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Posts Tagged ‘sagrado’

DIAS CORRIDOS

Há de se concordar que nossos dias têm sido marcados por um ritmo apressado de viver. Agendas superlotadas, horários apertados, papeladas entulhando nossas mesas de escritório caracterizam o homem chamado pós-moderno. Ao que nos parece, em algum momento, conseguiram convencer este mesmo homem que “viver” assim é sinônimo de sucesso e auto-realização pessoais. Contudo o que vemos, ao olhar no fundo dos olhos, denuncia uma verdade triste e ao mesmo tempo antagônica a este conceito popular de “vidas apressadas = sucesso”: famílias desestruturadas, casamentos desfeitos, pais que desconhecem à fundo seus filhos, filhos orfãos de pais vivos (pelo menos no que se refere à presença), estresse, doenças cardíacas, almas esquartejadas, humanidade diminuída. Será essa a melhor maneira de viver?

Estas pessoas simplesmente não param, não diminuem seu ritmo para observar que existe muito mais nesta vida do que contas bancárias, clientes, diplomas e ponteiros de relógio. Será que elas esqueceram que existe um pôr do sol a cada crespúsculo e que o céu nestas ocasiões assume um tom vermelho-alaranjado? Será que elas não sabem que ainda existem luas cheias que, com seu tom prateado, continuam inspirando casais apaixonados a recitarem juras de amor mútuo à beira de um lago? Será que elas já se esqueceram da inocência presente no sorriso desenteressado de uma criança? Não! Elas não esqueceram. Muito menos deixaram de saber estas coisas. A grande verdade é que elas não enxergam. Podem até ver, mas, não conseguem enxergar. E não conseguem enxergar porque não param para observar. Observar um mundo mais profundo, muito mais amplo, muito mais Sagrado. Um mundo cheio de possibilidades. Onde nossas almas recebem de volta sua inteireza ao mesmo tempo em que somos tocados e transformados.

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ENCONTROS COM O SAGRADO

Há momentos no decorrer de nossa existência em que nos parece que as antenas celestiais estão em plena sintonia com aquilo que é extraordinário. Captando as ondas da eternidade, levando-nos a contemplar um mundo maior do que o que vivemos no aqui e agora. É uma forte impressão de que existe algo a mais sob a superfície das coisas; uma espécie de intuição de que o que temos vivido não trata-se de tudo o que pode ser chamado de vida; um eco no nosso íntimo de que existe um nível de experiência que transcende as coisas no tempo e no espaço. E quando paramos para refletir percebemos um mundo ao nosso redor em oculto, onde aquilo que se vê, no fundo, não trata-se de tudo o que pode e deve ser enxergado.
Geralmente o extraordinário se esconde por detrás do ordinário. O infinito oculta-se sob o manto muita das vezes pouco atraente daquilo que é finito. São estes os momentos em que o que é sagrado nos é oferecido por meios naturalmente comuns: um arbusto queimando sem consumir-se; a rocha que serve de bebedouro em meio ao calor opressor do deserto; um por do sol que nos parece mais do que um simples fenômeno natural; o sorriso de uma criança que nos revela o sorriso cheio de compaixão de Alguém que nos ama incondicionalmente.
A bem da verdade, é que a vida está cheia destes momentos de percepção do Sagrado. Sagrado é tudo aquilo que é precioso para Deus. E quando nos é permitido perceber estas realidades, isso significa que tivemos um encontro com o próprio Deus, e nos unimos a Ele para admirarmos aquilo que lhe é aprazível.
Porém, quando consideramos este fato, começamos a perceber que tais momentos, infelizmente, são um tanto quanto raros em nossa caminhada espiritual. O sábio judeu Abraham Heschel afirmou:
“Há na vida de todo homem, momentos em que o véu que lhe cobre o horizonte é erguido, abrindo-lhe a visão da eternidade. Para alguns estes momentos são como estrelas cadentes, fugidias e despercebidas. Em outras pessoas eles ascendem uma luz que jamais se extingue.”
Em decorrência de nossa própria experiência particular, parece-nos que estas “outras pessoas” são melhores do que nós, ou se não, pelo menos especiais. Exatamente por nos parecerem privilegiadas em ter tais momentos divinos, sumamente raros aos demais mortais.
O que posso dizer é que estes mortais, como você e eu, são atenciosos e não se deixam levar pelas compulsões que esta sociedade nos impõe. São homens e mulheres comuns que, diminuindo seu ritmo de vida e, desobstruindo suas agendas, podem parar para observar e ouvir o que lhes é oferecido nos momentos de seu cotidiano. A este respeito Ken Gire afirma com discernimento: “Grande parte do que é sagrado permanece escondido atrás do ordinário, dos momentos cotidianos de nossa vida. Para enxergar o sagrado é necessário diminuir nosso ritmo de vida e refletir mais”. O grande problema é que não paramos, somos incapazes de estabelecer pausas em nossas agendas sempre abarrotadas de compromissos, para adentrarmos no silêncio e quietude recriadores dAquele que anela sussurrar sua doce voz aos nossos corações agitados. Acabamos por ficar escravos de nossa época hedonista que nos faz acreditar que dinheiro, prazer e poder é sinônimo de plena felicidade e de auto-realização humana. Pelo contrário, quanto mais nos submetemos a vivermos assim, mais abrimos mão de nossa humanidade e nos distanciamos do plano original de Deus para as nossas vidas. O plano de desfrutarmos uma existência imbuída de vida e significado.
Longe de mim ter a presunção de achar que não me enquadro, num momento ou noutro, nesta descrição que acabei de expor. Contudo, sou um lutador que, não satisfeito com que tenho, busca fugir da aridez desta existência superficial, rumo aos oásis de uma vida mais profunda e plena. E nesta batalha pela minha alma, Deus na sua infinita misericórdia, captou a minha atenção em alguns momentos, para que pudesse perceber o que me estava sendo oferecido, o que havia de celestial sob a superfície do terreno. Gostaria de compartilhar duas de minhas experiências como se segue. Nesta época eu ministrava perante o Senhor no distrito de Papucaia – cachoeiras de Macacu.

Noite de estrelas
Era uma noite quente de verão, quando de repente, nos vimos sem luz em nossa casa. O calor já começava a apertar e os mosquitos já iniciavam sua investida carnívora tentando sugar o que pudessem de nosso precioso sangue. Confesso que em circunstâncias como esta, pelo menos para mim, é um tanto quanto difícil permanecer com meus lábios santificados, sem que deles saia algum tipo de comentário crítico (curiosamente a Bíblia chama isso de murmuração). Decidi, portanto, sair de dentro de casa esperançoso de que do lado de fora, apesar dos mosquitos famintos, o clima estivesse mais fresco. E de fato o estava. Contudo, ao sair para a varanda, comecei a sentir que a razão de estar ali transcendia o desejo de um ambiente mais agradável. Percebi que Deus havia me levado para fora e quase que num impulso coercivo, fui levado a contemplar o céu daquela noite. Era de uma magnitude e esplendor que me é difícil de descrever. Ë o tipo de cena que as palavras são incapazes de traduzir. É algo para ser registrado no coração. Havia naquele céu uma quantidade e variedade de estrelas que mais se pareciam com diamantes expostos num mostruário de veludo negro. Naquele ponto eu estava dominado e anestesiado com tamanha glória que meus olhos presenciavam. Para mim, naquele momento, só existiam o céu estrelado e eu. Mais nada. Porém, apesar de tamanha beleza ímpar, pude perceber que havia algo além do que eu via. Foi então, que pude entender o que me era oferecido. Por ocasião da falta de luz, estrelas que sempre estiveram ali, mas que antes imperceptíveis aos meus olhos, agora eram-me reveladas em todo seu esplendor e majestade. Compreendi que fora necessário que todas aquelas luzes terrenas se ocultassem para que o brilho das estrelas ficasse evidente. Naquele momento de pausa e reflexão uma grande mensagem do alto me foi transmitida. A mensagem de que nesta vida existem mais realidades ocultas do que podemos imaginar. Que aquilo que podemos captar com os sentidos não é tudo o que nos é oferecido. Há um mundo de glória, riqueza e poder, cujos lampejos e ecos se estendem por toda a eternidade nos atingindo em cheio neste nosso mundo de aquis e agoras. O grande problema é que existem luzes a eclipsar o brilho singelo, mas não menos belo das gemas espirituais que a mão divina nos presenteia dia-a-dia. São preocupações desta vida, aflições, perturbações que roubam a nossa atenção, nos impedindo assim, de enxergarmos o que sempre esteve bem diante de nossos “olhos”. E em reverente silêncio pude adorar o Criador.

Vento Impetuoso
Uma tarde de domingo, se não me falha a memória. Só para variar mais uma tarde de forte calor, abafada, aqui na minha querida Papucaia. Neste lugar onde o Senhor me colocou para ministrar, experimentamos os extremos do clima. Quando faz calor é de fritar ovo no asfalto, mas quando é frio é frio mesmo, de rachar. Não havia nem uma leve brisa a soprar que pudesse trazer algum frescor a nossos corpos superaquecidos. Bem em frente de nossa casa existe um sítio o qual possui uma vasta vegetação: coqueiros, mangueiras, cajueiros, bananeiras etc. Não sei porque (depois o descobri) mas pus-me a olhar para aquele quadro natural diante de mim. Quando de repente um forte vento impetuoso soprou do nada, alterando por completo a inércia passiva do ambiente. Pareceu-me que a vegetação ganhara um tipo de vida que as permitiu bailarem como dançarinos no Teatro Municipal a apresentar o Quebra Nozes de Tchaikovsky. Árvores se envergavam, folhagens se entrecruzavam como se estivessem se dando as mãos para uma valsa celestial. Igualmente, de súbito, o vento parou e o quadro retornou ao seu estado original. Contudo, parei para ver e pude ouvir o que me era dito.
Percebi que a ação de Deus era semelhante àquela do vento na tarde abafada. Quando ele resolve agir as circunstâncias não permanecem as mesmas, tudo é alterado. E semelhantemente ao misterioso vento que do nada apareceu, e sem deixar pistas, foi-se embora, também não temos como dizer ou determinar a forma, a hora em que vai operar. Não é a toa que nas páginas do Novo testamento Deus é comparado ao vento que não se sabe de onde vem e nem para onde vai (Jo 3). Deus é soberano, e portanto, não pode ser confinado numa caixinha hermeticamente fechada de nossas tradições, costumes e dogmas religiosos. Ele é semelhante ao leão Aslam, das Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis, o qual não podia ser domesticado. Não obstante, era bondoso de coração. E assim é Deus, vento impetuoso, soberano no que diz respeito ao meio e momento de agir, contudo, é bom de coração. Extremamente bom, sem dúvidas!

Ansiando Por Mais Momentos Com o Sagrado
No mesmo instante em que escrevo estas palavras, oro para que Deus, em sua infinita misericórdia e graça, conceda-me mais experiências como as que relatei acima, em vista de as mesmas serem relativamente raras em minha caminhada cristã. Anseio em enxergar a sarça ardendo por causa da glória de Deus e, em reverente adoração tirar as sandálias dos pés ao invés de, displicentemente, me conformar em colher as amoras que se encontram caídas no chão.
Creio num mundo além do que os sentidos podem captar e que está à disposição de todos quantos tenham paixão suficiente para parar, observar, ver e ouvir o que está oculto por detrás do corriqueiro.
Não quero mais ser vítima do turbilhão de compromissos agendados que me dão a falsa impressão de ser bem sucedido nesta vida, enquanto, na realidade, estou abrindo mão de toda A Verdadeira Vida.
Desejo crescer, mergulhar mais profundamente, desejo transcender e alcançar níveis de vida mais plenos que permitam conectar-me com o mundo do ali e além. Preciso perceber a glória do invisível resplandecendo em todo o seu fulgor, refletida na imprevisibilidade do comum.
Isso é um dom, não uma peripécia intelectual. Na verdade pouco ou quase nada da razão é permitido adentrar neste mundo celestial de encantos. É terra santa, lugar sagrado, realidade de indelével fulgor que vai além de tempo e espaço. E eu quero tudo isso, e espero que você também o queira!
Novamente evoco as palavras sóbrias e cheias de clareza de Ken Gare, sábio mestre da vida interior de nossos dias:
“Mas também fez com que brotasse em mim uma determinação. De em ritmo mais lento, para enxergar as ocasiões em que tais momentos especiais se apresentam. De parar, respeitando-os. De responder a eles, para não passar pelos momentos especiais sem, de alguma forma, tocá-los, e ser tocados por eles. Deixei escapar muitos momentos especiais. Não quero perder mais nenhum deles. A vida é curta demais. E muito sagrada.”

Extremamente sagrada. Portanto, não quero, ao olhar para trás um dia, perceber que tudo não passou de casca!

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