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VOCÊ JEJUA?

Ícone de São João Crisóstomo

Você jejua? Dê-me prova disto por suas obras.
Se você vê um homem pobre, tenha piedade dele.
Se você vê um amigo sendo honrado, não o inveje.
Não deixe que somente a sua boca jejue, mas também o olho e o ouvido e o pé e as mãos e todos os membros de nossos corpos.
Que as mãos jejuem, sendo livres de avareza.
Que os pés jejuem, cessando de correr atrás do pecado.
Que os olhos jejuem, disciplinando-os a não fitarem o que é pecaminoso.
Que os ouvidos jejuem, não ouvindo conversas más e fofocas.
Que a boca jejue de palavras vis e de criticismo injusto.
Porque, qual é o proveito se nos abstemos de aves e peixes, mas mordemos e devoramos os nossos irmãos?
Possa Aquele que veio ao mundo para salvar pecadores nos fortalecer para completarmos o jejum com humildade, tendo misericórdia de nós e nos salvando.

_____________________

São João Crisóstomo

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O tema da espiritualidade é algo em voga na vida cristã nestes últimos anos. Temos presenciado um verdadeiro “avivamento” deste assunto em nosso meio evangélico. São vários os motivos que podemos considerar como sendo os causadores desta corrida rumo às práticas espirituais antigas. E um deles, quem sabe um dos principais, é o cansaço que a religião institucional e o cristianismo dogmático têm causado na vida espiritual de inúmeras pessoas.

Algum tempo atrás li um livro cujo subtítulo dizia “Sou Cristão Apesar da Igreja”. Num primeiro momento, palavras como estas podem nos assustar, porém, começamos a entender a veracidade e profundidade desta frase, quando enxergamos os tesouros espirituais que a instituição igreja nos usurpou ao longo dos anos de história. Esta frase bombástica perde muito do seu poder de explosão, quando enxergamos o grande número de pessoas que tiveram suas vidas lançadas na aridez de um deserto de religiosidade, imposto pela igreja.

Dentre muitos dos tesouros usurpados, um dos mais valiosos foi a consciência de que Deus não tem limitações no que tange aos locais e as formas de se revelar a nós. Nos dias de hoje acredita-se que o local de se ter um encontro com Deus é entre as quatro paredes que nós erroneamente chamamos de igreja. Ou seja, para que alguém tenha um encontro com Deus, é imprescindível que se vá a uma “igreja” evangélica, seja qual dia for. Esta concepção rouba qualquer precedência de Deus se revelar fora das fronteiras de um templo. Despreza-se, então, o fato de que Deus é espírito (pneuma = sopro) e espírito, sendo substância energética incorpórea, não pode ser confinado em quaisquer tipo de estruturas humanas.

Dentro desta mesma linha, também perdeu-se de vista que Deus pode usar a quem ele desejar para se comunicar conosco: desde uma mula, até mesmo uma pessoa que não seja do mesmo credo que o nosso. O grande erro é que fomos ensinados que Deus só usa os cristãos evangélicos. E por causa deste paradigma infundado, acabamos por desperdiçar muito do conteúdo e da multiforme comunicação divina.

Existem outros que simplesmente rechaçaram a cultura, como se tudo o que o homem produzisse em termos de arte, fosse maligno. Para estes é como se a escultura, o teatro, a música etc., tivessem a assinatura de Satanás embaixo. Por causa desta posição equivocada, temos muitos cristãos vivendo uma vida bitolada e alienada à sua realidade, como se o fato de ouvir uma música secular, fosse sinal de carnalidade (claro, há músicas e músicas certamente…!).

Assim, a resposta para esta crise de aridez na vida cristã é o retorno a uma espiritualidade que emerge de nosso cotidiano; das coisas ordinárias do nosso dia-a-dia. De uma vez por todas, devemos nos desvencilhar, o mais rápido possível, desta falsa “espiritualidade de templo”, desta “espiritualidade evangélica exclusivista” e da “espiritualidade de alienação”, que há muito têm nos roubado todo o nosso viço espiritual.

Carecemos de uma espiritualidade que nos torne mais humanos. Um jeito de cultivar a vida com Deus que não nos afaste do nosso próximo e nem das coisas do cotidiano.

Precisamos resgatar a espiritualidade que surge dos milhares de pequenos momento de nossa vida. Temos que voltar a desfrutar do amor e da graça de Deus trazidos a nós no ordinário e efêmero. Precisamos reaprender a encontrar a Deus nas coisas simples da vida como uma refeição com amigos queridos, ou num jogo de futebol, para o nosso lazer, com aquela turma que tanto apreciamos.

Jamais poderemos ter uma espiritualidade que considera a Deus seriamente, mas que não leva em consideração, do mesmo modo, o pardal, a árvore, a chuva… A verdadeira espiritualidade é aquela que nos ajuda a resgatarmos a nossa humanidade, levando-nos a integração total do nosso relacionamento com Deus com a nossa vida no cotidiano: trabalho, família, igreja, engarrafamento de trânsito, pneu furado na Avenida Brasil, choro de criança na madrugada, noites mal dormidas . . . etc. e etc.

Também necessitamos de uma espiritualidade que nos faça olhar de uma forma diferente para cada ser humano, com mais reverência, e um pouco mais de respeito. Reconhecendo a dignidade desta criatura chamada homem, que apesar da distorção causada pelo pecado, possui o selo honroso da imagem e semelhança de seu Criador, estampado na alma. E que a apreciação da arte e da poesia que emergem de dentro delas, são oportunidades de um encontro com a semente eterna, a qual está plantada no coração de cada um. A verdadeira espiritualidade nos dará uma nova visão da vida! A verdadeira espiritualidade sacraliza a vida!

Que o caminho para fora da aridez do deserto, conquanto seja árduo, possa ser trilhado por cada um de nós. Tendo a certeza de que logo ali à frente, um oásis nos espera, afim de que possamos aquietar nossas almas e saciar toda a sede que temos de Deus, junto às águas frescas e cristalinas de uma espiritualidade que nos torne a cada dia mais humanos.

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SORRISO DE DEUS

Deus sorri. Isso já é uma grande coisa. Todavia, quando consideramos o fato de que Deus sorri para nós, ai já é algo maravilhoso.

“Que é o homem para que te lembres dele; e o filho do homem para que o visites?”, indagou o salmista.

Contudo, nos assombramos diante desta verdade: Deus sorri para nós. O sorriso de Deus é sua própria alegria a invadir nossa alma. É o primeiro raio de sol a rasgar as densas trevas da madrugada. É brisa a refrescar nosso corpo, castigado pelo calor do dia.

É agua fresca que sacia nossa sede. Alimento que aplaca nossa fome. É o amor que renova as esperanças em nossos corações fatigados.

O sorriso de Deus é o seu favor para conosco. É sua bondade inescrutável que se traduz em misericórdia e graça dispensadas a nós.

Muitos ao longo dos tempos experimentaram e têm experimentado o sorriso amoroso e compassivo do nosso Deus: Moisés na travessia do Mar Vermelho; Elias sendo sustentado pelos corvos; Jonas sobrevivendo no ventre de um peixe; Daniel na cova dos leões; Sadraque, Mesaque e Abede-Nego a passear em meio ao fogo da fornalha aquecida sete vezes como quem passeia em meio ás folhagens de um bosque florido; Paulo sobrevivendo á picada de uma cobra venenosa; a multidão alimentada por Jesus á partir de cinco pães e dois pexinhos. E tantos outros. Pessoas, como nós, que foram alvo do sorriso iluminado e iluminador do Totalmente Outro.

Mesmo assim, não são apenas situações como essas que nos descortinam o largo sorriso de Deus. A bem da verdade, pessoas que só esperam coisas assim, acabam por tornar para si mesmas o sorriso amoroso de Deus, algo de extrema raridade em suas vidas.

Não que Deus não sorria nestas proporções para nós. Porém, o que devemos ter em mente é que Deus está sempre sorrindo. Não é raro que ele sorria. É mais usual e mais comum do que imaginamos. O grande problema é a ausência de uma atitude de espera, expectativa e acolhimente, de nossa parte, a este sorriso de nosso amoroso Pai.

Deus sorri no dia-a-dia. Deus sorri para nós nas situações banais, comuns e simples do nosso cotidiano. Começamos, deveras, a enxergar o sorriso divino ao considerarmos que cada acontecimento, cada coisa, cada pessoa, cada vitória, cada realidade por mais efêmera que nos possa parecer, são frutos oriundos da graça, amor e misericórdias divinas. Mesmo aquilo que, num primeiro momento, a nosso ver, não nos pareça agradável.

Portanto, o que necessitamos fazer? Necessitamos limpar nossas lentes de toda sujeira do sensacionalismo, do espetacular, e acolhermos o Deus que misteriosamente nos visita no comum.

Tenho orado, pedido e buscado a Deus para que ele me conceda olhos simples que possam contemplar a simplicidade e discrição de Sua presença que me é oferecida constantemente por meios inesperados.

Portanto, por sua infinita misericórdia e bondade tenho podido ver e receber o sorriso de Deus na minha vida. Deus sorri pra mim…

Tenho visto o sorriso de Deus nos meus momentos de silêncio. Quando apaziguo a alma, cessando com seus ruídos e inquietações, posso ouvir a voz de Deus no meu centro.

Tenho recebido o sorriso de Deus quando me coloco diante de sua Palavra não como um teólogo, pronto para levantar questionamentos filosóficas, mas, com o coração receptivo, como um amante, um apaixonado que deseja ardentemente um encontro íntimo e pessoal com aquele que é o objeto de sua afeição.

Deus sorri pra mim quando estou em comunidade. No “estarmos juntos” com outros irmãos para a adoração, a comunhão, a contemplação. Quando percebo que não apenas creio, mas, que também pertenço, faço parte de uma família que me acolhe, encoraja e se coloca ao meu lado como companheiros de peregrinação.

Recebo o sorriso de Deus quando vejo um ato de caridade, afeto, solidariedade, compaixão e humanidade entre humanos. Constato que, afinal, algo da imagem divina permanece naqueles que são obra prima do Criador.

Deus sorri para mim nos momentos de família. Na companhia amorosa de minha esposa. No abraço apertado e cheio de afeto dos meus filhos. Nos nossos períodos de brincadeira (as partidas de PlayStation têm sido verdadeiros encontros com o Sagrado). Nos almoços suculentos com nossos queridos.

Tenho encontrado o sorriso de Deus em meio às boas gargalhadas com amigos. Onde posso ser eu mesmo sem neuras. Onde sou aceito como sou e estou.

Ainda tenho encontrado o sorriso de Deus: no desabrochar de uma flor em meio á uma manhã primaveril; no tom vermelho alaranjado de um pôr do sol; no sorriso sincero e despretensioso de uma criancinha; no poder furioso de uma tempestade; no ribombar do trovão; no canto matinal de um Bem-te-vi; no nascer do sol de cada manhã que me faz lembrar das misericórdias do Senhor que, uma vez mais, renovaram-se sobre este planeta de humanos pecadores.

Peço a Deus que desvende meus olhos para que aquilo que me é oferecido não passe desapercebido. Para que, estas sementes eternas não encontrando “solo” propício que as receba, acabem por perecer sem liberar toda a vida de Deus que nelas está contida.

Rogo a Deus que me ajude a enxergar a vida mais bonita. Menos ameaçadora. Mas bela na sua essência.

Cheia de vida e de mistério. Mundo embuído e transbordante de Presença. Vida que resplandeça o sorriso de Quem a criou para o louvor da Sua glória.

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Na sociedade em que vivemos nos dias de hoje, tempo assumiu o significado de benefícios. Depende de como o utilizamos. Portanto, nossas consciências emergem de uma cultura que sente aversão por filas. Daí temos a Internet através da qual podemos fazer movimentações financeiras sem desperdiçarmos momentos preciosos nas agências bancárias. Quando o assunto é comida, temos o Drive-Thru que nos possibilita, de dento de nossos próprios carros, comprarmos o lanche que desejamos.
Porém, para a infelicidade de alguns, não são todos os negócios em que se pode driblar as terríveis filas de espera. Não obstante, a tecnologia tem buscado amenizar os nossos momentos de angustiante espera. E uma das providências que se é utilizada para tanto, é aquilo que conhecemos como “código de barras”. Trata-se de um sistema eletrônico em forma de barras verticais que através de um “scaner” presente nos caixas é feita a leitura do produto e o seu preço. O código de barras do sorvete pode estar na ração de cachorros. E assim a ração de cachorros será sorvete, pelo menos para o scaner. Para ele o produto verdadeiro é o que menos interessa no momento.
Para a nossa surpresa, uma grande maioria de cristãos, têm vivido aquilo que podemos chamar de uma “fé de código de barras”. Neste tipo de fé, no entendimento de alguns, o próprio Deus passa com seu “scaner” sobre algo semelhante a um código de barras na vida do cristão , sem estar muito interessado no produto real. Este “código de barras” na vida do cristão, pode ser várias coisas: ser membro de uma igreja evangélica; dar o seu dízimo mensalmente; vir a igreja todos os domingos; cortar os cabelos a certa altura; usar determinados tipos de roupas etc. Porém, o produto real, ou seja, a vida que o cristão leva no seu dia-a-dia, o seu testemunho diante da sociedade, não é muito, ou quem sabe, nunca levado em consideração. Estes cristãos enganam-se ao imaginarem que estes “códigos de barras” são suficientes para que Deus se impressione, mesmo que isso signifique que no seu jeito de viver, aqueles que se dizem “nascidos de novo” não apresentem nenhuma diferença substancial em relação a vida que as outras pessoas, que não conhecem a Cristo, manifestam. Infelizmente, para muitos, ser verdadeiramente cristão, não tem nada a ver com o tipo de pessoa que você é. As conseqüências deste pensamento leviano e espúrio, têm sido desastrosas para a vida espiritual da igreja. Cientes deste fato, é que começamos a encontrar base para a resposta da pergunta que não quer calar: “Por que a igreja dos dias de hoje está tão fraca? Por que apesar de alardearmos um grande crescimento numérico, o impacto na sociedade tem sido tão pequeno? “
Querido(a) leitor(a), vida com Deus não é trilhada na base de um “código de barras”, mas sim por intermédio de um relacionamento de intimidade e interação com o Senhor Jesus. E, como poderia aquele que nos prepara para vivermos no céu, não nos preparar para vivermos aqui e agora na Sua bendita presença na Terra? Sim, amado(a) Deus está muito interessado no produto real, ou seja, no tipo de pessoa que você está se tornando, na forma como você tem vivido diante dele e dos homens.
A fé de “código de barras”, só serve para marcar um único tipo de produto: “RELIGIOSO”, cujo preço é infame ser mencionado aqui, e que não tem lugar no reino de Cristo e de Deus.
Devemos, o quanto antes, nos lembrar das palavras poderosas e cortantes de João Batista, a um certo grupo de sua época, adepto da “fé de código de barras”: “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que até destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão.”(Lc 3:8). A questão não são os nossos aparatos religiosos (ser filho de Abraão), mas sim o tipo de vida que devemos viver (frutos dignos de arrependimento).
Desta forma, viveremos uma fé íntegra e verdadeira, não apoiada nas muletas religiosas de um “código de barras” qualquer. Mas uma fé que exprime a beleza do produto final que atesta, sem qualquer equívoco, através do viver, que somos filhos de um grandioso Deus.

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ENCONTROS COM O SAGRADO

Há momentos no decorrer de nossa existência em que nos parece que as antenas celestiais estão em plena sintonia com aquilo que é extraordinário. Captando as ondas da eternidade, levando-nos a contemplar um mundo maior do que o que vivemos no aqui e agora. É uma forte impressão de que existe algo a mais sob a superfície das coisas; uma espécie de intuição de que o que temos vivido não trata-se de tudo o que pode ser chamado de vida; um eco no nosso íntimo de que existe um nível de experiência que transcende as coisas no tempo e no espaço. E quando paramos para refletir percebemos um mundo ao nosso redor em oculto, onde aquilo que se vê, no fundo, não trata-se de tudo o que pode e deve ser enxergado.
Geralmente o extraordinário se esconde por detrás do ordinário. O infinito oculta-se sob o manto muita das vezes pouco atraente daquilo que é finito. São estes os momentos em que o que é sagrado nos é oferecido por meios naturalmente comuns: um arbusto queimando sem consumir-se; a rocha que serve de bebedouro em meio ao calor opressor do deserto; um por do sol que nos parece mais do que um simples fenômeno natural; o sorriso de uma criança que nos revela o sorriso cheio de compaixão de Alguém que nos ama incondicionalmente.
A bem da verdade, é que a vida está cheia destes momentos de percepção do Sagrado. Sagrado é tudo aquilo que é precioso para Deus. E quando nos é permitido perceber estas realidades, isso significa que tivemos um encontro com o próprio Deus, e nos unimos a Ele para admirarmos aquilo que lhe é aprazível.
Porém, quando consideramos este fato, começamos a perceber que tais momentos, infelizmente, são um tanto quanto raros em nossa caminhada espiritual. O sábio judeu Abraham Heschel afirmou:
“Há na vida de todo homem, momentos em que o véu que lhe cobre o horizonte é erguido, abrindo-lhe a visão da eternidade. Para alguns estes momentos são como estrelas cadentes, fugidias e despercebidas. Em outras pessoas eles ascendem uma luz que jamais se extingue.”
Em decorrência de nossa própria experiência particular, parece-nos que estas “outras pessoas” são melhores do que nós, ou se não, pelo menos especiais. Exatamente por nos parecerem privilegiadas em ter tais momentos divinos, sumamente raros aos demais mortais.
O que posso dizer é que estes mortais, como você e eu, são atenciosos e não se deixam levar pelas compulsões que esta sociedade nos impõe. São homens e mulheres comuns que, diminuindo seu ritmo de vida e, desobstruindo suas agendas, podem parar para observar e ouvir o que lhes é oferecido nos momentos de seu cotidiano. A este respeito Ken Gire afirma com discernimento: “Grande parte do que é sagrado permanece escondido atrás do ordinário, dos momentos cotidianos de nossa vida. Para enxergar o sagrado é necessário diminuir nosso ritmo de vida e refletir mais”. O grande problema é que não paramos, somos incapazes de estabelecer pausas em nossas agendas sempre abarrotadas de compromissos, para adentrarmos no silêncio e quietude recriadores dAquele que anela sussurrar sua doce voz aos nossos corações agitados. Acabamos por ficar escravos de nossa época hedonista que nos faz acreditar que dinheiro, prazer e poder é sinônimo de plena felicidade e de auto-realização humana. Pelo contrário, quanto mais nos submetemos a vivermos assim, mais abrimos mão de nossa humanidade e nos distanciamos do plano original de Deus para as nossas vidas. O plano de desfrutarmos uma existência imbuída de vida e significado.
Longe de mim ter a presunção de achar que não me enquadro, num momento ou noutro, nesta descrição que acabei de expor. Contudo, sou um lutador que, não satisfeito com que tenho, busca fugir da aridez desta existência superficial, rumo aos oásis de uma vida mais profunda e plena. E nesta batalha pela minha alma, Deus na sua infinita misericórdia, captou a minha atenção em alguns momentos, para que pudesse perceber o que me estava sendo oferecido, o que havia de celestial sob a superfície do terreno. Gostaria de compartilhar duas de minhas experiências como se segue. Nesta época eu ministrava perante o Senhor no distrito de Papucaia – cachoeiras de Macacu.

Noite de estrelas
Era uma noite quente de verão, quando de repente, nos vimos sem luz em nossa casa. O calor já começava a apertar e os mosquitos já iniciavam sua investida carnívora tentando sugar o que pudessem de nosso precioso sangue. Confesso que em circunstâncias como esta, pelo menos para mim, é um tanto quanto difícil permanecer com meus lábios santificados, sem que deles saia algum tipo de comentário crítico (curiosamente a Bíblia chama isso de murmuração). Decidi, portanto, sair de dentro de casa esperançoso de que do lado de fora, apesar dos mosquitos famintos, o clima estivesse mais fresco. E de fato o estava. Contudo, ao sair para a varanda, comecei a sentir que a razão de estar ali transcendia o desejo de um ambiente mais agradável. Percebi que Deus havia me levado para fora e quase que num impulso coercivo, fui levado a contemplar o céu daquela noite. Era de uma magnitude e esplendor que me é difícil de descrever. Ë o tipo de cena que as palavras são incapazes de traduzir. É algo para ser registrado no coração. Havia naquele céu uma quantidade e variedade de estrelas que mais se pareciam com diamantes expostos num mostruário de veludo negro. Naquele ponto eu estava dominado e anestesiado com tamanha glória que meus olhos presenciavam. Para mim, naquele momento, só existiam o céu estrelado e eu. Mais nada. Porém, apesar de tamanha beleza ímpar, pude perceber que havia algo além do que eu via. Foi então, que pude entender o que me era oferecido. Por ocasião da falta de luz, estrelas que sempre estiveram ali, mas que antes imperceptíveis aos meus olhos, agora eram-me reveladas em todo seu esplendor e majestade. Compreendi que fora necessário que todas aquelas luzes terrenas se ocultassem para que o brilho das estrelas ficasse evidente. Naquele momento de pausa e reflexão uma grande mensagem do alto me foi transmitida. A mensagem de que nesta vida existem mais realidades ocultas do que podemos imaginar. Que aquilo que podemos captar com os sentidos não é tudo o que nos é oferecido. Há um mundo de glória, riqueza e poder, cujos lampejos e ecos se estendem por toda a eternidade nos atingindo em cheio neste nosso mundo de aquis e agoras. O grande problema é que existem luzes a eclipsar o brilho singelo, mas não menos belo das gemas espirituais que a mão divina nos presenteia dia-a-dia. São preocupações desta vida, aflições, perturbações que roubam a nossa atenção, nos impedindo assim, de enxergarmos o que sempre esteve bem diante de nossos “olhos”. E em reverente silêncio pude adorar o Criador.

Vento Impetuoso
Uma tarde de domingo, se não me falha a memória. Só para variar mais uma tarde de forte calor, abafada, aqui na minha querida Papucaia. Neste lugar onde o Senhor me colocou para ministrar, experimentamos os extremos do clima. Quando faz calor é de fritar ovo no asfalto, mas quando é frio é frio mesmo, de rachar. Não havia nem uma leve brisa a soprar que pudesse trazer algum frescor a nossos corpos superaquecidos. Bem em frente de nossa casa existe um sítio o qual possui uma vasta vegetação: coqueiros, mangueiras, cajueiros, bananeiras etc. Não sei porque (depois o descobri) mas pus-me a olhar para aquele quadro natural diante de mim. Quando de repente um forte vento impetuoso soprou do nada, alterando por completo a inércia passiva do ambiente. Pareceu-me que a vegetação ganhara um tipo de vida que as permitiu bailarem como dançarinos no Teatro Municipal a apresentar o Quebra Nozes de Tchaikovsky. Árvores se envergavam, folhagens se entrecruzavam como se estivessem se dando as mãos para uma valsa celestial. Igualmente, de súbito, o vento parou e o quadro retornou ao seu estado original. Contudo, parei para ver e pude ouvir o que me era dito.
Percebi que a ação de Deus era semelhante àquela do vento na tarde abafada. Quando ele resolve agir as circunstâncias não permanecem as mesmas, tudo é alterado. E semelhantemente ao misterioso vento que do nada apareceu, e sem deixar pistas, foi-se embora, também não temos como dizer ou determinar a forma, a hora em que vai operar. Não é a toa que nas páginas do Novo testamento Deus é comparado ao vento que não se sabe de onde vem e nem para onde vai (Jo 3). Deus é soberano, e portanto, não pode ser confinado numa caixinha hermeticamente fechada de nossas tradições, costumes e dogmas religiosos. Ele é semelhante ao leão Aslam, das Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis, o qual não podia ser domesticado. Não obstante, era bondoso de coração. E assim é Deus, vento impetuoso, soberano no que diz respeito ao meio e momento de agir, contudo, é bom de coração. Extremamente bom, sem dúvidas!

Ansiando Por Mais Momentos Com o Sagrado
No mesmo instante em que escrevo estas palavras, oro para que Deus, em sua infinita misericórdia e graça, conceda-me mais experiências como as que relatei acima, em vista de as mesmas serem relativamente raras em minha caminhada cristã. Anseio em enxergar a sarça ardendo por causa da glória de Deus e, em reverente adoração tirar as sandálias dos pés ao invés de, displicentemente, me conformar em colher as amoras que se encontram caídas no chão.
Creio num mundo além do que os sentidos podem captar e que está à disposição de todos quantos tenham paixão suficiente para parar, observar, ver e ouvir o que está oculto por detrás do corriqueiro.
Não quero mais ser vítima do turbilhão de compromissos agendados que me dão a falsa impressão de ser bem sucedido nesta vida, enquanto, na realidade, estou abrindo mão de toda A Verdadeira Vida.
Desejo crescer, mergulhar mais profundamente, desejo transcender e alcançar níveis de vida mais plenos que permitam conectar-me com o mundo do ali e além. Preciso perceber a glória do invisível resplandecendo em todo o seu fulgor, refletida na imprevisibilidade do comum.
Isso é um dom, não uma peripécia intelectual. Na verdade pouco ou quase nada da razão é permitido adentrar neste mundo celestial de encantos. É terra santa, lugar sagrado, realidade de indelével fulgor que vai além de tempo e espaço. E eu quero tudo isso, e espero que você também o queira!
Novamente evoco as palavras sóbrias e cheias de clareza de Ken Gare, sábio mestre da vida interior de nossos dias:
“Mas também fez com que brotasse em mim uma determinação. De em ritmo mais lento, para enxergar as ocasiões em que tais momentos especiais se apresentam. De parar, respeitando-os. De responder a eles, para não passar pelos momentos especiais sem, de alguma forma, tocá-los, e ser tocados por eles. Deixei escapar muitos momentos especiais. Não quero perder mais nenhum deles. A vida é curta demais. E muito sagrada.”

Extremamente sagrada. Portanto, não quero, ao olhar para trás um dia, perceber que tudo não passou de casca!

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