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Posts Tagged ‘experiência’

O segredo do viver silencioso não se encontra tanto no fato de se estar ou não em um ambiente desprovido de sons, barulhos e ruídos.

A grande verdade é que podemos nos encontrar em lugares assim como por exemplo num bosque florido, arvorado, numa manhã em que as folhas das plantas ainda se encontram banhadas pelo orvalho da madrugada anterior, e ainda sim nosso coração estar ruidoso, agitado e oprimido pelas diversas vozes interiores da preocupação, ansiedade e exigências desta vida secular e material.

Oh! Como somos agitados e jogados de um lado para o outro por forças desumanas e desumanizantes que buscam roubar nossa paz. E como nossa alma necessita de uma âncora que nos permita ficarmos estáveis mesmo em meio as águas tumultuadas de nossa existência.

Por outro lado, é verdade inexorável que mesmo em meio ao aglomerado das multidões num centro metropolitano, que caminham no ritmo tirânico dos ponteiros de relógio, flageladas pelos verdugos de suas agendas superlotadas, que desferem seus golpes impiedosos sobre suas almas ao som estridente e altissonante das buzinas dos carros e sirenes de ambulâncias, podemos permanecer numa atitude e experiência de total silêncio interior e quietude de espírito. Voltando-nos para o nosso centro, o nosso EU verdadeiro, criado à imagem de Deus em Cristo, onde Seu Santo Espírito habita e fala conosco.

Talvez não consigamos sempre que desejamos calar e fazer cessar as vozes e ruídos exteriores. Pois, nas maioria das vezes os mesmos não dependem necessariamente de nós. Vivemos num mundo secularizado e barulhento. E desta realidade não podemos fugir. Pelo menos no que diz respeito a uma dimensão física.

Podemos sim, diante do barulho lá fora encontrar o silêncio cá dentro. Em nosso coração. É lá que deve habitar o grande silêncio e a profunda quietude. Mais reais do que quaisquer cessar de ruídos e distrações que este mundo pode nos proporcionar. Deveras um lugar secreto onde nos refugiamos e ficamos a sós com Deus.

Jesus em seu sermão do monte nos ensinou sobre a oração dizendo o seguinte:

“Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.6).

Podemos aplicar este texto numa conotação alegórica, não literal, e compreendermos esta experiência, esta sensação de quietude perene, como um aposento, um quarto secreto dentro de nós, que mesmo em meio ao corre-corre ruidoso de nosso cotidiano, podemos adentrar e permanecer secretamente na presença de Deus.

Pela graça de Cristo tenho podido em alguns momentos repousar neste quarto. Vou tentar descrevê-lo para você. Nele não há mobília: não tem mesas, nem poltronas, nem estantes. E porque seria necessário, visto não ter nada para se expor, nenhum mérito, nenhuma sabedoria prórpria, nenhuma ciência humana? Também não há nada para se guardar, nenhuma coisa que se deva reter. Já que neste aposento silencioso o que prevalece é o desprender-se e o desapegar-se de todas as coisas.

Ah! Lembrei-me. Para não dizer que não tem nada para enfeitar, existe presa na parede uma cruz. Rústica. Talhada em madeira. Não sei… mas, tenho a impressão que ela tem exatamente o meu tamanho.

Neste quarto também não há televisão, nem rádio. É que lá dentro não é permitido quaisquer tipos de distrações. Vozes, barulhos, imagens. Nada disso pode entrrar neste recinto. Janelas também não avisto. Com certeza é para que não entre nenhum Intruso que possa pertubar o que acontece lá dentro. Mas… espere um momento… pareceu-me ouvir uma Voz!

Além da cruz que mencionei, presa na parede, neste lugar secreto existem ainda duas cadeiras. Uma de frente para outra. Numa delas estou sentado. Na outra Aquele que se encontra comigo no secreto deste aposento. Eu não digo uma só palavra. Ele também não.

Apenas nos olhamos. Apenas ficamos sabendo que estamos ambos ali: um na presença do outro. Um saboreando em amor o outro. Um sendo arrebatado em desejos pelo outro. No silêncio desta mútua presença já se diz tudo e já se ouve tudo.

Fixado e atraído por seus olhos penetrantes, me pareceu ver, num relance, que no reflexo dos mesmos se encontrava escrito o porquê de todo o seu desejo de nos encontramos a sós naquele aposento. Tal desejo se soletra numa única palavra: A – M – O – R…

No silêncio deste quarto é que nosso Abba nos convida diariamente, constantemente e ininterruptamente para nos encontramos com ele no meio deste mundo turbulento. E é na perene habitação daquele e na secreta companhia deste que podemos desfrutar de paz, alegria e quietude, jamais imaginadas, em nossos corações.

PS: Ah! Esse quarto tem porta sim. Uma única porta. Com uma única massaneta. E esta fica pelo lado de dentro…

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Infelizmente quando muitos de nós pensam em vida contemplativa nos vêm à mente a imagem de monges encapuzados na clausura de um mosteiro, cantando cânticos gregorianos e separando tempo para a prática da meditação e do silêncio.

Contudo, o nosso grande desafio é o de vivermos vidas espirituais profundas onde, em meio ao agito que caracteriza a vida pósmoderna, possamos ter uma comunhão íntima com Deus.

O irmão Lourenço é um grande exemplo de como as coisas simples do dia-dia, ao invés de nos impedir no que tange a uma maior busca de Deus, podem nos surpreender como sendo veículos a nos abrir caminho rumo a presença divina. Cozinheiro de um mosteiro durante 25 anos, ali em meio aos seus afazeres, de uma forma simples e calma, aprendeu o segredo de ter o Senhor continuamente perante si.

Deixemos que o próprio irmão Lourenço nos relate os pormenores de sua experiência mística. Suas palavras são extratos retirados do Livro “Praticando a Presença de Deus” – Ed. Danprewan:

“Permita-me falar, de coração aberto, sobre o modo como vou até Deus. Todas as coisas dependem, de uma renúncia sincera de tudo aquilo que você sabe que não leva a Deus. É preciso acostumar-se a uma conversa contínua com Ele – uma conversa que seja livre e simples. Precisamos reconhecer que Deus está sempre intimamente ao nosso lado e entregar-lhe todos os nossos momentos. Nas coisas que são incertas, precisamos pedir seu auxílio para que conheçamos a sua vontade. E as coisas que claramente vemos que Ele requer de nós, devemos realizá-las. Ao ocuparmo-nos com isso, devemos simplesmente oferecer as coisas a Ele antes de realizá-las e agradecer-lhe quando as tivermos concluído.” (p.79)

“Em sua conversa com Deus, dedique-se também a louvá-lo, adorá-lo e amá-lo sem cessar, fazendo todas essas coisas em razão de sua infinita bondade e de sua perfeição” (p.80)

“O método mais excelente que encontrei para ir até Deus é aquele de fazer coisas comuns sem qualquer intento de agradar aos homens e, até onde sou capaz, fazê-las puramente por amor a Deus” (idem)

“É uma grande ilusão pensar que os momentos de oração devem ser diferentes dos outros momentos. Somos estritamente obrigados a dedicar-nos a Deus nos momentos de ação, assim como devemos dedicar-nos à oração durante o período de oração” (p.81)

“Minhas orações não passam de uma sensação da presença de Deus. Minha alma fica simplesmente insensível, naquele momento, a qualquer outra coisa que não seja o amor divino. Quando o tempo reservado para a oração chega ao fim, não vejo diferença porque ainda continuo com Deus, louvando-o e bendizendo-o com toda a minha força, para que eu possa levar a minha vida em constante alegria” (idem)

“Não devemos nos cansar de fazer pequenas coisas por amor a Deus, pois ele não considera a grandeza da obra, mas o amor com que ela é realizada” (idem)

“Os momentos no trabalho (…) não são diferentes para mim dos momentos de oração; e, em meio ao barulho e à algazarra de minha cozinha, enquanto várias pessoas pedem coisas diferentes ao mesmo tempo, tenho Deus com uma tranquilidade tão grande quanto se estivesse de joelhos diante do altar” (p.137)

Que, a exemplo do irmão Lourenço, possamos trilhar este mesmo caminho. Conquanto nos é simpls, comum e acessível.

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Quando tratamos de contemplação estamos pisando em terreno misterioso. Que apenas a linguagem análoga é capaz de nos elucidar algo deste outro mundo.

A contemplação á graça pura. Dom do Espírito daquele que é Totalmente Outro. Experiência que começa conosco, contudo, não termina em nossas mãos. É um deixar-se conduzir cada vez mais pelas asas soberanas do Sopro divino.

Não a alcançamos com métodos do tipo: faça isso, depois faça aquilo… Não obstante, podemos criar um “ambiente” que nos coloque numa posição em que Deus tome a primazia de tão sagrada e sublime experiência.

Portanto, apenas como analogia elucidativa podemos falar de uma “Escada para a contemplação”. Devemos ter em mente que quando se trata das coisas do espírito toda comparação é imperfeita. Deste jeito, apesar de usarmos o termo escada, não devemos entender a experiência como isso vem depois disso. Mas, isso sim, como um movimento espiritual de um ato só contendo nele várias dimensões.

Assim, fazendo uso de nossa analogia, esta escada que nos conduz à contemplação, ou mais conhecida por Lectio Divina, é feita de 4 degraus. A saber:

1. Leitura – Este é o primeiro “degrau”. Aqui nos debruçamos sobre a Palavra e a lemos. Não uma leitura rápida nem técnica, visando dissecar exegéticamente o texto. Trata-se de uma leitura mais com o coração do que com a mente. Uma leitura em espírito de oração e de reverente expectativa. Aqui os olhos convertem-se em ouvidos: não apenas se lê, se ouve!

2. Meditação – Aqui, neste segundo “degrau” nos deparamos com algo que tocou a fundo nossos corações. Pode ser uma frase curta ou até mesmo uma única palavra. E assim começamos a interiorizar aquilo que nos foi dado. De que maneira? Ruminando a frase ou palavra que nos tocou: repetindo-a várias vezes, permitindo assim que a mesma lance suas raízes nas profundezas de nossa alma. Este é o momento em que Deus começa a falar conosco.

3. Oração – Neste próximo “degrau” respondemos pessoalmente a palavra que nos foi entregue por Deus. Alguns mestres falam do proveito de neste momento mesclar a oração com a leitura retornando algumas vezes ao texto em questão. Contudo, eles também avisam acerca do cuidado que se deve ter para não se distrair em demasia com a leitura , permitindo assim, que o fogo que antes estava aceso, venha a se apagar.

4. Contemplação – Neste quarto e último “degrau” á medida que aprofundamos a oração a Presença Amante e amada vai tornando-se cada vez mais densa. Tão densa que nossos afetos, emoções e capacidades imaginativas cessam, para que simplesmente estejamos em e na. Neste aprofundar de intimidade as palavras tornam-se desnecessárias. O silêncio se configura em eloquente declaração de amor ao Amado. Coração é arrebatado á presença daquele que é Misterium Tremendum. Não é tão simples de ser descrito como os outros três “degraus”. Nas palavras de Thomas Merton trata-se de um abraço de amor silencioso.

Esta “escada” está aberta, logo, acessível a todos quantos desejam empreender subida. Contudo, como qualquer escada, no início parecerá desgastante, íngrime, dificultosa. Mas, com prática e humilde dependência do Espírito Santo, logo perceberemos que não nos encontramos mais subindo sozinhos.

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