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Posts Tagged ‘igreja’

10432967_783541935057309_3455389064538895587_nReli pela segunda vez a biografia de São Francisco de Assis, escrita pelo já falecido frei franciscano Inácio Larrañaga, intitulada de “O Irmão de Assis”.
Que grande bem e que consolações recebi da parte de Deus através dessa leitura. Confesso que na primeira lida não tinha absorvido toda a mensagem da vida desse santo homem de Deus. No entanto, após um hiato de quase um ano em que literalmente passei por uma experiência purificadora de deserto na minha fé, ou utilizando a linguagem mística de São João da Cruz: uma verdadeira noite escura da alma, em que avaliei e reavaliei no que cria e porque cria, pude compreender a profundidade e a urgência que os cristãos dos dias de hoje, independente de sua confissão de fé, sejam católicos, protestantes, ortodoxos etc., tem de ouvir uma vez mais a mensagem de sua vida e obra.
Francisco nasceu e viveu no auge da Idade Média. Filho de um rico mercador Italiano e mãe francesa, era um jovem dissoluto que só queria saber de gandaia e noitadas. Após ficar prisioneiro de guerra e sofrer de uma grave doença, teve uma experiência profunda de conversão, a ponto de pegar o dinheiro de seu pai, dinheiro esse adquirido pela venda de tecidos, e distribuí-lo entre os pobres.
Dá para imaginar que isso enfureceu sobremaneira seu pai que o arrastou até o bispo da cidade, chamado Guido, pedindo que este o julgasse. Diante dessa situação, Francisco, cujo coração já se encontrava enamorado pelo Seu Senhor crucificado, num gesto emocionado de profunda humildade, retirou suas roupas e devolveu todo o dinheiro a seu pai, ficando completamente nu na frente de todos! Agora, ele já não era mais o filho de Pedro Bernardone e sim do Maravilhoso Pai Celestial!
A história é longa, depois Francisco foi viver como ermitão junto a uma humilde capelinha, a qual ele reformou com as próprias mãos. Vivia sem posses, sem dinheiro, sem bens materiais, servindo os desamparados, rejeitados, esquecidos e desprezados de seu tempo: os leprosos e mendigos!
Deus lhe deu companheiros que na época entenderam sua mensagem e passaram a segui-lo, vivendo a vida simples e humilde que o Evangelho de Cristo revela, pregando a paz, a liberdade no Senhor crucificado e amando e servindo o próximo. Foram perseguidos e agredidos de todas as formas por lideranças eclesiásticas e pessoas do povão que não compreendiam ou aceitavam o estilo de vida daqueles pobrezinhos de Deus. E a partir daquele grupinho uma grande multidão surgiu, a qual posteriormente recebeu o nome de “Ordem dos irmãos ou Frades Menores”.
Bem, porque digo que a mensagem e vida de Francisco é de extrema urgência para a Igreja nos dias de hoje? Para que possamos ter uma resposta satisfatória, é necessário ter em mente que a Igreja na época de Francisco não estava nem aí para os pobres. Era uma instituição enamorada do poder e da riqueza. Em outras palavras era uma Igreja que tinha deixado de lado os valores evangélicos da simplicidade, humildade, compaixão e amor.
Sendo assim, Francisco vem como um caniço em chamas com o amor divino. Uma sinalização de que a Igreja de sua época precisava se arrepender dos pecados do orgulha, avareza, indiferença e acepção de pessoas. Francisco amava a todos, cuidava de todos, independente de quem fossem.
Ao reler a vida desse santo, não teve como não me emocionar ao constatar que a Igreja dos dias de hoje precisa igualmente prestar a atenção na vida de Francisco de Assis, uma vez mais.
Isso porque uma grande parcela da igreja encontra-se mancomunada com o poder, com o glamour e a riqueza. A Igreja brasileira está precisando se arrepender igualmente do pecado da idolatria, da indiferença e da falta de compaixão. Isso!!!! É isso o que precisa acontecer nessas terras tupiniquins: que o Espírito de Cristo levante uma igreja arrependida, quebrantada e de coração compassivo! Uma igreja cheia de compaixão: essa é a maior necessidade e expectativa mais ardente do mundo falido e ferido, acerca de nós cristãos. O mundo não quer que briguemos com ele, mas, que o amemos sem restrições!
Mas, enquanto nossas preocupações forem construirmos catedrais abastadas, reuniões públicas hollywoodianas cheias de glamour e requinte, enquanto açoitarmos as pessoas com uma linguagem belicosa e desprovida de carinho e respeito, enquanto sustentarmos o discurso de ódio contra os homossexuais e atitudes de intolerância ao credo alheio, principalmente às religiões de matriz africana, o mundo continuará pisando na Igreja, pois, segundo o próprio Senhor dela, somente para isso é que serve o sal quando este perde o poder de dar sabor!
Como dizem por aí, Francisco não tinha rabo preso com ninguém e por isso era capaz de viver a vida espiritual profunda e de amor sacrificial que nos relatam seus biógrafos.
Acredito que a principal mensagem que Francisco deixou para a Igreja, tanto a da sua época como a de hoje, é a de que continua sendo impossível servir a dois senhores. Pois amaremos a um e odiaremos ao outro. Portanto, é impossível amar a Deus e as riquezas! E quando escolhemos amar a Deus, automaticamente acabamos por amar aqueles que são o alvo do amor divino: pessoas, independente de quem sejam.
Assim o foi no passado, assim o é hoje, e assim o será para sempre.
Paz e bem!

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manifestaçãoPor Carlos Moreira
O dia 20 de junho de 2013 entrará para a história do Brasil. Gerações que nos sucederão lembrarão desta data como o dia em que a maior das arquibancadas foi as ruas das metrópoles e cidades do interior, e não os assentos dos campos de futebol.
De norte a sul o país se uniu numa só voz e foi protestar contra os descalabros dos políticos e os desmandos dos governos, independente de afiliações partidárias e de ideologias. Hoje se sabe que a manifestação já está para bem além dos problemas nos transportes. Reflete, na verdade, uma indignação generalizada contra as questões mais graves da nação.
Ao contrário do que sempre se viu, não estamos diante de um ato político-partidário, orquestrado pelo oportunismo dos “insatisfeitos” com os que estão circunstancialmente no poder. Não! Foi uma explosão da indignação do povo – jovens, velhos, estudantes, famílias, trabalhadores e donas de casa – todos foram as ruas para manifestar uma nova consciência prevalente, um sentimento pulsante alimentando a batida de um novo coração. E na voz desta gente há uma só canção: “tem que mudar!”.
 
De tudo o que presenciei, todavia, o que mais me animou foi ver a igreja nas ruas. Em pleno século XXI, surge uma nova igreja, com novas características, e ela está para além das denominações, dos condicionamentos escravizantes, da alienação do pensar, das amarras do agir, da petrificação do coração.
 
A igreja foi às ruas! Enfim, saiu de dentro dos templos! Uniu a oração com a ação, fez o jejum que interessa a Deus, que é aquele que solta às ligaduras dos oprimidos. Deixou de olhar apenas para as demandas espirituais e percebeu que existem questões prementes ligadas ao social. Entendeu que o Reino de Deus não é só feito de “língua estranha”, santificação e estudo bíblico, mas também de justiça, paz e alegria no Espírito Santo! Rm. 14:17.
 
A igreja está nas ruas, não como uma facção esquartejada, mas como a união de muitos cidadãos. Ela percebeu que a religião que agrada a Deus tem a ver com as “demandas da Terra”, e não apenas com uma busca alienante pela vida eterna. Ontem, através de atitudes, tornou possível a união de duas lindas canções: “podes reinar, Senhor Jesus, oh sim!” e também “vem, vamos embora… quem sabe faz a hora, não espera acontecer!”.
 
Eu creio que a igreja que a sociedade brasileira deseja ver é sensível a injustiça, aos problemas éticos, as questões ambientais, ao diferente, a má distribuição de renda. A igreja que melhor representa Jesus é aquela que faz o que ele fez, acolhendo ao caído, libertando o oprimido, sensibilizando-se com os encarcerados sociais e também com os que estão algemados pelo pecado.
 
É tempo de mudança! Quem não for capaz de entender este momento, quem não discernir o que “o Espírito diz as igrejas”, ficará definitivamente preso a uma espiritualidade oca, que apenas produz entorpecimento de mente e cauterização de coração.
 
Fiquem todos atentos, pois o Senhor está nos convocando para “pregar boas novas aos quebrantados”, para “livrar todos os cativos”, “consolar todos os que choram”, afim de que possamos ser chamados “carvalhos de justiça, plantados pelo Senhor, para sua glória”.   
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Extraído do site Genizah *
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Não podemos negar que a palavra “renovação” nos dias de hoje, inserida no contexto da vida da Igreja, tornou-se numa espécie de cinderela antes da fada madrinha: desgastada, esfarrapada e morando no porão de uma casa. É bom deixar logo de início esclarecido que a prefiro num lindo vestido de festas, calçando um sapatinho de cristal, do que nas condições em que se encontra atualmente. Também faz-se necessário informar que a leitura e a contra-leitura desta triste situação em que a palavra “renovação” se encontra nos nossos dias, faço a partir da ótica de muitas pessoas que se denominam membros da ala mais conservadora do segmento cristão.

Para alguns a simples menção do termo renovação já é o suficiente para causar arrepios na espinha e testas franzidas. Por outro lado, há os que anseiam por renovação; os que buscam por renovação nas suas vidas espirituais; os que desertam de sua igreja e/ou denominação porque ouviram falar que naquela outra o povo é mais “renovado”. Enfim…

Não querendo entrar no mérito da questão, de qual grupo está certo ou errado, uma coisa precisa ser considerada com muita sinceridade: será que ambas as alas compreendem ao certo o que significa renovação no contexto de igreja? Será mesmo que estas pessoas sabem do que estão falando? Será que conhecem, verdadeiramente, o que tanto desejam (ou o que tanto repudiam)? Resumindo, o que é, afinal de contas, renovação no contexto de vida espiritual e de igreja?

EM BUSCA DO SIGNIFICADO

Para início de conversa o substantivo “renovação” aparece na Bíblia em dois textos: Romanos 12:2 e Tito 3:5. Em ambos ela compreende a tradução do termo grego anakainõsis. Nas palavras de Rm 12:2 nossa palavra aparece no seguinte contexto:

“E não vos amoldeis ao esquema deste mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”

Aqui, como nos fica claro, renovação assume o significado de um ajuste da visão, tanto moral quanto espiritual, de uma pessoa segundo o padrão de Deus. E isso tem um efeito designado de transformar a vida daquele que sofre tal processo.

Já em Tito 3:5 lemos o seguinte:

“Não por méritos de atos de justiça que houvéssemos praticado, mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar da regeneração e da renovação realizados pelo Espírito Santo“

Nessa passagem somos informados de que mediante a obra do Espírito Santo, Deus nos conduz a uma renovação espiritual que carcateriza-se pelo novo nascimento em Cristo Jesus, sem que para isso seja necessário a prática de obras.

Diante disso tudo, podemos concluir que biblicamente a renovação tem duas aplicações distintas. Num primeiro momento é obra exclusiva do Espírito Santo que chama o pecador ao arrependimento; o conduz a Cristo, lhe outorgando, assim, vida espiritual.

Por outro lado, renovação depende também de nossa resposta ao mover do Espírito em nossa vida que intenta nos trazer constantemente um avivamento do seu poder, desenvolvendo desta forma a vida cristã.

De um jeito ou de outro a renovação significa vida. Vida em nós. Vida de Deus acontecendo em nós e através de nós. Vida que vem de Deus alcançando outras vidas atavés da nossa vida.

RIOS CAUDALOSOS DO ESPÍRITO

Este mover do Espírito de Deus, concedendo-nos renovo espiritual constante, é caracterizado nas Escrituras com um rio que flui de nosso interior. Um rio de água viva que sacia, de uma vez por todas, a nossa sede pelo Sagrado e pelo transcendente.

Vejamos isso nas palavras de nosso próprio Senhor:

“No último dia da festa, o dia mais importante, Jesus se colocou em pé e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Como diz a Escritura, rios de água viva correrão do interior de quem crê em mim”(Jo 7:37, 38)

Logo em seguida, o escritor sacro esclarece do que se trataria este rio de água viva:

“Ele disse isso referindo-se ao Espírito Santo que os que nele cressem haveriam de receber” (v.39)

Nossa história e a da cristandade pelos séculos de sua existência, confirmam a veracidade desta promessa feita pelo Senhor aos que cressem no Seu Nome. O mover do Santo Espírito; o rio de água viva que tem corrido do interior dos santos em Cristo, permeia a linha histórica como movimentos espirituais de renovação, os quais foram responsáveis pelo avivamento do poder espiritual, antes desgastado, do povo de Deus.

Em determinados momentos Deus visitou seu povo resgatando-o da frieza e do erro espirituais e conduzindo-o a uma dimensão mais profunda da vida no seguimento de Cristo, bem como de seus consequentes desdobramentos no testemunho perante o mundo. Após uma geração de fecundidade interior, seguia-se um período de aridez que era interrompido por um derramamento do Espírito que lhe devolvia novamente o viço. Um retorno ao primeiro amor. Um reacender da chama que havia se reduzido a mera fagulha.

É importante sublinhar aqui que estes movimentos de renovação na histótria da igreja acontecram separados um do outro. Valendo da analogia com nosso texto bíblico tratou-se, numa visão do todo, de um delta de seis braços levando a vida de Deus. Ao cessar um derramamento Deus levantava um novo para lembrar seu povo que a caminhada rumo à sua presença trata-se de uma realidade multifacetada; multidimensional.

Agora, o que aconteceria se ao invés de um grande delta de seis braços, um grande rio, caudaloso, expesso, contendo no seu fluxo a água viva do Espírito Santo atingindo a vida cristã nas suas seis dimensões, fluísse livremente na vida de todo cristão e consequentemente da Igreja? O que aconteceria se numa visão holítica da vida espiritual , estes seis movimentos históricos de Deus estivessem presentes e operantes, ao mesmo tempo, na praxi cotidiana da igreja?

Confeso que quando imagino isso, ao mesmo tempo, sou tomado de uma imensa alegria e de uma profunda tristeza. Por um lado a alegria de saber o que Deus tem reservado e que se encontra disponível para o seu povo. E por outro a tristeza de presenciar a igreja flertando com coisas de valor infinitamente menor do que aquelas. 

“Oh! Espírito Santo de Deus. Flui novamente como rio impetuoso sobre a sua Igreja. Abala com as estruturas do Seu povo. Traz, mais uma vez, a vida dos céus para dentro de nós!”

OS SEIS RIOS DE ÁGUA VIVA

Como disse acima estes movimentos na história aconteceram sequêncialmente, um depois do outro, em diferentes períodos de tempo. No entanto, a proposta é a de uma ação simultânea fazendo com que estes seis rios de água viva venham a convergir num único grande rio que, por fim, trará a renovação da vida espirtual na igreja dos dias de hoje.

Porém, para que possamos ter uma idéia clara do que tratam, cada um destes seis rios, faz-se necessário observá-los separadamente.

O Rio da Vida Contemplativa

Esta tradição espiritual foi marcada  por grandes movimentos e personalidades no decorrer da história de ambos os lados das confissões cristãs.  Movimentos como os pais do deserto, o monasticismo e pessoas como Antônio, Teresa de Ávila e o conde Von Zinzendorf com os morávios, deram a cor, a textura e o sabor deste grande mover da vida do Espírito na Igreja. 

A vida contemplativa nos chama a abrimos espaço para Deus em nossa agenda cotidiana. É um clamor para que busquemos uma vida embuída de oração e outros hábitos sagrados. Intimidade e amor a Deus são termos chave nesta tradição. 

E como se faz necessário acessarmos novamente o poder contido e esquecido desta tradição de nossa espiritualidade cristã. Em dias como os nossos em que a igreja caminha para uma secularização assustadora. Onde já quase não se faz mais a distinção entre sagrado e profano. Onde o ritmo apressado e barulhento de nossas vidas nos distraem ao ponto de não conseguirmos mais viver debaixo de um senso da presença constante de Deus. Sem dúvidas torna-se urgente olharmos para traz e  enxergarmos os tesouros que estão à nossa espera guardados no baú deste grande movimento de Deus na história.

 Tesouros como a prática da lectio divina, do silêncio e da solitude, bem como a experiência de união com Deus pela contemplação que resulta na transformação de nossas vidas como um todo, são realidades que não podem continuar obscuras na prática de vida cristã das igrejas. Carecemos, urgentemente, de  nos banharmos de novo nas águas refrescantes deste rio de Deus. 

 O Rio da Vida de Santidade

Neste movimento do Espírito na história cristã, Deus produziu grandes figuras cuja vida nos servem de profunda inspiração e exemplo nos dias de hoje. A tradição de santidade se engajam aqueles que buscaram e buscam uma vida virtuosa. Santidade é uma vida que funciona da forma correta, como o próprio Deus idealizou que o fosse.

E em dias comos os de hoje, em que as vestes brancas da Noiva do Cordeiro tem sido manchada pelo mau testemunho de seus membros, esta tradição de nossa espiritualidade tem muito o que nos oferecer. Isso é um fato: não há neste mundo nada mais impactante do que o poder de uma vida santificada.

O Rio da Vida Carismática

Esta tradição tem nos grandes avivamentos da história cristã, como por exemplo o da rua Azuza, seus principais marcos. Contudo, o rastro da vida cheia do poder do Espírito de Deus remonta desde os dias da igreja primitiva, no grande derramamento ocorrido no dia de Pentecostes. Desde lá encontramos períodos em que Deus visitou seu povo com poder e dons místicos trazendo de volta aquela atmosfera apostólica dos primeiros dias da Igreja. As páginas da história testemunham-nos que o mundo assistiu e experimentou os efeitos de um povo em brasas, inflamado e incendiado pelo dunamis  de Cristo. 

E num Brasil em que se contabiliza milhões de evangélicos que de domingo a domingo abarrotam os prédios de reunião das igrejas,  sem que contudo a sociedade seja impactada ao ponto da transformação moral e social as quais caracterizaram os grande avivamentos do passado, sermos uma vez mais visitados pelo poder que vem doa alto e libertos da letargia que caracteriza a igreja nestes dias, é algo a que deveríamos nos aferrar.   

O Rio da Vida de Justiça Social

Aqui correm as águas impetuosas da busca pela propagação da shalom  de Deus sobre a face da terra, a qual deve alcançar o homem e a mulher vítmas das injustiças sociais oriundas dos sistemas governamentais injustos e opressivos. Esta tradição tem na fundação de organizações como o Exército da Salvação e em personalidades históricas como Willian Wilbeforce e Martin Luther King Jr grandes exemplos.  A espiritualidade contida neste mover de  Deus, resulta num coração compassivo que desemboca numa vida que se identifica com o sofrimento humano. 

É bem verdade que a igreja de hoje,  tem se destacado em alguns seguimentos sociais  ora fundando, ora ajudando no sustento de missionários e organizações de caráter eminentemente desta área. Não obstante a isso, fica-nos o claro senso de que sempre poderemos fazer algo a mais, pois, como bem disse o Mestre “os pobres sempre os tendes convosco”.    

No entanto, enxergo que a maior contribuição desta faceta de nossa vida espiritual se dá no campo pessoal, subjetivo. Acredito que quando ao passarmos por um mendido a pedir esmolas ou por uma família residente à sobra de um viaduto, e não apenas nos condoermos por sua situação, mas, além disso, formos impelidos a fazer algo que amenize o sofrimento,  a dor e a humilhação destes seres humanos, por menor que seja a iniciativa, aí sim poderemos dizer que este rio tão essencial encontra-se fluindo em nosso interior.

O Rio da Vida Evangelical

Este é o rio da vida centrada na Palavra de Deus. Tem na Reforma Protestante do sec XVI e em vultos como Martinho Lutero e João Calvino grandes representantes deste mover espiritual histórico.  A crença na inspiração plena, na suficiência,  na infalibilidade e na inerrância das Escrituras do Velho e do Novo Testamento, compõem a estrutura doutrinária destra tradição.

Este rio em particular significou um retorno dramático de uma era de trevas espirituais para a luz resplandecente da Palavra de Deus. Abusos e arbitrariedades eram cometidas em nome da tradição e de dogmas feitos por homens. Desta forma não se constitui em exagero de nossa parte afirmarmos tão grande importância deste movimento do Espírito de Deus, o qual libertou toda uma geração das algemas do erro e da superstição humanos.

Acredito que seria de grande valia nestes dias de confusão ideológica, crise de identidade e de ventos de doutrina que varrem a igreja brasileira, retornarmos mais uma vez para os princípios e o espírito que norteou todo este grande evento que conhecemos como Reforma Protestante, o qual teve como seu estandarte o amor pelas Escrituras Sagradas.

O Rio da Vida Sacramental

Finalmente, temos a via da conexão com Deus através das realidades comuns do dia-a-dia. Esta tradição nos afirma que Deus nos visita nos momentos de meditação bíblica, de silêncio e de solitude, assim como nos visita também quando etamos em nosso escritório em meio a relatórios financeiros, ou enfrentando a fila do supermercado  ou trocando a fralda de um filho em plena madrugada. Ao invés do mundo e das situações do cotidiano nos serem empencilhos para a comunhão com Deus, elas tornam-se os meios através dos quais podemos nos conectar com o Totalmente Outro. Resumindo: o grande desafio que esta tradição da espiritualidade cristã nos traz é o de encontrar a Deus por detrás dos milhares de momentos, situações, urgências e vissicitudes que esta vida nos oferece. 

O cristão atual enclausurado numa espiritualidade templária, onde se encontra e experimenta a Deus entre as quatro paredes da “igreja”, carece de atentar para esta dimensão da vida espiritual que nos possibilita enxergar o mundo de Deus mais amplo, cheio de possibilidades que não apenas as que acessamos nas pocas horas de reuniões públicas aos domingos. Deus pode e deseja ser encontrado e experimentado tanto no ambiente aconchegante de ar-condicionado de um prédio de reuniões de uma igreja quanto na ”estufa”, a que chamamos de ônimos, em pleno engarrafamento no centro da cidade sob um sol de 41 graus.  

A VIDA  NA  VIDA

O que a igreja no Brasil precisa, resumindo tudo, é de Vida na vida. Uma nova identificação e encarnação da vida do próprio Jesus, Seu cabeça conforme as Escrituras.  Quando lemos os evangelhos com atenção começamos a identificar estes seis rios de água viva presentes na vida do próprio Senhor. A bem da verdade quando falamos na renovação da igreja através da integralização destas seis tradições de nossa espiritualidade, isso trata de um convite a que nos moldemos a aspectos da vida espiritual de Cristo. Cada uma destas tradições, contemplativa, de santidade, carismática, de justiça social, evangelical e sacramental, estavam presentes, vivas e ativas na espiritualidade de Jesus de Nazaré. E a Vida na vida se dá no esforço de tentar imitá-lo na vivência destas facetas de nossa espiritualidade.

Isso porque:

  • Jesus Foi Um Homem Contemplativo – Ele buscava intimidade com o pai. Oração e vida não era uma realidade dicotômica na vida de Jesus. Orar e viver, viver e orar para Cristo eram a mesma coisa. Jesus buscava impregnar a vida com hábitos sagrados: ele buscava os lugares desertos para estar em silêncio e solitude com o Pai. Jesus jejuava. Ele meditava nas Escrituras. Jesus era um homem de vida de oração plena.
  • Jesus Foi Um Homem Virtuoso – A santidade da vida de Jesus não se dava na asfixia de regras e ritos vazios. Não! Pelo contrário, ser santo para Jesus manifestava-se na beleza e no impacto de uma vida que funcionava da forma correta. Uma vida que fluía no ritmo e no passo que o Pai idealizou. A vida de nosso Senhor funcionava no lugar certo, na hora certa e da maneira certa. Sem dúvidas Cristo era alguém de vida virtuosa.
  • Jesus Foi Um Homem Carismático – Umas das características mais marcantes do ministério de nosso Senhor era a presença do poder do Espírito Santo nas suas palavras e obras. Por causa de seu esvaziamente por ocasião de sua obra redentora, Jesus necessitou frequentemente da intervenção do Espírito de Seu Pai para a realização dos sinais  e prodígios que testificavam sua messianidade. “No poder do Espírito” é uma expressão frequente nas narrativas dos evangelhos. Jesus verdadeiramente era um homem que caminhava no poder do Espírito.
  • Jesus Foi Um Homem Compassivo – As Escrituras dizem que quando o Senhor viu as multidões errantes como ovelhas que não tem pastor, suas entranhas se remexeram, e ele se compadeceu delas. Jesus não conseguia ficar indiferente ante o sofrimento humano. Por isso o vemos chorando diante do túmulo de Lázaro, seu amigo; ressuscitando o filho de uma viúva pobre e alimentando uma grande multidão, mesmo sabendo que no dia seguinte a mesmo o iria procurar não por quem ele era, mas, pelo que ele tinha feito. A compaixão profunda de Jesus pelas vítimas da injustiça social nos desafia nestes dias de indiferença e individualismo pessoais.
  • Jesus Foi Um Homem de Vida Centrada na Palavra de Deus – Jesus venceu a tentação do diabo usando as Escrituras. Ele pregou a verdade de Deus. Ele citou exaustivamente as Escrituras. Ele tinha plena consciência de quem era e do que deveria fazer conforme profetizado nas Escrituras. Repreendeu os fariseus por erarem por não conhecerem as Escrituras. A Palavra eterna de Deus era o âmago do ministério e da vida de Cristo. Suas palavras e atos estavão em clara conformidade com os preceitos de Deus.
  • Jesus Era Um Homem de Vida Sacramental – Ele sabia receber o sacramento do momento presente. Para ele vida com Deus não se restringia aos momentos na sinagoga e no templo. Pelo contrário: para o Senhor Deus podia e devia ser experimentado nas coisas comuns e simples da vida cotidiana. Jesus via a mão de Deus em tudo. por isso ele podia chamar a atenção de seus discípulos e dizer “Olhai para as aves dos céus…”. Assim, um homem semeando no campo virava parábola; e algo tão comum como a queda de cabelo virava ensinamento espiritual. Não resta dúvidas que para Jesus a vida era um grande sacramento: um indício visível da presença invisível de Deus. Cristo sabia muito bem o que os serafins estavam querendo dizer quando clamaram um para o outro “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos. Toda a terra está cheia da sua glória”.

Desta forma experimentar, na íntegra, cada uma destas seis dimensões da espiritualidade cristã é experimentar a vida do próprio Cristo. Trilhar este caminho é ter sobre nós Seu jugo e aprender com ele a sermos aprendizes na vida do reino no “meio de nós”.

No entanto vale dizer que há um quê de morte nisso tudo. Pois, se desejarmos tomar Seu jugo como sendo o nosso, devemos ter em mente que isso significará o decreto da morte de nossa antiga espiritualidade: subjetiva, egóica, narcisista, egoísta, utilitarista e pragmática.  Ao passo que também significará o nascimento de uma nova espiritualidade. Não segundo a mais recete moda da vitrine evangélica, mas, segundo Jesus de Nazaré. Veremos o surgimento de uma espiritualidade marcada por uma vida com Deus profunda; por uma vida vivida da maneira certa, funcionando da maneira certa; por uma vida pontilhada pelas manifestações, capacitações e poder do Espírito Santo; por uma vida que se compadece da dor do semelhante e que repele todo e qualquer posicionamento egoísta e indiferente; por uma vida que se alimente e que se deixa moldare ser guiada pelas Escrituras Sagradas e por uma vida que se conecta com Deus através dos milhares de pequenos momentos que fomentam o nosso dia-a-dia.

Que assim seja! Oxalá o Senhor nos visite mais uma vez, como o fez com seu povo ao longo da história. provando uma vez mais que seu braço continua não encolhido. Não apenas para salvar os povos perdidos no pecado, mas, também para levantar uma Igreja poderosa, adornada, sem máculas nem ruga, para que esta seja uma vez mais instrumento em suas mãos para salgar a terra e iluminar o mundo. 

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Para saber mais sobre as seis tradições da espiritualidade cristã

acesse http://www.renovare.org.br

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O título acima é a célebre frase proferida por Cícero ao ver a corrupção e desvios da igreja de sua época. A tradução da frase seria algo do tipo “Que tempos os nossos! E que costumes!” Isso tem tudo a ver com o que vou compartilhar a seguir, pois, tenho para mim, que se Cícero estivesse em nosso tempo, ao contemplar os caminhos da igreja de hoje, não alteraria seu desabafo pessoal: “O tempora, o mores!

Vivemos dias negros da história do evangelicalismo cristão. Poderíamos afirmar que presenciamos uma espécie de segunda “Idade das Trevas” onde se proliferam superstições e  crendices que nada mais são do que a franca deturpação da simplicidade do evangelho de Cristo. O apaixonante e apaixonado evangelho que é “o poder para a salvação de todo aquele que crê” (cf. Rm 1.16).

Não é de se admirar o surgimento e a formatação de algumas espiritualidades estranhas, caricaturadas que advogam para si o nome honroso de cristãs. Nada mais normal e lógico do que isso: evangelhos estranhos, espiritualidades estranhas. Era de se esperar que isso acontecesse em terras tupiniquins, já que a igreja brasileira tornou-se uma cópia barata da igreja norte-americana que tem sido a precursora da diluição do vinho ardente de Cristo. 

O surgimento da espiritualidade pop com suas celebridades e estrelas gospels, e da espiritualidade hedonista que tem a teologia da prosperidade como seu principal ícone representativo, têm conduzido as fileiras de cristãos na igreja como manada entorpecida rumo ao matadouro de uma vida espiritual epidérmica de discipulado inconsistente, vida de oração frívola e de total ou quase total ausência de meditação e contemplação nas Sagradas Escrituras.  

O que nos parece é que uma grande parcela dos cristãos hoje em dia  já não deseja ver cumprindo em sua vida o chamado apóstólico de ser uma voz profética de contracultura em meio à sociedade:

“E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”(Rm 12:2)

A grande problemática velada por detrás do presente estado das coisas, é a falsa esperança da vivência de uma espiritualidade cristã autêntica sem que isso implique em se carregar a cruz todos os dias (cf. Lc 9.23). Discipulado sem cruz, sem negação do falso eu, sem a não conformação com os ventos comportamentais de uma sociedade em franca rebelião ao Homem da Cruz é no mínimo algo inconcebível como se querer que exista vida neste planeta se o oxigênio aqui acabar. Assombra-nos o fato de que bem poucos queiram o martírio de serem taxados como tolos por causa de Cristo (cf. Mt 5.11; Jo 15.19).

A cruz de Cristo é o chamamento da morte para a vida. Não somente dos que ainda estão perdidos no oceano de pecados, mas, sobretudo dos que já encontraram a rota para casa. A Bíblia nos fala não apenas de um Senhor crucificado, mas, de homens e mulheres crucificados também (cf. Gl 2.20; 5.24; 6.14). A cruz é o estandarte do nosso Reino. É o brasão da família real a qual pertencemos. Sem ela não há relacionamento com Deus. Mística sem a cruz de Cristo não passa de mais uma superstição das trevas que cobrem a vida espiritual de muitos filhos e filhas de Deus dentro das igrejas.  

Na cruz de Jesus temos o caminho para o retorno à espiritualidade genuinamente cristã. Na cruz nos vemos face a face com aquele que nos mostra as perfurações de suas mãos e pés, as marcas dos açoites, os hematomas das pancadas que lhe foram desferidas, o cenho rasgado pela coroa de espinhos, e que nos diz no silêncio do encontro: “Tudo isso fiz por você, porque te amo!”

A cruz também nos confere a possibilidade de moldar toda a nossa vida como resposta a tão grande paixão. Na verdade essa é a única resposta relevante que podemos dar: a entrega total e sem restrições a essa amor maravilhoso de Jesus (cf. Jo 14:1). E quando isso acontece vemos emergir uma espiritualidade bíblica porque se alicerça nas páginas sagradas das Escrituras; cristã porque se fundamenta no Cristo vivo, esperança nossa e mística porque proporciona-nos a experiência pessoal, no silêncio, solitude e contemplação, de um encontro com aquele que é Totalmente Outro, Transcendente e ao mesmo tempo imanente.  

Oh! Assim como a cruz de nosso Senhor atraiu a muitos para a salvação quando esta foi levantada do solo, que hoje atraia novamente o coração de homens e mulheres, adultos e crianças,  para um novo e renovador mergulho nas profundezas da intimidade e do seguimento de Jesus Cristo, nosso Senhor. 

“(…) tome a cada dia a sua cruz e siga-me”


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Lamento muito o fato que para a maioria dos cristãos a fé é apenas uma crença moral e comportamental, de um lado; e, de outro lado, apenas um poder mágico, mediante o qual se pode conseguir coisas, bens materiais e proteção contra a magia, ou ainda poder para subjugar inimigos.
 
Para a maior parte dos crentes a fé foi reduzida a tais coisas!
 
Todavia, a fé como relação com Deus, como meio de agradá-Lo, como sustento do espírito na existência, como fidelidade, como poder que atua pelo amor, como constrangimento de amor no coração que cresce em devoção, como conforto e proteção [sem magia], como confiança no cuidado do Pai, como poder que brota do intimo para ser no mundo, como expressão da consciência de Deus em nós; e como olhar existencial que nos conduz a perseverarmos e mesmo nos gloriarmos nas tribulações; e mais: que nos deixa antever a glória de Deus por vir a ser revelada plenamente em nossas vidas — sim, tal e tais perspectivas da fé estão praticamente mortas nos corações dos cristãos de hoje.
 
Com isto sucumbiu também a fé como poder/privilégio de perdoar, de não odiar, de não se vingar, de crer na justiça de Deus ao seu tempo…, etc.
 
Além disso, também com tal perversão da fé faleceu a esperança que se alimenta da eternidade, e que tem no por vir seu gozo fomentador de alegria hoje, posto que somente por tal percepção já se possa tratar a morte como morta na existência de todo aquele que crê.
 
Desapareceu também a fé como resposta-em-si-mesma aos absurdos calamitosos da existência, posto que agora, como a fé é poder mágico de proteção, é apólice de seguro, é garantia de que nada sentido como mal jamais nos abata, qualquer coisa que nos venha com tais desenhos catastróficos abala o que se chama de fé.
 
Esta é a morte da fé que se vê nos templos lotados de gente que paga pela crença pagã de que fé seja um poder sem mistério, sem silencio…, mas, ao contrário, sempre com respostas desejadas, sempre com explicações e com resultados aferíveis como bens de consumo e como garantias especiais contra os fatos absurdos da existência.
 
Neste aspecto, a Religião Islâmica não fanatizada oferece princípios mais cristãos aos seus crentes do que o atual Cristianismo misticamente materialista e historicamente saduceu que se instalou entre nós.
 
Isto porque um lado inteiro do Cristianismo está governado pelo misticismo materialista, que é aquele que crê em poderes espirituais, mas apenas para as guerras do aqui e do agora. De outro lado, entre as confissões históricas, o que prevalece é a fé como ética, culto, rito, comportamento, conduta, ao modo saduceu de ser… — porém, sem o casamento como os poderes do mundo vindouro, sem o gozo da eternidade, sem o poder do Espírito, sem o Cristo vivo, sem a consolação sublime, sem a experiência da real presença de Deus na vida.
 
Este é o espírito presente nas crenças práticas da maioria dos cristãos. E, por tais crenças, saiba-se: o Evangelho como poder de Deus ficará dia a dia mais morto nos corações humanos e nas casas de culto sem Deus.
 
Somente tal constatação, seguida de uma determinação radical de abandonarmos todos os nossos pressupostos, e que nos levasse de volta a leitura com fé simples nos evangelhos e no que Jesus e os apóstolos chamaram de fé, é o que poderia ainda nos salvar do paganismo cristão que levou a quase todos de roldão.
 
Para mim este é um dos sinais mais gritantes dos fins dos tempos, especialmente numa época em que nãos nos faltam Bíblias e nem acesso a informação da Palavra; posto que tal calamidade não decorra de ignorância apenas, mas, sobretudo, da escolha.
 
Digo a mesma coisa mais uma vez, sempre com a mesma oração de que alguém ainda entenda, veja, discirna, escute e se converta!
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* Caio Fábio – extraído do site oficial do autor
 

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REINO DE DEUS

Deus reina! Essa é uma verdade que não tem dupla interpretação. Não nos confundimos. Não nos restam dúvidas. É o que as Escrituras Sagradas nos afirmam prodigamente.

“No ano da morte do Rei Uzias eu vi o Senhor assentado

num alto e sublime trono” (Is 6:1)

No entanto com que se parece esse Reino que pertence a Deus? Como ele se apresenta diante de nós? Qual a sua expressão visível, audível e sensível? Muitos diriam, porque assim foram ensinados, de que o Reino de Deus é a igreja, a comunidade dos salvos em Jesus. Expressões do tipo “trabalhar pelo Reino” e “fazer a obra do Reino” são comumente proferidas e ouvidas no seio da igreja. Na verdade eu mesmo, alguns anos atrás, faria coro com essas afirmativas. De longe não me passaria qualquer outra ideia a esse respeito.

Contudo, de uns anos para cá  tendo contato acima de tudo com o testemunho das Escrituras, mas também com meus mentores da espiritualidade cristã clássica, tenho obtido uma outra visão e esclarecimento acerca da enorme e avassaladora amplitude do Reino.

Um dos pontos que ficou-me muito claro é que não podemos restringir o Reino de Deus à igreja. O Reino não é a igreja e a igreja não é o Reino. Pelo contrário, a igreja faz parte dele e ele da igreja. A comunidade dos salvos são pessoas que vivem inseridas nesse Reino “no meio de nós”. Vivem na consciência permanente e dinâmica da presença do Deus que governa sobre tudo e todos.

“Do Senhor é a terra e a sua plenitude;

o mundo e os que nele habitam”

(Sl 24:1)

No meu entender existem problemas a se reduzir o Reino de Deus a igreja e o que se faz através da mesma. Primeiramente a questão ética de se cair numa atitude de superioridade e arrogância espirituais do tipo “nós somos cidadãos do Reino”. Olhando as demais pessoas como bárbaros infiéis e inimigos. Pessoas inferiores porque não estão “dentro” do Reino de Deus. Deixemos algo bem claro aqui: uma coisa é sermos cidadãos do reino, pessoas que pela misericórdia e graça  hoje reconhecem o Senhorio de Deus em suas vidas e outra bem diferente é sermos o próprio Reino sobre a face da terra. Não poderia existir vaidade maior.

Se não bastasse esse mal ainda existe a questão do desamparo bíblico. Afirmar que a igreja é o Reino e o Reino a igreja é ir de encontro ao testemunho da Palavra eterna do Rei.

A PREGAÇÃO DE JESUS

No início de seu ministério a primeira pregação de Jesus acerca do Reino se deu nessas palavras: “O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam no evangelho” (Mc 1:15). Jesus retorna da Galiléia anunciando que agora o que antes era uma profecia, nEle se cumpria: o Reino de Deus estava acessível (próximo) a todos. O que nos chama a atenção é que essa afirmativa de Cristo se deu num momento em que a igreja ainda não existia. Na verdade ele ainda nem tinha chamado ninguém para segui-lo. Se a igreja é o Reino e vice-versa, como poderia Jesus afirmar que o mesmo (o Reino) está acessível sem que a aquela (a Igreja) estivesse presente sobre a face da terra? Que incoerência seria essa a do Mestre! Mas, não há nenhuma. Pois, definitivamente, o Reino de Deus inclui a Igreja, porém, ela somente não o totaliza.

BUSCANDO O REINO

Uma segunda evidência é o convite que Jesus faz aos seus seguidores em Mt 6:33 – “mas buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça…”. Com certeza, com a concepção que impera na mente da maioria dos cristão, se o Senhor tivesse proferido essas palavras hoje, buscar o Reino seria fácil de ser feito. O único trabalho que teríamos seria o de acharmos uma igreja próxima de nossa casa e passarmos a frequentá-la assiduamente. Quem sabe os mais consagrados até se colocariam á disposição para servir em algum ministério e assim fariam a obra do Reino.  No entanto Jesus destrói toda a nossa vã pretensão de reduzir o Reino. Isso porque como aquelas pessoas a quem Jesus  se dirigiu poderiam cumprir sua ordem, se a igreja seria inaugurada anos depois no evento do Pentecostes? Não seria outra contradição de nosso Senhor? Contudo nEle não há trevas. Aleluia! Nem sombra de contradições. Isso porque a igreja não é o Reino. Pertence a ele. Sim. Mas não é ele.

A ORAÇÃO QUE O SENHOR ENSINOU

Na oração que Jesus ensinou a pedido de seus discípulos temos uma terceira evidência de que o Reino de Deus é mais do que a Igreja. No começo da prece ele declara: “Venha o teu Reino” (Mt 6:10). Será que quando Jesus ensinou isso ele estava se referindo a algo do tipo “peçam a Deus que a Igreja seja formado logo sobre a face da terra” ? Acredito que não. Parece-me que Cristo se referia a algo presente, que deve acontecer a todo momento. Coisa do tipo aqui e agora e não apenas lá e depois. Era no lá e depois da vida daquelas pessoas que a Igreja habitava. Contudo Jesus os conclamou a evocar o Reino de Deus imediatamente: “Venha (aqui, neste momento, agora, não apenas mais tarde) o teu Reino”.

A vista dessas coisas fica evidente que quando Jesus se referia ao Reino de Deus ele não estava falando da igreja, pois, a mesma viria posteriormente. Logo, se a Igreja não é o Reino, mas, uma expressão do mesmo e talvez a mais contundente, o que seria ele então?

O GOVERNO DE DEUS

Retornando ao texto de Mt 6:10 Jesus prossegue dizendo acerca do Reino de Deus: “seja feita a tua vontade assim na terra como nos céus”. O Senhor de forma esplendorosa atrela  a vinda do Reino com a vontade de Deus sendo feita nesse mundo como é feita no outro. Assim, Jesus afirma que o Reino acontece no momento em que a vontade de Deus é feita sobre sua criação. Concluímos a partir disso que o Reino de Deus nada mais é do que o próprio governo sobreano de Deus e até onde esse mesmo governo se estende. Logo, viver no Reino é viver sob o governo de Deus onde quer que se esteja e levando-o com isso a estender-se sobre a face da terra.

“LEVANDO” O REINO COMIGO

Esse entendimento é revolucionário. Pelo menos assim o foi na minha vida. Saber que o Reino é uma realidade presente e palpável a mim não apenas aos domingos quando por algumas horas sento-me num banco junto com outras pessoas para ouvir uma mensagem e cantar alguns cânticos. Não! Definitivamente. Não apenas na Igreja, mas, também no meu trabalho, em casa no trato com meus queridos, na minha faculdade, na conversa com o meu vizinho, na fila do banco, do supermercado, no engarrafamento sob um sol de quase 40°.  Em tudo, tudo mesmo, que concerne a minha vida, em suas multifacetadas dimensões existenciais a vontade de Deus deve acontecer “assim na terra como nos céus”. Para onde eu for eu carrego o Reino comigo,pois, conforme o Cristo esse mesmo Reino não tem como ser identificado geograficamente, materialmente porque “…o Reino de Deus está dentro de vocês” (Lc 17:21). Dentro de você, dentro de mim desde o momento em que recebemos pela fé a união com o Rei, em Jesus. O Reino começa de dentro para fora, daí a importância que se deve dar ao mundo interior, às realidades do espírito.  Portanto, uma vida contemplativa que se complementa no nosso envio para o mundo para que lá vivamos na dinâmica da presença do Reino, é a única via para experimentarmos o que significa viver no Reino de Deus.

E se assim o fizermos, verdadeiramente, saberemos o que significa sermos “cidadãos” de um Reino de amplitude infinita, convidando todos a se porem sob o senhorio de um Deus que governa soberanamente todas as coisas.

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COMUNIDADE MÍSTICA

“Igreja não satisfaz expectativas, celebra mistérios.” Carlo Maria Martini

Lendo a frase acima pus-me a refletir: a que se parece a igreja? Ainda que possa soar como uma pergunta simples, contudo, é de suma importância para que se defina o que ela deve ser e fazer. Nos dias atuais a igreja tem acompanhado o total desfiguramento de sua identidade. A bem da verdade a Noiva de tão ilustre Noivo deixou de ser uma realidade viva para se tornar em algo manipulável segundo os desejos descarados e levianos de certos homens e mulheres.

Há os que enxergam a igreja como um grande negócio. E diga-se de passagem, um negócio muito lucrativo que tem levantado grandes cifras em dinheiro para aqueles que sem escrúpulo algum acabam por manipular a fé frágil e bem intencionada de um povo incauto e sedento por felicidade.  Nestas mega empresas da religião a fé caracteriza-se pelo mero desejo de se obter a bênção; o evangelho é apresentado como um produto a ser adquirido; o líder à frente um hábil comerciante a vender o seu “peixe”; e Jesus um mero coadjuvante subalterno pronto a nos conceder o que pedimos – ou melhor – exigimos e/ou determinamos a ele.

Não se deve estranhar que os locais de reunião de negócios destas igrejas estejam abarrotados de “fiéis”, pois, as mesmas acabam por alimentar um dos instintos mais adâmicos do ser humano: o de ser deus. “Sereis como deuses” é a nova/velha sedução da serpente por detrás das ofertas comerciais destas verdadeiras megaempresas travestidas de comunidades de fé.

Nestes lugares não há liberdade, pois, as pessoas se vêem aprisionadas por pelo menos duas realidades. Primeiro pelo desejo insaciável por bênçãos. Quanto mais se recebe mais se deseja. Assim, estas igrejas tornaram-se em genuínos fastfoods da religião: é só dar a oferta e levar a bênção para casa. E em segundo lugar por um código de conduta que rege a tida igreja/denominação. Desta forma o pastor atua como um gerente a controlar a vida e os passos de seus fiéis/clientes. Os demais membros se vêm como subgerentes prontos a esquadrinhar a vida do irmão e a amaldiçoá-lo em nome de Deus se o mesmo quebrar tal código ou pelo menos questioná-lo.

É certo que tal fenomenologia não apresenta-se apenas nos arraiais de igrejas como as que temos descrito aqui. Parece-nos que se trata de algo generalizado, restando-nos poucas excessões.

Não obstante a tudo isso permanece o chamado divino para que a igreja se apresente como um Comunidade Mística. Mística porque sua membresia é formada por místicos e não por gerentes/clientes. Entenda-se aqui místico no sentido da tradição mística cristã: alguém que experimenta Deus no caminho do amor avassalador, do discipulado e do silêncio interior.  E como isso se dá?

Primeiramente quando a igreja se conscientiza do mistério de sua união ao Cristo vivo. Jesus ressurreto atuando no meio do seu povo: eis o grande mistério da salvação. Quando contemplamos e meditamos em textos como de João 15, somos assombrados da cabeça aos pés com a verdade de que o Cristo vivo e ressurreto não apenas deseja um relacionamento de intimidade conosco. O que  Ele busca, o alvo de sua obra expiatória no Calvário é a união, a simbiose espiritual conosco, de tal forma que afirmemos: “Já não sou eu quem vive, mas, Cristo vive em mim”. A igreja de uma forma mística, misteriosa, que a mente nunca compreenderá plenamente, pelo meno desse lado da eternidade, encontra-se mergulhada e imbuída pela presença vitalizadora de Jesus, o Cristo.

Em segundo, tal união misticamente fornece à igreja a possibilidade de experimentar a pessoa de Jesus de forma real e concretaA igreja sempre deve ser um agrupamento orgânico de pessoas que não apenas creiam pela fé, mas, que também como resultado da mesma, experimente a pessoa doce e bendita do glorioso Verbo de Deus.  Isso porque é bem diferente saber que Jesus está em nosso meio por uma questão de mero assentimento intelectual, e outra saber disso porque Ele nos tocou. Aqui reside o poder da  mística cristã, a verdadeira, embasada nas Escrituras: a experiência tanto individual como comunitária com Deus.  Quando olhamos as Escrituras percebemos que os primeiros cristãos tanto na sua forma individual quanto coletiva  não apenas criam que Jesus estava com eles, mas, sabiam disso porque viam,ouviam e sentiam. Não estou aqui defendendo um Cristianismo que precise “ver” para crer. Não! Contudo, uma vida cristã que nunca experimenta de forma concreta a presença viva e pessoal de Jesus, biblicamente, parece-nos estranho.

Em terceiro lugar, como resultado dessa experiência mística com Jesus, a igreja torna-se – ou pelo menos deveria ser assim – num local de vidas transformadas e formadas à semelhança de Cristo. Estamos falando da mística cristã como uma experiência maciça, concreta com  a realidade espiritual. Sendo assim precisamos estabelecer uma via, um caminho igualmente prático que conduza-nos a esse objetivo. Nos séculos de cristianismo homens e mulheres com fome e sede de Deus extraíram das Escrituras práticas espirituais que tinham como propósito levar o devoto a uma experiência com a presença de Deus. Tais práticas foram testadas, experimentadas e comprovadas como eficazes por muitos. Disciplinas espirituais como silênio, solitude e meditação bíblica formaram cristãos de ambas as tradições de confissão cristã produzindo homens e mulheres que refletiam em seu viver diário a vida do próprio Jesus. De uns tempos para cá temos visto o que poderíamos chamar de um verdadeiro avivamento místico no seio da igreja. Deus tem despertado e levantado uma gama de homens e mulheres que têm redescoberto o caminho contemplativo como via de transformação do caráter humano. Isso de certa forma enche o meu coração de esperanças de que o próprio Deus está removendo Seu povo de uma experiência cristã epidérmica, superficial para uma profunda e espiritualmente formadora. Queira Deus que muitos outros sejam contagiados por esse mover divino de renovação da igreja. Acredito piamente que essa é a única forma de estancarmos a avalanche de desvios a que a igreja se entregou nos últimos tempos.

Voltando á pergunta inicial: a que se parece a igreja? Num sentido secundário ela tem que ter a aparência de uma comunidade. Uma comunidade de pessoas salvas que vivem suas vidas em novidade. Ela deve transparecer ao mundo o amor de Jesus vivido no amor de uns para com os outros.

No entanto, de forma mais profunda a igreja deve  se parecer com Jesus. E isso se dá única e exclusivamente pela via mística através da união com Cristo que nos possibilita experimentarmos de forma pessoal e concreta a Presença, o que nos leva à transformação do caráter por meio das disciplinas espirituais tanto no âmbito individual quanto coletivo.

Que cada um dos filhos de Deus decidam tornar-se verdadeiros místicos e não gerentes de franquias de um comércio religioso que só desonra o nome Querido de Jesus.

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