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Posts Tagged ‘Deus’

 shutterstock_688792181Ricardo Gondim*

Eu não saberia explicar as razões da minha fé. Não consigo expressar os porquês da minha devoção. Minha espiritualidade não serve para convencer uma pessoa indiferente. Eu falharia em gerar apetite pelo que transcende. O mistério que tempera o meu viver talvez não sirva em pratos alheios. Minhas convicções não são transferíveis. Minha sede do eterno não é matemática, inamovível. Eu balanço em terremotos. Não sou um Gibraltar. Decididamente, as certezas que comovem  a minha alma são vagas. O pouco que sei sobre o divino é provisório. As réstias de percepção que me chegam do eterno esbarram na mortalidade. Sob o peso da imperfeição, não alcanço o zênite a respeito do perfeito.

Sei tão somente que Deus se mistura dentro de mim como impulso, norte, nostalgia, horizonte, atracadouro. Empenhei o meu futuro em seguir seus passos invisíveis. No dia em que o chamei de Senhor, a extensão do meridiano da minha esperança se alongou. Nele, os fragmentos de meu mapa existencial não precisaram mais se encaixar. Aprendi a conviver com pedaços desconexos. Não me encabulo ao seu lado. Estradas bloqueadas por tapumes ou por neblinas não me intimidam. Deus imanta o ponteiro da minha bússola.

Sei tão somente que Deus se fez residente no campus onde elaboro pensamentos. Presente nos voos da minha imaginação, ele se transforma no mais doce ideal. Minha seta e meta, o entusiasta das interrogações que me levam adiante. Deus me quer curioso. Ele sempre incentiva a perguntar mais. Causa de toda inquietação, Deus se esconde na fonte da minha angústia.

Sei tão somente que Deus se desfraldou como flâmula sobre a minha vida e fez do lugar onde moro, seu palácio. Por me amar tanto e tão formidavelmente, penitência, purgações,  sacrifícios e tudo o que a religião exige para aplacar fúria, foi substituído por serenidade. No porão da tortura religiosa, nos suplícios culposos do moralismo, achei um lugar de descanso: o seu regaço. Ele é agora minha referência de desassombro.

Encontrei paz desde que comecei a me desvencilhar do Deus guardador de livros contábeis. Encaro a existência com a leve sensação de que qualquer sentença formalizada contra mim está suspensa. Já não fujo dele como os antigos evitavam Átila. A fúria de Júpiter e a volubilidade de Zeus, comuns nas descrições de Javé, não me aterrorizam. Agora prefiro chamá-lo de Clemente. No seu bolso estão guardados todos os acertos e erros que me tornaram quem eu sou.

Sei tão somente que Deus fez arder algum filamento em minha alma e meu olhos se acenderam. Ele é mourão – estaca – que demarca o jardim fechado da minha interioridade. Só Deus dobra o sino do meu coração em lutos e dias solenes.

Sei tão somente que Deus me fascina como aurora que se quebra em vários matizes. Deus é sol que tinge a minha face de um vermelho suave, também é lua que prateia a minha existência. Noto traços azuis de sua realeza em meu sangue raro. Seu branco me deixa com a improvável sensação de que alguma pureza me tocou. Um nanquim se projeta desde o céu e me vejo absorvendo tudo o que é peculiar aos humanos. Ele se faz arco-íris em mim.

O que dizer de Deus?
Pouco.
Melhor o silêncio.
Que as poucas palavras, então, sejam esforço  – precário – de expressar reverência.

Soli Deo Gloria

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3937_251012-300x240Por Leonardo Boff

Escrevíamos anteriormente que Deus é mistério em si mesmo e para si mesmo. Para os cristãos trata-se de um mistério de comunhão e não de solidão. É a Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A ortodoxia afirma: há três Pessoas e um só Deus. É possível isso? Não seria um absurdo 3=1? Aqui tocamos naquilo que os cristãos subentendem quando dizem “Deus”. É diferente que o absoluto monoteísmo judeu e muçulmano. Sem abandonarmos o monoteísmo, faz-se mister um esclarecimento desta Trindade.

O três seguramente é um número. Mas não como resultado de 1+1+1=3. Se pensarmos assim matematicamente, então Deus não é três mas um e único. O número três funciona como um símbolo para sinalizar que sob o nome Deus há comunhão e não solidão, distinções que não se excluem mas que se incluem, que não se opõem mas se compõem. O número três seria como a auréola que colocamos simbolicamente ao redor da cabeça das pessoas santas. Não é que elas andem por ai com essa auréola. Para nós é o símbolo a sinalizar que estamos diante de figuras santas. Assim ocorre com o número três.

Com o três dizemos que em Deus há distinções. Se não houvesse distinções, reinaria a solidão do um. A palavra Trindade (número três) está no lugar de amor, comunhão e inter-retro-relações. Trindade significa exatamente isso: distinções em Deus que permitem a troca e a mútua entrega de Pai, Filho e Espírito.

A rigor, como já viu o gênio de Santo Agostinho, não dever-se-ia falar de três Pessoas. Cada Pessoa divina é única. E os únicos não se somam porque o único não é número. Se disser um em termos de número, então não há como parar: seguem o dois, o três, o quatro e assim indefinidamente. Kant erroneamente entendeu assim e por isso rejeitava a idéia de Trindade. Portanto o número três possui valor simbólico e não matemático. O que ele simboliza?

C. G. Jung nos socorre. Ele escreveu longo ensaio sobre o sentido arquetípico-simbólico da Trindade cristã. O três expressa a relação tão íntima e infinita entre as diversas Pessoas que se uni-ficam, quer dizer, ficam um, um só Deus.

Mas se são três Unicos, não resultaria no triteísmo, vale dizer, três Deuses em vez de um: o monoteísmo? Isso seria assim, se funcionasse a lógica matemática dos números. Se somo uma manga+uma manga+uma manga, resultam em três mangas. Mas com a Trindade não é assim, pois estamos diante de outra lógica, a das relações inter-pessoais. Segundo esta lógica, as relações não se somam. Elas se entrelaçam e se incluem, constituindo uma unidade. Assim, pai, mãe e filhosconstituem um único jogo de relações, formando uma única família. A família resulta das relações inclusivas entre os membros. Não há pai e mãe sem filho, não há filho sem pai e mãe. Os três se uni-ficam, ficam um, uma única família. Três distintos mas uma só família, a trindade humana.

Quando falamos de Deus-Trindade entra em ação esta lógica das relações interpessoais e não dos números. Em outras palavras: a natureza íntima de Deus não é solidão mas comunhão.

Se houvesse um só Deus reinaria, de fato, a absoluta solidão. Se houvesse dois, num frente a frente ao outro, vigoraria a distinção e, ao mesmo tempo, a separação e a exclusão (um não é o outro) e uma mútua contemplação. Não seria egoísmo a dois? Com o três, o um e o dois se voltam para o três, superam a separação e se encontram no três. Irrompe a comunhão circular e a inclusão de uns nos outros, pelos outros e com os outros, numa palavra: a Trindade.

O que existe primeiro é a simultaneidade dos três Unicos. Ninguém é antes ou depois. Emergem juntos sempre se comunicando reciprocamente e sem fim. Por isso dizíamos: no princípio está a comunhão. Como consequência desta comunhão infinita resulta a união e a unidade em Deus. Então: três Pessoas e um só Deus-comunhão.

Não nos dizem exatamente isso os modernos cosmólogos? O universo é feito de relações e nada existe fora das relações. O universo é a grande metáfora da Trindade: tudo é relação de tudo com tudo: um uni-verso. E nós dentro dele.

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* Leonardo Boff – Extraído do site “Franciscanos”.

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AMAR A DEUS

O prazer tem se tornado um Deus para o homem ao longo de sua história. Muitos achariam que esta afirmativa cabe á questão do dinheiro. Mas, por que as pessoas correm tanto atrás de dinheiro, se não para satisfazer seus desejos egóicos de consumo materialista? Podemos, rodar e rodar, transitando por inúmeras razões, todavia, todas nos conduzirão a um só mesmo lugar: o desejo frenético pela autosatisfação.

Desde a chamada “liberação sexual” nos anos de 1960, culminando com o pensamento pós-moderno autônomo, as pessoas têm sacrificado suas próprias almas, esquartejando-as e afastando-as do Criador, sobre o altar do hedonismo. Prazer, prazer e mais prazer é o que importa; é o que se tem que buscar veementemente.

Os arautos de tão sórdido cativeiro existencial têm alçado suas vozes e seduzido a muitos com suas ideologias enganosas: “Ouça a voz do seu coração”; “O que importa é ser feliz a qualquer custo”. E por aí vai. E o que temos presenciado por aí é que o preço a ser pago pela tal “felicidade” é deveras dispendioso e dolorido.

O fato é que o homem de hoje, não é capaz de ver um palmo de realidade fora de sua ótica pessoal, tendo seus olhos famintos fitos, inexoravelmente, no próprio umbigo. Amores, amizades, pessoas, famílias, relacionamentos: tudo e todos são passados por cima em nome de se alcançar desejos pessoais egoísticos.

Em verdade, a máxima tem se comprovado verdadeira: coisas têm sido amadas e pessoas usadas. Quando o contrário é que deveria acontecer. Contudo, a busca enlouquecida pela satisfação imediata, tem subtraído a cada dia mais dos seres humanos o senso da dignidade e santidade inerentes ao próximo. Com as lentes desfocadas e opacas do hedonismo, torna-se impossível enxergar o Sagrado no outro. Nada se vê além de si mesmo.

Vivemos numa sociedade egoísta, consequência direta do culto humano ao prazer próprio. E a cristandade que deveria salgar e iluminar as trevas de tão infame estilo de vida, tem perdido seu sabor e sua luz. Sendo, assim, atirada fora e pisoteada pelos homens.

O advento do pensamento positivista que ensina o determinar e o exigir de Deus a bênção e/ou o cumprimento de suas promessas, tem trazido para o meio do arraial de Seu povo a maldição antiga do “bezerro de ouro”. A funesta teologia da prosperidade que com seus versículos extraídos fora de seu contexto no Velho Testamento, tem levado milhares de pessoas ao arrombamento de suas vidas financeiras e, não poucas vezes, familiares também.

Enquanto isso, o “bezerro” agradece o espaço que lhe dão, e faz a farra na vida de muitos que ignoram as leis básicas da hermenêutica e exegese bíblicas, tornando-se assim alvos fáceis para a manipulação sórdida e maligna de homens mal intencionados e inescrupulosos. Lobos em pele de ovelhas. Prontos para devorar…

“E Arão lhes disse: tirai os brincos de ouro das orelhas de vossas mulheres, de vossos filhos e de vossas filhas, e trazei-os aqui (…) Ele os recebeu de suas mãos e deu forma ao ouro com um cinzel, fazendo dele um bezerro” (Gn 32:2,4)

Eu quase que posso ouvir a paráfrase dos atuais sacerdotes hedonistas: “Dê R$ 1.000,00 de oferta e receba de Deus R$ 10.000,00!”; “Dê o dízimo da quantia que deseja receber de Deus”; “Compre água do rio Jordão para…”; “Pedrinha do rio Jordão…”; “Lasca da cruz de Cristo…”; “ore seu copo com água e…”. Tragicamente desonestidade e superstição têm maculado a fé cristã nestes dias.

Talvez você, estimado leitor, esteja se perguntando: “Mas isso não é tendência destes grandes ministérios? Isso não acontece com gente ‘ comum’ como eu”. Será mesmo? A realidade da fé de resultados, utilitarista é algo que se insinua de forma multifacetada na ala ordinária das fileiras cristãs.

Alguns fatos podem elucidar esta tese. Uma primeira coisa a que deveríamos atentar é o tipo de música que é entoada em nossas igrejas. Se observarmos bem, veremos que de umas décadas para cá, uma avalanche de cânticos têm invadido a hinologia cristã. Até aí não haveria problemas. Acredito que os filhos e filhas de Deus devem compor músicas para a glória de Deus. “A glória de Deus!?!?” Será que não está aí exatamente o âmago de toda a problemática? Porque glória para Deus não tem sido a tõnica dominate nestes hinos contemporâneos. A maioria dos mesmos são fundamentados em textos do Velho Testamento removidos do seu contexto. Geralmente promessas que o Senhor fez a Israel e que não se aplicam a igreja. Nestas músicas Deus é apresentado como um pouco mais do que um servo do homem obrigado a cumprir aquilo que prometeu.

Os assuntos são variados, girando desde a vitória sobre os inimigos até prosperidade material e proezas financeiras (para não dizer loucuras). Ao mesmo tempo temos visto praticamente sumir de nossas celebrações músicas que tão somente exaltam a Deus pelo simples fato de quem Ele é e não por aquilo que Ele pode me dar. Se não soubermos louvar a Deus incondicionalmente, nossa adoração não passará de mera barganha dissimulada. Será tão difícil assim louvar, glorificar, adorar ao Senhor, simplesmente porque o amamos?

Uma outra coisa a se considerar é a questão da leitura da Bíblia. Tragicamente para muitos, a Palavra de Deus deixou de ser um meio para um encontro intersubjetivo, e tornou-se um mero compêndio onde posso encontrar orientações sobre diversos assuntos relacionados a vida. A Bíblia transformou-se num livro de autoajuda ao invés de uma carta de amor de um Deus que é apaixonado pela humanidade e desejoso de estabelecer vínculos de intimidade conosco. Não se lê mais as Escrituras movido pelo impulso interior de ouvir a voz do Amado, sussurrando nosso nome nos recônditos secretos de nossa alma. Para muitos ler a Bíblia não significa mais ter um encontro pessoal, real e afetivo com Deus e sim uma busca por orientações de como se viver uma vida melhor. Até mesmo nossa obediência é posta em termos dos benefícios que podemos angariar com isso. Será tão difícil assim ler a Bíblia para se ouvir a voz de Deus, para ser ter um encontro pessoal com Ele, simplesmente porque o amamos e desejamos lhe agradar?

Uma última coisa está relacionada com nossas orações. Você já percebeu que grande parte do que apresentamos a Deus como preces são pedidos e mais pedidos? Não estou com isso querendo dizer que não devemos suplicar ou interceder. Estou apenas chamando a atenção para um fato concreto: que grande parte de nosso tempo de oração é gasto com intermináveis pedidos. Já não sabemos o que significa orar a Deus ao modo de um encontro. Desconhecemos completamente o que significa nos colocar a sós perante a face do totalmente Outro. Estranhamos quando alguém nos diz que podemos orar sem palavras, quando em silêncio nos apercebemos da Presença, e, em atitude receptiva, acolhemo-na e descansamos nela.

Deus é encarado por muitos como uma espécie de gênio da garrafa ou um chefe de almoxarifado pronto a atender a todos os nossos desejos egoístas, mesquinhos e mimados. Poucos são os que realmente conhecem e experimentam o significado de apenas estar e ficar com Deus, saboreando e deleitando-se no Seu amor e amizade. Será tão difícil assim orar para se estar com Deus, para se desfrutar de Sua presença amiga, simplesmente porque estamos enfermos de amor?

“(…)amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração(…)”

Estas são as palavras evangélicas. Que possamos refletir sobre elas e, destituindo o usurpador hedonismo, amar a Deus com profundeza de alma, alegria e simplicidade.

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SORRISO DE DEUS

Deus sorri. Isso já é uma grande coisa. Todavia, quando consideramos o fato de que Deus sorri para nós, ai já é algo maravilhoso.

“Que é o homem para que te lembres dele; e o filho do homem para que o visites?”, indagou o salmista.

Contudo, nos assombramos diante desta verdade: Deus sorri para nós. O sorriso de Deus é sua própria alegria a invadir nossa alma. É o primeiro raio de sol a rasgar as densas trevas da madrugada. É brisa a refrescar nosso corpo, castigado pelo calor do dia.

É agua fresca que sacia nossa sede. Alimento que aplaca nossa fome. É o amor que renova as esperanças em nossos corações fatigados.

O sorriso de Deus é o seu favor para conosco. É sua bondade inescrutável que se traduz em misericórdia e graça dispensadas a nós.

Muitos ao longo dos tempos experimentaram e têm experimentado o sorriso amoroso e compassivo do nosso Deus: Moisés na travessia do Mar Vermelho; Elias sendo sustentado pelos corvos; Jonas sobrevivendo no ventre de um peixe; Daniel na cova dos leões; Sadraque, Mesaque e Abede-Nego a passear em meio ao fogo da fornalha aquecida sete vezes como quem passeia em meio ás folhagens de um bosque florido; Paulo sobrevivendo á picada de uma cobra venenosa; a multidão alimentada por Jesus á partir de cinco pães e dois pexinhos. E tantos outros. Pessoas, como nós, que foram alvo do sorriso iluminado e iluminador do Totalmente Outro.

Mesmo assim, não são apenas situações como essas que nos descortinam o largo sorriso de Deus. A bem da verdade, pessoas que só esperam coisas assim, acabam por tornar para si mesmas o sorriso amoroso de Deus, algo de extrema raridade em suas vidas.

Não que Deus não sorria nestas proporções para nós. Porém, o que devemos ter em mente é que Deus está sempre sorrindo. Não é raro que ele sorria. É mais usual e mais comum do que imaginamos. O grande problema é a ausência de uma atitude de espera, expectativa e acolhimente, de nossa parte, a este sorriso de nosso amoroso Pai.

Deus sorri no dia-a-dia. Deus sorri para nós nas situações banais, comuns e simples do nosso cotidiano. Começamos, deveras, a enxergar o sorriso divino ao considerarmos que cada acontecimento, cada coisa, cada pessoa, cada vitória, cada realidade por mais efêmera que nos possa parecer, são frutos oriundos da graça, amor e misericórdias divinas. Mesmo aquilo que, num primeiro momento, a nosso ver, não nos pareça agradável.

Portanto, o que necessitamos fazer? Necessitamos limpar nossas lentes de toda sujeira do sensacionalismo, do espetacular, e acolhermos o Deus que misteriosamente nos visita no comum.

Tenho orado, pedido e buscado a Deus para que ele me conceda olhos simples que possam contemplar a simplicidade e discrição de Sua presença que me é oferecida constantemente por meios inesperados.

Portanto, por sua infinita misericórdia e bondade tenho podido ver e receber o sorriso de Deus na minha vida. Deus sorri pra mim…

Tenho visto o sorriso de Deus nos meus momentos de silêncio. Quando apaziguo a alma, cessando com seus ruídos e inquietações, posso ouvir a voz de Deus no meu centro.

Tenho recebido o sorriso de Deus quando me coloco diante de sua Palavra não como um teólogo, pronto para levantar questionamentos filosóficas, mas, com o coração receptivo, como um amante, um apaixonado que deseja ardentemente um encontro íntimo e pessoal com aquele que é o objeto de sua afeição.

Deus sorri pra mim quando estou em comunidade. No “estarmos juntos” com outros irmãos para a adoração, a comunhão, a contemplação. Quando percebo que não apenas creio, mas, que também pertenço, faço parte de uma família que me acolhe, encoraja e se coloca ao meu lado como companheiros de peregrinação.

Recebo o sorriso de Deus quando vejo um ato de caridade, afeto, solidariedade, compaixão e humanidade entre humanos. Constato que, afinal, algo da imagem divina permanece naqueles que são obra prima do Criador.

Deus sorri para mim nos momentos de família. Na companhia amorosa de minha esposa. No abraço apertado e cheio de afeto dos meus filhos. Nos nossos períodos de brincadeira (as partidas de PlayStation têm sido verdadeiros encontros com o Sagrado). Nos almoços suculentos com nossos queridos.

Tenho encontrado o sorriso de Deus em meio às boas gargalhadas com amigos. Onde posso ser eu mesmo sem neuras. Onde sou aceito como sou e estou.

Ainda tenho encontrado o sorriso de Deus: no desabrochar de uma flor em meio á uma manhã primaveril; no tom vermelho alaranjado de um pôr do sol; no sorriso sincero e despretensioso de uma criancinha; no poder furioso de uma tempestade; no ribombar do trovão; no canto matinal de um Bem-te-vi; no nascer do sol de cada manhã que me faz lembrar das misericórdias do Senhor que, uma vez mais, renovaram-se sobre este planeta de humanos pecadores.

Peço a Deus que desvende meus olhos para que aquilo que me é oferecido não passe desapercebido. Para que, estas sementes eternas não encontrando “solo” propício que as receba, acabem por perecer sem liberar toda a vida de Deus que nelas está contida.

Rogo a Deus que me ajude a enxergar a vida mais bonita. Menos ameaçadora. Mas bela na sua essência.

Cheia de vida e de mistério. Mundo embuído e transbordante de Presença. Vida que resplandeça o sorriso de Quem a criou para o louvor da Sua glória.

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Deus passou de um ser amado para uma mera idéia apreendida intelectualmente. O Senhor que antes era chama ardente que queimava e consumia os devotos em afetos e paixões místicas, hoje é encarado friamente, um deus gelado, divindade cadáver, à mercê de dissecações por parte dos especialistas. Pois, é exatamente isso o que se faz com algo que não tem vida: reparte-se, reduz-se. Contudo, o nosso Deus é vida; é Deus vivo.
Percebe-se não de hoje, uma ruptura entre mente e coração; razão e emoções. Quando isso aconteceu, as opiniões se dividem. Há quem advoge que tal abismo se fez entre os séculos XII e XIII com o advento do escolasticismo. Até então o pensamento dominante, ao invés de fragmetário, apresentava-nos uma compreensão holística do fazer teologia e o real conhecimento de Deus. Para os grande santos/teólogos como por exemplo Tomás de Aquino , o fazer teologia desenbocava na oração. Do mesmo modo o orar era também teologar se assim podemos dizer. Em outras palavras, para estes homens e mulheres antigos, qualquer teologia que configurasse num conhecimento do ser divino, deveria nos conduzir a uma atitude de amor , devoção e admiração de Deus. Para estes irmãos não bastava apenas falar de Deus, mais importante e significativo ainda era o falar com Deus.
Não obstante a isso, ainda existem os que enxergam o problema presente da ruptura entre mente e coração em datas mais recentes. No entendimento de muitos o fenômeno começou a três séculos atrás em meio à transição do pensamento medieval para o chamado pensamento moderno. Com a erupção do iluminismo, onde tudo se resumia na razão, no pensamento científico, a espiritualidade, as emoções e afetos religiosos até então presentes no pensamento teológico, foram engolidos por essa nova tendência acadêmico/intelectual desprovida completamente de quaisquer aspectos subjetivos e/ou emocionais. Culminando tudo isso, hoje, no que se pode constatar na maioria esmagadora das instituições de ensino teológico, mais interessadas na formação intelectual de seus alunos do que na espiritual. O que elas têm entregue às igrejas são especialistas em Bíblia, intelectuais reducionistas e dissecadores, ao invés de homens de Deus que conhecem a Deus. Não num sentido cognitivo acadêmico apenas, mas, principalmente subjetivo.
Seja como for, o fato está diante de nosso olhos. Há uma necessidade que urge de se resgatar a dimensão experimental do nosso conhecimento de Deus. Pois, Deus não é matéria de investigação, mas, um sujeito de comunhão, persona, um ser pessoal que ama e deseja ser amado por seus filhos.
Contra o mero academicismo árido, o frei franciscano Ignácio Larrañaga, escreve algo de grande discernimento e beleza em relação à experieência de Deus no seu livro Itinerário Rumo a Deus. Ele diz:


“Uma coisa é ter na cabeça a idéia de que fogo queima, e outra é por a mão no fogo, fazendo assim a experiência de que o fogo queima. Uma coisa é ter na mente a idéia de que a água sacia a sede, e outra beber um copo de água fresca em uma tarde de verão, fazendo assim a experiência de que a água sacia a sede. Sabemos teoricamente que tal sinfonia é magnífica, mas outra coisa é comover-se até às lágrimas durante sua execução. Sabemos que Deus é amor porque o aprendemos na catequese, mas outra coisa é tremer de emoção perante uma presença infinitamente amante e amada.


E ele conclui dizendo:
“[…] Deus não é teoria, nem teologia. É pessoa concreta, e pessoa conhece-se através do trato pessoal; e este trato pessoal proporciona aquele conhecimento (experimental) ‘que supera todo conhecimento’. Se não nos lançarmos de cabeça ao mar de Deus, nunca saberemos quem é Deus”.


Diante de palavras tão sóbrias quanto essas, temo verdadeiramente que o Deus do universo, o criador de todas as coisas, o Deus triúno que sendo um só misteriosamente subsiste em três pessoas distintas, Pai, Filho e Espírito Santo, o Deus que é Totalmente Outro, que é Mysterim Tremendum, não passe para muitos de uma mera sinfonia antiga destoada, vinda de um rádio fora de estação, mal sintonizado. Cadáver frio e sem vida a quem se pode dissecar em tópicos e subtópicos teológicos. Ao ivés de alguém que nos ama e que deseja nos conduzir a cada dia a uma dimensão mística, de uma maior intimidade com Ele.
Por que nos deter ainda à beira mar, hesitantes, quando diante de nós um oceano de tesouros inestimáveis se desdobra à nossa frente?

“Quando disseste: Buscai o meu Rosto; o meu coração te disse a ti:
O teu Rosto, Senhor, buscarei”
(Sl 27:8)

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