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Posts Tagged ‘Teologia’

jesussorrindoDiante da possibilidade que um texto como esse tem de gerar polêmica, começando pelo seu título, são necessárias algumas palavras iniciais à guisa de esclarecimento. 

Quando refiro-me a essas duas classes de cristãos não estou de forma alguma normatizando nenhum dos dois lados. No entanto, mediante convivência, observação e experimentação pessoal ao longo dos anos de vida cristã, acredito que os aspectos que irei expor a seguir traduzam o que se vê com mais frequência.

Por místico estou querendo destacar aqueles cristãos que experimentaram Deus de forma pessoal e imediata. Que aprenderam a apaziguar o coração através de disciplinas como o silêncio, a solitude e com isso tiveram acesso àquela voz que vem ao nosso encontro como brisa suave aos ouvidos. Místico é aquele cristão que não faz de Deus um sapo que se possa dissecar para a análise, estudo e curiosidade intelectual, mas, que o enxerga como um sujeito de relacionamento. 

Teólogo é aquele que sucumbiu à tentação de querer domesticar, através de esforços dogmáticos, o Deus que é selvagem no seu anseio furioso em nos amar por pura graça. É aquele que acredita que o Deus que é mysterium tremendum pode ser reduzido e trancafiado  dentro de  caixinhas teológicas hermeticamente fechadas de nossos arraiais denominacionais.teologia_deus_pt

Teólogo é todo aquele que se infla por saber coisas sobre Deus. Místico é todo aquele que é tomado de imediato por um santo assombro, fascínio, deslumbramento, paixão porque conhece a Deus e sabe que se encontra absorto na Presença.

Sinto-me à vontade e ao mesmo tempo com temor no coração em escrever o que vou escrever porque um dia estive do lado dos teólogos, batendo no peito diante do meu conhecimento intelectual acerca das principais verdade da fé cristã. Hoje, continuo batendo no peito só que com uma diferença: nem se quer conseguindo levantar os olhos, mas, sussurrando hesitante aos céus –  “Sê propício a mim, um pecador!”

Agora, se isso faz de mim um místico, eu já não sei. Não faço a mínima ideia do que falam de mim, muito menos do meu relacionamento com Jesus Cristo. E isso pouco me interessa.

Logo, porque prefiro a companhia dos místicos à dos teólogos?

1. Porque os místicos não dizem que são místicos. Eles simplesmente não se auto-rotulam. Não procuram por títulos. Já os teólogos adoram trombetear pelos quatro cantos: “Ah! Eu sou calvinista!”; “Ah! Eu sou arminiano!”; “Ah! Eu sou pelagiano!” ou “Eu sou semi-pelagiano!” etc. Diferentemente, um místico nunca se disse “Eu sou um místico!” Pelo contrário, a rotulação sempre veio de fora para dentro e não de dentro para fora. 

2. Porque os místicos jamais se fecham dentro de um ostracismo absoluto e exclusivista. Ou seja, eles não se acham os donos da verdade. Até porque eles sabem que a Verdade não é um sistema teológico compostos de máximas que se apreende de forma intelectual, mas, uma pessoa viva com quem nos relacionamos em amizade. Já os teólogos que batem no peito expondo seus orgulhosos rótulos e títulos só conseguem enxergar seu sistema teológico como o único certo, o único verdadeiro. Eles não estão abertos para aprender com o que lhes é diferente. Para os teólogos seu sistema teológico é exaustivo, ou seja, nele está encerrada toda a Verdade. E com isso acabam se fechando para os múltiplos veículos através dos quais Deus pode lhes conceder discernir Sua Presença e amor. 

3. Porque os místicos buscam preservar o mistério da vida, enxergando a criação com beleza e fascínio. Os teólogos, com seus tomos teológicos debaixo do braço, acabam passando desapercebidos e distraídos diante de uma margarida que cresce despretensiosa á beira do caminho. Não param para observar, contemplar, agradecer. E quando param é para analisar, dissecar, taxar e rotular. Tudo precisa ter uma explicação e fundamentação teológica: terremotos, tsunamis, doenças incuráveis, uma rosa que no dia anterior era em botão e na manhã seguinte desabrocha em pétalas salpicada pelas gotas de orvalho. O sagrado não permeia sua olhada ao redor do mundo lhes fazendo  silenciar e intuir que “entre o céu e a terra, existem mais mistérios do que nossa vã teologia pode explicar”. 

4. Porque os místico se achegam à Bíblia e ao abri-la têm o entendimento de que a própria boca de Deus abriu-se  para lhes falar ao coração. Não a lêem e meditam para investigar mas para ouvir. A Bíblia não é material para a vaidade intelectual, mas, terra sagrada onde tiramos as sandálias para ter um encontro com o totalmente Outro. Teólogos, por sua vez, debruçam-se nas páginas sagradas para angariar informações acerca da verdade, para preparar estudos bíblicos, sermões exegeticamente impecáveis ao passo que a voz divina, advinda das mesmas páginas dissecadas e investigadas, não passa de uma doce e longínqua lembrança. Místicos buscam na Bíblia formação espiritual ao passa que teólogos estão em busca de informações intelectuais espiritualizadas.

5. Porque os místicos entendem que a oração vai muito mais além do mero utilitarismo de se pedir,  interceder ou suplicar. Oração é encontro com Deus e em muitos momentos, assim como acontece com um casal de apaixonados, palavras são dispensáveis. Basta se estar com e isso é suficiente. Descansar imerso e consciente dessa imersão na substância da Presença divina. Deixar-se abrasar e ser consumido pelas chamas do Sagrado assim como um galho em silêncio é tomado aos poucos pelo fogo. Teólogos só conhecem oração como verborragia. Não saem da dimensão vocal. Oração é sinônimo de se falar, falar e falar para Deus. Desconhecem que oração também é falar com Deus, estar com Deus e ouvir a Deus. Isso porque oração é relacionamento. 

6. Porque os místicos aceitam a via intuitiva como meio para se apreender as realidades espirituais. Eles sabem que algo tão profundo, inigualável e extravagante como o amor de Jesus Cristo, excede o entendimento humano, ou seja, o exercício reflexivo acerca das coisas do espírito encontra um ponto de limite, de onde não se pode continuar avançando. Daí entra a intuição, a imaginação e a percepção extra-noia (além das, que transcende as faculdades mentais). Os teólogos encerram tudo no ato intelectual da reflexão. Tudo que é verdadeiro necessariamente tem que passar pelo crivo da razão humana. Nada que possa ultrapassar a capacidade humana de analisar, estudar e definir é digna de ser levada a sério. Teólogos leem a Bíblia apenas com a mente. Místicos aprenderam a ler as Escrituras com o coração.  Em relação á verdade divina, para os místicos, a expressão “descer da mente para o coração”, é especialmente familiar. 

7. Porque os místicos caminham pela via negativa (apofática) no que diz respeito ao conhecimento de Deus. Eles não se atrevem a definir Deus dizendo: “Ele é isso” ou “Ele é aquilo”. Preserva-se o mistério do Deus absconditus, não obstante, auto-revelado. Entende-se que o caminho mais seguro para se saber quem Deus é, se dá na afirmação de quem ele não é. Místicos não tem medo das “noites escuras da alma”. Sabem que esses momentos de aridez espiritual em que se experimenta a “ausência” de Deus são imprescindíveis para a purificação e preparo de nossos corações para uma experiência mais íntima com Aba. Místicos não temes tais desertos porque sabem que a experiência da “ausência” não se traduz em ausência da experiência. Teólogos só caminham pela via positiva (catafática) definindo quem ou o que é Deus. No entanto surge uma dificuldade nesse momento: como definir o indefinível? Como limitar o ilimitável? Como dizer o que é Aquele que habita em luz inacessível? É por essa razão que os místicos silenciam perante a Presença, pois, como encontrar palavras para mensurar o imensurável? 

8. Porque os místicos aprenderam a desacelerar o ritmo. Não aceitam a tirania das agendas superlotadas. Sabem da importância  de ser ter tempo para parar e observar. Para cultivar amizades profundas em detrimento de efêmeras. Sabem que o seu real valor não se encontra no que fazem, nem muito menos na opinião que as pessoas têm a seu respeito. Mas, unicamente na sua identidade originada em Deus. Sabem que são amados. E isso lhes basta. Místicos são, literalmente, pessoas livres em Cristo da necessidade da auto-afirmação perante outros. Teólogos precisam de agendas lotadas: quanto mais compromissos melhor. Quanto mais oportunidades de pregar e ensinar melhor. Pois, que outra maneira poderia existir para que continuassem a se auto-afirmar acerca de suas convicções teológicas perante as pessoas?

9. Porque os místicos nunca pensam já ter chegado lá. Mas, encaram a vida como uma jornada em que caminhamos e avançamos. Em alguns momentos paramos para reavaliar o caminho para logo em seguida prosseguir viagem. Teólogos, pelo contrário, acreditam que já sabem o suficiente. E que esse suficiente é tudo o que precisam saber. 

10. Porque os místicos nunca jamais se escandalizariam com a imagem que ilustra esse texto. Eles conseguem enxergar um Cristo sorridente, de bom humor. Que amava a vida e a celebrava com intensidade. Teólogos são extremamente formais até na informalidade de uma conversa com um amigo. Não sabem relaxar. Contar uma boa piada. Rir de seus próprios erros e idiotices. Pior ainda, não conseguem aceitar um Jesus rindo a ponto de lhe doer a  barriga diante de nossas hesitações e burradas. Para o místico a vida é algo leve e despretensioso  Ao passo que o teólogo vive em perpétua tensão. 

Como disse no início, não generalizo nem normatizo os grupos. Contudo, a observação pessoal e o acesso a seus pensamentos tem me levado a concluir que os pontos acima destacados acabam por traduzir aquilo que encontramos nos dois grupos em caráter usual. 

Não recrimino quem prefere a companhia de teólogos. De forma alguma! Cada um tem o direito de escolher para si o par com quem deseja compartilhar sua  jornada rumo a Deus. Bem, eu já fiz a minha escolha e…  não me arrependo!

Pax et bene!

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QUE CADA UM TIRE SUA PRÓPRIA CONCLUSÃO!

Paz e bem!

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Deus definitivamente não cabe numa teologia, seja ela qual for. Não tem como domesticar o Grande Criador do universo e aprisioná-lo numa jaula de dogmas e sistemas doutrinários. Quando falamos da teologia estamos tratando de uma ótica em que alguém compreendeu, ou pelos menos pensa assim, Deus e o seu relacionamento com as demais coisas existentes. Por isso, toda teologia por mais bíblica que seja possui fissuras, pois, a mesma é feita por homens pecadores e imperfeitos. Ninguém jamais, jamais, terá uma compreensão total do ser divino. Deus permanece habitando em luz inacessivel. Acredito que deveríamos aprender com os serafins que com duas asas taparam o rosto perante a majestade entronizada pelos séculos sem fim.

O grande problema da teologia, principalmente a acadêmica, é de achar que Deus é uma coisa que pode ser objeto de estudo humano. Que tolice: o infinito e  eterno querendo ser compreendido pelo finito e passageiro! E em meio a esse delírio humano, especialistas, doutores e mestres dissecam a Deus como os estudantes de ciências dissecam um sapo para ver o que tem dentro. Inevitavelmente o sapo precisa ser morto para que possa ser estudado dessa forma. É claro que Deus não morre, mas, quando o homem se coloca como especialista em divindade outras coisas, invariavelmente morrem: o temor, o espanto, o assombro, aquele arrebatamento em amor que nos faz silenciar reverentemente ante a glória refulgente.

De forma alguma sou contra a teologia. Acredito que teologia e espiritualidade podem e devem caminhar de mãos dadas, como boas amigas. No entanto, precisamos urgentemente de uma teologia que não ousa estudar Deus, que não se infla em querer entender a Deus. Carecemos de uma teologia que acolha o mistério, que resguarde as devidas proporções do que podemos saber e o que permanece em santa escuridão. Precisamos de uma teologia mais mística que nos introduza na chama do Sagrado, que arrebate nossos sentidos em amorosa e profunda contemplação do Ser Amante. Em outras palavras precisamos de uma teologia espiritual e menos academicista. Uma teologia que flua do âmago do ser humano. Que permita que as verdades acerca de Deus desçam da mente e assentem no coração. Necessitamos sim de uma teologia que torne a experiência com Deus (espiritualidade) algo possível e concreto na vida daqueles que seguem o Caminho em adoração.

Teologia sem espiritualidade é aridez mórbida. Ao passo que espiritualidade sem teologia é emocionalismo exacerbado, é crendice sem fundamento e exoterismo pagão. A teologia pavimenta a espiritualidade com as verdades acerca de quem Deus é, o que ele faz e o que espera de nós. A espiritualidade, poder-se-ia dizer que é o embelezamento do caminho que devemos trilhar: são as árvores, as roseiras silvestres, os pores do sol que tornam a jornada mais cheia de significado e bondade.

Contudo a teologia pode ir até certo ponto do caminho. Quando se depara com o mistério deveria, humildemente, dar espaço para que a espiritualidade se prostre e nos conduza até onde não poderíamos mais ir através dos compêndios filosóficos e doutrinários, por melhores que sejam eles. Tem coisas que nem uma boa exegese pode nos conceder. Existem experiências que transcendem toda e qualquer argumentação humana por mais teologicamente exata que seja.

Eu já fui adepto e ferrenho estudioso e defensor da teologia  acadêmica. Vivia debruçado nos livros, comentários e coisas dessa natureza. Deus, para mim, tinha se tornado um objeto a ser estudado e não alguém que me amava profundamente e ansiava ter comunhão comigo. Minha vida espiritual se tornou numa aridez de deserto. Oração e meditação bíblica desapareceram da minha vida. Eu só abria a Bíblia com o propósito de consulta-la para um sermão, aula de EBD ou qualquer outro tipo de estudo e não para ouvir a voz do meu amado Abba, paizinho. A teologia acadêmica me fez ficar oco por dentro. Um coração gelado e crítico quando o assunto era Deus e as coisas relacionadas a Ele.

A misericórdia divina brilhou novamente sobre mim quando um amigo de longa data me apresentou a teologia espiritual, a espiritualidade clássica e os grande místicos da fé cristã. Ah Deus! Voltei a respirar. Posso dizer que o meu coração voltou a “bater” no ritmo da paixão que  meu Amado tem por mim.

O grave erro da teologia é querer explicar tudo. Não quero mais explicações. Desejo mais mistério, porque necessito de contemplação. Fui criado para isso. Essa é a minha vocação mais essencial.

“Uma coisa pedi ao Senhor é o que procuro: que eu possa viver na casa do Senhor

todos os dias da minha vida, para contemplar a bondade do Senhor…”

(Sl 27:4)

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