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Posts Tagged ‘lectio divina’

Estava um certo homem deitado no sofá de sua sala assistindo a um filme na televisão. Como o mesmo não estava conseguindo prender sua atenção, ele dormiu profundamente e passou a sonhar sonhos de Deus. E um deles foi assim compartilhado comigo:

Estava eu caminhando por uma estrada deserta, poeirenta  quando deparei-me com um lindo jardim em flor de primavera na beira do caminho. Nele existia uma riqueza de detalhes que enebriava de profunda alegria a quem o observasse. Margaridas, rosas de várias cores, copos de leite, cravos, lírios e muitas outras plantas compunham aquela paisagem de beleza multifacetada. Pensei comigo: “O Jardineiro que cuida desse jardim deve ser alguém muito zeloso e caprichoso”. Ainda podia divisar samambaias e árvores frutíferas de várias espécies e um rio de águas límpidas que atravessava bem no meio daquele local. Pus-me a me perguntar meio que atordoado com tudo aquilo ao meu redor: “O que pode significar um jardim tão bonito como esse num lugar tão inóspito?”

Ainda estava a me questionar quando ouvi uma voz que ao mesmo tempo em que era doce e suave, parecia com o rugir de centenas de trovões. Acho que era a voz do próprio Jardineiro. E a voz me disse: “Esse jardim representa as Sagradas Escrituras que Deus concedeu à humanidade para que lhe seja luz e lâmpada que lhe indique o caminha da salvação”. E é verdade, oh Senhor Bendito de toda glória! Não são elas uma carta de amor de um Deus que simplesmente ama porque decidiu assim fazê-lo? E não são suas as verdades multifacetadas a alegrar o coração dos homens e a edificar os crentes e a revelar a vereda para a redenção da alma? E suas verdades não são semelhantes ao fruto maduro e doce a impregnar de sumo a boca de quem o prova ?

Comecei a caminhar por aquele lindo jardim de belezas e delícias insondáveis. Eu não tinha pressa alguma. Caminhava lentamente, passo à passo olhando e observando tamanhos, formas e cores de tudo o que brotava do solo daquele lugar paradisíaco. Rosas vermelhas e brancas. Violetas. Margaridas amarelas. Copos-de-Leite brancos como a neve. Árvores pequenas, árvores grandes. Frutos pequenos e frutos grandes. Uma riqueza de detalhes que palavras não poderiam expressar satisfatoriamente. Num dado momento, percebi em meio àquela vastidão uma linda rosa que chamou a minha atenção pela sua beleza singela, sua textura aveludada, cor viva e delicioso perfume. Parei diante dela abaixei-me e a colhi com cuidado e reverência. E disse em seguida: “De todas as flores que vi e apreciei, essa rosa verdadeiramente foi feita para minha alegria.” De repente, como que do nada ouvi novamente a voz do Jardineiro à perguntar-me: “Você sabe o que significa esse passeio sem pressa e atento a todas as belezas e riquezas do meu jardim?” Eu lhe respondi: “Não Senhor, Tu o sabes!” E ele complementou: “Esse caminhar sem pressa, silencioso e atento é a meditação sobre as minhas Escrituras. E a rosa que colheste é a Palavra que separei e direcionei para sua vida”. Ah, Amado Senhor! E não é assim mesmo que, ao lermos sem pressa  em em amorosa e silenciosa atenção, num dado momento nossa atenção é chamada a uma frase, expressão ou palavra da Sacratíssima Escritura? O que antes era apenas um texto sagrado passa a ser a nossa Palavra pessoal. A Palavra do nosso Deus para as nossas vidas.

Enquanto ainda olhava atentamente para a minha rosa que havia colhido do jardim, eis que sem o perceber o Jardineiro se aproxima de mim. Olhei nos seus olhos e foi como se me perdesse nas profundezas de um vasto oceano. Oceano de bondade, esperança, misericórdia e amor. Ele sorriu para mim. E o seu sorriso se alastrou pelo meu peito como um incêndio a consumir uma floresta de folhas secas. Naquele momento, sem entender muito bem o que se passava, comecei a chorar e a gradecer ao gracioso jardineiro por ter cultivado e cuidado de tão bela espécime de flor. Exaltei sua criatividade e cuidado para com aquela rosa. E acima de tudo pelo fato de que agora compreendia que a mesma não fora destinada para qualquer outra pessoa a não ser para mim. E ele com muita alegria no rosto me perguntou: ‘Sabe o que você está fazendo?’ ‘Não!’ Eu lhe respondi. ‘Você está orando. E sua oração é uma resposta espontânea à beleza e gratuidade da rosa que você colheu no meu jardim’. É verdade Benigníssimo Senhor! A Palavra que nos dá na meditação de Tuas Sagradas Letras fazem brotar do nosso interior o mover da alma que chamamos de oração. E em  alguns momentos as riquezas de sua graça e compaixão nos levam a louvarmos Seu Santo nome. A rendermos graças e glórias ao Rei de nossas vidas. Mas em outras ocasiões nossos pecados fazem com que os espinhos de nossa rosa nos firam. Feridas de amor que nos convidam à confissão e ao arrependimento. E aí somos curados e restaurados por Ti. Oh, Pai das misericórdias e Deus de toda a compaixão!

Quando terminei de falar, tendo ainda a rosa em minha mão, o Jardineiro virou-se e começou a caminhar para longe de mim. Sem perder tempo corri o mais rápido que pude em sua direção até alcançá-lo.  Ao perceber-me próximo de si, virou-se e disse: ‘ o que você quer meu filho?’  Sem hesitar por um momento lhe direcionei as seguintes palavras: ‘Senhor, e a contemplação, não tens nada a dizer? No seu jardim já descobri as Escrituras, a meditação e a oração, mas, e quanto à obra da contemplação, o que vem a ser ela?’ Ele abriu um largo sorriso e me respondeu o seguinte: ‘Sabe a rosa que tens na mão? Cheire-a. Desfrute do seu perfume. Saboreie sua fragrância, sem pressa, em silêncio. Não precisa fazer nada. Seja apenas você. Esteja plenamente presente, imbuído e arrebatado pela doçura desse perfume. Isso meu querido, isso é contemplação.’ Senhor, pela tua soberana misericórdia ensina-nos a romper com a tirania do ter e do fazer. Ao paço em que nos ensina a graça de simplesmente ser e estar. Ajuda-nos a silenciar as vozes do nosso interior que clamam de dia e de noite por nossa atenção, sufocando assim os Teu doces sussurros em nossa alma. Capacita-nos a adentrar no Grande Silêncio da Presença que envolve a tudo e a todos.

Foi então que despertei e vi que tudo aquilo não tinha passado de um sonho. E que sonho maravilhoso!  De repente ocorreu-me algo que ainda não tinha feito naquele dia. Corri para a estante de livros, peguei minha velha amiga, a Bíblia, e fui para o quarto secreto onde meu Pai que me vê em secreto estava me aguardando. 

Boa noite a todos!

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A meditação cristã é uma das mais marcantes e significativas páginas da história da Igreja. É uma expressão que vem desde a época dos Pais do Deserto. Foi muito utilizada e praticada pela Monástica e sistematizada na Lectio Divina pelo monge cartuxo Guigo II (1173-1180). Hoje é também conhecida como Meditação Cristã ou Leitura Orante das Escrituras.
Guigo II utiliza a idéia de uma escada para a prática da Lectio Divina, sugerindo uma subida para um encontro no alto, no monte de Deus, e logo uma descida para um encontro nas profundezas, no fundo do coração.
Statio (preparação), Lectio (leitura), Meditatio (meditação), Oratio (oração), Contemplatio (contemplação), Discretio (discernimento), Collatio (compartilhar) e Actio (ação) são os degraus dessa milenar tradição de ler a Bíblia.
Esses passos constituem um movimento integrado em que cada degrau conduz ao outro. Passo a passo, lentamente saboreando cada passo, em direção ao topo, para, em seguida, descer ao vale, voltar ao concreto e ao cotidiano.
Assim diz Guido: “A leitura – Lectio – é o estudo atento da Escritura feito com um espírito totalmente orientado para sua compreensão. A meditação – Meditatio – é uma operação da inteligência, que se concentra com a ajuda da razão, na investigação das verdades escondidas. A oração – Oratio – é voltar com fervor o próprio coração para Deus para evitar o mal e chegar ao bem. A contemplação – Contemplatio – é uma elevação da alma que se levanta acima de si mesma para Deus, saboreando as alegrias da eterna doçura”. E completa: “A leitura leva à boca o alimento sólido, a meditação corta-o e mastiga-o, a oração saboreia-o, a contemplação é a própria doçura que alegra e recria”.
O objetivo não é um estudo bíblico ou uma exegese. É leitura bíblica que nos conduz a uma experiência de encontro com Deus e a uma experiência de oração. Ex 33.11 diz: “Falava o Senhor a Moisés face a face, como qualquer um fala ao seu amigo”.
O propósito da Lectio Divina não é, simplesmente, aumentar o nosso conhecimento intelectual, mas nos levar a um encontro vivo com Jesus Cristo. Tal encontro não nos deixa ilesos, mas faz com que nossa pobreza espiritual aflore, nossos pecados venham à tona, bem como nos indica o caminho da transformação de nossas vidas.
Sem isso, podemos conhecer as Escrituras só racionalmente, sem que elas penetrem nas dimensões mais profundas do nosso ser para tocar nossa consciência, nosso coração, nossa vontade.
Na leitura meditativa, a Palavra não é interpretada, mas recebida. Uma palavra única, exclusiva, que nos ajuda a penetrar no “mistério de Cristo em nós, a esperança da glória” (Cl 1.27). Na Lectio não empregamos a “força de vontade” ou uma disciplina da ordem da razão ou do esforço, mas lemos a Palavra para que ela nos surpreenda, para que ela toque a nossa alma a partir de uma revelação pessoal, dirigida pelo Espírito através de nossa intuição, nossa imaginação, nossos afetos e sentimentos.
Para ler a Bíblia de forma reflexiva, precisamos de um tempo de preparação, de corpo relaxado, de alma apaziguada, de espírito pronto e alerta. Começamos com o nosso corpo, suas dores e tensões, procurando relaxar em uma posição confortável. Faremos, então, contato com nossa alma e seus muitos ruídos internos, procurando trazê-la de volta ao seu sossego (Sl 116.7: “Volta, minha alma, ao teu sossego, pois o Senhor tem sido generoso para contigo”). Oramos ao Senhor, em quietude, com serenidade, aguardando o Senhor (Sl 130.5: “Aguardo o Senhor, a minha alma o aguarda, espero na sua palavra”). Então lemos a Palavra, sem forçar nada, deixando acontecer, nos entregando a ela, iniciando um diálogo com Deus no profundo de nossa alma. Podemos ter um diário onde escrevemos nossas meditações, resgatando uma linguagem mais poética, mais metafórica, uma linguagem da alma, dos sentimentos, dos afetos. Davi tinha um diário que se tornou o livro dos Salmos, onde contava e cantava sua vida com Deus.
A prática da Lectio Divina emerge do silêncio, da solitude e do recolhimento. Conduz a um amadurecimento espiritual e ao autoconhecimento e gera um desejo de maior intimidade com Deus, e de servir ao próximo com santidade e discrição.
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Por Osmar Ludovico

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Quando tratamos de contemplação estamos pisando em terreno misterioso. Que apenas a linguagem análoga é capaz de nos elucidar algo deste outro mundo.

A contemplação á graça pura. Dom do Espírito daquele que é Totalmente Outro. Experiência que começa conosco, contudo, não termina em nossas mãos. É um deixar-se conduzir cada vez mais pelas asas soberanas do Sopro divino.

Não a alcançamos com métodos do tipo: faça isso, depois faça aquilo… Não obstante, podemos criar um “ambiente” que nos coloque numa posição em que Deus tome a primazia de tão sagrada e sublime experiência.

Portanto, apenas como analogia elucidativa podemos falar de uma “Escada para a contemplação”. Devemos ter em mente que quando se trata das coisas do espírito toda comparação é imperfeita. Deste jeito, apesar de usarmos o termo escada, não devemos entender a experiência como isso vem depois disso. Mas, isso sim, como um movimento espiritual de um ato só contendo nele várias dimensões.

Assim, fazendo uso de nossa analogia, esta escada que nos conduz à contemplação, ou mais conhecida por Lectio Divina, é feita de 4 degraus. A saber:

1. Leitura – Este é o primeiro “degrau”. Aqui nos debruçamos sobre a Palavra e a lemos. Não uma leitura rápida nem técnica, visando dissecar exegéticamente o texto. Trata-se de uma leitura mais com o coração do que com a mente. Uma leitura em espírito de oração e de reverente expectativa. Aqui os olhos convertem-se em ouvidos: não apenas se lê, se ouve!

2. Meditação – Aqui, neste segundo “degrau” nos deparamos com algo que tocou a fundo nossos corações. Pode ser uma frase curta ou até mesmo uma única palavra. E assim começamos a interiorizar aquilo que nos foi dado. De que maneira? Ruminando a frase ou palavra que nos tocou: repetindo-a várias vezes, permitindo assim que a mesma lance suas raízes nas profundezas de nossa alma. Este é o momento em que Deus começa a falar conosco.

3. Oração – Neste próximo “degrau” respondemos pessoalmente a palavra que nos foi entregue por Deus. Alguns mestres falam do proveito de neste momento mesclar a oração com a leitura retornando algumas vezes ao texto em questão. Contudo, eles também avisam acerca do cuidado que se deve ter para não se distrair em demasia com a leitura , permitindo assim, que o fogo que antes estava aceso, venha a se apagar.

4. Contemplação – Neste quarto e último “degrau” á medida que aprofundamos a oração a Presença Amante e amada vai tornando-se cada vez mais densa. Tão densa que nossos afetos, emoções e capacidades imaginativas cessam, para que simplesmente estejamos em e na. Neste aprofundar de intimidade as palavras tornam-se desnecessárias. O silêncio se configura em eloquente declaração de amor ao Amado. Coração é arrebatado á presença daquele que é Misterium Tremendum. Não é tão simples de ser descrito como os outros três “degraus”. Nas palavras de Thomas Merton trata-se de um abraço de amor silencioso.

Esta “escada” está aberta, logo, acessível a todos quantos desejam empreender subida. Contudo, como qualquer escada, no início parecerá desgastante, íngrime, dificultosa. Mas, com prática e humilde dependência do Espírito Santo, logo perceberemos que não nos encontramos mais subindo sozinhos.

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