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Posts Tagged ‘místicos’

Vivemos numa época marcada por grandes mudanças de alcance global que impactam não só culturas e economias, mas também à família e à própria Igreja. Uma crise colossal de sentido, desprovida de valores, tem relativizado tudo e todos. Esta sociedade em constante ebulição e mudança se define como pós-moderna, pós-cristã e até pós-humana. Dinheiro e prazer, diversão e ócio são os maiores anseios de muitos. A palavra “compromisso” se fez rara e deu lugar a outras formas de ser e conviver.

Num mundo tão diverso e egocêntrico a liberdade de uns não consegue conviver facilmente com a dos outros. O viver juntos se fez com o passar do tempo numa desventura. Cansamos pronto das coisas e das pessoas e buscamos, sem pudor, escolhas diferentes e pontualmente mais significantes. Essas mudanças radicais acabam com os nossos sonhos melhores. Tudo dura pouco. A busca frenética pelo prazeroso e passageiro deixa de lado responsabilidades assumidas valendo apenas os caprichos do próprio eu.

Qual o valor das palavras e dos gestos? Se tudo é relativo nada é importante e significativo. Contudo, o que fazemos ou não fazemos têm conseqüências psico-sociais, pois não só há leis que regem os relacionamentos humanos, mas também os próprios sentimentos não nos enganam. Sem um cuidado e carinho especiais, nos machucamos e ferimos bastante. A convivência humana é complicada e não são poucos os que precisam de drogas ou fármacos para sobreviver. O resultado é uma imensa dor e solidão.

Ser positivo ou negativo, comunitário ou isolado numa sociedade mutante é opção radical de vida. Sentir-se vencedor ou vencido, fraterno ou inimigo é uma tarefa pessoal intransferível. O crescemos comunitariamente com as nossas dificuldades ou diminuímos egoisticamente. Nada é tão determinante quando as decisões tomadas.

Fazer opções positivas é bom, mas não suficiente. É preciso ter uma atitude existencial diferente e passar do ser servido para o ser servidor. É enxergar mais do que vemos, o belo no feio, por exemplo, e afinar o próprio ouvido para coisas melhores. Quem descobre graça na desgraça e vida além da morte superou a insensatez do experimentados. Luz e treva, crença e descrença não andam muito separados nem distantes de nós, no entanto fixar-nos mais em um ou em outro faz a diferença.

1. Uma descoberta extraordinária. Alguns acham que só podem ser felizes quando não existirem mais problemas na sua vida. Estão redondamente equivocados! É preciso ser felizes no mundo que temos e assim como somos. Por que perder o gosto do conviver por esperar o que nunca virá? Por que não sair ao encontro do outro e fraternalmente ampará-lo?

Conheço um casal de médicos que quiseram adotar uma menina de raça negra e com síndrome de down. Posso assegurar que esse casal e os seus filhos amam imensamente essa criaturinha e se sentem profundamente agraciados por ela. Ser diferente na bondade da um sentido melhor à vida.

Diante do relativismo que nos envolve é preciso uma dose de otimismo e esperança para não perder a perspectiva. As primeiras atrações, encontros e desencontros nos preparam certamente para outros mais fascinantes e encantadores. Só chegaremos ao “mais distante” e espiritual no mais próximo e material. É paradoxal? O Verbo se fez carne e é aqui que o podemos encontrar.

Num piscar de olhos somos selvagens e racionais, coerentes e incoerentes. O progresso milenar dos seres humanos não apagou os instintos mais primitivos, Freud chamou essa realidade de “id” ( Parte inconsciente e sede das pulsões humanas; vive o princípio do prazer), mas a evolução acrescentou outras formas mais evoluídas de ser e conviver baseadas nas decisões melhores tomadas.

Somos capazes do melhor e do pior, amar e odiar, perdoar e gelar… Essas possibilidades fazem parte da própria vida e percebê-las já é uma grande descoberta. Pena que modelos culturais desumanos de inspiração no “super-ego”, legalistas e extremamente radicais, podem abafar o encanto de ser cada um ele mesmo.

Neste “mundo plano” das telas do computador abrem-se possibilidades infinitas para o crescimento dos indivíduos. Se um dia, o nosso ponto de partida foi a superfície da terra, hoje caminhamos para o coração dela. A evolução, com seus saltos qualitativos e diferenciados, nos leva para o Amor.

Resumindo, o infinito e o finito, o mais sublime e o mais limitado cabem misteriosamente no nosso ser. Fixar-se mais em um do que em outro é o mistério dos sábios. Nem o passado ferido, nem o futuro irrealizado devem condicionar o nosso presente. Só o eu remido e cristificado determina experiências melhores.

2. A fuga da realidade. Sentir e saborear plenamente o presente é um mistério que poucos conseguem, por isso alguns preferem ignorá-lo. É mais fácil se refugiar no passado conhecido do que tecer continua e criativamente o presente. Se há uma sedução dos sentidos também há outra, bem maior e melhor, do espírito. Se as propostas dos Epicúreos ( propunha o prazer e a felicidade como ausência da dor ou de outro tipo de aflição) e dos gnósticos antigos foram atraentes, muito mais será a experiência dos místicos que nada rejeitam e tudo aprofundam. O problema não está em valorizar os sentidos ou o conhecimento, mas em perder-se absoltamente neles.

Se há uma mística também pode haver uma “pseudo-mística” alienada e alienante (por suas i déias dualistas e elementos gnósticoc) na história da Igreja : Bogomilos (Bulgária, s. X), Cátaros (França s. XII), Albigenses, Valdenses (s. XII), Beguinas (Bélgica, s. XII) e, hoje, a cabala, o xamanismo, a magia, a teosofia, o espiritismo, a cientologia, etc.. Eis o grande objetivo: encontrar “sentido e significado” no uso dos sentidos e da mente como se fossem sacramentais. O infinito e o mais sublime são percebidos e experimentáveis no finito e no desprezível só quando há amor.

A “experiência espiritual ou mística” (Entendo por mística a experiência direta e pessoal com a divindade, sem a necessidade de manipulações ou intermediários ) feita por pura graça em qualquer situação o ambiente é sempre gratuita e integradora. Podemos nos preparar para a experiência espiritual, mas nunca manipulá-la. A gratuidade é fundamental na vida interpessoal humana e divina: tanto aproveitará em todas as coisas espirituais, quanto sair do seu próprio amor, querer e interesse (EE 189).

3. Místicos e engajados. Nesse imenso e misterioso mundo dos sentidos e da imaginação, das sensações e das intuições podem ocorrer como graça pensamentos e atitudes totalmente abertos e gratuitos, dando um sentido de unidade e significância à existência, abrindo-a em todas as direções: para cima, para baixo, para dentro e para fora.

As experiências espirituais e místicas mostram que não são apenas internas ou “mentais”, mas se concretizam num estilo de vida emocional engajado. Mais ainda, a percepção da realidade tida nos “estados expandidos da consciência” é mais acurada do que a normal e habitual. Por isso, as palavras e atitudes expressadas pelos místicos são sempre profundamente calorosas e comprometidas.

A mística não é, pois, fuga da realidade, mas um adentrar-se nela com maior sensibilidade. Se a irrupção do divino nos sentidos ou na mente é sempre iniciativa divina, é ação humana responder generosamente a ela.

Há uma mística tradicional a “dos olhos fechados”, apofática ( apóphasis= via negativa, pois nada pode definr Deus ), da ausência, Teocêntrica, irmã católica da Gnose, que brota na mente e a ilumina. Mas também há outra, a “dos olhos abertos”, katafática ( katháphasis = via positive, pois as perfeições das criaturasfalam do Criador ), da presença, Cristocêntrica, que ilumina a mente, toca o afeto e chega até as mãos traduzindo-se em gesto de serviço e ajuda. Na primeira, a “dos olhos fechados”, a pessoa se afasta do barulho mundano, esvazia a própria mente e encontra o Tudo no nada. Desaparecem as partes, o espaço e o tempo, e por instantes a pessoa é arrebatada, iluminada e engrandecida. É uma experiência intra-subjetiva, acontecida no próprio sujeito. Mente iluminada, corpo pacificado, espírito extasiado. É a mística mais clássica e tradicional acontecida quando a pessoa, superando os seus limites, se encanta com o divino encontrado. É uma experiência subjetiva da transcendência do Infinito.

A mística “dos olhos abertos” não é menor do que a primeira, pois também é iluminação do coração que se coloca a serviço daqueles que mais precisam. É uma mística de serviço; encontra o invisível no visível e Deus no meio do barulho do mundo. Experimenta-se, pois, um relacionamento íntimo com Deus e com tudo o criado: pessoas e coisas. Inácio de Loyola é um expoente típico desta mística engajada. Nos Exercícios Espirituais leva o exercitante a fazer a experiência do amor verdadeiro que é, ao mesmo tempo, entrega e compromisso. “O amor consiste mais em obras do que em palavras” (EE 230). O amor abre o coração e os olhos, os ouvidos e as mãos para servir o diferente. Neste agir fraterno há uma comunhão misteriosa entre o exterior e mundano visto e o interior e divino percebido.

“Ajudar”, “servir”,“partilhar”, verbos pouco usados, podem se transformar em espaços de uma experiência mística incrível. Fazer filantropia é dar do que sobra; ser justo é dar a cada um a parte que lhe corresponde, mas ser místico é dar-se e partilhar o que se é e tem com os mais necessitados. Quando a mente entende, se ilumina; quando o coração ama, se apaixona e serve. É na clareza da mente e na paixão do coração que encontramos sentido e significado. Realmente quem ama não cansa nem descansa!

No estado normal de consciência nos identificamos apenas com uma pequena parte do que somos e fazemos, mas quando compartimos e nos damos, os limites da mente e do coração se expandem até entrar em comunhão com o Criador e o criado. Satisfazendo as nossas necessidades experimentamos a nossa humanidade, mas quando satisfazemos gratuitamente as necessidades dos outros participamos da própria divindade! Recusamos, pois, um espiritualismo desencarnado como um ativismo secularizado.

Oxalá sejamos místicos e engajados e não uma coisa ou outra, pois só a mística nos tira do nosso autismo primitivo e nos aproxima dos outros e do Outro. Parafraseando Adélia Prado: “Tudo o que sinto, vejo, escuto e toco esbarra quase sempre em Deus…

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J. Ramón F. de la Cigoña

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“Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim (…) Portanto está alegre o                           meu coração”                                                             (Sl 16:8, 9)

O estilo de vida que adotamos fala muito em relação à realidade de quem somos. Ele revela nossos anseios e desejos; nossas espectativas e frustrações. No nosso estilo de vida repousa uma gama muito extensa de experiências que vivemos, palavras que nos foram direcionadas, sonhos os quais não conseguimos trazer à existência. Devemos ainda levar em consideração a carga genética e as predisposições congênitas de comportamento as quais herdamos diretamente de nossos avós e pais.

De uma forma ou de outra todos são formados interiormente à imagem de toda esta bagagem emocional, social e hereditária. E tudo se traduz numa forma de comportamento a qual chamamos de estilo de vida.

Assim, quando consideramos toda a formação que recebemos como fruto destas experiências pessoais, como cristãos, percebemos a necessidade de transformação que nos capacite a nos enquadrar num novo estilo de vida.

A experiência com Cristo conduz-nos a uma nova dimensão comportamental caracterizada por um abandonar das coisas antigas e um abrir-se para o novo de Deus (cf. 2Co 5:17).

Desse jeito é necessário que encaremos a comunhão com Deus como parte integrante, integradora e determinante de um novo estilo de vida a que temos acesso por intermédio de Seu Santo Espírito: um estilo de vida contemplativo.

Este estilo de vida quebra de vez com o estereótipo reducionista de que a vida com Deus, o andar no Espírito, a experiência da presença do Totalmente Outro, é algo a que se tem acesso apenas entre as quatro paredes de uma igreja ou em meio à clausura de um monastério.

Um estilo de vida caracterizado pela contemplação resulta numa nova percepção e experimentação das possibilidades do Sagrado e da beleza inata das coisas efêmeras. Liberta-nos da distração e desatenção. Isso é bem retratado nas palavras de Elizabeth B. Browning:

“A terra está repleta do céu.

E cada sarça comum ardente por causa de Deus.

Mas somente quem percebe tira as sandálias.

O restante se assenta ao redor colhendo amoras”

Um estilo de vida contemplativo é aquele que aguça a nossa percepção de que céu e terra se conectam de forma misteriosa. Que há uma beleza a mais numa ávore comum além do simples prazer de colher uma fruta madurada. Que este mundo está embuído e permeado pela glória dAquele que emana e transcende todas as coisas.

Esta forma de viver nos permite usufruir uma espiritualidade holística que inclui todas as coisas, poupando-nos, desta forma, de uma vida espiritual fragmentada, aprisionada em meio ao pensamento dicotômico de sagrado e profano; espiritual e secular. Como diz Ed Renê Kivitz não podemos considerar a Deus sem também levar em consideração o pardal, a palmeira, a montanha etc.

Este estilo de vida é o estilo de vida dos grandes místicos que aprenderam a perceber e a praticar a presença de Deus. Que descobriram o segredo de orar incessantemente e o duçor da comunhão constante e ininterrupta com Cristo.

Agora, de que forma podemos nos engajar neste estilo de vida ébrio de mistério e de Deus? A seguir compartilho algumas das principais práticas que têm acompanhado o viver contemplativo no decorrer da história cristã:

1. A Prática da Oração do Coração – Conhecida também como a oração de Jesus. Consiste na invocação do nome bendito do Senhor numa fórmula orante “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim, pecador!” O propósito desta oração é entrar no descando e quietude interiores.

Esta fórmula tem tudo o que uma oração exige: Reconhece-se o Senhorio e divindade de Cristo (Senhor Jesus Cristo) ao mesmo tempo em que se reconhece nossa pecaminosidade e consequênte dependência da misericórdia divina (tem piedade de mim, pecador).

Podemos, praticá-la caminhado na rua, dentro do ônibus indo para o trabalho ou quem sabe enquanto realizamos nossas tarefas domésticas.

2. A Meditação Ruminatória – A princípio este nome pode-nos parecer estranho. Creio que isso acontece porque não estamos familiarizados com o que significa meditar. Acreditamos que ler cinco ou seis capítulos da Bíblia por dia, passando batido por eles significa que meditamos nas Escrituras. è verdade que o meditar passa pela leitura. Contudo, nem toda leitura bíblica que fazemos necessariamente significa que também meditamos.

A palavra hebraica “haga” significa murmurar a meia voz mexendo os lábios; repetir. Deste significado vem a idéia de “ruminar” ou “mastigar” a Palavra. Como se dá isso? No momento de sua leitura bìblica – e aqui sugerimos não uma leitura longa de capítulos, mas, de proções pequenas, quem sabe apenas um versículo – escolha uma palavra, uma frase ou um verso inteiro que tenha tocado seu coração. Repita-o em voz baixa em atitude de oração. Quem sabe, se você preferir, você pode escrever este verso num pedaço de papel e levá-lo consigo. Assim quando desejar repetir não correrá o risco de esquecer o texto.

Este exercício nos ajuda a continuamente mantermos nossa atenção naquilo que Deus falou-nos ao coração enquanto o Espírito Santo faz com que a verdade da Palavra de Deus crie raizes em nossa alma. Deste jeito teremos o Senhor continuamente diante de nós. Pela lembrança contínua de sua Palavra.

3. O Convite a Jesus – Uma outra forma de vivermos um estilo de vida contemplativo é aquilo que denominei de convite a Jesus. Seria a prática de tornar o Senhor participativo de tudo quanto nos fizermos durante nosso dia. Devemos ter em mente que Cristo nos ama, e por causa disso, deseja fazer parte de tudo que se relaciona conosco.

Não existe nada trivial relacionado a nós que ele não se importe. Em Pv 3: 5, 6 nos diz – “Confia no Senhor de todo o teu coração (…). Reconhece-o em todos os teus caminhos (…)”. A grande verdade é que quando amamos alguém, confiamos nesse alguém. E por confiarmos convidamos este alguém para ser parte integrante de nosso viver.

Para que possamos ter uma idéia do que seja isso, Frank Laubach nos descreve sua experiência de convidar a Cristo para participar das coisas comuns do seu dia-a-dia. na carta para seu pai em Janeiro de 1930 assim ele diz:

“Nos últimos dias, minha experiência de entrega tem sido mais completa do que nunca. Estou reservando, por vontade própria, um tempo suficiente a cada hora para refletir sobre Deus. Ontem e hoje, realizei uma nova aventura, que não é fácil de ser relatada. Estou sentindo Deus em cada movimento, por um ato de vontade – ansioso para que Ele dirija estes dedos que agora batem nesta máquina de escrever – ansioso para que ele flua por meio de meus passos enquanto caminho – ansioso para que ele controle minhas palavras enquanto falo, minha boca enquanto me alimento”.

A exemplo de Laubach podemos fazer o mesmo. Não é nada de extraordinário no seu sentido restrito. Por exemplo enquanto você estiver tomando seu café você pode dizer para Deus: “Que delícia de café, Senhor! Obrigado pela oportunidade de saborear um café tão delicioso”. Quando você estiver caminhando na rua você pode dizer para Cristo: “Senhor Jesus, guia agora as minhas pernas enquanto caminho”. Em relação ao perigo das tentações vizuais você poderá orar: “Senhor, toma estes olhos em tuas mãos. Guia-os para que eles não se desviem para o mal”. No seu trabalho a coisa pode acontecer assim: “Jesus, ajuda-me a montar esta planilha eletrônica” ou ” Senhor, dá-me atenção para que eu não erre nestes cálculos”. Se for serviço de rua: “Deus, em meio aos perigos desta cidade, guarda-me enquanto caminho por esta rua; avenida” etc. Se você lida com o público pode ser assim: “Senhor, dá-me paciência afim de que eu possa conceder um atendimento com qualidade”. Se for em casa, nas tarefas domésticas: “Jesus, sê com meus braços enquanto varro esta sala; enquanto lavo estas roupas; enquanto tiro este pó”.

As possibilidades são inesgotáveis desde o momento em que nos convencemos de que Jesus tem prazer em participar das nuances do nosso cotidiano.

4. A Prática das Disciplinas Espirituais – Na história dos grandes místicos e contemplativos do passado, a presença da ascese era algo comum nas suas vidas.

Ascese é um termo grego comum que significa simplesmente “treinamento”. Logo, o que seriam as disciplinas espirituais? São atividades que treinam o nosso corpo e alma para que a vida de Deus possa acontecer em nós. Elas nos colocam numa posição tal em que o Espírito Santo possa nos transformar, formando a imagem de Jesus no nosso eu interior.

São muitas e diversas estas disciplinas espirituais: jejum, oração, clebração, serviço, confissão, silêncio, solitude, meditação etc.

Gostaria de me ater a duas delas, pois, o espaço não me permite prolongar. Consideremos o silêncio e a solitude. Estas duas disciplinas caminham de mãos dadas, geralmente. No silêncio eu busco calar as vozes exteriores e interiores para retornar ao meu centro, onde o Espírito de Deus habita para, assim, poder ouvir a sua voz. Na solitude procuro me esquivar das aglomerações humana para poder estar a sós comigo mesmo e com Deus.

Quando estudamos acerca destas duas disciplinas descobrimos que as mesmas, juntamente com a lectio divina, ou leitura orante das Escrituras, ocupavam um lugar central nas atividades ascéticas da vida monástica.

Logo, quando temos acesso a estas informações, questionamos: “mas, não somos monges e nem vivemos na época que eles viviam. Então, não podemos praticar estas disciplinas espirituais?” A resposta é simples: É claro que podemos.

Nosso grande desafio, então, constitui em conseguirmos incorporar na nossa rotina corrida de vida pós-moderna estas atividades espirituais. De que maneira:

4.1. Estabelecendo momentos e períodos de silêncio. Podemos falar de momentos de silncio como por exemplo no seu período devocional separando parte dele para colocar-se em silêncio diante de Deus. Quem sabe pode-se começar com dez minutos e ir aumentando gradativamente.

Podemos ainda considerar dias de silêncio. Como por exemplo num feriado prolongado que começa numa quinta.

Podemos também considerar uma semana de silêncio, ou um mês de silêncio. Isso acontece no período de férias onde você pode viajar para um lugar reservado comoa casa de praia de um amigo ou uma aconchegante pousada serrana.

4.2. Estabelecendo momentos e períodos de solitude. Seu momento devocional onde você praticará o silêncio deve, se possível, ser num lugar reservado onde ninguém lhe pertube. Um quarto de porta fechada, ou num jardim debaixo de uma ávore. O importante é que você possa ficar a sós com Deus.

Também você pode reservar na sua casa um “cantinho da solidão” e combinar com a família que sempre que você estiver lá significa que deseja ficar sozinho. Pode ser um cadeira, ou uma poltrona ou até mesmo um local da casa. Vale aqui a criatividade.

A questão de dias, semanas e meses de solitude se aplicam as mesmas idéias que tratamos acima para o silêncio.

Quem sabe você também possa empreender uma caminhada num local com bastante árvores e flores e lá estar a sós e em silêncio saboreando a presença Deus e observando com mais atenção a natureza que nos revela, como sacramento, a majestade e a glória do Criador.

Existem muitos outras práticas contemplativas. A medida que colocarmos estas em prática o próprio Deus irá nos mostrar outras maneiras de andarmos continuamente em sua presença.

Por fim desejo dizer que apesar destas práticas terem caracterizado a peregrinação espiritual de homens e mulheres de tradição contemplativa ao longo dos séculos, estas, contudo, não são o ponto central de sua espiritualidade.

O que essencialmente define um estilo de vida contemplativo é um viver encharcado por amor: amor de Deus; amor a Deus e amor ao próximos.

Amor este cuja base é o amor do Pai revelado no Filho o qual deu a própria vida para nos resgatar. Por isso o amor de Jesus não apenas nos introduziu na vida contemplativa como também a sustenta e alimenta.

Não há vida contemplativa fora do amor de Cristo. Thomas Merton escreve com grande discernimento acerca disso:

“Não há verdadeira vida espiritual fora do amor de Cristo. Temos uma vida espiritual unicamente porque ele nos ama”.

E vivendo na dinâmica deste amor sublime podemos, como canais, espalhar sua glória estando em sua presença com o coração cheio da alegria dos céus.


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Quando se pensa em mística, místicos e misticismo é quase que impossível não nos vir na mente imagens de monges encapuzados, vivendo na clausura, orando incessantemente e entoando cânticos gregorianos.
Misticismo, infelizmente, assumiu o cheiro de velas acesas e tomou o “brilho” de celas em meio à penumbra. Assim, acredita-se na sua maioria esmagadora, que o ser místico é apenas para uma pequena elite incomum de cristãos que se decidiram por viver uma vida contemplativa em oposição a vida ativa, vivida pela maioria das pessoas consideradas comuns.
Contudo, não podemos concordar com um conceito como este, pois, desta maneira, estaremos elitizando o experimentar a Deus, reduzindo-o a um privilégio destinado a poucos e não a todos.
Primeiramente, devemos acima de tudo quebrar esta figura estereotipada do místico apenas como alguém recluso que consagrou sua vida toda para orar, meditar e contemplar. Tal estereótipo se dá exatamente por uma compreensão equivocada do que seja um místico. Místico é aquele que tem seus afetos e emoções despertados e inflamados por uma percepção intuitiva da presença daquele que é totalmente Outro. O místico é aquele que no contexto onde se encontra aprendeu a perceber e acolher o mistério divino por detrás de pessoas, circunstânias, coisas e lugares. Místico é toda aquele que busca saborear a presença divina, seja por onde quer que ela lhe venha. Acerca disso Kathleen Norris tem uma palavra de grande discernimento. Ela escreve:


“Passei a acreditar que os verdadeiros místicos do cotidiano não são aqueles que contemplam a santidade em isolamento, alcançando a iluminação divina em silêncio sereno, mas os que tentam encontrar Deus em uma vida cheia de ruídos, exigências de outras pessoas e deveres diários inexoráveis que consomem o ‘eu’. Podem ser jovens pais lutando com a criação de filhos e ganhando seu sustento […] [Se] são sábios, valorizam os raros momentos de solidão e silêncio que conseguem e não fazem uso deles para escapar, distrair-se com a televisão e afins. Em vez disso, ficam à escuta de um sinal da presença de Deus e abrem o coração para a oração”

Não estou querendo dizer com isso que estes homens e mulheres de ordens cristãs contemplativas os quais consagraram suas vidas para buscar a Deus não têm valor ou que não são místicos no sentido real da palavra. A bem da verdade sou profundamente grato a eles, pois, com sua vocação eles me ajudam frequentemente a lembrar que existe um outro mundo, maior e além do que este mundo de matéria e que diariamente eu preciso abrir espaços na minha agenda para este “outro mundo”.
Contudo, o que quero deixar bem claro é que apesar deles serem místicos e de terem sua importância, não são os únicos. O termo místico transcende (graças a Deus!) a quaisquer estereótipos ou paradigmas que possamos criar. Como Norris bem disse há espaço para o silêncio, a solidão e a contemplação. Mas, para nós, místicos do cotidiano, estes momentos quase que têm que ser abertos à base de socos e pontapés. E em meio ao corre-corre e exigências de um dia tornam-se cada vez mais raros. Mesmo assim tenho pra mim que o ser místico é vocação de todo aquele que teve sua vida unida a Cristo. Ser místico é o chamado de todo verdadeiro cristãos, é tudo quanto Deus intentou para Seus filhos.
Logo, o ser místico no seu sentido mais ordinário é conseguir encontrar e experimentar Deus por detrás dos acontecimentos comuns de uma vida humana comum. É encontrar Deus…: ao lavar o banheiro; ao tomar nossas refeições com amigos queridos; ao desfrutarmos de momentos de ócio santo para nosso merecido descanso; no deslumbrar emudecido diante de um pôr do sol; perante o poder devastador de uma tempestade; diante do sorriso sincero e desenteresseiro de uma criancinha. Em todas estas coisas podemos e devemos encontrar Deus. Porque ele se revela em cada uma delas. É só estarmos atentos. Basta que sejamos místicos.

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