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Posts Tagged ‘quietude’

O Senhor Jesus Cristo convida o povo santo e justificado por Seu sangue a adentrar no descanso de Sua presença constante e pessoal. Ele mesmo disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”. Antes de ser um estado emocional, essa paz é uma realidade interior, uma experiência, que pertence a todos quantos encontram-se em relação filial com o Pai. Ao longo dos séculos da história da espiritualidade cristã, essa realidade do Eu mais profundo, espiritual, criado em Cristo Jesus para viver em novidade de vida, foi transmitida na forma de uma disciplina espiritual que conhecemos como silêncio. São diversos os textos nas Escrituras Sagradas que nos chamam para o retorno à serenidade, quietude e silêncio da alma. Passagens como Sl 46:10,  Sl 116:7 e Lm 3:26 são alguns exemplos desse chamado interior.

Já se vão mais de cinco anos que tenho estudado, ensinado e praticado a via mística da vida cristã. Em meio ao corre corre do cotidiano, com suas múltiplas exigências que clamam por minha atenção, a luta para se auto-disciplinar no que diz respeito à fomentação de uma vida espiritual profunda, tem se constituído num grande desafio para mim. Desafio igualmente difícil tem sido explicar para outros cristãos o que é e a importância das disciplinas espirituais. Muitos não as compreendem. Acham que são práticas inúteis que não possuem qualquer relevância para a vida cristã. Esse tipo de opinião tem origem na falta de entendimento de que nosso corpo tem participação fundamental no desenvolvimento da espiritualidade. Esquecem que não somos apenas alma e espírito, mas, corpo também. Contudo, mesmo após a conversão esse corpo, antes escravo do pecado, permanece “viciado” no pecado pelos anos de hábitos e práticas contrárias aos valores do Reino. Logo, faz-se necessário o “treinamento” do corpo como nova habitação do Espírito Santo. Daí vem a importância das disciplinas espirituais.

Quando buscamos descrever a realidade dessas práticas, sua essência e natureza, surge-nos um outro desafio ainda maior. Como descrever em termos concretos algo que eminentemente é uma experiência da dimensão de nossa interioridade? Somente a linguagem mística, ou seja, alegórica, rica em figuras e imagens, pode nos ajudar a ilustrar e elucidar verdades tão profundas. Tendo isso em mente, comecei a pensar em qual figura poderia descrever de forma mais clara possível a experiência interior do silêncio. Já havia usado diversas ilustrações: um santuário; um quarto. No entanto, nenhuma delas me pareceu atingir o objetivo. Até que Deus trouxe a minha mente uma imagem: a de uma gruta interior, dessas que tem formações rochosas interessantes, estalagmites e estalactites esplendorosas. E em algumas até encontramos uma concentração de água que formam uma espécie de lagoa. 

O que me chamou a atenção é que enquanto eu “observava” a lagoa no interior da gruta: silenciosa, serena, tranquila, cujas águas poderiam muito bem ser confundidas com um espelho se alguém decidisse fitá-las, uma grande tempestade acontecia no exterior, na superfície, do lado de fora da gruta. Árvores se chacoalhando, galhos estalando ao quebrar, o vento uivante, folhas esvoaçando em todas as direções, trovões e relâmpagos. Tudo isso se contrastava com a paz  que a lagoa no interior daquela gruta desfrutava. Enquanto por ocasião da tempestade do lado de fora o ambiente caracterizava-se por desordem, agitação e ruído, do lado de dentro a gruta com sua lagoa formava um quadro de profunda harmonia e quietude. Definitivamente a tempestade no exterior não abalava em nada as águas calmas da lagoa interior.

Acredito que essa imagem retrata com perfeição o que queremos transmitir quando nos referimos ao silêncio. Acima de tudo ele se apresenta mais como uma experiência interior do que como uma realidade física: ausência de palavras e sons. Os que verdadeiramente compreendem o silêncio como realidade interior sabem, porque assim tem experimentado, que você pode estar em profundo silêncio mesmo em meio à multidão e ao barulho. A grande verdade é que o silêncio é uma atitude interior de recolhimento  em Deus, que nos traz paz e serenidade. Talvez a palavra silêncio por si só não faça jus à completude da experiência que estamos tratando. Acredito que “quietude” expressa melhor nosso propósito aqui.

Quietude caracterizava o estado da lagoa no interior da gruta, enquanto na superfície tudo o mais estava um caos. Essa também pode ser a nossa experiência: mesmo quando tudo ao nosso redor (o mundo, o exterior, a vida em si) estiver nos convidando à inquietação e ansiedade, à pressa e à compulsão, nós simplesmente podemos retornar ao “local”  silencioso de nossa “lagoa” onde suas águas tranquilas refletem nossa verdadeira imagem: não a que o mundo tenta nos imprimir. Mas, a que o próprio Deus criou à sua própria semelhança em Cristo Jesus.   E isso vai independer se nos encontramos em meio ao conglomerado humano no centro de uma grande metrópole ou num retiro espiritual silencioso. A gruta sempre estará lá e as águas tranquilas de sua lagoa também. Á nossa espera, sussurrando o nosso nome. Basta que nos lembremos disso e nos voltemos para dentro de nós onde Deus habita e nos espera de braços abertos para nos acolher em seu silêncio restaurador. 

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Eu estava de saída para uma viagem a Santiago do Chile, a fim de participar de uma conferência com pastores e líderes locais. Ainda no aeroporto, aguardando o vôo, conversava com Deus sobre o meu momento de vida. Dentre muitas coisas, pedia ao Senhor sabedoria e orientação diante do cenário que me envolvia. Semanalmente, novas oportunidades surgiam diante de mim; novas demandas emergiam em minha agenda e novas conversas aqueciam meu coração para projetos aparentemente fascinantes.

Estava preocupado diante de tudo aquilo que acontecia. Sei que uma das razões que fazem com que homens e mulheres de Deus acabem por se perder, mesmo que bem intencionados em suas motivações iniciais, é a falta de uma clara percepção acerca do mover de Deus em suas vidas. Muitos passam a entender que toda oportunidade que surge é uma porta aberta pelo Senhor, ou que toda demanda que emerge é um desafio lançado pelo Espírito Santo. Há também aqueles para quem qualquer conversa que lhes aqueça o coração é uma visão de Deus que precisa ser assumida.

Para os que enxergam a vida nesta perspectiva, o mover de Deus acaba se confundindo com o empreendedorismo de nossos tempos ou com o anseio insaciável de nossas almas por sermos tidos como pessoas relevantes diante do mundo. Para gente assim, o mover de Deus sempre as convida para um tempo de ir, correr e vencer. Não existe a possibilidade de o Senhor chamá-las a um tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se. Por isso mesmo, querendo conquistar o mundo, acabam, infelizmente, perdendo a própria alma. Em meio às muitas oportunidades, demandas e desafios, confundem a ação do Senhor com as expectativas do meio ou com os anseios de seus próprios corações.

Na vida do rei Davi, os desertos se tornaram o convite de Deus para um tempo de contemplação e reflexão. Ele era um homem movido por desafios e com constante ímpeto para a ação – por isso, parece que somente em meio às adversidades ele encontrava tempo para redimensionar seu próprio coração. Assim, quando lemos as orações de Davi no livro de Salmos, percebemos um homem sondando sua própria alma e procurando perceber a ação de Deus em sua vida. Em situações de adversidades, dores e aflições, Davi se convencia de que seu Deus não o convidava constantemente a ir, correr e vencer; mas, em algumas ocasiões, o impelia a ficar onde estava, aquietar o coração e renovar sua alma.

Maria, irmã da superativa e dinâmica Marta, viveu uma situação diferente. Em sua vida, o tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se não é fruto de uma situação criada por Deus, mas de opções que precisava fazer. Cercada por gente constantemente voltada para a ação, que enxergava cada oportunidade como porta aberta pelo Senhor, cada demanda como um desafio do Espírito e cada conversa como visão de Deus, torna-se normalmente mais difícil encontrar espaço para aquela reflexão espiritual. Mas Maria rompe com seu ambiente, resiste às expectativas que as pessoas à sua volta tinham acerca de si e resolve sentar-se aos pés de Jesus para ouvi-lo. Jesus, por sua vez, encoraja a opção feita por Maria, demonstrando que na caminhada cristã há, sim, tempo de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se.

Mas o maior exemplo de que Deus nos convida a esses momentos encontra-se na própria vida de Jesus. Em seu curto ministério terreno, Cristo tinha um enorme desafio diante de si. As demandas eram inúmeras; as necessidades, infindas, e as frentes de trabalho, imensas. No entanto, vemos nos Evangelhos episódios em que o Filho de Deus sobe montes ou procura lugares desertos a fim de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se na presença do Pai. Apesar da pressão das multidões, ele afastava-se em submissão ao mover de Deus para um tempo de silêncio e descanso. No entanto, este não era um tempo de contraponto à sua missão – mas sim, um espaço integrante e essencial na mesma.

Durante uma manhã livre naquela viagem a Santiago, um querido e antigo amigo me levou para subir as cordilheiras até um lugar chamado Vale Nevado. Fomos e voltamos conversando sobre muitas coisas. Há muito tempo não tinhamos oportunidade de nos falar. No entanto, em meio às muitas palavras e diante de paisagens fantásticas, deparei-me com uma cena que me chamou a atenção. Do local, podiamos contemplar um enorme e fantástico monte coberto de neve. Seu aspecto era imponente e fascinante. Era impossível passar por ali sem admirá-lo. Mas ainda no mesmo foco de visão, bem mais próximo de nós, na margem da estrada, inúmeras árvores com seus galhos completamente secos contrastavam a imponência e fascínio da montanha branca.

Minha atenção ficou dividida entre as duas cenas contrastantes. Foi então que meu amigo, olhando para aquelas árvores, disse: “Interessante, não? Elas parecem mortas. Quem olha pensa que não resistiram ao inverno. No entanto, estão assim porque, percebendo o rigor da estação fria, concentram suas forças e energias no caule. As folhas caíram e os galhos secaram, mas toda a sua vitalidade encontra-se concentrada no caule. Para elas, agora não é o tempo de florescer, mas de resguardar-se para, no tempo certo, voltar a produzir folhas, flores e frutos. Este é o ciclo da vida.”

Ouvindo aquelas palavras e tendo os meus olhos fixos naquelas árvores, ouvi a resposta de Deus para a oração que havia feito antes de partir do Brasil. Nem sempre é hora de ir, correr e vencer. Existem tempos em que o Senhor nos convida a ficar em sua presença, e ali aquietar nossa mente e renovar nossa alma. Em meio a tantas coisas e situações que nos envolvem, precisamos ter a sensibilidade para perceber que o Senhor, por vezes, não deseja que façamos tudo ou aceitemos todos os desafios. Existe também o tempo em que seu mover nos convida a concentrarmos nossas forças e energias no que é essencial e imprescindível: a nossa relação com ele.

Às vezes, como acontecia na vida de Davi, Deus precisa criar desertos em nossa história para nos convencer desta verdade. Noutras situações, assim como o fez Maria, podemos exercitar nosso poder de decisão contra o meio que nos impele a constante atividade, optando por simplesmente quedar-nos aos pés de Cristo. Mas também podemos olhar para Jesus e perceber o convite para vivermos em maturidade, integrando este tempo como parte essencial e imprescindível da missão de Deus para as nossas vidas.

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* Ricardo Agreste – é pastor presbiteriano na igreja Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera

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O segredo do viver silencioso não se encontra tanto no fato de se estar ou não em um ambiente desprovido de sons, barulhos e ruídos.

A grande verdade é que podemos nos encontrar em lugares assim como por exemplo num bosque florido, arvorado, numa manhã em que as folhas das plantas ainda se encontram banhadas pelo orvalho da madrugada anterior, e ainda sim nosso coração estar ruidoso, agitado e oprimido pelas diversas vozes interiores da preocupação, ansiedade e exigências desta vida secular e material.

Oh! Como somos agitados e jogados de um lado para o outro por forças desumanas e desumanizantes que buscam roubar nossa paz. E como nossa alma necessita de uma âncora que nos permita ficarmos estáveis mesmo em meio as águas tumultuadas de nossa existência.

Por outro lado, é verdade inexorável que mesmo em meio ao aglomerado das multidões num centro metropolitano, que caminham no ritmo tirânico dos ponteiros de relógio, flageladas pelos verdugos de suas agendas superlotadas, que desferem seus golpes impiedosos sobre suas almas ao som estridente e altissonante das buzinas dos carros e sirenes de ambulâncias, podemos permanecer numa atitude e experiência de total silêncio interior e quietude de espírito. Voltando-nos para o nosso centro, o nosso EU verdadeiro, criado à imagem de Deus em Cristo, onde Seu Santo Espírito habita e fala conosco.

Talvez não consigamos sempre que desejamos calar e fazer cessar as vozes e ruídos exteriores. Pois, nas maioria das vezes os mesmos não dependem necessariamente de nós. Vivemos num mundo secularizado e barulhento. E desta realidade não podemos fugir. Pelo menos no que diz respeito a uma dimensão física.

Podemos sim, diante do barulho lá fora encontrar o silêncio cá dentro. Em nosso coração. É lá que deve habitar o grande silêncio e a profunda quietude. Mais reais do que quaisquer cessar de ruídos e distrações que este mundo pode nos proporcionar. Deveras um lugar secreto onde nos refugiamos e ficamos a sós com Deus.

Jesus em seu sermão do monte nos ensinou sobre a oração dizendo o seguinte:

“Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.6).

Podemos aplicar este texto numa conotação alegórica, não literal, e compreendermos esta experiência, esta sensação de quietude perene, como um aposento, um quarto secreto dentro de nós, que mesmo em meio ao corre-corre ruidoso de nosso cotidiano, podemos adentrar e permanecer secretamente na presença de Deus.

Pela graça de Cristo tenho podido em alguns momentos repousar neste quarto. Vou tentar descrevê-lo para você. Nele não há mobília: não tem mesas, nem poltronas, nem estantes. E porque seria necessário, visto não ter nada para se expor, nenhum mérito, nenhuma sabedoria prórpria, nenhuma ciência humana? Também não há nada para se guardar, nenhuma coisa que se deva reter. Já que neste aposento silencioso o que prevalece é o desprender-se e o desapegar-se de todas as coisas.

Ah! Lembrei-me. Para não dizer que não tem nada para enfeitar, existe presa na parede uma cruz. Rústica. Talhada em madeira. Não sei… mas, tenho a impressão que ela tem exatamente o meu tamanho.

Neste quarto também não há televisão, nem rádio. É que lá dentro não é permitido quaisquer tipos de distrações. Vozes, barulhos, imagens. Nada disso pode entrrar neste recinto. Janelas também não avisto. Com certeza é para que não entre nenhum Intruso que possa pertubar o que acontece lá dentro. Mas… espere um momento… pareceu-me ouvir uma Voz!

Além da cruz que mencionei, presa na parede, neste lugar secreto existem ainda duas cadeiras. Uma de frente para outra. Numa delas estou sentado. Na outra Aquele que se encontra comigo no secreto deste aposento. Eu não digo uma só palavra. Ele também não.

Apenas nos olhamos. Apenas ficamos sabendo que estamos ambos ali: um na presença do outro. Um saboreando em amor o outro. Um sendo arrebatado em desejos pelo outro. No silêncio desta mútua presença já se diz tudo e já se ouve tudo.

Fixado e atraído por seus olhos penetrantes, me pareceu ver, num relance, que no reflexo dos mesmos se encontrava escrito o porquê de todo o seu desejo de nos encontramos a sós naquele aposento. Tal desejo se soletra numa única palavra: A – M – O – R…

No silêncio deste quarto é que nosso Abba nos convida diariamente, constantemente e ininterruptamente para nos encontramos com ele no meio deste mundo turbulento. E é na perene habitação daquele e na secreta companhia deste que podemos desfrutar de paz, alegria e quietude, jamais imaginadas, em nossos corações.

PS: Ah! Esse quarto tem porta sim. Uma única porta. Com uma única massaneta. E esta fica pelo lado de dentro…

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Eu estava de saída para uma viagem a Santiago do Chile, a fim de participar de uma conferência com pastores e líderes locais. Ainda no aeroporto, aguardando o vôo, conversava com Deus sobre o meu momento de vida. Dentre muitas coisas, pedia ao Senhor sabedoria e orientação diante do cenário que me envolvia. Semanalmente, novas oportunidades surgiam diante de mim; novas demandas emergiam em minha agenda e novas conversas aqueciam meu coração para projetos aparentemente fascinantes.
Estava preocupado diante de tudo aquilo que acontecia. Sei que uma das razões que fazem com que homens e mulheres de Deus acabem por se perder, mesmo que bem intencionados em suas motivações iniciais, é a falta de uma clara percepção acerca do mover de Deus em suas vidas. Muitos passam a entender que toda oportunidade que surge é uma porta aberta pelo Senhor, ou que toda demanda que emerge é um desafio lançado pelo Espírito Santo. Há também aqueles para quem qualquer conversa que lhes aqueça o coração é uma visão de Deus que precisa ser assumida.
Para os que enxergam a vida nesta perspectiva, o mover de Deus acaba se confundindo com o empreendedorismo de nossos tempos ou com o anseio insaciável de nossas almas por sermos tidos como pessoas relevantes diante do mundo. Para gente assim, o mover de Deus sempre as convida para um tempo de ir, correr e vencer. Não existe a possibilidade de o Senhor chamá-las a um tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se. Por isso mesmo, querendo conquistar o mundo, acabam, infelizmente, perdendo a própria alma. Em meio às muitas oportunidades, demandas e desafios, confundem a ação do Senhor com as expectativas do meio ou com os anseios de seus próprios corações.
Na vida do rei Davi, os desertos se tornaram o convite de Deus para um tempo de contemplação e reflexão. Ele era um homem movido por desafios e com constante ímpeto para a ação – por isso, parece que somente em meio às adversidades ele encontrava tempo para redimensionar seu próprio coração. Assim, quando lemos as orações de Davi no livro de Salmos, percebemos um homem sondando sua própria alma e procurando perceber a ação de Deus em sua vida. Em situações de adversidades, dores e aflições, Davi se convencia de que seu Deus não o convidava constantemente a ir, correr e vencer; mas, em algumas ocasiões, o impelia a ficar onde estava, aquietar o coração e renovar sua alma.
Maria, irmã da superativa e dinâmica Marta, viveu uma situação diferente. Em sua vida, o tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se não é fruto de uma situação criada por Deus, mas de opções que precisava fazer. Cercada por gente constantemente voltada para a ação, que enxergava cada oportunidade como porta aberta pelo Senhor, cada demanda como um desafio do Espírito e cada conversa como visão de Deus, torna-se normalmente mais difícil encontrar espaço para aquela reflexão espiritual. Mas Maria rompe com seu ambiente, resiste às expectativas que as pessoas à sua volta tinham acerca de si e resolve sentar-se aos pés de Jesus para ouvi-lo. Jesus, por sua vez, encoraja a opção feita por Maria, demonstrando que na caminhada cristã há, sim, tempo de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se.
Mas o maior exemplo de que Deus nos convida a esses momentos encontra-se na própria vida de Jesus. Em seu curto ministério terreno, Cristo tinha um enorme desafio diante de si. As demandas eram inúmeras; as necessidades, infindas, e as frentes de trabalho, imensas. No entanto, vemos nos Evangelhos episódios em que o Filho de Deus sobe montes ou procura lugares desertos a fim de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se na presença do Pai. Apesar da pressão das multidões, ele afastava-se em submissão ao mover de Deus para um tempo de silêncio e descanso. No entanto, este não era um tempo de contraponto à sua missão – mas sim, um espaço integrante e essencial na mesma.
Durante uma manhã livre naquela viagem a Santiago, um querido e antigo amigo me levou para subir as cordilheiras até um lugar chamado Vale Nevado. Fomos e voltamos conversando sobre muitas coisas. Há muito tempo não tinhamos oportunidade de nos falar. No entanto, em meio às muitas palavras e diante de paisagens fantásticas, deparei-me com uma cena que me chamou a atenção. Do local, podiamos contemplar um enorme e fantástico monte coberto de neve. Seu aspecto era imponente e fascinante. Era impossível passar por ali sem admirá-lo. Mas ainda no mesmo foco de visão, bem mais próximo de nós, na margem da estrada, inúmeras árvores com seus galhos completamente secos contrastavam a imponência e fascínio da montanha branca.
Minha atenção ficou dividida entre as duas cenas contrastantes. Foi então que meu amigo, olhando para aquelas árvores, disse: “Interessante, não? Elas parecem mortas. Quem olha pensa que não resistiram ao inverno. No entanto, estão assim porque, percebendo o rigor da estação fria, concentram suas forças e energias no caule. As folhas caíram e os galhos secaram, mas toda a sua vitalidade encontra-se concentrada no caule. Para elas, agora não é o tempo de florescer, mas de resguardar-se para, no tempo certo, voltar a produzir folhas, flores e frutos. Este é o ciclo da vida.”
Ouvindo aquelas palavras e tendo os meus olhos fixos naquelas árvores, ouvi a resposta de Deus para a oração que havia feito antes de partir do Brasil. Nem sempre é hora de ir, correr e vencer. Existem tempos em que o Senhor nos convida a ficar em sua presença, e ali aquietar nossa mente e renovar nossa alma. Em meio a tantas coisas e situações que nos envolvem, precisamos ter a sensibilidade para perceber que o Senhor, por vezes, não deseja que façamos tudo ou aceitemos todos os desafios. Existe também o tempo em que seu mover nos convida a concentrarmos nossas forças e energias no que é essencial e imprescindível: a nossa relação com ele.
Às vezes, como acontecia na vida de Davi, Deus precisa criar desertos em nossa história para nos convencer desta verdade. Noutras situações, assim como o fez Maria, podemos exercitar nosso poder de decisão contra o meio que nos impele a constante atividade, optando por simplesmente quedar-nos aos pés de Cristo. Mas também podemos olhar para Jesus e perceber o convite para vivermos em maturidade, integrando este tempo como parte essencial e imprescindível da missão de Deus para as nossas vidas.

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Por Ricardo Agreste

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