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Posts Tagged ‘encontro’

Há muito que o cristianismo ocidental perdeu aquele “quê” de assombro, deslumbramento e fascinação diante do mistério divino. Deus se tornou mais comum na mentalidade contemporânea do que podemos imaginar. Temos assistido a completa trivialização do Sagrado e a perda da sensibilidade ao numinoso.

Em dias de capitalismo selvagem, que não apenas tem devorado o recheio de nossos bolsos, mas também engolido nossas almas, a relação homem e Deus sofreu uma dramática reviravolta. O que antes nos fazia ficar estasiados em silêncio, contemplando Aquele que nossa mente não pode compreender, mas nosso coração pode abraçar, hoje é encarado e buscado como mera alavanca para se angariar benefícios pessoais. A fé utilitarista, o discurso triunfalista estão em moda, aliciando a cada dia mais um grande número de admiradores.

Na teologia e no discurso de muitos dos segmentos cristãos da atualidade Deus se vê contra a parede em meio a inúmeras exigências, determinações, constrangido por causa de suas próprias promessas contidas nas Escrituras a atender o homem na hora e do jeito que este o quer. Vemos agora uma drástica troca de soberania: o homem ocupa o trono e a autoridade, enquanto o Deus Triúno, Santo e inescrutável em seu insondável mistério, é colocado como mero lacaio á disposição dos ditames egoístas, e porque não mimados, do mesmo.

Não há necessidade de se dizer que a nossa vida de oração sofreu com tamanha mudança de mentalidade. Nestes dias o paradigma orante são nossas intermináveis listas de pedidos que apresentamos a Deus em nossos momentos devocionais. A meu ver aqui já começa uma grande contradição, pois, devoção não tem nada a ver com pedir, exigir ou determinar algo. Devoção tem mais a ver com dedicação, com o reapaixonar-se, com o redescobrir do assombro que surge na contemplação pura do ser amado. Neste contexto é que devemos redefinir a oração como encontro com Deus.

Um encontro é algo muito importante. Há encontros que marcam indelevelmente a vida das pessoas. Por exemplo os pais que vão ao aeroporto recepcionar o filho a quem não vêem já algum tempo, pois este estuda no exterior. Ou então aquele momento em que separamos para investir um tempo de qualidade junto com ele ou ela. A grande verdade é que os encontros fazem parte da nossa vida. Estão entretecidos na vasta teia que compõe nossa vida de relacionamentos.

Nos encontros não há interesses egoístas. Encontros não permitem exigências ou determinações arbitrárias. Encontro é presença: eu e tu. Encontro é troca. Encontro é dedicação. Encontro é paixão. Paixão que deixa boquiaberto, extasiado , passivo perante o amor que é transmitido através da eloquência de um olhar silencioso. Muita das vezes enconto não requer palavras. Elas são desnecessária. Quando não, acabam por profanar o sagrado do momento. Isso! Encontro é algo sagrado.

Na dinâmica da vida de oração não é diferente. Ou pelo menos não deveria ser. Oração é encontro com o Deus Triúno envolto em mistério, que habita em luz inacessível. Oração é ter a certeza de encontrar a mim mesmo e ao Deus que me conhece e que mesmo assim insiste em continuar me amando, apesar de… Oração como encontro, logo, é comunhão apaixonada entre duas partes amantes e que desejam estar uma na presença da outra.

Desse jeito o silêncio pode, e muito, contribuir para a oração como encontro: com Deus e comigo mesmo. Ao colocar-me na presença de Deus sem palavras posso ficar atento aos pensamentos que brotam em minha mente. E desta forma ser confrontado pelas realidades que muita das vezes ocultam-se por detrás dos mesmos. No âmago dos meus pensamento pode estar a revelação dos “demônios” que afligem a alma. A partir disso posso me colocar na presença do Deus que já me conhece, me acolhe como estou e me ama como sou. Apresento a ele meus anseios e assim a oração passar a ser um encontro comigo nos lugares mais obscuros de minha existência humana e com o Deus que é luz e que a todos ilumina.

Não existe pensamento mais libertador do que este: que posso ser eu mesmo, sem máscaras e desprovido de fobias diante de Deus. Com Deus tenho completo espaço de ser aquilo que sou e não o que as expectativas e exigências dos outros esperam de mim. Quem sou verdadeiramente já não é mais definido por circunstâncias externas, mas, pela imagem original que Deus tem de mim: sou um filho de sua graça, intensamente amado por Ele. E isso me basta.

Assim, sendo a oração uma ponte a se atravessar para um encontro consigo e com o Deus que nos aceita como somos, logo, a oração deve constituir-se para nós numa experiência de aconchego, paz e intimidade. Ao orar nos colocamos, conscientemente, recostados no seio dAquele que é mais do que Senhor. Estamos descansando na presença de quem nos chama de amigos seu.

Consideremos também a meditação como um auxílio para orarmos à moda de um encontro. Quando nos assentamos aquietados para ler sem pressa a Palavra de Deus, abrimos um espaço para que Cristo fale ao nosso coração. Afinal de contas Ele é Logos, Palavra. E nos fala por intermédio de sua palavra. Abrir a Bíblia é ter a boca do Altíssimo aberta para nos falar. O texto em que ouvimos a voz do Eterno é lugar sagrado, onde a sarça arde sem se consumir e nos colocamos descalços ante o mistério do Deus que nos chama pelo nome.

Logo, quando oro em resposta àquilo que Deus falou ao meu coração, esta oração não deixa de ter as dimensões de um encontro. Meu coração se derrete perante o calor de sua voz ecoando das páginas do Livro. Minha vida como um todo age, reage e responde a sua vontade revelada nas páginas da Bíblia. Oração: encontro da Palavra de Deus com meu coração que responde, sedento por Deus.

Oração é mais, muito mais do que aquilo que as pessoas têm feito com ela por aí. Oração não é algo do tipo gênio da lâmpada, nem botão que basta apertar para que recebamos aquilo que queremos, muito menos um memorando destinado ao Chefe do Almoxarifado celestial. Não! Mil vezes não!!! Pelo contrário, oração é comunhão. Orar é travar intimidade e proximidade. Orar é devoção, é entrega de nós mesmos: tudo o que temos e tudo o que somos. Oração é descoberta do eu e revelação do Tu. É lugar secreto de paz, equilíbrio, harmonia e saúde. É experiência pessoal. União perfeita entre duas partes que se amam e se desejam.

Que possamos amar a Deus em oração e através da oração. Que lancemos de nossas vidas, de uma vez por todas, esta concepção mercantilista da fé que encara a oração como mera ferramente para se obter aquilo que se deseja. Que a frieza seja removida de nossos corações novamente, mais uma vez. E que a chama do amor divino volte a arder e nos consumir em emoções sagradas e afetos santificados. Que a oração nos seja mais do que um exercício religioso. Mas um encontro de amor arrebatador com nosso Paizinho Querido que nos convida, como crianças recém-nascidas, a descansarmos em seu colo. Sem pressa. Sem preocupação.

Que assim seja!

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Ao que tudo indica, estas duas palavras tão comuns do nosso vocabulário, por algum motivo, largaram-se as mãos e se divorciaram radicalmente. Necessitamos com urgência reconciliá-las em nossa espiritualidade cristã, se verdadeiramente desejamos mergulhar nas profundezas ainda inexploradas das riquezas divinas.

Desde o momento em que houve a ruptura entre mente e afetos; razão e emoções, ao que tudo indica, as Escrituras começaram a ser encaradas como objeto de investigação acadêmica. Como resultado disso vimos emergir uma teologia intelectualizada, hoje, incapaz de fazer arder em chamas o coração humano. Lê-se a Bíblia com o intuito apenas de se reunir o maior número possível de informações doutrinárias, as quais são expostas nas salas de aula de instituições de ensino cristãs e dos púlpitos de comunidades de adoração com o propósito de unicamente informar as pessoas.

Sendo assim, acabamos por presencia um grande número de cristãos bem instruídos intelectualmente, sem que com isso tenham suas vidas transformadas. Parece-nos que Bíblia e caráter em constante transformação e conversão são duas realidades que hoje em dia tem pouca o quase nenhuma ligação.

A leitura da Palavra de Deus deixou de ser uma experiência do coração que nos atinge mediante uma obra da graça, para deturpar-se numa mera peripécia intelectual de quem a lê. Somos alcançados em nossa mente, contudo, nosso coração permanece intacto. E, consequentemente, nossa vida não transfigurada numa beleza cristificada.

Eis que exércitos inteiros de intelectuais, ébridos em suas próprias jactâncias, exibindo o estandarte de seus títulos acadêmicos avançam rumo às Escrituras para analisá-las, dissecá-las, dominá-las e desvendar seus mistérios que nem homens como João, Pedro e Paulo o fizeram. “Tenho meu Phd; consegui meu Thd”, advogam e se autojustificam os mesmos.

Diante disso, acredito que se desejamos mesmo colocar-nos perante a Bíblia como os primeiros cristãos faziam, faz-se necessários tirarmos as sandálias de nosso orgulho e arrogância intelectuais e nos ajoelhar humildemente sabendo que nos encontramos caminhando em solo sagrado. A sarça ainda arde sem se consumir nas páginas do Livro, o que nos abre a possibilidade de um encontro real e pessoal com o Deus que nos conhece e nos chama pelo nome.

“E, vendo o Senhor que ele se aproximava para ver, chamou-o do meio da sarça: Moisés, Moisés! E ele respondeu: Estou aqui”

Bíblia e encontro. Para que isso nos seja novamente possível; para que haja esta reconciliação, necessitamos primeiramente nos achegar da forma e com uma atitude correta diante das Escrituras. Precisamos, de uma vez por todas, decidir: o que queremos ser? Teólogos, acadêmicos dissecadores ou filhos apaixonados de um Pai amoroso e amigo? Nossa escolha determinará diretamente a forma como lemos e a motivação pela qual nos achegamos à Bíblia. O que queremos ser? De que jeito desejamos ler?

Acredito que uma das formas de reavermos o encontro com Deus através da Palavra, encontro este que atinja o coração e não apenas a mente, com isso gerando transformação de vida, é resgatando uma tradição contemplativa de meditação chamada de Lectio Divina. Esta forma de ler as Escrituras remonta desde os primórdios do judaísmo. Foi sistematizada no século XII por Guigo II, um monge cartuxo. Não obstante, se tem notícias que antes mesmo disso a essência deste método já se configurava como a forma como os primeiros cristãos buscavam seu alimento espiritual nas Escrituras.

Guigo definiu este método de leitura na forma de uma escada de quatro degraus, a saber: leitura; meditação; oração e contemplação. Tendo como meta principal o encontro pessoal com o Cristo vivo que habita o nosso eu interior. O método é tão simples que todos podem praticá-lo.

Primeiramente, antes de tudo, é necessário colocar-nos numa atitude de escuta e numa expectativa de encontro. É muito pertinente nesse sentido colocar-nos em silêncio como preparação que antecede a leitura. E por que o silêncio? Pelo menos por dois motivos: Um deles é para fazer calar as múltiplas vozes interiores que acabam abafando e disputando nossa atenção e com isso impedindo-nos de ouvir a voz de Deus em nós. É um momento não apenas para silenciar palavras, mas , também, para apaziguar o coração.

A segunda razão deste período de silêncio antes da leitura é para nos preparar para escutar. A Escritura diz “O homem seja pronto para ouvir; tardio para falar…”. Escutamos mal porque falamos demais. Nossa tagarelice acaba por nos impedir de ouvir o que Deus tem a nos dizer. O silêncio nos ajuda a corrigir este tipo de desvio. E prepara nosso mundo interior para ser invadido e arrebatado pela Palavra divina.

O degrau seguinte é a leitura do texto em si. Recomenda-se a escolha de um texto curto e não de capítulos inteiros. Devemos sempre nos lembrar que o intuito é o de um encontro com Deus e não o de colher informações. Como deve ser feita esta leitura? Esta leitura deve ser reverente. Numa atitude de temor, deslumbramento e adoração nos achegamos ao texto sabendo que se trata da Palavra de Deus e não dos homens. Esta leitura também deve ser atenta. Sem distrações e sem interrupções. A leitura também precisa ser lenta. Sem pressa, sem passar batido, sem correr. Cada palavra precisa ser saboreada devagar. Leia pelo menos três vezes o texto. Por fim, a leitura precisa ser audível. E isso tem uma razão de ser. Já foi comprovado cientificamente que aquilo que nós lemos vai direto para o nosso cérebro, perpassando por movimentos intelectuais de nossa mente e lá ficando. Enquanto que, por outro lado, tudo quanto ouvimos vai direto para o coração, tocando nossas emoções e despertando nossos afetos.

“Ouve, ó Israel…” (Dt 6:4)

“Quem tem ouvidos para ouvir que ouça…”

Acontecerá num determinado momento que uma simples palavra, ou sentença no texto todo, capture a nossa atenção. Intuitivamente, perceberemos que aquilo é conosco. Então, paramos e nos detemos nesta palavra permitindo, com isso, que a mesma reverbere em nosso coração. Aqui começamos a subir o próximo degrau que é a meditação. É quando o texto ganha vida da parte de Deus para nós. Neste momento devemos personificá-lo, tomá-lo para nós. Pode ser útil também o uso de nossa imaginação ao nos ver sentido o frescor do vento, o cheiro salgado do mar, o murmurar da multidão ao redor de Jesus etc.

Todo mover, de qualquer tipo, gera uma reação. Este mover interior do texto que vai nos invadindo e nos trazendo a Palavra de Deus gera uma reação, impulso espiritual. Entramos no terceiro degrau da escada, a oração. Dependendo do que Deus nos falou através do texto isso vai gerar adoração, louvor, ações de graças, petição, intercessão ou confissão. Trata-se de um movimento conduzido pelo Espírito Santo.

Finalmente, subimos o último degrau da escada, degrau este que nos leva ao topo, ao encontro pessoal em si com Deus. Chamamos esta experiência de contemplação. A união mística da alma com o Totalmente Outro, o Deus Triúno: Pai, Filho e Espírito Santo. É difícil descrevê-la. Nem os grandes mestres devocionais da tradição cristã o conseguiram. Cabe aqui algumas metáforas que podem ajudar a elucidar seu significado:

” Um descanso” em Deus”

“Um olhar amoroso” para Deus

“Um conhecimento além do conhecimento”

Uma atenção extática” para Deus

“Um abraço de amor silencioso

Acerca da dificuldade inerente de se definir esta experiência, Thelma Hall no seu ótimo livro “Lectio Divina, o que é, como se faz”, nos diz o seguinte:

“Todas estas tentativas de verbalizar a experiência necessariamente falham em expressar a realidade, pela simples razão de que a contemplação transcende o pensamento e o raciocínio da meditação, assim como as emoções e ‘sentimentos’ das faculdades afetivas. Ela é, basicamente, uma oração e experiência de pura fé.”

Não só de pura fé, mas, de uma obra de inteira dependência da graça divina. Não somos nós que contemplamos. Deus é quem nos concede a contemplação. É Deus removendo o véu de sobre nossos olhos e dizendo: “Veja, eu estou aqui!”

A contemplação é o emudecer diante dAquele cuja presença se faz. É um estar com Deus e em Deus, longe dos labirintos das imagens mentais e livre dos pensamentos humanos vazios. Não trata-se da busca de sensações, visões ou quaisquer tipos de experiências místicas, apesar de que as mesmas podem ou não acontecer. Contemplação é o perceber, num relance, que Deus está, acolher esta presença querida e nela descansar e permanecer. Sem palavras, sem pensamentos. Só sentimentos, silêncio e assombro.

Nos achegarmos assim à Bíblia, nos levando a um encontro com Deus, fará de nós pessoas melhores. Cristãos melhores. Porque aquela promoverá mudança de dentro para fora. Nos estimulando e nos capacitando a vivenciar o mistério da encarnação: “a saber , Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1:27).

Tereza de Ávila escreveu:

“Toda a mística que se batize de cristã tem de cristalizar numa contemplação de Cristo e numa vontade de encarnar sua vida”.

Que os anjos de Deus em coro digam: Amém!!! E nós também.

Que a Bíblia seja para nós boca de Deus. E que, ao abri-la, sejamos levados ao encontro dAquele que habita no mistério e fulgor de luz inaxecível. O Deus revelatus mas que permanece absconditus em sua identidade mais essencial.

“Mas agora, assim diz o Senhor que te criou, ó Jacó, e que te formou, ó Israel: Não temas, porque eu te salvei. Chamei-te pelo teu nome; tu és meu.(…) Visto que és precioso aos meus olhos e digno de honra, e porque eu te amo, darei pessoas por ti e os povos pela tua vida” (Is 43:1,4)

Que palavras maravilhosas essas. Não seria uma grande tragédia elas permanecerem apenas em nossa mente sem que desça para o coração?


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