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Posts Tagged ‘Discipulado’

download “Retirou-se para uma região perto do deserto, e lá permaneceu com seus discípulos.” (João 11:45-56)

Em um avião, nas instruções pré-decolagem, rotineiramente lhe dizem que em caso de emergência você deve deixar tudo para  trás, até seus sapatos. Imagino quantos tentariam levar sua bolsa ou laptop ou pegar seus documentos na bagagem guardada no compartimento acima da cabeça. Em uma crise dessas, deve ser tão difícil deixar tudo para trás quanto o é na meditação diária. Mas são coisas e pensamentos.

Quando os passageiros do 11 de setembro estavam se preparando para o fim, ao que parece, tinham uma preocupação. Deviam estar terrivelmente impelidos ao total desapego, como uma pessoa condenada aguardando a execução, ou alguém com uma doença terminal. Muitos queriam apenas telefonar para as pessoas que amavam e dizer que as amavam.

Nos momentos críticos em sua vida, Jesus estava em solitude, mas estava solitário com seus discípulos mais próximos. Quando soube que era um homem marcado, esperando pela batida à meia-noite na porta ou, no seu caso, pelo beijo do traidor no jardim, seu instinto era de ir para perto do deserto – um lugar associado com ambos a solitude e o mais profundo de todos os relacionamentos, no chão da existência. E foi para lá com esses seres humanos que melhor compreendeu e que, apesar das deficiências deles, melhor o compreenderam.

A solitude é verdadeira e muitas vezes é deliciosa, mesmo que dolorosa. A solidão é inferno engendrado pela ilusão de separatividade. Na solitude somos capazes de relacionamentos fortes e profundos porque na solitude descobrimos nossa singularidade, mesmo (ou talvez, especialmente) se essa singularidade está associada com a morte. 

Se meditação diz respeito a liberação de apegos e ida ao deserto da solitude, também diz respeito a descoberta da comunhão com outros a quem chamamos comunidade. Saber que somos condiscípulos na presença de nosso mestre é, mesmo quando as coisas estão desmoronando, uma fonte de incomparável contentamento.

Com amor

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Laurence Freeman

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morreu-dallas-willard-autor-de-a-conspiracao-divinaDallas Willard, escritor e filósofo de destaque em sua “busca silenciosa para subverter o cristianismo nominal”, morreu nesta quarta-feira (8) depois de perder uma batalha contra o câncer. Ele tinha 77 anos.

“A morte de Willard é uma perda para todos os cristãos”, disse Richard Foster, amigo de longa data e também escritor. “Para nós, uma grande luz se apagou”, disse Foster. “O céu hoje é brilhante”.

Na última segunda-feira, Willard havia revelado o diagnóstico de câncer em estágio 4 e a doença progredia rapidamente.

Bill Heatley, genro de Willard, escreveu na terça-feira enquanto estava com Willard no hospital:

“Estou sentado no quarto do hospital, cuidando de meu querido amigo Dallas, lendo e postando sobre A conspiração divina em sua conta no Twitter e Facebook e estou espantado com as suas palavras e sua vida. O amor de Deus flui de Dallas para Becky (sua filha) e para Larissa (sua neta) e mil gerações serão abençoadas por causa de seu amor a Deus e à vida eterna em Cristo. Estou na zona de impacto de todos aqueles que estão orando por ele. É difícil descrever, mas o reino é incandescente em volta de mim”.

O último trecho publicado por Heatley na página de Willard antes de sua morte falava sobre “não haver morte” para os verdadeiros seguidores de Cristo: “Aqueles que vivem na dependência da palavra e na pessoa de Jesus, e sei por experiência a realidade do seu reino, estarão sempre melhores ‘mortos para si mesmos’, a partir de um ponto de vista pessoal”.

Willard é bastante conhecido por muitos cristãos por causa de seus livros sobre a formação espiritual, incluindo “A Conspiração Divina” (escolhido pela Christianity Todaycomo “Livro do Ano” em 1998).

Em fevereiro, o Centro Dallas Willard organizou uma conferência chamada “Conhecer a Cristo” que contou com uma série de palestras comemorando os ensinos de Willard. O escritor fez o discurso de abertura, cujo tema foi “Como viver bem: A vida eterna começa agora”.

O pensamento crítico de Willard fez dele um pensador cristão provocador desde os anos 1960, quando ele abandonou o estudo formal do ministério para estudar filosofia.

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Em menos de dois meses, após a partida de Brennan Manning, mais um de meus mentores seguiu para o outro lado da eternidade. Também nunca conheci Dallas Willard pessoalmente, mas, a influência de seus escritos sobre minha vida espiritual é no mínimo inominável. Foi ele quem introduziu-me na compreensão de quão necessárias são as disciplinas do espírito para a fomentação de uma vida cristã profunda. Silêncio, solitude e afins eram palavras estranhas à minha espiritualidade antes de Willard. Escritor profícuo e grande pensador filosófico, provou com seus livros e vida que intelectualidade e mística cristã não se excluem mutuamente, mas, ambas são imprescindíveis para a compreensão do mistério de Cristo. Em uma geração em que a reflexão superficial acerca das verdades da fé somada ao testemunho de vida contraditório têm conquistado os holofotes da sociedade, a perda de um homem como Dallas Willard faz com que o cenário cristão torne-se mais pobre. Infortúnio na terra, alegria nos céus. Obrigado Willard. Vai em paz mano e…até breve! Paz e bem!

tau

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O título acima é a célebre frase proferida por Cícero ao ver a corrupção e desvios da igreja de sua época. A tradução da frase seria algo do tipo “Que tempos os nossos! E que costumes!” Isso tem tudo a ver com o que vou compartilhar a seguir, pois, tenho para mim, que se Cícero estivesse em nosso tempo, ao contemplar os caminhos da igreja de hoje, não alteraria seu desabafo pessoal: “O tempora, o mores!

Vivemos dias negros da história do evangelicalismo cristão. Poderíamos afirmar que presenciamos uma espécie de segunda “Idade das Trevas” onde se proliferam superstições e  crendices que nada mais são do que a franca deturpação da simplicidade do evangelho de Cristo. O apaixonante e apaixonado evangelho que é “o poder para a salvação de todo aquele que crê” (cf. Rm 1.16).

Não é de se admirar o surgimento e a formatação de algumas espiritualidades estranhas, caricaturadas que advogam para si o nome honroso de cristãs. Nada mais normal e lógico do que isso: evangelhos estranhos, espiritualidades estranhas. Era de se esperar que isso acontecesse em terras tupiniquins, já que a igreja brasileira tornou-se uma cópia barata da igreja norte-americana que tem sido a precursora da diluição do vinho ardente de Cristo. 

O surgimento da espiritualidade pop com suas celebridades e estrelas gospels, e da espiritualidade hedonista que tem a teologia da prosperidade como seu principal ícone representativo, têm conduzido as fileiras de cristãos na igreja como manada entorpecida rumo ao matadouro de uma vida espiritual epidérmica de discipulado inconsistente, vida de oração frívola e de total ou quase total ausência de meditação e contemplação nas Sagradas Escrituras.  

O que nos parece é que uma grande parcela dos cristãos hoje em dia  já não deseja ver cumprindo em sua vida o chamado apóstólico de ser uma voz profética de contracultura em meio à sociedade:

“E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”(Rm 12:2)

A grande problemática velada por detrás do presente estado das coisas, é a falsa esperança da vivência de uma espiritualidade cristã autêntica sem que isso implique em se carregar a cruz todos os dias (cf. Lc 9.23). Discipulado sem cruz, sem negação do falso eu, sem a não conformação com os ventos comportamentais de uma sociedade em franca rebelião ao Homem da Cruz é no mínimo algo inconcebível como se querer que exista vida neste planeta se o oxigênio aqui acabar. Assombra-nos o fato de que bem poucos queiram o martírio de serem taxados como tolos por causa de Cristo (cf. Mt 5.11; Jo 15.19).

A cruz de Cristo é o chamamento da morte para a vida. Não somente dos que ainda estão perdidos no oceano de pecados, mas, sobretudo dos que já encontraram a rota para casa. A Bíblia nos fala não apenas de um Senhor crucificado, mas, de homens e mulheres crucificados também (cf. Gl 2.20; 5.24; 6.14). A cruz é o estandarte do nosso Reino. É o brasão da família real a qual pertencemos. Sem ela não há relacionamento com Deus. Mística sem a cruz de Cristo não passa de mais uma superstição das trevas que cobrem a vida espiritual de muitos filhos e filhas de Deus dentro das igrejas.  

Na cruz de Jesus temos o caminho para o retorno à espiritualidade genuinamente cristã. Na cruz nos vemos face a face com aquele que nos mostra as perfurações de suas mãos e pés, as marcas dos açoites, os hematomas das pancadas que lhe foram desferidas, o cenho rasgado pela coroa de espinhos, e que nos diz no silêncio do encontro: “Tudo isso fiz por você, porque te amo!”

A cruz também nos confere a possibilidade de moldar toda a nossa vida como resposta a tão grande paixão. Na verdade essa é a única resposta relevante que podemos dar: a entrega total e sem restrições a essa amor maravilhoso de Jesus (cf. Jo 14:1). E quando isso acontece vemos emergir uma espiritualidade bíblica porque se alicerça nas páginas sagradas das Escrituras; cristã porque se fundamenta no Cristo vivo, esperança nossa e mística porque proporciona-nos a experiência pessoal, no silêncio, solitude e contemplação, de um encontro com aquele que é Totalmente Outro, Transcendente e ao mesmo tempo imanente.  

Oh! Assim como a cruz de nosso Senhor atraiu a muitos para a salvação quando esta foi levantada do solo, que hoje atraia novamente o coração de homens e mulheres, adultos e crianças,  para um novo e renovador mergulho nas profundezas da intimidade e do seguimento de Jesus Cristo, nosso Senhor. 

“(…) tome a cada dia a sua cruz e siga-me”


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As nossas atitudes, ações e reações, dependem diretamente do estilo de vida que adotamos no cotidiano. Os hábitos que iremos desenvolver, servirão como base para a excelência ou futilidade de nossas palavras e gestos.
Por exemplo, um jogador de futebol que tem como recursos sua agilidade, dom natural de jogar bola, reflexos rápidos e etc, somente os poderá utilizar com destreza se houver um preparo prévio para isso. Não é à toa as horas incontáveis de exercícios físicos, treinos em dia de sol, como em dia chuvoso, dieta rigorosa e muitas outras coisas. Qualquer atleta que se preze jamais acharia que na hora importante do jogo, ele poderia ter um bom desempenho sem antes ter todo este preparo. Assim, a vida rigorosa e controlada do jogador é que o possibilita a gozar de grande performance nas horas curtas e importantes dos jogos.
O grande problema que a sociedade enfrenta nos dias de hoje é exatamente a ruptura do caráter com o carisma. Ou seja, as pessoas se enganam ao achar que podem experimentar níveis de vida mais elevados, seja na esfera material ou espiritual, sem antes terem que modificar a maneira como vivem. Muitos querem conseguir pagar suas dívidas e terem uma vida financeira estável. Nada errado nisso. Porém, estas mesmas pessoas, não desejam abrir mão de suas vidas extravagantes que as levam a consumir mais do que deveriam e poderiam. Políticos e líderes mundiais discursam sobre o desejo do fim das guerras e desigualdades mundiais. Mas não estão dispostos a deixar de lado a imposição de uma política econômica que favorece uns poucos países ricos, enquanto uma grande maioria de nações com poucos recursos, sobrevivem em uma situação que beira a fronteira da total miséria. O fato é este: não dá para se ter carisma sem antes ter caráter; não é possível se desejar atos excelentes sem antes cultivar um estilo de vida excelente.
Na vida espiritual não é diferente. As nossas atitudes como cristãos dependerão, essencialmente, do tipo de vida cristã que cultivamos no corre-corre do nosso dia a dia. Se desejamos seguir a Jesus, sermos como ele foi, e realizarmos obras maiores do que as Suas, devemos adotar o estilo geral do tipo de vida que ele viveu. Neste momento corremos um grande perigo, de acharmos que a vida de Jesus só se resumiu naquilo que ele fez publicamente: curando enfermos, ressuscitando mortos, ensinando a verdade, perdoando os pecadores, libertando os oprimidos de Satanás. Contudo, nos esquecemos que esta vida de Cristo “sob os holofotes” era apenas o resultado natural da vida que ele cultivava no seu particular, quando não estava “sob os holofotes”. A vida que Jesus vivia, os hábitos espirituais que ele aprendeu a cultivar, era o que o permitia fazer o que fez e da maneira que fez. Uma vida de “disciplinas espirituais” como solitude, silêncio, jejum, oração, contemplação, serviço e outras mais, é que eram o Seu segredo da vida em plenitude que ele revelou para nós. As boas novas do evangelho é que esta vida, bem como os meios para experimentá-la, estão a nossa disposição, como esteve para o Senhor Jesus, e para todos aqueles que decidiram imitá-lo ao longo dos tempos.
Exercitemo-nos na piedade, cultivemos hábitos espirituais e devocionais diariamente, busquemos um estilo de vida excelente, para que, deste modo, as comportas do Espírito sejam abertas e as torrentes da virtude de Deus sejam derramadas sobre nós, nos enchendo da Sua vida, e nos livrando de uma existência frustante e trivial.

“Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” (1Jo 2:6)

 

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A ESPIRITUALIDADE DO SEGUIMENTO

No princípio, era o seguidor! Jesus irrompia inesperadamente e dizia: “Segue-me, venha após a mim”. A resposta positiva exigia uma ruptura com a maneira de viver até aquele momento do que aceitava o convite. A vida deveria ser reorganizada. O centro era o mestre e o caminho apontado por ele. Quem aceitava tal convite nos seus termos tornava-se um discípulo. Também, no princípio, existia o simpatizante: aquele que se emocionava com as palavras do Cristo, achava fantásticos os seus milagres, impressionava-se com a originalidade de suas atitudes, nutria enorme curiosidade por encontrá-lo – mas não colocava o pé no caminho. Simpatizava até o ponto de não precisar mudar seu estilo de vida. Tinha admiração, mas não estava interessado na transformação resultante da formação espiritual à qual todos os discípulos viveriam quando resolvessem caminhar o caminho proposto pelo Filho de Deus.
Ainda no princípio, havia o consumidor. Este sequer tinha tempo de ouvir o Senhor; desejava, isso sim, comer o pão e o peixe multiplicados, ansiava pela cura da perna atrofiada, somente tinha interesse em ser restaurado da lepra… Uma vez alcançada a graça, nem sequer lembrava de retornar para agradecer. O discípulo seguia Jesus porque o admirava; o simpatizante admirava sem o seguir, e o consumidor nem seguia e nem admirava, posto que Jesus era apenas um provedor de suas necessidades, e não alguém a apontar-lhe um caminho transformador.
Jesus conviveu indistinta e graciosamente com estes três grupos dentro da multidão que gravitava ao seu redor. Nunca se negou a oferecer caminho aos seguidores, admiração aos simpatizantes e provisão aos consumidores. Todavia, o rabi sabia que os discípulos eram os protagonistas para cumprir sua missão no mundo. Certamente, ele não contava com simpatizantes e consumidores para o estabelecimento do Reino de Deus. Estava certo, como sempre! Nos duzentos anos que se seguiram à sua morte, o pequeno e frágil grupo inicial de discípulos, apaixonado por sua missão, se espalhou por todo Império Romano. Eles haviam sido convocados pessoalmente para seguir um caminho; colocaram o pé na estrada e saíram pelas vilas e cidades com a mesma convocação com que foram convocados: sigamos o seu caminho. Quanto aos simpatizantes e consumidores, não se sabe o que aconteceu com eles. Afinal, quem fez a história foram os discípulos.
Não resta dúvida: o cerne da espiritualidade cristã está em seguir a Jesus. Quando decidimos conscientemente seguir o seu caminho, então a espiritualidade cristã começa a fluir em nós. O Pai, pelo seu Espírito, vai nos transformando na imagem de seu Filho à medida que damos os passos no caminho. Fora do seguimento, não há espiritualidade. Todos nós estamos necessitados de retornar à experiência original dos primeiros discípulos. Sim, nossa carência essencial está em “ver” Jesus de novo surgir em meio à nossa complexa e agitada vida, cheia de cansaço e dores, e sussurrar com ternura e vigor ao nosso coração: “Vem e segue-me!” Quando ele irromper no nosso cotidiano, como aconteceu com os pescadores da Galiléia ou com o coletor de impostos da Judéia, com aquele sedutor olhar a nos convidar a seguir o seu caminho, e largarmos as redes ou a segurança da coletoria, aceitando seu convite, então, experimentaremos real comunhão com o Deus trinitário. Longe do caminho do Filho, não seremos capazes de enxergar a face do Pai e tampouco vivenciar a presença do Espírito. De fato, no cristianismo bíblico, espiritualidade é um mero sinônimo de seguimento.
Se as nossas orações, liturgias, louvores, corais, células, congressos e mensagens não apontam o caminho do Senhor e não convocam o mundo para segui-lo, então, tudo isso pode até ser espiritualidade, mas não é cristã. Se nossas igrejas se tornam fontes de atração para consumidores e admiradores, ao invés de espaços comunitários formadores de discípulos, tenhamos consciência: todos devem ser tratados com graça e amor, como Jesus fez, mas só cumpriremos sua missão no mundo sendo e formando seguidores.
Não deveríamos, mas, infelizmente, estamos hoje diante de uma encruzilhada, que por natureza é o entroncamento de dois caminhos. Entrar por um é necessariamente excluir o outro. Ou escolhemos a espiritualidade do entretenimento, que produz simpatizantes e consumidores, ou optamos pela espiritualidade do seguimento, a que gera discípulos. Tenhamos, contudo, uma certeza – desde sempre, Jesus já fez a sua escolha. Basta, apenas, que o imitemos nela.

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Por Eduardo Rosa Pedreira

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