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Posts Tagged ‘silêncio’

Jesus chama-nos da solidão para a solitude. O medo de ficarem sozinhas petrifica as pessoas. Uma criança que muda para uma nova vizinhança diz, em soluços, à sua mãe: “Ninguém brinca comigo.”
Uma caloura na faculdade suspira pelos dias de ginásio quando era o centro de atenção: “Agora sou uma figura apagada.” Um executivo abatido no escritório, poderoso, não obstante, sozinho. Uma senhora idosa reside em um lar de velhos aguardando a hora de ir para o “Lar”.
Nosso medo de ficar sozinhos impulsiona-nos para o barulho e para as multidões. Conservamos uma constante torrente de palavras mesmo que sejam ocas. Compramos rádios que prendemos ao nosso pulso ou ajustamos ao nossos ouvidos de sorte que, se não houver ninguém por perto, pelo menos não estamos condenados ao silêncio.

T. S. Eliot analisou muito bem nossa cultura quando disse: “Onde deve encontrado o mundo em que ressoará a palavra? Aqui não pois não há silêncio suficiente.”
Mas a solidão ou o barulho não são nossas únicas alternativas. Podemos cultivar uma solitude e um silêncio interiores que nos livra da solidão e do medo. Solidão é vazio interior. Solitude é realização interior. Solitude não é, antes de tudo, um lugar, mas um estado da mente e do coração.
Há uma solitude do coração que pode ser mantida em todas as ocasiões. As multidões, ou a sua ausência, têm pouco que ver com este estado atentivo interior. É perfeitamente possível ser um eremita e viver no deserto e nunca experimentar a solitude. Mas se possuirmos solitude interior nunca teremos medo de ficar sozinhos, pois sabemos que não estamos sós.

Nem tememos estar com outros, pois eles não nos controlam. Em meio ao ruído e confusão encontramos calma num profundo silêncio interior.

A solitude interior há de manifestar-se exteriormente. Haverá a liberdade de estar sozinhos, não para nos afastarmos das pessoas, mas para poder ouvi-las melhor. Jesus viveu em “solitude do coração” interior.
Também freqüentemente experimento solitude exterior. Ele começou seu ministério passando quarenta dias sozinho no deserto (Mateus 4:1-11).
Antes de escolher os doze, ele passou a noite inteira sozinho no monte deserto (Lucas 6:12). Quando recebeu a notícia da morte de João Batista, Jesus “retiro-se dali num barco, para um lugar deserto, à parte” (Mateus 14:13).
Após a alimentação miraculosa dos cinco mil, Jesus mandou que os discípulos partissem; então ele despediu as multidões e “subiu ao monte a fim de orar sozinho…”(Mateus 14:23). Após uma longa noite de trabalho, “Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto, e ali orava”(Marcos 1:35).
Quando os doze retornaram de uma missão de pregação e curas, Jesus os instruiu: “Vinde repousar um pouco, à parte…” (Marcos 6:31). Depois da cura de um leproso, Jesus “se retirava para lugares solitários, e orava” (Lucas 5:16). Com três discípulos ele buscou o silêncio de monte solitário como palco para a transfiguração (Mateus 17:1-9).
Enquanto se preparava para sua mais sublime e mais santa obra, Jesus buscou a solitude do jardim do Getsêmani (Mateus 26:36-46). Pode-se prosseguir, mas talvez isto seja suficiente para mostrar que a busca de um lugar solitário era uma prática regular de Jesus. Igualmente deve ser conosco.
Em Life Together (Vida Juntos), Dietrich Bonhoeffer deu a um de seus capítulos o título de “O Dia Juntos”, e com percepção intitulou a capítulo seguinte “O Dia Sozinho”. Ambos são fundamentais para o êxito espiritual. Escreveu ele:
Aquele que não pode estar sozinho, tome cuidado com a comunidade… Aquele que não está em comunidade, cuidado com o estar sozinho…Cada uma dessas situações tem, de si mesma, profundas ciladas e perigos.
Quem desejar a comunhão sem solitude mergulha no vazio de palavras e sentimentos, e quem busca a solitude sem comunhão perece no abismo da vaidade, da auto-enfatuação e do desespero.
Portanto, se desejarmos estar com os outros de modo significativo, devemos buscar o silêncio recriador da solitude. Se desejamos estar sozinhos em segurança, devemos buscar a companhia e a responsabilidade dos outros.Se desejamos viver em obediência, devemos cultivar a ambos.

Solitude e silêncio

Sem silêncio não há solitude. Muito embora o silêncio às vezes envolva a ausência de linguagem, ele sempre envolve o ato de ouvir. O simples refrear-se de conversar, sem um coração atento a voz de Deus, não é silêncio.
Devemos entender a ligação que há entre a solitude interior e silêncio interior. Os dois são inseparáveis. Todos os mestres da vida interior falam dos dois de um só fôlego.

Por exemplo, a Imitação de Cristo, que tem sido obra prima incontestável da literatura devocional durante cinco séculos, tem uma seção intitulada “Do amor da solidão e do silêncio”.

Dietrich Bonhoeffer faz os dois um todo inseparável em Vida Juntos, como o faz Thomas Merton em Thoughts in Solitude ( Pensamentos em Solitude). Com efeito, lutamos por algum tempo tentando resolver se daríamos a este capítulo o título de Disciplina da solitude ou Disciplina do silêncio, tão estritamente ligados são os dois em toda a importante literatura devocional.
Devemos, pois, necessariamente entender e experimentar o poder transformador do silêncio se desejarmos conhecer a solitude.
Diz um antigo provérbio: “O homem que abre a boca, fecha os olhos!” A afinidade do silêncio e da solitude é poder ouvir. O controle, e não a ausência de ruído, é a chave do silêncio. Tiago compreendeu claramente que a pessoa capaz de controlar a língua é perfeita (Tiago 3:1-12).
Sob a Disciplina do silêncio e da solitude aprendemos quando falar e quando refrear-nos de falar. A pessoa que considera as Disciplinas como leis, sempre transformará o silêncio em algo absurdo: “Não falarei durante os próximos quarenta dias!” Esta é sempre uma grave tentação para o verdadeiro discípulo que deseja viver em silêncio e solitude.
Thomas de Kempis escreveu: “É mais fácil estar totalmente em silêncio do que falar com moderação”. O sábio pregador de Eclesiastes disse que há “tempo de estar calado, e tempo de falar”(Eclesiastes 3:7). O controle é a chave.
As analogias que Tiago faz do leme e dos freios, sugerem que a língua tanto guia como controla. Ela guia nosso curso de muitas formas. Se contamos uma mentira, somos levados a contar mais mentiras para encobrir a primeira. Logo somos forçados a comportar-nos de modo a darmos crédito à mentira. Não admira que Tiago tenha dito: “a língua é fogo” (Tiago 3:6).
A pessoa disciplinada é a que pode fazer o que precisa ser feito quando precisas ser feito. O que caracteriza uma equipe de basquetebol num campeonato é ser ela capaz de marcar pontos quando necessários.
Muitos de nós podemos encestar a bola, mas não o fazemos quando necessário. Do mesmo modo, uma pessoa que está sob o Disciplina do silêncio é a que pode dizer o que necessita ser dito.
“Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo”(Provérbios 25:11). Se ficamos calados quando deveríamos falar, não estamos vivendo na Disciplina do silêncio. Se falamos quando deveríamos estar calados, novamente erramos o alvo.

O Sacrifício de Tolos

Lemos em Eclesiastes : “ Chegar-se para ouvir é melhor do que oferecer sacrifícios de tolos” (Eclesiastes 5:1). O sacrifício de tolos é conversa religiosa de iniciativa humana.
O pregador continua: “Não te precipites com tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu na terra; portanto sejam poucas as tuas palavras”(Eclesiastes 5:2).
Quando Jesus tomou a Pedro, Tiago e João e os levou ao monte e foi transfigurado diante deles, Moisés e Elias apareceram e entabularam a conversa com Jesus. O texto grego prossegue: “E respondendo, Pedro disse-lhes… se queres farei aqui três tendas…”(Mateus 7:14). Isto é tão expressivo. Não havia alguém falando com Pedro. Ele estava oferecendo sacrifícios de tolos.
O Diário de John Woolman contém um comovente e terno relato da aprendizagem do controle da língua. Suas palavras tão expressivas que é melhor citá-las aqui:
Eu ia a reunião num terrível estado mental, e me esforçava por estar interiormente familiarizado com a linguagem do verdadeiro Pastor. Um dia, encontrando-me sob forte operação do espírito, levantei-me e disse algumas palavras numa reunião; mas não me mantendo junto à abertura Divina falei mas do que era exigido de mim.
Percebendo logo meu erro, fiquei com a mente aflita algumas semanas, sem nenhuma luz ou consolo, ao ponto mesmo de não encontrar satisfação em nada. Lembrava-me de Deus, e ficava perturbado, e no auge de minha tristeza ele teve piedade de mim e enviou o Consolador.
Então senti o pecado de minha ofensa; minha mente ficou calma e tranqüila, e senti-me verdadeiramente grato ao meu gracioso Redentor por suas misericórdias.
Cerca de seis meses após este incidente, sentindo aberta a fonte de amor Divino, e interesse por falar, proferi umas poucas palavras em uma reunião, nas quais encontrei paz.
Sendo assim humilhado e disciplinado sob a cruz, minha compreensão tornou-se mais fortalecida para distinguir o espírito puro que interiormente se move sobre o coração, que me ensinou a esperar em silêncio, `às vezes durante muitas semanas, até que senti aquele fluxo quer prepara a criatura para [posicionar-se como uma trombeta, através da qual o Senhor fala ao seu rebanho.
Que descrição do processo de aprendizado pelo qual se passa na Disciplina do silêncio! De particular significado foi o aumento de sua capacidade, proveniente desta experiência, de “distinguir o espírito puro que interiormente se move sobre o coração”.
Um motivo de quase não agüentarmos permanecer em silêncio é que ele nos faz sentir tão desamparados. Estamos demais acostumados a depender das palavras para manobrar e controlar os outros. Se estivermos em silêncio, quem assumirá o controle? Deus fará isto; mas nunca deixaremos que ele assuma o controle enquanto não confiarmos nele.
O silêncio está intimamente relacionado com a confiança. A língua é nossa mais poderosa arma de manipulação. Uma frenética torrente de palavras flui de nós porque estamos num constante processo de ajustar nossa imagem pública.
Tememos muito o que pensamos que as outras pessoas vêem em nós, de modo que falamos a fim de corrigir o entendimento delas. Se fiz alguma coisa errada e descubro que você sabe disso, serei muito tentado a ajudá-lo a entender minha situação!
O silêncio é uma das mais profundas Disciplinas do Espírito simplesmente porque ela põe um paradeiro nisso. Um dos frutos do silêncio é a liberdade de deixar que nossa justificação fique inteiramente com Deus.
Não temos necessidade de corrigir os outros. Há uma história de um monge medieval que estava sendo injustamente acusado de certos erros.
Certo dia ele olhava pela janela e viu lá fora um cachorro a morder e rasgar um tapete que havia sido pendurado para secar. Enquanto ele observava, o Senhor falou-lhe, dizendo: “É isso que estou fazendo com sua reputação.
Mas se você confiar em mim, não terá necessidade de preocupar-se com as opiniões dos outros”. Talvez, mais do que qualquer outra coisa, o silêncio leva-nos a crer que Deus pode justificar e endireitar tudo. George Fox falava com freqüência do “espírito de escravidão”(Romanos 8:14), e de como o mundo jaz nesse espírito.
Freqüentemente ele identificava o espírito de escravidão com o espírito de subserviência a outros seres humanos. Em seu Diário ele falava de “ajudar as pessoas a escapar dos homens”, afastá-las do espírito de escravidão à lei mediante outros seres humanos. O silêncio é o principal meio de conduzir-nos a esse livramento.
A língua é um termômetro; ela diz qual é a nossa temperatura espiritual. Ela é, também, um termostato; controla nossa temperatura espiritual. O controle da nossa língua pode significar tudo.
Temos nós sido libertados de modo que podemos controlar nossa língua? Bonhoeffer escreveu: “O silêncio verdadeiro, a verdadeira tranqüilidade, o controle real da língua manifesta-se somente como a sóbria conseqüência da calma espiritual”.
Relata-se que Dominic fez uma visita a Francisco de Assis e durante todo o encontro nenhum deles proferiu uma única palavra. Somente quando tivermos aprendido a estar verdadeiramente calados ‘é que estaremos capacitados para proferir a palavra necessária no momento oportuno.
Catherine de Haeck Doherty escreveu: “Tudo em mim é silente… e estou imersa no silêncio de Deus”. É na solitude que chegamos a experimentar o “silêncio de Deus” e assim receber o silêncio interior que é o anseio de nosso coração.

A Noite Escura da Alma

Levar a sério a Disciplina da solitude significará que em algum ponto ou pontos no curso da peregrinação entraremos no que S. João da Cruz vividamente descreveu como “a noite escura da alma”.
A “noite escura” para a qual ele nos chama não é algo mau ou destrutivo. Pelo contrário, é uma experiência a ser recebida com agrado do mesmo modo que uma pessoa enferma receberia com agrado uma cirurgia que promete saúde e bem-estar. A finalidade da escuridão não é castigar-nos ou afligir-nos. É libertar-nos.
Que significa entrar na noite escura da alma? Pode ser um senso de aridez, de depressão, até mesmo o de sentir-se perdido. Ela nos despoja de dependência excessiva à vida emocional.
A noção, tantas vezes ouvida hoje, de que tais experiências podem ser evitadas e que devíamos viver em paz e conforto, alegria e celebração, só revela o fato de que muito da experiência contemporânea não passa de sentimentalismo superficial.
A noite escura é um dos meios de Deus levar-nos à tranqüilidade, à calma, de modo que ele possa operar a transformação interior da alma.
Como se expressa essa noite na vida diária? Quando se busca seriamente a solitude, geralmente há um fluxo de êxito inicial e então um desânimo inevitável_ e com ele um desejo de abandonar por completo a busca. Os sentimentos vão-se embora e fica o senso de que não alcançamos Deus. S. João da Cruz descreveu-o deste modo:
…a escuridão da alma mencionada aqui… põe os apetites sensórios e espirituais a dormir, amortece-os e os priva da capacidade de encontrar prazer em qualquer coisa. Ata a imaginação e impede-a de fazer qualquer bom trabalho discursivo.
Ela faz cessar a memória, faz o intelecto tornar-se obscuro e incapaz de entender qualquer coisa, e daí levar a vontade também a tornar-se árida e constrita, e todas as faculdades vazias e inúteis. E acima de tudo isto, paira uma densa e cansativa nuvem que aflige a alma e a conserva afastada de Deus.
Em seu poema “Canciones del Alma”, S. João da Cruz usou duas vezes a frase: “Estando minha casa agora totalmente calada”. Nessa expressiva linha ele indicava a importância de silenciar todos os sentidos físicos, emocionais, psicológicos, e mesmo espirituais.
Toda distração do corpo, mente e espírito deve ser posta numa espécie de animação suspensa antes que possa ocorrer esta profunda obra de Deus na alma. O anestésico deve fazer efeito antes que se realize a cirurgia.
Virá o silêncio, a paz, a tranqüilidade interiores. Durante esse tempo de escuridão, a leitura da Bíblia os sermões, o debate intelectual_ tudo falhará em comover ou emocionar.
Quando o amoroso Deus nos atrai para uma escura noite da alma, muitas vezes somos tentados a culpar todo o mundo e todas as coisas por nosso entorpecimento interior e procuramos livrar-nos dela.
O pregador é maçante. O cântico de hinos é tão fraco. Talvez comecemos a andar por aí à procura de uma igreja ou de uma experiência que nos dê “arrepios espirituais”. Esse é um grave engano.
Reconheça a noite escura pelo que ela é. Seja agradecido porque Deus o está amorosamente desviando de toda distração, de modo que você possa vê-lo. Em vez de ridicularizar e brigar, acalme-se e espere.
Não estou aqui a falar de entorpecimento espiritual que vem como resultado de pecado ou desobediência. Falo da pessoa que busca a Deus com afã e não abriga pecado conhecido em seu coração.
Quem há entre vós que tema ao Senhor, e ouça a voz do seu Servo que andou em trevas sem nenhuma luz, e ainda confiou em nome do Senhor e se firmou sobre o seu Deus? (Isaías 50:10)
O ponto da passagem bíblica é que é perfeitamente possível temer, obedecer, confiar e firmar-se no Senhor e ainda “andar em trevas sem nenhuma luz”. A pessoa vive em obediência mas entrou numa noite escura da alma. S. João da Cruz disse que durante esta experiência há uma graciosa proteção contra vícios e um maravilhoso progresso nas coisas do reino de Deus.
Se uma pessoa na hora dessas trevas observar bem de perto, verá com clareza quão pouco os apetites e as faculdades se distraem e como ela está segura de evitar vanglória, orgulho e presunção, alegria vazia e falsa, e muitos outros males. Pelo andar em escuridão a alma não somente evita extraviar-se mas avança rapidamente, porque assim ela adquire virtudes.
Que deveríamos fazer durante essa época de aflição interior? Primeiro, não leve em consideração o conselho dos amigos bem-intencionados de livrar-se da situação. Eles não entendem o que está acontecendo. Nossa época é tão ignorante destas coisas que não lhe recomendo conversar sobre esses assuntos.
Acima de tudo, não tente explicar nem justificar por que você parece estar “aborrecido”. Deus é seu justificador; entregue seu caso a ele. Se você pode, realmente, retirar-se para um “lugar deserto” durante algum tempo, faça-o. Se não, cumpra suas tarefas diárias.
Mas, esteja no “deserto” ou em casa, mantenha no coração um profundo, interior e atencioso silêncio – e haja silêncio até que a obra da solitude se complete.
Talvez S. João da Cruz tenha estado a conduzir-nos a águas mais profundas do que cuidássemos ir. Por certo ele não está falando de um reino que muitos de nós vemos apenas “como em espelho, obscuramente”.
Não obstante, não temos necessidade de censurar-nos por nossa timidez de escalar esses picos nevados da alma. Esses assuntos são mais bem tratados com cautela.
Mas talvez ele tenha provocado dentro de nós uma atração por experiências mais elevadas, mais profundas, não importa quão leve o puxão. É como abrir levemente a porta de nossa vida a este reino. Isto é tudo o que Deus pede, e tudo o que ele necessita. Para concluir nossa viagem na noite escura da alma, ponderemos estas palavras poderosas de nosso mentor espiritual:
Oh, então, alma espiritual. Quando vires teus apetites obscurecidos, tuas inclinações secas e constritas, tuas faculdades incapacitadas para qualquer exercício interior, não te aflijas; pensa nisto como uma graça, visto que Deus te está libertando de ti mesma e tirando de ti tua própria atividade.
Conquanto tuas ações possam ter alcançado bom êxito, não trabalhaste tão completa, perfeita, e seguramente – devendo à impureza e inabilidade de tais ações – como fazes agora que Deus te toma pela mão e te guia na escuridão, como se fosses cega, ao longo de um caminho e para um lugar que não conheces. Nunca terias tido êxito em alcançar este lugar, não importa quão bom sejam teus olhos e teus pés.

Passos Para a Solitude

As Disciplinas Espirituais são coisas que fazemos. Nunca devemos perder de vista esse fato. Podemos falar piedosamente acerca da “solitude do coração”, mas se isto, de certo modo, não abrir caminho para nossa experiência, então erramos o alvo das Disciplinas.
Estamos lidando com ações, e não apenas com estados mentais. Não é suficiente dizer: “Bem, muito certamente estou na posse da solitude e silêncios interiores; não há nada que eu necessite fazer”.
Todos quantos chegaram aos silêncios vivos fizeram determinadas coisas, ordenaram suas vidas de uma forma especial, de modo que recebessem a “paz de Deus, que excede todo o entendimento”. Se desejamos ter êxito, devemos ir além do teorético para as situações da vida.
Quais são alguns passos para a solitude? A primeira coisa que podemos fazer é tirar vantagem das “pequenas solitudes” que enchem nosso dia.
Consideremos a solitude daqueles primeiros momentos matutinos na cama, antes que a família desperte. Pense na solitude de uma xícara de café pela manhã, antes de começar o trabalho do dia.
Existe a solitude de pára-choque de um carro junto ao pára-choque de outro durante a correria do tráfego na hora de mais movimento.
Pode haver poucos momentos de descanso e refrigério quando dobramos um esquina e vemos uma flor ou uma árvore. Em vez da oração audível antes de uma refeição, considere convidar a todos para reunir-se em uns poucos momentos de silêncio.
De quando em quando, dirigindo um carro lotado de crianças e adultos conversadores, eu exclamava: “Vamos brincar de fazer silêncio e ver se ficamos absolutamente calados até chegarmos ao aeroporto” (cerca de cinco minutos adiante). Funcionava. Saia um pouquinho antes de ir deitar-se, e prove a noite silenciosa.
Muitas vezes perdemos esses pequeninos lapsos de tempo. Que pena! Eles podem e deveriam ser redimidos. São momentos para silêncio interior, para reorientar nossas vidas como o ponteiro de uma bússola. São pequenos momentos que nos ajudam a estar genuinamente presentes onde estamos. Que mais podemos fazer? Podemos encontrar ou criar um “lugar tranqüilo” para silêncio e solitude.
Constantemente estão sendo construídas novas casas. Porque não insistir que um pequeno santuário interior seja incluído nas plantas, um pequeno lugar onde um membro da família possa estar a sós em silêncio? Que é que nos impede? Construímos esmeradas salas de estar, e achamos que vale a pena a despesa. Se você já possuiu uma casa, considere murar uma pequena seção da garagem ou do pátio.
Se mora num apartamento, seja criativo e ache outros meios de permitir-se a solitude. Sei de uma família que tem uma cadeira especial; sempre que uma pessoa se assenta nela, é como estar dizendo: “Por favor, não me amole; quero estar a sós”.
Encontre lugares fora de sua casa: um local num parque, o santuário de uma igreja (dessas que mantêm abertas sua portas), mesmo um depósito em algum lugar. Um centro de retiro perto de nós construiu uma bonita cabana para uma pessoa, especificamente para meditação particular e solitude. Chama-se “Lugar Tranqüilo”.
As igrejas investem somas enormes de dinheiro em edifícios. Que tal construir um lugar aonde alguém possa ir para estar a sós durante alguns dias? Catherine de Haeck Doherty foi pioneira no desenvolvimento de Poustinias (palavra russa que significa “deserto”) na América do Norte. São lugares destinados especificamente para solitude e silêncio.
No capítulo sobre estudo, consideramos a importância de observar a nós mesmos para ver com que freqüência nossa conversa é uma tentativa frenética de explicar e justificar nossas ações.
Tendo observado isto em você mesmo, experimente praticar ações sem nenhuma palavra de explicação. Note seu senso de temor de que as pessoas entendam mal por que você fez o que fez. Tente deixar que Deus seja seu justificador.
Discipline-se de modo que a suas palavras sejam poucas mas digam muito. Torne-se conhecido como uma pessoa que, quando fala, sempre tem algo a dizer. Mantenha clara sua linguagem. Faça o que diz que fará. “Melhor é que não votes do que votes e não cumpras” (Eclesiastes 5:5).
Quando a língua se encontra sob a nossa autoridade, as palavras de Bonhoeffer se tornam verdadeiras em relação a nós: “Muita coisa desnecessária fica por dizer. Mas a coisa essencial e útil pode ser dita em poucas palavras”.
Dê outro passo. Tente viver um dia inteiro sem proferir palavra alguma. Faça-o, não como uma lei, mas como um experimento. Note seus sentimentos de desamparo e excessiva dependência das palavras para comunicar-se. Procure encontrar novos meios de relacionar-se com outros, que não dependam de palavras. Aproveite, saboreie o dia.Aprenda com ele.
Quatro vezes por ano retire-se durante três a quatro hora com a finalidade de reorientar os alvos de sua vida. Isto pode ser facilmente feito em uma noite. Fique até tarde no escritório, faça-o em casa, ou procure um canto sossegado em uma biblioteca pública. Revalie suas metas e objetivos.
Que é que você deseja ser ver realizado daqui a um ano? Daqui a dez anos? Nossa tendência é superestimar em alto grau o que podemos realizar em dez. Estabeleça metas realistas, mas esteja disposto a sonhar, a esforçar-se. No sossego dessas breves horas, ouça o trovão da voz de Deus. Mantenha um registro diário do que lhe acontece.
A reorientação e fixação de metas não precisam ser frias e calculadas, como alguns imaginam, feitas com uma mentalidade de análise de mercado. Pode ser que ao entrar num silêncio atento, você receba a deliciosa impressão de que este ano deseja aprender a tecer ou trabalhar com cerâmica.
Essa lhe parece uma meta muito terrestre, antiespiritual? Deus está intencionalmente interessado em tais questões. Está você? Talvez deseje aprender (experimentar) mais acerca dos dons espirituais de milagres, de cura e de línguas. Ou você pode fazer como um amigo que sei que está gastando longos períodos de tempo experimentando o dom de socorros, aprendendo a ser servo.
Talvez no próximo ano você gostaria de ler todas as obras de C. S. Lewis ou de D. Elton Trueblood. A escolha desses alvos soa-lhe como jogo de manipulação de um vereador? Claro que não. Não se trata de meramente estabelecer uma direção para a sua vida. Você está indo para algum lugar, por isso é muito melhor ter uma direção fixada pela comunhão com o Centro divino.
Na Disciplina do estudo examinamos a idéia de retiros de estudos de dois ou três dias. Tais experiências, quando combinadas com uma imersão interior no silêncio de Deus, são enaltecidas. À semelhança de Jesus, devemos afastar-nos das pessoas de modo que possamos estar verdadeiramente presentes quando estivermos com elas. Faça um retiro uma vez por ano, sem outro propósito em mente que não a solitude.
O fruto da solitude é o aumento de sensibilidade e compaixão por outros. Surge uma nova liberdade para estar com as pessoas. Há uma nova atenção para com suas necessidades, nova responsividade para com suas mágoas. Thomas Merton observou.
É na profunda solitude que encontro a afabilidade a qual posso verdadeiramente amar a meus irmãos. Quanto mais solitário estou, tanto mais afeição eu sinto por eles. É pura afeição e cheia de reverência pela solitude dos outros. Solitude e silêncio ensinam-me a amar a meus irmãos pelo que eles são, e não pelo que dizem.
Não sente você um toque, um anseio de aprofundar-se no silêncio e solitude de Deus? Não deseja uma exposição mais profunda, mais completa à Presença de Deus? A Disciplina da solitude é que abrirá a porta. Você está convidado a vir e “ouvir a voz De Deus em seu silêncio todo-abrangente, maravilhoso, terrível, suave e amoroso”.

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* Richard Foster – é ministro Quacre e presidente do Renovare USA.

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Um dos grandes desafios que a espiritualidade cristã clássica nos traz é o resgate da leitura das Sagradas Escrituras com o coração. Numa época em que a devoção tem cedido espaço para a investigação teológico-acadêmica, onde a leitura bíblica assume um caráter estritamente intelectual,  achegar-nos novamente ao Livro para dele degustar cada palavra, cada frase, cada expressão é de grande importância para nossas vidas espirituais.

Esse tipo de leitura a que nos referimos é o que popularmente foi denominado de ler a Bíblia com o coração. O que vem em contrapartida de se ler as Escrituras apenas utilizando as faculdades da mente. É deitar os olhos não para saber apenas, mas sobretudo, para ouvir. É o ler no intuito não de conhecer sobre Deus,mas, a Deus. É mergulhar na imensidão do oceano escriturístico com atenção amorosa para poder perceber e acessar a gloriosa Presença do Totalmente Outro. É o tipo de disciplina espiritual que tem como pano de fundo a compreensão que Deus não é um objeto de investigação a ser dissecado afim de satisfazer nosso narcisismo intelectual, mas, um indivíduo de relacionamento a ser amado e tido como objeto de nossos mais profundos deleites (Sl 37:4; Fp 4:4).

A verdade de que uma proposta como essa cause estranheza na maioria dos cristãos nos dias de hoje, se dá pelo fato de que somos produtos de um cristianismo nascido da ruptura entre razão e emoção. Até a idade média a leitura bíblica bem como o estudo da teologia tinham como propósito principal conduzir o cristão a uma experiência de contemplação divina: um encontro/união com Deus. Celebrava-se o mistério. Via-se na atitude do cristão uma postura de adorador. O fascínio, o silêncio reverente e o senso de transcendência integravam a espiritualidade do servo e da serva de Deus daquela época. O resultado de tudo isso é que não existia a diferença entre ler a  Bíblia e orar. No entendimento clássico não se tratavam de dois movimentos distintos e sequenciais, mas sim, simultâneos.  Oravam-se as Escrituras.

Acredito que o resgate dessa forma de ler a Bíblia é parte da solução para o estado do evangelicalismo pós-moderno dos dias atuais. Se fossemos descrever o cristianismo presente na vida das pessoas poderíamos classifica-lo tão simplesmente como superficial.  A crença e a praxe cristã epidérmicas que têm acometido a igreja em nosso tempo, roubou-lhe a profundidade e a experiência com o Sagrado.  E como consequências dessa perda vemos surgir duas atitudes distintas, falsas espiritualidades.

A primeira é o engessamento da vida espiritual que se caracteriza pela frieza e total desprovimento de emoções e afetos na relação com Deus. Particularmente, esse resultado vem direto da ruptura medieval razão/emoção. No entanto em nenhum momento as Escrituras condenam a presença das emoções na experiência espiritual. Pelo contrário, elas não apenas reconhecem sua existência (Sl 30:5b), mas também revelam que as mesmas são importantes para Deus (Sl 56:8) e que portanto devemos celebrá-las (1Pe 1:7,8).

A segunda atitude decorrente da perda da profundidade na experiência cristã é  a outra ponta da corda, a qual é tão nociva quanto a primeira. Refiro-me ao emocionalismo exacerbado que vem de mãos dadas com a busca por experiências místicas como um fim em si mesmas. Novamente Deus aqui é colocado com um meio a se obter algo e não como um sujeito com o qual nos relacionar amorosamente. Não resta dúvidas que os grandes místicos da tradição cristã, os quais pregaram, ensinaram, escreveram e experimentaram a leitura bíblica com o coração, iriam estranhar profundamente esse tipo de espiritualidade tão difundida atualmente por esse segundo grupo. Esses servos e servas de Deus reconheciam a existência de experiências de êxtase, vozes, visões e coisas desse gênero. No entanto, afirmavam categoricamente ser as mesmas não usuais e não essenciais para a vida cristã autêntica. No entendimento deles a experiência mística acontecia exatamente a partir do contato das Escrituras, no silêncio recolhedor, na solitude recriadora que conduzia o filho de Deus ao encontro pessoal com o Cristo ressurreto. Além disso também asseveravam acerca da necessidade de uma percepção sacramental da vida onde Deus poderia e deveria ser encontrado por detrás das experiências corriqueiras do cotidiano. O extraordinário vindo a nós pelas vias do ordinário. Que ideia arrebatadora!

A luz de tudo que foi dito acima, como podemos de forma concreta e prática efetuarmos esse tipo de leitura que contempla a Bíblia não apenas com a mente e o intelecto, mas também com o coração e as emoções? Eis algumas orientações:

1. Introduza o silêncio no momento de sua leitura bíblica. A sugestão aqui é que, antes de abrir a Bíblia e começar a ler, se separa alguns instantes para simplesmente ficar em silêncio, quem sabe uns 10 minutos. O propósito dessa prática é nos disciplinarmos a estar totalmente presentes no momento para Deus. Aquietando-nos, tomamos consciência da Grande Presença (Sl 46:10;  Hc 2:20).

2. Separe um trecho não muito longo das Escrituras. Quem sabe apenas alguns versículos ou até mesmo apenas um. De uns tempos pra cá inventou-se uma espiritualidade que se preocupa com a quantidade e não a qualidade do momento. Do que nos adiante lermos grandes porções da Bíblia, capítulos ou até mesmo livros de uma vez só, e não ouvirmos o Senhor nos falando ao coração? Devemos ter em mente que a proposta aqui não é angariar informações sobre, mas, experimentar de forma pessoal a Deus.

 3. Leia o texto bíblico devagar. Sim. Por que a pressa? Por que passar os olhos batidos por essa carta de amor que o Pai endereçou a nós? Portanto, leia uma, duas, três e quantas vezes forem necessárias. Permita que cada palavra, cada expressão “caia”  com peso sobre o seu coração. E em atitude de amorosa espera, permaneça na leitura até que sua atenção seja chamada para algo dentro do texto Sagrado. 

4. Saboreie o que Deus lhe entregou no texto. Pode ter sido até mesmo uma única expressão como por exemplo “…Deus amou o mundo…” (Jo 3:16). Faça perguntas diretas ao texto: qual a relação que isso tem comigo?; o que isso se relaciona ao mundo para o qual devo ministrar?; o que Deus está querendo me dizer através disso? etc. Permita que o Espírito Santo impregne seu interior com toda a seiva espiritual contida na Palavra. Mais uma vez reitero: tudo isso sem pressa. Não há porque correr. Você não está perdendo tempo, mas, investindo numa amizade eterna (Jo 15:15).

5. Responda de forma amorosa ao que Deus lhe falou. Agradeça, louve, suplique, interceda ou confesse em resposta ao que o Espírito Santo ministrou ao seu coração. Não fique indiferente à Palavra de Deus para você.

6. Permaneça na Presença  do Pai. Mais uma vez, por alguns minutos, silencie e apenas fique presente no momento junto com o Pai. Permita que tudo quanto você recebeu da parte dele assente no seu coração. Aqui, se assim desejar, pode ser utilizada uma frase de oração contemplativa como “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador” ou então algo mais simples como “Pai, pertenço a Ti”. Busque alinhar sua respiração com a  frase onde parte dela será recitada mentalmente ao inspirar e o restante ao expirar. Faça isso durante alguns breves momentos até que o Espírito de Deus conduza-o ao silêncio e quietude interiores.

Por fim, agradeça ao Senhor pelo encontro com sua Presença, pelo desfrute de paz e serenidade na alma. E com uma alegria vinda dos céus, indizível e cheia de glória, junte-se aos milhares que ao longo da história cristã fizeram coro com os discípulos a caminho de Emaús:

 Acaso o nosso coração não ardia pelo caminho, quando ele nos falava e nos abria as Escrituras?” (Lc 24:32)

 

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As narrativas que temos acerca de Deus determinam, substancialmente, a visão que desenvolvemos acerca de outras pessoas e de nós mesmos. O que são narrativas sobre Deus? Simples: são as idéias e imagens que temos em nossa mente acerca de quem Deus é e de como ele age, as quais nos foram transmitidas como herança por nossos pais, professores, líderes espirituais etc. Daí já se pode perceber o quanto elas são de suma importância para nossa cosmovisão, seja esta saudável ou não.

Na grande maioria dos cristãos espalhados pelas igrejas das diferentes confissões, existe um número esmagador de pessoas que foram expostas àquilo que podemos chamar de “narrativa do merecimento” onde o amor de Deus por nós é apresentado como uma dimensão estritamente condicionada ao nosso comportamento. Em outras palavras, Deus concede-me seu amor quando eu comporto-me bem. No momento em que “saio da linha”, Deus retem seu amor. Com isso, muitas pessoas vivem uma vida cristã aprisionada pela falsa ideia de que o amor de Deus é algo que eu tenho de obter e/ou merecer; que o objetivo da vida é buscar a aprovação de Deus através da observância de regras, mandamento e dogmas religiosos, na maioria das vezes criados pelo próprio homem. E, assim deixamos de experimentar a vida abundante e a liberdade para as quais fomos conquistados por Cristo (Jo 10:10; Gl 5:1).

A narrativa do merecimento não é exclusiva da vida eclesiástica e espiritual. Desde a infância dentro dos nossos lares somos colocados sob a opressão dessa visão distorcida pelos nossos próprios pais. Palavras do tipo “Bom menino. Arrumou o quarto como mandei”; “boa menina. Comeu toda a comida” e etc. fomentam na psique da criança que sua bondade ou valor para seus pais existem na mesma proporção em que atendem suas expectativas. Ao se tornar adulta, esta mesma criança, é lançada num mundo que cultua esse tipo de narrativa, onde a importância de alguém está para sua aparência, vitórias pessoais, sucesso profissional e bens materiais adquiridos. E o mais curioso e irônico é que quando essa pessoa acaba se convertendo a Cristo e passa a frequentar a igreja, ao invés desta lhe fornecer narrativas terapêuticas e libertadoras das antigas narrativas, seus grilhões acabam se tornando ainda mais rígidos e apertados pelo tipo de ensino e discurso a que é exposta no convívio da comunidade de fé.

Os resultados são desastrosos. Sabendo esta pessoa que nunca conseguiu alcançar as expectativas criadas por seus pais na infância e por seus chefes e patrões na vida profissional, acaba desenvolvendo uma baixo auto-estima, um ódio a si mesma que acaba sendo projetada sobre seu relacionamento com Deus. Ela raciocina: “se nunca consegui agradar meus pais e meus chefes, não é a Deus que vou conseguir.” Desta forma essa mesma pessoa se vê numa gangorra de altos e baixos na sua vida espiritual, emocional e psicológica na tentativa patológica de se buscar a todo custo merecer o amor de Deus e conseguir sua aceitação. 

É nesse exato momento que as pessoas desenvolvem uma válvula de escape psico-emocional para seu sentimento de inadequação perante Deus. Aqui começa-se a desenvolver aquilo que chamamos de “falso eu”. Ou seja, são máscaras que criamos para nos esconder por detrás delas, das pessoas e sobretudo de Deus. A enfermidade do “falso eu” é grande visto sua compulsão em buscar a todo e qualquer custo a aprovação dos outros e dos céus. É uma espécie de montanha russa em alta velocidade que está fadada a desprender-se dos trilhos. A destruição é certa!

No entanto quando somos conquistados pela revelação de que o amor de Deus não é algo que eu precise merecer, pois, eu já o tenho em Cristo, e que a aceitação divina já está presente em minha vida, porque eu sou aceito por Deus da mesma forma em que sou amado por ele, isso rompe os grilhões da falsa narrativa que antes me dominava, retirando-me das trevas da inquietação para a luz da confiança que vem da certeza de que meu Aba tem uma única opinião a meu respeito: “Tu és meu filho (mesmo que adotivo) amado. Em quem tenho toda alegria”. 

Esta é a minha identidade primordial: sou o amado de Deus. E a prova de que o merecimento ou o não merecimento pessoal, não tem qualquer influência sobre isso é o fato de que a Bíblia, e a experiência pessoal diária, atestam que dentro de mim ainda existe uma natureza mesquinha, maligna, rebelde, que faz oposição direta ao Espírito de Deus que agora também faz habitação no meu corpo (Gl 5:17). Tal natureza me conduz a cada dia a experimentar um misto de realidades conflitantes e paradoxais (Rm 7:15-19). A grande verdade aqui é o adentrar na dimensão do auto-conhecimento. É o confronto com a realidade do que eu sou: uma miscelânea de bem e de mal; virtudes e defeitos; bondade e malignidade; santidade e pecado. E acima de tudo a aceitação por mim mesmo de quem eu realmente sou, o meu verdadeiro eu. Brennan Manning, escritor norte-americano, diz que o começo de toda vida espiritual profunda acontece a partir da auto-aceitação de quem nós realmente somos. E daí aceitar igualmente que Deus nos aceita e nos ama do jeito que somos e não do jeito que deveríamos ser. Porque, pelo menos deste lado da eternidade, nunca seremos do jeito que deveríamos ser. 

A sociedade agitada e barulhenta na qual estamos inseridos nos convida diariamente a sacrificarmos no altar da “narrativa do merecimento” quando nos estimula a mensurar nossas conquistas pessoais, a nos preocuparmos excessivamente com nossa aparência física e a buscar exaustivamente o último carro do ano ou a última tecnologia em celulares. Dado esse fato, permanecemos de forma alienada celebrando as máscaras auto-criadas da aceitação pública, nosso falso eu.

A imagem bíblica do deserto se apresenta para nós como resposta para a necessidade da busca do auto-conhecimento. É no ermo espiritual que sepultamos o “falso eu” com todas as suas compulsões e patologias e vemos emergir o “verdadeiro eu”, imperfeito, maltrapilho, não obstante, amado furiosamente pelo Pai. Na narrativa da tentação de nosso Senhor relatada no evangelho de Mateus 4:1-11 temos a narrativa do confronto de Jesus face a face com o próprio Satanás. E de como, com aquelas três tentações, o Maligno empreendeu a tentativa de fazer com que o Senhor abraçasse um “falso eu” que não aceitasse a necessidade (v.3), que buscasse a popularidade (vs.5,6) e que almejasse o poder e a riqueza (vs.8,9). 

A verdade por detrás da tríplice recusa do Senhor aos convites do Maligno foi a certeza de quem ele era. Jesus tinha bem esclarecido no seu mundo interior quem ele era e o seu papel a partir disso (Lc 3:22). Sua identidade primordial, seu verdadeiro eu, era que ele era o filho amado de Deus que alegrava demais o coração do Pai. 

Quando Deus nos conduz igualmente ao “deserto” lá somos confrontados com os “demônios” que habitam dentro de nós. Ao criarmos espaços em nossos dias para estarmos a sós com Deus, no silêncio contemplativo, começamos a ouvir as “vozes” que clamam no nosso interior. Vozes essas que na maioria do tempo abafam a voz de Deus que ininterruptamente se dirige a nós enquanto filhos amados de Aba. Enquanto não conseguimos nos aquietar saindo do meio do turbilhão das compulsões diárias, deixamos de acessar nossa verdadeira identidade e continuamos dando ouvidos à voz sedutora da antiga serpente que convida-nos a permanecer abraçados com o “falso eu”. 

Finalizo com a antiga história do discípulo e do mestre ancião. O jovem discípulo num dado dia chega até seu mestre, um homem em idade avançada, e lhe faz uma pergunta:

Mestre, o que faço para ser alguém iluminado?

O ancião faz um perído de longo silêncio, enquanto o jovem discípulo aguarda. Finalmente o ancião levanta os olhos em sua direção e lhe diz:

– Conhece-te a ti mesmo e julgue menos os outros.

Esse sem dúvida é um caminho de libertação! Que assim seja.

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Eu estava de saída para uma viagem a Santiago do Chile, a fim de participar de uma conferência com pastores e líderes locais. Ainda no aeroporto, aguardando o vôo, conversava com Deus sobre o meu momento de vida. Dentre muitas coisas, pedia ao Senhor sabedoria e orientação diante do cenário que me envolvia. Semanalmente, novas oportunidades surgiam diante de mim; novas demandas emergiam em minha agenda e novas conversas aqueciam meu coração para projetos aparentemente fascinantes.

Estava preocupado diante de tudo aquilo que acontecia. Sei que uma das razões que fazem com que homens e mulheres de Deus acabem por se perder, mesmo que bem intencionados em suas motivações iniciais, é a falta de uma clara percepção acerca do mover de Deus em suas vidas. Muitos passam a entender que toda oportunidade que surge é uma porta aberta pelo Senhor, ou que toda demanda que emerge é um desafio lançado pelo Espírito Santo. Há também aqueles para quem qualquer conversa que lhes aqueça o coração é uma visão de Deus que precisa ser assumida.

Para os que enxergam a vida nesta perspectiva, o mover de Deus acaba se confundindo com o empreendedorismo de nossos tempos ou com o anseio insaciável de nossas almas por sermos tidos como pessoas relevantes diante do mundo. Para gente assim, o mover de Deus sempre as convida para um tempo de ir, correr e vencer. Não existe a possibilidade de o Senhor chamá-las a um tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se. Por isso mesmo, querendo conquistar o mundo, acabam, infelizmente, perdendo a própria alma. Em meio às muitas oportunidades, demandas e desafios, confundem a ação do Senhor com as expectativas do meio ou com os anseios de seus próprios corações.

Na vida do rei Davi, os desertos se tornaram o convite de Deus para um tempo de contemplação e reflexão. Ele era um homem movido por desafios e com constante ímpeto para a ação – por isso, parece que somente em meio às adversidades ele encontrava tempo para redimensionar seu próprio coração. Assim, quando lemos as orações de Davi no livro de Salmos, percebemos um homem sondando sua própria alma e procurando perceber a ação de Deus em sua vida. Em situações de adversidades, dores e aflições, Davi se convencia de que seu Deus não o convidava constantemente a ir, correr e vencer; mas, em algumas ocasiões, o impelia a ficar onde estava, aquietar o coração e renovar sua alma.

Maria, irmã da superativa e dinâmica Marta, viveu uma situação diferente. Em sua vida, o tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se não é fruto de uma situação criada por Deus, mas de opções que precisava fazer. Cercada por gente constantemente voltada para a ação, que enxergava cada oportunidade como porta aberta pelo Senhor, cada demanda como um desafio do Espírito e cada conversa como visão de Deus, torna-se normalmente mais difícil encontrar espaço para aquela reflexão espiritual. Mas Maria rompe com seu ambiente, resiste às expectativas que as pessoas à sua volta tinham acerca de si e resolve sentar-se aos pés de Jesus para ouvi-lo. Jesus, por sua vez, encoraja a opção feita por Maria, demonstrando que na caminhada cristã há, sim, tempo de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se.

Mas o maior exemplo de que Deus nos convida a esses momentos encontra-se na própria vida de Jesus. Em seu curto ministério terreno, Cristo tinha um enorme desafio diante de si. As demandas eram inúmeras; as necessidades, infindas, e as frentes de trabalho, imensas. No entanto, vemos nos Evangelhos episódios em que o Filho de Deus sobe montes ou procura lugares desertos a fim de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se na presença do Pai. Apesar da pressão das multidões, ele afastava-se em submissão ao mover de Deus para um tempo de silêncio e descanso. No entanto, este não era um tempo de contraponto à sua missão – mas sim, um espaço integrante e essencial na mesma.

Durante uma manhã livre naquela viagem a Santiago, um querido e antigo amigo me levou para subir as cordilheiras até um lugar chamado Vale Nevado. Fomos e voltamos conversando sobre muitas coisas. Há muito tempo não tinhamos oportunidade de nos falar. No entanto, em meio às muitas palavras e diante de paisagens fantásticas, deparei-me com uma cena que me chamou a atenção. Do local, podiamos contemplar um enorme e fantástico monte coberto de neve. Seu aspecto era imponente e fascinante. Era impossível passar por ali sem admirá-lo. Mas ainda no mesmo foco de visão, bem mais próximo de nós, na margem da estrada, inúmeras árvores com seus galhos completamente secos contrastavam a imponência e fascínio da montanha branca.

Minha atenção ficou dividida entre as duas cenas contrastantes. Foi então que meu amigo, olhando para aquelas árvores, disse: “Interessante, não? Elas parecem mortas. Quem olha pensa que não resistiram ao inverno. No entanto, estão assim porque, percebendo o rigor da estação fria, concentram suas forças e energias no caule. As folhas caíram e os galhos secaram, mas toda a sua vitalidade encontra-se concentrada no caule. Para elas, agora não é o tempo de florescer, mas de resguardar-se para, no tempo certo, voltar a produzir folhas, flores e frutos. Este é o ciclo da vida.”

Ouvindo aquelas palavras e tendo os meus olhos fixos naquelas árvores, ouvi a resposta de Deus para a oração que havia feito antes de partir do Brasil. Nem sempre é hora de ir, correr e vencer. Existem tempos em que o Senhor nos convida a ficar em sua presença, e ali aquietar nossa mente e renovar nossa alma. Em meio a tantas coisas e situações que nos envolvem, precisamos ter a sensibilidade para perceber que o Senhor, por vezes, não deseja que façamos tudo ou aceitemos todos os desafios. Existe também o tempo em que seu mover nos convida a concentrarmos nossas forças e energias no que é essencial e imprescindível: a nossa relação com ele.

Às vezes, como acontecia na vida de Davi, Deus precisa criar desertos em nossa história para nos convencer desta verdade. Noutras situações, assim como o fez Maria, podemos exercitar nosso poder de decisão contra o meio que nos impele a constante atividade, optando por simplesmente quedar-nos aos pés de Cristo. Mas também podemos olhar para Jesus e perceber o convite para vivermos em maturidade, integrando este tempo como parte essencial e imprescindível da missão de Deus para as nossas vidas.

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* Ricardo Agreste – é pastor presbiteriano na igreja Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera

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“Precisamos encontrar Deus, mas ele não pode ser encontrado no ruído e na agitação.

Deus é amigo do silêncio. Veja como a natureza – as árvores, as flores, a relva – viceja no silêncio. Veja as estrelas, a Lua, o Sol, como se movem no silêncio.

Nossa missão não é levar Deus aos pobres? Não um deus morto, mas um Deus vivo, cheio de amor.

Quanto mais recebemos, em oração silenciosa, mais podemos dar em nossa vida atarefada. Precisamos de silêncio para tocar outras almas.

O essencial não é o que dizemos, mas o que Deus diz a nós e por meio de nós.

Todas as palavras serão inúteis se não brotarem do interior. As palavras que impedem o brilho da Luz de Cristo só fazem aprofundar as trevas.”

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* Madre Teresa de Calcutá – extraído do livro “Convite à Solitude” – Brennan Manning – Ed. Mundo Cristão.

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“O Senhor, porém, está em seu santo templo; diante dele fique em silêncio toda terra” (Hc 2.20)

O texto em referência acima pode ser compreendido de duas maneiras: uma literal e outra em forma de aplicação alegórica. A primeira diz respeito à historicidade de Israel enquanto povo da aliança com Javé. Quando da construção do templo e sua consagração por Salomão Deus havia prometido que ali habitaria. E de fato era o que acontecia, pois, a presença física de Deus, sua nuvem luminosa de glória manifestava-se no local mais restrito do templo, o Santo dos Santos, onde somente o sumo sacerdote uma vez por ano poderia entrar.

Qualquer judeu devoto, para ter um encontro com Deus, teria que se encaminhar até o templo no horário certo, com a oferta e ou sacrifício certo, para ali oferece-lo em adoração. Desta forma, quando em Habacuque lemos essa declaração é exatamente isso que ela queria dizer: que Deus estava literalmente presente numa manifestação física visível e audível naquele lugar feito de tijolos, madeira, ouro e prata. Este é sentido direto e exegético do verso referendado.

Dito isso, também devemos considerar seu sentido aplicativo e alegórico para a vida do cristão. No livro de Atos no Novo Testamento o apóstolo Paulo faz uma declaração bombástica no que concerne a toda a espiritualidade Vetero Testamentária acerca da presença de Deus. O apóstolo afirma no seu discurso aos atenienses no areópago, que Deus não habita em templos feitos por homens. Esta revelação toma corpo de doutrina quando em Coríntios o mesmo Paulo lembra seus leitores de que cada um deles, enquanto indivíduos nascidos de novo em Cristo, são agora santuários do Espírito Santo. Da mesma forma que o Deus que habitou em um templo feito por mãos humanas, agora ele passara a morar em um feito por suas próprias mãos: o corpo de cada crente em Jesus Cristo.

Sendo assim, podemos entender e aplicar o texto de Habacuque como uma alegoria da experiência cristã descrita no Novo Testamento a qual nos referimos acima.

VOLTANDO-NOS PARA O CENTRO

Deus habita no corpo físico de seus servos. Logo, o templo, santificado pela presença do Espírito Santo, onde Deus está é a alma humana. Assim, podemos falar com propriedade de um santuário da alma. Deus agora não habita no exterior, mas, no mundo interior, nosso verdadeiro eu, o novo homem que segundo as Escrituras foi criado em Cristo “em justiça e em santidade provenientes da verdade” (Ef 4.24). Dito isso, podemos inferir a partir daí que, diferentemente da experiência da época de Habacuque, o crente hoje para um encontro com Deus não precisa mais ir a um lugar específico, seja ele qual for. Não precisamos mais buscar Deus do lado de fora. Basta nos voltarmos para dentro de nós, para o nosso interior, o que os místicos denominavam de retornar para o centro, onde Deus habita e nos fala continuamente, ininterruptamente ao coração.  É no santuário da alma, no nosso verdadeiro eu o “lugar” do nosso encontro hoje com Deus. Conforme nosso Senhor, o que nos basta é adentrarmos no nosso quarto, fechar a porta atrás de nós e colocarmo-nos perante a face daquele que nos vê e nos responde em secreto e em segredo: no segredo do santuário invisível de nossa alma.

RECOLHENDO-NOS EM SILÊNCIO

O profeta declara que o fato da presença física de Deus estar no santuário, deveria despertar tamanho assombro e temor, que levasse toda a terra a se silenciar perante essa presença. Podemos ver nesse entendimento literal a aplicação alegórica do caminho místico da oração silenciosa. Precisamos aprender, de uma vez por todas, a silenciar nosso coração se desejamos encontrar a Deus no nosso centro. O simples fato de que Deus está presente em nossa alma nos falando a partir dela continuamente, não significa que o estamos sempre escutando. A grande verdade é que dentro desse santuário inúmeras outras vozes clamam, juntamente com a voz divina, pela nossa atenção. Em muitos momentos o santuário de Deus ao invés de silencioso está ruidoso impedindo-nos  de percebe-lo. Somente quando o barulho do vento, do terremoto e do fogo cessaram é que o profeta Elias pode ter acessa àquele sussurro suave como a brisa da manhã. Necessitamos, com extrema urgência, atender a exortação divina que nos manda aquietarmo-nos  para que possamos saber que somente Ele é Deus.

ORAÇÃO SILENCIOSA

Apesar de parecer algo esquisito para nós por não fazer parte de nossa cultura cristã apressada, a prática da oração silenciosa, de quietude ou simplesmente silêncio tem forte amparo, tanto nas Escrituras quanto na tradição da igreja. É mais simples do que se pode imaginar e ao mesmo tempo muito difícil e complexa. Temendo por minha falta de experiência nesse caminho interior, utilizarei o material que encontrei no site Carmelo da Guarda, o qual passarei a transcrever as partes que achei mais necessárias para elucidar a experiência mística da contemplação através da oração silenciosa ou de quietude.

OS TRÊS SINAIS DO COMEÇO DA EXPERIÊNCIA

“Existem três sinais essenciais, de que a pessoa está a ser chamada à contemplação. A presença destes 3 sinais, assinala , sem equívocos, o início do itinerário contemplativo, místico.

  • PRIMEIRO SINAL – Nada satisfaz a alma e como consequência sente-se atirada para um infinito vazio. As coisas e tudo o que antes lhe “dizia” alguma coisa, já não dizem nada. As formosas realidades de outros tempos são tudo fonte que secou. Deus mesmo se calou: a aridez é a forma atual de sentir o fluxo das coisas e do espírito.
  • SEGUNDO SINAL – Já não se consegue fazer oração meditativa, não se consegue um pensamento, uma reflexão; os afectos que outrora enchiam o coração, são já remota lembrança; agora é a incapacidade que submerge a alma.
  • TERCEIRO SINAL – Este terceiro sinal é o mais importante, porque os outros dois sozinhos podem única e simplesmente indicar tibieza culpável da pessoa. Apesar de tudo quanto sente nos dois sinais anteriores, o orante, com o tempo vai passando neste estado, sente com certa frequência um como que “não sei o que”, uma atração quase imperceptível que o chama ao “fundo” de si mesmo, atração que é como um toque  sumamente delicado. Nesse fundo começa a notar paz, tranquilidade, confiança, ternura; deixou de ter interesse em perceber aspectos parciais e concretos da realidade divina;todo o seu olhar projeta-se inteiro na totalidade da realidade divina.
É necessário que os três sinais coexistam juntos. Neste estado, não aumentam as noções teológicas, mas surge uma nova forma de ver, sentir, conhecer e captar a misericórdia de Deus. Ao aumentar o “sentido de Deus”, a pessoa fica, cada vez mais firmemente orientada para Cristo.
Geralmente o orante entra na oração de quietude depois de um período de persistente aridez com aqueles sinais anteriores indicados, caracterizado pelo desaparecimento das consolações espirituais.
Nesta escuridão e aridez, começa a notar-se  esse “não sei o que” que é a presença amorosa de Deus. À medida que o espírito experimenta a unção desta oração, adquire uma nova experiência de Deus. Aqui exclui-se absolutamente a imposição da meditação. O mais que o orante pode fazer, neste período, é valer-se de uma expressão unitiva, para que o fogo não se apague. porque ao não poder meditar, entra na aridez…caminha cada vez mais para a oração da quietude.
AS TRÊS ETAPAS DA ORAÇÃO DE QUIETUDE
 
Este nível de oração já é união propriamente dita, se bem que imperfeita. Na chamada “Oração de Quietude” podemos distinguir 3 etapas que, percorridas todas elas, podem existir conjuntamente ou isoladamente.
1. ORAÇÃO DE RECOLHIMENTO INFUSO OU PASSIVO – Este nível de oração é a união (incipiente) da inteligência com Deus, o qual, com sua formosura e claridade infinita, atrai, embeleza e interiormente possui, cativa e conforta, enriquecendo-a com os preciosos dons de ciência, conselho e inteligência, mediante os quais a faz penetrar, como de um golpe, nesse mundo superior. Deste modo, unindo-a cada vez mais consigo, mesmo sendo só por uns breves instantes, deixa-a purificada e iluminada.
Diz-nos S. Teresa de Jesus acerca desta oração:
‘A primeira oração que senti, a meu ver, sobrenatural, é um recolhimento interior que se sente na alma”; “Não penseis que isto é adquirido pelo entendimento, procurando pensar que têm dentro de si a Deus, nem pela imaginação, imaginando-o dentro de si’.
 
A este recolhimento infuso ou passivo, costuma preceder – ou às vezes a seguir – uma viva presença de Deus também passiva com a qual a pessoa vem a experimentar em todas as partes uma certa impressão da divina imensidade. 
Ao recolhimento passivo, são associados, como fenômenos parciais ou como simples efeitos, às vezes, uma admiração deleitosa, que dilata a alma e a enche de gozo e de alegria ao descobrir em Deus tanta maravilha de amor, de bondade e de formosura; outras vezes certa suspensão ou um profundo silêncio espiritual, no qual ela fica atônita, absorta, abismada e como que humilhada perante tanta grandeza.
2. ORAÇÃO DE QUIETUDE – Assim chamada pela paz e sossego que dá ao espírito. Diz-nos S. Teresa de Jesus acerca da oração de quietude: 
“A alma está tão satisfeita nesta oração de quietude que a faculdade da vontade deve estar, quase de contínuo, unida Àquele que somente a pode satisfazer.”
Esta oração é a união da vontade com Deus que, como sumo Bem, a atrai energicamente a fim de que somente em Deus encontre o seu repouso. Por momentos – que costumam ser bem curtos – a alma encontra o seu pleno descanso, refrigério e fortaleza, a sua paz e felicidade. Os efeitos deste repouso espiritual, são um grande aumento de saúde espiritual, de paz profunda e alegria serena e grande facilidade para tudo o que é bom, saindo a alma desse repouso muito melhorada e disposta para trabalhar por Deus.

3. SONO DAS POTÊNCIAS (faculdades) –  A este grau de oração, S. teresa chama de ‘sono das potências’, isto é, bloqueamento incipeiente das faculdades da alma: inteligência, memória e vontade, sobre as quais atuam as virtudes teologais da fé, esperança e caridade. É a última rampa que conduz à contemplação perfeita, de união.

No recolhimento infuso e na quietude, deus cativa a vontade, mas deixa a liberdade de pensar o que quisermos. Neste (sono das potências – acréscimo meu) Deus vai pressionando a vontade (que é a sede do verdadeiro amor) cada vez com mais força, produzindo-se efeitos de toda a ordem, no espírito e no corpo. Umas vezes sintoniza-se com o impulso divino e daí nasce uma pura alegria e a oração de louvor, outras vezes produzem-se tensões entre a parte do espírito que Deus cativa e a que fica livre, e daí resultam estados que se parecem menos com a oração do que com uma luta longa e penosa, com aspiração cada vez mais forte à união.

Diz S.Teresa que:

‘a alma está a morrer quase totalmente para todas as coisas do mundo e, em troca, está a gozar apenas de Deus’.

 Os sentidos da alma só têm capacidade para se ocuparem de Deus. Aqui se juntam uns «toques de amor» com os quais Deus a vai atraindo poderosamente, preparando-a para a verdadeira união.

As virtudes ficam mais fortes do que na passada Oração de quietude (…). Aqui, a humildade que fica na alma,  é muito maior e muito mais profunda que no passado, porque vê mais claramente que de si não faz nem pouco nem muito, a não ser consentir que o Senhor lhe fizesse mercês e as abraçasse a vontade.”

Toda essa experiência espiritual, jornada mistica,  não transcorre lá ou acolá, mas, bem aqui, dentro de cada um de nós servos e servas de Cristo. Acontece no nosso mundo interior, no santuário de nossa alma. 

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INTRODUÇÃO

A comunidade apostólica, retomando uma tradição vétero-testamentária, dedicou, desde o início, uma atenção toda particular ao Nome que o Filho de Deus assumiu no momento da Sua encarnação: JESUS, que significa JHWH É SALVAÇÃO. Além disso, três textos colocam em evidência a veneração da Igreja primitiva para com o nome de Jesus (Fl 2. 9-10;  At 4. 10-12;  Jo 16. 23-24).

Todavia, a Oração do Coração, enraizada no Novo Testamento, foi assumida por uma corrente própria da espiritualidade oriental antiga que foi chamada de hesicasmo. O nome provém do grego hesychìa que significa: calma, paz, tranqüilidade, ausência de preocupação.

O hesicasmo pode ser definido como um sistema espiritual de orientação essencialmente contemplativa que busca a perfeição (deificação) do homem na união com Deus através da oração incessante.

Todavia, o que caracteriza tal movimento é, seguramente, a afirmação da excelência ou da necessidade da própria hesychia, da quietude, para chegar à paz com Deus. Num documento do mosteiro de Iviron do Monte Athos, lê-se esta definição:

“O hesicasta é aquele que só fala com Deus somente e ora sem cessar”.

Os hesicastas, inserindo-se na tradição bíblica, exprimirão a experiência da oração contemplativa através da invocação e da atenção do coração ao Nome de Jesus, para caminharem na Sua presença, serem libertados de todo pecado e permanecerem no suave repouso de Deus à escuta da Sua palavra silenciosa.

A história do hesicasmo começa com os monges do deserto do Egito e de Gaza. “A nós, pequenos e fracos, não nos resta outra coisa senão refugiar-nos no Nome de Jesus”, disse um deles. Depois, se firma com o mosteiro do Sinai, com São João Clímaco. Um expoente máximo é, seguramente, Simeão, o novo Teólogo. Renascerá no Monte Athos no século XIV.

A VOCAÇÃO PARA A HESIQUIA

O termo grego hesiquia é traduzido em latim por quies, pax, tranqüillitas, silentium. Em geral, hesiquia significa quietude, mas pode também querer exprimir a paz profunda do coração. A etimologia é incerta: talvez o verbo da qual deriva – hèsthai, significa estar sentado.

Na literatura monástica, hesiquia revela no mínimo dois significados. Antes de tudo, tranqüilidade, quietude e paz, como estado de alma e condição estável do coração necessária para a contemplação. Significa ainda desapego do mundo na dupla acepção de solidão e silêncio.

A hesiquia expressa na paz, quietude, solidão e silêncio interior, que se consegue através da solidão e do silêncio exterior, se apresenta, todavia, como um meio excelente para se conseguir o fim da união com Deus na contemplação, através da oração contínua. Enquanto meio e não fim, a hesiquia distingue-se, quer seja da apàtheià dos Estoicos, entendida como ausência e liberação das 4 paixões fundamentais: a tristeza, o medo, o desejo e o prazer; quer seja da ataraxia dos Epicureus, que consiste na libertação da alma das preocupações da vida. Estes movimentos filosóficos sublinham e buscam a paz e a quietude da alma, somente como fim último e não como meio para uma plenitude de vida que somente Deus pode conceder.

Na literatura monástica, ao contrário, e em particular junto aos Padres do deserto, a hesiquia mantém sempre um colorido de meio e não de fim. Esta é um meio excelente, um caminho de amor autêntico, vivido no silêncio e na solidão com o fim de se chegar à oração verdadeira e autêntica contemplação. A hesiquia, em resumo, é o comportamento de quem, no próprio coração se põe na presença de Deus.

Para compreender os vários aspectos da hesiquia que o monge é chamado a exprimir, podemos nos referir à vida do abade Arsênio, o pai dos anacoretas. Eis como é contada a sua vocação à hesiquia: “Aba Arsênio, quando ainda morava no palácio imperial, orou a Deus com estas palavras : ‘Senhor, mostra-me o caminho que conduz à salvação ‘. E uma voz se dirigiu a ele e lhe disse: ‘Arsênio, foge dos homens e serás salvo ‘. O mesmo, já anacoreta, na sua condição de eremita, de novo dirige a Deus a mesma oração e ouviu uma voz que lhe disse: ‘Arsênio, foge (do mundo), permanece em silêncio e descanse na paz (hesiquia).’ É destas raízes que nasce a possibilidade de não pecar”. (Arsênio, 1.2). Esta última frase está na origem da vocação dos hesicastas: “Foge, cala, repousa!”. A fuga do mundo, o silêncio e a paz interior são os três comportamentos que dão forma ao estado de vida do monge, particularmente, do anacoreta.

FOGE 

Hesiquia como solidão O autêntico monge é chamado a viver, antes de tudo, a solidão. Os Padres do deserto sublinham com muita força a fuga dos homens, isto é, a necessidade de reduzir ao mínimo o contato com eles. Conta-se a propósito: “O beato arcebispo Teófilo dirigiu-se uma vez ao Abade Arsênio em companhia de um magistrado. Pediu ao ancião ouvisse dele uma palavra. Após um instante de silêncio, ele lhes respondeu: ” E se a disser, a observareis?” Prometeram fazê-lo. Disse-lhes o ancião: “Então, saibam que , onde estiver Arsênio, não vos aproximeis dele” (Arsênio, 7).

“O abade Marcos disse ao Abade Arsênio: “Por que fugis de nós?” O ancião lhe disse: “Deus sabe que eu vos amo. Mas, não posso estar ao mesmo tempo com Deus e com os homens. Os anjos do céu, que são milhares, têm uma única vontade, enquanto os homens têm muitas. Por isso, não posso deixar Deus para estar com os homens” (Arsênio, 13).

Alguns contatos discretos com o mundo podem ser também vantajosos. Todavia, somente para aqueles monges que conquistaram uma grande maturidade espiritual e aos quais é ordenado expressamente por Deus. Mas, em geral, o monge é convidado a garantir para si uma zona de calma, de silêncio, de solidão, para receber a formação da parte de Deus e habituar-se à Sua silenciosa presença.

A hesiquia como solidão não quer dizer somente fuga do mundo, mas quer dizer também uma certa estabilidade num determinado lugar solitário. Esta exigência é expressa com uma famosa fórmula que, mais tarde, tornou-se tradicional: “Permanece na tua cela, permanece no teu eremitério, e ela te ensinará tudo” (Moisés, 6). “Ensinará tudo” é a mesma frase que encontramos na boca de Jesus quando preanuncia a vinda do Espírito Santo (Jo 14, 26). Permanecer na solidão da cela é ainda abertura ao Espírito, ao Seu fogo e à Sua luz.

O abade Macário, o Egípcio, conjuga a fuga dos homens e a permanência na cela: “O abade Isaías pediu ao Abade Macário: “Diga-me uma palavra”. E o ancião lhe disse: “Foge dos homens!” E o abade Isaías lhe disse: “O que significa fugir dos homens?” E o ancião lhe diz: “Significa permanecer na tua cela e chorar os teus pecados”(Macário E, 27). E, dirigindo-se ao abade Aio, lhe dirá: “Foge dos homens, permanece na tua cela a chorar os teus pecados, e não ames a conversação com os homens e te salvarás” (Macário E, 41).

De fato, a cela é o ambiente para a hesyquia, dirá o próprio Antão, o Grande: “Como os peixes morrem se permanecem sobre a terra seca, assim os monges que se demoram fora da cela ou se entretém com o povo perdem a força necessária à hesyquia. Portanto, como o peixe para o mar, assim nós devemos correr para a cela para que não aconteça que, tardando-se fora, esqueçamo-nos de guardar o interior” (Antão, 10).

A solidão pode exprimir-se também num comportamento de contínua peregrinação de um lugar para o outro. De fato, todo lugar deve ser estranho ao monge. Uma tal estranheza – xenitèia – indica uma espécie de exílio voluntário longe das coisas mundanas. Afirma São Nilo: “O primeiro dos grandes combates consiste na xenitèia, isto é, no emigrar sozinho, despojando-se como um atleta, da própria pátria, da própria raça, dos próprios bens”.

O passar de um lugar ao outro é imitar o caminho de Jesus, como demonstra a seguinte historinha: “Do abade Agatão, contavam que empregou muito tempo junto aos seus discípulos. Para construir uma cela. Quando a terminou, começaram a morar nela, mas, já na primeira semana, viu alguma coisa que não o agradou e disse aos seus discípulos: “Levantai-vos, vamo-nos daqui!” (Jo 1, 31) . Eles ficaram muito perturbados e disseram: “Se tinhas a intenção de ir embora, por que nos cansamos tanto para construir a cela? As pessoas se escandalizarão de novo e dirão: “Estes instáveis partem novamente!” Vendo-os assim abatidos, ele lhes disse: “Mesmo que alguns se escandalizem, outros, por sua vez, serão edificados e dirão: Bem-aventurados aqueles que, por amor a Deus, se foram, desprezando tudo. Portanto, quem quiser vir, venha! Eu agora me vou”. Então, jogaram-se por terra, rogando que lhes permitisse partir com ele”(Agatão, 6; cf. também Amoés, 5).

Estes últimos apoftegmas nos permitem sublinhar o aspecto itinerante da hesiquia. Certamente, a cela é importante; mas, não se pode permanecer nela com o espírito de proprietário. O monge sabe ser estrangeiro sobre esta terra e, assim, abandona tudo o que possa desviá-lo do serviço de Deus, vivendo no escondimento e na espera, aguardando ardentemente o retorno do Senhor glorioso. A solidão exterior é certamente importante, mas, mais necessária, é a solidão do coração. Aqui se encontra a autêntica hesequia, ou o verdadeiro eremitismo, ou a anacorese interior, o monaquismo do coração, o único que pode conduzir à Oração de Jesus.

CALA

Hesyquia como silêncio.  Na solidão, o monge é chamado a viver o silêncio. A voz que Arsênio ouviu era, de fato, expressa nos termos que sabemos: foge, cala, repousa. O silêncio que vivem os Padres do deserto, como justamente foi dito, “é um silêncio dos mil nomes e dos mil rostos onde tudo está no seu lugar. É um silêncio precioso para a alma, um silêncio que faz parte da transcendência.

Dos vários apoftegmas decorre que o silêncio dos Padres do deserto é o silêncio da humildade, do calar-se sobre si mesmo, é o silêncio que tira as palavras ao egoísmo, à soberba, ao amor próprio; é o silêncio de quem se faz peregrino e estrangeiro, mas é também o silêncio do amor, o silêncio de quem não julga o próximo, de quem não fala ou murmura dos outros, enfim, é o silêncio da fé, de quem se confia no Totalmente Outro, de quem se colocou completamente nas Suas mãos”.

Consideremos algumas particularidades deste grande silêncio. A oração incessante é o problema prático fundamental que foi muito debatido nos primeiros séculos cristãos. Os monges tinham o dever de praticar esta ordem da Escritura, mais do que todos os outros cristãos. O seu amor pelo silêncio é, sem dúvida, a forma, o clima e a dialética mesma da oração ininterrupta. O silêncio é como uma cela e uma espécie de eremitério portátil do qual o homem de oração não sairá nunca, mesmo quando, por motivos de caridade, deverá sair da sua cela visível. Afirma o grande Poemén: “Se estiveres em silêncio, obterás o repouso em qualquer lugar que habitares” (Poemén, 84).

Guardar o silêncio quando se apresenta a ocasião de falar, é a verdadeira fuga dos homens: “Dominar a própria língua: eis a verdadeira xenitèia “, afirma o abade Titoes (ve D 84). “O aba João era fervoroso no Espírito. Alguém veio visitá-lo e louvou o seu trabalho. Estava trabalhando com corda e permaneceuem silêncio. Tentouuma segunda vez fazê-lo falar, mas ele continuava calado. Pela terceira vez, disse ao visitante: ‘Desde quando veio, você afastou Deus de mim” (João , 32).

“Em Cétia o grande abade Macário, quando se dissolvia a assembléia, dizia: “Fugi, irmãos!” Um dos anciãos lhe perguntou: “Para onde podemos fugir além deste deserto?” Ele punha o dedo sobre a boca dizendo: “Fugi disto!’ e entrava na sua cela, fechava a porta e se sentava (punha-se em hesiquia)” (Macário, E 16).

O silêncio ao qual convidam os Padres do deserto é também testemunho. Segundo a sua experiência, é necessário falar com as obras e não com a língua. É o próprio caminho de fé que opera; as palavras são muitas vezes inúteis. “Um irmão pediu ao aba Sisoes: “Diga-me uma palavra!” Ele lhe disse: “Por que me constranges a falar inutilmente? Faze aquilo que vês!”(Sisoés, 45). “Um irmão pediu ao abade Poemén: “Irmãos vivem comigo. Queres que lhes dê ordens?” “Não”- lhe disse o ancião – “faça o seu trabalho, antes de tudo. E se quiserem viver isso pensarão por si mesmos”. O irmão lhe disse: “Mas, são eles mesmos, pai, que querem que lhes dê ordens”. Disse-lhe o ancião: “Não! Torne-se para eles um modelo, não um legislador” (Poemén, 174).

O abade Isaías disse ainda: “Não deve ser a tua língua a falar, mas as tuas obras, e as tuas palavras sejam mais humildes que as tuas obras. Não penses sem inteligência, não ensines sem humildade, a fim de que a terra possa receber a tua semente.” Os frutos do silêncio, segundo os Padres do deserto, são múltiplos. O silêncio dá a quietude (Poemén, 84); gera a castidade (Ditos V, 25); é ajuda contra os ímpios (Ditos XI, 7); conserva a alma na paz (Matoés, 11). O silêncio é humildade (Ditos, XV, 76). O silêncio ajuda a não julgar o próximo, a não condenar ninguém, é remédio contra a maledicência. É escola de tolerância para com todos (Ammon, 8). Todavia, um tal silêncio exige muita coragem. Poemén afirma: “Na primeira vez, foge! Na segunda, foge! Na terceira, torna uma espada” (Poemén, 40).

REPOUSA

Permanece na paz interior Solidão e silêncio praticados concretamente representam, para os Padres do deserto, o momento fundamental da hesiquia do corpo, da hesiquia exterior. Uma quietude que, ainda que externa, é fundamental. De fato, como afirma Macário: “Ninguém pode ter a hesiquia da alma, se não se assegurou, antes, a do corpo”. Certamente, porém, é a hesiquia interior o eixo essencial da espiritualidade monástica oriental. Da solidão e da ausência de palavras, o monge é chamado a passar ao silêncio profundo ativo e criativo. E isto nada tem a ver com o quietismo. Pelo contrário: “é busca da única quietude possível, que é a paz de Cristo, a paz exultante de Deus o fundo do coração”.

O monge se consagra por vocação a perseguir unicamente a união com Deus através da oração que, por sua vez, pressupõe o total desapego, a perfeita purificação, a renúncia a tudo o que poderia atrasar a sua caminhada espiritual. Os Padres do deserto “recordaram, muitas vezes, que Jesus, mesmo depois do primeiro retiro no deserto, muitas vezes buscou a solidão. A solidão põe, portanto, o monge no centro mesmo do mistério da redenção, numa configuração a Cristo que toca o ápice mais doloroso, mas também o mais fecundo da Sua obra de salvação “.

Deste modo, a ligação entre a solidão e a oração prolongada, êxtase e sofrimento, vem solidamente afirmado. A busca cristã da solidão, do silêncio e da paz interior poderia parecer uma ponta sofisticada de egoísmo. Mas, não é assim. “Consagrar inteiramente a própria vida terrena para que Deus seja tudo em todas as coisas é precisamente o oposto do egoísmo. É participar do modo mais generoso possível, depois do martírio, à grande obra de Deus-Caridade”.

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Extraído de: M. Brunini: “La preghiera del cuore nella spiritualità orientale, ed. Messaggero – Padova

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