Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘disciplinas espirituais’

download “Retirou-se para uma região perto do deserto, e lá permaneceu com seus discípulos.” (João 11:45-56)

Em um avião, nas instruções pré-decolagem, rotineiramente lhe dizem que em caso de emergência você deve deixar tudo para  trás, até seus sapatos. Imagino quantos tentariam levar sua bolsa ou laptop ou pegar seus documentos na bagagem guardada no compartimento acima da cabeça. Em uma crise dessas, deve ser tão difícil deixar tudo para trás quanto o é na meditação diária. Mas são coisas e pensamentos.

Quando os passageiros do 11 de setembro estavam se preparando para o fim, ao que parece, tinham uma preocupação. Deviam estar terrivelmente impelidos ao total desapego, como uma pessoa condenada aguardando a execução, ou alguém com uma doença terminal. Muitos queriam apenas telefonar para as pessoas que amavam e dizer que as amavam.

Nos momentos críticos em sua vida, Jesus estava em solitude, mas estava solitário com seus discípulos mais próximos. Quando soube que era um homem marcado, esperando pela batida à meia-noite na porta ou, no seu caso, pelo beijo do traidor no jardim, seu instinto era de ir para perto do deserto – um lugar associado com ambos a solitude e o mais profundo de todos os relacionamentos, no chão da existência. E foi para lá com esses seres humanos que melhor compreendeu e que, apesar das deficiências deles, melhor o compreenderam.

A solitude é verdadeira e muitas vezes é deliciosa, mesmo que dolorosa. A solidão é inferno engendrado pela ilusão de separatividade. Na solitude somos capazes de relacionamentos fortes e profundos porque na solitude descobrimos nossa singularidade, mesmo (ou talvez, especialmente) se essa singularidade está associada com a morte. 

Se meditação diz respeito a liberação de apegos e ida ao deserto da solitude, também diz respeito a descoberta da comunhão com outros a quem chamamos comunidade. Saber que somos condiscípulos na presença de nosso mestre é, mesmo quando as coisas estão desmoronando, uma fonte de incomparável contentamento.

Com amor

_________________

Laurence Freeman

tau

Read Full Post »

Começo hoje a compartilhar uma série de textos objetivos acerca da FORMAÇÃO ESPIRITUAL. Busco demonstrar à luz das Escrituras que as múltiplas dimensões da espiritualidade que Jesus viveu formam um convite amplo para a imitação de sua vida. É necessário dizer que tudo o que será compartilhado a partir desse primeiro texto encontra-se debaixo de um contexto cristão. Ou seja, subtende-se que o estilo de vida e as práticas devam acontecer debaixo de uma realidade caracterizada por uma relação filial com Deus que nos é concedida  mediante a experiência salvífica e regenerativa com o Evangelho de Cristo, logo, com o próprio Cristo vivo e pessoal. 

Todos os textos dentro dessa série na verdade surgiram originalmente como uma série de mensagens que preguei em minha comunidade espiritual (igreja) e que recebeu o título de “As Seis Tradições da Espiritualidade Cristã e a Vida de Cristo”. Logo, o que estrei postando é uma adaptação da mesma. 

Espero sinceramente que os simples textos alicerçados no fundamento imutável das Escrituras possam estimular cada leitor a uma séria reflexão e ajustes necessários para que em cada filho e filha de Deus se cumpra o preceito registrado em 1Jo 2:6 – “Aquele que diz estar nele deve ANDAR como Ele ANDOU”. Um convite à vida. E que o Eterno nos abençoe nesse propósito. Amém!

JESUS O HOMEM CONTEMPLATIVO

Existe uma palavra chave que define a tradição contemplativa de espiritualidade. E essa palavra é “intimidade”. E podemos ver que a Bíblia é clara e pródiga em nos convidar ao crescimento e aprofundamento na intimidade com Deus.Quando olhamos com atenção para a vida de nosso Senhor Jesus Cristo nenhum aspecto é mais marcante do que exatamente sua intimidade com o Pai.

Algumas afirmações de Jesus no evangelho de João mostram bem essa intimidade. Por exemplo, em Jo 5:19 Jesus fala acerca de seu ministério – “Eu lhes digo verdadeiramente que o Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer, porque o que o Pai faz o Filho também faz”.Continuando sua explanação no verso 30 o Senhor declara – “Por mim mesmo, nada posso fazer; eu julgo apenas conforme ouço, e o meu julgamento é justo, pois não procuro agradar a mim mesmo, mas àquele que me enviou”.

No capítulo 14:10 encontramos as seguintes palavras do Senhor acerca de sua pregação – “As palavras que eu lhes digo não são apenas minhas. Ao contrário, o Pai, que vive em mim, está realizando sua obra”. E acredito que nenhum outro texto exprime mais a intimidade entre Jesus e o Pai do que o de Mt 11:27 – “e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.

A redescoberta da tradição contemplativa por parte de uma parcela do povo de Deus tem trazido uma grande contribuição para a formação espiritual cristã. E dentre os vários tesouros redescobertos, as disciplinas espirituais ocupam uma posição especial. E dentre elas, a oração tem um grande destaque. A tradição contemplativa também pode ser definida como a vida plena, embriagada, transbordante de oração.

Quando olhamos para Jesus percebemos que oração e vida não era uma realidade dicotômica na vida de Jesus. Orar e viver, viver e orar para Cristo era a mesma coisa. A oração e a vida de Jesus estavam entrelaçadas como os fios se entrelaçam para formar uma peça de vestuário. Nós vemos em Lc 3:21 que quando Jesus foi batizado por João ele “estava orando”. Também vemos que por ocasião da escolha dos doze apóstolos, Jesus foi sozinho para um monte e “passou a noite orando a Deus” (Lc 6:12).

Depois de uma tarde exaustiva em que ele curou a muitos expulsando demônios, Marcos nos relata que Jesus levantou-se “de madrugada, quando ainda estava escuro (…)” e “foi para um lugar deserto, onde ficou orando” (Mc 1:34,35).

E muitas e muitas outras passagens nos mostram a centralidade da oração na vida e ministério de Jesus. Por exemplo, ele estava orando quando perguntou: “Quem vocês dizem que eu sou?” (Lc 9:18-20). No monte onde ele se transfigurou, a Bíblia diz que ele pegou Pedro, Tiago e João e os levou “para orar” (Lc 9:28,29). E quando os discípulos não puderam expulsar o demônio de um menino, Jesus explicou o fracasso deles com as seguintes palavras – “Essa espécie só sai pela oração” (Mc 9:29).

Jesus não apenas orou como também ensinou seus discípulos a orar. A vida de Cristo foi uma escola de oração. Ele ensinou seus discípulos a se achegarem a Deus de um modo mais íntimo dizendo “Aba, Pai” (Mc 14:36). Ele os ensinou a orar no quarto “em secreto” (Mt 6:6).

Ele ensinou através de parábola acerca do dever de orar sempre e nunca desanimar (Lc 18:1). Ensinou também a crer que vai acontecer aquilo que pediram em oração (Mc 11:23).  E muito mais.

Outras duas disciplinas espirituais presentes na vida de Jesus que acompanhavam a oração eram a solitude e o silêncio. Porque uma não existe sem a outra. A figura do deserto ou de lugares desertos nos traz o deslumbre dessa faceta da espiritualidade de nosso Senhor. Por exemplo, em Mt 4:1 as Escrituras nos dizem que –  “Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo”. E lá permaneceu por quarenta dias e quarenta noites.

Depois de saber da morte de João Batista a Bíblia diz que o Senhor “retirou-se (…) em particular, para um lugar deserto” (Mt 14:13).
As Escrituras também relatam que após alimentar aquela grande multidão multiplicando cinco pães e dois peixinhos, Jesus imediatamente “subiu sozinho a um monte para orar” (Mt 14:23).

Quando os discípulos estavam exaustos por causa do ritmo do ministério Jesus fez o convite – “Venham comigo para um lugar deserto e descansem um pouco” (Mc 6:31). E Lucas se referindo a uma prática habitual de Jesus escreve as seguintes palavras – “retirava-se para lugares solitários, e orava” (Lc 5:16).

E muitas outras disciplinas espirituais vemos presentes na vida do Senhor: o jejum por exemplo. Em Mt 4:2 na solidão e silêncio do deserto é-nos dito que – “depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome”.  E diante da negativa de Jesus aos seus discípulos pelo convite para que ele se alimentasse foi dito – “tenho algo para comer que vocês não conhecem (…) a minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra” (Jo 4:32,34).

Muitas outras disciplinas como o segredo, a simplicidade, a comunhão, a celebração, a meditação, a frugalidade estavam presentes na vida e ministério de Jesus. Só que a palavra de hoje não nos dá espaço para olharmos de perto cada uma delas.
No entanto, acredito que o que foi compartilhado hoje já nos dá uma ideia inequívoca de que Jesus era um homem cuja vida era impregnada por hábitos espirituais. Jesus verdadeiramente era um homem que tinha intimidade com o Pai. Jesus era um homem de vida contemplativa. Amém?
 
CONCLUSÃO E APLICAÇÃO

Gostaria de finalizar essa breve exposição aplicando o seu conteúdo às nossas vidas. Se desejamos viver esse aspecto da vida de nosso Senhor devemos refletir em algumas perguntas:

(1) Nesse exato momento de sua vida, qual é o grau de intimidade que você desfruta com Deus?

(2) Você pode afirmar com toda certeza que seu relacionamento com Deus tem sido uma realidade crescente e não estagnada?

(3) Qual o lugar que a oração e as outras disciplinas espirituais ocupam na sua vida?

(4) Você tem conseguido desacelerar seu ritmo de vida para reservar momentos a sós com Deus?

Que Deus nos ajude nessa reflexão e nos ajustes que precisarmos fazer afim de que possamos experimentar essa dimensão da espiritualidade de nosso Senhor. Amém! 

Read Full Post »

Jesus chama-nos da solidão para a solitude. O medo de ficarem sozinhas petrifica as pessoas. Uma criança que muda para uma nova vizinhança diz, em soluços, à sua mãe: “Ninguém brinca comigo.”
Uma caloura na faculdade suspira pelos dias de ginásio quando era o centro de atenção: “Agora sou uma figura apagada.” Um executivo abatido no escritório, poderoso, não obstante, sozinho. Uma senhora idosa reside em um lar de velhos aguardando a hora de ir para o “Lar”.
Nosso medo de ficar sozinhos impulsiona-nos para o barulho e para as multidões. Conservamos uma constante torrente de palavras mesmo que sejam ocas. Compramos rádios que prendemos ao nosso pulso ou ajustamos ao nossos ouvidos de sorte que, se não houver ninguém por perto, pelo menos não estamos condenados ao silêncio.

T. S. Eliot analisou muito bem nossa cultura quando disse: “Onde deve encontrado o mundo em que ressoará a palavra? Aqui não pois não há silêncio suficiente.”
Mas a solidão ou o barulho não são nossas únicas alternativas. Podemos cultivar uma solitude e um silêncio interiores que nos livra da solidão e do medo. Solidão é vazio interior. Solitude é realização interior. Solitude não é, antes de tudo, um lugar, mas um estado da mente e do coração.
Há uma solitude do coração que pode ser mantida em todas as ocasiões. As multidões, ou a sua ausência, têm pouco que ver com este estado atentivo interior. É perfeitamente possível ser um eremita e viver no deserto e nunca experimentar a solitude. Mas se possuirmos solitude interior nunca teremos medo de ficar sozinhos, pois sabemos que não estamos sós.

Nem tememos estar com outros, pois eles não nos controlam. Em meio ao ruído e confusão encontramos calma num profundo silêncio interior.

A solitude interior há de manifestar-se exteriormente. Haverá a liberdade de estar sozinhos, não para nos afastarmos das pessoas, mas para poder ouvi-las melhor. Jesus viveu em “solitude do coração” interior.
Também freqüentemente experimento solitude exterior. Ele começou seu ministério passando quarenta dias sozinho no deserto (Mateus 4:1-11).
Antes de escolher os doze, ele passou a noite inteira sozinho no monte deserto (Lucas 6:12). Quando recebeu a notícia da morte de João Batista, Jesus “retiro-se dali num barco, para um lugar deserto, à parte” (Mateus 14:13).
Após a alimentação miraculosa dos cinco mil, Jesus mandou que os discípulos partissem; então ele despediu as multidões e “subiu ao monte a fim de orar sozinho…”(Mateus 14:23). Após uma longa noite de trabalho, “Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto, e ali orava”(Marcos 1:35).
Quando os doze retornaram de uma missão de pregação e curas, Jesus os instruiu: “Vinde repousar um pouco, à parte…” (Marcos 6:31). Depois da cura de um leproso, Jesus “se retirava para lugares solitários, e orava” (Lucas 5:16). Com três discípulos ele buscou o silêncio de monte solitário como palco para a transfiguração (Mateus 17:1-9).
Enquanto se preparava para sua mais sublime e mais santa obra, Jesus buscou a solitude do jardim do Getsêmani (Mateus 26:36-46). Pode-se prosseguir, mas talvez isto seja suficiente para mostrar que a busca de um lugar solitário era uma prática regular de Jesus. Igualmente deve ser conosco.
Em Life Together (Vida Juntos), Dietrich Bonhoeffer deu a um de seus capítulos o título de “O Dia Juntos”, e com percepção intitulou a capítulo seguinte “O Dia Sozinho”. Ambos são fundamentais para o êxito espiritual. Escreveu ele:
Aquele que não pode estar sozinho, tome cuidado com a comunidade… Aquele que não está em comunidade, cuidado com o estar sozinho…Cada uma dessas situações tem, de si mesma, profundas ciladas e perigos.
Quem desejar a comunhão sem solitude mergulha no vazio de palavras e sentimentos, e quem busca a solitude sem comunhão perece no abismo da vaidade, da auto-enfatuação e do desespero.
Portanto, se desejarmos estar com os outros de modo significativo, devemos buscar o silêncio recriador da solitude. Se desejamos estar sozinhos em segurança, devemos buscar a companhia e a responsabilidade dos outros.Se desejamos viver em obediência, devemos cultivar a ambos.

Solitude e silêncio

Sem silêncio não há solitude. Muito embora o silêncio às vezes envolva a ausência de linguagem, ele sempre envolve o ato de ouvir. O simples refrear-se de conversar, sem um coração atento a voz de Deus, não é silêncio.
Devemos entender a ligação que há entre a solitude interior e silêncio interior. Os dois são inseparáveis. Todos os mestres da vida interior falam dos dois de um só fôlego.

Por exemplo, a Imitação de Cristo, que tem sido obra prima incontestável da literatura devocional durante cinco séculos, tem uma seção intitulada “Do amor da solidão e do silêncio”.

Dietrich Bonhoeffer faz os dois um todo inseparável em Vida Juntos, como o faz Thomas Merton em Thoughts in Solitude ( Pensamentos em Solitude). Com efeito, lutamos por algum tempo tentando resolver se daríamos a este capítulo o título de Disciplina da solitude ou Disciplina do silêncio, tão estritamente ligados são os dois em toda a importante literatura devocional.
Devemos, pois, necessariamente entender e experimentar o poder transformador do silêncio se desejarmos conhecer a solitude.
Diz um antigo provérbio: “O homem que abre a boca, fecha os olhos!” A afinidade do silêncio e da solitude é poder ouvir. O controle, e não a ausência de ruído, é a chave do silêncio. Tiago compreendeu claramente que a pessoa capaz de controlar a língua é perfeita (Tiago 3:1-12).
Sob a Disciplina do silêncio e da solitude aprendemos quando falar e quando refrear-nos de falar. A pessoa que considera as Disciplinas como leis, sempre transformará o silêncio em algo absurdo: “Não falarei durante os próximos quarenta dias!” Esta é sempre uma grave tentação para o verdadeiro discípulo que deseja viver em silêncio e solitude.
Thomas de Kempis escreveu: “É mais fácil estar totalmente em silêncio do que falar com moderação”. O sábio pregador de Eclesiastes disse que há “tempo de estar calado, e tempo de falar”(Eclesiastes 3:7). O controle é a chave.
As analogias que Tiago faz do leme e dos freios, sugerem que a língua tanto guia como controla. Ela guia nosso curso de muitas formas. Se contamos uma mentira, somos levados a contar mais mentiras para encobrir a primeira. Logo somos forçados a comportar-nos de modo a darmos crédito à mentira. Não admira que Tiago tenha dito: “a língua é fogo” (Tiago 3:6).
A pessoa disciplinada é a que pode fazer o que precisa ser feito quando precisas ser feito. O que caracteriza uma equipe de basquetebol num campeonato é ser ela capaz de marcar pontos quando necessários.
Muitos de nós podemos encestar a bola, mas não o fazemos quando necessário. Do mesmo modo, uma pessoa que está sob o Disciplina do silêncio é a que pode dizer o que necessita ser dito.
“Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo”(Provérbios 25:11). Se ficamos calados quando deveríamos falar, não estamos vivendo na Disciplina do silêncio. Se falamos quando deveríamos estar calados, novamente erramos o alvo.

O Sacrifício de Tolos

Lemos em Eclesiastes : “ Chegar-se para ouvir é melhor do que oferecer sacrifícios de tolos” (Eclesiastes 5:1). O sacrifício de tolos é conversa religiosa de iniciativa humana.
O pregador continua: “Não te precipites com tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu na terra; portanto sejam poucas as tuas palavras”(Eclesiastes 5:2).
Quando Jesus tomou a Pedro, Tiago e João e os levou ao monte e foi transfigurado diante deles, Moisés e Elias apareceram e entabularam a conversa com Jesus. O texto grego prossegue: “E respondendo, Pedro disse-lhes… se queres farei aqui três tendas…”(Mateus 7:14). Isto é tão expressivo. Não havia alguém falando com Pedro. Ele estava oferecendo sacrifícios de tolos.
O Diário de John Woolman contém um comovente e terno relato da aprendizagem do controle da língua. Suas palavras tão expressivas que é melhor citá-las aqui:
Eu ia a reunião num terrível estado mental, e me esforçava por estar interiormente familiarizado com a linguagem do verdadeiro Pastor. Um dia, encontrando-me sob forte operação do espírito, levantei-me e disse algumas palavras numa reunião; mas não me mantendo junto à abertura Divina falei mas do que era exigido de mim.
Percebendo logo meu erro, fiquei com a mente aflita algumas semanas, sem nenhuma luz ou consolo, ao ponto mesmo de não encontrar satisfação em nada. Lembrava-me de Deus, e ficava perturbado, e no auge de minha tristeza ele teve piedade de mim e enviou o Consolador.
Então senti o pecado de minha ofensa; minha mente ficou calma e tranqüila, e senti-me verdadeiramente grato ao meu gracioso Redentor por suas misericórdias.
Cerca de seis meses após este incidente, sentindo aberta a fonte de amor Divino, e interesse por falar, proferi umas poucas palavras em uma reunião, nas quais encontrei paz.
Sendo assim humilhado e disciplinado sob a cruz, minha compreensão tornou-se mais fortalecida para distinguir o espírito puro que interiormente se move sobre o coração, que me ensinou a esperar em silêncio, `às vezes durante muitas semanas, até que senti aquele fluxo quer prepara a criatura para [posicionar-se como uma trombeta, através da qual o Senhor fala ao seu rebanho.
Que descrição do processo de aprendizado pelo qual se passa na Disciplina do silêncio! De particular significado foi o aumento de sua capacidade, proveniente desta experiência, de “distinguir o espírito puro que interiormente se move sobre o coração”.
Um motivo de quase não agüentarmos permanecer em silêncio é que ele nos faz sentir tão desamparados. Estamos demais acostumados a depender das palavras para manobrar e controlar os outros. Se estivermos em silêncio, quem assumirá o controle? Deus fará isto; mas nunca deixaremos que ele assuma o controle enquanto não confiarmos nele.
O silêncio está intimamente relacionado com a confiança. A língua é nossa mais poderosa arma de manipulação. Uma frenética torrente de palavras flui de nós porque estamos num constante processo de ajustar nossa imagem pública.
Tememos muito o que pensamos que as outras pessoas vêem em nós, de modo que falamos a fim de corrigir o entendimento delas. Se fiz alguma coisa errada e descubro que você sabe disso, serei muito tentado a ajudá-lo a entender minha situação!
O silêncio é uma das mais profundas Disciplinas do Espírito simplesmente porque ela põe um paradeiro nisso. Um dos frutos do silêncio é a liberdade de deixar que nossa justificação fique inteiramente com Deus.
Não temos necessidade de corrigir os outros. Há uma história de um monge medieval que estava sendo injustamente acusado de certos erros.
Certo dia ele olhava pela janela e viu lá fora um cachorro a morder e rasgar um tapete que havia sido pendurado para secar. Enquanto ele observava, o Senhor falou-lhe, dizendo: “É isso que estou fazendo com sua reputação.
Mas se você confiar em mim, não terá necessidade de preocupar-se com as opiniões dos outros”. Talvez, mais do que qualquer outra coisa, o silêncio leva-nos a crer que Deus pode justificar e endireitar tudo. George Fox falava com freqüência do “espírito de escravidão”(Romanos 8:14), e de como o mundo jaz nesse espírito.
Freqüentemente ele identificava o espírito de escravidão com o espírito de subserviência a outros seres humanos. Em seu Diário ele falava de “ajudar as pessoas a escapar dos homens”, afastá-las do espírito de escravidão à lei mediante outros seres humanos. O silêncio é o principal meio de conduzir-nos a esse livramento.
A língua é um termômetro; ela diz qual é a nossa temperatura espiritual. Ela é, também, um termostato; controla nossa temperatura espiritual. O controle da nossa língua pode significar tudo.
Temos nós sido libertados de modo que podemos controlar nossa língua? Bonhoeffer escreveu: “O silêncio verdadeiro, a verdadeira tranqüilidade, o controle real da língua manifesta-se somente como a sóbria conseqüência da calma espiritual”.
Relata-se que Dominic fez uma visita a Francisco de Assis e durante todo o encontro nenhum deles proferiu uma única palavra. Somente quando tivermos aprendido a estar verdadeiramente calados ‘é que estaremos capacitados para proferir a palavra necessária no momento oportuno.
Catherine de Haeck Doherty escreveu: “Tudo em mim é silente… e estou imersa no silêncio de Deus”. É na solitude que chegamos a experimentar o “silêncio de Deus” e assim receber o silêncio interior que é o anseio de nosso coração.

A Noite Escura da Alma

Levar a sério a Disciplina da solitude significará que em algum ponto ou pontos no curso da peregrinação entraremos no que S. João da Cruz vividamente descreveu como “a noite escura da alma”.
A “noite escura” para a qual ele nos chama não é algo mau ou destrutivo. Pelo contrário, é uma experiência a ser recebida com agrado do mesmo modo que uma pessoa enferma receberia com agrado uma cirurgia que promete saúde e bem-estar. A finalidade da escuridão não é castigar-nos ou afligir-nos. É libertar-nos.
Que significa entrar na noite escura da alma? Pode ser um senso de aridez, de depressão, até mesmo o de sentir-se perdido. Ela nos despoja de dependência excessiva à vida emocional.
A noção, tantas vezes ouvida hoje, de que tais experiências podem ser evitadas e que devíamos viver em paz e conforto, alegria e celebração, só revela o fato de que muito da experiência contemporânea não passa de sentimentalismo superficial.
A noite escura é um dos meios de Deus levar-nos à tranqüilidade, à calma, de modo que ele possa operar a transformação interior da alma.
Como se expressa essa noite na vida diária? Quando se busca seriamente a solitude, geralmente há um fluxo de êxito inicial e então um desânimo inevitável_ e com ele um desejo de abandonar por completo a busca. Os sentimentos vão-se embora e fica o senso de que não alcançamos Deus. S. João da Cruz descreveu-o deste modo:
…a escuridão da alma mencionada aqui… põe os apetites sensórios e espirituais a dormir, amortece-os e os priva da capacidade de encontrar prazer em qualquer coisa. Ata a imaginação e impede-a de fazer qualquer bom trabalho discursivo.
Ela faz cessar a memória, faz o intelecto tornar-se obscuro e incapaz de entender qualquer coisa, e daí levar a vontade também a tornar-se árida e constrita, e todas as faculdades vazias e inúteis. E acima de tudo isto, paira uma densa e cansativa nuvem que aflige a alma e a conserva afastada de Deus.
Em seu poema “Canciones del Alma”, S. João da Cruz usou duas vezes a frase: “Estando minha casa agora totalmente calada”. Nessa expressiva linha ele indicava a importância de silenciar todos os sentidos físicos, emocionais, psicológicos, e mesmo espirituais.
Toda distração do corpo, mente e espírito deve ser posta numa espécie de animação suspensa antes que possa ocorrer esta profunda obra de Deus na alma. O anestésico deve fazer efeito antes que se realize a cirurgia.
Virá o silêncio, a paz, a tranqüilidade interiores. Durante esse tempo de escuridão, a leitura da Bíblia os sermões, o debate intelectual_ tudo falhará em comover ou emocionar.
Quando o amoroso Deus nos atrai para uma escura noite da alma, muitas vezes somos tentados a culpar todo o mundo e todas as coisas por nosso entorpecimento interior e procuramos livrar-nos dela.
O pregador é maçante. O cântico de hinos é tão fraco. Talvez comecemos a andar por aí à procura de uma igreja ou de uma experiência que nos dê “arrepios espirituais”. Esse é um grave engano.
Reconheça a noite escura pelo que ela é. Seja agradecido porque Deus o está amorosamente desviando de toda distração, de modo que você possa vê-lo. Em vez de ridicularizar e brigar, acalme-se e espere.
Não estou aqui a falar de entorpecimento espiritual que vem como resultado de pecado ou desobediência. Falo da pessoa que busca a Deus com afã e não abriga pecado conhecido em seu coração.
Quem há entre vós que tema ao Senhor, e ouça a voz do seu Servo que andou em trevas sem nenhuma luz, e ainda confiou em nome do Senhor e se firmou sobre o seu Deus? (Isaías 50:10)
O ponto da passagem bíblica é que é perfeitamente possível temer, obedecer, confiar e firmar-se no Senhor e ainda “andar em trevas sem nenhuma luz”. A pessoa vive em obediência mas entrou numa noite escura da alma. S. João da Cruz disse que durante esta experiência há uma graciosa proteção contra vícios e um maravilhoso progresso nas coisas do reino de Deus.
Se uma pessoa na hora dessas trevas observar bem de perto, verá com clareza quão pouco os apetites e as faculdades se distraem e como ela está segura de evitar vanglória, orgulho e presunção, alegria vazia e falsa, e muitos outros males. Pelo andar em escuridão a alma não somente evita extraviar-se mas avança rapidamente, porque assim ela adquire virtudes.
Que deveríamos fazer durante essa época de aflição interior? Primeiro, não leve em consideração o conselho dos amigos bem-intencionados de livrar-se da situação. Eles não entendem o que está acontecendo. Nossa época é tão ignorante destas coisas que não lhe recomendo conversar sobre esses assuntos.
Acima de tudo, não tente explicar nem justificar por que você parece estar “aborrecido”. Deus é seu justificador; entregue seu caso a ele. Se você pode, realmente, retirar-se para um “lugar deserto” durante algum tempo, faça-o. Se não, cumpra suas tarefas diárias.
Mas, esteja no “deserto” ou em casa, mantenha no coração um profundo, interior e atencioso silêncio – e haja silêncio até que a obra da solitude se complete.
Talvez S. João da Cruz tenha estado a conduzir-nos a águas mais profundas do que cuidássemos ir. Por certo ele não está falando de um reino que muitos de nós vemos apenas “como em espelho, obscuramente”.
Não obstante, não temos necessidade de censurar-nos por nossa timidez de escalar esses picos nevados da alma. Esses assuntos são mais bem tratados com cautela.
Mas talvez ele tenha provocado dentro de nós uma atração por experiências mais elevadas, mais profundas, não importa quão leve o puxão. É como abrir levemente a porta de nossa vida a este reino. Isto é tudo o que Deus pede, e tudo o que ele necessita. Para concluir nossa viagem na noite escura da alma, ponderemos estas palavras poderosas de nosso mentor espiritual:
Oh, então, alma espiritual. Quando vires teus apetites obscurecidos, tuas inclinações secas e constritas, tuas faculdades incapacitadas para qualquer exercício interior, não te aflijas; pensa nisto como uma graça, visto que Deus te está libertando de ti mesma e tirando de ti tua própria atividade.
Conquanto tuas ações possam ter alcançado bom êxito, não trabalhaste tão completa, perfeita, e seguramente – devendo à impureza e inabilidade de tais ações – como fazes agora que Deus te toma pela mão e te guia na escuridão, como se fosses cega, ao longo de um caminho e para um lugar que não conheces. Nunca terias tido êxito em alcançar este lugar, não importa quão bom sejam teus olhos e teus pés.

Passos Para a Solitude

As Disciplinas Espirituais são coisas que fazemos. Nunca devemos perder de vista esse fato. Podemos falar piedosamente acerca da “solitude do coração”, mas se isto, de certo modo, não abrir caminho para nossa experiência, então erramos o alvo das Disciplinas.
Estamos lidando com ações, e não apenas com estados mentais. Não é suficiente dizer: “Bem, muito certamente estou na posse da solitude e silêncios interiores; não há nada que eu necessite fazer”.
Todos quantos chegaram aos silêncios vivos fizeram determinadas coisas, ordenaram suas vidas de uma forma especial, de modo que recebessem a “paz de Deus, que excede todo o entendimento”. Se desejamos ter êxito, devemos ir além do teorético para as situações da vida.
Quais são alguns passos para a solitude? A primeira coisa que podemos fazer é tirar vantagem das “pequenas solitudes” que enchem nosso dia.
Consideremos a solitude daqueles primeiros momentos matutinos na cama, antes que a família desperte. Pense na solitude de uma xícara de café pela manhã, antes de começar o trabalho do dia.
Existe a solitude de pára-choque de um carro junto ao pára-choque de outro durante a correria do tráfego na hora de mais movimento.
Pode haver poucos momentos de descanso e refrigério quando dobramos um esquina e vemos uma flor ou uma árvore. Em vez da oração audível antes de uma refeição, considere convidar a todos para reunir-se em uns poucos momentos de silêncio.
De quando em quando, dirigindo um carro lotado de crianças e adultos conversadores, eu exclamava: “Vamos brincar de fazer silêncio e ver se ficamos absolutamente calados até chegarmos ao aeroporto” (cerca de cinco minutos adiante). Funcionava. Saia um pouquinho antes de ir deitar-se, e prove a noite silenciosa.
Muitas vezes perdemos esses pequeninos lapsos de tempo. Que pena! Eles podem e deveriam ser redimidos. São momentos para silêncio interior, para reorientar nossas vidas como o ponteiro de uma bússola. São pequenos momentos que nos ajudam a estar genuinamente presentes onde estamos. Que mais podemos fazer? Podemos encontrar ou criar um “lugar tranqüilo” para silêncio e solitude.
Constantemente estão sendo construídas novas casas. Porque não insistir que um pequeno santuário interior seja incluído nas plantas, um pequeno lugar onde um membro da família possa estar a sós em silêncio? Que é que nos impede? Construímos esmeradas salas de estar, e achamos que vale a pena a despesa. Se você já possuiu uma casa, considere murar uma pequena seção da garagem ou do pátio.
Se mora num apartamento, seja criativo e ache outros meios de permitir-se a solitude. Sei de uma família que tem uma cadeira especial; sempre que uma pessoa se assenta nela, é como estar dizendo: “Por favor, não me amole; quero estar a sós”.
Encontre lugares fora de sua casa: um local num parque, o santuário de uma igreja (dessas que mantêm abertas sua portas), mesmo um depósito em algum lugar. Um centro de retiro perto de nós construiu uma bonita cabana para uma pessoa, especificamente para meditação particular e solitude. Chama-se “Lugar Tranqüilo”.
As igrejas investem somas enormes de dinheiro em edifícios. Que tal construir um lugar aonde alguém possa ir para estar a sós durante alguns dias? Catherine de Haeck Doherty foi pioneira no desenvolvimento de Poustinias (palavra russa que significa “deserto”) na América do Norte. São lugares destinados especificamente para solitude e silêncio.
No capítulo sobre estudo, consideramos a importância de observar a nós mesmos para ver com que freqüência nossa conversa é uma tentativa frenética de explicar e justificar nossas ações.
Tendo observado isto em você mesmo, experimente praticar ações sem nenhuma palavra de explicação. Note seu senso de temor de que as pessoas entendam mal por que você fez o que fez. Tente deixar que Deus seja seu justificador.
Discipline-se de modo que a suas palavras sejam poucas mas digam muito. Torne-se conhecido como uma pessoa que, quando fala, sempre tem algo a dizer. Mantenha clara sua linguagem. Faça o que diz que fará. “Melhor é que não votes do que votes e não cumpras” (Eclesiastes 5:5).
Quando a língua se encontra sob a nossa autoridade, as palavras de Bonhoeffer se tornam verdadeiras em relação a nós: “Muita coisa desnecessária fica por dizer. Mas a coisa essencial e útil pode ser dita em poucas palavras”.
Dê outro passo. Tente viver um dia inteiro sem proferir palavra alguma. Faça-o, não como uma lei, mas como um experimento. Note seus sentimentos de desamparo e excessiva dependência das palavras para comunicar-se. Procure encontrar novos meios de relacionar-se com outros, que não dependam de palavras. Aproveite, saboreie o dia.Aprenda com ele.
Quatro vezes por ano retire-se durante três a quatro hora com a finalidade de reorientar os alvos de sua vida. Isto pode ser facilmente feito em uma noite. Fique até tarde no escritório, faça-o em casa, ou procure um canto sossegado em uma biblioteca pública. Revalie suas metas e objetivos.
Que é que você deseja ser ver realizado daqui a um ano? Daqui a dez anos? Nossa tendência é superestimar em alto grau o que podemos realizar em dez. Estabeleça metas realistas, mas esteja disposto a sonhar, a esforçar-se. No sossego dessas breves horas, ouça o trovão da voz de Deus. Mantenha um registro diário do que lhe acontece.
A reorientação e fixação de metas não precisam ser frias e calculadas, como alguns imaginam, feitas com uma mentalidade de análise de mercado. Pode ser que ao entrar num silêncio atento, você receba a deliciosa impressão de que este ano deseja aprender a tecer ou trabalhar com cerâmica.
Essa lhe parece uma meta muito terrestre, antiespiritual? Deus está intencionalmente interessado em tais questões. Está você? Talvez deseje aprender (experimentar) mais acerca dos dons espirituais de milagres, de cura e de línguas. Ou você pode fazer como um amigo que sei que está gastando longos períodos de tempo experimentando o dom de socorros, aprendendo a ser servo.
Talvez no próximo ano você gostaria de ler todas as obras de C. S. Lewis ou de D. Elton Trueblood. A escolha desses alvos soa-lhe como jogo de manipulação de um vereador? Claro que não. Não se trata de meramente estabelecer uma direção para a sua vida. Você está indo para algum lugar, por isso é muito melhor ter uma direção fixada pela comunhão com o Centro divino.
Na Disciplina do estudo examinamos a idéia de retiros de estudos de dois ou três dias. Tais experiências, quando combinadas com uma imersão interior no silêncio de Deus, são enaltecidas. À semelhança de Jesus, devemos afastar-nos das pessoas de modo que possamos estar verdadeiramente presentes quando estivermos com elas. Faça um retiro uma vez por ano, sem outro propósito em mente que não a solitude.
O fruto da solitude é o aumento de sensibilidade e compaixão por outros. Surge uma nova liberdade para estar com as pessoas. Há uma nova atenção para com suas necessidades, nova responsividade para com suas mágoas. Thomas Merton observou.
É na profunda solitude que encontro a afabilidade a qual posso verdadeiramente amar a meus irmãos. Quanto mais solitário estou, tanto mais afeição eu sinto por eles. É pura afeição e cheia de reverência pela solitude dos outros. Solitude e silêncio ensinam-me a amar a meus irmãos pelo que eles são, e não pelo que dizem.
Não sente você um toque, um anseio de aprofundar-se no silêncio e solitude de Deus? Não deseja uma exposição mais profunda, mais completa à Presença de Deus? A Disciplina da solitude é que abrirá a porta. Você está convidado a vir e “ouvir a voz De Deus em seu silêncio todo-abrangente, maravilhoso, terrível, suave e amoroso”.

____________________________________________________

* Richard Foster – é ministro Quacre e presidente do Renovare USA.

Read Full Post »

Se pudéssemos definir espiritualidade, poderíamos dizer que a mesma trata dos movimentos da alma rumo a Deus. Por isso, espiritualidade não é algo iminentemente cristã. Temos espiritualidade budista, kardecista, Islâmica etc. Não vamos entrar aqui no mérito da questão de qual é a verdadeira, qual é a falsa, se todas são verdadeiras e coisas desse gênero. Apesar de crer que a espiritualidade cristã, fundamentada num relacionamento com o Cristo vivo – único caminho que nos conduz ao Pai – seja a única genuína, o propósito do texto não nos abre espaço para tais considerações.

Quando refletimos acerca do que a espiritualidade cristã é, isso faz-nos deslumbrar o grande milagre da salvação da alma humana através de nosso Santo e Bendito Senhor Jesus Cristo. As Escrituras nos afirmam a deplorável situação de toda a humanidade, no que diz respeito à sua condição espiritual, sem Cristo. Em Rm 6:17 o apóstolo São Paulo nos fala da realidade que caracterizava a vida daqueles cristãos, e também de todo ser humano, ates da experiência de conversão:

“Mas graças a Deus porque, embora tendo sidos ESCRAVOS do pecado, obedecestes de coração à forma de ensino a que fostes entregues”

Aqui somos informados de que a condição do homem antes de sua união ao Cristo de Deus é o de escravo do pecado. O que se traduz uma natureza, uma inclinação moral e espiritual na direção de uma experiência de vida em franca rebelião à Lei do Criador. O apóstolo fala de “pecado” e não “pecados”, mostrando o mesmo se tratar de uma condição inerente da natureza humana.

Continuando, o mesmo apóstolo nos dá novas informações da condição humana sem Cristo. Em Ef 2:1 ele escreve as seguintes palavras:

“Eles vos deu vida, estando vós MORTOS nas vossas transgressões e pecados”

Neste trecho das Escrituras a notícia que recebemos é que a condição humana é a de morte espiritual que se traduz numa separação no relacionamento com Deus. Nas Bíblia morte tem o significado de separação. Que é a morte física senão a separação da parte material da espiritual que nos compõem? Logo, a morte espiritual, por causa do pecado inerente a toda a raça humana (cf. Rm3:23;  5:12) faz parte da realidade de todos independente de cor, etnia, condição social etc.

Dito isso acerca da deplorável condição espiritual do homem perante o Santo Deus, fica-nos ainda mais evidenciado a glória de Cristo como propiciação pelos pecados e a dramática transformação a que o homem se vê perante Deus quando o mesmo é colocado debaixo de um relacionamento redentor com o Unigênito Filho de Deus.   

As Sagradas Escrituras dizem-nos que ao homem em Cristo é concedido o privilégio de ser tornado filho de Deus por adoção (Jo 1:12). O Santo Espírito da parte do Pai vem habitar no corpo do ser humano preenchendo-o com o amor do Pai (Rm 5:5) e testificando no nosso coração  a respeito dessa neo relação filial com o Eterno (Rm 8:16).

Uma nova vida, fruto de um novo coração, que é a própria vida de Jesus acontecendo, tem início na vida dos que entregaram-se em fé a Cristo. No entanto, mesmo à luz de toda esta glória nem tudo são rosas. Existem sombras em meio ao sol do meio-dia. As Escrituras são igualmente realistas e pródigas em nos informar acerca da luta diária que todo cristão tem que travar afim de que essa nova vida (a vida do próprio Jesus) possa se desdobrar em todos os seguimentos da existência humana.

É-nos revelado, da parte do Pai que, apesar de hoje sermos seus filhos em Cristo, livres de toda e qualquer condenação do pecado, ainda carregamos dentro de nós um impostor: a natureza humana corrompida, maculada pelo pecado a que a Bíblia chama de carne. A qual segundo São Paulo luta diariamente contra o Espírito Santo tentando nos levar a desvirtuar-nos do novo Caminho (Gl 5:17).

Diante disso entra a doutrina da cruz diária, a cruz de nosso bendito Senhor e Salvador Jesus, e a mortificação dessa carne afim de que o falso eu (velho homem) nascido em pecado,  progressivamente seja vencido, dando lugar ao verdadeiro eu (novo homem) criado por Deus à semelhança do Seu Filho.

Acerca disso o apóstolo das gentes nos escreve em Gl 5:24 –  

“Os que são de Cristo Jesus CRUCIFICARAM A CARNE juntamente com suas paixões e desejos” 

A crucificação da carne aparece como obra pretérita porquanto na morte de Jesus, na sua cruz, todo o poder do pecado que antes escravizava o homem foi vencido, tornando-lhe possível a vitória diária sobre os desejos carnais. Em razão disso que nosso bendito Senhor nos fez o convite da cruz diária como parte integrante do seu seguimento. Em Mt 16:24 o apóstolo registrou as sagradas palavras de tão glorioso chamamento:

“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”

O convite é o de tomarmos a nossa cruz porquanto ele levou a dele. O chamado é o de morremos diariamente para o nosso falso eu, ressurgindo na glória do novo eu que faz do verdadeiro discípulo do crucificado sal da terra e luz do mundo. Contudo, nesse momento surge-nos uma pergunta: De que forma esse crucificar, carregar diário da cruz, se dá na prática? A essa pergunta o grande apóstolo nos responde em Gl 5:16 –

“Mas eu afirmo: ANDAI PELO ESPÍRITO  e nunca satisfareis os desejos da carne.”

A  notícia a que somos expostos no texto acima referendado é de que se andarmos pelo Espírito, ou seja se vivermos guiados, influenciados e em franca obediência aos comando da gloriosa Terceira Pessoa da Bendita e misteriosa Trindade, o Consolador, mortificaremos a carne com seus desejos e apetites pecaminosos.

Conquanto isso seja verdadeiro, devemos agora arguir de que maneira em nosso viver diário podemos abrir-nos à obra imprescindível do Espírito de Deus na mortificação da carne. Como se dá essa entrega diária ao controle do Espírito Santo. É nesta gloriosa empresa que a espiritualidade vem nos fornecer os meios para alcançarmos tão desejável objetivo. No tocante à mortificação da carne, o efeito da cruz diária, podemos, à guisa de uma maior compreensão, considerar a mortificação em duas áreas principais da vida humana: a mortificação da mente carnal e a mortificação do corpo. Não se faz necessário o mencionar de alma e espírito porquanto os mesmos fazem parte do nosso homem interior o qual está firmado em Deus, sem que o demônio possa causar dano aos mesmos (cf. 1Jo 5:18).

A ASCESE

Já vimos acima que apesar da nova natureza em Cristo ainda carregamos uma velha natureza em nós contrária aos mandamento de Deus. A grande verdade é que a cruz diária (mortificação) do nosso falso eu se faz necessária porquanto antes de conhecer Jesus vivemos uma vida inteira no hábito da prática do pecado. Nossa mente e corpo estão “viciados” na prática do pecado. A inclinação deles é para pecar, ainda. Assim, a necessidade que temos de treinar (ascese) mente e corpo para a nova vida espirital que está acontecendo dentro deles é de gritante urgência.

A espiritualidade com suas disciplinas ascéticas podem nos ajudar nesse sentido. Não me aterei no detalhamento das mesmas visto existirem outros textos que tratam de sua descrição em caráter detalhado:

A MORTIFICAÇÃO DA MENTE

A Bíblia diz que o homem é aquilo que ele pensa (cf. Pv 23:7). Sabedor disso o apóstolo São Paulo nos instrui acerca da necessidade de renovação da mente (Rm 12:2). Para esse propósito temos a meditação nas escrituras e o estudo acadêmico das mesmas como disciplinas fundamentais para a obra da mortificação dos padrões malignos de pensamentos que ainda existem em nós herdados de nossa vida espiritual pregressa.

A primeira disciplina (meditação) visa atingir o coração, os afetos e emoções. Temos na prática da Lectio Divina um caminho profícuo e comprovadamente eficaz nesse sentido.

Na segunda disciplina (estudo) visamos atingir a razão, o intelecto, o entendimento. Nesta área existe uma gama de métodos como estudo indutivo, estudo analítico que são formas de se estudar a Bíblia numa dimensão estritamente intelectual.

O contato com a Palavra de Deus, viva e eficaz,  através das disciplinas da meditação e do estudo visam nos colocar perante aquela que é lampada para os pés e luz para o caminho (Sl 119:105). Aquela que é a Verdade que santifica (cf. Jo 17:17)  e que nos liberta de toda a mentira espiritual (2Tm 3:16).

A MORTIFICAÇÃO DO CORPO

São Paulo nos fala de uma lei do pecado que opera nos membros de nosso corpo (cf. Rm 7:22,23) que guerreia contra o homem interior que tem prazer na Lei de Deus. Portanto, necessário nos é mortificarmos nosso corpo humano, habitação do Espírito, e sujeitá-lo ao Senhor para que o mesmo não apenas more nele, mas, acima de tudo, faça acontecer em nós a gloriosa simbiose espiritual de que as Escrituras nos informam (Gl 2:20; Gl 5:22,23).

Aqui nos é imperiosa a incorporação das chamadas disciplinas de abstenção para a proposta obra de mortificação de nossos corpos. Temos no jejum, no silêncio e na solitude três disciplinas que podem nos auxiliar nisso.

No jejum abstemo-nos de alimentos e às vezes, por período bem pequeno, de líquidos também visando ensinar nosso corpo a não tornar-se escravo das necessidades fisiológicas. Com essa prática estamos dizendo ao corpo: “Corpo sou eu (em Cristo) que te domino; e não você a mim”. Através do jejum percebemos e acessamos a realidade de que existe uma substância fundamental, maior do que comida e bebida, que sustenta a nossa vida e existência (Mt 4:4; Jo 4:31,32).

No silêncio temos a busca pela ausência de sons, ruídos e vozes, tanto externas quanto internas, para que dessa forma possamos nos colocar em amorosa atenção à presença e voz de Deus. E na solitude nos colocamos a parte da presença de pessoas para estarmos sozinhos com Deus. Silêncio e solitude andam de mãos dadas. Uma não existe sem a outra. E ambas visam privar nosso corpo de sons, imagens e interações humanas afim de que sejamos libertos das compulsões que caracterizam a sociedade apressada dos dias de hoje. No silêncio/solitude vencemos o vício do desejo de  ter e fazer e acessamos o tesouro da simplicidade do apenas ser. Simplesmente ser quem somos perante a face amorosa do Pai. E assim estarmos totalmente presentes no momento, não mais fragmentados.

Oh! Esta é a verdadeira glória da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, através da qual estamos crucificados para o mundo e o mundo para nós: através da experiência fundamental da cruz do calvário que salva e vivifica o homem morto em delitos e pecados, ser-nos possível a obra diária da crucificação, mortificação do nosso falso eu (carne), repugnante e impostor aos olhos do Deus Santo. Deveras somente debaixo da obra regenerativa da Graça de Cristo é que podemos fazer uso das disciplinas acima comentadas com o proveito santo de caminharmos em direção a genuína metanóia/metamorfose em imagem de Jesus. Se não for assim meditar não vai passar de um emocionalismo piegas; o estudo, atividade intelectual árida e o jejum, silêncio e solitude o tolo privar-se pelo privar-se.

“Mas longe de mim orgulhar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus  Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gl 6:14)

Finalizo a presente exposição lembrando-me da conversa que um pastor amigo teve com um monge ancião beneditino por ocasião de sua visita ao mosteiro. Em dado momento do diálogo o pastor impressionado com a lucidez do ancião lhe questionou o porque do mesmo não voltar a estudar teologia e filosofia. O ancião fez um período de silêncio, olhou para seu interlocutor e lhe deu uma resposta que impactou sua vida profundamente: “Há mais de trinta anos estudo e contemplo a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. Se ela  não puder me ensinar nada, nada mais o poderá”.  

Read Full Post »

“Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim (…) Portanto está alegre o                           meu coração”                                                             (Sl 16:8, 9)

O estilo de vida que adotamos fala muito em relação à realidade de quem somos. Ele revela nossos anseios e desejos; nossas espectativas e frustrações. No nosso estilo de vida repousa uma gama muito extensa de experiências que vivemos, palavras que nos foram direcionadas, sonhos os quais não conseguimos trazer à existência. Devemos ainda levar em consideração a carga genética e as predisposições congênitas de comportamento as quais herdamos diretamente de nossos avós e pais.

De uma forma ou de outra todos são formados interiormente à imagem de toda esta bagagem emocional, social e hereditária. E tudo se traduz numa forma de comportamento a qual chamamos de estilo de vida.

Assim, quando consideramos toda a formação que recebemos como fruto destas experiências pessoais, como cristãos, percebemos a necessidade de transformação que nos capacite a nos enquadrar num novo estilo de vida.

A experiência com Cristo conduz-nos a uma nova dimensão comportamental caracterizada por um abandonar das coisas antigas e um abrir-se para o novo de Deus (cf. 2Co 5:17).

Desse jeito é necessário que encaremos a comunhão com Deus como parte integrante, integradora e determinante de um novo estilo de vida a que temos acesso por intermédio de Seu Santo Espírito: um estilo de vida contemplativo.

Este estilo de vida quebra de vez com o estereótipo reducionista de que a vida com Deus, o andar no Espírito, a experiência da presença do Totalmente Outro, é algo a que se tem acesso apenas entre as quatro paredes de uma igreja ou em meio à clausura de um monastério.

Um estilo de vida caracterizado pela contemplação resulta numa nova percepção e experimentação das possibilidades do Sagrado e da beleza inata das coisas efêmeras. Liberta-nos da distração e desatenção. Isso é bem retratado nas palavras de Elizabeth B. Browning:

“A terra está repleta do céu.

E cada sarça comum ardente por causa de Deus.

Mas somente quem percebe tira as sandálias.

O restante se assenta ao redor colhendo amoras”

Um estilo de vida contemplativo é aquele que aguça a nossa percepção de que céu e terra se conectam de forma misteriosa. Que há uma beleza a mais numa ávore comum além do simples prazer de colher uma fruta madurada. Que este mundo está embuído e permeado pela glória dAquele que emana e transcende todas as coisas.

Esta forma de viver nos permite usufruir uma espiritualidade holística que inclui todas as coisas, poupando-nos, desta forma, de uma vida espiritual fragmentada, aprisionada em meio ao pensamento dicotômico de sagrado e profano; espiritual e secular. Como diz Ed Renê Kivitz não podemos considerar a Deus sem também levar em consideração o pardal, a palmeira, a montanha etc.

Este estilo de vida é o estilo de vida dos grandes místicos que aprenderam a perceber e a praticar a presença de Deus. Que descobriram o segredo de orar incessantemente e o duçor da comunhão constante e ininterrupta com Cristo.

Agora, de que forma podemos nos engajar neste estilo de vida ébrio de mistério e de Deus? A seguir compartilho algumas das principais práticas que têm acompanhado o viver contemplativo no decorrer da história cristã:

1. A Prática da Oração do Coração – Conhecida também como a oração de Jesus. Consiste na invocação do nome bendito do Senhor numa fórmula orante “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim, pecador!” O propósito desta oração é entrar no descando e quietude interiores.

Esta fórmula tem tudo o que uma oração exige: Reconhece-se o Senhorio e divindade de Cristo (Senhor Jesus Cristo) ao mesmo tempo em que se reconhece nossa pecaminosidade e consequênte dependência da misericórdia divina (tem piedade de mim, pecador).

Podemos, praticá-la caminhado na rua, dentro do ônibus indo para o trabalho ou quem sabe enquanto realizamos nossas tarefas domésticas.

2. A Meditação Ruminatória – A princípio este nome pode-nos parecer estranho. Creio que isso acontece porque não estamos familiarizados com o que significa meditar. Acreditamos que ler cinco ou seis capítulos da Bíblia por dia, passando batido por eles significa que meditamos nas Escrituras. è verdade que o meditar passa pela leitura. Contudo, nem toda leitura bíblica que fazemos necessariamente significa que também meditamos.

A palavra hebraica “haga” significa murmurar a meia voz mexendo os lábios; repetir. Deste significado vem a idéia de “ruminar” ou “mastigar” a Palavra. Como se dá isso? No momento de sua leitura bìblica – e aqui sugerimos não uma leitura longa de capítulos, mas, de proções pequenas, quem sabe apenas um versículo – escolha uma palavra, uma frase ou um verso inteiro que tenha tocado seu coração. Repita-o em voz baixa em atitude de oração. Quem sabe, se você preferir, você pode escrever este verso num pedaço de papel e levá-lo consigo. Assim quando desejar repetir não correrá o risco de esquecer o texto.

Este exercício nos ajuda a continuamente mantermos nossa atenção naquilo que Deus falou-nos ao coração enquanto o Espírito Santo faz com que a verdade da Palavra de Deus crie raizes em nossa alma. Deste jeito teremos o Senhor continuamente diante de nós. Pela lembrança contínua de sua Palavra.

3. O Convite a Jesus – Uma outra forma de vivermos um estilo de vida contemplativo é aquilo que denominei de convite a Jesus. Seria a prática de tornar o Senhor participativo de tudo quanto nos fizermos durante nosso dia. Devemos ter em mente que Cristo nos ama, e por causa disso, deseja fazer parte de tudo que se relaciona conosco.

Não existe nada trivial relacionado a nós que ele não se importe. Em Pv 3: 5, 6 nos diz – “Confia no Senhor de todo o teu coração (…). Reconhece-o em todos os teus caminhos (…)”. A grande verdade é que quando amamos alguém, confiamos nesse alguém. E por confiarmos convidamos este alguém para ser parte integrante de nosso viver.

Para que possamos ter uma idéia do que seja isso, Frank Laubach nos descreve sua experiência de convidar a Cristo para participar das coisas comuns do seu dia-a-dia. na carta para seu pai em Janeiro de 1930 assim ele diz:

“Nos últimos dias, minha experiência de entrega tem sido mais completa do que nunca. Estou reservando, por vontade própria, um tempo suficiente a cada hora para refletir sobre Deus. Ontem e hoje, realizei uma nova aventura, que não é fácil de ser relatada. Estou sentindo Deus em cada movimento, por um ato de vontade – ansioso para que Ele dirija estes dedos que agora batem nesta máquina de escrever – ansioso para que ele flua por meio de meus passos enquanto caminho – ansioso para que ele controle minhas palavras enquanto falo, minha boca enquanto me alimento”.

A exemplo de Laubach podemos fazer o mesmo. Não é nada de extraordinário no seu sentido restrito. Por exemplo enquanto você estiver tomando seu café você pode dizer para Deus: “Que delícia de café, Senhor! Obrigado pela oportunidade de saborear um café tão delicioso”. Quando você estiver caminhando na rua você pode dizer para Cristo: “Senhor Jesus, guia agora as minhas pernas enquanto caminho”. Em relação ao perigo das tentações vizuais você poderá orar: “Senhor, toma estes olhos em tuas mãos. Guia-os para que eles não se desviem para o mal”. No seu trabalho a coisa pode acontecer assim: “Jesus, ajuda-me a montar esta planilha eletrônica” ou ” Senhor, dá-me atenção para que eu não erre nestes cálculos”. Se for serviço de rua: “Deus, em meio aos perigos desta cidade, guarda-me enquanto caminho por esta rua; avenida” etc. Se você lida com o público pode ser assim: “Senhor, dá-me paciência afim de que eu possa conceder um atendimento com qualidade”. Se for em casa, nas tarefas domésticas: “Jesus, sê com meus braços enquanto varro esta sala; enquanto lavo estas roupas; enquanto tiro este pó”.

As possibilidades são inesgotáveis desde o momento em que nos convencemos de que Jesus tem prazer em participar das nuances do nosso cotidiano.

4. A Prática das Disciplinas Espirituais – Na história dos grandes místicos e contemplativos do passado, a presença da ascese era algo comum nas suas vidas.

Ascese é um termo grego comum que significa simplesmente “treinamento”. Logo, o que seriam as disciplinas espirituais? São atividades que treinam o nosso corpo e alma para que a vida de Deus possa acontecer em nós. Elas nos colocam numa posição tal em que o Espírito Santo possa nos transformar, formando a imagem de Jesus no nosso eu interior.

São muitas e diversas estas disciplinas espirituais: jejum, oração, clebração, serviço, confissão, silêncio, solitude, meditação etc.

Gostaria de me ater a duas delas, pois, o espaço não me permite prolongar. Consideremos o silêncio e a solitude. Estas duas disciplinas caminham de mãos dadas, geralmente. No silêncio eu busco calar as vozes exteriores e interiores para retornar ao meu centro, onde o Espírito de Deus habita para, assim, poder ouvir a sua voz. Na solitude procuro me esquivar das aglomerações humana para poder estar a sós comigo mesmo e com Deus.

Quando estudamos acerca destas duas disciplinas descobrimos que as mesmas, juntamente com a lectio divina, ou leitura orante das Escrituras, ocupavam um lugar central nas atividades ascéticas da vida monástica.

Logo, quando temos acesso a estas informações, questionamos: “mas, não somos monges e nem vivemos na época que eles viviam. Então, não podemos praticar estas disciplinas espirituais?” A resposta é simples: É claro que podemos.

Nosso grande desafio, então, constitui em conseguirmos incorporar na nossa rotina corrida de vida pós-moderna estas atividades espirituais. De que maneira:

4.1. Estabelecendo momentos e períodos de silêncio. Podemos falar de momentos de silncio como por exemplo no seu período devocional separando parte dele para colocar-se em silêncio diante de Deus. Quem sabe pode-se começar com dez minutos e ir aumentando gradativamente.

Podemos ainda considerar dias de silêncio. Como por exemplo num feriado prolongado que começa numa quinta.

Podemos também considerar uma semana de silêncio, ou um mês de silêncio. Isso acontece no período de férias onde você pode viajar para um lugar reservado comoa casa de praia de um amigo ou uma aconchegante pousada serrana.

4.2. Estabelecendo momentos e períodos de solitude. Seu momento devocional onde você praticará o silêncio deve, se possível, ser num lugar reservado onde ninguém lhe pertube. Um quarto de porta fechada, ou num jardim debaixo de uma ávore. O importante é que você possa ficar a sós com Deus.

Também você pode reservar na sua casa um “cantinho da solidão” e combinar com a família que sempre que você estiver lá significa que deseja ficar sozinho. Pode ser um cadeira, ou uma poltrona ou até mesmo um local da casa. Vale aqui a criatividade.

A questão de dias, semanas e meses de solitude se aplicam as mesmas idéias que tratamos acima para o silêncio.

Quem sabe você também possa empreender uma caminhada num local com bastante árvores e flores e lá estar a sós e em silêncio saboreando a presença Deus e observando com mais atenção a natureza que nos revela, como sacramento, a majestade e a glória do Criador.

Existem muitos outras práticas contemplativas. A medida que colocarmos estas em prática o próprio Deus irá nos mostrar outras maneiras de andarmos continuamente em sua presença.

Por fim desejo dizer que apesar destas práticas terem caracterizado a peregrinação espiritual de homens e mulheres de tradição contemplativa ao longo dos séculos, estas, contudo, não são o ponto central de sua espiritualidade.

O que essencialmente define um estilo de vida contemplativo é um viver encharcado por amor: amor de Deus; amor a Deus e amor ao próximos.

Amor este cuja base é o amor do Pai revelado no Filho o qual deu a própria vida para nos resgatar. Por isso o amor de Jesus não apenas nos introduziu na vida contemplativa como também a sustenta e alimenta.

Não há vida contemplativa fora do amor de Cristo. Thomas Merton escreve com grande discernimento acerca disso:

“Não há verdadeira vida espiritual fora do amor de Cristo. Temos uma vida espiritual unicamente porque ele nos ama”.

E vivendo na dinâmica deste amor sublime podemos, como canais, espalhar sua glória estando em sua presença com o coração cheio da alegria dos céus.


Read Full Post »