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Posts Tagged ‘formação espiritual’

jesussorrindoDiante da possibilidade que um texto como esse tem de gerar polêmica, começando pelo seu título, são necessárias algumas palavras iniciais à guisa de esclarecimento. 

Quando refiro-me a essas duas classes de cristãos não estou de forma alguma normatizando nenhum dos dois lados. No entanto, mediante convivência, observação e experimentação pessoal ao longo dos anos de vida cristã, acredito que os aspectos que irei expor a seguir traduzam o que se vê com mais frequência.

Por místico estou querendo destacar aqueles cristãos que experimentaram Deus de forma pessoal e imediata. Que aprenderam a apaziguar o coração através de disciplinas como o silêncio, a solitude e com isso tiveram acesso àquela voz que vem ao nosso encontro como brisa suave aos ouvidos. Místico é aquele cristão que não faz de Deus um sapo que se possa dissecar para a análise, estudo e curiosidade intelectual, mas, que o enxerga como um sujeito de relacionamento. 

Teólogo é aquele que sucumbiu à tentação de querer domesticar, através de esforços dogmáticos, o Deus que é selvagem no seu anseio furioso em nos amar por pura graça. É aquele que acredita que o Deus que é mysterium tremendum pode ser reduzido e trancafiado  dentro de  caixinhas teológicas hermeticamente fechadas de nossos arraiais denominacionais.teologia_deus_pt

Teólogo é todo aquele que se infla por saber coisas sobre Deus. Místico é todo aquele que é tomado de imediato por um santo assombro, fascínio, deslumbramento, paixão porque conhece a Deus e sabe que se encontra absorto na Presença.

Sinto-me à vontade e ao mesmo tempo com temor no coração em escrever o que vou escrever porque um dia estive do lado dos teólogos, batendo no peito diante do meu conhecimento intelectual acerca das principais verdade da fé cristã. Hoje, continuo batendo no peito só que com uma diferença: nem se quer conseguindo levantar os olhos, mas, sussurrando hesitante aos céus –  “Sê propício a mim, um pecador!”

Agora, se isso faz de mim um místico, eu já não sei. Não faço a mínima ideia do que falam de mim, muito menos do meu relacionamento com Jesus Cristo. E isso pouco me interessa.

Logo, porque prefiro a companhia dos místicos à dos teólogos?

1. Porque os místicos não dizem que são místicos. Eles simplesmente não se auto-rotulam. Não procuram por títulos. Já os teólogos adoram trombetear pelos quatro cantos: “Ah! Eu sou calvinista!”; “Ah! Eu sou arminiano!”; “Ah! Eu sou pelagiano!” ou “Eu sou semi-pelagiano!” etc. Diferentemente, um místico nunca se disse “Eu sou um místico!” Pelo contrário, a rotulação sempre veio de fora para dentro e não de dentro para fora. 

2. Porque os místicos jamais se fecham dentro de um ostracismo absoluto e exclusivista. Ou seja, eles não se acham os donos da verdade. Até porque eles sabem que a Verdade não é um sistema teológico compostos de máximas que se apreende de forma intelectual, mas, uma pessoa viva com quem nos relacionamos em amizade. Já os teólogos que batem no peito expondo seus orgulhosos rótulos e títulos só conseguem enxergar seu sistema teológico como o único certo, o único verdadeiro. Eles não estão abertos para aprender com o que lhes é diferente. Para os teólogos seu sistema teológico é exaustivo, ou seja, nele está encerrada toda a Verdade. E com isso acabam se fechando para os múltiplos veículos através dos quais Deus pode lhes conceder discernir Sua Presença e amor. 

3. Porque os místicos buscam preservar o mistério da vida, enxergando a criação com beleza e fascínio. Os teólogos, com seus tomos teológicos debaixo do braço, acabam passando desapercebidos e distraídos diante de uma margarida que cresce despretensiosa á beira do caminho. Não param para observar, contemplar, agradecer. E quando param é para analisar, dissecar, taxar e rotular. Tudo precisa ter uma explicação e fundamentação teológica: terremotos, tsunamis, doenças incuráveis, uma rosa que no dia anterior era em botão e na manhã seguinte desabrocha em pétalas salpicada pelas gotas de orvalho. O sagrado não permeia sua olhada ao redor do mundo lhes fazendo  silenciar e intuir que “entre o céu e a terra, existem mais mistérios do que nossa vã teologia pode explicar”. 

4. Porque os místico se achegam à Bíblia e ao abri-la têm o entendimento de que a própria boca de Deus abriu-se  para lhes falar ao coração. Não a lêem e meditam para investigar mas para ouvir. A Bíblia não é material para a vaidade intelectual, mas, terra sagrada onde tiramos as sandálias para ter um encontro com o totalmente Outro. Teólogos, por sua vez, debruçam-se nas páginas sagradas para angariar informações acerca da verdade, para preparar estudos bíblicos, sermões exegeticamente impecáveis ao passo que a voz divina, advinda das mesmas páginas dissecadas e investigadas, não passa de uma doce e longínqua lembrança. Místicos buscam na Bíblia formação espiritual ao passa que teólogos estão em busca de informações intelectuais espiritualizadas.

5. Porque os místicos entendem que a oração vai muito mais além do mero utilitarismo de se pedir,  interceder ou suplicar. Oração é encontro com Deus e em muitos momentos, assim como acontece com um casal de apaixonados, palavras são dispensáveis. Basta se estar com e isso é suficiente. Descansar imerso e consciente dessa imersão na substância da Presença divina. Deixar-se abrasar e ser consumido pelas chamas do Sagrado assim como um galho em silêncio é tomado aos poucos pelo fogo. Teólogos só conhecem oração como verborragia. Não saem da dimensão vocal. Oração é sinônimo de se falar, falar e falar para Deus. Desconhecem que oração também é falar com Deus, estar com Deus e ouvir a Deus. Isso porque oração é relacionamento. 

6. Porque os místicos aceitam a via intuitiva como meio para se apreender as realidades espirituais. Eles sabem que algo tão profundo, inigualável e extravagante como o amor de Jesus Cristo, excede o entendimento humano, ou seja, o exercício reflexivo acerca das coisas do espírito encontra um ponto de limite, de onde não se pode continuar avançando. Daí entra a intuição, a imaginação e a percepção extra-noia (além das, que transcende as faculdades mentais). Os teólogos encerram tudo no ato intelectual da reflexão. Tudo que é verdadeiro necessariamente tem que passar pelo crivo da razão humana. Nada que possa ultrapassar a capacidade humana de analisar, estudar e definir é digna de ser levada a sério. Teólogos leem a Bíblia apenas com a mente. Místicos aprenderam a ler as Escrituras com o coração.  Em relação á verdade divina, para os místicos, a expressão “descer da mente para o coração”, é especialmente familiar. 

7. Porque os místicos caminham pela via negativa (apofática) no que diz respeito ao conhecimento de Deus. Eles não se atrevem a definir Deus dizendo: “Ele é isso” ou “Ele é aquilo”. Preserva-se o mistério do Deus absconditus, não obstante, auto-revelado. Entende-se que o caminho mais seguro para se saber quem Deus é, se dá na afirmação de quem ele não é. Místicos não tem medo das “noites escuras da alma”. Sabem que esses momentos de aridez espiritual em que se experimenta a “ausência” de Deus são imprescindíveis para a purificação e preparo de nossos corações para uma experiência mais íntima com Aba. Místicos não temes tais desertos porque sabem que a experiência da “ausência” não se traduz em ausência da experiência. Teólogos só caminham pela via positiva (catafática) definindo quem ou o que é Deus. No entanto surge uma dificuldade nesse momento: como definir o indefinível? Como limitar o ilimitável? Como dizer o que é Aquele que habita em luz inacessível? É por essa razão que os místicos silenciam perante a Presença, pois, como encontrar palavras para mensurar o imensurável? 

8. Porque os místicos aprenderam a desacelerar o ritmo. Não aceitam a tirania das agendas superlotadas. Sabem da importância  de ser ter tempo para parar e observar. Para cultivar amizades profundas em detrimento de efêmeras. Sabem que o seu real valor não se encontra no que fazem, nem muito menos na opinião que as pessoas têm a seu respeito. Mas, unicamente na sua identidade originada em Deus. Sabem que são amados. E isso lhes basta. Místicos são, literalmente, pessoas livres em Cristo da necessidade da auto-afirmação perante outros. Teólogos precisam de agendas lotadas: quanto mais compromissos melhor. Quanto mais oportunidades de pregar e ensinar melhor. Pois, que outra maneira poderia existir para que continuassem a se auto-afirmar acerca de suas convicções teológicas perante as pessoas?

9. Porque os místicos nunca pensam já ter chegado lá. Mas, encaram a vida como uma jornada em que caminhamos e avançamos. Em alguns momentos paramos para reavaliar o caminho para logo em seguida prosseguir viagem. Teólogos, pelo contrário, acreditam que já sabem o suficiente. E que esse suficiente é tudo o que precisam saber. 

10. Porque os místicos nunca jamais se escandalizariam com a imagem que ilustra esse texto. Eles conseguem enxergar um Cristo sorridente, de bom humor. Que amava a vida e a celebrava com intensidade. Teólogos são extremamente formais até na informalidade de uma conversa com um amigo. Não sabem relaxar. Contar uma boa piada. Rir de seus próprios erros e idiotices. Pior ainda, não conseguem aceitar um Jesus rindo a ponto de lhe doer a  barriga diante de nossas hesitações e burradas. Para o místico a vida é algo leve e despretensioso  Ao passo que o teólogo vive em perpétua tensão. 

Como disse no início, não generalizo nem normatizo os grupos. Contudo, a observação pessoal e o acesso a seus pensamentos tem me levado a concluir que os pontos acima destacados acabam por traduzir aquilo que encontramos nos dois grupos em caráter usual. 

Não recrimino quem prefere a companhia de teólogos. De forma alguma! Cada um tem o direito de escolher para si o par com quem deseja compartilhar sua  jornada rumo a Deus. Bem, eu já fiz a minha escolha e…  não me arrependo!

Pax et bene!

tau

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morreu-dallas-willard-autor-de-a-conspiracao-divinaDallas Willard, escritor e filósofo de destaque em sua “busca silenciosa para subverter o cristianismo nominal”, morreu nesta quarta-feira (8) depois de perder uma batalha contra o câncer. Ele tinha 77 anos.

“A morte de Willard é uma perda para todos os cristãos”, disse Richard Foster, amigo de longa data e também escritor. “Para nós, uma grande luz se apagou”, disse Foster. “O céu hoje é brilhante”.

Na última segunda-feira, Willard havia revelado o diagnóstico de câncer em estágio 4 e a doença progredia rapidamente.

Bill Heatley, genro de Willard, escreveu na terça-feira enquanto estava com Willard no hospital:

“Estou sentado no quarto do hospital, cuidando de meu querido amigo Dallas, lendo e postando sobre A conspiração divina em sua conta no Twitter e Facebook e estou espantado com as suas palavras e sua vida. O amor de Deus flui de Dallas para Becky (sua filha) e para Larissa (sua neta) e mil gerações serão abençoadas por causa de seu amor a Deus e à vida eterna em Cristo. Estou na zona de impacto de todos aqueles que estão orando por ele. É difícil descrever, mas o reino é incandescente em volta de mim”.

O último trecho publicado por Heatley na página de Willard antes de sua morte falava sobre “não haver morte” para os verdadeiros seguidores de Cristo: “Aqueles que vivem na dependência da palavra e na pessoa de Jesus, e sei por experiência a realidade do seu reino, estarão sempre melhores ‘mortos para si mesmos’, a partir de um ponto de vista pessoal”.

Willard é bastante conhecido por muitos cristãos por causa de seus livros sobre a formação espiritual, incluindo “A Conspiração Divina” (escolhido pela Christianity Todaycomo “Livro do Ano” em 1998).

Em fevereiro, o Centro Dallas Willard organizou uma conferência chamada “Conhecer a Cristo” que contou com uma série de palestras comemorando os ensinos de Willard. O escritor fez o discurso de abertura, cujo tema foi “Como viver bem: A vida eterna começa agora”.

O pensamento crítico de Willard fez dele um pensador cristão provocador desde os anos 1960, quando ele abandonou o estudo formal do ministério para estudar filosofia.

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Em menos de dois meses, após a partida de Brennan Manning, mais um de meus mentores seguiu para o outro lado da eternidade. Também nunca conheci Dallas Willard pessoalmente, mas, a influência de seus escritos sobre minha vida espiritual é no mínimo inominável. Foi ele quem introduziu-me na compreensão de quão necessárias são as disciplinas do espírito para a fomentação de uma vida cristã profunda. Silêncio, solitude e afins eram palavras estranhas à minha espiritualidade antes de Willard. Escritor profícuo e grande pensador filosófico, provou com seus livros e vida que intelectualidade e mística cristã não se excluem mutuamente, mas, ambas são imprescindíveis para a compreensão do mistério de Cristo. Em uma geração em que a reflexão superficial acerca das verdades da fé somada ao testemunho de vida contraditório têm conquistado os holofotes da sociedade, a perda de um homem como Dallas Willard faz com que o cenário cristão torne-se mais pobre. Infortúnio na terra, alegria nos céus. Obrigado Willard. Vai em paz mano e…até breve! Paz e bem!

tau

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O mundo cristão de hoje clama pelo crescimento de uma teologia que trabalhe na cruel realidade da vida diária. Infelizmente, muitos têm desistido da possibilidade de crescimento em relação à formação espiritual. Um vasto número de pessoas bem intencionadas tem se exaurido no trabalho da igreja e descoberto que isto não influencia substancialmente suas vidas espirituais. Elas descobriram que simplesmente eram impacientes, egocêntricas e medrosas quando começaram a carregar o fardo pesado do trabalho na igreja. Talvez até mais.

Outros têm submergido em múltiplos projetos de trabalhos na área do serviço social. Mas quando o ardor de ajudar aos outros esfria por um tempo, eles percebem que tantos esforços hercúleos deixaram poucas marcas duradouras em sua vida interior. De fato, deixaram-nos mais doloridos pela frustração, raiva e amargura. Há também os que ainda têm uma prática teológica que não permite crescimento espiritual. Havendo sido salvos pela graça, essas pessoas têm ficado paralisadas nisso. A tentativa de qualquer progresso espiritual tem um sabor de “obras de retidão” para eles. Sua liturgia diz que eles pecam em palavras, pensamentos e atitudes diárias; então, pensam ser esse seu destino até morrerem. A perspectiva do Céu é o seu único alívio nesse mundo de pecado e rebelião. Conseqüentemente, essas pessoas bem intencionadas vão sentar em seus bancos na igreja – e, passado algum tempo, vão perceber que nenhum avanço foi feito em suas vidas com Deus.

Há um mal-estar geral que nos toca a todos. Parece que nos acostumamos à normalidade da disfunção. A constante exploração da mídia em relação às torrentes de escândalos, vidas partidas e mazelas de toda sorte nos deixa não muito mais do que simplesmente chateados. Temos que esperar um pouco mais do que isso, ao menos de nossos líderes religiosos – talvez, especialmente de nossos líderes. Esta disfunção em toda parte é tão infiltrante que é quase impossível termos uma visão clara do progresso espiritual. Modelos exuberantes de santidade são raros hoje em dia; entretanto, ecoando através dos séculos até aos dias de hoje, estão inúmeras testemunhas que nos contam sobre uma vida muito mais abundante, profunda e completa. Em qualquer posição social ou em qualquer situação da vida, eles encontraram uma vida de “retidão, paz e alegria no Espírito Santo”, possibilidade descrita em Romanos 14.17.

Eles descobriram que uma transformação real, à imagem de Cristo, é possível. Viram suas paixões egocêntricas darem lugar a um coração abnegado e humilde. Há mais de 2 mil anos, registros das vidas de grandes pessoas – Agostinho, Francis, Teresa, Kempis e muitos outros – provam que seguir arduamente nos caminhos de Jesus torna o caráter ilibado. Os registros estão aí para quem quiser ver. Há trinta anos, desde quando Celebration of Discipline (“Celebração da disciplina”) foi escrita, nós enfrentamos duas grandes incumbências: a primeira é que foi preciso rever a grande discussão sobre a formação da alma; a segunda foi encarnar esta realidade nas experiências diárias na vida individual, congregacional e cultural. Francamente, nós temos tido sucesso na primeira tarefa. Todos os tipos de cristãos agora sabem da necessidade de formação espiritual.

É a segunda tarefa que precisa consumir a parte principal de nossa energia nos próximos 30 anos. Se nós não fizermos um progresso real nessas frentes, todos os nossos esforços vão evaporar e secar. Deus tem dado a cada um de nós a responsabilidade de “crescer em graça” (II Pedro 3.18). Isto não é algo que possamos transferir para os outros. Nós temos que tomar as nossas cruzes individuais e seguir os passos do Cristo crucificado e ressurreto.

Todo trabalho de formação autêntico consiste em “trabalhar o coração”. O coração é a fonte de toda ação humana. Todos os mestres religiosos constantemente nos chamam, quase de forma enfadonha, para que nos voltemos e purifiquemos os nossos corações. Os grandes sacerdotes puritanos, por exemplo, mantiveram a atenção nesse ponto. Em Mantendo o Coração, John Flavel, um puritano inglês do século 17, adverte que “a maior dificuldade na conversão é ganhar o coração para Deus; e a maior dificuldade após a conversão é manter o coração com Deus”. Quando estamos trabalhando o nosso coração, as atitudes externas nunca são o centro da nossa atenção. Atitudes visíveis são o resultado natural de algo profundo, bem mais profundo.

A máxima do patriarca Actio – “As atitudes seguem a essência” – nos lembra que a nossa atitude está sempre em acordo com a realidade interna do nosso coração. Isso, naturalmente, não reduz as boas obras à insignificância, mas as tornam questões secundárias; meros efeitos, e não causas. O significado principal é a nossa união vital com Deus, nossa nova criação em Cristo, nossa imersão no Espírito Santo. É essa vida que purifica o coração. Quando o ramo é perfeitamente unido à videira, que é o Senhor, o fruto espiritual é natural.

Somos todos uma massa de motivos emaranhados: esperança e medo, fé e dúvidas, simplicidade e arrogância, honestidade e desonestidade, sinceridade e falsidade. Deus é o único que pode separar o verdadeiro do falso; o único que pode purificar as motivações do coração. Mas o Senhor não vem sem ser convidado. Se alguns compartimentosdo nosso coração nunca experimentaram o toque de cura de Deus, talvez seja porque não temos recebido bem o minucioso exame divino.O mais importante, mais real e mais duradouro acontece nas profundezas do nosso coração; este é um trabalho solitário e interno, que não pode ser visto por pessoa alguma, a não ser por nós mesmos. É um trabalho que somente Deus conhece. É o trabalho de purificação do coração, de conversão da alma, da transformação interior e da formação da vida.

O primeiro passo é nosso retorno à luz de Jesus. Para alguns, este é uma inescrutável e lenta jornada; para outros, é um momento instantâneo e glorioso. Em ambos os casos, nós estamos começando a confiar em Jesus, para aceitá-lo como sendo a nossa vida. Nascer espiritualmente é um começo – um maravilhoso e glorioso começo –, e não um final.

Mas o trabalho de formação mais intenso é necessário antes de nos colocarmos diante do brilho do Céu. É necessário muito treinamento para sermos o tipo de pessoa segura e reinarmos tranqüilamente com Deus. Então, agora nós estamos dando início a esse novo relacionamento. Como Pedro coloca em sua primeira carta, nós “temos nascido de novo, não de uma semente perecível, mas imperecível, vivendo e permanecendo na Palavra de Deus” (I Pedro 1.23). Deus está vivo! Jesus é real e atuante em nossas pequenas vidas, que são fraturadas e fragmentadas. Como Thomas Keely sustenta, nós estamos vivendo em “uma luta intolerável de agitação”. Nós sentimos a força de atração de muitas obrigações e tentamos cumpri-las todas. E estamos, conforme suas palavras, “infelizes, intranqüilos, extenuados, oprimidos e tememos fracassar”. Mas, através do tempo e da experiência – às vezes, muito tempo e muita experiência –, Deus começa a nos dar um sossego surpreendente. Nas profundezas do nosso ser, a alternância nos dá uma vida coesa intacta, de humilde adoração diante da viva presença de Deus. Não se trata de êxtase, mas de serenidade, sem abalos e firmeza de orientação da vida.

Nas palavras de George Fox, nós nos tornamos homens e mulheres “estáveis”. Então, começamos a desenvolver um hábito de orientação divina. O trabalho interior da oração torna-se muito mais simples agora. Lentamente, descobrimos pequenos reflexos de proteção celeste e os sopros de submissão são tudo o que é preciso para nos atrair para uma orientação habitual de nossos corações voltados para o Senhor.

Por trás do primeiro plano da vida diária, permanece a bagagem da orientação celestial. Esta é a formação de um coração diante de Deus. Para usar as palavras de Kelly, é “uma vida despreocupada de paz e poder. É simples. É sereno. É espantoso. É triunfante. É radiante. Não toma tempo algum, mas ocupa todo o nosso tempo”. Como os novatos em Jesus, estamos aprendendo, sempre aprendendo – a como viver bem, a como amar a Deus bem, e como amar nossa família, nossos amigos – e até mesmo os nossos inimigos – bem. Aprendemos também a como estudar bem; a enfrentar bem as adversidades; a administrar nossos negócios e instituições financeiras bem; a formar uma vida em comunidade bem; a alcançar os marginalizados bem; e a morrer bem. E, enquanto aprendemos como viver bem, compartilhamos com outros o que estamos aprendendo. Esta é a estrutura do amor para edificar o corpo de Cristo.

Todavia, não estamos sozinhos neste trabalho de reforma do coração. É imperativo que nos ajudemos uns aos outros e de todas as maneiras que pudermos. E, em nossos dias, a necessidade desesperada é pela emergência de um exército sólido de guias espirituais treinados, que possam amorosamente estar lado a lado das pessoas, ajudando-as a discernir como andar pela fé nas circunstâncias de suas próprias vidas. Acontece que há uma idéia genuinamente ruim circulando nestes dias – a de que, se nós tivermos um determinado número de cursos e lermos determinada quantidade de livros, estaremos prontos para sermos guias espirituais. Lamentavelmente, a coisa não é tão simples assim. Mas o treinamento de vidas demanda o desenvolvimento da retidão, alegria e paz no Espírito Santo. Isto é a qualidade de vida – habilidade para perdoar quando se está machucado, o desejo de orar – que estamos procurando na vida de guias espirituais treinados.

Neste ponto, temos uma dificuldade real, porque cada um pensa em transformar o mundo – mas onde estão aqueles que pensam em transformar a si mesmos?  As pessoas podem genuinamente querer ser boas, mas raramente estão preparadas para fazer o que é necessário para produzir uma vida de bondade que possa transformar a alma. Sim, a formação pessoal à imagem de Cristo é árdua e longa. A busca pela comunhão que agrega poder naturalmente leva à nossa segunda grande arena de trabalho para os anos vindouros: a renovação congregacional.

Se em nossas igrejas nós não trabalhamos arduamente pela formação espiritual, não conseguiremos pessoas espiritualmente formadas.  O problema é que nós temos em nossas igrejas a “doença da pressa”. Muitos do nosso povo são viciados em adrenalina – e, em toda parte, o espírito de nossos dias é de pular, empurrar, atropelar, produzir ruídos, atrair multidões. Mas o trabalho de formação espiritual simplesmente não acontece com pressa.  Ele nunca é um “assunto rápido”, como se diz. Paciência e cuidado com o tempo consumido são sempre as marcas de qualidade do trabalho de formação espiritual.

Outra situação contextual que enfrentamos é o fato de que nós agora temos uma indústria de entretenimento cristão que é disfarçada como adoração. Ora, como nós compareceremos em reverência e temor diante do Santo de Israel, quando muitos de nossos cultos são focados em diversão? Um terceiro assunto: nós estamos lidando com uma mentalidade consumista em toda parte que, simplesmente, domina o cenário religioso. Essa mentalidade mantém as demandas individuais sempre à frente e no centro de tudo: “Eu quero o que eu quero, quando eu quero e quanto eu quero”. Naturalmente, o trabalho de formação nos ensina a dar as costas às nossas vontades e focar necessidades reais, como a de anular o ego, tomar a nossa cruz e seguir arduamente Jesus.

Todas estas e outras coisas mais tornam o trabalho de formação espiritual em uma congregação realmente complicado. Mas é uma tarefa possível! Primeiro, isto significa que queremos experiências profundas de comunhão através do poder da formação espiritual. A Igreja é reformada e sempre está se reformando. E, se nosso coração, alma, mente e espírito estão sendo reformados – ou seja, se ansiamos por conhecer, seguir e servir a Jesus, sendo formados à semelhança dele –, então seremos poderosamente atraídos na direção de todos aqueles que têm o mesmo anelo. Uma pessoa cheia da beleza de Jesus tem comunhão adicionada ao poder – e os outros serão irresistivelmente atraídos na direção desta pessoa.

Segundo, vamos fazer tudo o que podemos para desenvolver a ecclesiola na eclésia – “a pequena igreja dentro da Igreja”. A ecclesiola na eclésia é um compromisso profundo com a vida do povo de Deus, e não um comportamento sectário. Nenhuma separação. Nenhuma exclusão. Nenhuma formação de nova denominação ou igreja. É preciso que fiquemos dentro das estruturas estabelecidas da igreja e, aí sim, desenvolvamos pequenos centros de luz dentro dessas estruturas. A partir daí, é só deixar a nossa luz brilhar. Isto produz uma unidade de coração, alma e mente, um vínculo que não pode ser quebrado – um milagre, enfim –, abastecido de cuidado, mutualidade e compartilhamento de vida juntos que nos levará a enfrentar as circunstâncias mais difíceis.

A última instância é a do compartilhamento do sofrimento. Não devemos nos enganar – o nosso tempo de sofrimento está chegando. Uma multidão de fatores levará a isso.  Por exemplo, a cultura geral de hostilidade para as coisas concernentes ao Cristianismo está crescendo. Não devemos ficar surpresos ou mesmo tentar mudar isso. O que nós, como Igreja, deveríamos estar fazendo é construir uma vida comunitária sólida para que, quando o sofrimento chegar, não estejamos dispersos. Ao invés disso, devemos ficar juntos, orar juntos e sofrer juntos, independente do que vamos enfrentar. O sofrimento em comunhão pode ser um bom modo que Deus usará para um novo ajuntamento do povo e Deus.

Os mestres religiosos escreveram muito sobre o treinamento do coração em duas direções opostas: contemptus mundi, o rápido desprendimento das ambições; e amor mundi, quando nosso ser é arremessado para uma divina, porém dolorosa, compaixão pelo mundo. No começo, Deus arranca o mundo de nossos corações – comtemptus mundi. Experimentamos um rompimento das correntes que nos atraem para posições proeminentes e de poder; passamos a viver livre e alegremente, sem enganos. E, então, quando nos libertamos de tudo isso, Deus lança o mundo de volta ao nosso coração – é o amor mundi –, quando nós e Deus, juntos, tomamos o mundo em infinita ternura e amor. Nós aprofundamos a nossa compaixão pelos feridos, pelos arruinados, pelos despossuídos. Sofremos, oramos e trabalhamos por outros de uma maneira diferente, de uma forma abnegada, cheia de alegria. Nosso coração fica estendido em direção aos marginalizados. Nosso coração fica voltado para todas as pessoas, para toda a Criação.

Foi o amor mundi que atirou Patrick de volta à Irlanda para responder à sua pobreza espiritual. Foi o amor mundi que impulsionou Francisco de Assis para o seu ministério mundial de compaixão por todas as pessoas, por todos os animais, por toda a Criação. Foi o mesmo sentimento que levou Elizabeth Fry às portas do inferno da prisão de Newgate e induziu William Wilberforce a trabalhar a sua vida inteira pela abolição do comércio escravo; ou que fez Padre Damião viver, sofrer e morrer entre os leprosos de Molokai e impulsionou Madre Teresa de Calcutá a ministrar entre os mais pobres entre os pobres da Índia e do mundo todo. E é esse amor mundi que compele milhões de pessoas comuns, como você e eu, a ministrar vida no nome bom de Cristo a quem nos cerca.

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* Richard Foster – extraído do site  Cristianismo hoje

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“de madrugada, ainda bem escuro, levantou-se, saiu e foi a um lugar deserto, e ali orava” (Mc 1:35)

Quem gosta de estar em um deserto? Acredito que ninguém goste. Mas, o que é um deserto? Como o próprio nome sugere, trata-se de um lugar onde não há vida, onde não há nada que, em sã consciência, nos atraia.

É costume, entre o povo de Deus ouvirmos este tipo de comentário: “ Eu estou passando por um grande deserto na minha vida”. O que seria este deserto na vida cristã? São momentos difíceis, onde parece-nos que Deus nos abandonou. Estes “desertos” são períodos de profundas aflições, tribulações e escasses de ânimo. Na linguagem dos místicos, noites escuras da alma.

Contudo, ao invés de fircarmos nos lamuriando, estes períodos de deserto, a exemplo de nosso Senhor Jesus, podem ser para nós um tempo frutífero e de comunhão íntima com o Pai.

Deserto é tempo para o silêncio. Quando aprendemos, em meio a estes períodos de duras provas, silenciar nossas vozes interiores e exteriores, conseguimos ouvir a voz de Deus sussurrando no nosso centro, na nossa alma, onde o Espírito Santo habita. E com isso ganhamos uma compreensão renovada de quem Deus é: “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus” (Sl 46:10).

Deserto é tempo para a solitude. Nestes momentos podemos nos reservar a sós com Deus. Buscando nos esquivar do falatório e das aglomerações humanas, nos forçamos a abrir mão de nossas fugas pessoais para que assim possamos ter um encontro com a realidade daquilo que somos, e não aquilo que fingimos ser. Todas as máscaras que usamos caem. Estes momentos são terapêuticos, pois, ao mesmo tempo que revelam toda o nosso caos interior, revelam também que Deus nos ama e nos aceita como somos: com nossos defeitos e fraquezas.

Deserto é tempo para a oração. São nestes períodos desérticos que aprendemos a realidade das nossas orações, que mais do que mero ritual é um encontro pessoal com o Deus que nos ama e que nos sustenta em meio à aridez de nossas vidas. No deserto aprendemos verdadeiramente a orar: nos momentos férteis aprendemos a pedir mais, nos desérticos aprendemos a descansar em Deus e a sermos gratos pelo que já temos.

Quem gosta de desertos? Ninguém! Porém, eles são extremamente necessários para o forjar de nosso caráter e para nossa formação espiritual.

Moisés foi formado no deserto; Davi também. Até Jesus enfrentou seus desertos (Cf. Mt 4:1-11; Mc 1:12,13; Lc 4:1-13).

Por que com você e comigo seria diferente?

Que Deus abençoe nossos desertos!

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Tenho muito me preocupado com os rumos tortuosos, e porque não perigosos, com que a igreja evangélica brasileira têm flertado nesta última década de cristianismo. Sou do tipo que não consegue ver certas coisas acontecerem e ficar de longe olhando sem, ao menos, não falar nada.
Nestes anos que se passaram, chegando nos dias de hoje, temos presenciado uma verdadeira explosão de novas denominações em solo brasileiro. Se não me engano contabiliza-se hoje 380 denominações evangélicas no país. Este número assustador compreende desde as igrejas de confissão de fé histórica até as mais recentes neo-pentecostais.
Juntamente com tão grande diversidade de nomes, estas mesmas denominações também nos oferecem um vasto “cardápio” doutrinário e um número ainda maior de estilos litúrgicos e de modelos de gestão de igrejas. Temos desde os modelos tradicionais, passando pelos adeptos do “propositanismo” até os “celulares” (por favor não confudam com este abençoado aparelho que tanto nos ajuda em situações de sufoco!).
E se não bastasse, em meio a tudo isso, ainda há a “guerra fria” entre os militantes das respectivas tendências eclesiásticas, advogando e alardeando a superioridade de seu modelo, e/ou doutrina e/ou denominação.
A grande verdade é que o movimento evangélico brasileiro tornou-se num verdadeiro “frankstein”, onde o que se apresenta perante o povo sedento desta pátria é um amontoado de fragmentos, uma genuína colcha de retalhos, sem pé-nem-cabeça que só ajuda a aumentar a confusão ao mesmo tempo que oferece pouca ou nenhuma luz. Em meio ás práticas pragmáticas (se tá dando certo é porque é certo), ao hedonismo desmedido (eu só quero bênção, nada de sofrimento), à teologia da prosperidade (restitui, eu quero de volta o que é meu…) de um lado e a estagnação espiritual das chamadas denominações históricas/tradicionais de outro, o homem e a mulher sem Deus se vêem em meio a um labirinto de total desesperança e escuridão.
Em meio a euforia disso tudo, temos percebido que a explosão demográfica evangélica não tem sido acompanhada, na mesma proporção, por um crescimento no que tange ao caráter por parte do povo de Deus. O mal testemunho, a vida dúbia, a ausência de santificação por parte dos cristãos têm se constituído nas chagas polurentas que tem devastado a credibilidade do evangelho de Cristo nesta nação. Maturidade espiritual é algo estranho às fileiras de evangélicos que povoam nossas igrejas de domingo a domingo.
Por isso o tema deste post: “Extra, extra: precisa-se de formação espiritual.

  • Precisa-se de homens e mulheres que estejam verdadeiramente dispostos a carregar a cruz por amor de Jesus.


  • Precisa-se de homens e mulheres que manifestem na sua vida diária a semelhança com Jesus no seu pensar, agir e falar (exatamente nessa ordem).


  • Precisa-se de homens e mulheres que entendam e aceitem que esta vida é uma existência de lutas, dores e sofrimentos e que cada situação adversa constitui-se numa oportunidade dada por Deus para que em nós seja formado o caráter de Cristo.
  • Precisa-se de homens e mulheres que redescubram o valor das disciplinas espirituais clássicas como silêncio, solitude, jejum, oração, contemplação etc. como sendo parte integral do modus operandi de vida que existia no próprio Senhor Jesus.


  • Precisa-se de homens e mulheres que aprendam a meditar nas Escrituras menos com a mente e mais com o coração, afim de que, as mesmas aos invés de serem encaradas como objeto de investigação sendo friamente analisadas e dissecadas como um cadáver, sejam vistas como objeto de devoção através do qual podemos ter um encontro pessoal com àquele que é o Amante de nossas almas.


  • Precisamos sim, de homens e mulheres que resgatem, de uma vez por todas, em seus compromissos e relacionamentos a ética, a integridade, a verdade, a honestidade, a santidade e outras virtudes mais. Custe o que custar. Virtudes estas que nos identificarão como povo que foi lavado e remido pelo sangue do Cordeiro, povo o qual tornou-se propriedade exclusiva de Deus.

Sim, é a cruz que temos que carregar nesta vida. Se é que desejamos desfrutar da coroa que nos aguarda do outro lado da eternidade.
Precisa-se de formação espiritual. Precisa-se de maturidade cristã urgente. Precisa-se de discipulado sério e compromissado.
Precisa-se de homens e mulheres formados no seu eu interior à imagem do eu interior de Cristo.
Precisa-se destes tipos de homens e mulheres. Precisa-se de VOCÊ e de MIM!!!
Que Deus abençoe esta nação sedenta. Que a próxima “onda” do momento sejam as renovadas dores de parto da formação espiritual.
Nasce, Senhor Jesus!!!

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