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Posts Tagged ‘vida mística’

Aquele era o meu mundo… Ali eu existia sendo eu mesmo, sendo um todo, sendo meu. Fechada a porta, luzes se acendiam, cenários se desvelavam, via-me alçado ao imaginário, viajava sem sair do lugar, visitava outros ambientes, outros “planetas”! Mesmo na escuridão da noite, podia enxergar perfeitamente. O rádio tocava canções para embalar meus pensamentos, músicas antigas, daquelas que lhe acalmam, lhe entorpecem.

Todo mundo precisa de um “quarto”. Um lugar só seu, feito de estrelas e breu, com chaves só pelo lado de dentro, impenetrável, inviolável, onde nada do mundo exterior possa lhe atingir. Chega de tanta realidade! Há de se poder “delirar” um pouco, pois quem suporta viver o concreto o tempo inteiro? Naquele “quarto” eu me despia de tudo o que não era, me vestia de tudo o que gostaria de ser. Ali “…eu era o rei. Era o bedel e era também Juiz. E pela a minha Lei a gente era obrigado a ser feliz”. Chico Buarque.

Mas eu cresci, mudei de lugar, mudei de “quarto”… O novo não era do mesmo jeito, tinha mais glamour, mas nele o “show” não acontecia à noite, as cortinas não se abriam, os palhaços não apareciam, a vida era rotina e solidão. Eu tinha saudades do “velho amigo”, daquele pedacinho de mundo que eu havia criado, tecido de pétalas, coberto de sons, de cores, fantasias, onde sempre havia festas, risos, era um mundo dentro do meu mundo, um refúgio, um lugar onde me sentia protegido.

O tempo se passou… Os sonhos se esfarelaram pelo chão da vida. As estrelas despencaram do firmamento, o sol se pôs, tudo ficou denso, escuro, cheio de silêncios, de poeira levada pelo vento. A realidade veio me brindar com sua dose de fatalismos, com seus desgastes próprios, trouxe consigo as dores de existir, de crescer, de ter de enxergar e não mais ver, de ter de ter e não bastar apenas ser. E eu pensava comigo: “eu queria tanto estar no escuro do meu quarto a meia-noite, a meia luz, pensando, daria tudo por meu mundo e nada mais”. Guilherme Arantes.

Aí eu fiz o que já devia ter feito há muito tempo! Voltei para dentro do “quarto”! Sim, descobri que esse “lugar” não precisa ser real, pode ser imaginário, acessível pelos “conduítes” da alma, disponível a qualquer hora. Nele é possível afrouxar os nós da gravata, não atender ao celular, nem ter de ler e-mails ou olhar extratos bancários. São breves momentos que duram uma eternidade, pois ali você é só seu e de mais ninguém.

Bem afirmou Henry Miller, ainda que pareça idiotice: “manter a mente vazia é uma proeza… Estar silencioso o dia inteiro, não ver nenhum jornal, não ouvir rádio, não escutar tagarelices, estar perfeita e completamente ocioso… Os jornais engendram mentiras, ódio, ganância, inveja, desconfiança, medo, maldade. Nós não precisamos da verdade como ela nos é servida nos jornais diários. Precisamos de paz, solidão e ociosidade”.

Jesus era um homem de oração, de reclusão. Tinha necessidade do isolamento, da introspecção, da busca do intangível, do imaterial, de alimentar sua alma de verdades e não apenas de coisas. Ele também tinha um “quarto” desses… Estava em todo lugar e em lugar nenhum. Às vezes era o jardim, em outras as montanhas. De certa feita, fez dele a beira mar e, num outro momento, uma estalagem qualquer, no meio do nada, acolhido pelo frio, embalado pelo cansaço, debaixo do céu estrelado, deitado sobre o chão. Ali sentia os aromas do deserto, sabia que mesmo sem ter onde reclinar a cabeça, possuía um “quarto” somente seu…

Recentemente, visitei aquele “cantinho” da infância. Depois de 27 anos voltei ao apartamento onde meus pais moraram por quase duas décadas. Nele estava residindo um casal de velhinhos. Muito simpáticos, me convidaram a entrar. Mostraram-me a casa reformada, as mudanças realizadas. Tudo ficou muito bonito.

Mas houve um momento em que eu cheguei ao quarto que havia sido meu. O coração acelerou, os olhos encheram-se de lágrimas, uma nostalgia irresistível tomou conta de minha mente pragmática, não dada a muitas emoções. “Eu dormia aqui”, disse. O casal me deixou só por alguns instantes, tempo suficiente para ver toda minha vida diante dos meus olhos.

No canto do quarto, sentado na cama, estava eu mesmo, com uns 11 anos de idade. Eu olhei para mim e me perguntei: “como você está?”. Com voz embargada, o outro eu de mim mesmo respondeu: “eu tô bem, eu vou indo…”. O “garoto” insistiu: “você está mais velho, há marcas no seu rosto, e outras na sua alma. As de fora não importam tanto, as de dentro, todavia, talvez nem mesmo o tempo possa apagá-las.”. “Tenho de ir”, disse. “Vá com calma, ele falou. Vá mais leve, mais livre, vá com Deus!”.

Já faz meses que vivi esta experiência imaginária, ficcional… Ela me ajudou a entender algumas coisas; outras eu ainda estou discernindo, aos poucos, lentamente. Não consegui escrever sobre este fato antes, talvez por medo de me expor, talvez por medo do leitor, talvez por medo de mim mesmo… É que eu sei que “minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia”. Nietzsche.

Agora, com todo respeito, peço-lhe licença: vou para o meu “quarto”. Não, não é o quarto do meu apartamento, é o “quarto” que abriga a minha alma e o meu coração. Você não tem um desses? Bem, sugiro que adquira um o mais breve possível. Mas não procure nos classificados, nem se preocupe com dinheiro, este “quarto” está dentro de você, e só você pode encontrá-lo, entrar nele, e usufruir o que de melhor ele possa lhe proporcionar.

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* Carlos Moreira – Extraído do site Genizah

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O teólogo católico Karl Rahner é o autor da célebre frase: “o cristianismo do século XXI será místico ou desaparecerá”. Com a palavra “místico” ele não se referia à pessoas dadas a experiências psicológicas caracterizadas por exageros e devaneios. Mas sim a alguém que experimentou Deus de forma pessoal.  A palavra “mística”  vem do adjetivo “mystikos”, sendo este derivado  dos verbos “myo (fechar olhos e boca para gerar um mistério internamente) e “myeo” (penetrar no mistério).

Portanto a mística sempre foi considerada como a busca pela descoberta do caminho interior que conduz o ser humano ao encontro pessoal com Deus. A bem da verdade, a mística é algo que não existe apenas na tradição cristã. Todas as religiões e seitas não cristãs, como o budismo e o islamismo por exemplo, possuem sua dimensão mística no que concerne à  interpretação e vivência de seus credos próprios. 

Quando falamos da mística cristã, estamos tratando de uma realidade totalmente diferente, apesar de a mesma possuir algumas semelhanças quanto às místicas de outros seguimentos. No entanto, a despeito das semelhanças, a mística cristã se difere das demais por se tratar do impulso amoroso interior que nos coloca rumo ao contato pessoal com Deus através de uma amizade rica e profícua com Jesus Cristo. 

A mística cristã tem sua origem na própria história do desenvolvimento da relação de Deus com a humanidade. Relação esta que ficou registrada nas páginas das Sagradas Escrituras, tanto do Velho quanto do Novo Testamento. Sendo assim, podemos afirmar que a mística cristã origina-se das páginas da Bíblia. Não é o nosso objetivo detalhar por menores o conteúdo místico das Escrituras, principalmente no Novo Testamento. Mas, vale sublinhar que os dois grandes expoentes místicos encontrados nas páginas neo testamentárias são exatamente os escritos dos apóstolos João e Paulo. Com suas imagens acerca de Jesus como logos, luz, pão da vida, videira onde os ramos devem permanecer; bem como da utilização das imagens que descrevem nossa união com Cristo, como por exemplo a do corpo humano, encontramos uma linguagem e um apelo para uma experiência essencialmente mística. 

A partir da interpretação mística das Escrituras, encontramos o desenvolvimento das tradições cristãs que experienciaram e divulgaram essa forma de encontrar Deus. Podemos falar de dois blocos dentro da tradição mística cristã: a mística oriental tendo como grandes nomes os Pais Gregos como João Crisóstomo, Gregório de Nazianzo, Gregório de Nissa, Basílio de Cesaréia e Atanásio de Alexandria  cuja grande contribuição foi a busca do diálogo entre a fé cristã e a gnose e filosofia, principalmente a de Platão. O outro seguimento trata do desenvolvimento da mística no ocidente, onde figuram personagens como Gregório Magno, Jerônimo, Agostinho e Ambrósio de Milão que tem como principal contribuição o que denominou-se de “mística do amor”. Tal abordagem teve seu ápice nos escritos e experiências de mulheres místicas como as “beguinas”. Nomes como os de Matilde de Magdeburgo, Hadewijch de Antuérpia e Gertudres de Helfta aparecem como seus principais ícones. 

Ainda dentro desse bloco temos a mística espanhola de Teresa de Ávila e de João da cruz que com sua abordagem da amizade com Cristo como sendo o caminho interior para a experimentação de Deus, concedeu inominável contribuição no intendimento da união da alma com Deus . 

Ainda podemos citar outros movimentos místicos como o “Quietismo” francês que tem em Madame Guyon seu  nome principal, e o “Pietismo”, de confissão protestante surgido pouco depois de 1.600 com seu forte apelo emocional. Temos nele Philipp Jakob Spener seu personagem mais importante.

O espaço que temos aqui não nos permite uma acurada abordagem de cada movimento e a contribuição de seus principais representantes. Contudo, o simples mencionar dos mesmos já serve para que possamos ter uma ideia da riqueza e amplitude da tradição mística no desenvolvimento da história cristã.

De uns anos para cá temos visto um interesse renovado pela mística nos círculos cristãos, tanto católicos como evangélicos. Estamos presenciando um verdadeiro êxodo do Egito da aridez espiritual na direção da Terra Prometida da mística de onde emanam leite e mel para as almas sedentas. Isso constatamos pelo menos por dois motivos. Primeiramente em decorrência da superficialidade com que a igreja tem experienciado a fé cristã nesses últimos tempos. Karl Rahner falava de um “inverno da igreja” onde a mesma perderia a sensação de Deus.  A grande verdade é que hoje muitas pessoas experimentam uma grande distância de Deus. A intimidade com Cristo não passa de mero discurso vazio encontrado nos sermões e estudos bíblicos nas igrejas. Uma utopia praticamente difícil de ser alcançada, salvo para grupos mais avançados na vida espiritual.

Uma segunda razão para a corrida rumo ao retorno místico da fé cristã é o fato de muitos estarem fartos, cansados, de uma vida espiritual que apenas crê no que os outros dizem sobre Deus. Essas pessoas desejam, elas mesmas, terem suas próprias experiências espirituais.  E vêem na mística o caminho que atende seus anseios mais profundos de união divina. 

Levando em consideração o sentido mais prático da mística como sendo o experimentar a Deus, podemos considerar seis áreas da experiência cristã como sendo o itinerário interior e exterior que traça os caminhos da mística:

1. O Caminho Contemplativo – Aqueles que andam nesse caminho priorizam o recolhimento e o silêncio interior como via que nos conduz à perfeição, ou seja, à união com Deus. Temos na tradição católica romana e na ortodoxa grega os grandes blocos representantes desse caminho místico. O mais interessante é  perceber nisso a maravilhosa tradição dos Pais do Deserto como fonte comum dessas duas confissões contemplativas. 

2. O Caminho Pneumatológico – Os seguidores desse caminho veem na realização do Espírito Santo na vida do crente em Jesus, uma via para a experiência com Deus. A presença do Espírito habitando no corpo do cristão lançam a base teológica para a experiência do “retorno ao centro” tão difundido na mística do caminho contemplativo. Devemos perceber com isso que não estamos tratando de vários caminhos diferentes para se atingir um objetivo em comum. Mas, aspectos diferentes de uma mesma realidade que se tocam e complementam-se mutuamente. Há um forte apelo místico naquilo que a Bíblia descreve como o ministério do Espírito Santo na vida do cristão: Ele é como o amor derramado nos corações dos crentes (Rm 5.5); Ele ora em nós (Rm 8.15); Ele nos une a Deus; Ele investiga os aspectos mais profundos de nosso ser dando voz aos anseios para os quais não encontramos palavras em oração (Rm 8.26). O Espírito Santo, definitivamente, é imprescindível na vivência mística cristã. 

3. O Caminho Compassivo – Aqui temos a conjunção entre vida contemplativa e vida ativa como os dois fundamentos da espiritualidade cristã.   Os que trilham essa vereda vêem no encontro com Deus o pano de fundo para a ministração junto ao mundo. Os místicos do caminho compassivo, à exemplo da grande Madre Teresa de Calcutá, devotam sua vida no cuidado dos pobres, na promoção da justiça e da igualdade, com o intuito de enxergar a face oculta de Jesus por detrás do rosto do homem sofredor. Esse caminho místico experimenta a Deus no mistério da experiência de servir em amor ao próximo (cf. Mt 25.34-40).

4. O Caminho da Santificação – Esse é o caminho dos que buscam a conformidade com Cristo. Tem na imitação da vida de Jesus a realização de sua mística pessoal. Sem dúvidas a grande obra  que representa essa tendência espiritual é o livro “A Imitação de Cristo” de Tomás de Kempis. O simbolo bíblico do caminho místico da santificação é a famosa declaração paulina – “Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu quem vive, mas, Cristo vive em mim…” (Gl 2.20). Mais uma vez encontramos os caminhos místicos se entrecruzando: no sentido de que a santificação só é possível pela ação do Espírito Santo na vida do cristão (caminho pneumatológico) e que no desejo dessa vida santa muitos foram os que se entregaram às práticas ascéticas e a vida de recolhimento (caminho contemplativo)

5. O Caminho do Intelecto – Tem no estudo das Sagradas Escrituras o caminho para o aprofundamento da compreensão e experimentação da vida em Deus. É a vida centrada na Palavra. Que retira da mesma as bases para sua experiência com Deus e no mundo. Aqui se encerram  dois aspectos dessa tradição, um deles o da meditação bíblica tendo na Lectio Divina sua principal empressão, e a dimensão kerigmática com a pregação e ensino dos mistérios da Palavra de Deus sobretudo do Evangelho de Cristo. Novamente chamamos a atenção para os caminhos que se tocam pois temos no movimento monástico (caminho contemplativo) o principal divulgador da prática da leitura orante das Escrituras (Lectio) e no caminho pneumatológico a busca pelo poder que deve acompanhar a exposição das Escrituras.  

6. O Caminho Sacramental ou Cósmico – Esse é um caminho místico em que encontra-se e busca-se Deus na contemplação e admiração da Natureza. A Natureza, com sua exuberância e beleza de formas, se torna um lugar privilegiado de encontro com Deus. O místico percebe e “enxerga” Deus em todas as manifestações e belezas no mundo natural e da vida. A Natureza é o espelho onde o místico contempla e encontra Deus”(extraído do orkut – Comunidade Místicos Católicos – fórum de discussão). O místico desse caminho ao invés de enxergar o mundo físico, as artes e outras expressões culturais humanas, como impedimentos para a vida espiritual, vê neles um “não sei o quê” a mais, uma percepção intuitiva de algo divino e transcendente por detrás dessas realidades.

Todos os caminhos acima referidos visam um único propósito: conduzir-nos a um encontro unitivo e transformador com o Senhor Jesus Cristo. Isso porque, toda mística cristã que se preze deve resultar numa conformação com a vida de Cristo. Encerro esta breve exposição com as palavras de Anselm Grun transcritas de seu esclarecedor livro “Mística – descobrir o espaço interior” – ed. Vozes:

“Em Cristo, Paulo encontrou uma nova identidade, passou a ser sua própria essência interior. Em sua mística do Cristo, está expresso que não se trta apenas de chegar a um contato pessoal e íntimo com Cristo, porém, mais que isso, alcançar um ser em Cristo, uma plena transformação no Cristo, passando a ser Cristo o nosso verdadeiro ser, o cerne de nossa personalidade interior; vivemos em função dele, e não mais em função do ego.” (pg. 37) 

Para saber mais sobre os seis caminhos da mística cristã, visite o site Renovare Brasil

 

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“O Senhor, porém, está em seu santo templo; diante dele fique em silêncio toda terra” (Hc 2.20)

O texto em referência acima pode ser compreendido de duas maneiras: uma literal e outra em forma de aplicação alegórica. A primeira diz respeito à historicidade de Israel enquanto povo da aliança com Javé. Quando da construção do templo e sua consagração por Salomão Deus havia prometido que ali habitaria. E de fato era o que acontecia, pois, a presença física de Deus, sua nuvem luminosa de glória manifestava-se no local mais restrito do templo, o Santo dos Santos, onde somente o sumo sacerdote uma vez por ano poderia entrar.

Qualquer judeu devoto, para ter um encontro com Deus, teria que se encaminhar até o templo no horário certo, com a oferta e ou sacrifício certo, para ali oferece-lo em adoração. Desta forma, quando em Habacuque lemos essa declaração é exatamente isso que ela queria dizer: que Deus estava literalmente presente numa manifestação física visível e audível naquele lugar feito de tijolos, madeira, ouro e prata. Este é sentido direto e exegético do verso referendado.

Dito isso, também devemos considerar seu sentido aplicativo e alegórico para a vida do cristão. No livro de Atos no Novo Testamento o apóstolo Paulo faz uma declaração bombástica no que concerne a toda a espiritualidade Vetero Testamentária acerca da presença de Deus. O apóstolo afirma no seu discurso aos atenienses no areópago, que Deus não habita em templos feitos por homens. Esta revelação toma corpo de doutrina quando em Coríntios o mesmo Paulo lembra seus leitores de que cada um deles, enquanto indivíduos nascidos de novo em Cristo, são agora santuários do Espírito Santo. Da mesma forma que o Deus que habitou em um templo feito por mãos humanas, agora ele passara a morar em um feito por suas próprias mãos: o corpo de cada crente em Jesus Cristo.

Sendo assim, podemos entender e aplicar o texto de Habacuque como uma alegoria da experiência cristã descrita no Novo Testamento a qual nos referimos acima.

VOLTANDO-NOS PARA O CENTRO

Deus habita no corpo físico de seus servos. Logo, o templo, santificado pela presença do Espírito Santo, onde Deus está é a alma humana. Assim, podemos falar com propriedade de um santuário da alma. Deus agora não habita no exterior, mas, no mundo interior, nosso verdadeiro eu, o novo homem que segundo as Escrituras foi criado em Cristo “em justiça e em santidade provenientes da verdade” (Ef 4.24). Dito isso, podemos inferir a partir daí que, diferentemente da experiência da época de Habacuque, o crente hoje para um encontro com Deus não precisa mais ir a um lugar específico, seja ele qual for. Não precisamos mais buscar Deus do lado de fora. Basta nos voltarmos para dentro de nós, para o nosso interior, o que os místicos denominavam de retornar para o centro, onde Deus habita e nos fala continuamente, ininterruptamente ao coração.  É no santuário da alma, no nosso verdadeiro eu o “lugar” do nosso encontro hoje com Deus. Conforme nosso Senhor, o que nos basta é adentrarmos no nosso quarto, fechar a porta atrás de nós e colocarmo-nos perante a face daquele que nos vê e nos responde em secreto e em segredo: no segredo do santuário invisível de nossa alma.

RECOLHENDO-NOS EM SILÊNCIO

O profeta declara que o fato da presença física de Deus estar no santuário, deveria despertar tamanho assombro e temor, que levasse toda a terra a se silenciar perante essa presença. Podemos ver nesse entendimento literal a aplicação alegórica do caminho místico da oração silenciosa. Precisamos aprender, de uma vez por todas, a silenciar nosso coração se desejamos encontrar a Deus no nosso centro. O simples fato de que Deus está presente em nossa alma nos falando a partir dela continuamente, não significa que o estamos sempre escutando. A grande verdade é que dentro desse santuário inúmeras outras vozes clamam, juntamente com a voz divina, pela nossa atenção. Em muitos momentos o santuário de Deus ao invés de silencioso está ruidoso impedindo-nos  de percebe-lo. Somente quando o barulho do vento, do terremoto e do fogo cessaram é que o profeta Elias pode ter acessa àquele sussurro suave como a brisa da manhã. Necessitamos, com extrema urgência, atender a exortação divina que nos manda aquietarmo-nos  para que possamos saber que somente Ele é Deus.

ORAÇÃO SILENCIOSA

Apesar de parecer algo esquisito para nós por não fazer parte de nossa cultura cristã apressada, a prática da oração silenciosa, de quietude ou simplesmente silêncio tem forte amparo, tanto nas Escrituras quanto na tradição da igreja. É mais simples do que se pode imaginar e ao mesmo tempo muito difícil e complexa. Temendo por minha falta de experiência nesse caminho interior, utilizarei o material que encontrei no site Carmelo da Guarda, o qual passarei a transcrever as partes que achei mais necessárias para elucidar a experiência mística da contemplação através da oração silenciosa ou de quietude.

OS TRÊS SINAIS DO COMEÇO DA EXPERIÊNCIA

“Existem três sinais essenciais, de que a pessoa está a ser chamada à contemplação. A presença destes 3 sinais, assinala , sem equívocos, o início do itinerário contemplativo, místico.

  • PRIMEIRO SINAL – Nada satisfaz a alma e como consequência sente-se atirada para um infinito vazio. As coisas e tudo o que antes lhe “dizia” alguma coisa, já não dizem nada. As formosas realidades de outros tempos são tudo fonte que secou. Deus mesmo se calou: a aridez é a forma atual de sentir o fluxo das coisas e do espírito.
  • SEGUNDO SINAL – Já não se consegue fazer oração meditativa, não se consegue um pensamento, uma reflexão; os afectos que outrora enchiam o coração, são já remota lembrança; agora é a incapacidade que submerge a alma.
  • TERCEIRO SINAL – Este terceiro sinal é o mais importante, porque os outros dois sozinhos podem única e simplesmente indicar tibieza culpável da pessoa. Apesar de tudo quanto sente nos dois sinais anteriores, o orante, com o tempo vai passando neste estado, sente com certa frequência um como que “não sei o que”, uma atração quase imperceptível que o chama ao “fundo” de si mesmo, atração que é como um toque  sumamente delicado. Nesse fundo começa a notar paz, tranquilidade, confiança, ternura; deixou de ter interesse em perceber aspectos parciais e concretos da realidade divina;todo o seu olhar projeta-se inteiro na totalidade da realidade divina.
É necessário que os três sinais coexistam juntos. Neste estado, não aumentam as noções teológicas, mas surge uma nova forma de ver, sentir, conhecer e captar a misericórdia de Deus. Ao aumentar o “sentido de Deus”, a pessoa fica, cada vez mais firmemente orientada para Cristo.
Geralmente o orante entra na oração de quietude depois de um período de persistente aridez com aqueles sinais anteriores indicados, caracterizado pelo desaparecimento das consolações espirituais.
Nesta escuridão e aridez, começa a notar-se  esse “não sei o que” que é a presença amorosa de Deus. À medida que o espírito experimenta a unção desta oração, adquire uma nova experiência de Deus. Aqui exclui-se absolutamente a imposição da meditação. O mais que o orante pode fazer, neste período, é valer-se de uma expressão unitiva, para que o fogo não se apague. porque ao não poder meditar, entra na aridez…caminha cada vez mais para a oração da quietude.
AS TRÊS ETAPAS DA ORAÇÃO DE QUIETUDE
 
Este nível de oração já é união propriamente dita, se bem que imperfeita. Na chamada “Oração de Quietude” podemos distinguir 3 etapas que, percorridas todas elas, podem existir conjuntamente ou isoladamente.
1. ORAÇÃO DE RECOLHIMENTO INFUSO OU PASSIVO – Este nível de oração é a união (incipiente) da inteligência com Deus, o qual, com sua formosura e claridade infinita, atrai, embeleza e interiormente possui, cativa e conforta, enriquecendo-a com os preciosos dons de ciência, conselho e inteligência, mediante os quais a faz penetrar, como de um golpe, nesse mundo superior. Deste modo, unindo-a cada vez mais consigo, mesmo sendo só por uns breves instantes, deixa-a purificada e iluminada.
Diz-nos S. Teresa de Jesus acerca desta oração:
‘A primeira oração que senti, a meu ver, sobrenatural, é um recolhimento interior que se sente na alma”; “Não penseis que isto é adquirido pelo entendimento, procurando pensar que têm dentro de si a Deus, nem pela imaginação, imaginando-o dentro de si’.
 
A este recolhimento infuso ou passivo, costuma preceder – ou às vezes a seguir – uma viva presença de Deus também passiva com a qual a pessoa vem a experimentar em todas as partes uma certa impressão da divina imensidade. 
Ao recolhimento passivo, são associados, como fenômenos parciais ou como simples efeitos, às vezes, uma admiração deleitosa, que dilata a alma e a enche de gozo e de alegria ao descobrir em Deus tanta maravilha de amor, de bondade e de formosura; outras vezes certa suspensão ou um profundo silêncio espiritual, no qual ela fica atônita, absorta, abismada e como que humilhada perante tanta grandeza.
2. ORAÇÃO DE QUIETUDE – Assim chamada pela paz e sossego que dá ao espírito. Diz-nos S. Teresa de Jesus acerca da oração de quietude: 
“A alma está tão satisfeita nesta oração de quietude que a faculdade da vontade deve estar, quase de contínuo, unida Àquele que somente a pode satisfazer.”
Esta oração é a união da vontade com Deus que, como sumo Bem, a atrai energicamente a fim de que somente em Deus encontre o seu repouso. Por momentos – que costumam ser bem curtos – a alma encontra o seu pleno descanso, refrigério e fortaleza, a sua paz e felicidade. Os efeitos deste repouso espiritual, são um grande aumento de saúde espiritual, de paz profunda e alegria serena e grande facilidade para tudo o que é bom, saindo a alma desse repouso muito melhorada e disposta para trabalhar por Deus.

3. SONO DAS POTÊNCIAS (faculdades) –  A este grau de oração, S. teresa chama de ‘sono das potências’, isto é, bloqueamento incipeiente das faculdades da alma: inteligência, memória e vontade, sobre as quais atuam as virtudes teologais da fé, esperança e caridade. É a última rampa que conduz à contemplação perfeita, de união.

No recolhimento infuso e na quietude, deus cativa a vontade, mas deixa a liberdade de pensar o que quisermos. Neste (sono das potências – acréscimo meu) Deus vai pressionando a vontade (que é a sede do verdadeiro amor) cada vez com mais força, produzindo-se efeitos de toda a ordem, no espírito e no corpo. Umas vezes sintoniza-se com o impulso divino e daí nasce uma pura alegria e a oração de louvor, outras vezes produzem-se tensões entre a parte do espírito que Deus cativa e a que fica livre, e daí resultam estados que se parecem menos com a oração do que com uma luta longa e penosa, com aspiração cada vez mais forte à união.

Diz S.Teresa que:

‘a alma está a morrer quase totalmente para todas as coisas do mundo e, em troca, está a gozar apenas de Deus’.

 Os sentidos da alma só têm capacidade para se ocuparem de Deus. Aqui se juntam uns «toques de amor» com os quais Deus a vai atraindo poderosamente, preparando-a para a verdadeira união.

As virtudes ficam mais fortes do que na passada Oração de quietude (…). Aqui, a humildade que fica na alma,  é muito maior e muito mais profunda que no passado, porque vê mais claramente que de si não faz nem pouco nem muito, a não ser consentir que o Senhor lhe fizesse mercês e as abraçasse a vontade.”

Toda essa experiência espiritual, jornada mistica,  não transcorre lá ou acolá, mas, bem aqui, dentro de cada um de nós servos e servas de Cristo. Acontece no nosso mundo interior, no santuário de nossa alma. 

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O caminho místico da contemplação é descrito por S. João da Cruz como uma “noite escura da alma”. Até que a alma atinja a iluminação, ou seja, a união perfeita com Deus é-lhe necessário passar por densas trevas de escuridão sensitiva e espiritual. Tal experiência, segundo o místico espanhol carmelita, recebe o nome de noite escura pelo fato de que a luz divina, que refulge e alumia no fogo da contemplação, é maior e mais perfeita do que toda e qualquer outra luz existente na alma, sejam elas de ordem sensível ou espiritual, de tal forma que as mesmas se convertem em densas trevas como as da noite.

Na “Noite Escura da Alma”  João da Cruz descreve três tipos de noite que precedem a experiência mística da união com Deus. Em primeiro lugar temos a “noite dos sentidos” onde toda satisfação e deleite com realidades desse mundo são eclipsadas na alma que ruma ao cume da contemplação mística. A segunda noite é a “noite do espírito  na qual a alma fica sem qualquer alegria acerca das realidades espirituais afim de que apenas a fé pura e simples lhe seja de guia rumo à união com Deus. A terceira noite é a “alvorada” quando as coisas começam a “iluminar” contudo, ainda não se podem comparar com a iluminação divina que a alma alcança na contemplação.

O que S. João da Cruz na verdade nos propõe são estágios de purificação que alma deve atravessar até que a mesma, livre de todo apego tanto das realidade sensíveis como das do espírito, possa descansar no seio de Abraão em estado de perfeita comunhão. Gostaria de nessa oportunidade focar a atenção na primeira fase descrita pelo místico: a “noite dos sentidos” que aqui denominaremos de o caminho místico do desapego das coisas, pois, é isso o que ela exatamente é: uma experiência de desapego das coisas materiais.

OS APETITES E O AMOR PELAS COISAS

Para S. João da Cruz o grande inimigo a ser vencido se chama “apetites” que nada mais são do que os impulsos e desejos desordenados que existem dentro de nós.  Segundo o mestre da vida espiritual aqueles que se entregam ao vício dos apetitos das coisas deste mundo trilham um caminho de imperfeição, visto que o caminho de Deus é infinitamente perfeito. Toda a imperfeição dos apetites sensitivos está exatamente no amor que se devota às coisas terrenas que são imperfeitas, levando desta forma a alma que nelas coloca todo seu afeto a tornar-se igualmente imperfeita, visto que nos igualamos ao objeto do nosso amor.  Ao passo que o desapego das mesmas faz com que foquemos nosso amor em Deus e assim na união mística, tornamo-nos iguais a Ele, objeto de nossas “ânsias inflamadas”.

Assim, nesse desapego de todas as coisas nossos sentidos naturais ficam em escuridão, em trevas, precisando de uma luz que os guie. Esse constitui no primeiro passo para entrar nessa “noite dos sentidos”.

A GLÓRIA DE CRISTO

João da Cruz também nos instrui que para adentramos ruma a essa primeira noite necessitamos abdicar dos prazeres que os sentidos possam nos proporcionar por amor a glória de Cristo. O que o místico esperava é que seus leitores desenvolvessem um olhar crítico em relação às coisas que eles faziam no dia-a-dia. 

Desta forma segundo ele se você percebe que algum tipo de conversação não vai glorificar a Cristo, não ouça. Se a sua fala vai ser fora de hora, não fale então. E o mesmo se aplica a todos os outros sentidos naturais. Aqui fica evidente que apenas com um grande desapego por parte da alma é que esse tipo de renúncia torna-se possível.

A NOITE DOS SENTIDOS E A ESPIRITUALIDADE DE HOJE

 É impossível precisar a necessidade do ensino e da visão de João da Cruz para a espiritualidade dos dias de hoje. O contato com o conteúdo da doutrina da noite dos sentidos por si só já é mais do que o suficiente para explicar o estado de coisas a que se apresenta a vida dos cristãos contemporâneos.

Percebemos, não com pouca tristeza, o quanto um grande número de cristãos têm se entregue aos apetites das coisas terrenas. Pessoas que dizem servir a Cristo, só que no entanto, suas vidas estão pesadas por conta dos cuidados deste mundo. Diante da fé cristã que foi transformada numa vã filosofia materialista, precisamos recorrer novamente à fonte mística do ensino de João da Cruz  e bebermos de suas águas profundas. Muitos se perguntam porque a vida cristã nestes dias se encontra tão superficial, epidérmica e sem conteúdo relevante. Jesus certa feita declarou que onde estivesse o tesouro do homem, lá estaria também o seu coração. O homem contemporâneo vive uma espiritualidade superficial porquanto as águas onde tem dado de beber a seu próprio coração são igualmente rasas. A  vida espiritual do homem pós-moderno tronou-se sem viço exatamente porque igualou-se ao objeto de seu amor: as coisas desse mundo que não tem vida em si mesmas, porquanto são perecíveis e efêmeras. Falta profundidade porque falta fome e sede de Deus. Conforme o místico, aquelas ditas “ânsias inflamadas” de puro desejo ardente pela união com Cristo.

Assim as pessoas continuam correndo atrás do vento. Seus olhos nunca se saciam de ver e nem os ouvidos de ouvir. Buscam poder, prosperidade, fama e coisas dessa natureza. No entanto a sentença divina permanece: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!”

Sem dúvidas o retorno ao ensino sanjoanino também  auxiliará na quebra da  visão antropocêntrica e egocêntrica que tem permeado a comunidade dos salvos nesses últimos tempos. Viver a vida em, com e para Cristo buscando em tudo – seja no comer, beber, vestir, falar etc. – glorificar Seu bendito nome. Ao invés de satisfazer-nos a nós mesmos, como hoje se vê em peso nas igrejas, o deleite a que se deverá procurar é o prazer do sorriso oculto de Deus na face de Cristo Senhor. O foco já não estará mais no homem nem em suas necessidades e/ou expectativas, mas, sobretudo na celebração dos mistérios de Deus em meio ao Seu povo. Oh! Como precisamos atender ao chamado do humilde frei e retornarmos para a abordagem de um evangelho simples e ao mesmo tempo profundo na sua capacidade de nos transformar mediante nossa união com Deus. 

Como precisamos nos dias de hoje de uma fé cristã espiritual, mística. Uma espiritualidade do seguimento de Jesus que nos torne, verdadeiramente,  discípulos semelhantes a ele. Uma vida espiritual desapegada às coisas do mundo e ao mesmo tempo com seus apetites carnais mortificados e os desejos espirituais plenamente vivificados. 

Precisamos, uma vez mais, adentramos na noite escura onde tudo o mais, em que antes nos apegávamos, perde o seu sentido, perde a sua “luz”, quando diante da luz de Deus que brilha intensamente e perfeitamente, em chamas flamejantes de amorosa união mística.

 

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Quando tratamos da espiritualidade cristã não estamos pisando em terreno pequeno. Trata-se de algo extenso, amplo e ao mesmo tempo de exuberante profundidade. O caminho místico, na pena de alguns autores, foi retratado como uma subida a um monte, onde o objetivo é alcançar o cume. Em outros como uma edificação, um castelo onde um Rei Glorioso habita e aguarda ansiosamente pela chegada de seus súditos amados. S. João da Cruz e S. Teresa de Ávila, respectivamente, brindaram-nos com essas percepções do avanço na vida interior em suas obras “Subida ao Monte Carmelo” e “Castelo Interior”

Pegando emprestado a alegoria da mística espanhola podemos pensar na espiritualidade humana como uma edificação, se você preferir, um prédio. Nesse prédio encontramos apartamentos, escadas, janelas, ou seja, tudo o que existe em um prédio comum. Contudo, nossa atenção deve se voltar para os fundamentos da obra. De nada nos vale um prédio bonito e funcional, cujos alicerces não ofereçam firmeza nem sustentação a toda a estrutura acima edificada. O próprio Senhor nos advertiu a esse respeito quando no final de seu sermão exortou seus ouvintes a não edificarem suas casas na areia, mas, na rocha. O fundamento é tudo!

Pensando na vida mística cristã, podemos falar de dois alicerces que sustentam e põe de pé a espiritualidade. Se temos um, mas, nos falta o outro, corremos grande perigo de que nossa vida com Deus, nossa busca unitiva com Aquele que é Totalmente Outro, literalmente desmorone. Sendo assim, podemos falar da Vida Contemplativa e da Vida Ativa como os dois alicerces da caminhada mística na espiritualidade cristã.

A verdadeira mística nos impele na direção de Deus e do mundo imerso em Deus. Na verdade, não pode existir vida contemplativa verdadeira se a mesma não desemboca numa vida ativa, de serviço, como resposta à primeira. A vida contemplativa se ocupa com o não ocupar-se de nada que seja ativo. Seu alvo é a busca da união com Deus através do caminho interior do silêncio, da solitude e da meditação bíblica. Ela exatamente rompe com as compulsões da vida pós-moderna com seu ritmo apressado e nos insere num mundo de quietude onde a Palavra sussurrada converge e recria tudo e todos no Cristo envolto em mistério.

Por outro lado a vida ativa compele-nos à ação. O seu  chamado é de que nos tornemos sal da terra e luz do mundo. Conclama a todo servo e serva de Deus a trabalhar para fazer do mundo presente um lugar de justiça, retidão e santidade. Os místicos da vida ativa compreendem que a atividade e o trabalho ao invés de significarem a interrupção da contemplação divina, pelo contrário lhe empresta peso e significado. Assim, a vida ativa seria o viver em Cristo, o viver Deus na realidade mais essencial e mais imediata de cada ser humano: a vida, o cotidiano.

Até mesmo as ordens monásticas testemunham da conexão inexorável de vida contemplativa e vida ativa que deve existir na vida do verdadeiro discípulo de Cristo. A  Lectio Divina ou leitura orante das Escrituras se apresenta como um ponto de convergência dos dois alicerces espirituais. Na escada mística da Lectio Divina, leitura, meditação, oração e contemplação devem conduzir-nos a uma resposta dupla: Quem sou eu? e “Qual o meu papel nesse drama da salvação divina que se chama mundo?”. Resumindo, o místico ao final de seu encontro unitivo com o Cristo vivo deve-se perguntar “O que devo fazer em resposta ao que ouvi?” A verdadeira contemplação deve afluir da graça divina e fluir na direção do mundo como um rio de amor e graça salvadoras. Encontro com Deus que não nos levar a amar nossos inimigos, a servir o próximo em amor e a ministrar pelo bem dos pecadores, é menos do que o proposto. O verdadeiro místico abraça o mundo pela ação, ao passo  em que se desapega do mesmo pela contemplação.

União com Deus e união com o mundo. Contemplação e ação. Desta forma “Ora et labora, permanece o lema daqueles que compreenderam ao longo dos séculos, que aquele que procura a Deus pelas noites escuras da alma, na subida do Carmelo e em meio ao palácio de cristal, acha também no decorrer da jornada, o mundo todo.

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