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Posts Tagged ‘meditação’

Estava um certo homem deitado no sofá de sua sala assistindo a um filme na televisão. Como o mesmo não estava conseguindo prender sua atenção, ele dormiu profundamente e passou a sonhar sonhos de Deus. E um deles foi assim compartilhado comigo:

Estava eu caminhando por uma estrada deserta, poeirenta  quando deparei-me com um lindo jardim em flor de primavera na beira do caminho. Nele existia uma riqueza de detalhes que enebriava de profunda alegria a quem o observasse. Margaridas, rosas de várias cores, copos de leite, cravos, lírios e muitas outras plantas compunham aquela paisagem de beleza multifacetada. Pensei comigo: “O Jardineiro que cuida desse jardim deve ser alguém muito zeloso e caprichoso”. Ainda podia divisar samambaias e árvores frutíferas de várias espécies e um rio de águas límpidas que atravessava bem no meio daquele local. Pus-me a me perguntar meio que atordoado com tudo aquilo ao meu redor: “O que pode significar um jardim tão bonito como esse num lugar tão inóspito?”

Ainda estava a me questionar quando ouvi uma voz que ao mesmo tempo em que era doce e suave, parecia com o rugir de centenas de trovões. Acho que era a voz do próprio Jardineiro. E a voz me disse: “Esse jardim representa as Sagradas Escrituras que Deus concedeu à humanidade para que lhe seja luz e lâmpada que lhe indique o caminha da salvação”. E é verdade, oh Senhor Bendito de toda glória! Não são elas uma carta de amor de um Deus que simplesmente ama porque decidiu assim fazê-lo? E não são suas as verdades multifacetadas a alegrar o coração dos homens e a edificar os crentes e a revelar a vereda para a redenção da alma? E suas verdades não são semelhantes ao fruto maduro e doce a impregnar de sumo a boca de quem o prova ?

Comecei a caminhar por aquele lindo jardim de belezas e delícias insondáveis. Eu não tinha pressa alguma. Caminhava lentamente, passo à passo olhando e observando tamanhos, formas e cores de tudo o que brotava do solo daquele lugar paradisíaco. Rosas vermelhas e brancas. Violetas. Margaridas amarelas. Copos-de-Leite brancos como a neve. Árvores pequenas, árvores grandes. Frutos pequenos e frutos grandes. Uma riqueza de detalhes que palavras não poderiam expressar satisfatoriamente. Num dado momento, percebi em meio àquela vastidão uma linda rosa que chamou a minha atenção pela sua beleza singela, sua textura aveludada, cor viva e delicioso perfume. Parei diante dela abaixei-me e a colhi com cuidado e reverência. E disse em seguida: “De todas as flores que vi e apreciei, essa rosa verdadeiramente foi feita para minha alegria.” De repente, como que do nada ouvi novamente a voz do Jardineiro à perguntar-me: “Você sabe o que significa esse passeio sem pressa e atento a todas as belezas e riquezas do meu jardim?” Eu lhe respondi: “Não Senhor, Tu o sabes!” E ele complementou: “Esse caminhar sem pressa, silencioso e atento é a meditação sobre as minhas Escrituras. E a rosa que colheste é a Palavra que separei e direcionei para sua vida”. Ah, Amado Senhor! E não é assim mesmo que, ao lermos sem pressa  em em amorosa e silenciosa atenção, num dado momento nossa atenção é chamada a uma frase, expressão ou palavra da Sacratíssima Escritura? O que antes era apenas um texto sagrado passa a ser a nossa Palavra pessoal. A Palavra do nosso Deus para as nossas vidas.

Enquanto ainda olhava atentamente para a minha rosa que havia colhido do jardim, eis que sem o perceber o Jardineiro se aproxima de mim. Olhei nos seus olhos e foi como se me perdesse nas profundezas de um vasto oceano. Oceano de bondade, esperança, misericórdia e amor. Ele sorriu para mim. E o seu sorriso se alastrou pelo meu peito como um incêndio a consumir uma floresta de folhas secas. Naquele momento, sem entender muito bem o que se passava, comecei a chorar e a gradecer ao gracioso jardineiro por ter cultivado e cuidado de tão bela espécime de flor. Exaltei sua criatividade e cuidado para com aquela rosa. E acima de tudo pelo fato de que agora compreendia que a mesma não fora destinada para qualquer outra pessoa a não ser para mim. E ele com muita alegria no rosto me perguntou: ‘Sabe o que você está fazendo?’ ‘Não!’ Eu lhe respondi. ‘Você está orando. E sua oração é uma resposta espontânea à beleza e gratuidade da rosa que você colheu no meu jardim’. É verdade Benigníssimo Senhor! A Palavra que nos dá na meditação de Tuas Sagradas Letras fazem brotar do nosso interior o mover da alma que chamamos de oração. E em  alguns momentos as riquezas de sua graça e compaixão nos levam a louvarmos Seu Santo nome. A rendermos graças e glórias ao Rei de nossas vidas. Mas em outras ocasiões nossos pecados fazem com que os espinhos de nossa rosa nos firam. Feridas de amor que nos convidam à confissão e ao arrependimento. E aí somos curados e restaurados por Ti. Oh, Pai das misericórdias e Deus de toda a compaixão!

Quando terminei de falar, tendo ainda a rosa em minha mão, o Jardineiro virou-se e começou a caminhar para longe de mim. Sem perder tempo corri o mais rápido que pude em sua direção até alcançá-lo.  Ao perceber-me próximo de si, virou-se e disse: ‘ o que você quer meu filho?’  Sem hesitar por um momento lhe direcionei as seguintes palavras: ‘Senhor, e a contemplação, não tens nada a dizer? No seu jardim já descobri as Escrituras, a meditação e a oração, mas, e quanto à obra da contemplação, o que vem a ser ela?’ Ele abriu um largo sorriso e me respondeu o seguinte: ‘Sabe a rosa que tens na mão? Cheire-a. Desfrute do seu perfume. Saboreie sua fragrância, sem pressa, em silêncio. Não precisa fazer nada. Seja apenas você. Esteja plenamente presente, imbuído e arrebatado pela doçura desse perfume. Isso meu querido, isso é contemplação.’ Senhor, pela tua soberana misericórdia ensina-nos a romper com a tirania do ter e do fazer. Ao paço em que nos ensina a graça de simplesmente ser e estar. Ajuda-nos a silenciar as vozes do nosso interior que clamam de dia e de noite por nossa atenção, sufocando assim os Teu doces sussurros em nossa alma. Capacita-nos a adentrar no Grande Silêncio da Presença que envolve a tudo e a todos.

Foi então que despertei e vi que tudo aquilo não tinha passado de um sonho. E que sonho maravilhoso!  De repente ocorreu-me algo que ainda não tinha feito naquele dia. Corri para a estante de livros, peguei minha velha amiga, a Bíblia, e fui para o quarto secreto onde meu Pai que me vê em secreto estava me aguardando. 

Boa noite a todos!

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“Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6:6)

Entre os inimigos da devoção, nenhum é tão nocivo como as distrações. Tudo o que excita a curiosidade, espalha os pensamentos, inquieta o coração, absorve os interesses ou desloca o foco de nossa vida, do reino de Deus dentro de nós, para o mundo ao redor de nós – isto é uma distração; e o mundo está cheio dela. Nossa civilização baseada na ciência tem nos dado muitos benefícios, porém ela tem multiplicado nossas distrações e assim tem nos ocupado mais do que tem nos dado…

O remédio para as distrações é o mesmo agora como era nos tempos primitivos e simples, a saber, oração, meditação e cultivação da vida interior. O salmista disse: “Aquietai-vos e sabei”, e Cristo nos chama a entrar no nosso quarto, fechar a porta e orar ao Pai. Isto ainda funciona…

As distrações devem ser conquistadas ou elas nos conquistarão. Portanto, cultivemos a simplicidade; desejemos menos coisas; andemos no Espírito; enchamos nossas mentes com a Palavra de Deus e nossos corações com louvor. Neste caminho podemos viver em paz até em um mundo distraído como este. “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”.

“Senhor, é certamente duro e difícil afastar as distrações de uma civilização progressivamente baseada na ciência. Ajuda-me a cultivar a simplicidade, a ser satisfeito com menos coisas e a encontrar a paz interior que Tu podes dar numa vida de oração e meditação. Amém” .

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* A. W. Tozer

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Meditar é exercitar o espírito em séria reflexão. É esse o sentido mais largo que se possa dar à palavra “meditação”. O termo, então, não está confiando ao âmbito de reflexões religiosas, mas implica atividades mentais e certa absorção ou concentração que não permitem às nossas faculdades vaguearem ao léu ou permanecerem preguiçosas e sem orientação.

 Desde o princípio, deve ficar bem claro, porém, que o termo “meditação”, aqui, não se refere a uma atividade puramente intelectual, e ainda menos a mero raciocínio. A reflexão tem a ver não só com o espírito mas também com o coração, e, em realidade, com todo o ser.

 Alguém que realmente medita não pensa apenas, ama também, e por seu amor – ou pelo menos pela intuição compreensiva para com a realidade sobre a qual reflete – entra nessa realidade e a conhece, por assim dizer, por dentro, por uma espécie de identificação.

Santo Tomás e São Bernardo de Claraval descreve a meditação (consideratio) como uma “procura da verdade”. Todavia, a “meditação”, para eles, é algo de inteiramente distinto do estudo que é, igualmente, uma “procura da verdade”. A meditação e o estudo podem, é claro, estar inteiramente relacionados. Na verdade, o estudo só é espiritualmente fecundo se conduz a uma qualquer meditação. Pelo estudo, procuramos a verdade nos livros ou em alguma outra parte fora de nossas mentes. Na meditação, esforçamo-nos por assimilar o que já temos. Consideramos os princípios que já aprendemos e os aplicamos à própria vida. Em lugar de simplesmente armazenar fatos e idéias em nossa memória, esforçamo-nos por pensar de maneira pessoal e íntima.

No estudo, podemos nos contentar com uma idéia ou um conceito que seja verídico. Podemos nos contentar em ter um conhecimento a respeito da verdade. A meditação é para os que não se satisfazem com um conhecimento meramente objetivo e conceitual em relação à vida, em relação a Deus – em relação a realidades de primeira importância. Querem entrar em contato íntimo com a própria verdade, com Deus. Querem experimentar as mais profundas realidades da vida, vivendo-as. A meditação é um meio para chegar a um fim.

Assim sendo, embora a definição da meditação inquisitio veritatis) como uma busca da verdade realce o fato de que ela é, acima de tudo, função da inteligência, significa, contudo, algo de mais. Santo Tomás e São Bernardo falavam de uma meditação fundamentalmente religiosa, ou, pelo menos, filosófica, e que tem como alvo fazer desabrochar nosso ser todo, pondo-o em comunicação com uma realidade suprema acima de nós. Esse conhecimento unitivo e amoroso começa na meditação, mas só atinge seu pleno desenvolvimento na oração contemplativa.

Essa idéia é muito importante. Rigorosamente falando, até a meditação religiosa é primariamente uma questão de pensar. Mas não termina no pensamento ou reflexão. O pensar meditativo é simplesmente o início de um processo que leva à oração interior e que, normalmente, se supõe culminar na contemplação e na comunhão afetiva com Deus. Podemos chamar todo esse processo (em que a meditação leva à contemplação), oração mental. Na prática, a palavra “meditação” é, muitas vezes, utilizada como se designasse exatamente a mesma coisa que “oração mental”. Todavia, se considerarmos o sentido exato da palavra, veremos que meditação é apenas uma pequena parte de todo o conjunto de atividades interiores que constituem a oração mental.

Meditação é o nome com que é designada a primeira parte do exercício, a parte em que nosso coração e nosso espírito se adestram numa série de atividades interiores que nos preparam à união com Deus.

Quando o pensamento está vazio de atenção afetuosa, quando começa e termina na inteligência, não leva a oração ao amor, à comunhão. Não entra, portanto, no quadro próprio da oração mental. Isso não pode ser considerado, em realidade, meditação. Está fora do âmbito da religião e da oração. Está, portanto, excluído da nossa consideração nestas páginas. Nada tem a ver com nosso assunto. Apenas devemos fazer notar que estaria alguém perdendo tempo se acreditasse que o simples raciocínio pode satisfazer as necessidades de sua alma em relação à meditação religiosa. A meditação não é só questão de “refletir sobre um assunto”, mesmo se isso leva a uma boa resolução do ponto de vista da ética. A meditação é mais do que pensar.

A característica que distingue a meditação religiosa é ser ela uma busca da verdade que brota do amor e a procura da posse da verdade, não só pelo conhecimento, mas também pelo amor. É, portanto, uma atividade intelectual inseparável de uma intensa consagração do espírito e aplicação da vontade. A presença do amor em nossa meditação intensifica e torna mais claro o pensamento, dando-lhe qualidade profundamente afetiva. Nossa meditação se vê repleta de uma amorosa apreciação do valor oculto na verdade suprema que a inteligência procura.

Esse impulso afetivo da vontade, em procura da verdade como o bem mais elevado da alma, ergue-a acima do nível da especulação e faz de nossa busca da verdade uma oração cheia de amor reverencial e adoração, que se esforça por penetrar a escura nuvem que se mantém entre nós e o trono de Deus.

Batemos de encontro a essa nuvem pela súplica, lamentamos nossa pobreza, nossa incapacidade, adoramos a misericórdia de Deus e suas sublimes perfeições, dedicamo-nos inteiramente ao seu culto  A oração mental é, portanto, como um foguete sideral. Movida por uma centelha do amor divino, a alma se lança em direção ao céu, num ato de inteligência claro e direto como a trajetória luminosa do foguete. A graça libertou as mais profundas energias do nosso espírito e nos assiste na ascensão de novas e insuspeitadas alturas. Contudo, nossas faculdades atingem em breve seus limites. A inteligência não consegue subir mais alto. Existe um ponto onde a mente se vê obrigada a baixar essa trajetória de fogo, como que para reconhecer seus próprios limites e proclamar a infinita transcendência do Deus inatingível.

É aqui, porém, que a “meditação” atinge o clímax. O amor toma novamente a iniciativa e o foguete “explode” numa expansão de louvor sacrificial. O amor, então, projeta centenas de estrelas incandescentes – atos de toda espécie – que expressam tudo que há de melhor no espírito do homem, e a alma se consome em fogos que jorram glorificando o Nome de Deus, enquanto caem em direção à Terra desaparecendo, espalhados pelo vento noturno!

É essa a razão por que Santo Alberto Magno, o mestre do qual Santo Tomás de Aquino recebeu a formação teológica em Paris e Colônia, nos dá o contraste entre a contemplação do filósofo e a dos santos:

“A contemplação dos filósofos nada mais procura do que a perfeição de quem contempla, e não vai além do intelecto. Mas a contemplação dos santos se inflama em amor do objeto contemplado, isto é, Deus. Não termina, portanto, num ato da inteligência, mas passa à vontade por um efeito do amor”.

Santo Tomás de Aquino comenta sucintamente que é essa a razão por que o conhecimento contemplativo de Deus é atingido, neste mundo, pela luz de um amor inflamado: per ardorem caritatis datur cognitio veritatis (comentário do Evangelho de S. João, Cap. 5).

A contemplação dos “filósofos”, que é mera especulação intelectual sobre a natureza divina tal como se reflete nas criaturas, seria, portanto, como um foguete que se projetasse nos céus mas jamais explodisse. A beleza do foguete está na sua “morte”, e a beleza da oração mental e da contemplação mística está no abandono da alma e na total entrega de si mesma, numa explosão de louvor em que se consome inteiramente, para dar testemunho à transcendente bondade do Deus infinito. Quanto ao mais, é silêncio.

Não nos esqueçamos jamais de que o fecundo silêncio em que as palavras perdem seu poder de expansão, e os conceitos nos escapam, é, talvez, a mais perfeita meditação. Não devemos ter medo nem nos inquietarmos quando não conseguimos mais “fazer atos”. Antes, devemos regozijar-nos e repousar na noite luminosa da fé. Esse repouso é um degrau mais alto de oração.

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Thomas Merton

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Monte Athos

Meditar como uma montanha

Assim começava para o jovem filósofo uma verdadeira iniciação à oração hesicasta.  A primeira indicação que lhe fora dada dizia respeito à estabilidade.  O enraizamento de uma boa postura.
De fato, o primeiro conselho que podemos dar a alguém que quer meditar não é de ordem espiritual, mas física: sente-se.
Sentar-se como uma montanha, isso quer dizer sentar-se com peso: estar pesado da presença.  Nos primeiros dias, o jovem teve muita dificuldade em permanecer assim imóvel, as pernas cruzadas, o quadril ligeiramente mais alto que os joelhos (foi nessa postura que ele encontrara a estabilidade).  Uma manhã, ele realmente sentiu o significado de “meditar como  uma montanha”.  Ele estava ali, com todo seu peso, imóvel.  Ele e a montanha formavam um só, silenciosos sob o sol.  Sua noção do tempo mudara completamente.  As montanhas possuem um outro tempo, um outro ritmo.  Estar sentado como uma montanha é ter a eternidade diante de si, é a atitude justa para aquele que quer entrar na meditação: saber que ele tem a eternidade detrás, dentro e diante de si.  Antes de erguer uma igreja, era preciso ser pedra e sobre essa pedra (essa solidez imperturbável do rochedo), Deus pôde erguer sua Igreja e fazer do corpo do homem o seu templo.  Era dessa forma que ele compreendia o sentido das palavras evangélicas: “És pedra e sobre essa pedra edificarei minha igreja.”
Assim ele permaneceu durante várias semanas.  O mais difícil para ele era passar horas “sem fazer nada”.  Era preciso reaprender a ser, simplesmente ser – sem objetivo nem motivo.  Meditar como uma montanha era a própria meditação do Ser, “do simples fato de Ser”, antes de todo pensamento, todo prazer e toda dor.  O padre Serafim o visitava todos os dias, compartilhando com ele seus tomates e suas azeitonas.  Apesar dessa dieta frugal, o jovem parecia ter ganhado peso.  Seu caminhar estava mais tranqüilo.  A montanha parecia ter entrado na sua pele.  Ele sabia respeitar o tempo, acolher as estações, permanecer em silêncio e ficar tranqüilo como uma terra por vezes dura e árida, mas por vezes também como o flanco de uma colina à espera da época da colheita.
Meditar como uma montanha também modificara o ritmo dos seus pensamentos.  Ele aprendera a “ver” sem julgar, como se ele desse a tudo aquilo que brota sobre a montanha o “direito de existir”.
Certo dia, alguns peregrinos o tomaram por um monge; impressionados pela qualidade da presença, eles pediram-lhe uma bênção.  Ele nada respondeu, imperturbável como a pedra.  Tendo sabido disso, naquela mesma noite o Padre Serafim começou a lhe dar bastonadas…  O jovem homem se pôs então a gemer.
“Ah bom, eu achei que você tivesse se tornado tão estúpido quanto as pedras do caminho…  A meditação hesicasta tem um enraizamento, a estabilidade das montanhas, mas seu objetivo não é fazer de você um cepo morto, mas um homem vivo.”
Ele tomou o jovem pelo braço e o conduziu até o fundo do jardim onde, entre as ervas selvagens, eles conseguiam divisar algumas flores.  “Agora não se trata mais de meditar como uma montanha estéril.  Aprenda a meditar como uma papoula, mas não esqueça da montanha…”

Meditar como uma papoula

Foi assim que o jovem aprendeu a florescer…  A meditação é antes de tudo uma postura e foi isso o que a montanha lhe havia ensinado.  A meditação também é uma “orientação” e era isso o que a papoula estava ensinando-lhe agora: voltar-se em direção ao sol, voltar-se do mais profundo de si mesmo em direção à luz.  Aspirar em todo seu sangue, toda a seiva.
Essa orientação voltada ao belo, à luz, fazia com que ele às vezes ficasse vermelho como uma papoula.  Era como se a “bela luz” fosse a luz de um olhar que lhe sorria, esperando dele um perfume qualquer…  Junto à papoula, ele aprendeu igualmente que, para permanecer na sua orientação, a flor deveria ter “a haste ereta” e ele começou a endireitar a coluna vertebral.
Isso lhe colocou alguns problemas, pois ele tinha lido em alguns textos da Filocalia que o monge deveria estar ligeiramente curvado.  Algumas vezes, até mesmo sentindo dor.  O olhar voltado para o coração e as entranhas.
Ele pediu ao padre Serafim algumas explicações.  Os olhos do staretz o olharam com malícia: “Isso era para os fortões d’outrora.  Eles eram cheios de energia, e era preciso lembrar-lhes a humildade da sua condição humana, que eles se curvem um pouco durante a meditação – isso não lhes fará nenhum mal…  Mas você, você tem necessidade de energia, então, no momento da meditação, endireite-se, esteja vigilante, mantenha-se ereto e voltado para a luz, mas sem orgulho… aliás, se você observar bem a papoula, ela lhe ensinará não apenas a retidão da haste, mas também uma certa maleabilidade sob as inspirações do vento e também uma grande humildade…”
     De fato, o ensinamento da papoula também estava presente na sua fugacidade, na sua fragilidade.  Era preciso aprender a florescer, mas também a fanar.  O jovem compreendeu melhor as palavras do profeta:
“Toda carne é como a grama e sua delicadeza é como a das flores dos campos.  A grama seca, a flor murcha…  As nações são como uma gota de orvalho na beira de um balde…  Os juízes da terra acabarão de ser plantados, sua haste acabou de deitar raízes na terra… e então eles secarão e a tempestade os levará como uma palha.” (Isaías 40).
A montanha tinha lhe dado o sentido da Eternidade, a papoula lhe ensinava a fragilidade do tempo: meditar é conhecer o Eterno na fugacidade do instante, um instante reto, bem orientado.  É florescer o tempo que nos é dado a florescer, amar o tempo que nos é dado a amar, gratuitamente, sem porquê, pois para quem?  Por que florescem as papoulas?
Assim, ele aprendeu a meditar “sem objetivo nem ganho”, apenas pelo prazer de ser e de amar a luz.  “O amor é a sua própria recompensa”, dizia ainda Ângelus Silesius.  “É a montanha que floresce na papoula, pensou o jovem.  É todo o universo que medita em mim.  Que ele possa ficar vermelho de alegria enquanto durar minha vida.”  Esse pensamento certamente era demais.  O padre Serafim começou a sacudir o nosso filósofo e mais uma vez o tomou pelo braço.  Ele o conduziu por um caminho escarpado que levava até a beira do mar, a uma pequena praia deserta.  “Pare de ruminar como uma vaca o bom senso das papoulas…  Tenha também o coração marinho.  Aprenda a meditar como o oceano.”

Meditar como o oceano

O jovem aproximou-se do mar.  Ele tinha adquirido uma boa base e uma orientação reta.  Ele estava na boa postura.  O que lhe faltava?  O que o marulhar do oceano poderia lhe ensinar?  O vento se ergueu.  O fluxo e o refluxo do mar tornaram-se mais profundos e isso despertou nele a lembrança do oceano.  O velho monge tinha aconselhado-o, de fato, a meditar “como o oceano” e não como o mar.  Como ele tinha adivinhado que o jovem tinha passado longas horas às margens do Atlântico, sobretudo à noite e que ele já conhecia a arte de acordar seu sopro com a grande respiração das ondas.  Eu inspiro, eu expiro…, depois, eu sou inspirado, eu sou expirado.  Eu me deixo levar pelo sopro, assim como nos deixamos levar pelas ondas…  Assim ele se deixava ser carregado pelo ritmo das respirações oceânicas.  Mas a gota de oceano que outrora “dissipava-se no mar”, guardava hoje sua forma, sua consciência.  Será que isso era o efeito da sua postura?  Do seu enraizamento na terra?  Ele não era mais levado pelo ritmo aprofundado da sua respiração.  A gota d’água guardava sua identidade e, no entanto, ela sabia “ser uma” com o oceano.  Foi assim que o jovem aprendeu que meditar é respirar profundamente, deixar ser o fluxo e o refluxo do sopro.
Ele aprendeu igualmente que, mesmo havendo ondas na superfície, o fundo do oceano permanecia tranqüilo.  Os pensamentos vão e vêm, nos fazem espumar, mas o fundo continua imóvel.  Meditar a partir das ondas que somos para perdermos o pé e deitarmos raízes no fundo do oceano.  Tudo isso tornava-se a cada dia um pouco mais vivo para ele e ele se lembrava das palavras de um poeta que o marcara nos tempos da sua adolescência: “A Existência é um mar incessantemente cheio de ondas.  Desse mar as pessoas normais só percebem as ondas.  Veja como, das profundezas do mar, inumeráveis ondas aparecem na superfície, enquanto o mar permanece oculto nas ondas”.  Hoje o mar lhe aparecia menos “oculto nas ondas”, a unicidade de todas as coisas lhe parecia mais evidente, e isso não abolia o múltiplo.  Ele tinha menos necessidade de opor o fundo e a forma, o visível e o invisível.  Tudo isso constituía o oceano único da vida.
No fundo do seu sopro não se encontrava o Ruah?  O pneuma?  O grande sopro de Deus?
“Aquele que escuta com atenção sua respiração, lhe disse então o velho monge Serafim, não está longe de Deus.”
“Escute quem está no final do teu expirar.  Quem está na fonte do teu inspirar.”  Realmente, existia ali alguns segundos de silêncio mais profundos do que o fluxo e o refluxo das ondas, e havia ali algo que parecia carregar o oceano…

Meditar como um pássaro

Estar em uma boa postura, estar orientado em direção à luz, respirar como um oceano… isso ainda não é a oração hesicasta, lhe disse o Padre Serafim.  “Agora você deve aprender a meditar como um pássaro”, e ele o levou até uma pequena célula próxima à sua ermida onde viviam duas rolas.  De início, o arrulhar desses dois pequenos animais lhe pareceu charmoso, mas não demorou para que esse som irritasse o jovem filósofo.  De fato, elas escolhiam o momento onde ele estava caindo de sono para arrulhar as mais ternas palavras.  Ele perguntou ao velho monge o que tudo isso significava e se essa comédia iria durar muito tempo.  A montanha, o oceano, a papoula ainda passavam (mesmo que possamos nos perguntar o que existe de cristão nisso tudo), mas, agora, propor-lhe essa ave langorosa como mestre de meditação, era demais!  O padre Serafim explicou-lhe que no Antigo Testamento, a meditação é expressa pelos termos da raiz “haga”, frequentemente  traduzido para o grego por mélété – meletan – e para o latim pormeditaria – meditatio.  Em seu sentido primitivo, essa raiz queria dizer “murmurar em voz baixa”.  Ela é igualmente utilizada para designar os gritos dos animais, por exemplo, o rugir do leão (Isaías 31, 4), o piar das andorinhas e o canto da pomba (Isaías 38, 14), mas também o grunhido dos ursos.
“Não temos ursos no Monte Athos.  É por esta razão que o trouxe até as rolas, mas o ensinamento é o mesmo.  É preciso meditar com a sua garganta, não apenas para acolher o sopro, mas também para murmurar o nome de Deus noite e dia…”
Quando você está feliz, quase sem se dar conta, você cantarola, você às vezes murmura palavras sem sentido e esse murmúrio faz todo o seu corpo vibrar de alegria simples e serena.
Meditar é murmurar como a rola, deixar subir em si esse canto que vem do coração, assim como você aprendeu a deixar subir em você o perfume que vem da flor… meditar é respirar cantando.  Sem nos demorarmos muito no significado agora, eu proponho que você repita, murmure, cantarole as palavras que estão no coração de todos os monges do Athos: “Kyrie eleison, kyrie eleison…”  Isso não agradou muito ao jovem filósofo.  Ele já tinha ouvido essas palavras em algumas celebrações de casamento ou enterro; em francês elas eram traduzidas por: “Senhor, tenha piedade”.
O monge Serafim começou a sorrir: “Sim, esse é um dos significados dessa invocação, mas há muitos outros.  Essas palavras também querem dizer: “Senhor, envie teu Espírito…!  Que a tua  ternura esteja sobre mim e sobre todos, que teu Nome seja abençoado, etc…”, mas não procure compreender o sentido dessa invocação, ele se revelará sozinho a você.  Por enquanto, esteja sensível e atento à vibração que ela desperta em seu corpo e em seu coração.  Tente harmonizar pacificamente essa invocação com o ritmo da sua respiração.  Quando os pensamentos o atormentarem, volte suavemente a essa invocação, respire mais profundamente, mantenha-se ereto e imóvel e você conhecerá um início dehesychia, a paz que Deus dá, incomensuravelmente, àqueles que o amam.  Passados alguns dias, o “Kyrie eleison” tornou-se um pouco mais familiar.  Ele o acompanhava assim como o zumbir acompanha a abelha quando ela faz o seu mel.  Ele nem sempre o repetia com os lábios.  O zumbido tornara-se mais interior e sua vibração mais profunda.
O “Kyrie eleison” que ele renunciara a “pensar” acerca do seu significado, o conduzia por vezes a um silêncio desconhecido e ele se encontrava na atitude do apóstolo Tomé quando este descobriu o Cristo ressuscitado: “Kyrie eleison”, Meu Senhor é meu Deus.
A invocação o mergulhou pouco a pouco em um clima de intenso respeito por tudo aquilo que existe.  Mas também de adoração por aquilo que mantém-se oculto na raiz de todas as existências.  O padre Serafim disse-lhe então: “Agora você não está longe de meditar como um homem.  Eu devo ensinar-lhe a meditação de Abraão.”

Meditar como Abraão

Até aqui o ensinamento do stárets fora de ordem natural e terapêutica.  Os antigos monges, segundo o testemunho de Philon de Alexandria, eram, de fato, “terapeutas”.  Seu papel, antes de conduzirem à iluminação, era o de curar a natureza, colocá-la em melhores condições para que ela pudesse receber a graça, a graça que não contradizia a natureza, mas a restaurava e a realizava.  Era isso que o homem idoso estava fazendo com o jovem filósofo, ensinando-lhe um método de meditação que alguns poderiam chamar de “puramente natural”.  A montanha, a papoula, o oceano, o pássaro – tantos elementos da natureza que lembram ao homem que ele deve, antes de ir mais longe, recapitular os diferentes níveis do ser, ou ainda os diferentes reinos que compõem o macrocosmo.  O reino mineral, o reino vegetal, o reino animal…  Frequentemente o homem perde o contato com o cosmos, com o rochedo, com os animais e isso acaba provocando nele todo tipo de doenças, de mal-estares, de insegurança, de ansiedade.  Ele se sente “demais”, estranho e estrangeiro no mundo.  Meditar era primeiro entrar na meditação e no louvor do universo, pois “todas as coisas sabem orar antes de nós”, dizem os padres.  O homem é o lugar onde a oração do mundo toma consciência dela mesma.  O homem está aqui para nomear aquilo que todas as criaturas balbuciam.  Com a meditação de Abraão, nós entramos em uma nova e mais elevada consciência que chamamos de fé, ou seja, a adesão da inteligência e do coração a esse “Tu” ou a esse “Você” que é, que transparece quando chamamos todas os seres pelos seus primeiros nomes.  Essa é a experiência e a meditação de Abraão: atrás do estremecer das estrelas, existem mais do que estrelas, uma presença difícil de nomear, que nada pode nomear e que no entanto possui todos os nomes…
É algo maior do que o universo e que, no entanto, não pode ser compreendido fora do universo.  A diferença que existe entre Deus e a natureza é a diferença que existe entre o azul do céu e o azul de um olhar…  Abraão estava em busca desse olhar além de todos os azuis…  Após ter aprendido a sentar, após ter aprendido o enraizamento, a orientação positiva em direção à luz, a respiração apaziguada dos oceanos, o canto interior, o jovem era convidado ao despertar do coração.  “De repente, você é alguém”.  Aquilo que é próprio ao coração, de fato, é personalizar todas as coisas e, nesse caso, personalizar o Absoluto, a Fonte de tudo aquilo que é e respira, nomeá-la, chamá-la de “Meu Deus”, “Meu Criador” e caminhar em Sua presença.  Meditar, para Abraão, é manter, sob as mais variadas formas, o contato com essa Presença.  Essa forma de meditação entra nos detalhes concretos da vida quotidiana.  O episódio do carvalho de Mambré nos mostra Abraão “sentado à entrada da tenda, na hora mais quente do dia” e ali ele vai acolher três estrangeiros que vão se revelar como enviados de Deus.  Meditar como Abraão, dizia o Padre Serafim, “é praticar a hospitalidade, o copo d’água que damos àquele que tem sede, não se afaste do silêncio, ele o aproxima da fonte.”  Meditar como Abraão, você compreende, desperta não apenas em você a paz e a luz, mas também o Amor por todos os homens.”  E o padre Serafim leu para o jovem a famosa passagem do livro do Gênesis onde se fala da intercessão de Abraão:
“Abraão estava diante de YHWH, Aquele que é – que era – que será.”  Ele aproximou-se e disse: “Vais realmente suprimir o justo junto com o pecador?  Talvez haja cinqüenta justos na cidade, vais realmente suprimi-los e não perdoarás a cidade devido aos cinqüenta justos que estão no seu seio…?”
Abraão, pouco a pouco, teve que reduzir o número de justos para que Sodoma não fosse destruída.  “Que o meu Senhor não se irrite e falarei uma última vez: talvez encontremos dez justos…” (cf. Gênesis 18, 16)  Meditar como Abraão é interceder pela vida dos homens, nada ignorar da sua podridão e, no entanto, “jamais desesperar da misericórdia de Deus”.  Esse tipo de meditação liberta o coração de todo julgamento e de toda condenação, em qualquer tempo ou lugar; quaisquer que sejam os horrores que você venha a contemplar, ele chama o perdão e a bênção.  Meditar como Abraão nos leva ainda mais longe.  A palavra tinha dificuldade em sair da garganta do padre Serafim, como se ele tivesse querido poupar o jovem de uma experiência pela qual ele próprio tivera que passar e que despertava na sua lembrança um sutil tremor: isso pode nos levar até ao Sacrifício…  e ele citou a passagem do Gênesis onde Abraão se mostra pronto a sacrificar seu próprio filho Isaac.  “Tudo pertence a Deus, continuou o padre Serafim, murmurando.  Tudo é dele, por ele e para ele”; meditar como Abraão o conduz a essa total falta de posse de si mesmo e daquilo que você tem de mais caro… procure aquilo que lhe é mais caro, aquilo com o qual você identifica o seu eu: para Abraão era o seu filho, seu único filho.  Se você é capaz desse dom, desse abandono total, dessa infinita confiança naquele que transcende toda razão e todo bom senso, tudo lhe será dado cem vezes mais: “Deus proverá”.  Meditar como Abraão é não ter nada no coração e na consciência “além d’Ele”.  Quando ele subiu até o topo da montanha, Abraão só pensava em seu filho.  Quando ele desceu, ele só pensava em Deus.
Passar pelo cimo do sacrifício é descobrir que nada pertence ao “eu”.  Meditar como Abraão é unir-se pela fé àquele que transcende o Universo, é praticar a hospitalidade, interceder pela salvação de todos os homens.  É esquecer-se a si mesmo e romper os apegos mais legítimos para descobrir-se a si mesmo, nossos próximos e todo o Universo, habitado pela infinita presença “d’Aquele Único que É”.

Meditar como Jesus

O padre Serafim mostrou-se cada vez mais discreto.  Ele sentia os progressos feitos pelo jovem na sua meditação e na sua oração.  Ele o surpreendera diversas vezes com o rosto banhado de lágrimas, meditando como Abraão e intercedendo por todos os homens.  “Meu Deus, misericórdia, o que vai ser dos pecadores…?”  Um dia o jovem veio até ele e perguntou: “Pai, por que o senhor nunca me fala de Jesus?  Qual era a sua oração, sua maneira de meditar?  Não falamos de outra coisa durante a liturgia e os sermões.  Na oração do coração, como nos fala a Filocalia, é o seu nome que devemos invocar.  Por que o senhor não me fala  nada a respeito?”
O padre Serafim tinha o ar perturbado.  Era como se o jovem lhe pedisse algo indecente, como se fosse preciso revelar seu próprio segredo.  Quanto maior é a revelação que recebemos, tanto maior deve ser a humildade daquele que a transmite.  Sem dúvida, ele não se sentia humilde o suficiente: “Isso, apenas o Espírito Santo pode ensinar-lhe.  Ninguém sabe quem é o Filho, senão o Pai; nem quem é o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.” (Lucas 10, 22).  É preciso que você se torne filho para orar como o filho e manter com Aquele que ele chama de seu Pai e nosso Pai as mesmas relações de intimidade que Ele e isso é obra do Espírito Santo, ele o lembrará de tudo aquilo que Jesus disse.  O Evangelho se tornará vivo em você e ele lhe ensinará a orar como é preciso.”  O jovem insistiu.  “Diga-me alguma coisa a mais.”  O velho sorriu.  “Agora, o melhor que eu tenho a fazer é começar a latir.  Mas você também tomaria isso por um sinal de santidade.  Então, é melhor simplesmente dizer-lhe as coisas.”
Meditar como Jesus recapitula todas as formas de meditação que eu ensinei até agora.  Jesus é o homem cósmico.  Ele sabia meditar como a montanha,  como a papoula, como o oceano, como a pomba.  Ele também sabia meditar como Abraão.  O coração não tinha limites, ele amava até seus inimigos, seus carrascos: “Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem”.  Ao praticar a hospitalidade para com aqueles que chamamos de doentes e de pecadores, paralíticos, prostitutas, colaboradores…  À noite ele se retirava para orar em segredo e aí, ele murmurava como uma criança: “abba”, o que quer dizer “papai”…  Isso pode lhe parecer irrisório, chamar de “papai” o Deus transcendente, infinito, incomparável, que está além de tudo!  É quase ridículo e, no entanto, essa é a oração de Jesus e nessa simples palavra, tudo era dito.  O céu e a terra tornam-se terrivelmente próximos.  Deus e o homem fazem apenas um.  Talvez seja necessário dizer “papai” à  noite para compreender isso…  Mas hoje em dias essas relações íntimas de um pai e de uma mãe com seus filhos não querem dizer mais nada.  Talvez essa seja uma imagem ruim…?
É por essa razão que eu prefiro nada dizer, não utilizar nenhuma imagem e esperar que o Espírito Santo coloque em você os sentimentos e o conhecimento que estavam em Jesus Cristo e que esse “abba” não venha da ponta dos seus lábios mas do fundo do seu coração.  Nesse dia, você começará a compreender o que é a oração e a meditação hesicastas.”  Agora, vá!

O jovem ficou ainda alguns meses no Monte Athos.  A oração de Jesus o conduziu aos abismos, por vezes aos limites de uma certa “loucura”: Não sou mais eu que vivo, é o Cristo que vive em mim” – a exemplo de São Paulo, ele podia dizer essas palavras.  Delírio de humildade, de intercessão, de desejo “que todos os homens sejam salvos e alcancem o pleno conhecimento da verdade.”  Ele tornou-se Amor, ele tornou-se fogo.  A sarça ardente não era mais uma metáfora, mas uma realidade: “Ele queimava e, no entanto, ele não era consumido.”  Estranhos fenômenos de luz visitavam o seu corpo.  Alguns diziam tê-lo visto caminhar sobre a água ou manter-se sentado, imóvel, a trinta centímetros do chão…
Dessa vez, o padre Serafim começou a latir: “Chega!  Agora, vá!” e ele pediu que ele deixasse o Monte Athos, que ele voltasse para casa e ali ele veria o que sobrava das suas belas meditações hesicastas!… O jovem partiu.  Ele voltou para a França.  Acharam que ele tinha emagrecido e não acharam nada de espiritual na sua barba de aspecto sujo e seu ar negligente…  Mas a vida da cidade não fez com que ele esquecesse o ensinamento do seu stárets!
Quando ele se sentia muito agitado, sempre sem tempo, ele ia se sentar como uma montanha na varanda de um café.  Quando ele sentia em si o orgulho, a vaidade, ele lembrava-se da papoula, “toda flor murcha”, e novamente seu coração voltava-se para a luz que não passa.  Quando a tristeza, a raiva, o desgosto invadiam sua alma, ele respirava ao largo, como um oceano, ele tomava fôlego no sopro de Deus, ele invocava seu Nome e murmurava: “Kyrie eleison…”  Quando ele via o sofrimento dos homens, sua maldade e sua impotência em mudar alguma coisa, ele se lembrava da meditação de Abraão.  Quando ele era caluniado, quando diziam coisas infames a seu respeito, ela ficava feliz por meditar com o Cristo…  Externamente, ele era um homem como os outros.  Ele não procurava ter “ares de santo”…  Ele até esquecera que praticava o método da oração hesicasta, ele simplesmente tentava amar Deus instante após instante e caminhar na Sua Presença…

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Jean-Yves Leloup (extraído do site do autor)

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Há muito que o cristianismo ocidental perdeu aquele “quê” de assombro, deslumbramento e fascinação diante do mistério divino. Deus se tornou mais comum na mentalidade contemporânea do que podemos imaginar. Temos assistido a completa trivialização do Sagrado e a perda da sensibilidade ao numinoso.

Em dias de capitalismo selvagem, que não apenas tem devorado o recheio de nossos bolsos, mas também engolido nossas almas, a relação homem e Deus sofreu uma dramática reviravolta. O que antes nos fazia ficar estasiados em silêncio, contemplando Aquele que nossa mente não pode compreender, mas nosso coração pode abraçar, hoje é encarado e buscado como mera alavanca para se angariar benefícios pessoais. A fé utilitarista, o discurso triunfalista estão em moda, aliciando a cada dia mais um grande número de admiradores.

Na teologia e no discurso de muitos dos segmentos cristãos da atualidade Deus se vê contra a parede em meio a inúmeras exigências, determinações, constrangido por causa de suas próprias promessas contidas nas Escrituras a atender o homem na hora e do jeito que este o quer. Vemos agora uma drástica troca de soberania: o homem ocupa o trono e a autoridade, enquanto o Deus Triúno, Santo e inescrutável em seu insondável mistério, é colocado como mero lacaio á disposição dos ditames egoístas, e porque não mimados, do mesmo.

Não há necessidade de se dizer que a nossa vida de oração sofreu com tamanha mudança de mentalidade. Nestes dias o paradigma orante são nossas intermináveis listas de pedidos que apresentamos a Deus em nossos momentos devocionais. A meu ver aqui já começa uma grande contradição, pois, devoção não tem nada a ver com pedir, exigir ou determinar algo. Devoção tem mais a ver com dedicação, com o reapaixonar-se, com o redescobrir do assombro que surge na contemplação pura do ser amado. Neste contexto é que devemos redefinir a oração como encontro com Deus.

Um encontro é algo muito importante. Há encontros que marcam indelevelmente a vida das pessoas. Por exemplo os pais que vão ao aeroporto recepcionar o filho a quem não vêem já algum tempo, pois este estuda no exterior. Ou então aquele momento em que separamos para investir um tempo de qualidade junto com ele ou ela. A grande verdade é que os encontros fazem parte da nossa vida. Estão entretecidos na vasta teia que compõe nossa vida de relacionamentos.

Nos encontros não há interesses egoístas. Encontros não permitem exigências ou determinações arbitrárias. Encontro é presença: eu e tu. Encontro é troca. Encontro é dedicação. Encontro é paixão. Paixão que deixa boquiaberto, extasiado , passivo perante o amor que é transmitido através da eloquência de um olhar silencioso. Muita das vezes enconto não requer palavras. Elas são desnecessária. Quando não, acabam por profanar o sagrado do momento. Isso! Encontro é algo sagrado.

Na dinâmica da vida de oração não é diferente. Ou pelo menos não deveria ser. Oração é encontro com o Deus Triúno envolto em mistério, que habita em luz inacessível. Oração é ter a certeza de encontrar a mim mesmo e ao Deus que me conhece e que mesmo assim insiste em continuar me amando, apesar de… Oração como encontro, logo, é comunhão apaixonada entre duas partes amantes e que desejam estar uma na presença da outra.

Desse jeito o silêncio pode, e muito, contribuir para a oração como encontro: com Deus e comigo mesmo. Ao colocar-me na presença de Deus sem palavras posso ficar atento aos pensamentos que brotam em minha mente. E desta forma ser confrontado pelas realidades que muita das vezes ocultam-se por detrás dos mesmos. No âmago dos meus pensamento pode estar a revelação dos “demônios” que afligem a alma. A partir disso posso me colocar na presença do Deus que já me conhece, me acolhe como estou e me ama como sou. Apresento a ele meus anseios e assim a oração passar a ser um encontro comigo nos lugares mais obscuros de minha existência humana e com o Deus que é luz e que a todos ilumina.

Não existe pensamento mais libertador do que este: que posso ser eu mesmo, sem máscaras e desprovido de fobias diante de Deus. Com Deus tenho completo espaço de ser aquilo que sou e não o que as expectativas e exigências dos outros esperam de mim. Quem sou verdadeiramente já não é mais definido por circunstâncias externas, mas, pela imagem original que Deus tem de mim: sou um filho de sua graça, intensamente amado por Ele. E isso me basta.

Assim, sendo a oração uma ponte a se atravessar para um encontro consigo e com o Deus que nos aceita como somos, logo, a oração deve constituir-se para nós numa experiência de aconchego, paz e intimidade. Ao orar nos colocamos, conscientemente, recostados no seio dAquele que é mais do que Senhor. Estamos descansando na presença de quem nos chama de amigos seu.

Consideremos também a meditação como um auxílio para orarmos à moda de um encontro. Quando nos assentamos aquietados para ler sem pressa a Palavra de Deus, abrimos um espaço para que Cristo fale ao nosso coração. Afinal de contas Ele é Logos, Palavra. E nos fala por intermédio de sua palavra. Abrir a Bíblia é ter a boca do Altíssimo aberta para nos falar. O texto em que ouvimos a voz do Eterno é lugar sagrado, onde a sarça arde sem se consumir e nos colocamos descalços ante o mistério do Deus que nos chama pelo nome.

Logo, quando oro em resposta àquilo que Deus falou ao meu coração, esta oração não deixa de ter as dimensões de um encontro. Meu coração se derrete perante o calor de sua voz ecoando das páginas do Livro. Minha vida como um todo age, reage e responde a sua vontade revelada nas páginas da Bíblia. Oração: encontro da Palavra de Deus com meu coração que responde, sedento por Deus.

Oração é mais, muito mais do que aquilo que as pessoas têm feito com ela por aí. Oração não é algo do tipo gênio da lâmpada, nem botão que basta apertar para que recebamos aquilo que queremos, muito menos um memorando destinado ao Chefe do Almoxarifado celestial. Não! Mil vezes não!!! Pelo contrário, oração é comunhão. Orar é travar intimidade e proximidade. Orar é devoção, é entrega de nós mesmos: tudo o que temos e tudo o que somos. Oração é descoberta do eu e revelação do Tu. É lugar secreto de paz, equilíbrio, harmonia e saúde. É experiência pessoal. União perfeita entre duas partes que se amam e se desejam.

Que possamos amar a Deus em oração e através da oração. Que lancemos de nossas vidas, de uma vez por todas, esta concepção mercantilista da fé que encara a oração como mera ferramente para se obter aquilo que se deseja. Que a frieza seja removida de nossos corações novamente, mais uma vez. E que a chama do amor divino volte a arder e nos consumir em emoções sagradas e afetos santificados. Que a oração nos seja mais do que um exercício religioso. Mas um encontro de amor arrebatador com nosso Paizinho Querido que nos convida, como crianças recém-nascidas, a descansarmos em seu colo. Sem pressa. Sem preocupação.

Que assim seja!

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Ao que tudo indica, estas duas palavras tão comuns do nosso vocabulário, por algum motivo, largaram-se as mãos e se divorciaram radicalmente. Necessitamos com urgência reconciliá-las em nossa espiritualidade cristã, se verdadeiramente desejamos mergulhar nas profundezas ainda inexploradas das riquezas divinas.

Desde o momento em que houve a ruptura entre mente e afetos; razão e emoções, ao que tudo indica, as Escrituras começaram a ser encaradas como objeto de investigação acadêmica. Como resultado disso vimos emergir uma teologia intelectualizada, hoje, incapaz de fazer arder em chamas o coração humano. Lê-se a Bíblia com o intuito apenas de se reunir o maior número possível de informações doutrinárias, as quais são expostas nas salas de aula de instituições de ensino cristãs e dos púlpitos de comunidades de adoração com o propósito de unicamente informar as pessoas.

Sendo assim, acabamos por presencia um grande número de cristãos bem instruídos intelectualmente, sem que com isso tenham suas vidas transformadas. Parece-nos que Bíblia e caráter em constante transformação e conversão são duas realidades que hoje em dia tem pouca o quase nenhuma ligação.

A leitura da Palavra de Deus deixou de ser uma experiência do coração que nos atinge mediante uma obra da graça, para deturpar-se numa mera peripécia intelectual de quem a lê. Somos alcançados em nossa mente, contudo, nosso coração permanece intacto. E, consequentemente, nossa vida não transfigurada numa beleza cristificada.

Eis que exércitos inteiros de intelectuais, ébridos em suas próprias jactâncias, exibindo o estandarte de seus títulos acadêmicos avançam rumo às Escrituras para analisá-las, dissecá-las, dominá-las e desvendar seus mistérios que nem homens como João, Pedro e Paulo o fizeram. “Tenho meu Phd; consegui meu Thd”, advogam e se autojustificam os mesmos.

Diante disso, acredito que se desejamos mesmo colocar-nos perante a Bíblia como os primeiros cristãos faziam, faz-se necessários tirarmos as sandálias de nosso orgulho e arrogância intelectuais e nos ajoelhar humildemente sabendo que nos encontramos caminhando em solo sagrado. A sarça ainda arde sem se consumir nas páginas do Livro, o que nos abre a possibilidade de um encontro real e pessoal com o Deus que nos conhece e nos chama pelo nome.

“E, vendo o Senhor que ele se aproximava para ver, chamou-o do meio da sarça: Moisés, Moisés! E ele respondeu: Estou aqui”

Bíblia e encontro. Para que isso nos seja novamente possível; para que haja esta reconciliação, necessitamos primeiramente nos achegar da forma e com uma atitude correta diante das Escrituras. Precisamos, de uma vez por todas, decidir: o que queremos ser? Teólogos, acadêmicos dissecadores ou filhos apaixonados de um Pai amoroso e amigo? Nossa escolha determinará diretamente a forma como lemos e a motivação pela qual nos achegamos à Bíblia. O que queremos ser? De que jeito desejamos ler?

Acredito que uma das formas de reavermos o encontro com Deus através da Palavra, encontro este que atinja o coração e não apenas a mente, com isso gerando transformação de vida, é resgatando uma tradição contemplativa de meditação chamada de Lectio Divina. Esta forma de ler as Escrituras remonta desde os primórdios do judaísmo. Foi sistematizada no século XII por Guigo II, um monge cartuxo. Não obstante, se tem notícias que antes mesmo disso a essência deste método já se configurava como a forma como os primeiros cristãos buscavam seu alimento espiritual nas Escrituras.

Guigo definiu este método de leitura na forma de uma escada de quatro degraus, a saber: leitura; meditação; oração e contemplação. Tendo como meta principal o encontro pessoal com o Cristo vivo que habita o nosso eu interior. O método é tão simples que todos podem praticá-lo.

Primeiramente, antes de tudo, é necessário colocar-nos numa atitude de escuta e numa expectativa de encontro. É muito pertinente nesse sentido colocar-nos em silêncio como preparação que antecede a leitura. E por que o silêncio? Pelo menos por dois motivos: Um deles é para fazer calar as múltiplas vozes interiores que acabam abafando e disputando nossa atenção e com isso impedindo-nos de ouvir a voz de Deus em nós. É um momento não apenas para silenciar palavras, mas , também, para apaziguar o coração.

A segunda razão deste período de silêncio antes da leitura é para nos preparar para escutar. A Escritura diz “O homem seja pronto para ouvir; tardio para falar…”. Escutamos mal porque falamos demais. Nossa tagarelice acaba por nos impedir de ouvir o que Deus tem a nos dizer. O silêncio nos ajuda a corrigir este tipo de desvio. E prepara nosso mundo interior para ser invadido e arrebatado pela Palavra divina.

O degrau seguinte é a leitura do texto em si. Recomenda-se a escolha de um texto curto e não de capítulos inteiros. Devemos sempre nos lembrar que o intuito é o de um encontro com Deus e não o de colher informações. Como deve ser feita esta leitura? Esta leitura deve ser reverente. Numa atitude de temor, deslumbramento e adoração nos achegamos ao texto sabendo que se trata da Palavra de Deus e não dos homens. Esta leitura também deve ser atenta. Sem distrações e sem interrupções. A leitura também precisa ser lenta. Sem pressa, sem passar batido, sem correr. Cada palavra precisa ser saboreada devagar. Leia pelo menos três vezes o texto. Por fim, a leitura precisa ser audível. E isso tem uma razão de ser. Já foi comprovado cientificamente que aquilo que nós lemos vai direto para o nosso cérebro, perpassando por movimentos intelectuais de nossa mente e lá ficando. Enquanto que, por outro lado, tudo quanto ouvimos vai direto para o coração, tocando nossas emoções e despertando nossos afetos.

“Ouve, ó Israel…” (Dt 6:4)

“Quem tem ouvidos para ouvir que ouça…”

Acontecerá num determinado momento que uma simples palavra, ou sentença no texto todo, capture a nossa atenção. Intuitivamente, perceberemos que aquilo é conosco. Então, paramos e nos detemos nesta palavra permitindo, com isso, que a mesma reverbere em nosso coração. Aqui começamos a subir o próximo degrau que é a meditação. É quando o texto ganha vida da parte de Deus para nós. Neste momento devemos personificá-lo, tomá-lo para nós. Pode ser útil também o uso de nossa imaginação ao nos ver sentido o frescor do vento, o cheiro salgado do mar, o murmurar da multidão ao redor de Jesus etc.

Todo mover, de qualquer tipo, gera uma reação. Este mover interior do texto que vai nos invadindo e nos trazendo a Palavra de Deus gera uma reação, impulso espiritual. Entramos no terceiro degrau da escada, a oração. Dependendo do que Deus nos falou através do texto isso vai gerar adoração, louvor, ações de graças, petição, intercessão ou confissão. Trata-se de um movimento conduzido pelo Espírito Santo.

Finalmente, subimos o último degrau da escada, degrau este que nos leva ao topo, ao encontro pessoal em si com Deus. Chamamos esta experiência de contemplação. A união mística da alma com o Totalmente Outro, o Deus Triúno: Pai, Filho e Espírito Santo. É difícil descrevê-la. Nem os grandes mestres devocionais da tradição cristã o conseguiram. Cabe aqui algumas metáforas que podem ajudar a elucidar seu significado:

” Um descanso” em Deus”

“Um olhar amoroso” para Deus

“Um conhecimento além do conhecimento”

Uma atenção extática” para Deus

“Um abraço de amor silencioso

Acerca da dificuldade inerente de se definir esta experiência, Thelma Hall no seu ótimo livro “Lectio Divina, o que é, como se faz”, nos diz o seguinte:

“Todas estas tentativas de verbalizar a experiência necessariamente falham em expressar a realidade, pela simples razão de que a contemplação transcende o pensamento e o raciocínio da meditação, assim como as emoções e ‘sentimentos’ das faculdades afetivas. Ela é, basicamente, uma oração e experiência de pura fé.”

Não só de pura fé, mas, de uma obra de inteira dependência da graça divina. Não somos nós que contemplamos. Deus é quem nos concede a contemplação. É Deus removendo o véu de sobre nossos olhos e dizendo: “Veja, eu estou aqui!”

A contemplação é o emudecer diante dAquele cuja presença se faz. É um estar com Deus e em Deus, longe dos labirintos das imagens mentais e livre dos pensamentos humanos vazios. Não trata-se da busca de sensações, visões ou quaisquer tipos de experiências místicas, apesar de que as mesmas podem ou não acontecer. Contemplação é o perceber, num relance, que Deus está, acolher esta presença querida e nela descansar e permanecer. Sem palavras, sem pensamentos. Só sentimentos, silêncio e assombro.

Nos achegarmos assim à Bíblia, nos levando a um encontro com Deus, fará de nós pessoas melhores. Cristãos melhores. Porque aquela promoverá mudança de dentro para fora. Nos estimulando e nos capacitando a vivenciar o mistério da encarnação: “a saber , Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1:27).

Tereza de Ávila escreveu:

“Toda a mística que se batize de cristã tem de cristalizar numa contemplação de Cristo e numa vontade de encarnar sua vida”.

Que os anjos de Deus em coro digam: Amém!!! E nós também.

Que a Bíblia seja para nós boca de Deus. E que, ao abri-la, sejamos levados ao encontro dAquele que habita no mistério e fulgor de luz inaxecível. O Deus revelatus mas que permanece absconditus em sua identidade mais essencial.

“Mas agora, assim diz o Senhor que te criou, ó Jacó, e que te formou, ó Israel: Não temas, porque eu te salvei. Chamei-te pelo teu nome; tu és meu.(…) Visto que és precioso aos meus olhos e digno de honra, e porque eu te amo, darei pessoas por ti e os povos pela tua vida” (Is 43:1,4)

Que palavras maravilhosas essas. Não seria uma grande tragédia elas permanecerem apenas em nossa mente sem que desça para o coração?


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“Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim (…) Portanto está alegre o                           meu coração”                                                             (Sl 16:8, 9)

O estilo de vida que adotamos fala muito em relação à realidade de quem somos. Ele revela nossos anseios e desejos; nossas espectativas e frustrações. No nosso estilo de vida repousa uma gama muito extensa de experiências que vivemos, palavras que nos foram direcionadas, sonhos os quais não conseguimos trazer à existência. Devemos ainda levar em consideração a carga genética e as predisposições congênitas de comportamento as quais herdamos diretamente de nossos avós e pais.

De uma forma ou de outra todos são formados interiormente à imagem de toda esta bagagem emocional, social e hereditária. E tudo se traduz numa forma de comportamento a qual chamamos de estilo de vida.

Assim, quando consideramos toda a formação que recebemos como fruto destas experiências pessoais, como cristãos, percebemos a necessidade de transformação que nos capacite a nos enquadrar num novo estilo de vida.

A experiência com Cristo conduz-nos a uma nova dimensão comportamental caracterizada por um abandonar das coisas antigas e um abrir-se para o novo de Deus (cf. 2Co 5:17).

Desse jeito é necessário que encaremos a comunhão com Deus como parte integrante, integradora e determinante de um novo estilo de vida a que temos acesso por intermédio de Seu Santo Espírito: um estilo de vida contemplativo.

Este estilo de vida quebra de vez com o estereótipo reducionista de que a vida com Deus, o andar no Espírito, a experiência da presença do Totalmente Outro, é algo a que se tem acesso apenas entre as quatro paredes de uma igreja ou em meio à clausura de um monastério.

Um estilo de vida caracterizado pela contemplação resulta numa nova percepção e experimentação das possibilidades do Sagrado e da beleza inata das coisas efêmeras. Liberta-nos da distração e desatenção. Isso é bem retratado nas palavras de Elizabeth B. Browning:

“A terra está repleta do céu.

E cada sarça comum ardente por causa de Deus.

Mas somente quem percebe tira as sandálias.

O restante se assenta ao redor colhendo amoras”

Um estilo de vida contemplativo é aquele que aguça a nossa percepção de que céu e terra se conectam de forma misteriosa. Que há uma beleza a mais numa ávore comum além do simples prazer de colher uma fruta madurada. Que este mundo está embuído e permeado pela glória dAquele que emana e transcende todas as coisas.

Esta forma de viver nos permite usufruir uma espiritualidade holística que inclui todas as coisas, poupando-nos, desta forma, de uma vida espiritual fragmentada, aprisionada em meio ao pensamento dicotômico de sagrado e profano; espiritual e secular. Como diz Ed Renê Kivitz não podemos considerar a Deus sem também levar em consideração o pardal, a palmeira, a montanha etc.

Este estilo de vida é o estilo de vida dos grandes místicos que aprenderam a perceber e a praticar a presença de Deus. Que descobriram o segredo de orar incessantemente e o duçor da comunhão constante e ininterrupta com Cristo.

Agora, de que forma podemos nos engajar neste estilo de vida ébrio de mistério e de Deus? A seguir compartilho algumas das principais práticas que têm acompanhado o viver contemplativo no decorrer da história cristã:

1. A Prática da Oração do Coração – Conhecida também como a oração de Jesus. Consiste na invocação do nome bendito do Senhor numa fórmula orante “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim, pecador!” O propósito desta oração é entrar no descando e quietude interiores.

Esta fórmula tem tudo o que uma oração exige: Reconhece-se o Senhorio e divindade de Cristo (Senhor Jesus Cristo) ao mesmo tempo em que se reconhece nossa pecaminosidade e consequênte dependência da misericórdia divina (tem piedade de mim, pecador).

Podemos, praticá-la caminhado na rua, dentro do ônibus indo para o trabalho ou quem sabe enquanto realizamos nossas tarefas domésticas.

2. A Meditação Ruminatória – A princípio este nome pode-nos parecer estranho. Creio que isso acontece porque não estamos familiarizados com o que significa meditar. Acreditamos que ler cinco ou seis capítulos da Bíblia por dia, passando batido por eles significa que meditamos nas Escrituras. è verdade que o meditar passa pela leitura. Contudo, nem toda leitura bíblica que fazemos necessariamente significa que também meditamos.

A palavra hebraica “haga” significa murmurar a meia voz mexendo os lábios; repetir. Deste significado vem a idéia de “ruminar” ou “mastigar” a Palavra. Como se dá isso? No momento de sua leitura bìblica – e aqui sugerimos não uma leitura longa de capítulos, mas, de proções pequenas, quem sabe apenas um versículo – escolha uma palavra, uma frase ou um verso inteiro que tenha tocado seu coração. Repita-o em voz baixa em atitude de oração. Quem sabe, se você preferir, você pode escrever este verso num pedaço de papel e levá-lo consigo. Assim quando desejar repetir não correrá o risco de esquecer o texto.

Este exercício nos ajuda a continuamente mantermos nossa atenção naquilo que Deus falou-nos ao coração enquanto o Espírito Santo faz com que a verdade da Palavra de Deus crie raizes em nossa alma. Deste jeito teremos o Senhor continuamente diante de nós. Pela lembrança contínua de sua Palavra.

3. O Convite a Jesus – Uma outra forma de vivermos um estilo de vida contemplativo é aquilo que denominei de convite a Jesus. Seria a prática de tornar o Senhor participativo de tudo quanto nos fizermos durante nosso dia. Devemos ter em mente que Cristo nos ama, e por causa disso, deseja fazer parte de tudo que se relaciona conosco.

Não existe nada trivial relacionado a nós que ele não se importe. Em Pv 3: 5, 6 nos diz – “Confia no Senhor de todo o teu coração (…). Reconhece-o em todos os teus caminhos (…)”. A grande verdade é que quando amamos alguém, confiamos nesse alguém. E por confiarmos convidamos este alguém para ser parte integrante de nosso viver.

Para que possamos ter uma idéia do que seja isso, Frank Laubach nos descreve sua experiência de convidar a Cristo para participar das coisas comuns do seu dia-a-dia. na carta para seu pai em Janeiro de 1930 assim ele diz:

“Nos últimos dias, minha experiência de entrega tem sido mais completa do que nunca. Estou reservando, por vontade própria, um tempo suficiente a cada hora para refletir sobre Deus. Ontem e hoje, realizei uma nova aventura, que não é fácil de ser relatada. Estou sentindo Deus em cada movimento, por um ato de vontade – ansioso para que Ele dirija estes dedos que agora batem nesta máquina de escrever – ansioso para que ele flua por meio de meus passos enquanto caminho – ansioso para que ele controle minhas palavras enquanto falo, minha boca enquanto me alimento”.

A exemplo de Laubach podemos fazer o mesmo. Não é nada de extraordinário no seu sentido restrito. Por exemplo enquanto você estiver tomando seu café você pode dizer para Deus: “Que delícia de café, Senhor! Obrigado pela oportunidade de saborear um café tão delicioso”. Quando você estiver caminhando na rua você pode dizer para Cristo: “Senhor Jesus, guia agora as minhas pernas enquanto caminho”. Em relação ao perigo das tentações vizuais você poderá orar: “Senhor, toma estes olhos em tuas mãos. Guia-os para que eles não se desviem para o mal”. No seu trabalho a coisa pode acontecer assim: “Jesus, ajuda-me a montar esta planilha eletrônica” ou ” Senhor, dá-me atenção para que eu não erre nestes cálculos”. Se for serviço de rua: “Deus, em meio aos perigos desta cidade, guarda-me enquanto caminho por esta rua; avenida” etc. Se você lida com o público pode ser assim: “Senhor, dá-me paciência afim de que eu possa conceder um atendimento com qualidade”. Se for em casa, nas tarefas domésticas: “Jesus, sê com meus braços enquanto varro esta sala; enquanto lavo estas roupas; enquanto tiro este pó”.

As possibilidades são inesgotáveis desde o momento em que nos convencemos de que Jesus tem prazer em participar das nuances do nosso cotidiano.

4. A Prática das Disciplinas Espirituais – Na história dos grandes místicos e contemplativos do passado, a presença da ascese era algo comum nas suas vidas.

Ascese é um termo grego comum que significa simplesmente “treinamento”. Logo, o que seriam as disciplinas espirituais? São atividades que treinam o nosso corpo e alma para que a vida de Deus possa acontecer em nós. Elas nos colocam numa posição tal em que o Espírito Santo possa nos transformar, formando a imagem de Jesus no nosso eu interior.

São muitas e diversas estas disciplinas espirituais: jejum, oração, clebração, serviço, confissão, silêncio, solitude, meditação etc.

Gostaria de me ater a duas delas, pois, o espaço não me permite prolongar. Consideremos o silêncio e a solitude. Estas duas disciplinas caminham de mãos dadas, geralmente. No silêncio eu busco calar as vozes exteriores e interiores para retornar ao meu centro, onde o Espírito de Deus habita para, assim, poder ouvir a sua voz. Na solitude procuro me esquivar das aglomerações humana para poder estar a sós comigo mesmo e com Deus.

Quando estudamos acerca destas duas disciplinas descobrimos que as mesmas, juntamente com a lectio divina, ou leitura orante das Escrituras, ocupavam um lugar central nas atividades ascéticas da vida monástica.

Logo, quando temos acesso a estas informações, questionamos: “mas, não somos monges e nem vivemos na época que eles viviam. Então, não podemos praticar estas disciplinas espirituais?” A resposta é simples: É claro que podemos.

Nosso grande desafio, então, constitui em conseguirmos incorporar na nossa rotina corrida de vida pós-moderna estas atividades espirituais. De que maneira:

4.1. Estabelecendo momentos e períodos de silêncio. Podemos falar de momentos de silncio como por exemplo no seu período devocional separando parte dele para colocar-se em silêncio diante de Deus. Quem sabe pode-se começar com dez minutos e ir aumentando gradativamente.

Podemos ainda considerar dias de silêncio. Como por exemplo num feriado prolongado que começa numa quinta.

Podemos também considerar uma semana de silêncio, ou um mês de silêncio. Isso acontece no período de férias onde você pode viajar para um lugar reservado comoa casa de praia de um amigo ou uma aconchegante pousada serrana.

4.2. Estabelecendo momentos e períodos de solitude. Seu momento devocional onde você praticará o silêncio deve, se possível, ser num lugar reservado onde ninguém lhe pertube. Um quarto de porta fechada, ou num jardim debaixo de uma ávore. O importante é que você possa ficar a sós com Deus.

Também você pode reservar na sua casa um “cantinho da solidão” e combinar com a família que sempre que você estiver lá significa que deseja ficar sozinho. Pode ser um cadeira, ou uma poltrona ou até mesmo um local da casa. Vale aqui a criatividade.

A questão de dias, semanas e meses de solitude se aplicam as mesmas idéias que tratamos acima para o silêncio.

Quem sabe você também possa empreender uma caminhada num local com bastante árvores e flores e lá estar a sós e em silêncio saboreando a presença Deus e observando com mais atenção a natureza que nos revela, como sacramento, a majestade e a glória do Criador.

Existem muitos outras práticas contemplativas. A medida que colocarmos estas em prática o próprio Deus irá nos mostrar outras maneiras de andarmos continuamente em sua presença.

Por fim desejo dizer que apesar destas práticas terem caracterizado a peregrinação espiritual de homens e mulheres de tradição contemplativa ao longo dos séculos, estas, contudo, não são o ponto central de sua espiritualidade.

O que essencialmente define um estilo de vida contemplativo é um viver encharcado por amor: amor de Deus; amor a Deus e amor ao próximos.

Amor este cuja base é o amor do Pai revelado no Filho o qual deu a própria vida para nos resgatar. Por isso o amor de Jesus não apenas nos introduziu na vida contemplativa como também a sustenta e alimenta.

Não há vida contemplativa fora do amor de Cristo. Thomas Merton escreve com grande discernimento acerca disso:

“Não há verdadeira vida espiritual fora do amor de Cristo. Temos uma vida espiritual unicamente porque ele nos ama”.

E vivendo na dinâmica deste amor sublime podemos, como canais, espalhar sua glória estando em sua presença com o coração cheio da alegria dos céus.


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