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Posts Tagged ‘vida contemplativa’

Começo hoje a compartilhar uma série de textos objetivos acerca da FORMAÇÃO ESPIRITUAL. Busco demonstrar à luz das Escrituras que as múltiplas dimensões da espiritualidade que Jesus viveu formam um convite amplo para a imitação de sua vida. É necessário dizer que tudo o que será compartilhado a partir desse primeiro texto encontra-se debaixo de um contexto cristão. Ou seja, subtende-se que o estilo de vida e as práticas devam acontecer debaixo de uma realidade caracterizada por uma relação filial com Deus que nos é concedida  mediante a experiência salvífica e regenerativa com o Evangelho de Cristo, logo, com o próprio Cristo vivo e pessoal. 

Todos os textos dentro dessa série na verdade surgiram originalmente como uma série de mensagens que preguei em minha comunidade espiritual (igreja) e que recebeu o título de “As Seis Tradições da Espiritualidade Cristã e a Vida de Cristo”. Logo, o que estrei postando é uma adaptação da mesma. 

Espero sinceramente que os simples textos alicerçados no fundamento imutável das Escrituras possam estimular cada leitor a uma séria reflexão e ajustes necessários para que em cada filho e filha de Deus se cumpra o preceito registrado em 1Jo 2:6 – “Aquele que diz estar nele deve ANDAR como Ele ANDOU”. Um convite à vida. E que o Eterno nos abençoe nesse propósito. Amém!

JESUS O HOMEM CONTEMPLATIVO

Existe uma palavra chave que define a tradição contemplativa de espiritualidade. E essa palavra é “intimidade”. E podemos ver que a Bíblia é clara e pródiga em nos convidar ao crescimento e aprofundamento na intimidade com Deus.Quando olhamos com atenção para a vida de nosso Senhor Jesus Cristo nenhum aspecto é mais marcante do que exatamente sua intimidade com o Pai.

Algumas afirmações de Jesus no evangelho de João mostram bem essa intimidade. Por exemplo, em Jo 5:19 Jesus fala acerca de seu ministério – “Eu lhes digo verdadeiramente que o Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer, porque o que o Pai faz o Filho também faz”.Continuando sua explanação no verso 30 o Senhor declara – “Por mim mesmo, nada posso fazer; eu julgo apenas conforme ouço, e o meu julgamento é justo, pois não procuro agradar a mim mesmo, mas àquele que me enviou”.

No capítulo 14:10 encontramos as seguintes palavras do Senhor acerca de sua pregação – “As palavras que eu lhes digo não são apenas minhas. Ao contrário, o Pai, que vive em mim, está realizando sua obra”. E acredito que nenhum outro texto exprime mais a intimidade entre Jesus e o Pai do que o de Mt 11:27 – “e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.

A redescoberta da tradição contemplativa por parte de uma parcela do povo de Deus tem trazido uma grande contribuição para a formação espiritual cristã. E dentre os vários tesouros redescobertos, as disciplinas espirituais ocupam uma posição especial. E dentre elas, a oração tem um grande destaque. A tradição contemplativa também pode ser definida como a vida plena, embriagada, transbordante de oração.

Quando olhamos para Jesus percebemos que oração e vida não era uma realidade dicotômica na vida de Jesus. Orar e viver, viver e orar para Cristo era a mesma coisa. A oração e a vida de Jesus estavam entrelaçadas como os fios se entrelaçam para formar uma peça de vestuário. Nós vemos em Lc 3:21 que quando Jesus foi batizado por João ele “estava orando”. Também vemos que por ocasião da escolha dos doze apóstolos, Jesus foi sozinho para um monte e “passou a noite orando a Deus” (Lc 6:12).

Depois de uma tarde exaustiva em que ele curou a muitos expulsando demônios, Marcos nos relata que Jesus levantou-se “de madrugada, quando ainda estava escuro (…)” e “foi para um lugar deserto, onde ficou orando” (Mc 1:34,35).

E muitas e muitas outras passagens nos mostram a centralidade da oração na vida e ministério de Jesus. Por exemplo, ele estava orando quando perguntou: “Quem vocês dizem que eu sou?” (Lc 9:18-20). No monte onde ele se transfigurou, a Bíblia diz que ele pegou Pedro, Tiago e João e os levou “para orar” (Lc 9:28,29). E quando os discípulos não puderam expulsar o demônio de um menino, Jesus explicou o fracasso deles com as seguintes palavras – “Essa espécie só sai pela oração” (Mc 9:29).

Jesus não apenas orou como também ensinou seus discípulos a orar. A vida de Cristo foi uma escola de oração. Ele ensinou seus discípulos a se achegarem a Deus de um modo mais íntimo dizendo “Aba, Pai” (Mc 14:36). Ele os ensinou a orar no quarto “em secreto” (Mt 6:6).

Ele ensinou através de parábola acerca do dever de orar sempre e nunca desanimar (Lc 18:1). Ensinou também a crer que vai acontecer aquilo que pediram em oração (Mc 11:23).  E muito mais.

Outras duas disciplinas espirituais presentes na vida de Jesus que acompanhavam a oração eram a solitude e o silêncio. Porque uma não existe sem a outra. A figura do deserto ou de lugares desertos nos traz o deslumbre dessa faceta da espiritualidade de nosso Senhor. Por exemplo, em Mt 4:1 as Escrituras nos dizem que –  “Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo”. E lá permaneceu por quarenta dias e quarenta noites.

Depois de saber da morte de João Batista a Bíblia diz que o Senhor “retirou-se (…) em particular, para um lugar deserto” (Mt 14:13).
As Escrituras também relatam que após alimentar aquela grande multidão multiplicando cinco pães e dois peixinhos, Jesus imediatamente “subiu sozinho a um monte para orar” (Mt 14:23).

Quando os discípulos estavam exaustos por causa do ritmo do ministério Jesus fez o convite – “Venham comigo para um lugar deserto e descansem um pouco” (Mc 6:31). E Lucas se referindo a uma prática habitual de Jesus escreve as seguintes palavras – “retirava-se para lugares solitários, e orava” (Lc 5:16).

E muitas outras disciplinas espirituais vemos presentes na vida do Senhor: o jejum por exemplo. Em Mt 4:2 na solidão e silêncio do deserto é-nos dito que – “depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome”.  E diante da negativa de Jesus aos seus discípulos pelo convite para que ele se alimentasse foi dito – “tenho algo para comer que vocês não conhecem (…) a minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra” (Jo 4:32,34).

Muitas outras disciplinas como o segredo, a simplicidade, a comunhão, a celebração, a meditação, a frugalidade estavam presentes na vida e ministério de Jesus. Só que a palavra de hoje não nos dá espaço para olharmos de perto cada uma delas.
No entanto, acredito que o que foi compartilhado hoje já nos dá uma ideia inequívoca de que Jesus era um homem cuja vida era impregnada por hábitos espirituais. Jesus verdadeiramente era um homem que tinha intimidade com o Pai. Jesus era um homem de vida contemplativa. Amém?
 
CONCLUSÃO E APLICAÇÃO

Gostaria de finalizar essa breve exposição aplicando o seu conteúdo às nossas vidas. Se desejamos viver esse aspecto da vida de nosso Senhor devemos refletir em algumas perguntas:

(1) Nesse exato momento de sua vida, qual é o grau de intimidade que você desfruta com Deus?

(2) Você pode afirmar com toda certeza que seu relacionamento com Deus tem sido uma realidade crescente e não estagnada?

(3) Qual o lugar que a oração e as outras disciplinas espirituais ocupam na sua vida?

(4) Você tem conseguido desacelerar seu ritmo de vida para reservar momentos a sós com Deus?

Que Deus nos ajude nessa reflexão e nos ajustes que precisarmos fazer afim de que possamos experimentar essa dimensão da espiritualidade de nosso Senhor. Amém! 

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A maiêutica é um método de aprendizado inventado pelo filósofo grego Sócrates (469-399 a.C.). Ele cria que a verdade estava dentro dos seus discípulos, cabendo-lhe, como mestre, apenas a tarefa de promover o chamado “parto intelectual”. Em outras palavras, o processo ajuda a nascer aquilo que o discípulo intuitivamente já sabia, mas por si só não era capaz de gerar. Usando desta metodologia, que consistia em fazer perguntas e não trazer informações prontas, o sábio ensinava seguidores a dar luz a novas ideias e a todo um conceito de viver. Foram as perguntas, e não as respostas, o ponto de partida de um dos momentos mais férteis do pensamento humano.

Fazer perguntas sem a preocupação de fornecer-lhes respostas pode nos levar a trilhar novos caminhos ou reencontrar rumos que já perdemos. Por exemplo – a nossa experiência com Deus tem várias dimensões ou somente uma? Se tem várias, quais são? Podemos dizer que há uma dimensão exterior desta experiência, perceptível ao olhar daqueles que conosco convivem e a nós mesmos? Mas também é possível afirmar que existe uma outra dimensão, que é interior e não percebida aos outros e a nós? O que acontece em nosso interior quando realmente estabelecemos uma relação de profunda intimidade com Deus? O que se mexe e remexe dentro de nós? Que transformações se dão? É esta dimensão interior da experiência com o Senhor a base para todas as outras?

O viver com Deus segue a ordem do “de dentro para fora”? Tem esta dimensão interior uma primazia sobre a exterior?  Ou não tem? Se não, então podemos buscar a Deus fora de nós sem, primeiro, tentar vivê-lo em nosso interior? Ou estas duas dimensões – a exterior e a interior – acontecem sempre unidas uma à outra? Ao encontrar Deus fora de mim, automaticamente passo a vivê-lo dentro de mim? Por outro lado, será que esta divisão do interno e do externo não é meramente algo da reflexão teórica de um artigo como este, e na prática tais realidades são indivisíveis? Mas, se por um momento acharmos que sim, a dimensão interior da experiência com Deus vem em primeiro, se entendermos que é exatamente ali, no coração, “onde nascem as fontes da vida” – para usar a linguagem do poeta – é que tudo começa?

Não seria isso que o sábio autor de Provérbios quis dizer quando afirmou que, sobre tudo que se deve guardar, guarde-se o coração? Não terá sido esta a lição que Jesus quis ensinar-nos quando disse algo como: “Do coração procedem os maus pensamentos: mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias”?  Se é assim, então os místicos estavam certos todo o tempo? Vale a pena então mergulhar profundamente na dimensão interior da experiência com Deus para de lá organizar toda a vida externa? Então, Thomas Kelly, devotado pastor quaker, estava na direção certa quando, em seu belíssimo livro Um testamento de devoção, afirma que há um centro divino em nós, a partir do qual todo o resto deve orbitar? Sim, a prevalecer esta lógica, outro Thomas, o Merton, monge trapista, estava correto quando optou por uma vida contemplativa, na qual tudo começa no interior para desabrochar exteriormente, como reflete em seu impactante livroExperiência Interior?

Se esta dimensão interior deveria ser melhor cuidada por nós todos, então quão pobre existencialmente tem sido a complexa vida dos cristão em nossas igualmente complexas cidades? Mas como cultivar algum nível de experiência interior com Deus se o despertador toca e com ele o ritmo alucinadamente externo se impõe na nossa vida? Como viver tal dimensão interior quando se está preso num baita engarrafamento? Seria possível cultivar o senso de presença de Deus dentro de nós se nosso interior está dominado pela tirania do urgente e do resultado que exigem de nós? Como dedicar tempo para esta dimensão interior quando, externamente, multiplicam-se os desafios para pagar contas, manter o emprego e guardar alguma coisa para a aposentadoria?

E quanto aos pastores? Como dar conta desta dimensão interior se cada vez menos eles são valorizados como homens de Deus e mais como oradores, que fazem da pregação ora uma plataforma de manipulação psicológica, ora um palco para exibição de intelectualidade? Como conseguir se interessar por Deus se existe uma enorme pressão para o crescimento das igrejas? Não estariam os ministros do Senhor, assim como a Igreja e a sociedade que a cerca, absoluta e irremediavelmente condenados à superficialidade? A trindade do nosso tempo – o deus-resultado, o filho-entretenimento e o espírito-distração – não estaria matando a dimensão interior da nossa experiência com Deus, mesmo quando estamos no culto?

Perguntas, simplesmente perguntas! Que sejam elas sementes a germinar uma reflexão capaz de nos levar às decisões e transformações necessárias para uma vida mais cheia de Deus.

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* Eduardo Rosa Pedreira é doutor em teologia e pastor presbiteriano na Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca/RJ

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Aquele era o meu mundo… Ali eu existia sendo eu mesmo, sendo um todo, sendo meu. Fechada a porta, luzes se acendiam, cenários se desvelavam, via-me alçado ao imaginário, viajava sem sair do lugar, visitava outros ambientes, outros “planetas”! Mesmo na escuridão da noite, podia enxergar perfeitamente. O rádio tocava canções para embalar meus pensamentos, músicas antigas, daquelas que lhe acalmam, lhe entorpecem.

Todo mundo precisa de um “quarto”. Um lugar só seu, feito de estrelas e breu, com chaves só pelo lado de dentro, impenetrável, inviolável, onde nada do mundo exterior possa lhe atingir. Chega de tanta realidade! Há de se poder “delirar” um pouco, pois quem suporta viver o concreto o tempo inteiro? Naquele “quarto” eu me despia de tudo o que não era, me vestia de tudo o que gostaria de ser. Ali “…eu era o rei. Era o bedel e era também Juiz. E pela a minha Lei a gente era obrigado a ser feliz”. Chico Buarque.

Mas eu cresci, mudei de lugar, mudei de “quarto”… O novo não era do mesmo jeito, tinha mais glamour, mas nele o “show” não acontecia à noite, as cortinas não se abriam, os palhaços não apareciam, a vida era rotina e solidão. Eu tinha saudades do “velho amigo”, daquele pedacinho de mundo que eu havia criado, tecido de pétalas, coberto de sons, de cores, fantasias, onde sempre havia festas, risos, era um mundo dentro do meu mundo, um refúgio, um lugar onde me sentia protegido.

O tempo se passou… Os sonhos se esfarelaram pelo chão da vida. As estrelas despencaram do firmamento, o sol se pôs, tudo ficou denso, escuro, cheio de silêncios, de poeira levada pelo vento. A realidade veio me brindar com sua dose de fatalismos, com seus desgastes próprios, trouxe consigo as dores de existir, de crescer, de ter de enxergar e não mais ver, de ter de ter e não bastar apenas ser. E eu pensava comigo: “eu queria tanto estar no escuro do meu quarto a meia-noite, a meia luz, pensando, daria tudo por meu mundo e nada mais”. Guilherme Arantes.

Aí eu fiz o que já devia ter feito há muito tempo! Voltei para dentro do “quarto”! Sim, descobri que esse “lugar” não precisa ser real, pode ser imaginário, acessível pelos “conduítes” da alma, disponível a qualquer hora. Nele é possível afrouxar os nós da gravata, não atender ao celular, nem ter de ler e-mails ou olhar extratos bancários. São breves momentos que duram uma eternidade, pois ali você é só seu e de mais ninguém.

Bem afirmou Henry Miller, ainda que pareça idiotice: “manter a mente vazia é uma proeza… Estar silencioso o dia inteiro, não ver nenhum jornal, não ouvir rádio, não escutar tagarelices, estar perfeita e completamente ocioso… Os jornais engendram mentiras, ódio, ganância, inveja, desconfiança, medo, maldade. Nós não precisamos da verdade como ela nos é servida nos jornais diários. Precisamos de paz, solidão e ociosidade”.

Jesus era um homem de oração, de reclusão. Tinha necessidade do isolamento, da introspecção, da busca do intangível, do imaterial, de alimentar sua alma de verdades e não apenas de coisas. Ele também tinha um “quarto” desses… Estava em todo lugar e em lugar nenhum. Às vezes era o jardim, em outras as montanhas. De certa feita, fez dele a beira mar e, num outro momento, uma estalagem qualquer, no meio do nada, acolhido pelo frio, embalado pelo cansaço, debaixo do céu estrelado, deitado sobre o chão. Ali sentia os aromas do deserto, sabia que mesmo sem ter onde reclinar a cabeça, possuía um “quarto” somente seu…

Recentemente, visitei aquele “cantinho” da infância. Depois de 27 anos voltei ao apartamento onde meus pais moraram por quase duas décadas. Nele estava residindo um casal de velhinhos. Muito simpáticos, me convidaram a entrar. Mostraram-me a casa reformada, as mudanças realizadas. Tudo ficou muito bonito.

Mas houve um momento em que eu cheguei ao quarto que havia sido meu. O coração acelerou, os olhos encheram-se de lágrimas, uma nostalgia irresistível tomou conta de minha mente pragmática, não dada a muitas emoções. “Eu dormia aqui”, disse. O casal me deixou só por alguns instantes, tempo suficiente para ver toda minha vida diante dos meus olhos.

No canto do quarto, sentado na cama, estava eu mesmo, com uns 11 anos de idade. Eu olhei para mim e me perguntei: “como você está?”. Com voz embargada, o outro eu de mim mesmo respondeu: “eu tô bem, eu vou indo…”. O “garoto” insistiu: “você está mais velho, há marcas no seu rosto, e outras na sua alma. As de fora não importam tanto, as de dentro, todavia, talvez nem mesmo o tempo possa apagá-las.”. “Tenho de ir”, disse. “Vá com calma, ele falou. Vá mais leve, mais livre, vá com Deus!”.

Já faz meses que vivi esta experiência imaginária, ficcional… Ela me ajudou a entender algumas coisas; outras eu ainda estou discernindo, aos poucos, lentamente. Não consegui escrever sobre este fato antes, talvez por medo de me expor, talvez por medo do leitor, talvez por medo de mim mesmo… É que eu sei que “minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia”. Nietzsche.

Agora, com todo respeito, peço-lhe licença: vou para o meu “quarto”. Não, não é o quarto do meu apartamento, é o “quarto” que abriga a minha alma e o meu coração. Você não tem um desses? Bem, sugiro que adquira um o mais breve possível. Mas não procure nos classificados, nem se preocupe com dinheiro, este “quarto” está dentro de você, e só você pode encontrá-lo, entrar nele, e usufruir o que de melhor ele possa lhe proporcionar.

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* Carlos Moreira – Extraído do site Genizah

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O teólogo católico Karl Rahner é o autor da célebre frase: “o cristianismo do século XXI será místico ou desaparecerá”. Com a palavra “místico” ele não se referia à pessoas dadas a experiências psicológicas caracterizadas por exageros e devaneios. Mas sim a alguém que experimentou Deus de forma pessoal.  A palavra “mística”  vem do adjetivo “mystikos”, sendo este derivado  dos verbos “myo (fechar olhos e boca para gerar um mistério internamente) e “myeo” (penetrar no mistério).

Portanto a mística sempre foi considerada como a busca pela descoberta do caminho interior que conduz o ser humano ao encontro pessoal com Deus. A bem da verdade, a mística é algo que não existe apenas na tradição cristã. Todas as religiões e seitas não cristãs, como o budismo e o islamismo por exemplo, possuem sua dimensão mística no que concerne à  interpretação e vivência de seus credos próprios. 

Quando falamos da mística cristã, estamos tratando de uma realidade totalmente diferente, apesar de a mesma possuir algumas semelhanças quanto às místicas de outros seguimentos. No entanto, a despeito das semelhanças, a mística cristã se difere das demais por se tratar do impulso amoroso interior que nos coloca rumo ao contato pessoal com Deus através de uma amizade rica e profícua com Jesus Cristo. 

A mística cristã tem sua origem na própria história do desenvolvimento da relação de Deus com a humanidade. Relação esta que ficou registrada nas páginas das Sagradas Escrituras, tanto do Velho quanto do Novo Testamento. Sendo assim, podemos afirmar que a mística cristã origina-se das páginas da Bíblia. Não é o nosso objetivo detalhar por menores o conteúdo místico das Escrituras, principalmente no Novo Testamento. Mas, vale sublinhar que os dois grandes expoentes místicos encontrados nas páginas neo testamentárias são exatamente os escritos dos apóstolos João e Paulo. Com suas imagens acerca de Jesus como logos, luz, pão da vida, videira onde os ramos devem permanecer; bem como da utilização das imagens que descrevem nossa união com Cristo, como por exemplo a do corpo humano, encontramos uma linguagem e um apelo para uma experiência essencialmente mística. 

A partir da interpretação mística das Escrituras, encontramos o desenvolvimento das tradições cristãs que experienciaram e divulgaram essa forma de encontrar Deus. Podemos falar de dois blocos dentro da tradição mística cristã: a mística oriental tendo como grandes nomes os Pais Gregos como João Crisóstomo, Gregório de Nazianzo, Gregório de Nissa, Basílio de Cesaréia e Atanásio de Alexandria  cuja grande contribuição foi a busca do diálogo entre a fé cristã e a gnose e filosofia, principalmente a de Platão. O outro seguimento trata do desenvolvimento da mística no ocidente, onde figuram personagens como Gregório Magno, Jerônimo, Agostinho e Ambrósio de Milão que tem como principal contribuição o que denominou-se de “mística do amor”. Tal abordagem teve seu ápice nos escritos e experiências de mulheres místicas como as “beguinas”. Nomes como os de Matilde de Magdeburgo, Hadewijch de Antuérpia e Gertudres de Helfta aparecem como seus principais ícones. 

Ainda dentro desse bloco temos a mística espanhola de Teresa de Ávila e de João da cruz que com sua abordagem da amizade com Cristo como sendo o caminho interior para a experimentação de Deus, concedeu inominável contribuição no intendimento da união da alma com Deus . 

Ainda podemos citar outros movimentos místicos como o “Quietismo” francês que tem em Madame Guyon seu  nome principal, e o “Pietismo”, de confissão protestante surgido pouco depois de 1.600 com seu forte apelo emocional. Temos nele Philipp Jakob Spener seu personagem mais importante.

O espaço que temos aqui não nos permite uma acurada abordagem de cada movimento e a contribuição de seus principais representantes. Contudo, o simples mencionar dos mesmos já serve para que possamos ter uma ideia da riqueza e amplitude da tradição mística no desenvolvimento da história cristã.

De uns anos para cá temos visto um interesse renovado pela mística nos círculos cristãos, tanto católicos como evangélicos. Estamos presenciando um verdadeiro êxodo do Egito da aridez espiritual na direção da Terra Prometida da mística de onde emanam leite e mel para as almas sedentas. Isso constatamos pelo menos por dois motivos. Primeiramente em decorrência da superficialidade com que a igreja tem experienciado a fé cristã nesses últimos tempos. Karl Rahner falava de um “inverno da igreja” onde a mesma perderia a sensação de Deus.  A grande verdade é que hoje muitas pessoas experimentam uma grande distância de Deus. A intimidade com Cristo não passa de mero discurso vazio encontrado nos sermões e estudos bíblicos nas igrejas. Uma utopia praticamente difícil de ser alcançada, salvo para grupos mais avançados na vida espiritual.

Uma segunda razão para a corrida rumo ao retorno místico da fé cristã é o fato de muitos estarem fartos, cansados, de uma vida espiritual que apenas crê no que os outros dizem sobre Deus. Essas pessoas desejam, elas mesmas, terem suas próprias experiências espirituais.  E vêem na mística o caminho que atende seus anseios mais profundos de união divina. 

Levando em consideração o sentido mais prático da mística como sendo o experimentar a Deus, podemos considerar seis áreas da experiência cristã como sendo o itinerário interior e exterior que traça os caminhos da mística:

1. O Caminho Contemplativo – Aqueles que andam nesse caminho priorizam o recolhimento e o silêncio interior como via que nos conduz à perfeição, ou seja, à união com Deus. Temos na tradição católica romana e na ortodoxa grega os grandes blocos representantes desse caminho místico. O mais interessante é  perceber nisso a maravilhosa tradição dos Pais do Deserto como fonte comum dessas duas confissões contemplativas. 

2. O Caminho Pneumatológico – Os seguidores desse caminho veem na realização do Espírito Santo na vida do crente em Jesus, uma via para a experiência com Deus. A presença do Espírito habitando no corpo do cristão lançam a base teológica para a experiência do “retorno ao centro” tão difundido na mística do caminho contemplativo. Devemos perceber com isso que não estamos tratando de vários caminhos diferentes para se atingir um objetivo em comum. Mas, aspectos diferentes de uma mesma realidade que se tocam e complementam-se mutuamente. Há um forte apelo místico naquilo que a Bíblia descreve como o ministério do Espírito Santo na vida do cristão: Ele é como o amor derramado nos corações dos crentes (Rm 5.5); Ele ora em nós (Rm 8.15); Ele nos une a Deus; Ele investiga os aspectos mais profundos de nosso ser dando voz aos anseios para os quais não encontramos palavras em oração (Rm 8.26). O Espírito Santo, definitivamente, é imprescindível na vivência mística cristã. 

3. O Caminho Compassivo – Aqui temos a conjunção entre vida contemplativa e vida ativa como os dois fundamentos da espiritualidade cristã.   Os que trilham essa vereda vêem no encontro com Deus o pano de fundo para a ministração junto ao mundo. Os místicos do caminho compassivo, à exemplo da grande Madre Teresa de Calcutá, devotam sua vida no cuidado dos pobres, na promoção da justiça e da igualdade, com o intuito de enxergar a face oculta de Jesus por detrás do rosto do homem sofredor. Esse caminho místico experimenta a Deus no mistério da experiência de servir em amor ao próximo (cf. Mt 25.34-40).

4. O Caminho da Santificação – Esse é o caminho dos que buscam a conformidade com Cristo. Tem na imitação da vida de Jesus a realização de sua mística pessoal. Sem dúvidas a grande obra  que representa essa tendência espiritual é o livro “A Imitação de Cristo” de Tomás de Kempis. O simbolo bíblico do caminho místico da santificação é a famosa declaração paulina – “Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu quem vive, mas, Cristo vive em mim…” (Gl 2.20). Mais uma vez encontramos os caminhos místicos se entrecruzando: no sentido de que a santificação só é possível pela ação do Espírito Santo na vida do cristão (caminho pneumatológico) e que no desejo dessa vida santa muitos foram os que se entregaram às práticas ascéticas e a vida de recolhimento (caminho contemplativo)

5. O Caminho do Intelecto – Tem no estudo das Sagradas Escrituras o caminho para o aprofundamento da compreensão e experimentação da vida em Deus. É a vida centrada na Palavra. Que retira da mesma as bases para sua experiência com Deus e no mundo. Aqui se encerram  dois aspectos dessa tradição, um deles o da meditação bíblica tendo na Lectio Divina sua principal empressão, e a dimensão kerigmática com a pregação e ensino dos mistérios da Palavra de Deus sobretudo do Evangelho de Cristo. Novamente chamamos a atenção para os caminhos que se tocam pois temos no movimento monástico (caminho contemplativo) o principal divulgador da prática da leitura orante das Escrituras (Lectio) e no caminho pneumatológico a busca pelo poder que deve acompanhar a exposição das Escrituras.  

6. O Caminho Sacramental ou Cósmico – Esse é um caminho místico em que encontra-se e busca-se Deus na contemplação e admiração da Natureza. A Natureza, com sua exuberância e beleza de formas, se torna um lugar privilegiado de encontro com Deus. O místico percebe e “enxerga” Deus em todas as manifestações e belezas no mundo natural e da vida. A Natureza é o espelho onde o místico contempla e encontra Deus”(extraído do orkut – Comunidade Místicos Católicos – fórum de discussão). O místico desse caminho ao invés de enxergar o mundo físico, as artes e outras expressões culturais humanas, como impedimentos para a vida espiritual, vê neles um “não sei o quê” a mais, uma percepção intuitiva de algo divino e transcendente por detrás dessas realidades.

Todos os caminhos acima referidos visam um único propósito: conduzir-nos a um encontro unitivo e transformador com o Senhor Jesus Cristo. Isso porque, toda mística cristã que se preze deve resultar numa conformação com a vida de Cristo. Encerro esta breve exposição com as palavras de Anselm Grun transcritas de seu esclarecedor livro “Mística – descobrir o espaço interior” – ed. Vozes:

“Em Cristo, Paulo encontrou uma nova identidade, passou a ser sua própria essência interior. Em sua mística do Cristo, está expresso que não se trta apenas de chegar a um contato pessoal e íntimo com Cristo, porém, mais que isso, alcançar um ser em Cristo, uma plena transformação no Cristo, passando a ser Cristo o nosso verdadeiro ser, o cerne de nossa personalidade interior; vivemos em função dele, e não mais em função do ego.” (pg. 37) 

Para saber mais sobre os seis caminhos da mística cristã, visite o site Renovare Brasil

 

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Quando tratamos da espiritualidade cristã não estamos pisando em terreno pequeno. Trata-se de algo extenso, amplo e ao mesmo tempo de exuberante profundidade. O caminho místico, na pena de alguns autores, foi retratado como uma subida a um monte, onde o objetivo é alcançar o cume. Em outros como uma edificação, um castelo onde um Rei Glorioso habita e aguarda ansiosamente pela chegada de seus súditos amados. S. João da Cruz e S. Teresa de Ávila, respectivamente, brindaram-nos com essas percepções do avanço na vida interior em suas obras “Subida ao Monte Carmelo” e “Castelo Interior”

Pegando emprestado a alegoria da mística espanhola podemos pensar na espiritualidade humana como uma edificação, se você preferir, um prédio. Nesse prédio encontramos apartamentos, escadas, janelas, ou seja, tudo o que existe em um prédio comum. Contudo, nossa atenção deve se voltar para os fundamentos da obra. De nada nos vale um prédio bonito e funcional, cujos alicerces não ofereçam firmeza nem sustentação a toda a estrutura acima edificada. O próprio Senhor nos advertiu a esse respeito quando no final de seu sermão exortou seus ouvintes a não edificarem suas casas na areia, mas, na rocha. O fundamento é tudo!

Pensando na vida mística cristã, podemos falar de dois alicerces que sustentam e põe de pé a espiritualidade. Se temos um, mas, nos falta o outro, corremos grande perigo de que nossa vida com Deus, nossa busca unitiva com Aquele que é Totalmente Outro, literalmente desmorone. Sendo assim, podemos falar da Vida Contemplativa e da Vida Ativa como os dois alicerces da caminhada mística na espiritualidade cristã.

A verdadeira mística nos impele na direção de Deus e do mundo imerso em Deus. Na verdade, não pode existir vida contemplativa verdadeira se a mesma não desemboca numa vida ativa, de serviço, como resposta à primeira. A vida contemplativa se ocupa com o não ocupar-se de nada que seja ativo. Seu alvo é a busca da união com Deus através do caminho interior do silêncio, da solitude e da meditação bíblica. Ela exatamente rompe com as compulsões da vida pós-moderna com seu ritmo apressado e nos insere num mundo de quietude onde a Palavra sussurrada converge e recria tudo e todos no Cristo envolto em mistério.

Por outro lado a vida ativa compele-nos à ação. O seu  chamado é de que nos tornemos sal da terra e luz do mundo. Conclama a todo servo e serva de Deus a trabalhar para fazer do mundo presente um lugar de justiça, retidão e santidade. Os místicos da vida ativa compreendem que a atividade e o trabalho ao invés de significarem a interrupção da contemplação divina, pelo contrário lhe empresta peso e significado. Assim, a vida ativa seria o viver em Cristo, o viver Deus na realidade mais essencial e mais imediata de cada ser humano: a vida, o cotidiano.

Até mesmo as ordens monásticas testemunham da conexão inexorável de vida contemplativa e vida ativa que deve existir na vida do verdadeiro discípulo de Cristo. A  Lectio Divina ou leitura orante das Escrituras se apresenta como um ponto de convergência dos dois alicerces espirituais. Na escada mística da Lectio Divina, leitura, meditação, oração e contemplação devem conduzir-nos a uma resposta dupla: Quem sou eu? e “Qual o meu papel nesse drama da salvação divina que se chama mundo?”. Resumindo, o místico ao final de seu encontro unitivo com o Cristo vivo deve-se perguntar “O que devo fazer em resposta ao que ouvi?” A verdadeira contemplação deve afluir da graça divina e fluir na direção do mundo como um rio de amor e graça salvadoras. Encontro com Deus que não nos levar a amar nossos inimigos, a servir o próximo em amor e a ministrar pelo bem dos pecadores, é menos do que o proposto. O verdadeiro místico abraça o mundo pela ação, ao passo  em que se desapega do mesmo pela contemplação.

União com Deus e união com o mundo. Contemplação e ação. Desta forma “Ora et labora, permanece o lema daqueles que compreenderam ao longo dos séculos, que aquele que procura a Deus pelas noites escuras da alma, na subida do Carmelo e em meio ao palácio de cristal, acha também no decorrer da jornada, o mundo todo.

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