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Posts Tagged ‘solidão’

Acredito que este será um dos meus textos mais pessoais. Digo isso por causa do seu conteúdo e por causa do lugar de onde ele vem: das profundezas ocultas, contraditórias e inescrutáveis de um coração humano.

Cheguei a um ponto de minha caminhada em que tomei o medo de amar. Pelo menos no que diz respeito a outras pessoas. Tenho medo de amar porque este verbo é conjugado em parceria com outro: relacionar-se. Amor e relacionamento são irmãos siamezes, os quais não podemos separar, sob pena de matar a ambos.

Neste sentido, posso também afirmar que tenho medo de relacionamentos. Relacionar-me com outras pessoas evoca inseguranças e incertezas que acabam por paralizar-me na busca do aprofundamento interpessoal. E isso, de certo modo, me fere , pois sei que tal fobia acaba por lançar-me na contradição de tudo quanto tenho pregado e ensinado acerca do caminho místico cristão. Mas…o que posso dizer? Tenho medo!

Tenho medo porque o amor de relacionamentos, ou melhor, os relacionamentos de amor, são realidades que muitas das vezes nos escapam das mãos. Escorrendo entre os dedos sem que possamos fazer nada, assim como não conseguimos reter a água que pegamos com as mãos: ela se esvai, e quando abrimos as mãos, já não a temos.

Todavia, esta mesma água que se foi deixa suas marcas em nossas mãos. Fica uma certa humidade em nossa pele em decorrência de sua passagem. Relembrando-nos algo que num momento tivemos e que agora encontra-se no pretérito de nossa história.

Relacionamentos de amor que se foram também deixam marcas profundas em nossas vidas. Saudades, frustrações, ódio, raiva, indignação, carinho, bondade, plenitude, vazio. Cabe a nós buscarmos reconciliar estas realidades interiores afim de que, as mesmas, não acabem por nos fragmentar a alma.

A questão é esta. Temos sequelas no âmago de nossa interioridade. E não podemos e nem devemos negar isso. A fuga não é, de maneira alguma, solução para nós.

Em alguns momentos estas sequelas incomodam e ponho a me questionar: porque as coisas não podem ser como sempre foram? Por que quando mudam é, aparentemente, para pior? Por que amigos se separam pela distância ao ponto do relacionamento resumir-se numa tela de computador? Por que pessoas que antes eram amigas, “unha e carne”, para usar a terminologia popular, transformam-se em meras colegas com pouca ou quase nenhuma daquela afinidade antiga restando?

Todos estes questionamentos e todas estas sequelas têm sua resposta e cura quando unificamos a todas no silêncio e na solidão nossa, delas e de Deus. Pois, é no silêncio da solidão que todas as realidades assumem seu real significado.

Isso se dá pelo fato de que no silêncio nossa pobreza fica-nos patente. E como homens e mulhres pobres em espíritos nada temos que não nos tenha sido dado por Deus e que, por esse motivo, o desapegar-se é a resposta mais coerente diante do que temos recebido. E que, portanto, já que nada temos e a nada nos apegamos, devemos aceitar e nos sujeitar á Sabedoria divina em decidir até quando nos é conveniente termos aquilo que na verdade não temos, porque no fundo nunca nos pertenceu.

“Do Senhor é a terra e a sua plenitude; o mundo e aqueles que nele habitam” (Sl 24.1)

Este texto nos dá o foco correto da realidade. Nos mostra que tudo pertence a Deus, e que ao chamarmos algo de “nosso” não tratamos de um caso de “possessão”, mas sim, de uma mordomia em amor. Porque o que tem-nos sido dado é dom. E todo dom só merece e aceita uma única resposta: amor. Amor este que faz com que a gratidão brote como renovo no solo árido do nosso silêncio/solidão. Pois, é lá, onde verdadeiramente todas as coisas, inclusive nós mesmos, recebem o seu real valor.

O verdadeiro amor concede passagem. Liberta. Não embarreira. Mas, permite a partida. Mesmo que lhe doa. Este amor verdadeiro, que é e vem de Deus, toma vulto e consistência no silêncio e na pobreza espiritual de nossa solidão.

Na solidão e silêncio, onde tudo e todos assumem sua verdadeira forma, tomamos consciência de que as pessoas com quem convivemos são indivíduos no seu próprio silêncio, com uma história sendo escrita, com um rumo a ser tomado e uma jornada a ser percorrida. E cabe-nos apenas o respeito e a reverência diante desta individualidade de cada um. Quando conseguimos adentrar neste mundo sagrado da individualidade humana, isso nos é silêncio: nosso, deles e de Deus. Não mais fragmentado, mas, unificado e integrado em todas as coisas.

Assim, quando penetramos e permanecemos na solidão e no silêncio da unidade e da individualidade humanas, já não encaramos nada como perda. Pois, a ninguém possuímos. Mas, sim, como uma saga de amor em que Deus é o próprio autor desta história.

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