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Posts Tagged ‘mística cristã’

Sempre temos dificuldade diante das palavras espírito, espiritualidade, vida espiritual. E as parcas noções que temos delas não nos proporcionam a clareza necessária à construção de uma vida cristã sólida. Por isso temos que retomar sempre esses temas para melhorar nossa compreensão, de tal maneira que possamos agarrá-la e, a partir daí, começar a moldar melhor nossa vida.

Nossa dificuldade começa com a palavra espírito que na modernidade recebe diversos sentidos.

Segundo o conhecimento filosófico, o ser humano tem duas maneiras de conhecer: os sentidos, pêlos quais captamos o mundo sensível, e o intelecto, pelo qual captamos o mundo inteligível ou supra-sensí-vel. A partir disso, entendemos as palavras espírito e espiritual como sendo os entes não-materiais, os valores e as coisas culturais e os valores ético-humanistas. Com o tempo, na nossa cultura ocidental, a compreensão filosófica da palavra espírito e a compreensão da fé se misturaram, pelo que espiritual passou a significar valores ético-humanistas. Isso faz pensar que por espiritual o cristianismo entenda a busca desses valores. Essa busca, porém, é própria de todas as religiões.

Essa mistura da experiência filosófica e da experiência cristã leva a distorções que nos dificultam o viver espiritual. Por exemplo: distinguimos o “fazer coisas materiais” e o “fazer coisas espirituais”. A partir dessa distinção, um mecânico que conserta carros, busca ampliar sua oficina, ele faz coisas materiais, é materialista, não entende de coisas espirituais.

Já um professor de literatura, que leciona na faculdade, lê bastante, participa de congressos, este faz coisas espirituais, é espiritualista e entende de coisas espirituais.

Partindo dessa concepção, pessoas como mães de família, operários, lavradores não teriam vida espiritual. O analfabeto também não poderia ter acesso a ela.

Se quisermos entender o que é espírito, espiritualidade, vida espiritual, devemos deixar de lado esse modo de pensar. Surge a pergunta: mas então, quando falamos de espiritualidade cristã, o que entendemos por espírito?

A tradição cultural do Ocidente entende por espírito o modo de existir próprio do ser humano, modo que o distingue dos outros níveis de ser, tais como o vegetal e o animal. Espírito não é, portanto, algo oposto ao corpo.

Espírito é o modo de existir que tem como apanágio deixar-se atingir e abrir-se à dimensão originária que chamamos de Deus-mistério. Mas o Deus-mistério não é o que está além do nosso alcance, não é o estranho longínquo, o misterioso, o enigmático, o abstraio.

Ele é, pelo contrário, o aquém, isto é, a intimidade mais íntima da interioridade de nós mesmos.

As palavras deus, transcendência, selbst, ser, psique são definições pelas quais a teologia, a filosofia, a psicologia tentam dizer algo acerca do Deus-mistério.

Assim ser espírito é a experiência maior do ser humano, experiência que constitui sua identidade. Esta experiência busca compreender-se, organizar-se, tematizar-se.

Dessa elaboração surge o que chamamos de espiritualidade que não é outra coisa do que o cuidado, a cura, o amor disso que somos, espírito. Espiritualidade não é disciplina de ensino, não é ciência do saber. Ela é, porém, verdadeiro saber, saber comprovado por evidências vitais; por isso a espiritualidade é uma verdadeira ciência, numa compreensão da palavra ciência diferente da usual e comum, própria do nosso sistema de ciências físicas, matemáticas, biológicas e humanas.

Se o espírito é a experiência mais radical, então a espiritualidade exige radical conversão do nosso modo de ser. Essa conversão no Ocidente recebeu o nome de mística, entendida não como atividade privilegiada de alguns contemplativos, nem como vivência sentimental da alma piedosa, mas como busca radical do Deus-mistério.

Por ser radical, ela exige o total engajamento da nossa liberdade. A essência da mística cristã é, pois, esse engajamento de busca do Deus-mistério.

A crise da sociedade atual provém do total esquecimento do espírito. Esquecimento que relegou a espiritualidade e a mística a um plano secundário.

É preciso resgatar o sentido profundo da mística, não como uma atividade piedosa do homem, mas como um empenho vital que se concretiza na realidade do dia-a-dia. O pensamento, a arte, a ciência, até o esporte, quando atingidos pela seriedade radical da mística, abrem-se em diferentes vias à acolhida incondicional do Deus-mistério, lá onde se acha o manancial do espírito, a espiritualidade.

O Deus-mistério, porém, ultrapassa nossas duas possibilidades de conhecimento, os sentidos e o intelecto. Ele é inacessível a partir de nós mesmos. Mas Deus se revelou no Evangelho (a boa nova!) de Jesus Cristo, em suas belas e sábias palavras e em nas atitudes que comprometiam seu próprio viver.

Assim, tudo de espiritual que é aprendido no âmbito da fé não vem de nossas experiências intelectuais, mas da dimensão de Deus. A esse mundo inacessível a tradição eclesial ocidental chamou de sobrenatural, diferenciando-o do natural (mundo sensível e inteligível).

Portanto, na experiência cristã, as palavras espiritual, espiritualidade têm o sentido, pura e simplesmente, de empenho de dinamizar o espírito, a existência que somos a partir e iluminados pelo discipulado (aprendizagem) do seguimento de Jesus Cristo, feito a dinâmica maior de nossa vida. Por isso, para nós cristãos, a verdadeira espiritualidade é o seguimento radical de Jesus Cristo.

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* D. Fernando Mason

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Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamada,
Oh, ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
Já minha casa estando sossegada.

Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,
Oh, ditosa ventura!
Na escuridão, velada,
Já minha casa estando sossegada.

Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.

Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia,
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia,
Em sítio onde ninguém aparecia.

Oh, noite que me guiaste!
Oh, noite mais amável que a alvorada!
Oh, noite que juntaste
Amado com amada,
Amada já no Amado transformada!
Em meu peito florido
Que, inteiro para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna, o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.

Da ameia a brisa amena,
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava.

Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado;
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado.

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* São João da Cruz

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Se pudéssemos definir espiritualidade, poderíamos dizer que a mesma trata dos movimentos da alma rumo a Deus. Por isso, espiritualidade não é algo iminentemente cristã. Temos espiritualidade budista, kardecista, Islâmica etc. Não vamos entrar aqui no mérito da questão de qual é a verdadeira, qual é a falsa, se todas são verdadeiras e coisas desse gênero. Apesar de crer que a espiritualidade cristã, fundamentada num relacionamento com o Cristo vivo – único caminho que nos conduz ao Pai – seja a única genuína, o propósito do texto não nos abre espaço para tais considerações.

Quando refletimos acerca do que a espiritualidade cristã é, isso faz-nos deslumbrar o grande milagre da salvação da alma humana através de nosso Santo e Bendito Senhor Jesus Cristo. As Escrituras nos afirmam a deplorável situação de toda a humanidade, no que diz respeito à sua condição espiritual, sem Cristo. Em Rm 6:17 o apóstolo São Paulo nos fala da realidade que caracterizava a vida daqueles cristãos, e também de todo ser humano, ates da experiência de conversão:

“Mas graças a Deus porque, embora tendo sidos ESCRAVOS do pecado, obedecestes de coração à forma de ensino a que fostes entregues”

Aqui somos informados de que a condição do homem antes de sua união ao Cristo de Deus é o de escravo do pecado. O que se traduz uma natureza, uma inclinação moral e espiritual na direção de uma experiência de vida em franca rebelião à Lei do Criador. O apóstolo fala de “pecado” e não “pecados”, mostrando o mesmo se tratar de uma condição inerente da natureza humana.

Continuando, o mesmo apóstolo nos dá novas informações da condição humana sem Cristo. Em Ef 2:1 ele escreve as seguintes palavras:

“Eles vos deu vida, estando vós MORTOS nas vossas transgressões e pecados”

Neste trecho das Escrituras a notícia que recebemos é que a condição humana é a de morte espiritual que se traduz numa separação no relacionamento com Deus. Nas Bíblia morte tem o significado de separação. Que é a morte física senão a separação da parte material da espiritual que nos compõem? Logo, a morte espiritual, por causa do pecado inerente a toda a raça humana (cf. Rm3:23;  5:12) faz parte da realidade de todos independente de cor, etnia, condição social etc.

Dito isso acerca da deplorável condição espiritual do homem perante o Santo Deus, fica-nos ainda mais evidenciado a glória de Cristo como propiciação pelos pecados e a dramática transformação a que o homem se vê perante Deus quando o mesmo é colocado debaixo de um relacionamento redentor com o Unigênito Filho de Deus.   

As Sagradas Escrituras dizem-nos que ao homem em Cristo é concedido o privilégio de ser tornado filho de Deus por adoção (Jo 1:12). O Santo Espírito da parte do Pai vem habitar no corpo do ser humano preenchendo-o com o amor do Pai (Rm 5:5) e testificando no nosso coração  a respeito dessa neo relação filial com o Eterno (Rm 8:16).

Uma nova vida, fruto de um novo coração, que é a própria vida de Jesus acontecendo, tem início na vida dos que entregaram-se em fé a Cristo. No entanto, mesmo à luz de toda esta glória nem tudo são rosas. Existem sombras em meio ao sol do meio-dia. As Escrituras são igualmente realistas e pródigas em nos informar acerca da luta diária que todo cristão tem que travar afim de que essa nova vida (a vida do próprio Jesus) possa se desdobrar em todos os seguimentos da existência humana.

É-nos revelado, da parte do Pai que, apesar de hoje sermos seus filhos em Cristo, livres de toda e qualquer condenação do pecado, ainda carregamos dentro de nós um impostor: a natureza humana corrompida, maculada pelo pecado a que a Bíblia chama de carne. A qual segundo São Paulo luta diariamente contra o Espírito Santo tentando nos levar a desvirtuar-nos do novo Caminho (Gl 5:17).

Diante disso entra a doutrina da cruz diária, a cruz de nosso bendito Senhor e Salvador Jesus, e a mortificação dessa carne afim de que o falso eu (velho homem) nascido em pecado,  progressivamente seja vencido, dando lugar ao verdadeiro eu (novo homem) criado por Deus à semelhança do Seu Filho.

Acerca disso o apóstolo das gentes nos escreve em Gl 5:24 –  

“Os que são de Cristo Jesus CRUCIFICARAM A CARNE juntamente com suas paixões e desejos” 

A crucificação da carne aparece como obra pretérita porquanto na morte de Jesus, na sua cruz, todo o poder do pecado que antes escravizava o homem foi vencido, tornando-lhe possível a vitória diária sobre os desejos carnais. Em razão disso que nosso bendito Senhor nos fez o convite da cruz diária como parte integrante do seu seguimento. Em Mt 16:24 o apóstolo registrou as sagradas palavras de tão glorioso chamamento:

“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”

O convite é o de tomarmos a nossa cruz porquanto ele levou a dele. O chamado é o de morremos diariamente para o nosso falso eu, ressurgindo na glória do novo eu que faz do verdadeiro discípulo do crucificado sal da terra e luz do mundo. Contudo, nesse momento surge-nos uma pergunta: De que forma esse crucificar, carregar diário da cruz, se dá na prática? A essa pergunta o grande apóstolo nos responde em Gl 5:16 –

“Mas eu afirmo: ANDAI PELO ESPÍRITO  e nunca satisfareis os desejos da carne.”

A  notícia a que somos expostos no texto acima referendado é de que se andarmos pelo Espírito, ou seja se vivermos guiados, influenciados e em franca obediência aos comando da gloriosa Terceira Pessoa da Bendita e misteriosa Trindade, o Consolador, mortificaremos a carne com seus desejos e apetites pecaminosos.

Conquanto isso seja verdadeiro, devemos agora arguir de que maneira em nosso viver diário podemos abrir-nos à obra imprescindível do Espírito de Deus na mortificação da carne. Como se dá essa entrega diária ao controle do Espírito Santo. É nesta gloriosa empresa que a espiritualidade vem nos fornecer os meios para alcançarmos tão desejável objetivo. No tocante à mortificação da carne, o efeito da cruz diária, podemos, à guisa de uma maior compreensão, considerar a mortificação em duas áreas principais da vida humana: a mortificação da mente carnal e a mortificação do corpo. Não se faz necessário o mencionar de alma e espírito porquanto os mesmos fazem parte do nosso homem interior o qual está firmado em Deus, sem que o demônio possa causar dano aos mesmos (cf. 1Jo 5:18).

A ASCESE

Já vimos acima que apesar da nova natureza em Cristo ainda carregamos uma velha natureza em nós contrária aos mandamento de Deus. A grande verdade é que a cruz diária (mortificação) do nosso falso eu se faz necessária porquanto antes de conhecer Jesus vivemos uma vida inteira no hábito da prática do pecado. Nossa mente e corpo estão “viciados” na prática do pecado. A inclinação deles é para pecar, ainda. Assim, a necessidade que temos de treinar (ascese) mente e corpo para a nova vida espirital que está acontecendo dentro deles é de gritante urgência.

A espiritualidade com suas disciplinas ascéticas podem nos ajudar nesse sentido. Não me aterei no detalhamento das mesmas visto existirem outros textos que tratam de sua descrição em caráter detalhado:

A MORTIFICAÇÃO DA MENTE

A Bíblia diz que o homem é aquilo que ele pensa (cf. Pv 23:7). Sabedor disso o apóstolo São Paulo nos instrui acerca da necessidade de renovação da mente (Rm 12:2). Para esse propósito temos a meditação nas escrituras e o estudo acadêmico das mesmas como disciplinas fundamentais para a obra da mortificação dos padrões malignos de pensamentos que ainda existem em nós herdados de nossa vida espiritual pregressa.

A primeira disciplina (meditação) visa atingir o coração, os afetos e emoções. Temos na prática da Lectio Divina um caminho profícuo e comprovadamente eficaz nesse sentido.

Na segunda disciplina (estudo) visamos atingir a razão, o intelecto, o entendimento. Nesta área existe uma gama de métodos como estudo indutivo, estudo analítico que são formas de se estudar a Bíblia numa dimensão estritamente intelectual.

O contato com a Palavra de Deus, viva e eficaz,  através das disciplinas da meditação e do estudo visam nos colocar perante aquela que é lampada para os pés e luz para o caminho (Sl 119:105). Aquela que é a Verdade que santifica (cf. Jo 17:17)  e que nos liberta de toda a mentira espiritual (2Tm 3:16).

A MORTIFICAÇÃO DO CORPO

São Paulo nos fala de uma lei do pecado que opera nos membros de nosso corpo (cf. Rm 7:22,23) que guerreia contra o homem interior que tem prazer na Lei de Deus. Portanto, necessário nos é mortificarmos nosso corpo humano, habitação do Espírito, e sujeitá-lo ao Senhor para que o mesmo não apenas more nele, mas, acima de tudo, faça acontecer em nós a gloriosa simbiose espiritual de que as Escrituras nos informam (Gl 2:20; Gl 5:22,23).

Aqui nos é imperiosa a incorporação das chamadas disciplinas de abstenção para a proposta obra de mortificação de nossos corpos. Temos no jejum, no silêncio e na solitude três disciplinas que podem nos auxiliar nisso.

No jejum abstemo-nos de alimentos e às vezes, por período bem pequeno, de líquidos também visando ensinar nosso corpo a não tornar-se escravo das necessidades fisiológicas. Com essa prática estamos dizendo ao corpo: “Corpo sou eu (em Cristo) que te domino; e não você a mim”. Através do jejum percebemos e acessamos a realidade de que existe uma substância fundamental, maior do que comida e bebida, que sustenta a nossa vida e existência (Mt 4:4; Jo 4:31,32).

No silêncio temos a busca pela ausência de sons, ruídos e vozes, tanto externas quanto internas, para que dessa forma possamos nos colocar em amorosa atenção à presença e voz de Deus. E na solitude nos colocamos a parte da presença de pessoas para estarmos sozinhos com Deus. Silêncio e solitude andam de mãos dadas. Uma não existe sem a outra. E ambas visam privar nosso corpo de sons, imagens e interações humanas afim de que sejamos libertos das compulsões que caracterizam a sociedade apressada dos dias de hoje. No silêncio/solitude vencemos o vício do desejo de  ter e fazer e acessamos o tesouro da simplicidade do apenas ser. Simplesmente ser quem somos perante a face amorosa do Pai. E assim estarmos totalmente presentes no momento, não mais fragmentados.

Oh! Esta é a verdadeira glória da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, através da qual estamos crucificados para o mundo e o mundo para nós: através da experiência fundamental da cruz do calvário que salva e vivifica o homem morto em delitos e pecados, ser-nos possível a obra diária da crucificação, mortificação do nosso falso eu (carne), repugnante e impostor aos olhos do Deus Santo. Deveras somente debaixo da obra regenerativa da Graça de Cristo é que podemos fazer uso das disciplinas acima comentadas com o proveito santo de caminharmos em direção a genuína metanóia/metamorfose em imagem de Jesus. Se não for assim meditar não vai passar de um emocionalismo piegas; o estudo, atividade intelectual árida e o jejum, silêncio e solitude o tolo privar-se pelo privar-se.

“Mas longe de mim orgulhar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus  Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gl 6:14)

Finalizo a presente exposição lembrando-me da conversa que um pastor amigo teve com um monge ancião beneditino por ocasião de sua visita ao mosteiro. Em dado momento do diálogo o pastor impressionado com a lucidez do ancião lhe questionou o porque do mesmo não voltar a estudar teologia e filosofia. O ancião fez um período de silêncio, olhou para seu interlocutor e lhe deu uma resposta que impactou sua vida profundamente: “Há mais de trinta anos estudo e contemplo a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. Se ela  não puder me ensinar nada, nada mais o poderá”.  

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INTRODUÇÃO

A comunidade apostólica, retomando uma tradição vétero-testamentária, dedicou, desde o início, uma atenção toda particular ao Nome que o Filho de Deus assumiu no momento da Sua encarnação: JESUS, que significa JHWH É SALVAÇÃO. Além disso, três textos colocam em evidência a veneração da Igreja primitiva para com o nome de Jesus (Fl 2. 9-10;  At 4. 10-12;  Jo 16. 23-24).

Todavia, a Oração do Coração, enraizada no Novo Testamento, foi assumida por uma corrente própria da espiritualidade oriental antiga que foi chamada de hesicasmo. O nome provém do grego hesychìa que significa: calma, paz, tranqüilidade, ausência de preocupação.

O hesicasmo pode ser definido como um sistema espiritual de orientação essencialmente contemplativa que busca a perfeição (deificação) do homem na união com Deus através da oração incessante.

Todavia, o que caracteriza tal movimento é, seguramente, a afirmação da excelência ou da necessidade da própria hesychia, da quietude, para chegar à paz com Deus. Num documento do mosteiro de Iviron do Monte Athos, lê-se esta definição:

“O hesicasta é aquele que só fala com Deus somente e ora sem cessar”.

Os hesicastas, inserindo-se na tradição bíblica, exprimirão a experiência da oração contemplativa através da invocação e da atenção do coração ao Nome de Jesus, para caminharem na Sua presença, serem libertados de todo pecado e permanecerem no suave repouso de Deus à escuta da Sua palavra silenciosa.

A história do hesicasmo começa com os monges do deserto do Egito e de Gaza. “A nós, pequenos e fracos, não nos resta outra coisa senão refugiar-nos no Nome de Jesus”, disse um deles. Depois, se firma com o mosteiro do Sinai, com São João Clímaco. Um expoente máximo é, seguramente, Simeão, o novo Teólogo. Renascerá no Monte Athos no século XIV.

A VOCAÇÃO PARA A HESIQUIA

O termo grego hesiquia é traduzido em latim por quies, pax, tranqüillitas, silentium. Em geral, hesiquia significa quietude, mas pode também querer exprimir a paz profunda do coração. A etimologia é incerta: talvez o verbo da qual deriva – hèsthai, significa estar sentado.

Na literatura monástica, hesiquia revela no mínimo dois significados. Antes de tudo, tranqüilidade, quietude e paz, como estado de alma e condição estável do coração necessária para a contemplação. Significa ainda desapego do mundo na dupla acepção de solidão e silêncio.

A hesiquia expressa na paz, quietude, solidão e silêncio interior, que se consegue através da solidão e do silêncio exterior, se apresenta, todavia, como um meio excelente para se conseguir o fim da união com Deus na contemplação, através da oração contínua. Enquanto meio e não fim, a hesiquia distingue-se, quer seja da apàtheià dos Estoicos, entendida como ausência e liberação das 4 paixões fundamentais: a tristeza, o medo, o desejo e o prazer; quer seja da ataraxia dos Epicureus, que consiste na libertação da alma das preocupações da vida. Estes movimentos filosóficos sublinham e buscam a paz e a quietude da alma, somente como fim último e não como meio para uma plenitude de vida que somente Deus pode conceder.

Na literatura monástica, ao contrário, e em particular junto aos Padres do deserto, a hesiquia mantém sempre um colorido de meio e não de fim. Esta é um meio excelente, um caminho de amor autêntico, vivido no silêncio e na solidão com o fim de se chegar à oração verdadeira e autêntica contemplação. A hesiquia, em resumo, é o comportamento de quem, no próprio coração se põe na presença de Deus.

Para compreender os vários aspectos da hesiquia que o monge é chamado a exprimir, podemos nos referir à vida do abade Arsênio, o pai dos anacoretas. Eis como é contada a sua vocação à hesiquia: “Aba Arsênio, quando ainda morava no palácio imperial, orou a Deus com estas palavras : ‘Senhor, mostra-me o caminho que conduz à salvação ‘. E uma voz se dirigiu a ele e lhe disse: ‘Arsênio, foge dos homens e serás salvo ‘. O mesmo, já anacoreta, na sua condição de eremita, de novo dirige a Deus a mesma oração e ouviu uma voz que lhe disse: ‘Arsênio, foge (do mundo), permanece em silêncio e descanse na paz (hesiquia).’ É destas raízes que nasce a possibilidade de não pecar”. (Arsênio, 1.2). Esta última frase está na origem da vocação dos hesicastas: “Foge, cala, repousa!”. A fuga do mundo, o silêncio e a paz interior são os três comportamentos que dão forma ao estado de vida do monge, particularmente, do anacoreta.

FOGE 

Hesiquia como solidão O autêntico monge é chamado a viver, antes de tudo, a solidão. Os Padres do deserto sublinham com muita força a fuga dos homens, isto é, a necessidade de reduzir ao mínimo o contato com eles. Conta-se a propósito: “O beato arcebispo Teófilo dirigiu-se uma vez ao Abade Arsênio em companhia de um magistrado. Pediu ao ancião ouvisse dele uma palavra. Após um instante de silêncio, ele lhes respondeu: ” E se a disser, a observareis?” Prometeram fazê-lo. Disse-lhes o ancião: “Então, saibam que , onde estiver Arsênio, não vos aproximeis dele” (Arsênio, 7).

“O abade Marcos disse ao Abade Arsênio: “Por que fugis de nós?” O ancião lhe disse: “Deus sabe que eu vos amo. Mas, não posso estar ao mesmo tempo com Deus e com os homens. Os anjos do céu, que são milhares, têm uma única vontade, enquanto os homens têm muitas. Por isso, não posso deixar Deus para estar com os homens” (Arsênio, 13).

Alguns contatos discretos com o mundo podem ser também vantajosos. Todavia, somente para aqueles monges que conquistaram uma grande maturidade espiritual e aos quais é ordenado expressamente por Deus. Mas, em geral, o monge é convidado a garantir para si uma zona de calma, de silêncio, de solidão, para receber a formação da parte de Deus e habituar-se à Sua silenciosa presença.

A hesiquia como solidão não quer dizer somente fuga do mundo, mas quer dizer também uma certa estabilidade num determinado lugar solitário. Esta exigência é expressa com uma famosa fórmula que, mais tarde, tornou-se tradicional: “Permanece na tua cela, permanece no teu eremitério, e ela te ensinará tudo” (Moisés, 6). “Ensinará tudo” é a mesma frase que encontramos na boca de Jesus quando preanuncia a vinda do Espírito Santo (Jo 14, 26). Permanecer na solidão da cela é ainda abertura ao Espírito, ao Seu fogo e à Sua luz.

O abade Macário, o Egípcio, conjuga a fuga dos homens e a permanência na cela: “O abade Isaías pediu ao Abade Macário: “Diga-me uma palavra”. E o ancião lhe disse: “Foge dos homens!” E o abade Isaías lhe disse: “O que significa fugir dos homens?” E o ancião lhe diz: “Significa permanecer na tua cela e chorar os teus pecados”(Macário E, 27). E, dirigindo-se ao abade Aio, lhe dirá: “Foge dos homens, permanece na tua cela a chorar os teus pecados, e não ames a conversação com os homens e te salvarás” (Macário E, 41).

De fato, a cela é o ambiente para a hesyquia, dirá o próprio Antão, o Grande: “Como os peixes morrem se permanecem sobre a terra seca, assim os monges que se demoram fora da cela ou se entretém com o povo perdem a força necessária à hesyquia. Portanto, como o peixe para o mar, assim nós devemos correr para a cela para que não aconteça que, tardando-se fora, esqueçamo-nos de guardar o interior” (Antão, 10).

A solidão pode exprimir-se também num comportamento de contínua peregrinação de um lugar para o outro. De fato, todo lugar deve ser estranho ao monge. Uma tal estranheza – xenitèia – indica uma espécie de exílio voluntário longe das coisas mundanas. Afirma São Nilo: “O primeiro dos grandes combates consiste na xenitèia, isto é, no emigrar sozinho, despojando-se como um atleta, da própria pátria, da própria raça, dos próprios bens”.

O passar de um lugar ao outro é imitar o caminho de Jesus, como demonstra a seguinte historinha: “Do abade Agatão, contavam que empregou muito tempo junto aos seus discípulos. Para construir uma cela. Quando a terminou, começaram a morar nela, mas, já na primeira semana, viu alguma coisa que não o agradou e disse aos seus discípulos: “Levantai-vos, vamo-nos daqui!” (Jo 1, 31) . Eles ficaram muito perturbados e disseram: “Se tinhas a intenção de ir embora, por que nos cansamos tanto para construir a cela? As pessoas se escandalizarão de novo e dirão: “Estes instáveis partem novamente!” Vendo-os assim abatidos, ele lhes disse: “Mesmo que alguns se escandalizem, outros, por sua vez, serão edificados e dirão: Bem-aventurados aqueles que, por amor a Deus, se foram, desprezando tudo. Portanto, quem quiser vir, venha! Eu agora me vou”. Então, jogaram-se por terra, rogando que lhes permitisse partir com ele”(Agatão, 6; cf. também Amoés, 5).

Estes últimos apoftegmas nos permitem sublinhar o aspecto itinerante da hesiquia. Certamente, a cela é importante; mas, não se pode permanecer nela com o espírito de proprietário. O monge sabe ser estrangeiro sobre esta terra e, assim, abandona tudo o que possa desviá-lo do serviço de Deus, vivendo no escondimento e na espera, aguardando ardentemente o retorno do Senhor glorioso. A solidão exterior é certamente importante, mas, mais necessária, é a solidão do coração. Aqui se encontra a autêntica hesequia, ou o verdadeiro eremitismo, ou a anacorese interior, o monaquismo do coração, o único que pode conduzir à Oração de Jesus.

CALA

Hesyquia como silêncio.  Na solidão, o monge é chamado a viver o silêncio. A voz que Arsênio ouviu era, de fato, expressa nos termos que sabemos: foge, cala, repousa. O silêncio que vivem os Padres do deserto, como justamente foi dito, “é um silêncio dos mil nomes e dos mil rostos onde tudo está no seu lugar. É um silêncio precioso para a alma, um silêncio que faz parte da transcendência.

Dos vários apoftegmas decorre que o silêncio dos Padres do deserto é o silêncio da humildade, do calar-se sobre si mesmo, é o silêncio que tira as palavras ao egoísmo, à soberba, ao amor próprio; é o silêncio de quem se faz peregrino e estrangeiro, mas é também o silêncio do amor, o silêncio de quem não julga o próximo, de quem não fala ou murmura dos outros, enfim, é o silêncio da fé, de quem se confia no Totalmente Outro, de quem se colocou completamente nas Suas mãos”.

Consideremos algumas particularidades deste grande silêncio. A oração incessante é o problema prático fundamental que foi muito debatido nos primeiros séculos cristãos. Os monges tinham o dever de praticar esta ordem da Escritura, mais do que todos os outros cristãos. O seu amor pelo silêncio é, sem dúvida, a forma, o clima e a dialética mesma da oração ininterrupta. O silêncio é como uma cela e uma espécie de eremitério portátil do qual o homem de oração não sairá nunca, mesmo quando, por motivos de caridade, deverá sair da sua cela visível. Afirma o grande Poemén: “Se estiveres em silêncio, obterás o repouso em qualquer lugar que habitares” (Poemén, 84).

Guardar o silêncio quando se apresenta a ocasião de falar, é a verdadeira fuga dos homens: “Dominar a própria língua: eis a verdadeira xenitèia “, afirma o abade Titoes (ve D 84). “O aba João era fervoroso no Espírito. Alguém veio visitá-lo e louvou o seu trabalho. Estava trabalhando com corda e permaneceuem silêncio. Tentouuma segunda vez fazê-lo falar, mas ele continuava calado. Pela terceira vez, disse ao visitante: ‘Desde quando veio, você afastou Deus de mim” (João , 32).

“Em Cétia o grande abade Macário, quando se dissolvia a assembléia, dizia: “Fugi, irmãos!” Um dos anciãos lhe perguntou: “Para onde podemos fugir além deste deserto?” Ele punha o dedo sobre a boca dizendo: “Fugi disto!’ e entrava na sua cela, fechava a porta e se sentava (punha-se em hesiquia)” (Macário, E 16).

O silêncio ao qual convidam os Padres do deserto é também testemunho. Segundo a sua experiência, é necessário falar com as obras e não com a língua. É o próprio caminho de fé que opera; as palavras são muitas vezes inúteis. “Um irmão pediu ao aba Sisoes: “Diga-me uma palavra!” Ele lhe disse: “Por que me constranges a falar inutilmente? Faze aquilo que vês!”(Sisoés, 45). “Um irmão pediu ao abade Poemén: “Irmãos vivem comigo. Queres que lhes dê ordens?” “Não”- lhe disse o ancião – “faça o seu trabalho, antes de tudo. E se quiserem viver isso pensarão por si mesmos”. O irmão lhe disse: “Mas, são eles mesmos, pai, que querem que lhes dê ordens”. Disse-lhe o ancião: “Não! Torne-se para eles um modelo, não um legislador” (Poemén, 174).

O abade Isaías disse ainda: “Não deve ser a tua língua a falar, mas as tuas obras, e as tuas palavras sejam mais humildes que as tuas obras. Não penses sem inteligência, não ensines sem humildade, a fim de que a terra possa receber a tua semente.” Os frutos do silêncio, segundo os Padres do deserto, são múltiplos. O silêncio dá a quietude (Poemén, 84); gera a castidade (Ditos V, 25); é ajuda contra os ímpios (Ditos XI, 7); conserva a alma na paz (Matoés, 11). O silêncio é humildade (Ditos, XV, 76). O silêncio ajuda a não julgar o próximo, a não condenar ninguém, é remédio contra a maledicência. É escola de tolerância para com todos (Ammon, 8). Todavia, um tal silêncio exige muita coragem. Poemén afirma: “Na primeira vez, foge! Na segunda, foge! Na terceira, torna uma espada” (Poemén, 40).

REPOUSA

Permanece na paz interior Solidão e silêncio praticados concretamente representam, para os Padres do deserto, o momento fundamental da hesiquia do corpo, da hesiquia exterior. Uma quietude que, ainda que externa, é fundamental. De fato, como afirma Macário: “Ninguém pode ter a hesiquia da alma, se não se assegurou, antes, a do corpo”. Certamente, porém, é a hesiquia interior o eixo essencial da espiritualidade monástica oriental. Da solidão e da ausência de palavras, o monge é chamado a passar ao silêncio profundo ativo e criativo. E isto nada tem a ver com o quietismo. Pelo contrário: “é busca da única quietude possível, que é a paz de Cristo, a paz exultante de Deus o fundo do coração”.

O monge se consagra por vocação a perseguir unicamente a união com Deus através da oração que, por sua vez, pressupõe o total desapego, a perfeita purificação, a renúncia a tudo o que poderia atrasar a sua caminhada espiritual. Os Padres do deserto “recordaram, muitas vezes, que Jesus, mesmo depois do primeiro retiro no deserto, muitas vezes buscou a solidão. A solidão põe, portanto, o monge no centro mesmo do mistério da redenção, numa configuração a Cristo que toca o ápice mais doloroso, mas também o mais fecundo da Sua obra de salvação “.

Deste modo, a ligação entre a solidão e a oração prolongada, êxtase e sofrimento, vem solidamente afirmado. A busca cristã da solidão, do silêncio e da paz interior poderia parecer uma ponta sofisticada de egoísmo. Mas, não é assim. “Consagrar inteiramente a própria vida terrena para que Deus seja tudo em todas as coisas é precisamente o oposto do egoísmo. É participar do modo mais generoso possível, depois do martírio, à grande obra de Deus-Caridade”.

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Extraído de: M. Brunini: “La preghiera del cuore nella spiritualità orientale, ed. Messaggero – Padova

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A contemplação é a mais alta expressão de vida intelectual e espiritual do homem. É a própria vida do intelecto e do espírito, plenamente despertada, plenamente ativa, plenamente consciente de que está viva. É um espanto espiritual, uma admiração. Um temor espontâneo, reverencial, diante do caráter sagrado da vida, do ser. É gratidão pelo Dom da vida, pela consciência despertada, pelo ser. É a consciência viva do fato de que, em nós, a vida e o ser procedem de uma Fonte invisível, transcendente e infinitamente abundante. A contemplação é, acima de tudo, a consciência da realidade dessa Fonte. Ela conhece a Fonte, obscuramente, de modo inexplicável, mas com uma certeza que vai além, tanto da razão como da simples fé. Pois a contemplação é uma espécie de visão espiritual a que, pela sua própria natureza, tanto a razão como a fé aspiram, porque sem ela permanecem forçosamente incompletas. A contemplação, entretanto, não é a visão, pois vê “sem ver” e conhece “sem conhecer”. É fé em maior profundidade, conhecimento demasiadamente penetrante para poder ser aprendido em imagens, palavras ou mesmo conceitos claros. Pode ser sugerida por palavras, por símbolos, mas, no próprio momento em que procura indicar o que conhece, o espírito contemplativo retira o que disse e nega o que afirmou. Pois na contemplação conhecemos “não conhecendo”. Ou, melhor, conhecemos além de todo conhecer ou “não conhecer”.

A poesia, a música e a arte têm algo em comum com a experiência contemplativa. Mas a contemplação vai além da intuição estética, da arte, da poesia. Vai, em realidade, além da filosofia e da teologia especulativa. A contemplação resume, transcende e realiza tudo isso e, contudo, parece, ao mesmo tempo pôr de lado e negar tudo. A contemplação vai sempre além de nosso conhecimento, nossas luzes, nossos sistemas, nossas explicações, nosso discursar; vai além do diálogo e além do nosso próprio ser. Para entrar no mundo da contemplação, em certo sentido, temos de morrer. Mas tal morte é, na verdade, passagem para uma vida mais elevada. É morte por causa da vida; deixa atrás de si tudo o que podemos conhecer ou ter em apreço sob forma de vida, pensamento, experiência, alegria, ser.

A contemplação, pois, parece invalidar e desfazer-se de qualquer outra forma de intuição e experiência – seja na arte, na filosofia, na teologia, na liturgia ou nas áreas comuns do amar e do crer. Essa rejeição é, está claro, apenas aparente. A contemplação é e tem de ser compatível com todas essas coisas, pois é a sua mais alta realização. Todavia, na experiência concreta da contemplação perdemos, momentaneamente, todas as outras experiências. Elas “morrem” para nascerem de novo, num plano de vida mais alto.

Em outras palavras, portanto, a contemplação atinge o conhecimento e mesmo a experiência do Deus transcendente e inexprimível. Conhece a Deus parecendo tocá-lo. Ou melhor, conhece-o como se fora por ele tocado… Tocado por Aquele que não tem mãos, mas é a pura Realidade e a fonte de tudo que é real! Daí ser a contemplação um dom, uma tomada de consciência repentina, um despertar à infinita Realidade que existe dentro de tudo que é real. Uma consciência viva do Ser infinito nas raízes de nosso próprio ser limitado. Uma consciência de nossa realidade contingente como algo de recebido, um presente de Deus, um dom gratuito de amor. Esse é o contato existencial de que falamos, quando empregamos a metáfora: “somos tocados por Deus”.

A contemplação é também a resposta a um chamado. Um chamado daquele que não tem voz e no entanto se faz ouvir em tudo que existe, e que, sobretudo, fala nas profundezas de nosso próprio ser, pois nós somos palavras dele. Mas somos palavras que existem para responder a ele, atendê-lo, fazer-lhe eco e mesmo, de certo modo, para estarem repletas dele, contê-lo e significá-lo. A contemplação é esse eco. É uma profunda ressonância no mais íntimo centro de nosso espírito, onde nossa própria vida perde sua voz específica e ecoa a majestade e a misericórdia daquele que é oculto mas Vivo. Ele responde a si mesmo em nós, e essa resposta é vida divina, criação divina, fazendo novas todas as coisas. Nós próprios nos tornamos eco e resposta dele. É como se, ao criar-nos, Deus fizesse uma pergunta e, ao nos despertar para a contemplação, ele mesmo respondesse a pergunta, de modo que o contemplativo é, ao mesmo tempo, pergunta e resposta.

A vida de contemplação implica dois planos de tomada de consciência: primeiro, estar consciente da pergunta e, segundo, estar consciente da resposta. Conquanto sejam esses dois planos distintos e tremendamente diferentes, são, todavia, uma tomada de consciência da mesma coisa. A pergunta é, ela mesma, a resposta. É nós mesmos somos ambas. Entretanto, ignoramos esse fato enquanto não penetramos na segunda espécie de tomada de consciência. Despertamos, não para encontrar uma resposta absolutamente distinta da pergunta, mas para compreender que a pergunta já é a própria resposta. E tudo se resume numa única tomada de consciência – não uma proposição, mas uma experiência: “EU SOU”.

A contemplação de que falo aqui não é filosófica. Não é a tomada de consciência estática de essências metafísicas apreendidas como objetos espirituais, imutáveis e eternos. Não é a contemplação de idéias abstratas. É o aprender religioso de Deus, através de minha vida em Deus, ou através da “filiação”, como diz o Novo Testamento. “Pois todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus… O próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus…” A contemplação de que falo é pois um dom religioso e transcendente. Não é algo a que possamos atingir sozinhos pelo esforço intelectual e o aperfeiçoamento de nossas potências naturais. Não é uma espécie de auto-hipnose, resultando da concentração, sobre o nosso próprio ser íntimo, espiritual. Não é fruto de nosso próprio esforço. É o dom de Deus que, em sua misericórdia, completa o trabalho oculto e misterioso da criação em nós, iluminando nosso espírito e nosso coração, despertando em nós a consciência de que somos palavras proferidas em sua Única Palavra, e que o seu Espírito Criador (Creator Spiritus) habita em nós e nós nele. Que estamos “em Cristo” e que Cristo vive em nós. Que a vida natural foi completada, elevada, transformada e plenamente realizada em nós in Christo, pelo Espírito Santo. A contemplação é a consciência e a compreensão, e mesmo, em certo sentido, a experiência daquilo que cada cristão crê obscuramente: “Agora não sou mais eu que vive; é o Cristo quem vive em mim”.

Por isso, a contemplação é mais do que mero considerar de verdades abstratas sobre Deus; mais, até, do que a meditação afetiva das coisas em que cremos. É um despertar, uma iluminação, e a apreensão intuitiva, espantosa, com que o amor se certifica da intervenção criadora e dinâmica de Deus em nossa vida cotidiana. A contemplação, portanto, não “encontra” simplesmente uma idéia clara sobre Deus, confinando-o dentro dos limites dessa idéia, retendo-o como um prisioneiro a quem se pode sempre voltar. Pelo contrário, a contemplação é que é por ele arrebatada e transportada ao próprio domínio dele, seu mistério, sua liberdade. É um conhecimento puro e virginal, pobre em conceitos, mais pobre ainda em raciocínios, mas capaz, por sua própria pobreza e pureza, de seguir a Palavra “aonde quer que vá”.

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Thomas Merton

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Reunião na comunidade de Taizé

Silêncio e oração

Se nos deixarmos guiar pelo mais antigo livro de oração, os Salmos bíblicos, nós encontramos aí duas formas principais de oração: por um lado o lamento e o pedido de socorro, por outro o agradecimento e o louvor. De forma mais oculta, há um terceiro tipo de oração, sem súplicas nem louvor explícito. O Salmo 131, por exemplo, não é senão calma e confiança: «Estou sossegado e tranquilo… Espera no Senhor, desde agora e para sempre!»

Por vezes a oração cala-se, pois uma comunhão tranquila com Deus pode abster-se de palavras. «Estou sossegado e tranquilo, como uma criança saciada ao colo da mãe; a minha alma é como uma criança saciada.» Como uma criança saciada que parou de gritar, junto da sua mãe, assim pode estar a minha alma na presença de Deus. Então a oração não precisa de palavras, nem mesmo de reflexões.

Como chegar ao silêncio interior? Por vezes calamo-nos, mas, por dentro, discutimos muito, confrontando-nos com interlocutores imaginários ou lutando connosco mesmos. Manter a sua alma em paz pressupõe uma espécie de simplicidade: «Já não corro atrás de grandezas, ou de coisas fora do meu alcance.» Fazer silêncio é reconhecer que as minhas inquietações não têm muito poder. Fazer silêncio é confiar a Deus o que está fora do meu alcance e das minhas capacidades. Um momento de silêncio, mesmo muito breve, é como um repouso sabático, uma santa pausa, uma trégua da inquietação.

A agitação dos nossos pensamentos pode ser comparada com a tempestade que sacudiu o barco dos discípulos, no Mar da Galileia, enquanto Jesus dormia. Também nos acontece estarmos perdidos, angustiados, incapazes de nos apaziguarmos a nós mesmos. Mas Cristo também é capaz de vir em nosso auxílio. Da mesma forma que falou imperiosamente ao vento e ao mar e que «se fez grande calma», ele pode igualmente acalmar o nosso coração quando está agitado pelo medo e pelas inquietações (Marcos 4).

Fazendo silêncio, pomos a nossa esperança em Deus. Um salmo sugere que o silêncio é mesmo uma forma de louvor. Nós lemos habitualmente o primeiro verso do Salmo 65: « A ti, ó Deus, é devido o louvor ». Esta tradução segue a versão grega, mas na verdade o texto hebreu diz: «Para Vós, ó Deus, o silêncio é louvor». Quando cessam as palavras e os pensamentos, Deus é louvado no enlevo silencioso e na admiração.

A Palavra de Deus: trovão e silêncio

No Sinai, Deus falou a Moisés e aos Israelitas. Trovões, relâmpagos e um som de trompa cada vez mais forte, precediam e acompanhavam a Palavra de Deus (Êxodo 19). Séculos mais tarde, o profeta Elias volta à mesma montanha de Deus. Ali revive a experiência dos seus antepassados: tempestade, tremores de terra e fogo, e ele prontifica-se a escutar Deus falando-lhe no trovão. Mas o Senhor não está nos fenómenos tradicionais do seu poder. Quando o grande barulho pára, Elias ouve «o murmúrio de uma brisa suava», e então Deus fala-lhe (1 Reis 19).

Deus fala com voz forte ou numa brisa de silêncio? Temos de tomar como modelo o povo reunido ao pé do Sinai ou o profeta Elias? Provavelmente isto é uma falsa alternativa. Os fenómenos terríveis que acompanham o dom dos dez mandamentos sublinham a sua importância. Guardar os mandamentos ou rejeitá-los é uma questão de vida ou de morte. Quem vê uma criança correr em direcção a um carro que passa, tem muitas razões para gritar tão alto quanto consiga. Em situações análogas, os profetas anunciaram a palavra de Deus de forma a fazer zumbir as orelhas.

Palavras ditas com voz forte fazem-se ouvir, impressionam. Mas sabemos bem que elas quase não tocam os corações. Em lugar de acolhimento, elas encontram resistência. A experiência de Elias mostra que Deus não quer impressionar, mas ser compreendido e acolhido. Deus escolheu «o murmúrio de uma brisa suave» para falar. É um paradoxo:

Deus é silencioso e no entanto fala

Quando a palavra de Deus se faz «o murmúrio de uma brisa suave», ela é mais eficaz do que nunca para transformar os nossos corações. A tempestade do monte Sinai abria fendas nos rochedos, mas a palavra silenciosa de Deus é capaz de quebrar os corações de pedra. Para o próprio Elias, o silêncio súbito era provavelmente mais temível do que a tempestade e o trovão. As poderosas manifestações de Deus eram-lhe, em certo sentido, familiares. É o silêncio de Deus que desconcerta, porque é muito diferente de tudo o que Elias conhecia até então.

O silêncio prepara-nos para um novo encontro com Deus. No silêncio, a palavra de Deus pode atingir os recantos escondidos dos nossos corações. No silêncio, ela revela-se «mais penetrante do que uma espada de dois gumes, penetra até à divisão da alma e do corpo» (Hebreus 4,12). Fazendo silêncio, deixamos de esconder-nos diante de Deus, e a luz de Cristo pode atingir, curar e mesmo transformar aquilo de que temos vergonha.

Silêncio e amor

Cristo diz: «É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei» (João 15,12). Precisamos de silêncio para acolher estas palavras e pô-las em prática. Quando estamos agitados e inquietos, temos tantos argumentos e razões para não perdoar e para não amar facilmente. Mas quando temos «a nossa alma em paz e silêncio», estas razões desaparecem. Talvez por vezes evitemos o silêncio, preferindo-lhe qualquer barulho, palavras ou distracções quaisquer que elas sejam, porque a paz interior é uma questão arriscada: torna-nos vazios e pobres, dissolve a amargura e as revoltas e leva-nos ao dom de nós mesmos. Silenciosos e pobres, os nossos corações são conquistados pelo Espírito Santo, cheios de um amor incondicional. De forma humilde mas certa, o silêncio leva a amar.

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Extraído do site da Comunidade Taizé

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