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Posts Tagged ‘Espiritualidade Franciscana’

Por Éloi Leclerc *

041012-São-Francisco-de-Assis1As circunstâncias de minha vida, principalmente a prova dos campos nazistas de Buchenwald e de Dachau, durante a última Guerra Mundial, levaram-me à pergunta sobre as possibilidades de uma verdadeira fraternidade entre as pessoas. Será que somos votados a dilacerar-nos sem fim, da maneira mais trágica? Será que é possível uma comunidade humana sem exclusão, sem tirania e sem desprezo? Não seria isto apenas um sonho? Nas minhas dúvidas, voltei-me para Francisco de Assis que me parecia o protótipo do ser humano fraternal, e cujo carisma foi em seu tempo “converter toda hostilidade em tensão fraterna, dentro de uma unidade de criação” (P. Ricoeur).

Mesmo correndo o risco de repetir-me, gostaria de resumir, da maneira mais límpida, o que me pareceu ser o essencial da sabedoria de Francisco de Assis.

Trata-se na verdade de uma sabedoria e de uma grande sabedoria. Francisco não é antes de tudo uma nova Ordem, nem uma nova doutrina, e muito menos um conjunto de regras de conduta. É uma arte de viver, uma certa presença ao mundo, uma nova qualidade de relação com Deus, com os homens e com toda a criação. É também um saber jovial, o segredo de uma alegria de viver sob o Sol de Deus, no meio de todas as criaturas.

Esta sabedoria me impressionou por duas razões: por sua profundidade e por sua extrema simplicidade. Falando de si mesmo, Voltaire dizia, não sem humor, que ele era “como os pequenos regatos, claros porque pouco profundos”. Não é o caso de Francisco de Assis. Ele é ao mesmo tempo simples e profundo. Sua

grande simplicidade não deve enganar-nos. Não vamos acreditar muito depressa que o compreendemos bem. “Não se compreende bem – dizia ele – senão aquilo que se experimenta por si mesmo”. E a experiência aqui envolve todo o ser. Ela é um crisol. Não se pode compreender a sabedoria de Francisco senão seguindo-o naquele caminho de simplicidade que o levou ao mais alto grau de despojamento.

No século XIII, numa Igreja que se tornara feudal e senhorial, na qual os bispos e abades, à frente de grandes domínios, eram verdadeiros soberanos que exerciam um poder temporal, Francisco de Assis encontrou, com o sopro inspirador da pobreza, o caminho da fraternidade. Renunciando a toda propriedade de bens e a todo poder, rejeitando tudo que podia colocá-lo acima das outras pessoas, ele apareceu como o irmão de todos, o amigo de todos, particularmente dos mais humildes. Inaugurou assim uma nova presença da Igreja no mundo.

A pobreza de Cristo que Francisco tanto amava, ele a escolheu e viveu como uma aproximação fraterna dos humanos, como um verdadeiro caminho de fraternidade com todos, sem exceção.


Este vínculo entre a pobreza e a fraternidade está no centro do ideal evangélico de Francisco e é um primeiro ponto essencial da sabedoria do santo de Assis. A experiência o comprova: a propriedade, a riqueza e o poder são fontes inesgotáveis de conflitos entre os homens. “Se tivéssemos posses – dizia Francisco – para protegê-las precisaríamos de armas?”. O mundo é um campo de luta pela riqueza, pelo poder, pela hegemonia. Os discípulos de Cristo devem evitar aparecer como uma nova espécie de competidores na corrida à riqueza, ao poder, às honras … Devem renunciar a toda posição dominante na sociedade e ir ao encalço dos humanos de mãos vazias, oferecendo-lhes apenas sua amizade. Uma amizade desinteressada, sem inveja e sem desprezo, feita de estima e de confiança. Só revelando esta nova qualidade de relação é que os mensageiros do Evangelho poderão anunciar o Reino de Deus. Pois o Reino é precisamente esta nova qualidade de relação entre os humanos: relação de paz, de justiça e de amor fraterno. Só um coração de pobre, isento de qualquer vontade de posse, é capaz de uma tal relação.

Neste caminho de pobreza e de fraternidade não tardaram a surgir as dificuldades. Francisco encontrou-as no próprio seio de sua Ordem, o que o levou a um despojamento cada vez maior de si mesmo. Foi então que experimentou o que é a “santa e pura simplicidade”.

A simplicidade franciscana não é a espontaneidade tão natural da criança. Ela é fruto de uma maturidade espiritual. Não somos originariamente simples, mas antes duplos, ou múltiplos. Quem não representa um personagem ou até vários ao mesmo tempo? Quem não se disfarça ou mascara? Mais profundamente, qual é a pessoa humana que não quer dirigir por si mesma sua própria vida segundo seu modo de ver, seus projetos, segundo o ideal de perfeição que forjou para si mesma? Ora, enquanto nos obstinamos em querer conduzir nossa vida por nós mesmos, não somos simples. Permanecemos sendo pelo menos duplos. Há Deus e nós. O ser humano não se torna verdadeiramente simples senão quando deixa de debater-se na barra de seu destino e se abandona totalmente a Deus.

A “santa e pura simplicidade” é fruto da disponibilidade interior, do despojamento que deixa inteiramente nas mãos de Deus a iniciativa de conduzir-nos a ele por seus caminhos. “Quando eras jovem – diz Jesus a Pedro – tu te cingias e ias onde querias. Quando envelheceres estenderás as mãos e será outro que te cingirá e te levará aonde não queres” (10 21,18).

Francisco fez esta experiência. Deixou-se despojar de toda vontade própria. Incompreendido, frustrado em seu ideal, teve que continuar apesar de tudo com seus irmãos, em vez de tornar-se inflexível e fechar-se na solidão e na amargura. Colocou acima de tudo a comunhão fraterna. Abriu-se assim a uma qualidade excepcional de relação. Nele, a relação fraterna tornou-se transparente, isenta de todo amor-próprio e de todo ensimesmar-se. Ele próprio tornou-se um claro espelho de Cristo. Podia escrever numa de suas Admoestações: “Aquele que prefere aturar perseguições a querer ficar separado de seus irmãos … ‘dá a sua vida pelos seus irmãos”.

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Alegria-SempreA alegria anda desaparecida dos lábios e corações humanos. É tão triste e desolador o panorama mundial; tão insana a luta diária pela sobrevivência e o ganho suado do pão de cada dia. É tão decepcionante todo o esforço contínuo e diuturno por relações humanas que se revelarão na próxima esquina traidoras, desonestas, infrutíferas. É tanto e tudo e mais, que a alegria pura, que jorra com frescor e transparência parece distante, longínqua e mesmo inalcançável..

No dia 4 de outubro celebrou-se a festa de um santo que nos ensina que a alegria – esse artigo raro – pode ser encontrada bem perto, mesmo ao lado. Francisco de Assis, burguês filho de rico comerciante, despiu-se um dia em plena praça para declarar seu amor a Jesus Cristo. E desde aí empreendeu um caminho que o levou aos braços da verdadeira alegria. Alegre e maravilhado com a vida, seu testemunho fala alto ainda hoje aos homens e mulheres do novo milênio.

Um dia Francisco deu a um leproso uma esmola e um beijo. Essa doação dos bens e dos afetos introduziu-o como noviço na escola da perfeita alegria que, no entanto, o levaria por caminho bem diferente daquilo que a lógica humana entende.

Seus sentidos e sua corporeidade afinavam-se à beleza do criado de maneira a sentir-se irmão de tudo e de todos. Vivendo uma fraternidade universal, Francisco apaixonava-se por tudo o que existia e respirava: do lobo ao cordeiro, da água à terra, da vida à morte. Seu olhar maravilhado transformava em canto de louvor toda experiência de vida por mais simples que fosse. Tudo se transfigurava e se revelava grávido do Espírito divino diante de seu coração extasiado.

Por outro lado, seu desejo crescia em ardor e intensidade pela pobreza que o despojava paulatina e radicalmente de toda posse e todo bem. Sedutora como uma bela mulher, a Dama Pobreza conduzia suavemente Francisco em seu caminho descendente de despojamento até chegar ao fundo mais profundo da condição humana, onde o esperava o rosto de seu Senhor feito pobre com os pobres em sua Encarnação e Cruz.

Assim é que a vida de Francisco foi marcada por várias rupturas: era rico e rompeu com a riqueza; rompeu com o pai para viver desatado de todos os laços, mesmo os mais legítimos; rompeu com o orgulho e a avareza, para assumir um modo de vida fundamentado na caridade e na humildade. Em um mundo hierárquico, propôs uma solidariedade horizontal na mais absoluta simplicidade.

E foi aí neste “não ter” nem “ser” nada neste mundo que Francisco encontrou a alegria. Seria doente? Masoquista? Louco? Parece que não, pois até hoje não apareceu sobre a terra homem mais alegre do que Francisco de Assis. Todas essas rupturas, Francisco as fez para abraçar um grande amor. Seu grande amor era Jesus, por quem o Pobrezinho de Assis se apaixonou de tal maneira que terminou por assemelhar-se a ele inclusive nas chagas da Paixão.

A Frei Leão, ensinando o que era a perfeita alegria, Francisco mostrou o caminho da caridade humilde que “tudo crê, tudo espera e tudo suporta”. A única tristeza de sua vida era que o Amor não era amado. Para amar esse que é a fonte do Amor, Francisco a tudo deixou e com tudo rompeu. Ao final desse caminho, esperava-o a comunhão maravilhada com toda a criação. E também a perfeita alegria de saber que a pobreza, a humildade e a caridade em meio a todas as tribulações são o que realmente torna o ser humano livre. Desta liberdade feita de renúncia a tudo que não seja Deus jorra a perfeita alegria, que nada nem ninguém pode extirpar.

Que Francisco de Assis, homem do milênio, nos ensine a construir um mundo feito desta alegria livre e apaixonada, fruto de despojamento, sobriedade, simplicidade e capacidade sem fim de maravilhar-se.

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Extraído do site Espiritualidade Franciscana

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SDC14136A espiritualidade cristã constitui o horizonte mais amplo em que se emoldura a espiritualidade franciscana. Pode-se dizer que espiritualidade franciscana é uma maneira original de viver a espiritualidade cristã, um modo específico de pensar, de viver e de colocar em prática o Evangelho de Jesus Cristo. Uma forma de situar-se no mundo, diante de Deus e dos homens, uma forma de relacionar-se com toda a realidade: pessoas, coisas, Deus.

Quando se fala de espiritualidade franciscana, está-se falando da espiritualidade de um grupo que busca partilhar, entre si e com a sociedade em que vive, o seu modo de viver que teve seu início com Francisco de Assis. É praticamente impossível compreender a espiritualidade franciscana, se não soubermos pelo menos um pouco sobre Francisco de Assis. Isso porque ele encarnou tão profundamente a espiritualidade do Evangelho em sua existência que se torna impossível falar da espiritualidade franciscana sem falar da existência de Francisco. Espiritualidade e existência identificam-se em Francisco.

Seguimento de Jesus Cristo: base da espiritualidade de São Francisco

O encontro de Francisco com Cristo na palavra do Evangelho tem algo semelhante ao encontro de cada um dos apóstolos com Jesus. O encontro dos apóstolos com o Mestre resultou em um chamado: “Segue-me”. O de Francisco, igualmente. Francisco toma consciência de que viver o Evangelho só pode ser uma realidade, quando se segue Jesus de perto. Por isso, nos escritos de Francisco, encontramos, freqüentes vezes, a expressão “seguir a Cristo”. Na regra que apresentou ao Papa Inocêncio para a aprovação, em vez de repetir a expressão “viver o Evangelho”, ele fala em seguir a doutrina e as pegadas de Jesus Cristo e cita textos do Evangelho que mostram, com clareza, a idéia e a decisão do seguimento de Cristo: “Se queres ser perfeito, vai e vende tudo que tens e dá aos pobres e terás um tesouro no céu, e vem e segue-me” (Mt 19,21 e Lc 18,22). E, “se alguém quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo e tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24) (RnB 1,2-4). Mais adiante, na mesma regra, ele exorta os irmãos: “Todos os irmãos se esforcem por seguir a pobreza e a humildade de Nosso Senhor Jesus Cristo” (RnB 9,1).

A expressão “seguir a Cristo” ou “seguimento de Jesus Cristo” merece uma reflexão. Na maioria das vezes, quando se fala em seguir Jesus Cristo, pensa-se em termos de imitação ou de repetição daquilo que Jesus fez. Mas não se trata de reproduzir os gestos e palavras de Jesus à maneira de fotocópia. Com a expressão “seguir a Cristo”, a própria tradição oral dos Evangelhos não entendia a reprodução fiel daquilo que Jesus fazia. Compreendia que, a partir daquele momento, estabelecia-se uma relação especial entre Jesus e aquele que fora chamado a segui-lo. “Seguir” quer indicar esse relacionamento de proximidade.

Surge-nos então a pergunta: que tipo de relacionamento se estabelecia entre Jesus e os que o seguiam? O relacionamento vem traduzido no binômio mestre-discípulo. São dois termos tomados do mundo dos artesãos. Desde a Antiguidade, os artesãos que ensinavam seu ofício a outras pessoas, geralmente jovens, eram chamados de mestres; os aprendizes eram denominados discípulos. Os discípulos faziam tudo para assimilar a técnica, o toque, a maneira especial de trabalhar de seu mestre. Bom discípulo era aquele que mais se aproximava de seu mestre na técnica de seu ofício.

Só que, com o Mestre Jesus, os discípulos não aprendiam um ofício, mas a arte de viver, de relacionar-se com os outros, de estar em contínua referência a Deus, de perceber a realidade. Ser discípulo, então, não significava repetir o que o mestre fazia, mas assimilar aquela maneira de ser e de viver.

Seguir a Cristo, portanto, significa estabelecer com Jesus Mestre a relação de discípulo. E o discípulo, nessa relação com o mestre, passa, pouco a pouco, a assimilar os mesmos critérios de ação do mestre, a posicionar-se na mesma ótica de leitura da realidade, a ter os mesmos sentimentos e, inclusive, a mesma vontade. Por exemplo, a vontade de Jesus Cristo é sempre vontade salvífica, isto é, vontade que quer, acima de tudo, a salvação das pessoas. Os discípulos, em seu empenho de aproximar-se do mestre, começam a educar sua vontade a querer também, acima de tudo, a salvação das pessoas. Seguir a Cristo ou ser seu discípulo é, segundo a palavra de São Paulo, ter o mesmo sentimento de Cristo Jesus (cf. Fl 2,5; Cl 3,12-17).

Desse modo, ser discípulo de Jesus não significa aprender a fazer muitas coisas, mas a fazer todas as coisas com uma determinada marca de qualidade. E é essa marca de qualidade que os discípulos aprendem com o Mestre Jesus.

Com o propósito de viver o Evangelho ou de seguir a Cristo, Francisco procurou, de corpo e alma, a relação com o Cristo Mestre. Aceitando o convite do Mestre para ser seu discípulo, colocou-se num processo de aprendizagem: queria aprender do mestre sua maneira de viver, de sentir, de pensar, de perceber a realidade, de agir e de relacionar-se. Buscava essa relação de proximidade com Cristo por meio da oração e da leitura do Evangelho. Quando não sabia, por exemplo, como agir em determinadas circunstâncias, Francisco lia o Evangelho para buscar, segundo sua expressão, o conselho do Mestre (cf. 2Cel 15; AP 10). Não com o intuito de executar à risca o que lia, mas de agir como Jesus agia. Nada mais importante para ele do que se imbuir do espírito do Mestre. E nessa busca, investia tudo: abandonou os bens, a família, os antigos amigos de festas. Colocava em prática o conselho evangélico: “Se alguém considera seus familiares e amigos mais do que a mim, não pode ser meu discípulo” (cf. Lc 14,26).

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Extraído do site Franciscanos

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