraia.

É costume, entre o povo de Deus ouvirmos este tipo de comentário: “ Eu estou passando por um grande deserto na minha vida”. O que seria este deserto na vida cristã? São momentos difíceis, onde parece-nos que Deus nos abandonou. Estes “desertos” são períodos de profundas aflições, tribulações e escasses de ânimo. Na linguagem dos místicos, noites escuras da alma.

Contudo, ao invés de fircarmos nos lamuriando, estes períodos de deserto, a exemplo de nosso Senhor Jesus, podem ser para nós um tempo frutífero e de comunhão íntima com o Pai.

Deserto é tempo para o silêncio. Quando aprendemos, em meio a estes períodos de duras provas, silenciar nossas vozes interiores e exteriores, conseguimos ouvir a voz de Deus sussurrando no nosso centro, na nossa alma, onde o Espírito Santo habita. E com isso ganhamos uma compreensão renovada de quem Deus é: “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus” (Sl 46:10).

Deserto é tempo para a solitude. Nestes momentos podemos nos reservar a sós com Deus. Buscando nos esquivar do falatório e das aglomerações humanas, nos forçamos a abrir mão de nossas fugas pessoais para que assim possamos ter um encontro com a realidade daquilo que somos, e não aquilo que fingimos ser. Todas as máscaras que usamos caem. Estes momentos são terapêuticos, pois, ao mesmo tempo que revelam toda o nosso caos interior, revelam também que Deus nos ama e nos aceita como somos: com nossos defeitos e fraquezas.

Deserto é tempo para a oração. São nestes períodos desérticos que aprendemos a realidade das nossas orações, que mais do que mero ritual é um encontro pessoal com o Deus que nos ama e que nos sustenta em meio à aridez de nossas vidas. No deserto aprendemos verdadeiramente a orar: nos momentos férteis aprendemos a pedir mais, nos desérticos aprendemos a descansar em Deus e a sermos gratos pelo que já temos.

Quem gosta de desertos? Ninguém! Porém, eles são extremamente necessários para o forjar de nosso caráter e para nossa formação espiritual.

Moisés foi formado no deserto; Davi também. Até Jesus enfrentou seus desertos (Cf. Mt 4:1-11; Mc 1:12,13; Lc 4:1-13).

Por que com você e comigo seria diferente?

Que Deus abençoe nossos desertos!

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