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Posts Tagged ‘oração de Jesus’

INTRODUÇÃO

A comunidade apostólica, retomando uma tradição vétero-testamentária, dedicou, desde o início, uma atenção toda particular ao Nome que o Filho de Deus assumiu no momento da Sua encarnação: JESUS, que significa JHWH É SALVAÇÃO. Além disso, três textos colocam em evidência a veneração da Igreja primitiva para com o nome de Jesus (Fl 2. 9-10;  At 4. 10-12;  Jo 16. 23-24).

Todavia, a Oração do Coração, enraizada no Novo Testamento, foi assumida por uma corrente própria da espiritualidade oriental antiga que foi chamada de hesicasmo. O nome provém do grego hesychìa que significa: calma, paz, tranqüilidade, ausência de preocupação.

O hesicasmo pode ser definido como um sistema espiritual de orientação essencialmente contemplativa que busca a perfeição (deificação) do homem na união com Deus através da oração incessante.

Todavia, o que caracteriza tal movimento é, seguramente, a afirmação da excelência ou da necessidade da própria hesychia, da quietude, para chegar à paz com Deus. Num documento do mosteiro de Iviron do Monte Athos, lê-se esta definição:

“O hesicasta é aquele que só fala com Deus somente e ora sem cessar”.

Os hesicastas, inserindo-se na tradição bíblica, exprimirão a experiência da oração contemplativa através da invocação e da atenção do coração ao Nome de Jesus, para caminharem na Sua presença, serem libertados de todo pecado e permanecerem no suave repouso de Deus à escuta da Sua palavra silenciosa.

A história do hesicasmo começa com os monges do deserto do Egito e de Gaza. “A nós, pequenos e fracos, não nos resta outra coisa senão refugiar-nos no Nome de Jesus”, disse um deles. Depois, se firma com o mosteiro do Sinai, com São João Clímaco. Um expoente máximo é, seguramente, Simeão, o novo Teólogo. Renascerá no Monte Athos no século XIV.

A VOCAÇÃO PARA A HESIQUIA

O termo grego hesiquia é traduzido em latim por quies, pax, tranqüillitas, silentium. Em geral, hesiquia significa quietude, mas pode também querer exprimir a paz profunda do coração. A etimologia é incerta: talvez o verbo da qual deriva – hèsthai, significa estar sentado.

Na literatura monástica, hesiquia revela no mínimo dois significados. Antes de tudo, tranqüilidade, quietude e paz, como estado de alma e condição estável do coração necessária para a contemplação. Significa ainda desapego do mundo na dupla acepção de solidão e silêncio.

A hesiquia expressa na paz, quietude, solidão e silêncio interior, que se consegue através da solidão e do silêncio exterior, se apresenta, todavia, como um meio excelente para se conseguir o fim da união com Deus na contemplação, através da oração contínua. Enquanto meio e não fim, a hesiquia distingue-se, quer seja da apàtheià dos Estoicos, entendida como ausência e liberação das 4 paixões fundamentais: a tristeza, o medo, o desejo e o prazer; quer seja da ataraxia dos Epicureus, que consiste na libertação da alma das preocupações da vida. Estes movimentos filosóficos sublinham e buscam a paz e a quietude da alma, somente como fim último e não como meio para uma plenitude de vida que somente Deus pode conceder.

Na literatura monástica, ao contrário, e em particular junto aos Padres do deserto, a hesiquia mantém sempre um colorido de meio e não de fim. Esta é um meio excelente, um caminho de amor autêntico, vivido no silêncio e na solidão com o fim de se chegar à oração verdadeira e autêntica contemplação. A hesiquia, em resumo, é o comportamento de quem, no próprio coração se põe na presença de Deus.

Para compreender os vários aspectos da hesiquia que o monge é chamado a exprimir, podemos nos referir à vida do abade Arsênio, o pai dos anacoretas. Eis como é contada a sua vocação à hesiquia: “Aba Arsênio, quando ainda morava no palácio imperial, orou a Deus com estas palavras : ‘Senhor, mostra-me o caminho que conduz à salvação ‘. E uma voz se dirigiu a ele e lhe disse: ‘Arsênio, foge dos homens e serás salvo ‘. O mesmo, já anacoreta, na sua condição de eremita, de novo dirige a Deus a mesma oração e ouviu uma voz que lhe disse: ‘Arsênio, foge (do mundo), permanece em silêncio e descanse na paz (hesiquia).’ É destas raízes que nasce a possibilidade de não pecar”. (Arsênio, 1.2). Esta última frase está na origem da vocação dos hesicastas: “Foge, cala, repousa!”. A fuga do mundo, o silêncio e a paz interior são os três comportamentos que dão forma ao estado de vida do monge, particularmente, do anacoreta.

FOGE 

Hesiquia como solidão O autêntico monge é chamado a viver, antes de tudo, a solidão. Os Padres do deserto sublinham com muita força a fuga dos homens, isto é, a necessidade de reduzir ao mínimo o contato com eles. Conta-se a propósito: “O beato arcebispo Teófilo dirigiu-se uma vez ao Abade Arsênio em companhia de um magistrado. Pediu ao ancião ouvisse dele uma palavra. Após um instante de silêncio, ele lhes respondeu: ” E se a disser, a observareis?” Prometeram fazê-lo. Disse-lhes o ancião: “Então, saibam que , onde estiver Arsênio, não vos aproximeis dele” (Arsênio, 7).

“O abade Marcos disse ao Abade Arsênio: “Por que fugis de nós?” O ancião lhe disse: “Deus sabe que eu vos amo. Mas, não posso estar ao mesmo tempo com Deus e com os homens. Os anjos do céu, que são milhares, têm uma única vontade, enquanto os homens têm muitas. Por isso, não posso deixar Deus para estar com os homens” (Arsênio, 13).

Alguns contatos discretos com o mundo podem ser também vantajosos. Todavia, somente para aqueles monges que conquistaram uma grande maturidade espiritual e aos quais é ordenado expressamente por Deus. Mas, em geral, o monge é convidado a garantir para si uma zona de calma, de silêncio, de solidão, para receber a formação da parte de Deus e habituar-se à Sua silenciosa presença.

A hesiquia como solidão não quer dizer somente fuga do mundo, mas quer dizer também uma certa estabilidade num determinado lugar solitário. Esta exigência é expressa com uma famosa fórmula que, mais tarde, tornou-se tradicional: “Permanece na tua cela, permanece no teu eremitério, e ela te ensinará tudo” (Moisés, 6). “Ensinará tudo” é a mesma frase que encontramos na boca de Jesus quando preanuncia a vinda do Espírito Santo (Jo 14, 26). Permanecer na solidão da cela é ainda abertura ao Espírito, ao Seu fogo e à Sua luz.

O abade Macário, o Egípcio, conjuga a fuga dos homens e a permanência na cela: “O abade Isaías pediu ao Abade Macário: “Diga-me uma palavra”. E o ancião lhe disse: “Foge dos homens!” E o abade Isaías lhe disse: “O que significa fugir dos homens?” E o ancião lhe diz: “Significa permanecer na tua cela e chorar os teus pecados”(Macário E, 27). E, dirigindo-se ao abade Aio, lhe dirá: “Foge dos homens, permanece na tua cela a chorar os teus pecados, e não ames a conversação com os homens e te salvarás” (Macário E, 41).

De fato, a cela é o ambiente para a hesyquia, dirá o próprio Antão, o Grande: “Como os peixes morrem se permanecem sobre a terra seca, assim os monges que se demoram fora da cela ou se entretém com o povo perdem a força necessária à hesyquia. Portanto, como o peixe para o mar, assim nós devemos correr para a cela para que não aconteça que, tardando-se fora, esqueçamo-nos de guardar o interior” (Antão, 10).

A solidão pode exprimir-se também num comportamento de contínua peregrinação de um lugar para o outro. De fato, todo lugar deve ser estranho ao monge. Uma tal estranheza – xenitèia – indica uma espécie de exílio voluntário longe das coisas mundanas. Afirma São Nilo: “O primeiro dos grandes combates consiste na xenitèia, isto é, no emigrar sozinho, despojando-se como um atleta, da própria pátria, da própria raça, dos próprios bens”.

O passar de um lugar ao outro é imitar o caminho de Jesus, como demonstra a seguinte historinha: “Do abade Agatão, contavam que empregou muito tempo junto aos seus discípulos. Para construir uma cela. Quando a terminou, começaram a morar nela, mas, já na primeira semana, viu alguma coisa que não o agradou e disse aos seus discípulos: “Levantai-vos, vamo-nos daqui!” (Jo 1, 31) . Eles ficaram muito perturbados e disseram: “Se tinhas a intenção de ir embora, por que nos cansamos tanto para construir a cela? As pessoas se escandalizarão de novo e dirão: “Estes instáveis partem novamente!” Vendo-os assim abatidos, ele lhes disse: “Mesmo que alguns se escandalizem, outros, por sua vez, serão edificados e dirão: Bem-aventurados aqueles que, por amor a Deus, se foram, desprezando tudo. Portanto, quem quiser vir, venha! Eu agora me vou”. Então, jogaram-se por terra, rogando que lhes permitisse partir com ele”(Agatão, 6; cf. também Amoés, 5).

Estes últimos apoftegmas nos permitem sublinhar o aspecto itinerante da hesiquia. Certamente, a cela é importante; mas, não se pode permanecer nela com o espírito de proprietário. O monge sabe ser estrangeiro sobre esta terra e, assim, abandona tudo o que possa desviá-lo do serviço de Deus, vivendo no escondimento e na espera, aguardando ardentemente o retorno do Senhor glorioso. A solidão exterior é certamente importante, mas, mais necessária, é a solidão do coração. Aqui se encontra a autêntica hesequia, ou o verdadeiro eremitismo, ou a anacorese interior, o monaquismo do coração, o único que pode conduzir à Oração de Jesus.

CALA

Hesyquia como silêncio.  Na solidão, o monge é chamado a viver o silêncio. A voz que Arsênio ouviu era, de fato, expressa nos termos que sabemos: foge, cala, repousa. O silêncio que vivem os Padres do deserto, como justamente foi dito, “é um silêncio dos mil nomes e dos mil rostos onde tudo está no seu lugar. É um silêncio precioso para a alma, um silêncio que faz parte da transcendência.

Dos vários apoftegmas decorre que o silêncio dos Padres do deserto é o silêncio da humildade, do calar-se sobre si mesmo, é o silêncio que tira as palavras ao egoísmo, à soberba, ao amor próprio; é o silêncio de quem se faz peregrino e estrangeiro, mas é também o silêncio do amor, o silêncio de quem não julga o próximo, de quem não fala ou murmura dos outros, enfim, é o silêncio da fé, de quem se confia no Totalmente Outro, de quem se colocou completamente nas Suas mãos”.

Consideremos algumas particularidades deste grande silêncio. A oração incessante é o problema prático fundamental que foi muito debatido nos primeiros séculos cristãos. Os monges tinham o dever de praticar esta ordem da Escritura, mais do que todos os outros cristãos. O seu amor pelo silêncio é, sem dúvida, a forma, o clima e a dialética mesma da oração ininterrupta. O silêncio é como uma cela e uma espécie de eremitério portátil do qual o homem de oração não sairá nunca, mesmo quando, por motivos de caridade, deverá sair da sua cela visível. Afirma o grande Poemén: “Se estiveres em silêncio, obterás o repouso em qualquer lugar que habitares” (Poemén, 84).

Guardar o silêncio quando se apresenta a ocasião de falar, é a verdadeira fuga dos homens: “Dominar a própria língua: eis a verdadeira xenitèia “, afirma o abade Titoes (ve D 84). “O aba João era fervoroso no Espírito. Alguém veio visitá-lo e louvou o seu trabalho. Estava trabalhando com corda e permaneceuem silêncio. Tentouuma segunda vez fazê-lo falar, mas ele continuava calado. Pela terceira vez, disse ao visitante: ‘Desde quando veio, você afastou Deus de mim” (João , 32).

“Em Cétia o grande abade Macário, quando se dissolvia a assembléia, dizia: “Fugi, irmãos!” Um dos anciãos lhe perguntou: “Para onde podemos fugir além deste deserto?” Ele punha o dedo sobre a boca dizendo: “Fugi disto!’ e entrava na sua cela, fechava a porta e se sentava (punha-se em hesiquia)” (Macário, E 16).

O silêncio ao qual convidam os Padres do deserto é também testemunho. Segundo a sua experiência, é necessário falar com as obras e não com a língua. É o próprio caminho de fé que opera; as palavras são muitas vezes inúteis. “Um irmão pediu ao aba Sisoes: “Diga-me uma palavra!” Ele lhe disse: “Por que me constranges a falar inutilmente? Faze aquilo que vês!”(Sisoés, 45). “Um irmão pediu ao abade Poemén: “Irmãos vivem comigo. Queres que lhes dê ordens?” “Não”- lhe disse o ancião – “faça o seu trabalho, antes de tudo. E se quiserem viver isso pensarão por si mesmos”. O irmão lhe disse: “Mas, são eles mesmos, pai, que querem que lhes dê ordens”. Disse-lhe o ancião: “Não! Torne-se para eles um modelo, não um legislador” (Poemén, 174).

O abade Isaías disse ainda: “Não deve ser a tua língua a falar, mas as tuas obras, e as tuas palavras sejam mais humildes que as tuas obras. Não penses sem inteligência, não ensines sem humildade, a fim de que a terra possa receber a tua semente.” Os frutos do silêncio, segundo os Padres do deserto, são múltiplos. O silêncio dá a quietude (Poemén, 84); gera a castidade (Ditos V, 25); é ajuda contra os ímpios (Ditos XI, 7); conserva a alma na paz (Matoés, 11). O silêncio é humildade (Ditos, XV, 76). O silêncio ajuda a não julgar o próximo, a não condenar ninguém, é remédio contra a maledicência. É escola de tolerância para com todos (Ammon, 8). Todavia, um tal silêncio exige muita coragem. Poemén afirma: “Na primeira vez, foge! Na segunda, foge! Na terceira, torna uma espada” (Poemén, 40).

REPOUSA

Permanece na paz interior Solidão e silêncio praticados concretamente representam, para os Padres do deserto, o momento fundamental da hesiquia do corpo, da hesiquia exterior. Uma quietude que, ainda que externa, é fundamental. De fato, como afirma Macário: “Ninguém pode ter a hesiquia da alma, se não se assegurou, antes, a do corpo”. Certamente, porém, é a hesiquia interior o eixo essencial da espiritualidade monástica oriental. Da solidão e da ausência de palavras, o monge é chamado a passar ao silêncio profundo ativo e criativo. E isto nada tem a ver com o quietismo. Pelo contrário: “é busca da única quietude possível, que é a paz de Cristo, a paz exultante de Deus o fundo do coração”.

O monge se consagra por vocação a perseguir unicamente a união com Deus através da oração que, por sua vez, pressupõe o total desapego, a perfeita purificação, a renúncia a tudo o que poderia atrasar a sua caminhada espiritual. Os Padres do deserto “recordaram, muitas vezes, que Jesus, mesmo depois do primeiro retiro no deserto, muitas vezes buscou a solidão. A solidão põe, portanto, o monge no centro mesmo do mistério da redenção, numa configuração a Cristo que toca o ápice mais doloroso, mas também o mais fecundo da Sua obra de salvação “.

Deste modo, a ligação entre a solidão e a oração prolongada, êxtase e sofrimento, vem solidamente afirmado. A busca cristã da solidão, do silêncio e da paz interior poderia parecer uma ponta sofisticada de egoísmo. Mas, não é assim. “Consagrar inteiramente a própria vida terrena para que Deus seja tudo em todas as coisas é precisamente o oposto do egoísmo. É participar do modo mais generoso possível, depois do martírio, à grande obra de Deus-Caridade”.

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Extraído de: M. Brunini: “La preghiera del cuore nella spiritualità orientale, ed. Messaggero – Padova

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“Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim (…) Portanto está alegre o                           meu coração”                                                             (Sl 16:8, 9)

O estilo de vida que adotamos fala muito em relação à realidade de quem somos. Ele revela nossos anseios e desejos; nossas espectativas e frustrações. No nosso estilo de vida repousa uma gama muito extensa de experiências que vivemos, palavras que nos foram direcionadas, sonhos os quais não conseguimos trazer à existência. Devemos ainda levar em consideração a carga genética e as predisposições congênitas de comportamento as quais herdamos diretamente de nossos avós e pais.

De uma forma ou de outra todos são formados interiormente à imagem de toda esta bagagem emocional, social e hereditária. E tudo se traduz numa forma de comportamento a qual chamamos de estilo de vida.

Assim, quando consideramos toda a formação que recebemos como fruto destas experiências pessoais, como cristãos, percebemos a necessidade de transformação que nos capacite a nos enquadrar num novo estilo de vida.

A experiência com Cristo conduz-nos a uma nova dimensão comportamental caracterizada por um abandonar das coisas antigas e um abrir-se para o novo de Deus (cf. 2Co 5:17).

Desse jeito é necessário que encaremos a comunhão com Deus como parte integrante, integradora e determinante de um novo estilo de vida a que temos acesso por intermédio de Seu Santo Espírito: um estilo de vida contemplativo.

Este estilo de vida quebra de vez com o estereótipo reducionista de que a vida com Deus, o andar no Espírito, a experiência da presença do Totalmente Outro, é algo a que se tem acesso apenas entre as quatro paredes de uma igreja ou em meio à clausura de um monastério.

Um estilo de vida caracterizado pela contemplação resulta numa nova percepção e experimentação das possibilidades do Sagrado e da beleza inata das coisas efêmeras. Liberta-nos da distração e desatenção. Isso é bem retratado nas palavras de Elizabeth B. Browning:

“A terra está repleta do céu.

E cada sarça comum ardente por causa de Deus.

Mas somente quem percebe tira as sandálias.

O restante se assenta ao redor colhendo amoras”

Um estilo de vida contemplativo é aquele que aguça a nossa percepção de que céu e terra se conectam de forma misteriosa. Que há uma beleza a mais numa ávore comum além do simples prazer de colher uma fruta madurada. Que este mundo está embuído e permeado pela glória dAquele que emana e transcende todas as coisas.

Esta forma de viver nos permite usufruir uma espiritualidade holística que inclui todas as coisas, poupando-nos, desta forma, de uma vida espiritual fragmentada, aprisionada em meio ao pensamento dicotômico de sagrado e profano; espiritual e secular. Como diz Ed Renê Kivitz não podemos considerar a Deus sem também levar em consideração o pardal, a palmeira, a montanha etc.

Este estilo de vida é o estilo de vida dos grandes místicos que aprenderam a perceber e a praticar a presença de Deus. Que descobriram o segredo de orar incessantemente e o duçor da comunhão constante e ininterrupta com Cristo.

Agora, de que forma podemos nos engajar neste estilo de vida ébrio de mistério e de Deus? A seguir compartilho algumas das principais práticas que têm acompanhado o viver contemplativo no decorrer da história cristã:

1. A Prática da Oração do Coração – Conhecida também como a oração de Jesus. Consiste na invocação do nome bendito do Senhor numa fórmula orante “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim, pecador!” O propósito desta oração é entrar no descando e quietude interiores.

Esta fórmula tem tudo o que uma oração exige: Reconhece-se o Senhorio e divindade de Cristo (Senhor Jesus Cristo) ao mesmo tempo em que se reconhece nossa pecaminosidade e consequênte dependência da misericórdia divina (tem piedade de mim, pecador).

Podemos, praticá-la caminhado na rua, dentro do ônibus indo para o trabalho ou quem sabe enquanto realizamos nossas tarefas domésticas.

2. A Meditação Ruminatória – A princípio este nome pode-nos parecer estranho. Creio que isso acontece porque não estamos familiarizados com o que significa meditar. Acreditamos que ler cinco ou seis capítulos da Bíblia por dia, passando batido por eles significa que meditamos nas Escrituras. è verdade que o meditar passa pela leitura. Contudo, nem toda leitura bíblica que fazemos necessariamente significa que também meditamos.

A palavra hebraica “haga” significa murmurar a meia voz mexendo os lábios; repetir. Deste significado vem a idéia de “ruminar” ou “mastigar” a Palavra. Como se dá isso? No momento de sua leitura bìblica – e aqui sugerimos não uma leitura longa de capítulos, mas, de proções pequenas, quem sabe apenas um versículo – escolha uma palavra, uma frase ou um verso inteiro que tenha tocado seu coração. Repita-o em voz baixa em atitude de oração. Quem sabe, se você preferir, você pode escrever este verso num pedaço de papel e levá-lo consigo. Assim quando desejar repetir não correrá o risco de esquecer o texto.

Este exercício nos ajuda a continuamente mantermos nossa atenção naquilo que Deus falou-nos ao coração enquanto o Espírito Santo faz com que a verdade da Palavra de Deus crie raizes em nossa alma. Deste jeito teremos o Senhor continuamente diante de nós. Pela lembrança contínua de sua Palavra.

3. O Convite a Jesus – Uma outra forma de vivermos um estilo de vida contemplativo é aquilo que denominei de convite a Jesus. Seria a prática de tornar o Senhor participativo de tudo quanto nos fizermos durante nosso dia. Devemos ter em mente que Cristo nos ama, e por causa disso, deseja fazer parte de tudo que se relaciona conosco.

Não existe nada trivial relacionado a nós que ele não se importe. Em Pv 3: 5, 6 nos diz – “Confia no Senhor de todo o teu coração (…). Reconhece-o em todos os teus caminhos (…)”. A grande verdade é que quando amamos alguém, confiamos nesse alguém. E por confiarmos convidamos este alguém para ser parte integrante de nosso viver.

Para que possamos ter uma idéia do que seja isso, Frank Laubach nos descreve sua experiência de convidar a Cristo para participar das coisas comuns do seu dia-a-dia. na carta para seu pai em Janeiro de 1930 assim ele diz:

“Nos últimos dias, minha experiência de entrega tem sido mais completa do que nunca. Estou reservando, por vontade própria, um tempo suficiente a cada hora para refletir sobre Deus. Ontem e hoje, realizei uma nova aventura, que não é fácil de ser relatada. Estou sentindo Deus em cada movimento, por um ato de vontade – ansioso para que Ele dirija estes dedos que agora batem nesta máquina de escrever – ansioso para que ele flua por meio de meus passos enquanto caminho – ansioso para que ele controle minhas palavras enquanto falo, minha boca enquanto me alimento”.

A exemplo de Laubach podemos fazer o mesmo. Não é nada de extraordinário no seu sentido restrito. Por exemplo enquanto você estiver tomando seu café você pode dizer para Deus: “Que delícia de café, Senhor! Obrigado pela oportunidade de saborear um café tão delicioso”. Quando você estiver caminhando na rua você pode dizer para Cristo: “Senhor Jesus, guia agora as minhas pernas enquanto caminho”. Em relação ao perigo das tentações vizuais você poderá orar: “Senhor, toma estes olhos em tuas mãos. Guia-os para que eles não se desviem para o mal”. No seu trabalho a coisa pode acontecer assim: “Jesus, ajuda-me a montar esta planilha eletrônica” ou ” Senhor, dá-me atenção para que eu não erre nestes cálculos”. Se for serviço de rua: “Deus, em meio aos perigos desta cidade, guarda-me enquanto caminho por esta rua; avenida” etc. Se você lida com o público pode ser assim: “Senhor, dá-me paciência afim de que eu possa conceder um atendimento com qualidade”. Se for em casa, nas tarefas domésticas: “Jesus, sê com meus braços enquanto varro esta sala; enquanto lavo estas roupas; enquanto tiro este pó”.

As possibilidades são inesgotáveis desde o momento em que nos convencemos de que Jesus tem prazer em participar das nuances do nosso cotidiano.

4. A Prática das Disciplinas Espirituais – Na história dos grandes místicos e contemplativos do passado, a presença da ascese era algo comum nas suas vidas.

Ascese é um termo grego comum que significa simplesmente “treinamento”. Logo, o que seriam as disciplinas espirituais? São atividades que treinam o nosso corpo e alma para que a vida de Deus possa acontecer em nós. Elas nos colocam numa posição tal em que o Espírito Santo possa nos transformar, formando a imagem de Jesus no nosso eu interior.

São muitas e diversas estas disciplinas espirituais: jejum, oração, clebração, serviço, confissão, silêncio, solitude, meditação etc.

Gostaria de me ater a duas delas, pois, o espaço não me permite prolongar. Consideremos o silêncio e a solitude. Estas duas disciplinas caminham de mãos dadas, geralmente. No silêncio eu busco calar as vozes exteriores e interiores para retornar ao meu centro, onde o Espírito de Deus habita para, assim, poder ouvir a sua voz. Na solitude procuro me esquivar das aglomerações humana para poder estar a sós comigo mesmo e com Deus.

Quando estudamos acerca destas duas disciplinas descobrimos que as mesmas, juntamente com a lectio divina, ou leitura orante das Escrituras, ocupavam um lugar central nas atividades ascéticas da vida monástica.

Logo, quando temos acesso a estas informações, questionamos: “mas, não somos monges e nem vivemos na época que eles viviam. Então, não podemos praticar estas disciplinas espirituais?” A resposta é simples: É claro que podemos.

Nosso grande desafio, então, constitui em conseguirmos incorporar na nossa rotina corrida de vida pós-moderna estas atividades espirituais. De que maneira:

4.1. Estabelecendo momentos e períodos de silêncio. Podemos falar de momentos de silncio como por exemplo no seu período devocional separando parte dele para colocar-se em silêncio diante de Deus. Quem sabe pode-se começar com dez minutos e ir aumentando gradativamente.

Podemos ainda considerar dias de silêncio. Como por exemplo num feriado prolongado que começa numa quinta.

Podemos também considerar uma semana de silêncio, ou um mês de silêncio. Isso acontece no período de férias onde você pode viajar para um lugar reservado comoa casa de praia de um amigo ou uma aconchegante pousada serrana.

4.2. Estabelecendo momentos e períodos de solitude. Seu momento devocional onde você praticará o silêncio deve, se possível, ser num lugar reservado onde ninguém lhe pertube. Um quarto de porta fechada, ou num jardim debaixo de uma ávore. O importante é que você possa ficar a sós com Deus.

Também você pode reservar na sua casa um “cantinho da solidão” e combinar com a família que sempre que você estiver lá significa que deseja ficar sozinho. Pode ser um cadeira, ou uma poltrona ou até mesmo um local da casa. Vale aqui a criatividade.

A questão de dias, semanas e meses de solitude se aplicam as mesmas idéias que tratamos acima para o silêncio.

Quem sabe você também possa empreender uma caminhada num local com bastante árvores e flores e lá estar a sós e em silêncio saboreando a presença Deus e observando com mais atenção a natureza que nos revela, como sacramento, a majestade e a glória do Criador.

Existem muitos outras práticas contemplativas. A medida que colocarmos estas em prática o próprio Deus irá nos mostrar outras maneiras de andarmos continuamente em sua presença.

Por fim desejo dizer que apesar destas práticas terem caracterizado a peregrinação espiritual de homens e mulheres de tradição contemplativa ao longo dos séculos, estas, contudo, não são o ponto central de sua espiritualidade.

O que essencialmente define um estilo de vida contemplativo é um viver encharcado por amor: amor de Deus; amor a Deus e amor ao próximos.

Amor este cuja base é o amor do Pai revelado no Filho o qual deu a própria vida para nos resgatar. Por isso o amor de Jesus não apenas nos introduziu na vida contemplativa como também a sustenta e alimenta.

Não há vida contemplativa fora do amor de Cristo. Thomas Merton escreve com grande discernimento acerca disso:

“Não há verdadeira vida espiritual fora do amor de Cristo. Temos uma vida espiritual unicamente porque ele nos ama”.

E vivendo na dinâmica deste amor sublime podemos, como canais, espalhar sua glória estando em sua presença com o coração cheio da alegria dos céus.


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