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Posts Tagged ‘vida interior’

Quando nós abordamos a tradição de espiritualidade cristã de santidade, nós aprendemos que o conceito de “vida santa” é o de uma vida que funciona corretamente, ou seja, da forma que Deus planejou que funcionasse.
E quando nós investigamos o tipo de vida que Jesus viveu, sem sombra de dúvidas, podemos afirmar que “santidade” era o que a caracterizava. Por isso afirmamos que Jesus era um homem santo.
De que forma isso acontecia? Quando lemos os Evangelhos encontramos Jesus no meio de crianças, entre mulheres e na companhia de homens sempre na hora certa, sempre do jeito certo, com as palavras certas, com a atitude e o gesto certos, fazendo a coisa certa.
A vida de nosso Senhor era uma vida caracterizada pela virtude. Ou seja, uma vida que funcionava, e funcionava da forma correta. Como o Pai queria. Não é a toa que o Pai declarou – “Tu és o meu Filho amado. Em ti está toda a minha alegria” (cf. Lc 3:22).
Um passeio por todos os evangelhos nos dá uma visão ampla da vida de Jesus que funcionava de forma correta o tempo todo, até mesmo nos momentos derradeiros como em sua atitude serena na ocasião de sua prisão e de sua oração na cruz pelos que o estavam matando e escarnecendo.
No entanto existem dois textos nos evangelhos, sem os quais não poderemos compreender a amplitude da vida e do ensino do Senhor Jesus acerca do que é uma vida santa.
Primeiramente, não podemos entender a santidade e a virtude presentes em Jesus sem examinar os seus quarenta dias de tentação no deserto.
Nesse episódio único, no início do ministério público de nosso Senhor, nós podemos presenciar, vindo à tona, uma virtude que foi praticada por ele durante toda sua vida.
Nós já conhecemos essa passagem. O Senhor jejua durante quarenta dias e após isso Deus permite que o próprio Maligno venha tentá-lo pessoalmente.
Foram três tentações. E o mais chamativo é que não foram meramente tentações pessoais. Jesus foi tentado naquele episódio a ter à sua disposição as três instituições sociais de seu tempo: economia, religião e política. 
A tentação econômica estava no convite de transformar as pedras em pães. Encontramos isso em Mt 4:3. Jesus rejeitou essa tentação declarando que o homem não viveria só de pão, mas, de toda a palavra que procede da boca de Deus (v.4).
O que estava por detrás dessa tentação era de que Jesus ganhasse sua aprovação e popularidade tornando-se um mero provedor de necessidades humanas. O que ele não aceitou.
A segunda tentação, a religiosa, foi a sugestão de que Jesus saltasse do pináculo do templo na presença de todo o povo. Isso está no v.6 de Mateus 4.
Por detrás estava a tentação de que Jesus se tornasse um milagreiro, um mero operador de milagres. E ele, definitivamente, rejeitou isso conforme vemos no v.7.
E por fim, veio a terceira e última tentação: a política. Onde Satanás ofereceu ao Filho de Deus “todos os reinos do mundo e seu esplendor” em troca, vejam que ousadia, da alma do próprio Jesus (v.9)
Nessa tentação Jesus foi convidado a permitir que a religião se tornasse ponte para a obtenção de poder político. E como vemos, ele também rejeitou isso (v.10).
O que nós podemos tirar dessa experiência de Jesus? Podemos aprender que Jesus rejeitou a visão de Deus que está em voga nos dias de hoje: muitos usando as coisas de Deus para alcançar suprimento de necessidades pessoais, para obter milagres e para angaria fama, poder e status. 
Não é o que temos visto e ouvido por aí? No entanto, essas pessoas não são nossos modelos. Amém? Jesus é o nosso Modelo. Por isso devemos observar com atenção de que forma ele agiu e reagiu a essas três tentações.
Nesses quarenta dias de deserto nós vemos alguém que entendeu muito bem a forma de agir de Deus e buscou viver desse modo. As ações de Jesus no deserto personificam a tradição de santidade.
Contudo, só a ação por si só não é suficiente. Ela precisa ser acompanhada pelo ensino correto acerca de uma vida santa ou virtuosa.
E Jesus sabia disso. E por isso, ele nos proveu as diretrizes de como se viver uma vida virtuosa através do maior sermão jamais pregado na história humana: aquele que conhecemos como “o sermão do monte”.
Esse sermão se encontra registrado de forma detalhada nos capítulos de 5 à 7 do evangelho de Mateus. O centro do ensino de Cristo sobre a vida santa está nas palavras desse sermão.
E o centro desse sermão é aquilo que podemos chamar de “a lei do amor”, que Tiago na sua carta chama de “lei perfeita”. E nada, além do amor, define com mais beleza e plenitude a vida de santidade.
Quando estudamos esse sermão percebemos que no miolo dos seus ensinos está a maturidade do amor em contraposição à imaturidade do legalismo cego que só se preocupa com o exterior.
Era a forma de vida que deveria ultrapassar a “justiça dos escribas e fariseus” (cf. Mt 5:20). Pois eles, escribas e fariseus, só estavam preocupados com elementos externos da religião com o intuito de dominar e manipular as pessoas.
Jesus, pelo contrário, em seu sermão propõe um tipo de justiça que caracteriza uma vida interior com Deus que transforma o coração e constrói no homem hábitos virtuosos. Ou seja, a proposta do Senhor é de uma transformação de dentro para fora; no interior que reflita no exterior.
Se você e eu desejamos uma vida de santidade devemos fazer “amizade” com o sermão do monte. Futuramente, se assim o Senhor permitir, pretendo fazer uma exposição de todo esse sermão.
Verdadeiramente, Jesus era alguém que constantemente fazia o que precisava ser feito, no momento em que era preciso ser feito. E fazia de forma correta.
Enxergamos nele hábitos santos que o capacitavam a responder a vida de uma forma virtuosa. Isso é pureza de coração. Isso é santidade.
E quando olhamos para a santidade de Jesus ela nos atrai: nos atrai e nos desperta para uma vida mais coerente, obediente, fiel e frutífera

CONCLUSÃO E APLICAÇÃO

Vamos aplicar o texto de hoje às nossas vidas de forma prática. Gostaria de propor algumas perguntas para a nossa reflexão:

(1) Existe algum aspecto de sua vida hoje que precisa funcionar da forma correta? Em outras palavras: existe alguma área de sua vida que precisa de santidade?
(2) Qual tem sido o resultado dos desertos e tentações em sua vida espiritual? Você pode afirmar que eles têm ajudado no seu crescimento na santidade pessoal?
(3) No que você tem dado maior ênfase, no aspecto interior (coração) ou nas formas exteriores de religião?
Que Deus nos abençoe.

Numa próxima oportunidade vamos ver Jesus como um homem carismático, ou seja, alguém que vivia debaixo do mover do Espírito Santo.

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O Senhor Jesus Cristo convida o povo santo e justificado por Seu sangue a adentrar no descanso de Sua presença constante e pessoal. Ele mesmo disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”. Antes de ser um estado emocional, essa paz é uma realidade interior, uma experiência, que pertence a todos quantos encontram-se em relação filial com o Pai. Ao longo dos séculos da história da espiritualidade cristã, essa realidade do Eu mais profundo, espiritual, criado em Cristo Jesus para viver em novidade de vida, foi transmitida na forma de uma disciplina espiritual que conhecemos como silêncio. São diversos os textos nas Escrituras Sagradas que nos chamam para o retorno à serenidade, quietude e silêncio da alma. Passagens como Sl 46:10,  Sl 116:7 e Lm 3:26 são alguns exemplos desse chamado interior.

Já se vão mais de cinco anos que tenho estudado, ensinado e praticado a via mística da vida cristã. Em meio ao corre corre do cotidiano, com suas múltiplas exigências que clamam por minha atenção, a luta para se auto-disciplinar no que diz respeito à fomentação de uma vida espiritual profunda, tem se constituído num grande desafio para mim. Desafio igualmente difícil tem sido explicar para outros cristãos o que é e a importância das disciplinas espirituais. Muitos não as compreendem. Acham que são práticas inúteis que não possuem qualquer relevância para a vida cristã. Esse tipo de opinião tem origem na falta de entendimento de que nosso corpo tem participação fundamental no desenvolvimento da espiritualidade. Esquecem que não somos apenas alma e espírito, mas, corpo também. Contudo, mesmo após a conversão esse corpo, antes escravo do pecado, permanece “viciado” no pecado pelos anos de hábitos e práticas contrárias aos valores do Reino. Logo, faz-se necessário o “treinamento” do corpo como nova habitação do Espírito Santo. Daí vem a importância das disciplinas espirituais.

Quando buscamos descrever a realidade dessas práticas, sua essência e natureza, surge-nos um outro desafio ainda maior. Como descrever em termos concretos algo que eminentemente é uma experiência da dimensão de nossa interioridade? Somente a linguagem mística, ou seja, alegórica, rica em figuras e imagens, pode nos ajudar a ilustrar e elucidar verdades tão profundas. Tendo isso em mente, comecei a pensar em qual figura poderia descrever de forma mais clara possível a experiência interior do silêncio. Já havia usado diversas ilustrações: um santuário; um quarto. No entanto, nenhuma delas me pareceu atingir o objetivo. Até que Deus trouxe a minha mente uma imagem: a de uma gruta interior, dessas que tem formações rochosas interessantes, estalagmites e estalactites esplendorosas. E em algumas até encontramos uma concentração de água que formam uma espécie de lagoa. 

O que me chamou a atenção é que enquanto eu “observava” a lagoa no interior da gruta: silenciosa, serena, tranquila, cujas águas poderiam muito bem ser confundidas com um espelho se alguém decidisse fitá-las, uma grande tempestade acontecia no exterior, na superfície, do lado de fora da gruta. Árvores se chacoalhando, galhos estalando ao quebrar, o vento uivante, folhas esvoaçando em todas as direções, trovões e relâmpagos. Tudo isso se contrastava com a paz  que a lagoa no interior daquela gruta desfrutava. Enquanto por ocasião da tempestade do lado de fora o ambiente caracterizava-se por desordem, agitação e ruído, do lado de dentro a gruta com sua lagoa formava um quadro de profunda harmonia e quietude. Definitivamente a tempestade no exterior não abalava em nada as águas calmas da lagoa interior.

Acredito que essa imagem retrata com perfeição o que queremos transmitir quando nos referimos ao silêncio. Acima de tudo ele se apresenta mais como uma experiência interior do que como uma realidade física: ausência de palavras e sons. Os que verdadeiramente compreendem o silêncio como realidade interior sabem, porque assim tem experimentado, que você pode estar em profundo silêncio mesmo em meio à multidão e ao barulho. A grande verdade é que o silêncio é uma atitude interior de recolhimento  em Deus, que nos traz paz e serenidade. Talvez a palavra silêncio por si só não faça jus à completude da experiência que estamos tratando. Acredito que “quietude” expressa melhor nosso propósito aqui.

Quietude caracterizava o estado da lagoa no interior da gruta, enquanto na superfície tudo o mais estava um caos. Essa também pode ser a nossa experiência: mesmo quando tudo ao nosso redor (o mundo, o exterior, a vida em si) estiver nos convidando à inquietação e ansiedade, à pressa e à compulsão, nós simplesmente podemos retornar ao “local”  silencioso de nossa “lagoa” onde suas águas tranquilas refletem nossa verdadeira imagem: não a que o mundo tenta nos imprimir. Mas, a que o próprio Deus criou à sua própria semelhança em Cristo Jesus.   E isso vai independer se nos encontramos em meio ao conglomerado humano no centro de uma grande metrópole ou num retiro espiritual silencioso. A gruta sempre estará lá e as águas tranquilas de sua lagoa também. Á nossa espera, sussurrando o nosso nome. Basta que nos lembremos disso e nos voltemos para dentro de nós onde Deus habita e nos espera de braços abertos para nos acolher em seu silêncio restaurador. 

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Eu estava de saída para uma viagem a Santiago do Chile, a fim de participar de uma conferência com pastores e líderes locais. Ainda no aeroporto, aguardando o vôo, conversava com Deus sobre o meu momento de vida. Dentre muitas coisas, pedia ao Senhor sabedoria e orientação diante do cenário que me envolvia. Semanalmente, novas oportunidades surgiam diante de mim; novas demandas emergiam em minha agenda e novas conversas aqueciam meu coração para projetos aparentemente fascinantes.

Estava preocupado diante de tudo aquilo que acontecia. Sei que uma das razões que fazem com que homens e mulheres de Deus acabem por se perder, mesmo que bem intencionados em suas motivações iniciais, é a falta de uma clara percepção acerca do mover de Deus em suas vidas. Muitos passam a entender que toda oportunidade que surge é uma porta aberta pelo Senhor, ou que toda demanda que emerge é um desafio lançado pelo Espírito Santo. Há também aqueles para quem qualquer conversa que lhes aqueça o coração é uma visão de Deus que precisa ser assumida.

Para os que enxergam a vida nesta perspectiva, o mover de Deus acaba se confundindo com o empreendedorismo de nossos tempos ou com o anseio insaciável de nossas almas por sermos tidos como pessoas relevantes diante do mundo. Para gente assim, o mover de Deus sempre as convida para um tempo de ir, correr e vencer. Não existe a possibilidade de o Senhor chamá-las a um tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se. Por isso mesmo, querendo conquistar o mundo, acabam, infelizmente, perdendo a própria alma. Em meio às muitas oportunidades, demandas e desafios, confundem a ação do Senhor com as expectativas do meio ou com os anseios de seus próprios corações.

Na vida do rei Davi, os desertos se tornaram o convite de Deus para um tempo de contemplação e reflexão. Ele era um homem movido por desafios e com constante ímpeto para a ação – por isso, parece que somente em meio às adversidades ele encontrava tempo para redimensionar seu próprio coração. Assim, quando lemos as orações de Davi no livro de Salmos, percebemos um homem sondando sua própria alma e procurando perceber a ação de Deus em sua vida. Em situações de adversidades, dores e aflições, Davi se convencia de que seu Deus não o convidava constantemente a ir, correr e vencer; mas, em algumas ocasiões, o impelia a ficar onde estava, aquietar o coração e renovar sua alma.

Maria, irmã da superativa e dinâmica Marta, viveu uma situação diferente. Em sua vida, o tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se não é fruto de uma situação criada por Deus, mas de opções que precisava fazer. Cercada por gente constantemente voltada para a ação, que enxergava cada oportunidade como porta aberta pelo Senhor, cada demanda como um desafio do Espírito e cada conversa como visão de Deus, torna-se normalmente mais difícil encontrar espaço para aquela reflexão espiritual. Mas Maria rompe com seu ambiente, resiste às expectativas que as pessoas à sua volta tinham acerca de si e resolve sentar-se aos pés de Jesus para ouvi-lo. Jesus, por sua vez, encoraja a opção feita por Maria, demonstrando que na caminhada cristã há, sim, tempo de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se.

Mas o maior exemplo de que Deus nos convida a esses momentos encontra-se na própria vida de Jesus. Em seu curto ministério terreno, Cristo tinha um enorme desafio diante de si. As demandas eram inúmeras; as necessidades, infindas, e as frentes de trabalho, imensas. No entanto, vemos nos Evangelhos episódios em que o Filho de Deus sobe montes ou procura lugares desertos a fim de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se na presença do Pai. Apesar da pressão das multidões, ele afastava-se em submissão ao mover de Deus para um tempo de silêncio e descanso. No entanto, este não era um tempo de contraponto à sua missão – mas sim, um espaço integrante e essencial na mesma.

Durante uma manhã livre naquela viagem a Santiago, um querido e antigo amigo me levou para subir as cordilheiras até um lugar chamado Vale Nevado. Fomos e voltamos conversando sobre muitas coisas. Há muito tempo não tinhamos oportunidade de nos falar. No entanto, em meio às muitas palavras e diante de paisagens fantásticas, deparei-me com uma cena que me chamou a atenção. Do local, podiamos contemplar um enorme e fantástico monte coberto de neve. Seu aspecto era imponente e fascinante. Era impossível passar por ali sem admirá-lo. Mas ainda no mesmo foco de visão, bem mais próximo de nós, na margem da estrada, inúmeras árvores com seus galhos completamente secos contrastavam a imponência e fascínio da montanha branca.

Minha atenção ficou dividida entre as duas cenas contrastantes. Foi então que meu amigo, olhando para aquelas árvores, disse: “Interessante, não? Elas parecem mortas. Quem olha pensa que não resistiram ao inverno. No entanto, estão assim porque, percebendo o rigor da estação fria, concentram suas forças e energias no caule. As folhas caíram e os galhos secaram, mas toda a sua vitalidade encontra-se concentrada no caule. Para elas, agora não é o tempo de florescer, mas de resguardar-se para, no tempo certo, voltar a produzir folhas, flores e frutos. Este é o ciclo da vida.”

Ouvindo aquelas palavras e tendo os meus olhos fixos naquelas árvores, ouvi a resposta de Deus para a oração que havia feito antes de partir do Brasil. Nem sempre é hora de ir, correr e vencer. Existem tempos em que o Senhor nos convida a ficar em sua presença, e ali aquietar nossa mente e renovar nossa alma. Em meio a tantas coisas e situações que nos envolvem, precisamos ter a sensibilidade para perceber que o Senhor, por vezes, não deseja que façamos tudo ou aceitemos todos os desafios. Existe também o tempo em que seu mover nos convida a concentrarmos nossas forças e energias no que é essencial e imprescindível: a nossa relação com ele.

Às vezes, como acontecia na vida de Davi, Deus precisa criar desertos em nossa história para nos convencer desta verdade. Noutras situações, assim como o fez Maria, podemos exercitar nosso poder de decisão contra o meio que nos impele a constante atividade, optando por simplesmente quedar-nos aos pés de Cristo. Mas também podemos olhar para Jesus e perceber o convite para vivermos em maturidade, integrando este tempo como parte essencial e imprescindível da missão de Deus para as nossas vidas.

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* Ricardo Agreste – é pastor presbiteriano na igreja Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera

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A maiêutica é um método de aprendizado inventado pelo filósofo grego Sócrates (469-399 a.C.). Ele cria que a verdade estava dentro dos seus discípulos, cabendo-lhe, como mestre, apenas a tarefa de promover o chamado “parto intelectual”. Em outras palavras, o processo ajuda a nascer aquilo que o discípulo intuitivamente já sabia, mas por si só não era capaz de gerar. Usando desta metodologia, que consistia em fazer perguntas e não trazer informações prontas, o sábio ensinava seguidores a dar luz a novas ideias e a todo um conceito de viver. Foram as perguntas, e não as respostas, o ponto de partida de um dos momentos mais férteis do pensamento humano.

Fazer perguntas sem a preocupação de fornecer-lhes respostas pode nos levar a trilhar novos caminhos ou reencontrar rumos que já perdemos. Por exemplo – a nossa experiência com Deus tem várias dimensões ou somente uma? Se tem várias, quais são? Podemos dizer que há uma dimensão exterior desta experiência, perceptível ao olhar daqueles que conosco convivem e a nós mesmos? Mas também é possível afirmar que existe uma outra dimensão, que é interior e não percebida aos outros e a nós? O que acontece em nosso interior quando realmente estabelecemos uma relação de profunda intimidade com Deus? O que se mexe e remexe dentro de nós? Que transformações se dão? É esta dimensão interior da experiência com o Senhor a base para todas as outras?

O viver com Deus segue a ordem do “de dentro para fora”? Tem esta dimensão interior uma primazia sobre a exterior?  Ou não tem? Se não, então podemos buscar a Deus fora de nós sem, primeiro, tentar vivê-lo em nosso interior? Ou estas duas dimensões – a exterior e a interior – acontecem sempre unidas uma à outra? Ao encontrar Deus fora de mim, automaticamente passo a vivê-lo dentro de mim? Por outro lado, será que esta divisão do interno e do externo não é meramente algo da reflexão teórica de um artigo como este, e na prática tais realidades são indivisíveis? Mas, se por um momento acharmos que sim, a dimensão interior da experiência com Deus vem em primeiro, se entendermos que é exatamente ali, no coração, “onde nascem as fontes da vida” – para usar a linguagem do poeta – é que tudo começa?

Não seria isso que o sábio autor de Provérbios quis dizer quando afirmou que, sobre tudo que se deve guardar, guarde-se o coração? Não terá sido esta a lição que Jesus quis ensinar-nos quando disse algo como: “Do coração procedem os maus pensamentos: mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias”?  Se é assim, então os místicos estavam certos todo o tempo? Vale a pena então mergulhar profundamente na dimensão interior da experiência com Deus para de lá organizar toda a vida externa? Então, Thomas Kelly, devotado pastor quaker, estava na direção certa quando, em seu belíssimo livro Um testamento de devoção, afirma que há um centro divino em nós, a partir do qual todo o resto deve orbitar? Sim, a prevalecer esta lógica, outro Thomas, o Merton, monge trapista, estava correto quando optou por uma vida contemplativa, na qual tudo começa no interior para desabrochar exteriormente, como reflete em seu impactante livroExperiência Interior?

Se esta dimensão interior deveria ser melhor cuidada por nós todos, então quão pobre existencialmente tem sido a complexa vida dos cristão em nossas igualmente complexas cidades? Mas como cultivar algum nível de experiência interior com Deus se o despertador toca e com ele o ritmo alucinadamente externo se impõe na nossa vida? Como viver tal dimensão interior quando se está preso num baita engarrafamento? Seria possível cultivar o senso de presença de Deus dentro de nós se nosso interior está dominado pela tirania do urgente e do resultado que exigem de nós? Como dedicar tempo para esta dimensão interior quando, externamente, multiplicam-se os desafios para pagar contas, manter o emprego e guardar alguma coisa para a aposentadoria?

E quanto aos pastores? Como dar conta desta dimensão interior se cada vez menos eles são valorizados como homens de Deus e mais como oradores, que fazem da pregação ora uma plataforma de manipulação psicológica, ora um palco para exibição de intelectualidade? Como conseguir se interessar por Deus se existe uma enorme pressão para o crescimento das igrejas? Não estariam os ministros do Senhor, assim como a Igreja e a sociedade que a cerca, absoluta e irremediavelmente condenados à superficialidade? A trindade do nosso tempo – o deus-resultado, o filho-entretenimento e o espírito-distração – não estaria matando a dimensão interior da nossa experiência com Deus, mesmo quando estamos no culto?

Perguntas, simplesmente perguntas! Que sejam elas sementes a germinar uma reflexão capaz de nos levar às decisões e transformações necessárias para uma vida mais cheia de Deus.

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* Eduardo Rosa Pedreira é doutor em teologia e pastor presbiteriano na Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca/RJ

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Aquele era o meu mundo… Ali eu existia sendo eu mesmo, sendo um todo, sendo meu. Fechada a porta, luzes se acendiam, cenários se desvelavam, via-me alçado ao imaginário, viajava sem sair do lugar, visitava outros ambientes, outros “planetas”! Mesmo na escuridão da noite, podia enxergar perfeitamente. O rádio tocava canções para embalar meus pensamentos, músicas antigas, daquelas que lhe acalmam, lhe entorpecem.

Todo mundo precisa de um “quarto”. Um lugar só seu, feito de estrelas e breu, com chaves só pelo lado de dentro, impenetrável, inviolável, onde nada do mundo exterior possa lhe atingir. Chega de tanta realidade! Há de se poder “delirar” um pouco, pois quem suporta viver o concreto o tempo inteiro? Naquele “quarto” eu me despia de tudo o que não era, me vestia de tudo o que gostaria de ser. Ali “…eu era o rei. Era o bedel e era também Juiz. E pela a minha Lei a gente era obrigado a ser feliz”. Chico Buarque.

Mas eu cresci, mudei de lugar, mudei de “quarto”… O novo não era do mesmo jeito, tinha mais glamour, mas nele o “show” não acontecia à noite, as cortinas não se abriam, os palhaços não apareciam, a vida era rotina e solidão. Eu tinha saudades do “velho amigo”, daquele pedacinho de mundo que eu havia criado, tecido de pétalas, coberto de sons, de cores, fantasias, onde sempre havia festas, risos, era um mundo dentro do meu mundo, um refúgio, um lugar onde me sentia protegido.

O tempo se passou… Os sonhos se esfarelaram pelo chão da vida. As estrelas despencaram do firmamento, o sol se pôs, tudo ficou denso, escuro, cheio de silêncios, de poeira levada pelo vento. A realidade veio me brindar com sua dose de fatalismos, com seus desgastes próprios, trouxe consigo as dores de existir, de crescer, de ter de enxergar e não mais ver, de ter de ter e não bastar apenas ser. E eu pensava comigo: “eu queria tanto estar no escuro do meu quarto a meia-noite, a meia luz, pensando, daria tudo por meu mundo e nada mais”. Guilherme Arantes.

Aí eu fiz o que já devia ter feito há muito tempo! Voltei para dentro do “quarto”! Sim, descobri que esse “lugar” não precisa ser real, pode ser imaginário, acessível pelos “conduítes” da alma, disponível a qualquer hora. Nele é possível afrouxar os nós da gravata, não atender ao celular, nem ter de ler e-mails ou olhar extratos bancários. São breves momentos que duram uma eternidade, pois ali você é só seu e de mais ninguém.

Bem afirmou Henry Miller, ainda que pareça idiotice: “manter a mente vazia é uma proeza… Estar silencioso o dia inteiro, não ver nenhum jornal, não ouvir rádio, não escutar tagarelices, estar perfeita e completamente ocioso… Os jornais engendram mentiras, ódio, ganância, inveja, desconfiança, medo, maldade. Nós não precisamos da verdade como ela nos é servida nos jornais diários. Precisamos de paz, solidão e ociosidade”.

Jesus era um homem de oração, de reclusão. Tinha necessidade do isolamento, da introspecção, da busca do intangível, do imaterial, de alimentar sua alma de verdades e não apenas de coisas. Ele também tinha um “quarto” desses… Estava em todo lugar e em lugar nenhum. Às vezes era o jardim, em outras as montanhas. De certa feita, fez dele a beira mar e, num outro momento, uma estalagem qualquer, no meio do nada, acolhido pelo frio, embalado pelo cansaço, debaixo do céu estrelado, deitado sobre o chão. Ali sentia os aromas do deserto, sabia que mesmo sem ter onde reclinar a cabeça, possuía um “quarto” somente seu…

Recentemente, visitei aquele “cantinho” da infância. Depois de 27 anos voltei ao apartamento onde meus pais moraram por quase duas décadas. Nele estava residindo um casal de velhinhos. Muito simpáticos, me convidaram a entrar. Mostraram-me a casa reformada, as mudanças realizadas. Tudo ficou muito bonito.

Mas houve um momento em que eu cheguei ao quarto que havia sido meu. O coração acelerou, os olhos encheram-se de lágrimas, uma nostalgia irresistível tomou conta de minha mente pragmática, não dada a muitas emoções. “Eu dormia aqui”, disse. O casal me deixou só por alguns instantes, tempo suficiente para ver toda minha vida diante dos meus olhos.

No canto do quarto, sentado na cama, estava eu mesmo, com uns 11 anos de idade. Eu olhei para mim e me perguntei: “como você está?”. Com voz embargada, o outro eu de mim mesmo respondeu: “eu tô bem, eu vou indo…”. O “garoto” insistiu: “você está mais velho, há marcas no seu rosto, e outras na sua alma. As de fora não importam tanto, as de dentro, todavia, talvez nem mesmo o tempo possa apagá-las.”. “Tenho de ir”, disse. “Vá com calma, ele falou. Vá mais leve, mais livre, vá com Deus!”.

Já faz meses que vivi esta experiência imaginária, ficcional… Ela me ajudou a entender algumas coisas; outras eu ainda estou discernindo, aos poucos, lentamente. Não consegui escrever sobre este fato antes, talvez por medo de me expor, talvez por medo do leitor, talvez por medo de mim mesmo… É que eu sei que “minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia”. Nietzsche.

Agora, com todo respeito, peço-lhe licença: vou para o meu “quarto”. Não, não é o quarto do meu apartamento, é o “quarto” que abriga a minha alma e o meu coração. Você não tem um desses? Bem, sugiro que adquira um o mais breve possível. Mas não procure nos classificados, nem se preocupe com dinheiro, este “quarto” está dentro de você, e só você pode encontrá-lo, entrar nele, e usufruir o que de melhor ele possa lhe proporcionar.

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* Carlos Moreira – Extraído do site Genizah

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O teólogo católico Karl Rahner é o autor da célebre frase: “o cristianismo do século XXI será místico ou desaparecerá”. Com a palavra “místico” ele não se referia à pessoas dadas a experiências psicológicas caracterizadas por exageros e devaneios. Mas sim a alguém que experimentou Deus de forma pessoal.  A palavra “mística”  vem do adjetivo “mystikos”, sendo este derivado  dos verbos “myo (fechar olhos e boca para gerar um mistério internamente) e “myeo” (penetrar no mistério).

Portanto a mística sempre foi considerada como a busca pela descoberta do caminho interior que conduz o ser humano ao encontro pessoal com Deus. A bem da verdade, a mística é algo que não existe apenas na tradição cristã. Todas as religiões e seitas não cristãs, como o budismo e o islamismo por exemplo, possuem sua dimensão mística no que concerne à  interpretação e vivência de seus credos próprios. 

Quando falamos da mística cristã, estamos tratando de uma realidade totalmente diferente, apesar de a mesma possuir algumas semelhanças quanto às místicas de outros seguimentos. No entanto, a despeito das semelhanças, a mística cristã se difere das demais por se tratar do impulso amoroso interior que nos coloca rumo ao contato pessoal com Deus através de uma amizade rica e profícua com Jesus Cristo. 

A mística cristã tem sua origem na própria história do desenvolvimento da relação de Deus com a humanidade. Relação esta que ficou registrada nas páginas das Sagradas Escrituras, tanto do Velho quanto do Novo Testamento. Sendo assim, podemos afirmar que a mística cristã origina-se das páginas da Bíblia. Não é o nosso objetivo detalhar por menores o conteúdo místico das Escrituras, principalmente no Novo Testamento. Mas, vale sublinhar que os dois grandes expoentes místicos encontrados nas páginas neo testamentárias são exatamente os escritos dos apóstolos João e Paulo. Com suas imagens acerca de Jesus como logos, luz, pão da vida, videira onde os ramos devem permanecer; bem como da utilização das imagens que descrevem nossa união com Cristo, como por exemplo a do corpo humano, encontramos uma linguagem e um apelo para uma experiência essencialmente mística. 

A partir da interpretação mística das Escrituras, encontramos o desenvolvimento das tradições cristãs que experienciaram e divulgaram essa forma de encontrar Deus. Podemos falar de dois blocos dentro da tradição mística cristã: a mística oriental tendo como grandes nomes os Pais Gregos como João Crisóstomo, Gregório de Nazianzo, Gregório de Nissa, Basílio de Cesaréia e Atanásio de Alexandria  cuja grande contribuição foi a busca do diálogo entre a fé cristã e a gnose e filosofia, principalmente a de Platão. O outro seguimento trata do desenvolvimento da mística no ocidente, onde figuram personagens como Gregório Magno, Jerônimo, Agostinho e Ambrósio de Milão que tem como principal contribuição o que denominou-se de “mística do amor”. Tal abordagem teve seu ápice nos escritos e experiências de mulheres místicas como as “beguinas”. Nomes como os de Matilde de Magdeburgo, Hadewijch de Antuérpia e Gertudres de Helfta aparecem como seus principais ícones. 

Ainda dentro desse bloco temos a mística espanhola de Teresa de Ávila e de João da cruz que com sua abordagem da amizade com Cristo como sendo o caminho interior para a experimentação de Deus, concedeu inominável contribuição no intendimento da união da alma com Deus . 

Ainda podemos citar outros movimentos místicos como o “Quietismo” francês que tem em Madame Guyon seu  nome principal, e o “Pietismo”, de confissão protestante surgido pouco depois de 1.600 com seu forte apelo emocional. Temos nele Philipp Jakob Spener seu personagem mais importante.

O espaço que temos aqui não nos permite uma acurada abordagem de cada movimento e a contribuição de seus principais representantes. Contudo, o simples mencionar dos mesmos já serve para que possamos ter uma ideia da riqueza e amplitude da tradição mística no desenvolvimento da história cristã.

De uns anos para cá temos visto um interesse renovado pela mística nos círculos cristãos, tanto católicos como evangélicos. Estamos presenciando um verdadeiro êxodo do Egito da aridez espiritual na direção da Terra Prometida da mística de onde emanam leite e mel para as almas sedentas. Isso constatamos pelo menos por dois motivos. Primeiramente em decorrência da superficialidade com que a igreja tem experienciado a fé cristã nesses últimos tempos. Karl Rahner falava de um “inverno da igreja” onde a mesma perderia a sensação de Deus.  A grande verdade é que hoje muitas pessoas experimentam uma grande distância de Deus. A intimidade com Cristo não passa de mero discurso vazio encontrado nos sermões e estudos bíblicos nas igrejas. Uma utopia praticamente difícil de ser alcançada, salvo para grupos mais avançados na vida espiritual.

Uma segunda razão para a corrida rumo ao retorno místico da fé cristã é o fato de muitos estarem fartos, cansados, de uma vida espiritual que apenas crê no que os outros dizem sobre Deus. Essas pessoas desejam, elas mesmas, terem suas próprias experiências espirituais.  E vêem na mística o caminho que atende seus anseios mais profundos de união divina. 

Levando em consideração o sentido mais prático da mística como sendo o experimentar a Deus, podemos considerar seis áreas da experiência cristã como sendo o itinerário interior e exterior que traça os caminhos da mística:

1. O Caminho Contemplativo – Aqueles que andam nesse caminho priorizam o recolhimento e o silêncio interior como via que nos conduz à perfeição, ou seja, à união com Deus. Temos na tradição católica romana e na ortodoxa grega os grandes blocos representantes desse caminho místico. O mais interessante é  perceber nisso a maravilhosa tradição dos Pais do Deserto como fonte comum dessas duas confissões contemplativas. 

2. O Caminho Pneumatológico – Os seguidores desse caminho veem na realização do Espírito Santo na vida do crente em Jesus, uma via para a experiência com Deus. A presença do Espírito habitando no corpo do cristão lançam a base teológica para a experiência do “retorno ao centro” tão difundido na mística do caminho contemplativo. Devemos perceber com isso que não estamos tratando de vários caminhos diferentes para se atingir um objetivo em comum. Mas, aspectos diferentes de uma mesma realidade que se tocam e complementam-se mutuamente. Há um forte apelo místico naquilo que a Bíblia descreve como o ministério do Espírito Santo na vida do cristão: Ele é como o amor derramado nos corações dos crentes (Rm 5.5); Ele ora em nós (Rm 8.15); Ele nos une a Deus; Ele investiga os aspectos mais profundos de nosso ser dando voz aos anseios para os quais não encontramos palavras em oração (Rm 8.26). O Espírito Santo, definitivamente, é imprescindível na vivência mística cristã. 

3. O Caminho Compassivo – Aqui temos a conjunção entre vida contemplativa e vida ativa como os dois fundamentos da espiritualidade cristã.   Os que trilham essa vereda vêem no encontro com Deus o pano de fundo para a ministração junto ao mundo. Os místicos do caminho compassivo, à exemplo da grande Madre Teresa de Calcutá, devotam sua vida no cuidado dos pobres, na promoção da justiça e da igualdade, com o intuito de enxergar a face oculta de Jesus por detrás do rosto do homem sofredor. Esse caminho místico experimenta a Deus no mistério da experiência de servir em amor ao próximo (cf. Mt 25.34-40).

4. O Caminho da Santificação – Esse é o caminho dos que buscam a conformidade com Cristo. Tem na imitação da vida de Jesus a realização de sua mística pessoal. Sem dúvidas a grande obra  que representa essa tendência espiritual é o livro “A Imitação de Cristo” de Tomás de Kempis. O simbolo bíblico do caminho místico da santificação é a famosa declaração paulina – “Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu quem vive, mas, Cristo vive em mim…” (Gl 2.20). Mais uma vez encontramos os caminhos místicos se entrecruzando: no sentido de que a santificação só é possível pela ação do Espírito Santo na vida do cristão (caminho pneumatológico) e que no desejo dessa vida santa muitos foram os que se entregaram às práticas ascéticas e a vida de recolhimento (caminho contemplativo)

5. O Caminho do Intelecto – Tem no estudo das Sagradas Escrituras o caminho para o aprofundamento da compreensão e experimentação da vida em Deus. É a vida centrada na Palavra. Que retira da mesma as bases para sua experiência com Deus e no mundo. Aqui se encerram  dois aspectos dessa tradição, um deles o da meditação bíblica tendo na Lectio Divina sua principal empressão, e a dimensão kerigmática com a pregação e ensino dos mistérios da Palavra de Deus sobretudo do Evangelho de Cristo. Novamente chamamos a atenção para os caminhos que se tocam pois temos no movimento monástico (caminho contemplativo) o principal divulgador da prática da leitura orante das Escrituras (Lectio) e no caminho pneumatológico a busca pelo poder que deve acompanhar a exposição das Escrituras.  

6. O Caminho Sacramental ou Cósmico – Esse é um caminho místico em que encontra-se e busca-se Deus na contemplação e admiração da Natureza. A Natureza, com sua exuberância e beleza de formas, se torna um lugar privilegiado de encontro com Deus. O místico percebe e “enxerga” Deus em todas as manifestações e belezas no mundo natural e da vida. A Natureza é o espelho onde o místico contempla e encontra Deus”(extraído do orkut – Comunidade Místicos Católicos – fórum de discussão). O místico desse caminho ao invés de enxergar o mundo físico, as artes e outras expressões culturais humanas, como impedimentos para a vida espiritual, vê neles um “não sei o quê” a mais, uma percepção intuitiva de algo divino e transcendente por detrás dessas realidades.

Todos os caminhos acima referidos visam um único propósito: conduzir-nos a um encontro unitivo e transformador com o Senhor Jesus Cristo. Isso porque, toda mística cristã que se preze deve resultar numa conformação com a vida de Cristo. Encerro esta breve exposição com as palavras de Anselm Grun transcritas de seu esclarecedor livro “Mística – descobrir o espaço interior” – ed. Vozes:

“Em Cristo, Paulo encontrou uma nova identidade, passou a ser sua própria essência interior. Em sua mística do Cristo, está expresso que não se trta apenas de chegar a um contato pessoal e íntimo com Cristo, porém, mais que isso, alcançar um ser em Cristo, uma plena transformação no Cristo, passando a ser Cristo o nosso verdadeiro ser, o cerne de nossa personalidade interior; vivemos em função dele, e não mais em função do ego.” (pg. 37) 

Para saber mais sobre os seis caminhos da mística cristã, visite o site Renovare Brasil

 

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A sociedade de hoje tem se caracterizado como uma das gerações mais superficiais, materialistas e egocêntricas que a história já registrou. O culto ao corpo perfeito, a busca desenfreada pela eterna juventude e a caça insaciável pela autosatisfação são algumas das marcas que descrevem a lista de objetivos e prioridades do homem e mulher pós-modernos.
Temos podido assistir através da mídia, que invade nossos lares, um verdadeiro desfile de egos inflamados pela vaidade, arrogância e prepotência por parte de “celebridades” (o que há para ser celebrado é que não sei!) dos diferentes meios sociais que compôem a massa pluralista. Apesar disso, a grande maioria destas pessoas em evidência, volta e meia, são descobertas em escândalos de naturezas variadas. Mas, o que importa se aquela atriz adulterou, ou foi protagonista de uma trama de preconceito racial, se na primeira página de jonal e nas capas de revistas encontra-se estampada a manchete da última quantidade em mililitros de silicone que a mesma aplicou no seio ou o número de pontos que levou por ocasião de sua última plástica?
Verdadeiramente vivemos tempos de conflitos. Em que a estética tem tomado lugar da ética no pensamento e comportamento do ser humano comum e do “incomum”. Tanto do “joão ninguém” quanto do VIP. Tanto do rico quanto do pobre.
O que fica patente bem diante de nossos olhos é uma verdadeira e decadente inversão de valores: hoje o que se procura é a beleza física e não a integridade moral; corpos sarados e não caráter formado. Vai se modelando e adornando o exterior enquanto o conteúdo de dentro permanece em estado avançado de putrefação.
Os frutos colhidos pela sociedade em cosequência daquilo que tem deliberadamente cultivado para si são seres humanos de pensamento reflexivo raso (isso quando refletem!), sem conteúdo, sem nenhuma profundidade. O que lhes sobra de bícepes e marcas de biquine, falta-lhes de valores e ideais para a vida que valem a pena ser acolhidos e assentados na alma.
O que não se percebe é que a estética, tão valorizada e buscada por tantos, um dia o tempo e a física darão cabo dela. (Chega uma hora que por mais que se costure não dá para esticar nem levantar mais nada). Contudo, seria de grande valor para todos de vez em quando se perguntarem: “Que tipo de pessoa estou me tornando á medida que envelheço?”; “Que tipo de caráter tenho manifestado diante das pessoas?”; “Qual o conteúdo de minhas atitudes?”; “Qual a real motivação por detrás de cada uma de minhas palavras?”. Tudo isso é de grande importância para a fomentação de seres humanos saudáveis e consequentemente de uma sociedade saudável.
Ao que tudo indica, parece que os cristãos têm sucumbido a sedução do presente século e deixado a ética interior, dos valores profundos e dos altos ideais de lado, para dar lugar à vã estética exterior, de aparências e superficialidades. Acerca desta mudança de pensamento e comportamento por parte do povo de Deus, o pastor Ricardo Barbosa por ocasião do Segundo Congresso de Evangelização (CBE 2) ocorrido no ano de 2003 em Belo Horizonte-MG disse coisas muito duras, porém, verídicas acerca do estado de coisas a que temos nos proposto tratar aqui. Ele disse:
“A nova geração de cristãos já não procura a salvação da alma, mas um corpo sarado; não busca a justificação, mas aceitação; não acredita na renúncia, mas na autorealização; não se interessa em aprender a amar, mas em fazer sexo; já não tem fome e sede de justiça, mas um desejo insaciável de consumir; não peca – quando muito, carrega traumas provocados por outros. A distinção entre o amor responsável e o sexo inrresponsável já não é tão óbvia. A grande preocupação hoje já não é mais com a alma, nem com a eternidade, mas com o controle da celulite, com os níveis de colesterol, com a taxa de gordura, com a grife da roupa ou o sucesso profissional”.
Valores e coisas até então colocados como realidades secundárias na vida do cristão, hoje são incaradas e procuradas como sendo essenciais a sua plena realização pessoal e felicidade.
Contudo, temo que o que é realmente importante, duradouro e de valor eterno esteja sendo tratado como aquele campo feio e pedregoso da história. O seu proprietário o vendeu sem saber que nele havia uma grande reserva de petróleo.
Não estamos enxergando o que realmente nos é caro. Temos nos satisfeito com “ouro” dos tolos. Temos pego um cristal barato, lapidado e chamado de diamante. Contudo, um pequeno tombo é o suficiente para desfazer em mil pedaços nossas vãs esperanças.
Parece que nos falta ouvir rumores do outro mundo. Rumores estes que nos façam lembrar que a vida aqui e agora não é para sempre. Que o envelhecer nesta terra é o prelúdio de uma vida de eterna juventude, ou de juventude eterna nos céus. Que o que se desfaz por fora tem seu antônimo naquilo que se renova por dentro. Que a morte não é para ser temida. Mas, aguardada e aceita. Só a temem os que não tem esperança. Os que não sabem para onde vão nem com quem estarão.
Falta-nos reaprender que as coisas visíveis as quais podemos tocar, mudar e modelar são efêmeras, passageiras. Enquanto que nossos valores e ideias que advêm de nosso interior e que se traduzem em atitudes e palavras de nossa parte, são eternas.

“Por isso não desfalecemos; mas ainda que o nosso homem exterior se esteja consumindo, o interior, contudo, se renova de dia em dia”
(2Co 4:16)

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