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Posts Tagged ‘Oração’

Estava um certo homem deitado no sofá de sua sala assistindo a um filme na televisão. Como o mesmo não estava conseguindo prender sua atenção, ele dormiu profundamente e passou a sonhar sonhos de Deus. E um deles foi assim compartilhado comigo:

Estava eu caminhando por uma estrada deserta, poeirenta  quando deparei-me com um lindo jardim em flor de primavera na beira do caminho. Nele existia uma riqueza de detalhes que enebriava de profunda alegria a quem o observasse. Margaridas, rosas de várias cores, copos de leite, cravos, lírios e muitas outras plantas compunham aquela paisagem de beleza multifacetada. Pensei comigo: “O Jardineiro que cuida desse jardim deve ser alguém muito zeloso e caprichoso”. Ainda podia divisar samambaias e árvores frutíferas de várias espécies e um rio de águas límpidas que atravessava bem no meio daquele local. Pus-me a me perguntar meio que atordoado com tudo aquilo ao meu redor: “O que pode significar um jardim tão bonito como esse num lugar tão inóspito?”

Ainda estava a me questionar quando ouvi uma voz que ao mesmo tempo em que era doce e suave, parecia com o rugir de centenas de trovões. Acho que era a voz do próprio Jardineiro. E a voz me disse: “Esse jardim representa as Sagradas Escrituras que Deus concedeu à humanidade para que lhe seja luz e lâmpada que lhe indique o caminha da salvação”. E é verdade, oh Senhor Bendito de toda glória! Não são elas uma carta de amor de um Deus que simplesmente ama porque decidiu assim fazê-lo? E não são suas as verdades multifacetadas a alegrar o coração dos homens e a edificar os crentes e a revelar a vereda para a redenção da alma? E suas verdades não são semelhantes ao fruto maduro e doce a impregnar de sumo a boca de quem o prova ?

Comecei a caminhar por aquele lindo jardim de belezas e delícias insondáveis. Eu não tinha pressa alguma. Caminhava lentamente, passo à passo olhando e observando tamanhos, formas e cores de tudo o que brotava do solo daquele lugar paradisíaco. Rosas vermelhas e brancas. Violetas. Margaridas amarelas. Copos-de-Leite brancos como a neve. Árvores pequenas, árvores grandes. Frutos pequenos e frutos grandes. Uma riqueza de detalhes que palavras não poderiam expressar satisfatoriamente. Num dado momento, percebi em meio àquela vastidão uma linda rosa que chamou a minha atenção pela sua beleza singela, sua textura aveludada, cor viva e delicioso perfume. Parei diante dela abaixei-me e a colhi com cuidado e reverência. E disse em seguida: “De todas as flores que vi e apreciei, essa rosa verdadeiramente foi feita para minha alegria.” De repente, como que do nada ouvi novamente a voz do Jardineiro à perguntar-me: “Você sabe o que significa esse passeio sem pressa e atento a todas as belezas e riquezas do meu jardim?” Eu lhe respondi: “Não Senhor, Tu o sabes!” E ele complementou: “Esse caminhar sem pressa, silencioso e atento é a meditação sobre as minhas Escrituras. E a rosa que colheste é a Palavra que separei e direcionei para sua vida”. Ah, Amado Senhor! E não é assim mesmo que, ao lermos sem pressa  em em amorosa e silenciosa atenção, num dado momento nossa atenção é chamada a uma frase, expressão ou palavra da Sacratíssima Escritura? O que antes era apenas um texto sagrado passa a ser a nossa Palavra pessoal. A Palavra do nosso Deus para as nossas vidas.

Enquanto ainda olhava atentamente para a minha rosa que havia colhido do jardim, eis que sem o perceber o Jardineiro se aproxima de mim. Olhei nos seus olhos e foi como se me perdesse nas profundezas de um vasto oceano. Oceano de bondade, esperança, misericórdia e amor. Ele sorriu para mim. E o seu sorriso se alastrou pelo meu peito como um incêndio a consumir uma floresta de folhas secas. Naquele momento, sem entender muito bem o que se passava, comecei a chorar e a gradecer ao gracioso jardineiro por ter cultivado e cuidado de tão bela espécime de flor. Exaltei sua criatividade e cuidado para com aquela rosa. E acima de tudo pelo fato de que agora compreendia que a mesma não fora destinada para qualquer outra pessoa a não ser para mim. E ele com muita alegria no rosto me perguntou: ‘Sabe o que você está fazendo?’ ‘Não!’ Eu lhe respondi. ‘Você está orando. E sua oração é uma resposta espontânea à beleza e gratuidade da rosa que você colheu no meu jardim’. É verdade Benigníssimo Senhor! A Palavra que nos dá na meditação de Tuas Sagradas Letras fazem brotar do nosso interior o mover da alma que chamamos de oração. E em  alguns momentos as riquezas de sua graça e compaixão nos levam a louvarmos Seu Santo nome. A rendermos graças e glórias ao Rei de nossas vidas. Mas em outras ocasiões nossos pecados fazem com que os espinhos de nossa rosa nos firam. Feridas de amor que nos convidam à confissão e ao arrependimento. E aí somos curados e restaurados por Ti. Oh, Pai das misericórdias e Deus de toda a compaixão!

Quando terminei de falar, tendo ainda a rosa em minha mão, o Jardineiro virou-se e começou a caminhar para longe de mim. Sem perder tempo corri o mais rápido que pude em sua direção até alcançá-lo.  Ao perceber-me próximo de si, virou-se e disse: ‘ o que você quer meu filho?’  Sem hesitar por um momento lhe direcionei as seguintes palavras: ‘Senhor, e a contemplação, não tens nada a dizer? No seu jardim já descobri as Escrituras, a meditação e a oração, mas, e quanto à obra da contemplação, o que vem a ser ela?’ Ele abriu um largo sorriso e me respondeu o seguinte: ‘Sabe a rosa que tens na mão? Cheire-a. Desfrute do seu perfume. Saboreie sua fragrância, sem pressa, em silêncio. Não precisa fazer nada. Seja apenas você. Esteja plenamente presente, imbuído e arrebatado pela doçura desse perfume. Isso meu querido, isso é contemplação.’ Senhor, pela tua soberana misericórdia ensina-nos a romper com a tirania do ter e do fazer. Ao paço em que nos ensina a graça de simplesmente ser e estar. Ajuda-nos a silenciar as vozes do nosso interior que clamam de dia e de noite por nossa atenção, sufocando assim os Teu doces sussurros em nossa alma. Capacita-nos a adentrar no Grande Silêncio da Presença que envolve a tudo e a todos.

Foi então que despertei e vi que tudo aquilo não tinha passado de um sonho. E que sonho maravilhoso!  De repente ocorreu-me algo que ainda não tinha feito naquele dia. Corri para a estante de livros, peguei minha velha amiga, a Bíblia, e fui para o quarto secreto onde meu Pai que me vê em secreto estava me aguardando. 

Boa noite a todos!

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“Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6:6)

Entre os inimigos da devoção, nenhum é tão nocivo como as distrações. Tudo o que excita a curiosidade, espalha os pensamentos, inquieta o coração, absorve os interesses ou desloca o foco de nossa vida, do reino de Deus dentro de nós, para o mundo ao redor de nós – isto é uma distração; e o mundo está cheio dela. Nossa civilização baseada na ciência tem nos dado muitos benefícios, porém ela tem multiplicado nossas distrações e assim tem nos ocupado mais do que tem nos dado…

O remédio para as distrações é o mesmo agora como era nos tempos primitivos e simples, a saber, oração, meditação e cultivação da vida interior. O salmista disse: “Aquietai-vos e sabei”, e Cristo nos chama a entrar no nosso quarto, fechar a porta e orar ao Pai. Isto ainda funciona…

As distrações devem ser conquistadas ou elas nos conquistarão. Portanto, cultivemos a simplicidade; desejemos menos coisas; andemos no Espírito; enchamos nossas mentes com a Palavra de Deus e nossos corações com louvor. Neste caminho podemos viver em paz até em um mundo distraído como este. “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”.

“Senhor, é certamente duro e difícil afastar as distrações de uma civilização progressivamente baseada na ciência. Ajuda-me a cultivar a simplicidade, a ser satisfeito com menos coisas e a encontrar a paz interior que Tu podes dar numa vida de oração e meditação. Amém” .

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* A. W. Tozer

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Há alguns sábados atrás, minha amada esposa me aplicou um belo susto: fomos correndo para o hospital com ela sentindo crescentes dores fortes no estômago. Após um logo atendimento, que me possibilitou desfrutar e concluir a leitura da obra magistral de S. João da Cruz, “A Subida do Monte Carmelo”, o diagnóstico já era de se imaginar: Vanessa deveria procurar um gastro o mais rápido possível, pois, estava no início de um quadro de gastrite nervosa.

Conversando em casa, após o retorno do hospital, chegamos à conclusão de que sua enfermidade era resultado direto de toda a tensão que ela vem enfrentando já alguns meses. O nervosismo advindo das responsabilidades de ser mãe, esposa, funcionária, somado ainda com o prazo apertado para a entrega de uma monografia de conclusão de curso, não era de se estranhar que seu corpo lhe devolvesse o rebote de toda essa agressão psico-emocional que ela tem represado sobre si. 

No dia seguinte um acontecimento curioso chamou a minha atenção. Após voltar da casa de sua mãe, minha esposa trazia consigo um opúsculo, presenteado por sua irmã,  o qual tratava  exatamente da questão do estresse e de como, supostamente, controlá-lo. Eu achei o título muito interessante, dizia: “Você Sabe Controlar o Estresse?”. O subtítulo é ainda mais chamativo: “Volte a Controlar Sua Vida”. Confesso que não o li ainda e nem sei se irei fazê-lo. Dei apenas uma rápida folheada e pelo que pude perceber o texto é composto de dicas práticas acerca de atitudes que as pessoas devem tomar nas diferentes áreas de sua vida para que o problema do estresse seja resolvido. Um livro daqueles do tipo auto-ajuda. 

O conteúdo do livro apresenta várias definições para estresse. Uma que chamou minha atenção é a que dizia “estresse é o que você sente quando não está no controle” (p.15). Ou seja, para o autor estresse é sinônimo de você não estar no controle de sua própria vida.

De forma alguma quero desmerecer a obra muito menos as boas intenções do autor. No entanto, acredito que aquilo que é sugerido como resposta, solução, para o estresse que é considerado um dos grandes males da vida pós-moderna, na verdade se constitui numa de suas principais causas: o desejo das pessoas de estarem no controle de suas vidas e a frustração contínua que sentem ao perceberem que isso é uma triste ilusão

A ilusão se dá pelo fato de que nada na nossa vida depende exclusivamente de nós. Somos seres que interagimos com outros seres semelhantes a nós que possuem seus próprios interesses. Estes outros humanos, com suas atitudes e decisões, interferem diretamente no andamento e curso das nossas vidas. Na teia de acontecimentos e circunstâncias que compõem a existência é totalmente impossível estarmos no controle em todo momento, em todas as coisas. Esse fato causa medo, insegurança, frustração, ansiedade e inquietação.  Em outras palavras, estresse! 

Dito tudo isso, considerando os fatos, estou convencido que a resolução do mal chamado estresse encontra-se numa proposta completamente contrária à exposta acima. Acredito que o estresse antes de ser um problema físico, psicológico e emocional, é existencial. A grande verdade é que a sensação de abandono interior acaba conosco. Não gostamos de nos sentir órfãos.

Logo, a atitude mais sensata e eficaz para fugirmos dos níveis altíssimos de estresse que têm caracterizado a sociedade de hoje é o de “retornarmos para casa”. Isso significa colocarmo-nos debaixo de uma amizade redentora com o Cristo. E dessa forma, desfrutarmos de uma relação filial com o Deus que se permite chamar de Abba, Pai. 

“Mas a todos que o receberam (a Cristo), aos que crêem no seu nome, deu-lhes a prerrogativa  de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1.12)

Na relação com o Bendito Crucificado todo e qualquer sensação de abandono é extirpada de nossa alma, porquanto agora temos a certeza de que voltamos, como pródigos, para os braços do amoroso Pai.

“Assim não sois mais estrangeiros, nem imigrantes; pelo contrário, sois concidadãos dos santos  e membros da família de Deus” (Ef 2.19)

Não estamos mais sós!

O coração do nosso relacionamento com Deus é a confiança. Não uma qualquer. Brennan Manning a chama de cega. No sentido de ser uma confiança sem quaisquer restrições de nossa parte ao amor, misericórdia e graça de Deus. É o tipo de atitude que uma criança pequena tem em relação a seu pai ou sua mãe. Uma entrega que descansa, se aquieta e silencia na certeza do amor, cuidado e provisão por parte deles. 

Deus, na história da redenção que vem sendo escrita desde as páginas do Velho Testamento, sempre requereu daqueles que estavam debaixo do seu governo, essa atitude de confiança irrestrita (cf. Sl 37.5). Nas páginas do Novo Testamento, as quais nos relatam a plenitude dos tempos no que diz respeito à obra redentora na pessoa de Cristo, o padrão divino não arrefeceu. 

Não se trata apenas do “retorno ao lar” através de Jesus que será a solução definitiva para os males do estresse. Ir a Jesus continuamente, e em sua gloriosa pessoa, experimentar da comunhão eterna é o grande segredo no controle dos níveis de estresse. Recebemos o seu convite, registrado no evangelho de São Mateus 11.28-30 como se segue:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviareis. Tomais sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve”

Percebamos as promessas do Senhor nesses versos: “eu vos aliviarei”; “e achareis descanso para a vossa alma”. Alívio e descanso são pérolas de grande valor a que o homem pós-moderno procura desesperadamente encontrar em  meio ao mar agitado do cotidiano. Contudo, sem sucesso!

Esse fracasso, sem sombra de dúvidas, se dá pelo fato de que o dito homem tem procurado o rico tesouro de uma alma não fragmentada em lugares mil, menos no lugar certo: “Vinde a mim” é o convite que o Filho de Deus faz a todos quantos estão “cansados e sobrecarregados”. Em outras palavras esmagados pelas situações estressantes da vida diária. Que não cessam de suspirar pelo paraíso perdido, pelo lar deixado para trás.

Os que já foram conduzidos à cruz de Cristo, que já foram postos  em relação filial com seu Pai, a única alternativa que lhes resta é a de confiar cegamente nas palavras de Jesus transcritas acima. Significa  não apenas saber, mas, sentir e experimentar o fato de que, verdadeiramente, não nos encontramos ao léu, à deriva das situações que chicoteiam o “barco” de nossa história pessoal. 

É conhecimento que transcende palavras e a razão humana e que coloca-nos em contato com a altura, largura, comprimento e profundidade do amor de Jesus, que excede a todo o entendimento. Amor este que nos faz perceber que o anseio e subsequente desespero de querer estar no controle da vida, causa principal do estresse, pode e deve ser substituído pela doce experiência contínua de sermos cuidados pelo Pai de Jesus, hoje, nosso Pai também. Agora, não somos mais nós, mas, Deus no controle de nossas vidas. 

E assim, as diversas situações que envolvem nossa existência: necessidades pessoais, urgências a serem atendidas encontram-se debaixo da atenção amorosa e provedora do Deus e Pai, nosso Deus e nosso Pai, que sabe de tudo o que precisamos antes mesmo de o pedirmos (cf. Mt 6.31,32).

Portanto, a única coisa que devemos fazer é apresentar a ele nossas necessidades e…ficar esperando (cf. Sl 5.3). E claro, continuando a tocar  nossa vida para frente. 

São Paulo nos exorta a essa mesma atitude de confiança cega que apresenta a Deus suas necessidades. Em Fl 4.6 ele escreve: 

 Não andeis ansiosos por coisa alguma; pelo contrário, sejam os vossos pedidos plenamente conhecidos diante de Deus por meio de oração e súplica com ações de graças”

É incrível a ligação dessas palavras do apóstolo com aquilo que nosso Senhor disse a seus discípulos no texto já citado de Mateus 6. No entanto, Paulo não para por aí. Ele nos garante um estado emocional e mental de paz e descanso que resulta dessa entrega confiante em oração, bem diferente do que encontramos em pessoas estressadas:

“e a paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento, guardará o vosso coração e os vossos pensamentos em Cristo Jesus” (v.7) 

Deus nos ama. Deus está no controle da nossa vida. Deus sabe do que necessitamos e tem prazer em suprir nossas necessidades. É incrível como ele se preocupa em contar até mesmo os cabelos de nossa cabeça! Portanto, o segredo para o controle dos níveis de estresse é a visitação diária no “quarto secreto” de oração onde, no silêncio e solitude, somos contemplados e contemplamos a face amorosa e secreta de nosso Pai Celestial.

“Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que o vê em secreto, te recompensará” (Mt 6:6)

Há alguns anos atrás diante do nervosismo (estresse) dos passageiros em decorrências dos problemas que estavam acontecendo com os embarques nos aeroportos na cidade de São Paulo, a então prefeita Marta Suplicy deu a seguinte declaração aos estressados passageiros que exigiam uma solução: “Relaxa e goza!”.

Não vou entrar no mérito da questão se o que ela disse teve boas intenções ou se apenas se tratou do descaso de uma autoridade pública ganhando voz perante a mídia. Independente disso, suas palavras traduziram com perfeição o convite de Deus para todos os seus filhos diante dos espinhos da vida: “relaxa e goza! Pois, estou no controle da sua vida. Eu te amo e sei do que você precisa. Não se preocupe, apenas confie em mim sem restrições!”

Por isso, meu querido, NO STRESS!

Paz e bem!

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Diferentemente do que muitos acreditam, a verdadeira espiritualidade nos insere na chama do sagrado que se esconde por detrás das realidades ordinárias do cotidiano. Viver o dia-a-dia ao invés de impedir-nos de conectar com Deus, nos fornece o pano de fundo mais essencial para a experiência com o mundo espiritual. Não podemos perder de vista a revelação bíblica de que vivemos em um mundo imbuído, mergulhado em Deus (Atos 17:28). Assim, as realidades visíveis tornam-se sacramentos da presença invisível, e  nem por isso menos concreta, do Deus que criou os céus e a terra.

O trabalho, dentro desse entendimento, apresenta-se a cada servo de Cristo em teor sacramental. Trabalhar e orar acabam por se tornar a mesma coisa ao invés de realidades que se excluem mutuamente. Quando trabalhamos oramos, quando oramos trabalhamos. Quando realizo minhas tarefas seja dentro de casa ou no escritório posso e devo fazê-las consciente de que estou perante os olhos amorosos e atentos de meu Senhor. Trabalhar debaixo de uma consciência permanente da presença de Deus encerra as palavras paulinas: “Orai sem cessar”. Para Deus trabalho é tão espiritual e sagrado quanto nossos momentos de meditação e contemplação. Isso porque o entendimento dicotômico de secular e espiritual é algo a que não devemos nos apegar. Tudo é espiritual quando feito alicerçado por valores espirituais. Tudo é sagrado quando realizado para a glória de Deus.

As escrituras hebraicas nos dizem que Deus é o autor do trabalho. Ele mesmo trabalhou durante seis dias para que o mundo fosse criado. Após a feitura do homem este foi colocado por Deus no jardim para que cuidasse dele e o cultivasse. O que mais nos surpreende no relato da gênesis do trabalho é que ao final da tarde, no local onde o homem desenvolvia suas tarefas designadas por Deus, o Senhor Criador passeava como que não inspecionando, mas, deleitando-se naquilo que tinha sido feito. A jabuticabeira podada, os cravos bem tratados e a macieira adubada eram verdadeiros salmos de louvor e adoração.

A espiritualidade do trabalho reside no fato de que   quando trabalhamos estamos sendo coparticipantes da obra criadora de Deus. Ao fazermos sua manutenção, através de nossas múltiplas tarefas e atividades no dia-a-dia com temor e tremor, perpetuamos aquilo que nos foi dado como expressão de sua graça. Outro fato é que quando trabalhamos vivenciamos parte do que significa termos sido feitos à imagem e semelhança de Deus. Como foi dito acima Deus trabalhou para criar o universo e continua trabalhando até agora. Desta forma o trabalho expressa a nossa pessoalidade herdada de um Deus que é persona.

Trabalhar é uma ordenança de Deus ao homem desde o princípio. A preguiça, ou seja, a recusa em trabalhar constitui-se em pecado contra o Deus que trabalha até agora. Trabalho e oração, a experimentação do numinoso, não precisam ser realidades distintas muito menos conflitantes. Assim, quando desenvolvemos nossas atividades conscientes da Grande Presença e o fazemos em nome de Cristo, estabelece-se a escada de onde os anjos sobem e descem, uma dimensão em que terra e céu, tempo e eternidade, finito e infinito se tocam num abraço de glorioso mistério.

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Monge ortodoxo em momento de oração

1. Não imagines, irmão, que a oração consiste apenas em palavras ou que pode ser aprendida por meio de palavras. Não, na verdade, deves compreender que a plenitude da oração espiritual não se atinge como resultado de uma aprendizagem ou através da repetição de palavras. Pois não é a um homem que estás a orar, perante quem podes repetir um discurso bem elaborado: é a Ele, que é Espírito, a quem diriges os movimentos da tua oração. Portanto, deves orar também em espírito, uma vez que Ele é Espírito.

2. Aquele que ora em plenitude a Deus não precisa de um lugar especial. Nosso Senhor diz: “Há de vir a hora em que não adorareis o Pai nesta montanha nem em Jerusalém”; e mais uma vez, para mostrar que não se requer lugar algum em especial para orar, ensinou também que aqueles que adoram o Pai o devem fazer “em espírito e verdade”; e continua instruindo-nos referindo porque devemos orar segundo disse, “Pois Deus é Espírito”, e deve ser venerado espiritualmente, no espírito. Paulo também nos ensina acerca de como devemos empregar esta salmodia e oração espiritual: “O que, portanto, devo fazer?”, pergunta, “Orarei em espírito e orarei na minha mente; cantarei no espírito e cantarei na minha mente”. É no espírito e na mente, portanto, que Paulo recomenda que oremos e cantemos a Deus; sobre a língua nada nos diz. E não o faz porque esta oração espiritual é mais interior do que a língua, mais profundamente interior do que qualquer coisa que assome aos lábios, mais interior do que quaisquer palavras ou canto vocal. Quando alguém ora desta forma está imerso num nível mais profundo do que todo o discurso e permanece no plano onde se podem encontrar seres espirituais e anjos; como estes, essa pessoa profere “santo” sem quaisquer palavras. Mas se esta forma de oração cessa e recomeça a oração do canto vocal, então encontra-se fora da região dos anjos e torna-se novamente um homem comum.

3. Quem canta usando a língua e o corpo e persevera nesta adoração noite e dia, pertence à categoria dos “justos”. Mas aquele que foi considerado digno de penetrar mais fundo, cantando na mente e no espírito, esse é um “ser espiritual”.

A categoria do “ser espiritual” é mais elevada que a do “justo”, mas só é possível tornar-se “ser espiritual” depois de ser “justo”. Até alguém ter venerado por um considerável número de vezes desta forma exterior, jejuando, usando a voz para salmodiar, com longos períodos em genuflexão, vigílias constantes, recitação de salmos, trabalhos árduos, súplicas, abstinência, escassez de comida, e outras coisas deste tipo, mergulhando a sua alma continuamente na recordação de Deus, cheia de temor e tremor ao seu nome, humilde perante todos os homens, considerando toda a gente melhor que ele, mesmo quando vê as ações do homem: quando vê alguém perverso, ou adúltero, ou alguém ganancioso, ou bêbedo, ainda assim age com humildade perante eles e no mais oculto dos seus íntimos pensamentos verdadeiramente considera-os melhores que ele, não aparentemente, mas vendo alguém no meio de todas estas coisas más, aproxima-se e age com humildade perante ele, suplicando-lhe “ora por mim, pois sou um pecador perante Deus, sou culpado de muitas coisas, por nenhuma delas paguei o preço”. Somente quando alguém atinge isto – e outras coisas mais grandiosas que estas que mencionei – poderá cantar a Deus a mesma salmodia que os seres espirituais usam para O adorar.

4. Pois Deus é silêncio e no silêncio é ele cantado através desta salmodia, a única digna Dele. Não falo do silêncio da língua, pois se se mantém meramente a língua em silêncio, sem saber como cantar na mente e em espírito, significa apenas que se está desocupado e se enche de maus pensamentos: mantém apenas um silêncio exterior e não sabe como cantar interiormente, a língua do seu “homem interior” ainda não aprendeu a movimentar-se nem sequer para balbuciar. Deves observar o bebê espiritual que está dentro de ti da mesma forma que o fazes com uma criança comum ou um bebê: tal como a língua na boca de um bebê está imóvel porque não sabe ainda como falar ou os movimentos certos para falar, o mesmo acontece com a língua interior da mente; estará alheia a todo o discurso e pensamento: estará apenas ali no seu sítio, pronta a aprender os primeiros balbucios dos enunciados espirituais.

5. Assim, há o silêncio da língua, há o silêncio de todo o corpo, há o silêncio da alma, há o silêncio da mente e há o silêncio do espírito. O silêncio da língua é a abstenção de todo o discurso maldoso; o silêncio de todo o corpo dá-se quando todos os seus sentidos estão desocupados; existe silêncio da alma quando desprovida de maus pensamentos irrompendo nela; o silêncio da mente é a ausência de reflexão sobre ensinamentos prejudiciais; o silêncio do espírito existe quando a mente se abstém até mesmo de inspirações causadas por criaturas espirituais e todos os seus movimentos são inspirados apenas por Deus, no assombro tremendo do silêncio que envolve o Ser.

6. Estes são os graus e medidas que podem ser encontradas no discurso e no silêncio. Mas se ainda não os alcançaste e te encontras muito longe deles, permanece onde estás e canta a Deus usando a voz e a língua em amor e temor. Canta com esmero, trabalha tenazmente até alcançares o amor. Permanece no temor de Deus, como é de seu direito, e deste modo serás considerado digno de O amar com um amor natural – Ele que se deu a nós na nossa renovação [batismo].

7. E quando recitares as palavras da oração que te escrevi, tem cuidado para não as repetires apenas, mas deixa que o teu ser se transforme nessas palavras. Pois não há qualquer proveito na recitação a não ser que a palavra de fato se incorpore em ti e se torne ação, e assim serás visto pelo mundo como homem de Deus – a quem é devida a glória, a honra e a exaltação, pelos séculos dos séculos. Amém!

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João, o solitário (extraído do site Ecclesia)

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Pintura de São Francisco de Assis

Que Deus o abençoe com o desconforto diante de respostas fáceis, meias verdades e relacionamentos superficiais, para que você possa viver intensamente no fundo do seu coração.

Que Deus o abençoe com a raiva diante da injustiça, da opressão e da exploração de pessoas, para que você possa trabalhar pela justiça, pela liberdade e pela paz.

Que Deus o abençoe com lágrimas derramadas por quem sofre dor, rejeição, fome e guerra, para que você possa estender a mão para conforta-los e transformar a dor deles em alegria.

E que Deus o abençoe com suficiente loucura para acreditar que você pode fazer uma diferença no mundo, para que você possa fazer o que outros dizem não poder fazer, para trazer justiça e bondade a todos os nossos filhos e aos pobres.

Amém.

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Há muito que o cristianismo ocidental perdeu aquele “quê” de assombro, deslumbramento e fascinação diante do mistério divino. Deus se tornou mais comum na mentalidade contemporânea do que podemos imaginar. Temos assistido a completa trivialização do Sagrado e a perda da sensibilidade ao numinoso.

Em dias de capitalismo selvagem, que não apenas tem devorado o recheio de nossos bolsos, mas também engolido nossas almas, a relação homem e Deus sofreu uma dramática reviravolta. O que antes nos fazia ficar estasiados em silêncio, contemplando Aquele que nossa mente não pode compreender, mas nosso coração pode abraçar, hoje é encarado e buscado como mera alavanca para se angariar benefícios pessoais. A fé utilitarista, o discurso triunfalista estão em moda, aliciando a cada dia mais um grande número de admiradores.

Na teologia e no discurso de muitos dos segmentos cristãos da atualidade Deus se vê contra a parede em meio a inúmeras exigências, determinações, constrangido por causa de suas próprias promessas contidas nas Escrituras a atender o homem na hora e do jeito que este o quer. Vemos agora uma drástica troca de soberania: o homem ocupa o trono e a autoridade, enquanto o Deus Triúno, Santo e inescrutável em seu insondável mistério, é colocado como mero lacaio á disposição dos ditames egoístas, e porque não mimados, do mesmo.

Não há necessidade de se dizer que a nossa vida de oração sofreu com tamanha mudança de mentalidade. Nestes dias o paradigma orante são nossas intermináveis listas de pedidos que apresentamos a Deus em nossos momentos devocionais. A meu ver aqui já começa uma grande contradição, pois, devoção não tem nada a ver com pedir, exigir ou determinar algo. Devoção tem mais a ver com dedicação, com o reapaixonar-se, com o redescobrir do assombro que surge na contemplação pura do ser amado. Neste contexto é que devemos redefinir a oração como encontro com Deus.

Um encontro é algo muito importante. Há encontros que marcam indelevelmente a vida das pessoas. Por exemplo os pais que vão ao aeroporto recepcionar o filho a quem não vêem já algum tempo, pois este estuda no exterior. Ou então aquele momento em que separamos para investir um tempo de qualidade junto com ele ou ela. A grande verdade é que os encontros fazem parte da nossa vida. Estão entretecidos na vasta teia que compõe nossa vida de relacionamentos.

Nos encontros não há interesses egoístas. Encontros não permitem exigências ou determinações arbitrárias. Encontro é presença: eu e tu. Encontro é troca. Encontro é dedicação. Encontro é paixão. Paixão que deixa boquiaberto, extasiado , passivo perante o amor que é transmitido através da eloquência de um olhar silencioso. Muita das vezes enconto não requer palavras. Elas são desnecessária. Quando não, acabam por profanar o sagrado do momento. Isso! Encontro é algo sagrado.

Na dinâmica da vida de oração não é diferente. Ou pelo menos não deveria ser. Oração é encontro com o Deus Triúno envolto em mistério, que habita em luz inacessível. Oração é ter a certeza de encontrar a mim mesmo e ao Deus que me conhece e que mesmo assim insiste em continuar me amando, apesar de… Oração como encontro, logo, é comunhão apaixonada entre duas partes amantes e que desejam estar uma na presença da outra.

Desse jeito o silêncio pode, e muito, contribuir para a oração como encontro: com Deus e comigo mesmo. Ao colocar-me na presença de Deus sem palavras posso ficar atento aos pensamentos que brotam em minha mente. E desta forma ser confrontado pelas realidades que muita das vezes ocultam-se por detrás dos mesmos. No âmago dos meus pensamento pode estar a revelação dos “demônios” que afligem a alma. A partir disso posso me colocar na presença do Deus que já me conhece, me acolhe como estou e me ama como sou. Apresento a ele meus anseios e assim a oração passar a ser um encontro comigo nos lugares mais obscuros de minha existência humana e com o Deus que é luz e que a todos ilumina.

Não existe pensamento mais libertador do que este: que posso ser eu mesmo, sem máscaras e desprovido de fobias diante de Deus. Com Deus tenho completo espaço de ser aquilo que sou e não o que as expectativas e exigências dos outros esperam de mim. Quem sou verdadeiramente já não é mais definido por circunstâncias externas, mas, pela imagem original que Deus tem de mim: sou um filho de sua graça, intensamente amado por Ele. E isso me basta.

Assim, sendo a oração uma ponte a se atravessar para um encontro consigo e com o Deus que nos aceita como somos, logo, a oração deve constituir-se para nós numa experiência de aconchego, paz e intimidade. Ao orar nos colocamos, conscientemente, recostados no seio dAquele que é mais do que Senhor. Estamos descansando na presença de quem nos chama de amigos seu.

Consideremos também a meditação como um auxílio para orarmos à moda de um encontro. Quando nos assentamos aquietados para ler sem pressa a Palavra de Deus, abrimos um espaço para que Cristo fale ao nosso coração. Afinal de contas Ele é Logos, Palavra. E nos fala por intermédio de sua palavra. Abrir a Bíblia é ter a boca do Altíssimo aberta para nos falar. O texto em que ouvimos a voz do Eterno é lugar sagrado, onde a sarça arde sem se consumir e nos colocamos descalços ante o mistério do Deus que nos chama pelo nome.

Logo, quando oro em resposta àquilo que Deus falou ao meu coração, esta oração não deixa de ter as dimensões de um encontro. Meu coração se derrete perante o calor de sua voz ecoando das páginas do Livro. Minha vida como um todo age, reage e responde a sua vontade revelada nas páginas da Bíblia. Oração: encontro da Palavra de Deus com meu coração que responde, sedento por Deus.

Oração é mais, muito mais do que aquilo que as pessoas têm feito com ela por aí. Oração não é algo do tipo gênio da lâmpada, nem botão que basta apertar para que recebamos aquilo que queremos, muito menos um memorando destinado ao Chefe do Almoxarifado celestial. Não! Mil vezes não!!! Pelo contrário, oração é comunhão. Orar é travar intimidade e proximidade. Orar é devoção, é entrega de nós mesmos: tudo o que temos e tudo o que somos. Oração é descoberta do eu e revelação do Tu. É lugar secreto de paz, equilíbrio, harmonia e saúde. É experiência pessoal. União perfeita entre duas partes que se amam e se desejam.

Que possamos amar a Deus em oração e através da oração. Que lancemos de nossas vidas, de uma vez por todas, esta concepção mercantilista da fé que encara a oração como mera ferramente para se obter aquilo que se deseja. Que a frieza seja removida de nossos corações novamente, mais uma vez. E que a chama do amor divino volte a arder e nos consumir em emoções sagradas e afetos santificados. Que a oração nos seja mais do que um exercício religioso. Mas um encontro de amor arrebatador com nosso Paizinho Querido que nos convida, como crianças recém-nascidas, a descansarmos em seu colo. Sem pressa. Sem preocupação.

Que assim seja!

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