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Posts Tagged ‘silêncio’

071214012555Quando falamos da disciplina do silêncio automaticamente somos confrontados com o grande desafio que é encarar nosso cotidiano extremamente barulhento e de ritmo cada vez mais frenético. Surgem-nos perguntas tais como: “Como encontrar tempo para praticar o silêncio?”; “Não seria o silêncio uma prática exclusivamente monástica, ou seja, para pessoas com um chamado específico para viverem em clausura?”; “Estar em silêncio só é possível num ambiente com total ausência de ruídos e distrações?” e etc.

Dúvidas assim que tendem a nos intimidar e às vezes até desanimar, surgem do fato de que encaramos o silêncio apenas na sua dimensão exterior. De modo que praticar o silêncio só é visto como a separação de tempo e lugar em que paramos, nos acalmamos e adentramos num estado meditativo de quietude e interiorização. Não restam dúvidas de que o silêncio tem este lado prático e devocional. No entanto, o que poderíamos dizer daqueles que não têm muito tempo ou não dispõem de oportunidades frequentes para experimentarem períodos (horas, dias, semanas, meses) de prática silenciosa, em solitude e tendo uma Bíblia aberta diante de si?

Apesar de acreditar que devemos lutar firmemente para abrirmos brechas em nossas agendas diárias para encontrarmo-nos com o Senhor em solitude, silêncio, meditação, oração e contemplação (Lectio Divina), jamais devemos nos esquecer de que o silêncio possui outra “face da moeda” que muitos de nós amantes da espiritualidade e mística cristãs acabamos por negligenciar, seja por desconhecimento ou esquecimento da mesma.

A tradição monástica, por mais surpreendente que possa parecer, ajuda-nos nesse sentido quando fala daquilo que poderíamos chamar de vida silenciosa, onde o silêncio, mais do que um momento de se colocar num lugar desprovido de barulhos, é considerado como uma atitude interior de recolhimento constante. Um voltar-se contínuo para o nosso centro divino, nosso “eu” interior, o santuário interno de nossa alma, em outras palavras, uma atitude de contínua atenção à Presença do Deus que nos habita através do Seu Espírito e que sempre está falando com cada um de nós. Os monges em seus escritos sempre tocam no assunto de se permanecer numa “cela” interior em meditação e oração incessantes mesmo durante as atividades do dia-a-dia (“Ora et Labora”).

Acerca dessa atitude de recolhimento interior silencioso, Anselm Grun escreve: “O silêncio é a atitude interior em que eu me abro para esta realidade do Deus que me envolve. Portanto ela é mais do que o não-falar” (As Exigências do Silêncio, págs.69,70). Por esse prisma o silêncio não é visto como uma realidade em conflito com as atividades do cotidiano, mas, como um espaço mais profundo no qual elas acontecem e do qual emergem e lhes empresta significado espiritual. Aqui silêncio é estar em atitude interior de recolhimento e atenção à presença de Deus que nos envolve por todos os lados enquanto cozinhamos, varremos o chão,  pegamos o ônibus para o trabalho, sentamo-nos em frente ao computador no nosso escritório e etc. Silêncio é estar em perpétua atitude de escuta para Deus.

Maria, mãe de nosso Senhor Jesus Cristo, nos é apresentada nas páginas dos evangelhos como mulher de vida silenciosa, em constante atitude meditativa de recolhimento interior em meio aos acontecimentos do cotidiano (cf. Lc 2:19).  Maria é o arquétipo da mulher silenciosa, ativa-contemplativa. E temos muito que aprender ao observar seu exemplo como alguém cuja vida de silêncio interior lhe permitiu acolher o mistério do Verbo de Deus segundo nos revela o evangelho.

O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da encarnação de Cristo . No Evangelho segundo S. Lucas no capítulo 2 verso 19 lemos acerca da atitude de Maria – “Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração”. Que coisas eram essas? O contexto imediato dos versos anteriores nos revelam (cf. vs. 16-18). Maria em atitude de meditação acolheu a revelação trazida pelos pastores acerca da criança que ela acabara de dar à luz. O glorioso mistério de que o infante envolto em panos comuns, nascido pobre, deitado numa manjedoura era o próprio Senhor e Cristo encarnado para a salvação dos pecadores (Lc 2:11). O Filho de Deus vindo em carne era ele mesmo o Evangelho, as boas-novas de grande alegria para todo o povo, inclusive ela, Maria. No silêncio de seu coração Maria pode contemplar a glória de Deus cumprindo as profecias da Antiga aliança, trazendo ao mundo o Messias prometido como Luz para dissipar as trevas do pecado, trazendo paz aos homens (Lc 2:14).

O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da Identidade de Cristo. Num outro texto Lucas menciona novamente a atitude de Maria frente à revelação do mistério divino – “Sua mãe, porém, guardava todas essas coisas em seu coração” (cf. Lc 2:51b). Que mistério foi esse que ela guardou em recolhimento interior e oração? O contexto dos versos anteriores (vs. 41-50) nos mostra que foi a revelação da identidade de Jesus com o Pai Celeste exposta nas suas próprias palavras – “Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?”(v.49). Mesmo não tendo compreendido naquele momento todas as implicações do que fora dito por seu jovem filho (v.50), Maria acolheu aquelas palavras “Jesus se diz filho do próprio Deus”. O acolhimento do mistério contido nas palavras de Jesus possibilitou no futuro Maria compreender que Jesus e o Pai eram um (cf. Jo 10:30; 14:9,10) e que como seu Senhor e Mestre ele não lhe devia mais obediência (Jo 2:3,4) e sim que deveria ser obedecido em tudo (Jo 2:5). No silencio interior do coração Maria intuiu que aquele judeu pré-adolescente não era só o filho do carpinteiro José, seu marido, mas antes de tudo o Unigênito do Pai.

E o silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da paixão de Cristo. Apesar de não encontramos a mesma fórmula dos pontos anteriores que nos falam de Maria guardando palavras e acontecimentos no coração em atitude de meditação, não podemos desprezar a presença dessa mesma atitude perante a crucificação – “Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã dela, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena” (Jo 19:25). Maria diante do corpo pregado na cruz não diz nada. Chora apenas. E contempla a Graça e o amor redentor de Deus sendo levado até as últimas consequências por cada um de nós, inclusive por ela mesma. No silêncio de seu coração contemplativo ela descobre aos pés da cruz que naquela paixão divina havia substituição (cf. Mt 27:46), havia perdão (cf. Lc 23:34) e havia redenção (cf. Jo 19:30).

O silêncio de Maria não era um silêncio alienado, desatento e inútil. Pelo contrário, era atento e profícuo. Não vemos Maria investindo grandes somas de tempo para a realização de retiros silenciosos e meditativos. Pelo menos as Escrituras não nos relatam nada a esse respeito. Ao passo que nos mostra uma mulher comum que vivia as nuances da vida cotidiana numa dimensão espiritual. E isso lhe era possível porque ela guardava todas as coisas meditando-as no seu coração.

Essa atitude interior silenciosa lhe permitiu acolher os grandes mistérios do advento, da encarnação e da paixão, bem como a apreensão do Sagrado que lhe era oferecido por detrás dos eventos ordinários de um dia (inclusive no bronquear com o filho de 12 anos que desaparece do nada!).

Que possamos seguir seu exemplo. Que nos esforcemos para cultivar momentos silenciosos devocionais para meditarmos e orarmos. Que o silêncio desses momentos nos acompanhe no decorrer do dia à medida que em meio às múltiplas atividades de nosso viver nos voltemos para nosso interior silencioso onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo, o Deus Eterno e Triúno, nos aguarda para que continuemos a desfrutar de íntima comunhão.

Se fizermos assim como Maria cada simples atividade será meditação; cada simples acontecimento oração; cada simples pensamento contemplação.

Que Deus nos abençoe!

Vosso servo e irmão menor,

Felipe Maia, OESI/OFSE

Paz e bem.

tau

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simplicidade-voluntariaIsabelle Ludovico*

Os Estados Unidos têm 6% da população mundial e consomem 33% dos recursos naturais. O desenvolvimento da China acelera o esgotamento dos recursos. O filme de Al Gore “Uma verdade inconveniente” demonstra com clareza a iminência de uma catástrofe de proporções planetárias. Diante da evidência de que a terra não agüenta nosso estilo de vida, tem surgido um movimento chamado Simplicidade Voluntária. Em 1981, o americano Duane Elgin escreveu o livro Simplicidade Voluntária – Em Busca de um Estilo de Vida Exteriormente Simples, mas Interiormente Rico.

Se o mundo prega uma nova ética humana que fala de fraternidade e comunhão, de solidariedade e compaixão para preservar o nosso futuro, o que dizer de nós, cristãos, que deveríamos estar à frente dessa proposta, como também do movimento ecológico? De fato, deveríamos estar cientes de que Deus nos confiou a terra para cuidarmos dela e não para depredá-la. Deus nos criou para que nos amássemos e não para usar as pessoas em nosso próprio benefício? Devemos começar confessando que nos tornamos coniventes com um sistema que produz injustiça social e consumo desenfreado de supérfluos, enquanto a maioria da população é privada do essencial.

Se estivéssemos mesmo conscientes de nossa identidade de filhos de Deus, não seríamos tão vulneráveis aos apelos de propagandas que nos induzem a pensar que nosso valor depende de bens materiais, sinais exteriores de riqueza e sucesso. Quem precisa investir tanto na aparência revela uma vida interior pobre e uma auto-estima inconsistente. Não podemos esquecer que o dinheiro “Mamon” é uma potestade e que precisamos escolher a quem vamos servir. O Reino de Deus está no coração daqueles que reconhecem Cristo como Rei e vivem segundo os seus valores. É impossível estar em paz com esses dois mundos tão antagônicos. O caminho do discipulado é estreito e na contramão do sistema no qual estamos inseridos.

Viver voluntariamente de maneira mais simples significa escolher uma vida mais despojada exteriormente e mais abundante interiormente. É tirar o excesso de peso da bagagem para tornar a viagem por esse mundo mais leve e prazerosa. Significa priorizar a qualidade de vida que não depende de recursos materiais, mas de paz e de vínculos significativos. Nosso tempo, sim, é muito precioso para ser desperdiçado em shoppings e na frente da TV. É preciso priorizar o essencial em detrimento das exigências de nossa sociedade capitalista.

Simplicidade Voluntária é um caminho, um processo de libertação do sistema materialista, onde tudo tem o seu preço, para viver no Reino, onde tudo é fruto da graça! Precisamos aprender, e ensinar os nossos filhos, a rir das propagandas que querem nos empurrar produtos como se deles dependesse a nossa felicidade.

Desfrutar da presença de Deus no silêncio e na solitude nos abastece emocionalmente e nos capacita a resistir às armadilhas do mundo. Evite comprar por impulso. Resgate a criança que há em você, brincando com seus filhos sem compromisso com desempenho, mas apenas pelo prazer do jogo, de preferência não competitivo. Use seu tempo livre para um trabalho voluntário, promovendo e potencializando as pessoas marginalizadas, sendo voz dos que não são ouvidos e nem mesmo vistos.

Simplicidade rima com utilidade, durabilidade e beleza. Não é um fim em si mesmo, mas um meio coerente com o Evangelho de abrir mão de despesas supérfluas para beneficiar generosamente aqueles que são privados de condições dignas de vida. É um compromisso com a justiça que visa a promoção do ser humano e não apenas uma ajuda assistencialista. Não se trata apenas de economizar e reciclar para garantir a sobrevivência do planeta, mas de construir uma sociedade mais fraterna e inclusiva, onde todos são valorizados e têm suas necessidades básicas supridas.

Quanto mais a gente se doa a partir da experiência íntima do amor de Deus, mais a gente recebe amor, alegria e paz. As pessoas mais generosas são as mais realizadas, enquanto as mais egoístas são geralmente frustradas e infelizes. Quem estende os braços ao próximo integra uma fraternidade que forma uma rede de solidariedade e representa o Corpo de Cristo até que Ele volte. É sal e luz num mundo que jaz no maligno.

tau

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“De madrugada, ainda bem escuro, Jesus levantou-se, saiu e foi a um lugar deserto; e ali começou a orar” (Mc 1:35)                                                                                 

De umas épocas para cá ( e já faz muito tempo) a espiritualidade cristã tem tido um medidor de temperatura no mínimo estranho ao padrão que encontramos nas Escrituras. Há tempos que a qualidade da vida espiritual, sua profundidade e calor é determinado, segundo o entendimento equivocado de alguns, pelo que os cristão fazem para Deus seja através da igreja ou não. 

Sendo assim a quantidade de culto a que vamos, o número de ministérios e atividades as quais desenvolvemos tornam-se o padrão para se determinar se estamos bem com Deus, se nossa vida espiritual está em dia.
E quando investigamos a espiritualidade de Jesus, se não a olharmos com acurada atenção, acabamos achando que seu estilo de vida corrobora essa espiritualidade ativista, consumista e hedonista que tem engolido a vida e a alegria de grande parte dos filhos de Deus que a tem experienciado. A maioria dos cristão chega ao final de sua carreira cansados, exauridos e não muito raro, frustrados e decepcionados. Por que será?
Não podemos negar que a “agenda” do Senhor era bem utilizada: desde expulsar espíritos imundos até uma conversa com uma mulher samaritana à beira de um poço, faziam parte de seu ministério diário.
No entanto o texto no início dessa reflexão nos mostra claramente que antes de um dia cansativo de atividades ministeriais, o Senhor estabelecia para sua vida aquilo que podemos chamar de “momentos sabáticos” para estar em amizade íntima com o Pai. Jesus diariamente separava tempo para estabelecer pausas na sua agenda e contemplar em silêncio e solitude no ermo, o rosto amável e amoroso de seu Abba. 
Tudo o mais que Jesus fazia, sua vida como um todo, orbitava em torno desses momentos. Ganhava profundidade, significado e uma nova dimensão a partir desse encontros íntimos com Deus em oração e contemplação. Para nosso Senhor estar com o Rei era prioridade diante do que ele tinha que fazer para o Rei. Certa feita, Jesus disse que ele não fazia nada por si mesmo, mas, somente o que ele via o Pai fazendo. Como que Jesus obtia esse discernimento espiritual para poder enxergar o Pai agindo? Na sua intimidade de oração, meditação e contemplação em silêncio e solitude com Deus.
Sendo assim, se desejamos imitar a vida de Cristo, se desejamos ver sua imagem refletida em nós e se queremos verdadeiramente experimentar uma espiritualidade saudável nossos dias precisam ter na sua primazia nosso “momento sabático”. É imprescindível aprendermos a estabelecer pausas, puxar o freio de mão, pisar fundo no breque e diminuir nosso ritmo para encontramos tempo para o silêncio, a solitude, a oração, a meditação e a contemplação apaixonada e fascinada da face daquele que nos amou e nos ama com amor eterno. 
Espiritualidade e atividade. Contemplação e ação. Maria e Marta. Na verdade não são realidades mutuamente excludentes. São complementares. São irmãs e por isso precisam caminhar juntas pela vereda fascinante do Reino. Encontrar o equilíbrio entre elas é o grande desafio de uma espiritualidade bíblica, cristã, madura e saudável.
Que tal apertar o botão de pausa?

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Estava um certo homem deitado no sofá de sua sala assistindo a um filme na televisão. Como o mesmo não estava conseguindo prender sua atenção, ele dormiu profundamente e passou a sonhar sonhos de Deus. E um deles foi assim compartilhado comigo:

Estava eu caminhando por uma estrada deserta, poeirenta  quando deparei-me com um lindo jardim em flor de primavera na beira do caminho. Nele existia uma riqueza de detalhes que enebriava de profunda alegria a quem o observasse. Margaridas, rosas de várias cores, copos de leite, cravos, lírios e muitas outras plantas compunham aquela paisagem de beleza multifacetada. Pensei comigo: “O Jardineiro que cuida desse jardim deve ser alguém muito zeloso e caprichoso”. Ainda podia divisar samambaias e árvores frutíferas de várias espécies e um rio de águas límpidas que atravessava bem no meio daquele local. Pus-me a me perguntar meio que atordoado com tudo aquilo ao meu redor: “O que pode significar um jardim tão bonito como esse num lugar tão inóspito?”

Ainda estava a me questionar quando ouvi uma voz que ao mesmo tempo em que era doce e suave, parecia com o rugir de centenas de trovões. Acho que era a voz do próprio Jardineiro. E a voz me disse: “Esse jardim representa as Sagradas Escrituras que Deus concedeu à humanidade para que lhe seja luz e lâmpada que lhe indique o caminha da salvação”. E é verdade, oh Senhor Bendito de toda glória! Não são elas uma carta de amor de um Deus que simplesmente ama porque decidiu assim fazê-lo? E não são suas as verdades multifacetadas a alegrar o coração dos homens e a edificar os crentes e a revelar a vereda para a redenção da alma? E suas verdades não são semelhantes ao fruto maduro e doce a impregnar de sumo a boca de quem o prova ?

Comecei a caminhar por aquele lindo jardim de belezas e delícias insondáveis. Eu não tinha pressa alguma. Caminhava lentamente, passo à passo olhando e observando tamanhos, formas e cores de tudo o que brotava do solo daquele lugar paradisíaco. Rosas vermelhas e brancas. Violetas. Margaridas amarelas. Copos-de-Leite brancos como a neve. Árvores pequenas, árvores grandes. Frutos pequenos e frutos grandes. Uma riqueza de detalhes que palavras não poderiam expressar satisfatoriamente. Num dado momento, percebi em meio àquela vastidão uma linda rosa que chamou a minha atenção pela sua beleza singela, sua textura aveludada, cor viva e delicioso perfume. Parei diante dela abaixei-me e a colhi com cuidado e reverência. E disse em seguida: “De todas as flores que vi e apreciei, essa rosa verdadeiramente foi feita para minha alegria.” De repente, como que do nada ouvi novamente a voz do Jardineiro à perguntar-me: “Você sabe o que significa esse passeio sem pressa e atento a todas as belezas e riquezas do meu jardim?” Eu lhe respondi: “Não Senhor, Tu o sabes!” E ele complementou: “Esse caminhar sem pressa, silencioso e atento é a meditação sobre as minhas Escrituras. E a rosa que colheste é a Palavra que separei e direcionei para sua vida”. Ah, Amado Senhor! E não é assim mesmo que, ao lermos sem pressa  em em amorosa e silenciosa atenção, num dado momento nossa atenção é chamada a uma frase, expressão ou palavra da Sacratíssima Escritura? O que antes era apenas um texto sagrado passa a ser a nossa Palavra pessoal. A Palavra do nosso Deus para as nossas vidas.

Enquanto ainda olhava atentamente para a minha rosa que havia colhido do jardim, eis que sem o perceber o Jardineiro se aproxima de mim. Olhei nos seus olhos e foi como se me perdesse nas profundezas de um vasto oceano. Oceano de bondade, esperança, misericórdia e amor. Ele sorriu para mim. E o seu sorriso se alastrou pelo meu peito como um incêndio a consumir uma floresta de folhas secas. Naquele momento, sem entender muito bem o que se passava, comecei a chorar e a gradecer ao gracioso jardineiro por ter cultivado e cuidado de tão bela espécime de flor. Exaltei sua criatividade e cuidado para com aquela rosa. E acima de tudo pelo fato de que agora compreendia que a mesma não fora destinada para qualquer outra pessoa a não ser para mim. E ele com muita alegria no rosto me perguntou: ‘Sabe o que você está fazendo?’ ‘Não!’ Eu lhe respondi. ‘Você está orando. E sua oração é uma resposta espontânea à beleza e gratuidade da rosa que você colheu no meu jardim’. É verdade Benigníssimo Senhor! A Palavra que nos dá na meditação de Tuas Sagradas Letras fazem brotar do nosso interior o mover da alma que chamamos de oração. E em  alguns momentos as riquezas de sua graça e compaixão nos levam a louvarmos Seu Santo nome. A rendermos graças e glórias ao Rei de nossas vidas. Mas em outras ocasiões nossos pecados fazem com que os espinhos de nossa rosa nos firam. Feridas de amor que nos convidam à confissão e ao arrependimento. E aí somos curados e restaurados por Ti. Oh, Pai das misericórdias e Deus de toda a compaixão!

Quando terminei de falar, tendo ainda a rosa em minha mão, o Jardineiro virou-se e começou a caminhar para longe de mim. Sem perder tempo corri o mais rápido que pude em sua direção até alcançá-lo.  Ao perceber-me próximo de si, virou-se e disse: ‘ o que você quer meu filho?’  Sem hesitar por um momento lhe direcionei as seguintes palavras: ‘Senhor, e a contemplação, não tens nada a dizer? No seu jardim já descobri as Escrituras, a meditação e a oração, mas, e quanto à obra da contemplação, o que vem a ser ela?’ Ele abriu um largo sorriso e me respondeu o seguinte: ‘Sabe a rosa que tens na mão? Cheire-a. Desfrute do seu perfume. Saboreie sua fragrância, sem pressa, em silêncio. Não precisa fazer nada. Seja apenas você. Esteja plenamente presente, imbuído e arrebatado pela doçura desse perfume. Isso meu querido, isso é contemplação.’ Senhor, pela tua soberana misericórdia ensina-nos a romper com a tirania do ter e do fazer. Ao paço em que nos ensina a graça de simplesmente ser e estar. Ajuda-nos a silenciar as vozes do nosso interior que clamam de dia e de noite por nossa atenção, sufocando assim os Teu doces sussurros em nossa alma. Capacita-nos a adentrar no Grande Silêncio da Presença que envolve a tudo e a todos.

Foi então que despertei e vi que tudo aquilo não tinha passado de um sonho. E que sonho maravilhoso!  De repente ocorreu-me algo que ainda não tinha feito naquele dia. Corri para a estante de livros, peguei minha velha amiga, a Bíblia, e fui para o quarto secreto onde meu Pai que me vê em secreto estava me aguardando. 

Boa noite a todos!

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Começo hoje a compartilhar uma série de textos objetivos acerca da FORMAÇÃO ESPIRITUAL. Busco demonstrar à luz das Escrituras que as múltiplas dimensões da espiritualidade que Jesus viveu formam um convite amplo para a imitação de sua vida. É necessário dizer que tudo o que será compartilhado a partir desse primeiro texto encontra-se debaixo de um contexto cristão. Ou seja, subtende-se que o estilo de vida e as práticas devam acontecer debaixo de uma realidade caracterizada por uma relação filial com Deus que nos é concedida  mediante a experiência salvífica e regenerativa com o Evangelho de Cristo, logo, com o próprio Cristo vivo e pessoal. 

Todos os textos dentro dessa série na verdade surgiram originalmente como uma série de mensagens que preguei em minha comunidade espiritual (igreja) e que recebeu o título de “As Seis Tradições da Espiritualidade Cristã e a Vida de Cristo”. Logo, o que estrei postando é uma adaptação da mesma. 

Espero sinceramente que os simples textos alicerçados no fundamento imutável das Escrituras possam estimular cada leitor a uma séria reflexão e ajustes necessários para que em cada filho e filha de Deus se cumpra o preceito registrado em 1Jo 2:6 – “Aquele que diz estar nele deve ANDAR como Ele ANDOU”. Um convite à vida. E que o Eterno nos abençoe nesse propósito. Amém!

JESUS O HOMEM CONTEMPLATIVO

Existe uma palavra chave que define a tradição contemplativa de espiritualidade. E essa palavra é “intimidade”. E podemos ver que a Bíblia é clara e pródiga em nos convidar ao crescimento e aprofundamento na intimidade com Deus.Quando olhamos com atenção para a vida de nosso Senhor Jesus Cristo nenhum aspecto é mais marcante do que exatamente sua intimidade com o Pai.

Algumas afirmações de Jesus no evangelho de João mostram bem essa intimidade. Por exemplo, em Jo 5:19 Jesus fala acerca de seu ministério – “Eu lhes digo verdadeiramente que o Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer, porque o que o Pai faz o Filho também faz”.Continuando sua explanação no verso 30 o Senhor declara – “Por mim mesmo, nada posso fazer; eu julgo apenas conforme ouço, e o meu julgamento é justo, pois não procuro agradar a mim mesmo, mas àquele que me enviou”.

No capítulo 14:10 encontramos as seguintes palavras do Senhor acerca de sua pregação – “As palavras que eu lhes digo não são apenas minhas. Ao contrário, o Pai, que vive em mim, está realizando sua obra”. E acredito que nenhum outro texto exprime mais a intimidade entre Jesus e o Pai do que o de Mt 11:27 – “e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.

A redescoberta da tradição contemplativa por parte de uma parcela do povo de Deus tem trazido uma grande contribuição para a formação espiritual cristã. E dentre os vários tesouros redescobertos, as disciplinas espirituais ocupam uma posição especial. E dentre elas, a oração tem um grande destaque. A tradição contemplativa também pode ser definida como a vida plena, embriagada, transbordante de oração.

Quando olhamos para Jesus percebemos que oração e vida não era uma realidade dicotômica na vida de Jesus. Orar e viver, viver e orar para Cristo era a mesma coisa. A oração e a vida de Jesus estavam entrelaçadas como os fios se entrelaçam para formar uma peça de vestuário. Nós vemos em Lc 3:21 que quando Jesus foi batizado por João ele “estava orando”. Também vemos que por ocasião da escolha dos doze apóstolos, Jesus foi sozinho para um monte e “passou a noite orando a Deus” (Lc 6:12).

Depois de uma tarde exaustiva em que ele curou a muitos expulsando demônios, Marcos nos relata que Jesus levantou-se “de madrugada, quando ainda estava escuro (…)” e “foi para um lugar deserto, onde ficou orando” (Mc 1:34,35).

E muitas e muitas outras passagens nos mostram a centralidade da oração na vida e ministério de Jesus. Por exemplo, ele estava orando quando perguntou: “Quem vocês dizem que eu sou?” (Lc 9:18-20). No monte onde ele se transfigurou, a Bíblia diz que ele pegou Pedro, Tiago e João e os levou “para orar” (Lc 9:28,29). E quando os discípulos não puderam expulsar o demônio de um menino, Jesus explicou o fracasso deles com as seguintes palavras – “Essa espécie só sai pela oração” (Mc 9:29).

Jesus não apenas orou como também ensinou seus discípulos a orar. A vida de Cristo foi uma escola de oração. Ele ensinou seus discípulos a se achegarem a Deus de um modo mais íntimo dizendo “Aba, Pai” (Mc 14:36). Ele os ensinou a orar no quarto “em secreto” (Mt 6:6).

Ele ensinou através de parábola acerca do dever de orar sempre e nunca desanimar (Lc 18:1). Ensinou também a crer que vai acontecer aquilo que pediram em oração (Mc 11:23).  E muito mais.

Outras duas disciplinas espirituais presentes na vida de Jesus que acompanhavam a oração eram a solitude e o silêncio. Porque uma não existe sem a outra. A figura do deserto ou de lugares desertos nos traz o deslumbre dessa faceta da espiritualidade de nosso Senhor. Por exemplo, em Mt 4:1 as Escrituras nos dizem que –  “Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo”. E lá permaneceu por quarenta dias e quarenta noites.

Depois de saber da morte de João Batista a Bíblia diz que o Senhor “retirou-se (…) em particular, para um lugar deserto” (Mt 14:13).
As Escrituras também relatam que após alimentar aquela grande multidão multiplicando cinco pães e dois peixinhos, Jesus imediatamente “subiu sozinho a um monte para orar” (Mt 14:23).

Quando os discípulos estavam exaustos por causa do ritmo do ministério Jesus fez o convite – “Venham comigo para um lugar deserto e descansem um pouco” (Mc 6:31). E Lucas se referindo a uma prática habitual de Jesus escreve as seguintes palavras – “retirava-se para lugares solitários, e orava” (Lc 5:16).

E muitas outras disciplinas espirituais vemos presentes na vida do Senhor: o jejum por exemplo. Em Mt 4:2 na solidão e silêncio do deserto é-nos dito que – “depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome”.  E diante da negativa de Jesus aos seus discípulos pelo convite para que ele se alimentasse foi dito – “tenho algo para comer que vocês não conhecem (…) a minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra” (Jo 4:32,34).

Muitas outras disciplinas como o segredo, a simplicidade, a comunhão, a celebração, a meditação, a frugalidade estavam presentes na vida e ministério de Jesus. Só que a palavra de hoje não nos dá espaço para olharmos de perto cada uma delas.
No entanto, acredito que o que foi compartilhado hoje já nos dá uma ideia inequívoca de que Jesus era um homem cuja vida era impregnada por hábitos espirituais. Jesus verdadeiramente era um homem que tinha intimidade com o Pai. Jesus era um homem de vida contemplativa. Amém?
 
CONCLUSÃO E APLICAÇÃO

Gostaria de finalizar essa breve exposição aplicando o seu conteúdo às nossas vidas. Se desejamos viver esse aspecto da vida de nosso Senhor devemos refletir em algumas perguntas:

(1) Nesse exato momento de sua vida, qual é o grau de intimidade que você desfruta com Deus?

(2) Você pode afirmar com toda certeza que seu relacionamento com Deus tem sido uma realidade crescente e não estagnada?

(3) Qual o lugar que a oração e as outras disciplinas espirituais ocupam na sua vida?

(4) Você tem conseguido desacelerar seu ritmo de vida para reservar momentos a sós com Deus?

Que Deus nos ajude nessa reflexão e nos ajustes que precisarmos fazer afim de que possamos experimentar essa dimensão da espiritualidade de nosso Senhor. Amém! 

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O Senhor Jesus Cristo convida o povo santo e justificado por Seu sangue a adentrar no descanso de Sua presença constante e pessoal. Ele mesmo disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”. Antes de ser um estado emocional, essa paz é uma realidade interior, uma experiência, que pertence a todos quantos encontram-se em relação filial com o Pai. Ao longo dos séculos da história da espiritualidade cristã, essa realidade do Eu mais profundo, espiritual, criado em Cristo Jesus para viver em novidade de vida, foi transmitida na forma de uma disciplina espiritual que conhecemos como silêncio. São diversos os textos nas Escrituras Sagradas que nos chamam para o retorno à serenidade, quietude e silêncio da alma. Passagens como Sl 46:10,  Sl 116:7 e Lm 3:26 são alguns exemplos desse chamado interior.

Já se vão mais de cinco anos que tenho estudado, ensinado e praticado a via mística da vida cristã. Em meio ao corre corre do cotidiano, com suas múltiplas exigências que clamam por minha atenção, a luta para se auto-disciplinar no que diz respeito à fomentação de uma vida espiritual profunda, tem se constituído num grande desafio para mim. Desafio igualmente difícil tem sido explicar para outros cristãos o que é e a importância das disciplinas espirituais. Muitos não as compreendem. Acham que são práticas inúteis que não possuem qualquer relevância para a vida cristã. Esse tipo de opinião tem origem na falta de entendimento de que nosso corpo tem participação fundamental no desenvolvimento da espiritualidade. Esquecem que não somos apenas alma e espírito, mas, corpo também. Contudo, mesmo após a conversão esse corpo, antes escravo do pecado, permanece “viciado” no pecado pelos anos de hábitos e práticas contrárias aos valores do Reino. Logo, faz-se necessário o “treinamento” do corpo como nova habitação do Espírito Santo. Daí vem a importância das disciplinas espirituais.

Quando buscamos descrever a realidade dessas práticas, sua essência e natureza, surge-nos um outro desafio ainda maior. Como descrever em termos concretos algo que eminentemente é uma experiência da dimensão de nossa interioridade? Somente a linguagem mística, ou seja, alegórica, rica em figuras e imagens, pode nos ajudar a ilustrar e elucidar verdades tão profundas. Tendo isso em mente, comecei a pensar em qual figura poderia descrever de forma mais clara possível a experiência interior do silêncio. Já havia usado diversas ilustrações: um santuário; um quarto. No entanto, nenhuma delas me pareceu atingir o objetivo. Até que Deus trouxe a minha mente uma imagem: a de uma gruta interior, dessas que tem formações rochosas interessantes, estalagmites e estalactites esplendorosas. E em algumas até encontramos uma concentração de água que formam uma espécie de lagoa. 

O que me chamou a atenção é que enquanto eu “observava” a lagoa no interior da gruta: silenciosa, serena, tranquila, cujas águas poderiam muito bem ser confundidas com um espelho se alguém decidisse fitá-las, uma grande tempestade acontecia no exterior, na superfície, do lado de fora da gruta. Árvores se chacoalhando, galhos estalando ao quebrar, o vento uivante, folhas esvoaçando em todas as direções, trovões e relâmpagos. Tudo isso se contrastava com a paz  que a lagoa no interior daquela gruta desfrutava. Enquanto por ocasião da tempestade do lado de fora o ambiente caracterizava-se por desordem, agitação e ruído, do lado de dentro a gruta com sua lagoa formava um quadro de profunda harmonia e quietude. Definitivamente a tempestade no exterior não abalava em nada as águas calmas da lagoa interior.

Acredito que essa imagem retrata com perfeição o que queremos transmitir quando nos referimos ao silêncio. Acima de tudo ele se apresenta mais como uma experiência interior do que como uma realidade física: ausência de palavras e sons. Os que verdadeiramente compreendem o silêncio como realidade interior sabem, porque assim tem experimentado, que você pode estar em profundo silêncio mesmo em meio à multidão e ao barulho. A grande verdade é que o silêncio é uma atitude interior de recolhimento  em Deus, que nos traz paz e serenidade. Talvez a palavra silêncio por si só não faça jus à completude da experiência que estamos tratando. Acredito que “quietude” expressa melhor nosso propósito aqui.

Quietude caracterizava o estado da lagoa no interior da gruta, enquanto na superfície tudo o mais estava um caos. Essa também pode ser a nossa experiência: mesmo quando tudo ao nosso redor (o mundo, o exterior, a vida em si) estiver nos convidando à inquietação e ansiedade, à pressa e à compulsão, nós simplesmente podemos retornar ao “local”  silencioso de nossa “lagoa” onde suas águas tranquilas refletem nossa verdadeira imagem: não a que o mundo tenta nos imprimir. Mas, a que o próprio Deus criou à sua própria semelhança em Cristo Jesus.   E isso vai independer se nos encontramos em meio ao conglomerado humano no centro de uma grande metrópole ou num retiro espiritual silencioso. A gruta sempre estará lá e as águas tranquilas de sua lagoa também. Á nossa espera, sussurrando o nosso nome. Basta que nos lembremos disso e nos voltemos para dentro de nós onde Deus habita e nos espera de braços abertos para nos acolher em seu silêncio restaurador. 

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Não podemos negar que a palavra “renovação” nos dias de hoje, inserida no contexto da vida da Igreja, tornou-se numa espécie de cinderela antes da fada madrinha: desgastada, esfarrapada e morando no porão de uma casa. É bom deixar logo de início esclarecido que a prefiro num lindo vestido de festas, calçando um sapatinho de cristal, do que nas condições em que se encontra atualmente. Também faz-se necessário informar que a leitura e a contra-leitura desta triste situação em que a palavra “renovação” se encontra nos nossos dias, faço a partir da ótica de muitas pessoas que se denominam membros da ala mais conservadora do segmento cristão.

Para alguns a simples menção do termo renovação já é o suficiente para causar arrepios na espinha e testas franzidas. Por outro lado, há os que anseiam por renovação; os que buscam por renovação nas suas vidas espirituais; os que desertam de sua igreja e/ou denominação porque ouviram falar que naquela outra o povo é mais “renovado”. Enfim…

Não querendo entrar no mérito da questão, de qual grupo está certo ou errado, uma coisa precisa ser considerada com muita sinceridade: será que ambas as alas compreendem ao certo o que significa renovação no contexto de igreja? Será mesmo que estas pessoas sabem do que estão falando? Será que conhecem, verdadeiramente, o que tanto desejam (ou o que tanto repudiam)? Resumindo, o que é, afinal de contas, renovação no contexto de vida espiritual e de igreja?

EM BUSCA DO SIGNIFICADO

Para início de conversa o substantivo “renovação” aparece na Bíblia em dois textos: Romanos 12:2 e Tito 3:5. Em ambos ela compreende a tradução do termo grego anakainõsis. Nas palavras de Rm 12:2 nossa palavra aparece no seguinte contexto:

“E não vos amoldeis ao esquema deste mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”

Aqui, como nos fica claro, renovação assume o significado de um ajuste da visão, tanto moral quanto espiritual, de uma pessoa segundo o padrão de Deus. E isso tem um efeito designado de transformar a vida daquele que sofre tal processo.

Já em Tito 3:5 lemos o seguinte:

“Não por méritos de atos de justiça que houvéssemos praticado, mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar da regeneração e da renovação realizados pelo Espírito Santo“

Nessa passagem somos informados de que mediante a obra do Espírito Santo, Deus nos conduz a uma renovação espiritual que carcateriza-se pelo novo nascimento em Cristo Jesus, sem que para isso seja necessário a prática de obras.

Diante disso tudo, podemos concluir que biblicamente a renovação tem duas aplicações distintas. Num primeiro momento é obra exclusiva do Espírito Santo que chama o pecador ao arrependimento; o conduz a Cristo, lhe outorgando, assim, vida espiritual.

Por outro lado, renovação depende também de nossa resposta ao mover do Espírito em nossa vida que intenta nos trazer constantemente um avivamento do seu poder, desenvolvendo desta forma a vida cristã.

De um jeito ou de outro a renovação significa vida. Vida em nós. Vida de Deus acontecendo em nós e através de nós. Vida que vem de Deus alcançando outras vidas atavés da nossa vida.

RIOS CAUDALOSOS DO ESPÍRITO

Este mover do Espírito de Deus, concedendo-nos renovo espiritual constante, é caracterizado nas Escrituras com um rio que flui de nosso interior. Um rio de água viva que sacia, de uma vez por todas, a nossa sede pelo Sagrado e pelo transcendente.

Vejamos isso nas palavras de nosso próprio Senhor:

“No último dia da festa, o dia mais importante, Jesus se colocou em pé e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Como diz a Escritura, rios de água viva correrão do interior de quem crê em mim”(Jo 7:37, 38)

Logo em seguida, o escritor sacro esclarece do que se trataria este rio de água viva:

“Ele disse isso referindo-se ao Espírito Santo que os que nele cressem haveriam de receber” (v.39)

Nossa história e a da cristandade pelos séculos de sua existência, confirmam a veracidade desta promessa feita pelo Senhor aos que cressem no Seu Nome. O mover do Santo Espírito; o rio de água viva que tem corrido do interior dos santos em Cristo, permeia a linha histórica como movimentos espirituais de renovação, os quais foram responsáveis pelo avivamento do poder espiritual, antes desgastado, do povo de Deus.

Em determinados momentos Deus visitou seu povo resgatando-o da frieza e do erro espirituais e conduzindo-o a uma dimensão mais profunda da vida no seguimento de Cristo, bem como de seus consequentes desdobramentos no testemunho perante o mundo. Após uma geração de fecundidade interior, seguia-se um período de aridez que era interrompido por um derramamento do Espírito que lhe devolvia novamente o viço. Um retorno ao primeiro amor. Um reacender da chama que havia se reduzido a mera fagulha.

É importante sublinhar aqui que estes movimentos de renovação na histótria da igreja acontecram separados um do outro. Valendo da analogia com nosso texto bíblico tratou-se, numa visão do todo, de um delta de seis braços levando a vida de Deus. Ao cessar um derramamento Deus levantava um novo para lembrar seu povo que a caminhada rumo à sua presença trata-se de uma realidade multifacetada; multidimensional.

Agora, o que aconteceria se ao invés de um grande delta de seis braços, um grande rio, caudaloso, expesso, contendo no seu fluxo a água viva do Espírito Santo atingindo a vida cristã nas suas seis dimensões, fluísse livremente na vida de todo cristão e consequentemente da Igreja? O que aconteceria se numa visão holítica da vida espiritual , estes seis movimentos históricos de Deus estivessem presentes e operantes, ao mesmo tempo, na praxi cotidiana da igreja?

Confeso que quando imagino isso, ao mesmo tempo, sou tomado de uma imensa alegria e de uma profunda tristeza. Por um lado a alegria de saber o que Deus tem reservado e que se encontra disponível para o seu povo. E por outro a tristeza de presenciar a igreja flertando com coisas de valor infinitamente menor do que aquelas. 

“Oh! Espírito Santo de Deus. Flui novamente como rio impetuoso sobre a sua Igreja. Abala com as estruturas do Seu povo. Traz, mais uma vez, a vida dos céus para dentro de nós!”

OS SEIS RIOS DE ÁGUA VIVA

Como disse acima estes movimentos na história aconteceram sequêncialmente, um depois do outro, em diferentes períodos de tempo. No entanto, a proposta é a de uma ação simultânea fazendo com que estes seis rios de água viva venham a convergir num único grande rio que, por fim, trará a renovação da vida espirtual na igreja dos dias de hoje.

Porém, para que possamos ter uma idéia clara do que tratam, cada um destes seis rios, faz-se necessário observá-los separadamente.

O Rio da Vida Contemplativa

Esta tradição espiritual foi marcada  por grandes movimentos e personalidades no decorrer da história de ambos os lados das confissões cristãs.  Movimentos como os pais do deserto, o monasticismo e pessoas como Antônio, Teresa de Ávila e o conde Von Zinzendorf com os morávios, deram a cor, a textura e o sabor deste grande mover da vida do Espírito na Igreja. 

A vida contemplativa nos chama a abrimos espaço para Deus em nossa agenda cotidiana. É um clamor para que busquemos uma vida embuída de oração e outros hábitos sagrados. Intimidade e amor a Deus são termos chave nesta tradição. 

E como se faz necessário acessarmos novamente o poder contido e esquecido desta tradição de nossa espiritualidade cristã. Em dias como os nossos em que a igreja caminha para uma secularização assustadora. Onde já quase não se faz mais a distinção entre sagrado e profano. Onde o ritmo apressado e barulhento de nossas vidas nos distraem ao ponto de não conseguirmos mais viver debaixo de um senso da presença constante de Deus. Sem dúvidas torna-se urgente olharmos para traz e  enxergarmos os tesouros que estão à nossa espera guardados no baú deste grande movimento de Deus na história.

 Tesouros como a prática da lectio divina, do silêncio e da solitude, bem como a experiência de união com Deus pela contemplação que resulta na transformação de nossas vidas como um todo, são realidades que não podem continuar obscuras na prática de vida cristã das igrejas. Carecemos, urgentemente, de  nos banharmos de novo nas águas refrescantes deste rio de Deus. 

 O Rio da Vida de Santidade

Neste movimento do Espírito na história cristã, Deus produziu grandes figuras cuja vida nos servem de profunda inspiração e exemplo nos dias de hoje. A tradição de santidade se engajam aqueles que buscaram e buscam uma vida virtuosa. Santidade é uma vida que funciona da forma correta, como o próprio Deus idealizou que o fosse.

E em dias comos os de hoje, em que as vestes brancas da Noiva do Cordeiro tem sido manchada pelo mau testemunho de seus membros, esta tradição de nossa espiritualidade tem muito o que nos oferecer. Isso é um fato: não há neste mundo nada mais impactante do que o poder de uma vida santificada.

O Rio da Vida Carismática

Esta tradição tem nos grandes avivamentos da história cristã, como por exemplo o da rua Azuza, seus principais marcos. Contudo, o rastro da vida cheia do poder do Espírito de Deus remonta desde os dias da igreja primitiva, no grande derramamento ocorrido no dia de Pentecostes. Desde lá encontramos períodos em que Deus visitou seu povo com poder e dons místicos trazendo de volta aquela atmosfera apostólica dos primeiros dias da Igreja. As páginas da história testemunham-nos que o mundo assistiu e experimentou os efeitos de um povo em brasas, inflamado e incendiado pelo dunamis  de Cristo. 

E num Brasil em que se contabiliza milhões de evangélicos que de domingo a domingo abarrotam os prédios de reunião das igrejas,  sem que contudo a sociedade seja impactada ao ponto da transformação moral e social as quais caracterizaram os grande avivamentos do passado, sermos uma vez mais visitados pelo poder que vem doa alto e libertos da letargia que caracteriza a igreja nestes dias, é algo a que deveríamos nos aferrar.   

O Rio da Vida de Justiça Social

Aqui correm as águas impetuosas da busca pela propagação da shalom  de Deus sobre a face da terra, a qual deve alcançar o homem e a mulher vítmas das injustiças sociais oriundas dos sistemas governamentais injustos e opressivos. Esta tradição tem na fundação de organizações como o Exército da Salvação e em personalidades históricas como Willian Wilbeforce e Martin Luther King Jr grandes exemplos.  A espiritualidade contida neste mover de  Deus, resulta num coração compassivo que desemboca numa vida que se identifica com o sofrimento humano. 

É bem verdade que a igreja de hoje,  tem se destacado em alguns seguimentos sociais  ora fundando, ora ajudando no sustento de missionários e organizações de caráter eminentemente desta área. Não obstante a isso, fica-nos o claro senso de que sempre poderemos fazer algo a mais, pois, como bem disse o Mestre “os pobres sempre os tendes convosco”.    

No entanto, enxergo que a maior contribuição desta faceta de nossa vida espiritual se dá no campo pessoal, subjetivo. Acredito que quando ao passarmos por um mendido a pedir esmolas ou por uma família residente à sobra de um viaduto, e não apenas nos condoermos por sua situação, mas, além disso, formos impelidos a fazer algo que amenize o sofrimento,  a dor e a humilhação destes seres humanos, por menor que seja a iniciativa, aí sim poderemos dizer que este rio tão essencial encontra-se fluindo em nosso interior.

O Rio da Vida Evangelical

Este é o rio da vida centrada na Palavra de Deus. Tem na Reforma Protestante do sec XVI e em vultos como Martinho Lutero e João Calvino grandes representantes deste mover espiritual histórico.  A crença na inspiração plena, na suficiência,  na infalibilidade e na inerrância das Escrituras do Velho e do Novo Testamento, compõem a estrutura doutrinária destra tradição.

Este rio em particular significou um retorno dramático de uma era de trevas espirituais para a luz resplandecente da Palavra de Deus. Abusos e arbitrariedades eram cometidas em nome da tradição e de dogmas feitos por homens. Desta forma não se constitui em exagero de nossa parte afirmarmos tão grande importância deste movimento do Espírito de Deus, o qual libertou toda uma geração das algemas do erro e da superstição humanos.

Acredito que seria de grande valia nestes dias de confusão ideológica, crise de identidade e de ventos de doutrina que varrem a igreja brasileira, retornarmos mais uma vez para os princípios e o espírito que norteou todo este grande evento que conhecemos como Reforma Protestante, o qual teve como seu estandarte o amor pelas Escrituras Sagradas.

O Rio da Vida Sacramental

Finalmente, temos a via da conexão com Deus através das realidades comuns do dia-a-dia. Esta tradição nos afirma que Deus nos visita nos momentos de meditação bíblica, de silêncio e de solitude, assim como nos visita também quando etamos em nosso escritório em meio a relatórios financeiros, ou enfrentando a fila do supermercado  ou trocando a fralda de um filho em plena madrugada. Ao invés do mundo e das situações do cotidiano nos serem empencilhos para a comunhão com Deus, elas tornam-se os meios através dos quais podemos nos conectar com o Totalmente Outro. Resumindo: o grande desafio que esta tradição da espiritualidade cristã nos traz é o de encontrar a Deus por detrás dos milhares de momentos, situações, urgências e vissicitudes que esta vida nos oferece. 

O cristão atual enclausurado numa espiritualidade templária, onde se encontra e experimenta a Deus entre as quatro paredes da “igreja”, carece de atentar para esta dimensão da vida espiritual que nos possibilita enxergar o mundo de Deus mais amplo, cheio de possibilidades que não apenas as que acessamos nas pocas horas de reuniões públicas aos domingos. Deus pode e deseja ser encontrado e experimentado tanto no ambiente aconchegante de ar-condicionado de um prédio de reuniões de uma igreja quanto na ”estufa”, a que chamamos de ônimos, em pleno engarrafamento no centro da cidade sob um sol de 41 graus.  

A VIDA  NA  VIDA

O que a igreja no Brasil precisa, resumindo tudo, é de Vida na vida. Uma nova identificação e encarnação da vida do próprio Jesus, Seu cabeça conforme as Escrituras.  Quando lemos os evangelhos com atenção começamos a identificar estes seis rios de água viva presentes na vida do próprio Senhor. A bem da verdade quando falamos na renovação da igreja através da integralização destas seis tradições de nossa espiritualidade, isso trata de um convite a que nos moldemos a aspectos da vida espiritual de Cristo. Cada uma destas tradições, contemplativa, de santidade, carismática, de justiça social, evangelical e sacramental, estavam presentes, vivas e ativas na espiritualidade de Jesus de Nazaré. E a Vida na vida se dá no esforço de tentar imitá-lo na vivência destas facetas de nossa espiritualidade.

Isso porque:

  • Jesus Foi Um Homem Contemplativo – Ele buscava intimidade com o pai. Oração e vida não era uma realidade dicotômica na vida de Jesus. Orar e viver, viver e orar para Cristo eram a mesma coisa. Jesus buscava impregnar a vida com hábitos sagrados: ele buscava os lugares desertos para estar em silêncio e solitude com o Pai. Jesus jejuava. Ele meditava nas Escrituras. Jesus era um homem de vida de oração plena.
  • Jesus Foi Um Homem Virtuoso – A santidade da vida de Jesus não se dava na asfixia de regras e ritos vazios. Não! Pelo contrário, ser santo para Jesus manifestava-se na beleza e no impacto de uma vida que funcionava da forma correta. Uma vida que fluía no ritmo e no passo que o Pai idealizou. A vida de nosso Senhor funcionava no lugar certo, na hora certa e da maneira certa. Sem dúvidas Cristo era alguém de vida virtuosa.
  • Jesus Foi Um Homem Carismático – Umas das características mais marcantes do ministério de nosso Senhor era a presença do poder do Espírito Santo nas suas palavras e obras. Por causa de seu esvaziamente por ocasião de sua obra redentora, Jesus necessitou frequentemente da intervenção do Espírito de Seu Pai para a realização dos sinais  e prodígios que testificavam sua messianidade. “No poder do Espírito” é uma expressão frequente nas narrativas dos evangelhos. Jesus verdadeiramente era um homem que caminhava no poder do Espírito.
  • Jesus Foi Um Homem Compassivo – As Escrituras dizem que quando o Senhor viu as multidões errantes como ovelhas que não tem pastor, suas entranhas se remexeram, e ele se compadeceu delas. Jesus não conseguia ficar indiferente ante o sofrimento humano. Por isso o vemos chorando diante do túmulo de Lázaro, seu amigo; ressuscitando o filho de uma viúva pobre e alimentando uma grande multidão, mesmo sabendo que no dia seguinte a mesmo o iria procurar não por quem ele era, mas, pelo que ele tinha feito. A compaixão profunda de Jesus pelas vítimas da injustiça social nos desafia nestes dias de indiferença e individualismo pessoais.
  • Jesus Foi Um Homem de Vida Centrada na Palavra de Deus – Jesus venceu a tentação do diabo usando as Escrituras. Ele pregou a verdade de Deus. Ele citou exaustivamente as Escrituras. Ele tinha plena consciência de quem era e do que deveria fazer conforme profetizado nas Escrituras. Repreendeu os fariseus por erarem por não conhecerem as Escrituras. A Palavra eterna de Deus era o âmago do ministério e da vida de Cristo. Suas palavras e atos estavão em clara conformidade com os preceitos de Deus.
  • Jesus Era Um Homem de Vida Sacramental – Ele sabia receber o sacramento do momento presente. Para ele vida com Deus não se restringia aos momentos na sinagoga e no templo. Pelo contrário: para o Senhor Deus podia e devia ser experimentado nas coisas comuns e simples da vida cotidiana. Jesus via a mão de Deus em tudo. por isso ele podia chamar a atenção de seus discípulos e dizer “Olhai para as aves dos céus…”. Assim, um homem semeando no campo virava parábola; e algo tão comum como a queda de cabelo virava ensinamento espiritual. Não resta dúvidas que para Jesus a vida era um grande sacramento: um indício visível da presença invisível de Deus. Cristo sabia muito bem o que os serafins estavam querendo dizer quando clamaram um para o outro “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos. Toda a terra está cheia da sua glória”.

Desta forma experimentar, na íntegra, cada uma destas seis dimensões da espiritualidade cristã é experimentar a vida do próprio Cristo. Trilhar este caminho é ter sobre nós Seu jugo e aprender com ele a sermos aprendizes na vida do reino no “meio de nós”.

No entanto vale dizer que há um quê de morte nisso tudo. Pois, se desejarmos tomar Seu jugo como sendo o nosso, devemos ter em mente que isso significará o decreto da morte de nossa antiga espiritualidade: subjetiva, egóica, narcisista, egoísta, utilitarista e pragmática.  Ao passo que também significará o nascimento de uma nova espiritualidade. Não segundo a mais recete moda da vitrine evangélica, mas, segundo Jesus de Nazaré. Veremos o surgimento de uma espiritualidade marcada por uma vida com Deus profunda; por uma vida vivida da maneira certa, funcionando da maneira certa; por uma vida pontilhada pelas manifestações, capacitações e poder do Espírito Santo; por uma vida que se compadece da dor do semelhante e que repele todo e qualquer posicionamento egoísta e indiferente; por uma vida que se alimente e que se deixa moldare ser guiada pelas Escrituras Sagradas e por uma vida que se conecta com Deus através dos milhares de pequenos momentos que fomentam o nosso dia-a-dia.

Que assim seja! Oxalá o Senhor nos visite mais uma vez, como o fez com seu povo ao longo da história. provando uma vez mais que seu braço continua não encolhido. Não apenas para salvar os povos perdidos no pecado, mas, também para levantar uma Igreja poderosa, adornada, sem máculas nem ruga, para que esta seja uma vez mais instrumento em suas mãos para salgar a terra e iluminar o mundo. 

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Para saber mais sobre as seis tradições da espiritualidade cristã

acesse http://www.renovare.org.br

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