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Posts Tagged ‘experiências espirituais’

Vivemos numa época marcada por grandes mudanças de alcance global que impactam não só culturas e economias, mas também à família e à própria Igreja. Uma crise colossal de sentido, desprovida de valores, tem relativizado tudo e todos. Esta sociedade em constante ebulição e mudança se define como pós-moderna, pós-cristã e até pós-humana. Dinheiro e prazer, diversão e ócio são os maiores anseios de muitos. A palavra “compromisso” se fez rara e deu lugar a outras formas de ser e conviver.

Num mundo tão diverso e egocêntrico a liberdade de uns não consegue conviver facilmente com a dos outros. O viver juntos se fez com o passar do tempo numa desventura. Cansamos pronto das coisas e das pessoas e buscamos, sem pudor, escolhas diferentes e pontualmente mais significantes. Essas mudanças radicais acabam com os nossos sonhos melhores. Tudo dura pouco. A busca frenética pelo prazeroso e passageiro deixa de lado responsabilidades assumidas valendo apenas os caprichos do próprio eu.

Qual o valor das palavras e dos gestos? Se tudo é relativo nada é importante e significativo. Contudo, o que fazemos ou não fazemos têm conseqüências psico-sociais, pois não só há leis que regem os relacionamentos humanos, mas também os próprios sentimentos não nos enganam. Sem um cuidado e carinho especiais, nos machucamos e ferimos bastante. A convivência humana é complicada e não são poucos os que precisam de drogas ou fármacos para sobreviver. O resultado é uma imensa dor e solidão.

Ser positivo ou negativo, comunitário ou isolado numa sociedade mutante é opção radical de vida. Sentir-se vencedor ou vencido, fraterno ou inimigo é uma tarefa pessoal intransferível. O crescemos comunitariamente com as nossas dificuldades ou diminuímos egoisticamente. Nada é tão determinante quando as decisões tomadas.

Fazer opções positivas é bom, mas não suficiente. É preciso ter uma atitude existencial diferente e passar do ser servido para o ser servidor. É enxergar mais do que vemos, o belo no feio, por exemplo, e afinar o próprio ouvido para coisas melhores. Quem descobre graça na desgraça e vida além da morte superou a insensatez do experimentados. Luz e treva, crença e descrença não andam muito separados nem distantes de nós, no entanto fixar-nos mais em um ou em outro faz a diferença.

1. Uma descoberta extraordinária. Alguns acham que só podem ser felizes quando não existirem mais problemas na sua vida. Estão redondamente equivocados! É preciso ser felizes no mundo que temos e assim como somos. Por que perder o gosto do conviver por esperar o que nunca virá? Por que não sair ao encontro do outro e fraternalmente ampará-lo?

Conheço um casal de médicos que quiseram adotar uma menina de raça negra e com síndrome de down. Posso assegurar que esse casal e os seus filhos amam imensamente essa criaturinha e se sentem profundamente agraciados por ela. Ser diferente na bondade da um sentido melhor à vida.

Diante do relativismo que nos envolve é preciso uma dose de otimismo e esperança para não perder a perspectiva. As primeiras atrações, encontros e desencontros nos preparam certamente para outros mais fascinantes e encantadores. Só chegaremos ao “mais distante” e espiritual no mais próximo e material. É paradoxal? O Verbo se fez carne e é aqui que o podemos encontrar.

Num piscar de olhos somos selvagens e racionais, coerentes e incoerentes. O progresso milenar dos seres humanos não apagou os instintos mais primitivos, Freud chamou essa realidade de “id” ( Parte inconsciente e sede das pulsões humanas; vive o princípio do prazer), mas a evolução acrescentou outras formas mais evoluídas de ser e conviver baseadas nas decisões melhores tomadas.

Somos capazes do melhor e do pior, amar e odiar, perdoar e gelar… Essas possibilidades fazem parte da própria vida e percebê-las já é uma grande descoberta. Pena que modelos culturais desumanos de inspiração no “super-ego”, legalistas e extremamente radicais, podem abafar o encanto de ser cada um ele mesmo.

Neste “mundo plano” das telas do computador abrem-se possibilidades infinitas para o crescimento dos indivíduos. Se um dia, o nosso ponto de partida foi a superfície da terra, hoje caminhamos para o coração dela. A evolução, com seus saltos qualitativos e diferenciados, nos leva para o Amor.

Resumindo, o infinito e o finito, o mais sublime e o mais limitado cabem misteriosamente no nosso ser. Fixar-se mais em um do que em outro é o mistério dos sábios. Nem o passado ferido, nem o futuro irrealizado devem condicionar o nosso presente. Só o eu remido e cristificado determina experiências melhores.

2. A fuga da realidade. Sentir e saborear plenamente o presente é um mistério que poucos conseguem, por isso alguns preferem ignorá-lo. É mais fácil se refugiar no passado conhecido do que tecer continua e criativamente o presente. Se há uma sedução dos sentidos também há outra, bem maior e melhor, do espírito. Se as propostas dos Epicúreos ( propunha o prazer e a felicidade como ausência da dor ou de outro tipo de aflição) e dos gnósticos antigos foram atraentes, muito mais será a experiência dos místicos que nada rejeitam e tudo aprofundam. O problema não está em valorizar os sentidos ou o conhecimento, mas em perder-se absoltamente neles.

Se há uma mística também pode haver uma “pseudo-mística” alienada e alienante (por suas i déias dualistas e elementos gnósticoc) na história da Igreja : Bogomilos (Bulgária, s. X), Cátaros (França s. XII), Albigenses, Valdenses (s. XII), Beguinas (Bélgica, s. XII) e, hoje, a cabala, o xamanismo, a magia, a teosofia, o espiritismo, a cientologia, etc.. Eis o grande objetivo: encontrar “sentido e significado” no uso dos sentidos e da mente como se fossem sacramentais. O infinito e o mais sublime são percebidos e experimentáveis no finito e no desprezível só quando há amor.

A “experiência espiritual ou mística” (Entendo por mística a experiência direta e pessoal com a divindade, sem a necessidade de manipulações ou intermediários ) feita por pura graça em qualquer situação o ambiente é sempre gratuita e integradora. Podemos nos preparar para a experiência espiritual, mas nunca manipulá-la. A gratuidade é fundamental na vida interpessoal humana e divina: tanto aproveitará em todas as coisas espirituais, quanto sair do seu próprio amor, querer e interesse (EE 189).

3. Místicos e engajados. Nesse imenso e misterioso mundo dos sentidos e da imaginação, das sensações e das intuições podem ocorrer como graça pensamentos e atitudes totalmente abertos e gratuitos, dando um sentido de unidade e significância à existência, abrindo-a em todas as direções: para cima, para baixo, para dentro e para fora.

As experiências espirituais e místicas mostram que não são apenas internas ou “mentais”, mas se concretizam num estilo de vida emocional engajado. Mais ainda, a percepção da realidade tida nos “estados expandidos da consciência” é mais acurada do que a normal e habitual. Por isso, as palavras e atitudes expressadas pelos místicos são sempre profundamente calorosas e comprometidas.

A mística não é, pois, fuga da realidade, mas um adentrar-se nela com maior sensibilidade. Se a irrupção do divino nos sentidos ou na mente é sempre iniciativa divina, é ação humana responder generosamente a ela.

Há uma mística tradicional a “dos olhos fechados”, apofática ( apóphasis= via negativa, pois nada pode definr Deus ), da ausência, Teocêntrica, irmã católica da Gnose, que brota na mente e a ilumina. Mas também há outra, a “dos olhos abertos”, katafática ( katháphasis = via positive, pois as perfeições das criaturasfalam do Criador ), da presença, Cristocêntrica, que ilumina a mente, toca o afeto e chega até as mãos traduzindo-se em gesto de serviço e ajuda. Na primeira, a “dos olhos fechados”, a pessoa se afasta do barulho mundano, esvazia a própria mente e encontra o Tudo no nada. Desaparecem as partes, o espaço e o tempo, e por instantes a pessoa é arrebatada, iluminada e engrandecida. É uma experiência intra-subjetiva, acontecida no próprio sujeito. Mente iluminada, corpo pacificado, espírito extasiado. É a mística mais clássica e tradicional acontecida quando a pessoa, superando os seus limites, se encanta com o divino encontrado. É uma experiência subjetiva da transcendência do Infinito.

A mística “dos olhos abertos” não é menor do que a primeira, pois também é iluminação do coração que se coloca a serviço daqueles que mais precisam. É uma mística de serviço; encontra o invisível no visível e Deus no meio do barulho do mundo. Experimenta-se, pois, um relacionamento íntimo com Deus e com tudo o criado: pessoas e coisas. Inácio de Loyola é um expoente típico desta mística engajada. Nos Exercícios Espirituais leva o exercitante a fazer a experiência do amor verdadeiro que é, ao mesmo tempo, entrega e compromisso. “O amor consiste mais em obras do que em palavras” (EE 230). O amor abre o coração e os olhos, os ouvidos e as mãos para servir o diferente. Neste agir fraterno há uma comunhão misteriosa entre o exterior e mundano visto e o interior e divino percebido.

“Ajudar”, “servir”,“partilhar”, verbos pouco usados, podem se transformar em espaços de uma experiência mística incrível. Fazer filantropia é dar do que sobra; ser justo é dar a cada um a parte que lhe corresponde, mas ser místico é dar-se e partilhar o que se é e tem com os mais necessitados. Quando a mente entende, se ilumina; quando o coração ama, se apaixona e serve. É na clareza da mente e na paixão do coração que encontramos sentido e significado. Realmente quem ama não cansa nem descansa!

No estado normal de consciência nos identificamos apenas com uma pequena parte do que somos e fazemos, mas quando compartimos e nos damos, os limites da mente e do coração se expandem até entrar em comunhão com o Criador e o criado. Satisfazendo as nossas necessidades experimentamos a nossa humanidade, mas quando satisfazemos gratuitamente as necessidades dos outros participamos da própria divindade! Recusamos, pois, um espiritualismo desencarnado como um ativismo secularizado.

Oxalá sejamos místicos e engajados e não uma coisa ou outra, pois só a mística nos tira do nosso autismo primitivo e nos aproxima dos outros e do Outro. Parafraseando Adélia Prado: “Tudo o que sinto, vejo, escuto e toco esbarra quase sempre em Deus…

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J. Ramón F. de la Cigoña

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