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Posts Tagged ‘mistica cristã’

Um dos grandes desafios que a espiritualidade cristã clássica nos traz é o resgate da leitura das Sagradas Escrituras com o coração. Numa época em que a devoção tem cedido espaço para a investigação teológico-acadêmica, onde a leitura bíblica assume um caráter estritamente intelectual,  achegar-nos novamente ao Livro para dele degustar cada palavra, cada frase, cada expressão é de grande importância para nossas vidas espirituais.

Esse tipo de leitura a que nos referimos é o que popularmente foi denominado de ler a Bíblia com o coração. O que vem em contrapartida de se ler as Escrituras apenas utilizando as faculdades da mente. É deitar os olhos não para saber apenas, mas sobretudo, para ouvir. É o ler no intuito não de conhecer sobre Deus,mas, a Deus. É mergulhar na imensidão do oceano escriturístico com atenção amorosa para poder perceber e acessar a gloriosa Presença do Totalmente Outro. É o tipo de disciplina espiritual que tem como pano de fundo a compreensão que Deus não é um objeto de investigação a ser dissecado afim de satisfazer nosso narcisismo intelectual, mas, um indivíduo de relacionamento a ser amado e tido como objeto de nossos mais profundos deleites (Sl 37:4; Fp 4:4).

A verdade de que uma proposta como essa cause estranheza na maioria dos cristãos nos dias de hoje, se dá pelo fato de que somos produtos de um cristianismo nascido da ruptura entre razão e emoção. Até a idade média a leitura bíblica bem como o estudo da teologia tinham como propósito principal conduzir o cristão a uma experiência de contemplação divina: um encontro/união com Deus. Celebrava-se o mistério. Via-se na atitude do cristão uma postura de adorador. O fascínio, o silêncio reverente e o senso de transcendência integravam a espiritualidade do servo e da serva de Deus daquela época. O resultado de tudo isso é que não existia a diferença entre ler a  Bíblia e orar. No entendimento clássico não se tratavam de dois movimentos distintos e sequenciais, mas sim, simultâneos.  Oravam-se as Escrituras.

Acredito que o resgate dessa forma de ler a Bíblia é parte da solução para o estado do evangelicalismo pós-moderno dos dias atuais. Se fossemos descrever o cristianismo presente na vida das pessoas poderíamos classifica-lo tão simplesmente como superficial.  A crença e a praxe cristã epidérmicas que têm acometido a igreja em nosso tempo, roubou-lhe a profundidade e a experiência com o Sagrado.  E como consequências dessa perda vemos surgir duas atitudes distintas, falsas espiritualidades.

A primeira é o engessamento da vida espiritual que se caracteriza pela frieza e total desprovimento de emoções e afetos na relação com Deus. Particularmente, esse resultado vem direto da ruptura medieval razão/emoção. No entanto em nenhum momento as Escrituras condenam a presença das emoções na experiência espiritual. Pelo contrário, elas não apenas reconhecem sua existência (Sl 30:5b), mas também revelam que as mesmas são importantes para Deus (Sl 56:8) e que portanto devemos celebrá-las (1Pe 1:7,8).

A segunda atitude decorrente da perda da profundidade na experiência cristã é  a outra ponta da corda, a qual é tão nociva quanto a primeira. Refiro-me ao emocionalismo exacerbado que vem de mãos dadas com a busca por experiências místicas como um fim em si mesmas. Novamente Deus aqui é colocado com um meio a se obter algo e não como um sujeito com o qual nos relacionar amorosamente. Não resta dúvidas que os grandes místicos da tradição cristã, os quais pregaram, ensinaram, escreveram e experimentaram a leitura bíblica com o coração, iriam estranhar profundamente esse tipo de espiritualidade tão difundida atualmente por esse segundo grupo. Esses servos e servas de Deus reconheciam a existência de experiências de êxtase, vozes, visões e coisas desse gênero. No entanto, afirmavam categoricamente ser as mesmas não usuais e não essenciais para a vida cristã autêntica. No entendimento deles a experiência mística acontecia exatamente a partir do contato das Escrituras, no silêncio recolhedor, na solitude recriadora que conduzia o filho de Deus ao encontro pessoal com o Cristo ressurreto. Além disso também asseveravam acerca da necessidade de uma percepção sacramental da vida onde Deus poderia e deveria ser encontrado por detrás das experiências corriqueiras do cotidiano. O extraordinário vindo a nós pelas vias do ordinário. Que ideia arrebatadora!

A luz de tudo que foi dito acima, como podemos de forma concreta e prática efetuarmos esse tipo de leitura que contempla a Bíblia não apenas com a mente e o intelecto, mas também com o coração e as emoções? Eis algumas orientações:

1. Introduza o silêncio no momento de sua leitura bíblica. A sugestão aqui é que, antes de abrir a Bíblia e começar a ler, se separa alguns instantes para simplesmente ficar em silêncio, quem sabe uns 10 minutos. O propósito dessa prática é nos disciplinarmos a estar totalmente presentes no momento para Deus. Aquietando-nos, tomamos consciência da Grande Presença (Sl 46:10;  Hc 2:20).

2. Separe um trecho não muito longo das Escrituras. Quem sabe apenas alguns versículos ou até mesmo apenas um. De uns tempos pra cá inventou-se uma espiritualidade que se preocupa com a quantidade e não a qualidade do momento. Do que nos adiante lermos grandes porções da Bíblia, capítulos ou até mesmo livros de uma vez só, e não ouvirmos o Senhor nos falando ao coração? Devemos ter em mente que a proposta aqui não é angariar informações sobre, mas, experimentar de forma pessoal a Deus.

 3. Leia o texto bíblico devagar. Sim. Por que a pressa? Por que passar os olhos batidos por essa carta de amor que o Pai endereçou a nós? Portanto, leia uma, duas, três e quantas vezes forem necessárias. Permita que cada palavra, cada expressão “caia”  com peso sobre o seu coração. E em atitude de amorosa espera, permaneça na leitura até que sua atenção seja chamada para algo dentro do texto Sagrado. 

4. Saboreie o que Deus lhe entregou no texto. Pode ter sido até mesmo uma única expressão como por exemplo “…Deus amou o mundo…” (Jo 3:16). Faça perguntas diretas ao texto: qual a relação que isso tem comigo?; o que isso se relaciona ao mundo para o qual devo ministrar?; o que Deus está querendo me dizer através disso? etc. Permita que o Espírito Santo impregne seu interior com toda a seiva espiritual contida na Palavra. Mais uma vez reitero: tudo isso sem pressa. Não há porque correr. Você não está perdendo tempo, mas, investindo numa amizade eterna (Jo 15:15).

5. Responda de forma amorosa ao que Deus lhe falou. Agradeça, louve, suplique, interceda ou confesse em resposta ao que o Espírito Santo ministrou ao seu coração. Não fique indiferente à Palavra de Deus para você.

6. Permaneça na Presença  do Pai. Mais uma vez, por alguns minutos, silencie e apenas fique presente no momento junto com o Pai. Permita que tudo quanto você recebeu da parte dele assente no seu coração. Aqui, se assim desejar, pode ser utilizada uma frase de oração contemplativa como “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador” ou então algo mais simples como “Pai, pertenço a Ti”. Busque alinhar sua respiração com a  frase onde parte dela será recitada mentalmente ao inspirar e o restante ao expirar. Faça isso durante alguns breves momentos até que o Espírito de Deus conduza-o ao silêncio e quietude interiores.

Por fim, agradeça ao Senhor pelo encontro com sua Presença, pelo desfrute de paz e serenidade na alma. E com uma alegria vinda dos céus, indizível e cheia de glória, junte-se aos milhares que ao longo da história cristã fizeram coro com os discípulos a caminho de Emaús:

 Acaso o nosso coração não ardia pelo caminho, quando ele nos falava e nos abria as Escrituras?” (Lc 24:32)

 

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A maiêutica é um método de aprendizado inventado pelo filósofo grego Sócrates (469-399 a.C.). Ele cria que a verdade estava dentro dos seus discípulos, cabendo-lhe, como mestre, apenas a tarefa de promover o chamado “parto intelectual”. Em outras palavras, o processo ajuda a nascer aquilo que o discípulo intuitivamente já sabia, mas por si só não era capaz de gerar. Usando desta metodologia, que consistia em fazer perguntas e não trazer informações prontas, o sábio ensinava seguidores a dar luz a novas ideias e a todo um conceito de viver. Foram as perguntas, e não as respostas, o ponto de partida de um dos momentos mais férteis do pensamento humano.

Fazer perguntas sem a preocupação de fornecer-lhes respostas pode nos levar a trilhar novos caminhos ou reencontrar rumos que já perdemos. Por exemplo – a nossa experiência com Deus tem várias dimensões ou somente uma? Se tem várias, quais são? Podemos dizer que há uma dimensão exterior desta experiência, perceptível ao olhar daqueles que conosco convivem e a nós mesmos? Mas também é possível afirmar que existe uma outra dimensão, que é interior e não percebida aos outros e a nós? O que acontece em nosso interior quando realmente estabelecemos uma relação de profunda intimidade com Deus? O que se mexe e remexe dentro de nós? Que transformações se dão? É esta dimensão interior da experiência com o Senhor a base para todas as outras?

O viver com Deus segue a ordem do “de dentro para fora”? Tem esta dimensão interior uma primazia sobre a exterior?  Ou não tem? Se não, então podemos buscar a Deus fora de nós sem, primeiro, tentar vivê-lo em nosso interior? Ou estas duas dimensões – a exterior e a interior – acontecem sempre unidas uma à outra? Ao encontrar Deus fora de mim, automaticamente passo a vivê-lo dentro de mim? Por outro lado, será que esta divisão do interno e do externo não é meramente algo da reflexão teórica de um artigo como este, e na prática tais realidades são indivisíveis? Mas, se por um momento acharmos que sim, a dimensão interior da experiência com Deus vem em primeiro, se entendermos que é exatamente ali, no coração, “onde nascem as fontes da vida” – para usar a linguagem do poeta – é que tudo começa?

Não seria isso que o sábio autor de Provérbios quis dizer quando afirmou que, sobre tudo que se deve guardar, guarde-se o coração? Não terá sido esta a lição que Jesus quis ensinar-nos quando disse algo como: “Do coração procedem os maus pensamentos: mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias”?  Se é assim, então os místicos estavam certos todo o tempo? Vale a pena então mergulhar profundamente na dimensão interior da experiência com Deus para de lá organizar toda a vida externa? Então, Thomas Kelly, devotado pastor quaker, estava na direção certa quando, em seu belíssimo livro Um testamento de devoção, afirma que há um centro divino em nós, a partir do qual todo o resto deve orbitar? Sim, a prevalecer esta lógica, outro Thomas, o Merton, monge trapista, estava correto quando optou por uma vida contemplativa, na qual tudo começa no interior para desabrochar exteriormente, como reflete em seu impactante livroExperiência Interior?

Se esta dimensão interior deveria ser melhor cuidada por nós todos, então quão pobre existencialmente tem sido a complexa vida dos cristão em nossas igualmente complexas cidades? Mas como cultivar algum nível de experiência interior com Deus se o despertador toca e com ele o ritmo alucinadamente externo se impõe na nossa vida? Como viver tal dimensão interior quando se está preso num baita engarrafamento? Seria possível cultivar o senso de presença de Deus dentro de nós se nosso interior está dominado pela tirania do urgente e do resultado que exigem de nós? Como dedicar tempo para esta dimensão interior quando, externamente, multiplicam-se os desafios para pagar contas, manter o emprego e guardar alguma coisa para a aposentadoria?

E quanto aos pastores? Como dar conta desta dimensão interior se cada vez menos eles são valorizados como homens de Deus e mais como oradores, que fazem da pregação ora uma plataforma de manipulação psicológica, ora um palco para exibição de intelectualidade? Como conseguir se interessar por Deus se existe uma enorme pressão para o crescimento das igrejas? Não estariam os ministros do Senhor, assim como a Igreja e a sociedade que a cerca, absoluta e irremediavelmente condenados à superficialidade? A trindade do nosso tempo – o deus-resultado, o filho-entretenimento e o espírito-distração – não estaria matando a dimensão interior da nossa experiência com Deus, mesmo quando estamos no culto?

Perguntas, simplesmente perguntas! Que sejam elas sementes a germinar uma reflexão capaz de nos levar às decisões e transformações necessárias para uma vida mais cheia de Deus.

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* Eduardo Rosa Pedreira é doutor em teologia e pastor presbiteriano na Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca/RJ

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